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terça-feira, março 25, 2014

Teolinda Gersão, João Bigotte Chorão, Dulce Maria Cardoso e outros (fazedores de livros que tão boa companhia me fazem) e Sylvie Guillem, la Mademoiselle Non - 'Force Of Nature'. Ou um corpo que é a arte ao dispor da mulher que o possui. Ou uma bailarina e uma mulher admirável. [Luís Filipe Castro Mendes junta-se a nós e faz ele muito bem.]


Nos dois posts abaixo falo do ataque cerrado e traiçoeiro quee José Rodrigues dos Santos fez a José Sócrates durante o seu espaço usual de comentário semanal na RTP 1. Foi deselegante e não foi jornalismo o que ele fez, foi uma entrevista à má fila. Mas, ainda que involuntariamente, acabou por fazer um favor a Sócrates pois deu-lhe a oportunidade perfeita para que este pudesse defender-se de todos os ataques (grande parte injustos e irracionais) que lhe fazem.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito diferente.

*

Apetece-me falar de coisas de um outro mundo. Tenho aqui um post quase feito, que ontem tinha começado a escrever e que interrompi por causa do que acima referi, mas agora estou na dúvida. Apetece-me, antes, falar de livros.

Não sou dada a medos mas há alguns que tenho. De alguns não quero nem falar, tenho medo de atrair. De coisas más quero distância. Mas falo de um deles pois refere-se a algo de que já aqui falei mil vezes: tenho pavor a que alguma desgraça me aconteça e que me impeça de poder comprar livros.
Por vezes, sabendo da dificuldade em que vive grande parte das pessoas do meu país (ainda esta segunda feira se soube que uma em cada cinco pessoas vive no limiar da pobreza), tenho até vergonha de aqui confessar a facilidade com que compro livros.
Os livros hoje são um luxo. Cada livro custa cerca de 15 euros, senão mais. Comprar quatro ou cinco livros significa gastar entre 60 a 70 euros. Poderei então confessar aqui que comprei mais uns quantos? Não estarei a ser ostensiva perante quem tanto gostaria de poder comprar um ou dois e não tem como?
Se o for, peço que me desculpem.
Mas, apesar de agora não ter tempo para ler tudo o que tenho, assalta-me frequentemente este medo: e se, um dia, quiser ler um livro e não tiver dinheiro para o comprar? Se me faltarem os livros para ler? Sei que é um receio absurdo (acho que tenho livros para ler enquanto viver, mesmo que viva até aos 200 anos como conto viver) mas tenho este medo. Então tenho vontade de os ir amealhando para o caso de um dia precisar.

Ainda hoje. A minha mãe faz anos e eu já tinha comprado o último livro da Rita Ferro para lhe dar e tencionava que fosse o complemento de uma qualquer outra coisa. Contudo, disse-me que não quer mais nada, só livros. Quase me implora que não lhe ofereça mais écharpes, mais molduras, mais roupa, mais colares, que não precisa, que não quer, que já lhe falta espaço para guardar essas coisas. Só livros. Lá fui, então, à FNAC. Ia para comprar livros só para ela e na minha cabeça convencia-me a não olhar para nada que a ela não interessasse, ia mesmo decidida a não me deixar cair em tentação.

Mas qual quê...? Para além dos que comprei para ela, trouxe mais uma braçada deles para mim. Sempre a mesma coisa.

E agora aqui estou toda contente, espreitando-os, lendo aqui e ali, passando a mão pela capa, sentindo-lhes o cheiro.

Mostro-vos, então, os que comprei para mim.

Juntei na fotografia dois brasileiros (assinalados com *) que já aqui tinha mas que acho que não vos tinha mostrado ainda.


  • A noite roda de Alexandra Lucas Coelho - da Tinta da China
  • Tudo são histórias de amor de Dulce Maria Cardoso - da Tinta da China
  • Além da literatura de João Bigotte Chorão (que dedica o livro, que tem uma bela capa, a Maria José, sua mulher, e ao Pedro, o filho Pedro Mexia)  - da Quetzal
  • Resumo, a poesia em 2013 - da Documenta
  • * A cidade ilhada de Milton Hatoum - da Livros Cotovia
  • * Malagueta, Perus e Bacanaço de João Antônio - da Livros Cotovia
  • A Porta para a Liberdade de Pedro Prostes da Fonseca - da Matéria Prima
  • Passagens de Teolinda Gersão - da Sextante Editora


(fotografei-os em cima de um maple, com uma écharpe de cada lado - tento sempre encontrar uma forma bonita de os mostrar mas, com as pressas, acaba por ser vira o disco e toca o mesmo). 


