Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Hieronymus Bosh. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hieronymus Bosh. Mostrar todas as mensagens

domingo, maio 17, 2015

Noite dos Museus em Lisboa - Obras marcantes [2º de 5 posts]


Este é o papel singular da alegria 
a lei errante do país 
é o maior dos silêncios. 

Caminhei por entre rios pontos de água 
estações de novembro 
pequena razão dos ventos da manhã. 




Não trafiquei não porque seja forte 
mas porque falo da alegria do estar sobre vós 
nestes pontos de água 
na acidez da flor 
neste país frequentado 

algumas coisas nunca mudarão. O rigor 
da luz torna invulnerável o desejo de perder 
esta pressa de verão. 




Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã 
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta 
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello 
longínquos. 




(Profanamos a casa não o corpo 
esta forma desenhada ruga a ruga 
esta cor amarela sobre a praia.) 



------

A primeira fotografia mostra, no Museu de Arte Antiga, os Painéis de S. Vicente de Fora de Nuno Gonçalves.

As duas seguintes mostram, no mesmo museu, partes de Tentações de Santo Antão do pintor holandês Hieronymus Bosch

O poema é Este é o Papel Singular da Alegria de João Miguel Fernandes Jorge

Lang Lang interpreta Serenade de Schubert

....

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Sobre a falta de sensibilidade como uma patologia. E, do Expresso deste sábado, a palavra a Miguel Sousa Tavares, Manuela Ferreira Leite, João Duque, Paul de Grawe: o estado da Nação. As 'figurinhas deprimentes' de Hieronymus Bosch acompanham-nos.


No filme Barbara  - que, em grande parte decorre num hospital (não para mostrar o desenrolar do seu dia a dia mas porque é o cenário no qual o relacionamento entre os dois personagens principais vai evoluindo) - há uma altura em que dá entrada um jovem que tinha tentado o suicídio, tendo sofrido um traumatismo craniano.

Os médicos hesitam relativamente à necessidade de operá-lo mas resolvem esperar para ver como evolui o seu estado. Quando o jovem desperta e recupera a consciência, descansam. Recuperou a memória, responde a perguntas, tem uma fala clara e lógica. No entanto, qualquer coisa nele preocupa Andre, o médico.

Na noite em que fica de serviço, Barbara apercebe-se, então, que o que se passa é que o jovem perdeu as emoções. Vai a correr à procura de Andre e decidem, então, operá-lo.

Nos seus livros, António Damásio descreve casos assim. Na sequência de lesões cerebrais acontece que o raciocínio fique intacto mas que os acidentados fiquem destituídos da capacidade de se emocionar.

Pergunto-me se isso não teria acontecido a Passos Coelho. Alguns podem achar que ele é normal. Eu tenho dúvidas.

Perante o descalabro absoluto que se constata no estado económico, financeiro e social do país, Passos Coelho reage impassivelmente: que isto é quase aquilo de que se estava à espera, que tem que ser, que de outra forma não se atingiria o reino dos céus, ou seja, não se ficaria nas boas graças dos novos-deuses, os mercados, mas que, se as coisas continuarem assim, se calhar vai ter que rever as previsões.

Fico perplexa com isto.

É a mesma coisa que uma pessoa embarcar numa viagem a quem o guia prometeu lagos, planícies, searas ondulando ao vento e, ao fim de pouco tempo, ver que se meteu em túneis assustadores, precipícios, desfiladeiros sem protecção, gente a despenhar-se por ali abaixo, gente a soçobrar sedenta, esfomeada, esfacelada, uma coisa tenebrosa - e, perante a aflição a que se assiste, o guia dizer, tranquilamente, que já estava a contar mais ou menos com isto e que, se calhar, vai mudar um pouco a descrição do percurso. Ou seja, o guia em vez de reconhecer que se enganou redondamente e arrepiar caminho, persiste em continuar por ali fora. E as pessoas, indefesas, percebem que estão nas mãos dum sujeito pouco inteligente, inexperiente mas, pior que isso, perigoso, insensível, frio.

////\\\\

Sobre o estado do País, pego do Expresso deste sábado, dia 16 de Fevereiro de 2013, e transcrevo alguns parágrafos de alguns artigos.




Um pouco de história, para recuarmos ao momento antes do advento de Passos Coelho.

Escreve Miguel Sousa Tavares


O primeiro governo Sócrates foi o único, em muitos anos, que conseguiu reduzir o défice das contas públicas e com crescimento económico, embora anémico.

O que o derrotou, depois, foi o efeito avassalador da crise nascida nos Estados Unidos e ter seguido à risca as orientações iniciais de Bruxelas de que o momento era de gastar sem olhar a quanto gastar para evitar que a crise financeira degenerasse em crise económica - o que veio a acontecer quando Bruxelas mudou radicalmente a sua abordagem à crise e começou a exigir contas públicas equilibradas.