A ver se um dia destes se proporciona ocasião para transcrever um pouco de cada para que vos possa dar ideia do que é. Do que já espreitei, estou desejando ler o livro de João Bigotte Chorão. Livros sobre livros ou escritores ou sobre as circunstâncias que envolvem a literatura atraem-me muito: é a decantação mais pura da vida.

Mas hoje, dado o adiantado da hora (e dado que amanhã me espera uma daquelas que requereria que eu antes estivesse uma semana num spa a ganhar forças para o embate que se adivinha), vou então completar o post sobre uma mulher pássaro.

*

Como forma de me abstrair de tudo o que é mediano ou medíocre, penso noutras coisas - no cheiro da maresia nestas noites junto ao rio, em que caminho cheia de frio; no voo livre das gaivotas que atravessam o Tejo; na sabedoria tranquila dos gatos indiferentes perante a beleza imensa de Lisboa. E imagino-me a voar ou a dançar.

Volta e meia penso que seria bom se pudesse elevar-me como a Sylvie Guillem. Tivesse eu pernas assim e braços longos como asas e, com a minha alma de pássaro livre que é irmã gémea da dela, voaria para bem alto, bem, bem alto.



Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo.



  Esperanças de um maior contentamento
na areia dos dias que se espraiam
Sylvie Guillem tem agora 49 anos. Na altura do documentário que abaixo vos mostro, tinha 48 e um corpo extraordinário: leve, flexível, voador. 

O seu sentido artístico é notável. 

E tem fibra, uma personalidade forte.

E é uma mulher comprometida com a realidade que a rodeia, sendo também uma convicta ambientalista.

Se estou a fazer o que os outros querem, estarei a viver a vida deles e não a minha, diz Sylvie.

De vez em quando volto a Sylvie como se fosse uma amiga da qual tenho saudades.

Gosto de a ver a dançar, gosto de a ver a ensaiar ou, simplesmente, a falar. Gosto de saber o que anda ela a fazer. 

Contra a mediania que tudo transforma em nulidade, as televisões inundadas de lixo, os jornais quase só divulgando banalidades ou ruínas, as pessoas desfiando ódios imaturos e irracionais, abençoada internet que traz até mim imagens que me levam a voar.

Vamos Sylvie, vamos voar, vamos conversar.








*

O primeiro poema é  '1. Incipit' - de 'Glosas à Esperança'. 

O segundo poema é 'A noite do mundo'.


Ambos fazem parte do fantástico 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes


*

Relembro: abaixo poderão ver um post escrito como reacção aos vibrantes comentários de alguns Leitores a quem muito agradeço e que escreveram, encalorados, acerca de Sócrates e Rodrigues dos Santos. Que este seja um espaço de partilha de opiniões é algo que me traz alegria. 


*

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 
Be happy!


domingo, julho 29, 2012

A lua que, aqui in heaven, aparece branca e suave quando o céu ainda está azul diurno; as minhas pedras que guardam este templo e os meus livros em férias


Para vos acompanhar na leitura do texto, música, por favor

Dead Combo e Camané - Ouvi o texto muito ao longe

*

Um sábado tranquilíssimo. Sono solto, calor, descanso, leituras, telefonemas, fotografias, culinária (dia de choquinhos cozidos com tinta para o almoço), pequenos passos em volta já que o repouso teve que voltar. É isto o lazer. O verão no campo. 



Hoje de tarde, a lua num céu límpido e, à direita, a minha grande e protectora azinheira


E há a lua que se desenha num céu límpido ainda a noite vem longe. A lua em quarto crescente, boa para nascerem crianças. Quando os meus filhos estavam para nascer eu olhava a lua e, de noite, quando estava lua cheia, levantava a roupa para que o luar os iluminasse, gostava de sentir o luar na minha barriga enorme. Nasceram também no verão, estava muito calor e eu estava muito feliz, adorei estar grávida, adorava senti-los dentro de mim. Durante muito tempo senti saudades desses movimentos largos de quando eles já eram grande e se ajeitavam dentro de mim. Ainda sinto, mas são umas saudades de uma realidade já longínqua. 