Aí, sim, Sócrates e Teixeira dos Santos entraram em deriva e cederam ao pânico instalado na Europa - de que a trágica decisão de acorrer ao BPP e ao BPN foi o passo decisivo para o cadafalso.





Escreve Manuela Ferreira Leite sobre o tão falado corte de 4 mil milhões de euros e repare-se no tom amargamente irónico


Efectivamente, não se conhece o fundamento do seu cálculo, nem os critérios que conduziram àquele valor.

(sobre o corte dos 4 mil milhões) É também olimpicamente indiferente aos seus efeitos sociais, porque já antes deste, muitos outros '4 mil milhões' avançaram e agora é apenas mais um, esquecendo a diferença entre a dor quando se ataca a carne ou se atinge o osso.

O pior que pode acontecer é não nascer ou emigrar, o que, nos tempos que correm, é um bom auspício.




Diz João Duque,  presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão e antes indefectível de PPC


A ser conduzida como está, a política monetária europeia condena-nos à morte sem esperança e em regime de trabalhos forçados.




Volto a Miguel Sousa Tavares


Por mais sacrifícios que se façam, se as nossas empresas não conseguem sobreviver é porque o Estado português, nos dias bons, consegue financiar-se a 5% e as nossas empresas a juro algum, enquanto o Estado federal e as empresas alemãs se financiam a 0,5%. Assim, é fácil dar lições de austeridade aos PIGS e dizer aos gregos que vendam as ilhas.




Diz Paul de Grawe, Professor da universidade Católica de Lovaina,


A maior ameaça para a zona euro hoje em dia não advém da instabilidade financeira mas da potencial instabilidade social e política resultante da depressão económica para a qual foram empurrados os países da Europa do Sul e da qual resultam níveis de desemprego nunca vistos desde o tempo da Grande Depressão. Em certos países do sul da zona euro a taxa de desemprego está hoje bem acima dos 20%. O desenvolvimento mais dramático é o aumento do desemprego juvenil que está na Grécia e Espanha acima dos 50% e em torno dos 30-40% em Itália e Portugal.

Se a situação não for depressa revertida, pode levar a uma agitação social e política em sociedades que se tornaram incapazes de dar um futuro aos seus cidadãos mais jovens.




Volto uma vez mais a Miguel Sousa Tavares,


Alguma coisa de muito grave vai acontecer se continuarmos por este caminho e com um primeiro-ministro que, confrontado com os números da sua estratégia governativa, apenas tem para dizer que está preocupado mas que os números estão 'razoavelmente em linha com as previsões do Governo'. 

O país não aguenta isto muito mais tempo: ai não aguenta, não!


\\\\////

As imagens são excertos de quadros de  Hieronymus Bosch, pintor e gravador da Holanda dos séculos XV e XVI. O pecado, a tentação, as figuras inquietantes, o pesadelo, a insídia, aparecem representados nas suas pinturas e é delas que me lembro quando falo dos tempos que vivemos e, em particular, da governação aberrante de Passos Coelho.

(Claro que sei que há muita responsabilidade nisto tudo dos especuladores financeiros, da lógica alemã, dos burocratas europeus, etc, etc. - mas há muita, muita, muita responsabilidade que deve ser atribuída aos governantes incultos e ignorantes que passivamente aceitam que o país seja uma dormente coutada, desgraçando, pois, Portugal e os Portugueses)

\\\\////

Este já é aqui hoje o meu terceiro post. O seguinte é dedicado à sensibilidade de Miguel Relvas que hoje me apareceu aqui em casa, esgargalado, pescoço gordo, a falar-me sobre o que lhe tira o sono (como se eu acreditasse nalguma coisa que ele diz) e o terceiro é dedicado aos que lembram aos governantes que o Povo é quem mais ordena. Por isso, especialmente a uma certa pessoa que nunca se lembra de espreitar para ver se há mais algum post, eu sugiro que deslize por aí abaixo.

Talvez porque me dispersei um bocado com isto, ainda não é hoje que consigo responder aos comentários. É tarde, preciso mesmo de descansar, tenho muito sono e, ainda por cima, amanhã tenho que me levantar cedo. A ver se amanhã, apesar de chegar a casa bem tarde como sei que vou chegar, consigo retomar o meu ritmo normal. A todos aqueles que escreveram comentários (e que li, claro!!!!) as minhas sinceras desculpas.

\\\\////

Ainda antes de me ir: muito gostaria de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras abrem a janela para que um anjo trazido pelas palavras de Alice Vieira e com um incêndio no peito me venha visitar. A música está a cargo de um novo grande intérprete, desta vez, intérprete de violoncelo. A música é de Elger e o virtuoso intérprete é Yo-Yo Ma.

////\\\\

E tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 

sexta-feira, setembro 14, 2012

Passos Coelho e Paulo Portas, um desagradável casamento de fachada? Ou não? Dos dois, qual é o menos confiável? Que credibilidade tem ainda este Governo? Passos Coelho em entrevista na RTP 1 mostra que não aprendeu nada, que não percebeu nada e mostra que vai prosseguir na mesma senda e, se achar que são precisos mais sacrifícios, infligi-los-á, ora pois (e 'Bardamerda e caladinhos!' *). Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo diz que 'todos os poderosos deste país que lá puseram Passos Coelho, já perceberam que é um incompetente e já o abandonaram à sua sorte'. Face ao fim de ciclo que já se sente no ar, o que se vai passar? ... Avanço com algumas hipóteses.


Vi e ouvi Passos Coelho na entrevista concedida à RTP 1, agastado com a confrontação, a boca num esgar, aqueles olhinhos em viés que não revelam qualquer clarividência, contradizendo-se a torto e a direito face ao que anunciara em tempos eleitorais ou início de governação, revelando o amadorismo e a ligeireza com que encara todas as medidas, mostrando que, tudo o que faz, o faz em cima do joelho, mostrando que não é inteligente (e não me refiro apenas à inteligência racional, refiro-me também à inteligência emocional).




Tudo isto seria irrelevante se ele fosse estafeta numa empresa do Ângelo Correia. Mas, sendo Primeiro Ministro no meu País, é muito preocupante.

Aposta numa economia de salários baixos, não percebe as relações de causa e feito entre o que decide e as consequências que daí derivam, nem sequer percebe que a receita fiscal também é da responsabilidade do Governo - e nem acrescento muitos mais aspectos para tudo isto não ficar demasiado deprimente e  fastidioso de ler. Mas constatar como funciona a cabeça daquele homem é preocupante, é aflitivo. 

E voltou a mostrar que não sabe o mínimo dos mínimos a nível de aritmética. Diz ele que, uma vez que Belmiro de Azevedo vai baixar em 5 e tal por cento os custos de pessoal (por via da redução na TSU das empresas), pode baixar os preços, compensando assim o corte de 7% nos ordenados dos trabalhadores. Ouço isto e fico a pensar:  Passos Coelho ou é um demagogo encartado ou devia voltar ao ensino básico.




Conforme já aqui o disse, os custos de pessoal são uma pequena parcela nos custos totais das empresas. Na grande distribuição deve ser uma parcela pequena já que a principal parcela deve corresponder aos custos dos produtos em si. E há ainda outros custos como os das instalações, dos transportes, do marketing, etc. Mas, por simplificação, vou supor que a parcela correspondente aos custos com pessoal será da ordem dos 20%. Como a taxa da TSU das empresas baixa cerca de 5 e tal por cento, teremos (multiplicando os dois factores) um abaixamento de custos totais de cerca de 1 e picos por cento. Mesmo que Belmiro de Azevedo resolva baixar os preços em 1%, onde é que isso compensa os 7% que as pessoas recebem a menos?! Onde, senhores?!

E agora vem ainda dizer que este corte vai ser modelado, poupando quem ganhe salário mínimo e sobrecarregando mais quem mais ganhar. Ou seja, se em média vai cortar 7% e uns não pagam ou pagam menos, significa isto que, quem ganhar mais (quanto? acima de 1.000 ou 1.500€/mês), sofrerá um corte de quê? 10%? 14%? Inenarrável. Escandaloso. Impossível. E só não digo aqui um palavrão 'à maneira' porque, enfim, não sou mulher do norte. Mas é o que este indivíduo está a pedir. 

Não me vou alongar mais sobre a entrevista (estiveram bem, os entrevistadores), apenas referir que, pelo meio, Passos Coelho ainda arranjou maneira de entalar Paulo Portas perante o seu eleitorado.




Diz ele que obviamente todas estas medidas têm sido discutidas e trabalhadas com Paulo Portas, como não podia deixar de ser. Também acho. Seria desleal e esquisito se cometesse todos estes desmandos sem conseguir a cumplicidade do seu Ministro de Estado. Mas isto faz de Paulo Portas um de dois: ou é um banana a mando do Massamá Man, um banana que entra a defender uma coisa e sai de fininho a fazer tudo o que o outro quer, ou é um mentiroso que promete uma coisa aos seus eleitores e aos seus deputados e, no conforto dos gabinetes do Governo, faz exactamente o contrário.  