Para além desta lua branca, esboçada num céu muito azul, há também as cigarras, os pássaros vagarosos, as lagartixas que se escondem, e há as sombras sobre os muros, e o cheiro de um dia quente, e um cão que ladra lá bem ao longe. 

E há as minhas pedras que eu olho como se fossem habitantes deste local, habitantes com tantos direitos como eu, seres de outros tempos.



As minhas amadas pedras que saíram do interior da terra. Estão trabalhadas pelo tempo.
Olho-as como animais ou seres do início dos tempos, guardiãs deste lugar sagrado


Hoje, de tarde, resolvi juntar os livros que reservei para estas férias, os que ainda tenho para ler ou para completar ou consultar, colocá-los sobre uma pedra para vos mostrar. (E depois vou transcrever, ao acaso, uma pequena passagem de cada um, para vos transmitir um 'cheirinho').



As minhas leituras em férias, aqui sobre uma das grandes pedras assentes no chão cheio de folhas


Reparei que me esqueci de juntar o 'A menina é filha de quem?' da Rita Ferro mas talvez seja porque já o li ou, se não é por isso, que venha o Freud e explique.

Passo então a dizer quais são:


> 'Memória breve de Ferreira de Castro' de Papiniano Carlos, editora Húmus


E assim Zéquinha foi forçado a rumar para o interior da Amazónia.

Aqui no Seringal Paraíso, na margem do rio Madeira, consumiu a adolescência em duros trabalhos, miséria, imensa fome, abjecta escravidão. E ainda um medo medonho das flechas envenenadas, mortais, dos índios Parintintins.

Aqui passou, suportou, três anos que jamais esqueceria.

E regressou a Belém do Pará, onde foi empregado de armazém, colador de cartazes, moço de bordo num barco de cabotagem.

*

> 'A praia' de Cesare Pavese, editora Ulisseia, tradução do italiano por Ana Tomás


Mirei-o pelo canto do olho, com má vontade e curiosidade. Berti é daqueles que vão à escola porque os mandam e, quando falamos observam a nossa boca com olhos intumescidos e entediados. Naquele momento, nu e bronzeado, abraçava os joelhos e sorria, inquieto. Veio-me à cabeça a possibilidade de serem, porventura, estes os rapazes mais perspicazes.

*

> 'O retorno' de Dulce Maria Cardoso, editora Tinta da China


O avião é um bocadinho antes da meia-noite mas temos de ir mais cedo. O tio Zé vai levar-nos ao aeroporto. O pai vai lá ter depois. Depois de matar a Pirata e de deitar fogo à casa e aos camiões. Não acredito que o pai mate a Pirata. Também não acredito que o pai deite fogo à casa e aos camiões. Acho que ele diz isso para não pensarmos que eles se ficam a rir. Eles são os pretos.

*

> 'Caderno de memórias coloniais' de Isabela Figueiredo, editora Angelus Novus


Manuel deixou o seu coração em África. Também conheço quem lá tenha deixado dois automóveis ligeiros, um veículo todo-o-terreno, uma carrinha de carga, mais uma camioneta, duas vivendas, três machambas, bem como a conta no Banco Nacional Ultramarino, já convertida em meticais.

Quem é que não foi deixando os seus múltiplos corações algures? Eu há muitos anos que o substituí pela aorta.

*

> 'A submissa' de Fiódor Dostoievski, editora Arbor Litterae, tradução do russo António Pescada


Sim, aquele rosto meigo tornava-se cada vez mais insolente. Acreditem, eu tornava-me repugnante para ela, isso estudei-o bem. Mas que ela tinha arrebatamentos que a faziam sair de si, disso não havia dúvida. Como era possível, por exemplo, saída de tanta lama e tanta miséria, depois de ter andado a lavar o chão, começar de súbito a troçar da nossa pobreza? Compreendam: não havia pobreza, havia economia, mas naquilo que era preciso até havia luxo, nas roupas por exemplo, na limpeza. Eu sempre pensei, mesmo antes, que a limpeza do homem seduzia a mulher.