Mas hoje foi também o dia em que António José Seguro, formal, institucional, apareceu nas televisões a dizer que vai votar contra o Orçamento. Não é que eu estivesse à espera de muito mais mas, caraças!, aquele homem não consegue elevar um pouco mais a voz, transmitir um pouco de paixão? Mostrar que vai conseguir um governante todo-o-terreno? 

Mas ele é assim, paciência. Vai votar contra e fará muito bem. E se apresentar uma moção de censura também fará bem. Estamos a falar de serviços mínimos mas, enfim, ao menos isso.

*


Durante algum tempo, em público, falavam as vozes de quem, falando, tinha alguma coisa a perder. Os destemidos ou os malucos.

No entanto, a pouca vergonha foi tanta, o despautério foi de tal forma levado ao extremo que, aos poucos, uma a uma, as vozes dos que já não têm nada a perder, se fazem ouvir alto e bom som.

E a seguir falarão os que antes se acobardavam ou os que só falam quando o coro vai alto ou os que gostam de cavalgar a onda.

Desde há algum tempo que se vinha percebendo que esta gente que nos governa não representa nenhuma elite, nem a elite do saber, nem a da inteligência, nem a da nobreza de carácter. Começou a ser claro que esta gente se representa apenas a si própria ou, talvez,também investidores chineses, angolanos, ou os amigos da Ongoing ou outras organizações do género, talvez os amigos do Relvas.




Vítor Gaspar falhava todas as metas mas, usando linguagem hermética ou vagarosa, uns por não perceberem, outros por não terem paciência para acompanhar conversas em câmara lenta, foi passando despercebido. Era apenas um boneco fácil de imitar.

O Álvaro, coitado, andava sempre ao lado, e foi sendo ultrapassado pelo Relvas, pelo ministro clandestino Borges, por quem quer que fosse, até que desapareceu e as pessoas esqueceram-se dele. Era apenas um boneco fácil de parodiar.

O Crato revelava uma hipocrisia e um desconhecimento propício à balbúrdia mas, pela voz doce e pelo sorriso afável, foi sendo desculpabilizado especialmente pelo sector feminino da classe. Era apenas uma decepção que as professoras lamentavam, num suspiro.

O Portas apostou em andar longe da piolheira, fazendo-se passar por caixeiro viajante, sorriso espertalhão, verbo fácil e lá fora, onde sempre está, indo dizendo que, lá fora, não fala sobre o que se passa cá dentro. Ladino. Era apenas alguém de quem se fala quando a suspeição dos submarinos volta à ribalta.

E isto foi acontecendo, durante algum tempo, com todos os ministros a irem mostrando a sua incompetência mas ainda gozando da boa vontade dos portugueses. Apesar do descalabro evidente, as sondagens mostravam que o descrédito ainda não era total e ainda havia alguns, para além do inefável Carlos Abreu Amorim, que o defendiam.

O desemprego aumentando, o roubo descarado por parte do Governo aumentando, a dívida aumentando, e todos os dias mais impostos, e menos subsídios, e todos a ficarem mais pobres.  Mas tudo sendo tolerado, os portugueses são assim, míopes, macios – até ao dia em que se sentem ofendidos. Foi o que aconteceu. 




Até ao dia em que este Governo passou da conta. Até ao dia em que se soube que Relvas tinha feito a licenciatura através de um expediente que lhe permitiu obter um diploma fazendo 4 cadeiras, as quais nem tão pouco parece ter frequentado. Até ao dia em que foi público que já ninguém o respeitava e que foi vaiado em público, quase sendo impedido de prosseguir o discurso, com as televisões a mostrarem-no, sorriso amarelo e humilhado.

Sobretudo, até ao dia em que Passos apareceu a dizer que iam roubar 7% aos trabalhadores para darem 5 e tal aos patrões, indo o resto para os cofres do estado. Até aparecer na net uma fotografia de Passos, saído da conferência em que fez este anúncio, num espectáculo musical, a rir e a cantar ao lado da mulher, igualmente galhofeira.




Até ao dia em que escreveu no facebook a desculpar-se, feito fedelho parvo. Até ao dia em que, a seguir, apareceu o Gaspar a dizer que isso e mais uma subida de IRS e mais um corte nas reformas e mais despedimentos e mais não sei o quê.

Até ao dia em que a net foi inundada por gente a tratar Passos Coelho por cobardolas, reles, ordinário, merdolas, gatuno e outras expressões que me abstenho de transcrever. 




E aí percebeu-se que, de repente, todo o respeito também por ele se tinha esgotado. E aí percebeu-se que os seus dias como Primeiro Ministro estão a chegar ao fim.

Antes de ontem de tarde foi João Galamba (e que bela figura ele tem...!) que, num discurso inflamado, quase agarrou Vítor Gaspar pelos colarinhos, chamando-lhe irresponsável. E as televisões mostraram um jovem aguerrido, peito feito, a defender o povo - e um ministro fraco, desligado da realidade, fora de jogo.

E, de noite, foi Manuela Ferreira Leite que desmontou, trucidou, pisou e cuspiu em cima de toda a política económico-financeira-social deste Governo. Depois de tudo o que ela disse, sendo ex-líder do PSD, ex-ministra das Finanças, amiga pessoal do Presidente da República, nunca mais ninguém deste Governo vai ser ouvido com respeito. 

De manhã foi também Rui Machete, também ex-líder do PSD, que disse na TSF que as medidas são desproporcionadas e que o Governo tem que arrepiar caminho. À hora de almoço ouvi José Eduardo Martins, ex-deputado, ex membro de um anterior governo,  dizer que se fosse deputado e o Governo prosseguisse nesta senda, resignaria e que votar este Orçamento é para os deputados do PSD uma questão de consciência.

E as televisões de repente encheram-se de gente que mostra o mais profundo desprezo por este elenco governativo. Veja-se, por exemplo Jorge Rebelo de Almeida, da Conferação de Turismo e presidente do Grupo Vila Galé, durante o programa de José Gomes Ferreira, "Negócios da Semana", na SIC Notícias. Por favor, queiram ver o vídeo aqui e perceberão o asterisco que aparece no título.

E hoje, ao ouvir os debates que se seguiram à entrevista de Passos Coelho, alguns já falavam no passado. Este Governo já era.

As pessoas perguntam-se: o que acontecerá a seguir?




Já aqui o tenho dito: não acredito que este governo se aguente muito tempo. Pela lei natural da vida, espécimes incapazes têm dificuldade em sobreviver. 

Agora... e como é que cai?

Cá para mim,

1. Ou Paulo Portas ganha vergonha e, em nome do respeito que deve aos seus eleitores,  rompe a coligação,

2. ou os próprios deputados do PSD ameaçam chumbar o orçamento e Passos Coelho reconhece que não tem qualquer condição para prosseguir com a destruição do País, e demite-se,

3. ou todas as forças políticas e sociais em conjunto com a opinião pública e com a rua mostram que o Governo não tem quem o apoie

e Cavaco não tem como manter-se feito esfinge e parte para a acção.




E, uma vez o Governo demitido, o que fará Cavaco a seguir?

É até lapaliciano dizer mas acho que das duas, uma. Ou convoca eleições antecipadas ou forma um governo de união nacional que tenha o apoio de uma maioria estável. Penso que ele, na cabeça dele, se inclina para esta segunda hipótese: escolher figuras de mérito e experiência incontestável que mereçam acordo generalizado.

A hipótese de marcar eleições parece-me a mim que não seria muito oportuna neste meio tempo. Além disso, com uma destas, a liderança do PSD vai automaticamente à vida, pelo que o PSD teria que ir, internamente, a votos. Por outro lado, é sabido que António José Seguro está longe de ser consensual dentro do PS. Quanto ao CDS, se Paulo Portas não sair do Governo pelo seu próprio pé, dificilmente se aguentará como líder do CDS.

Não me refiro ao PCP e ao BE pois, nos tempos que correm, não são partidos de poder. O BE, para além disso, também está a atravessar um período de mudança de liderança. 

Ou seja, penso que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, preferirão que alguém tome conta do pedaço até que tenham tempo para se reorganizarem e aparecerem com caras novas numas próximas eleições, talvez no fim do contrato com a troika.

Seja. Não é difícil governar melhor do que este Governo o faz.

Quem sabe se a mudança para outros tempos, melhores tempos, não está a chegar?


*

Quero ainda deixar uma palavra sobre a manifestação de dia 15. Trata-se de uma manifestação convocada sob o lema ‘Que se lixe a troika’. Ora parece-me um tiro ao lado. Não há, de momento, hipótese de viver sem apoio externo. O acordo deverá ser revisto, isso sim, e a troika não iria contra isso. Mas a troika também já deixou bem claro que as políticas para se atingirem as metas são da responsabilidade do Governo. O que está mal neste País é a governação a que temos estado sujeitos, uma governação má em tudo, até no facto de não ser capaz de negociar com a troika, coisa que é imprecindível fazer. Quem tem que ser corrido é este Governo, não a troika (pelo menos, não já).

Por isso, hesito na minha participação. É certo que provavelmente ninguém atenta bem ao lema e as pessoas irão manifestar-se contra o actual estado de coisas e não, em particular, contra a troika. Mas eu sou dada a rigores e custa-me alinhar numa manifestação cujas palavras de ordem talvez não mereçam o meu total acordo. No entanto, penso que seria importante que as ruas ficassem cheias para mostrar o desagrado geral. E é isso que me faz balançar. Tenho ainda que pensar bem no que farei.