*

> 'Crucifixion' da Phaidon



Craigie Aitchison, oil on canvas, 1997-8, private colection


The small dog which appears in this and many others crucifixions by Craigie Aitchison puts one in mind of Psalm 22, the opening words of which are quoted by Christ on the cross. The Psalm continues: ' Dogs have surrounded me; a band of evil men has encircled me, they have pierced my hands and my feet... they divide my garments among them and cast lots of my clothing'

*

> 'A Europa desencantada - para uma mitologia europeia' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva


Construir a Europa por irresistível pressão das forças económicas e uma lógica que é hoje planetária, como sonâmbulos, não é projecto que entusiasme ninguém. Uma utopia europeia assumida só é digna de ser vivida como Europa sobre a Europa, da ficção de si mesma que, consciente ou inconscientemente, tem condicionado o seu destino, contra a sua realidade. Em suma, do triunfo da sua sublime não-identidade sobre os fantasmas da sua alucinada identidade.

*

> 'Tempo da Música, Música do Tempo' de Eduardo Lourenço, editora Gradiva



Beethoven, 3ª Sinfonia, dir. Karajan


Karajan dirigindo a 3ª de Beethoven. Como se a orquestra executasse para ele, médium, foco absorvente das vagas da orquestra, e só seu invisível senhor.

Conduz de olhos fechados, como de cor, vivendo no sentido de Baudelaire a música que nasce simultaneamente dos seus dedos e dos músicos. Espectáculo prodigiosamente romântico como se Beethoven ressuscitasse. Sinfonia Heróica? Je veux bien. É de uma melancolia pavorosamente terna, viagem no labirinto da solitude de um ardente coração, o 2º movimento.

*

> 'Nova reunião, 23 livros de poesia' de Carlos Drummond de Andrade, edições BestBolso


                     O poeta
                     declina de toda responsabilidade
                     na marcha do mundo capitalista
                     e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
                     promete ajudar
                     a destruí-lo
                     como uma pedreira, uma floresta
                     um verme

*

> 'O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor' de Ruy Belo, editora Assírio & Alvim


                      És e renasces como a pura linha do amanhecer
                      e como o sol primeiro és incandescente
                      rosado de repente e logo a pouco
                      e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
                      até à amarela gema de ovo que é o sol ao pôr-se
                      Quanto eu não dava deus por sempre te ouvir rir
                      riso tão fresco como tilintar de loiça
                      Não confies em mim mulher mas desconfio haver de amar-te
                      até ao fim do mundo

*

> 'Amor livre e outras histórias' de Ali Smith, editora Quetzal, tradução de Helder Moura Pereira


Quando estivemos juntas da primeira vez passávamos a vida a ter sexo. A única coisa de que me lembro em relação a esse tempo é que tínhamos sexo, lembro-me como uma névoa de onde ocasionalmente os pormenores emergem com tal precisão que se transformam em farpas, uma névoa de nós duas na cama ou de mim a encostar-me a ti contra o irradiador ou a correr os cortinados da sala da frente ao meio-dia e a voltar para o sofá, tu recostada nele a abrires a camisa, eu a desapertar os botões dos teus jeans da Chelsea Girl. 


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Agora, que estou a acabar de escrever, são quase 3 da manhã e o vento entra pela chaminé da salamandra, fazendo com que a sua porta de ferro bata conforme lá fora ele sopra. Estou ainda a ouvir Beethoven e o som do vento nas árvores e o da porta da salamandra, misturam-se com os acordes da música. Gosto, fica um som agradável, são os sons da minha casa nesta noite ventosa de verão.

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Isto saíu longo (espero que não tenha muitas gralhas porque, dado o adiantado da hora, já não me apetece reler uma coisa tão comprida) e só por despudor vos posso ainda convidar a fazer uma visita ao meu Ginjal e Lisboa. Há algum tempo que o não actualizava. Hoje as minhas palavras movem-se saudosas em torno de um poema de carlos Drummond de Andrade e ao som de Jordi Savall. Se ainda estiverem para me aturar mais um pouco, gostaria de vos ter também por lá.

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E, com isto, daqui a nada é uma bela manhã de domingo.
Espero que seja um bom dia para vocês!