*

As pinturas são excertos de quadros de Hieronymus Bosh, pintor holandês (1450-1516).

A fotografia (que circula na net e cuja autoria desconheço) mostra o Primeiro Ministro feliz da vida depois de anunciar o corte de 7% aos rendimentos de trabalho.

*

Para quem se interesse pelos destinos do País e ainda o não tenha lido, permito-me recomendar a leitura do texto de um Leitor de Um Jeito Manso, J., já aqui abaixo. É um texto deveras interessante.

*

E é isto, meus Caros. Desejo-vos uma sexta feira muito feliz.

terça-feira, agosto 07, 2012

Museu de Arte Antiga em Lisboa - um lugar privilegiado que merece ser visitado uma e outra e outra e outra e sempre mais uma outra vez


Música, por favor, para vos acompanhar


"Oh! Quand je dors", Liszt - Teresa Cardoso Menezes (soprano) and Andreia Marques (harpa) 



No Expresso do sábado passado, havia um apontamento sobre um passeio de Maria José Morgado por Lisboa que incluía uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Isso fez-me lembrar que, durante alguns anos, muitos e bons, trabalhei mesmo junto ao Tejo e que, à hora de almoço, um dos meus locais preferidos era o restaurante e o jardim do Museu de Arte Antiga, museu de que gosto particularmente.




Tentações de Sto Antão - de tudo o que se pode ver no MNAA esta é, de longe, a obra de que eu mais gosto
Jheronymus Bosch (Hertogenbosch, 1450/60-1516)
Assinado (canto inferior esquerdo do painel central)
c.1500
Óleo sobre madeira de carvalho


Como já muitas vezes aqui o referi, a arte de que mais gosto é a arte abstracta, quanto mais abstracta mais eu gosto. Acho que é (demasiado) fácil retratar. Difícil é abstrairmo-nos do que conhecemos, tal e qual vemos, e conseguir conceber imagens, figuras, objectos que não são meras representações da realidade. Por isso me emociono muito mais com as manchas cromáticas de Rothko do que com as representações quase fotográficas de tantos pintores. Por isso, de tudo o que de tão belo se pode ver no MNAA, é das Tentações de Sto. Antão que eu mais gosto. Há ali um fantástico rasgo, uma loucura visionária, um desprendimento da moral e costumes da época; e, portanto, pela intemporalidade, esta é uma obra que atravessará todos os tempos mantendo-se, sempre, uma obra moderna.

De resto, gosto muito do MNAA não tanto pelo tipo de arte exposta mas pelo museu em si, pela arquitectura do espaço (um espaço que é um lugar de contemplação e de meditação, um lugar de serenidade), pela distribuição das obras pelo espaço, pelas cores quentes, pela forma harmoniosa como as peças se integram no conjunto - e como nos convocam.



.                                                                                                                          .  


Gosto de me passear pelas salas e de olhar as obras, nomeadamente as pinturas, embora, como disse, não seja o tipo de arte que mais cativa a minha atenção. Olho e é como se olhasse com indiferença mas, sem que eu perceba, gosto de lá voltar uma e outra e outra vez. Deve ser o meu lado difícil, gosto que me seduzam persistentemente e gosto de me armar em esquisita até que, finalmente, caio rendida, perdida.



.                                                                                                                         . 


Não tem conta o número de vezes que já lá fui. Quando os meus filhos eram pequenos (até entrarem na adolescência, isto é, até à idade em que começaram a recusar-se a ir a este museu e a outros que tais), arrastávamo-los connosco e, assim, foram lá muitas vezes. Gostavam sobretudo de subir a escadaria e andar de sala em sala, mais na perspectiva de exploração do espaço do que de apreciar o exposto.

Na altura, achavam uma seca andar quase todos os fins de semana a visitar museus e exposições. Detestavam arte antiga, gozavam com a arte moderna. Tirando o Museu do Brinquedo e, no caso do meu filho, o da Marinha e o do Exército, e isto quando eram mesmo pequenos, tenho ideia que não iam de gosto a nenhum. Achavam também alguma graça ao Palácio de Queluz ou ao da Ajuda ou de ao de Sintra mas, como eram espaços grandes, ao fim de algum tempo já andavam completamente impacientes. À Gulbenkian também íamos quase todas as semanas pois, mesmo que fossemos primeiro a outros, era normal lá irmos almoçar e, claro, aproveitávamos para ver o que havia de novo.

No entanto, apesar de, na altura, protestarem consideravelmente, agora têm grande gosto por arte, visitam e apreciam bastante e têm uma mente aberta e um espírito crítico - e eu penso que, muito disso, se deve à desformatação mental a que foram sujeitos quando eram pequenos.

Mas, voltando ao MNAA, quando lá ia almoçar (e todas as semanas ia, pelo menos uma ou duas vezes), a maior parte das vezes não ia, obviamente, visitar o museu: ficava-me pelo restaurante, pela esplanada, pelo jardim.



.                                                                                                            .


O jardim é um jardim romântico, maravilhoso, e de lá tem-se uma luminosa vista sobre o Tejo, sobre os cais, sobre a outra banda. Almoçar ou lanchar ou simplesmente estar naquele jardim é das boas experiências desta vida. É um jardim abrigado, fresco, onde, querendo, se apanham bons banhos de sol enquanto se lê um livro, se namora, se conversa, se olha sem preocupação de ver. (Estou a escrever isto e já cheia de saudades de lá voltar).

Também já lá estive em eventos fechados, ou seja, eventos organizados por empresas que contratam o espaço do restaurante para encontros e o jardim para almoços volantes ou cocktails. É sempre uma maravilha pois o espaço cria, automaticamente, um ambiente de excepção.


Mas a minha ligação a este museu vai um pouco para além do que referi. A irmã de uma grande amiga minha e com quem eu, na altura, também me relacionava é historiadora de arte, pessoa com ligação a museus (e com filhos ligados, de várias formas, às artes); e, em especial, tinha uma colaboração regular com o MNAA. Uma das coisas que também fazia (tenho ideia que, por vezes, com o apoio de algum dos filhos) era desenhar jóias a partir de motivos pertencentes a obras expostas. Podia ser um pendente para um fio que reproduzia o desenho de um bordado de uma figura que integrava um certo quadro, podia ser um pregador que tinha o desenho de um pormenor de uma peça em prata exposta, etc. Muitas vezes, quando fazia as provas, levava-as e eu via-as e ela gostava de saber a minha opinião. Tenho várias peças dela em prata, peças que eram, depois, vendidas na loja do museu. Durante esses anos, eu geralmente usava gargantilhas ou fios com pendentes em prata branca ou dourada ou pregadores feitos por ela. 

Com ela aprendi a reconhecer nas obras os motivos que a inspiravam, com ela aprendi a ver com uma atenção especial tudo o que estava exposto. 



Custódia de Belém
Gil Vicente (ourives com actividade conhecida entre 1503 e 1517)




Com ela aprendi a não me deixar impressionar apenas pelo conjunto mas a reparar também em cada pequeno pormenor.

Cada pessoa tem a sua forma particular de reagir à arte. Há quem tenha uma abordagem académica, racional, sistemática. 



Painéis de S. Vicente
Atribuído a Nuno Gonçalves (activo 1450-antes de 1491) 

E há os que, como eu, se regem pela reacção quase sensorial, uma reacção emocional às coisas.

Gosto e não sei porque é que gosto, nem me interessa saber, nem sei nem me interessa descrever o que vejo porque não sei nem me interessa decompor o todo nas suas partes. O que registo é o conjunto, a cor, o movimento, a luz, é o qualquer coisa de indefinido - e é esta abordagem holística que eu, aos poucos, vou aprendendo a domesticar, tentando pixelizar o todo e analisar cada pequeno fragmento.



Tapete do século XVII.
Este é um dos tapetes que fiz mas, neste caso em particular, e é o único caso em que isso acontece,
com cores diferentes destas


Foi também lá, no MNAA, que me deixei tentar pelos motivos originais dos Tapetes de Arraiolos e, por isso, com excepção dos que faço à mão livre com desenhos que se vão formando enquanto bordo, todos os outros são desenhos originais do século XVII, alguns deles expostos no MNAA.

Para quem não conheça o Museu e não tenha possibilidade de vir conhecer, aqui deixo a ligação para uma visita virtual. Clique aqui e depois vá escolhento com a setinha o que quer ver e, uma vez lá estando, (ex: escultura portuguesa), use as setas laterais para ir vendo à volta o espaço em que está.

Finalmente uma referência à Loja do Museu. Nesses tempos em que lá ia assiduamente, ao ir para o restaurante ou para o jardim, passava inevitavelmente pela loja. Era uma tentação. Adquiri lá uma série de peças mas aquela de que mais gosto é a que vos mostro aqui abaixo.



Peça de madeira maciça, de razoável dimensão, pesadíssima
(andei à procura do certificado porque agora tive uma branca e não me lembro
qual a figura representada mas também não o encontrei.
Quando me lembrar ou encontrar o certificado, venho aqui e rectifico a legenda).

[À esquerda uma peça pela qual tenho particular carinho, oferecida quando nos casámos]


Resumindo: agora que é (para muitos) altura de férias e de dolce fare niente, se não souberem onde hão-de ir de passeio, se vos apetecer uma tarde bem passada, se vos apetecer o contacto com uma beleza intemporal que se entranha, com um silêncio que suaviza as almas, com uma cor envolvente e íntima, e com uma emoção tranquila, se vos apetecer elevar (ou aligeirar?) o espírito no ambiente de um museu muito especial, então não deixem de vir ao Museu Nacional de Arte Antiga.

Eu, de certezinha absoluta, lá irei, de novo, um dia destes. E sempre lá hei-de voltar uma e outra e outra e outra e outra e sempre ainda mais uma outra vez.

**

Amanhã é outra vez um dia de festa na minha família. Não tenho aqui referido todos os dias de celebração para não me tornar maçadora mas, como há tempos vos disse, por estes meses de Verão, é semana sim, semana sim e, pelo meio, por um ou outro motivo, os dias são quase sempre de festa e alegria também. 

E o que vos desejo a vós, meus Caros Leitores, é que tenham também um belo dia. Mesmo que sintam que não têm razões para festejar, por favor pensem que estar vivos é uma bênção. E, havendo saúde, a bênção é ainda maior. E se, em cima disso, houver trabalho ou o dinheiro da pensão ou do subsídio pago no fim do mês, melhor ainda. E se, em cima disso, houver família ou amigos (mesmo que apenas virtuais), melhor ainda. E, porque vivemos em paz, a bênção é ainda maior.

Cada dia merece ser vivido com agradecimento - é o que eu penso. E, por isso, muito sinceramente vos desejo, um dia bem vivido, sejam quais forem as vossas circunstâncias. Há que honrar a vida.

sexta-feira, maio 04, 2012

De que serve um Estado se nele há cada vez mais mulheres que arrancam do seu ventre as crias antes de se tornarem gente? De que serve um Estado se nele as pessoas morrem mais de mágoa do que de acidentes de viação?


Música, por favor


Chopin - Nocturno nº8, interpretado por Maurizio Pollini



Frida Kahlo - O abraço amoroso entre o Universo, a Terra, eu,  o Diego e o Señor Xólotl


Nenhuma sociedade é perfeita e sempre haverá pessoas que, por circunstâncias diversas, são levadas a praticar actos limite. Não haverá nunca sociedades em que nenhuma mulher aborte voluntariamente ou em que nenhuma pessoa se suicide. Distúrbios, desenlaces trágicos, infelicidades, sempre haverá.

Por isso, o que permite aferir a ‘saúde’ de uma sociedade não são os indicadores em valor absoluto observados num único momento mas, sim, a evolução das ocorrências em valor relativo (ou seja, se, de ano para ano, a percentagem da população em que acontece o fenómeno que se observa aumenta ou diminui).

Os grandes objectivos de quem é responsável pela gestão da ‘coisa’ pública devem ser, entre outros, garantir o avanço civilizacional, a melhoria das condições da população, a melhoria do bem estar das pessoas.

Uma sociedade em que as pessoas perdem direitos alcançados ao longo de gerações, em que o nível de confiança e segurança decresce, em que a renovação geracional regride, havendo cada vez mais velhos e menos novos, em que há cada vez menos trabalho, em que o número de interrupções voluntárias da gravidez (IGV) aumenta (especialmente entre a camada das mulheres desempregadas), em que o número de suicídios já é maior do que o número de mortes por acidente de viação – é uma sociedade que não está a ser bem gerida. É uma vergonha de sociedade. É uma vergonha para nós que nos habituámos a aceitar esta vergonha.


Hieronymus Bosch - parte de O jardim das Delícias

É escusado haver um Estado e um Governo se é para isto: para a maioria da população viver cada vez pior, com menos dignidade, sem esperança.

E só não escrevo isto completamente angustiada porque não sou muito de me dar a angústias mas, como será fácil de perceber, isto revolta-me.


Fui e continuo a ser convictamente a favor da despenalização da IGV.

Pablo Picasso - Maternidade

Se há traço dominante em mim é o da maternidade. Sempre quis ter filhos, tive-os muito cedo e só não tive muitos mais porque não tinha a vida nada facilitada; ter-me-ia sido quase impossível ter disponibilidade para criar mais filhos da forma condigna e dedicada que entendo como indispensável.

Ter dentro de mim duas células que, milagrosamente, se foram desdobrando uma e outra e outra e outra vez - e eu sentindo que havia um serzinho a tomar forma e, depois, já era uma pessoazinha que eu sentia dentro de mim, os seus movimentos, as suas cabriolices e, no fim desse período de nidificação, senti-los a sair de dentro de mim - é qualquer coisa de transcendente que eu, e nenhuma mãe, trocaria por nada deste mundo.

Quando se tem uma criança a formar-se dentro de nós, todas nós nos sentimos portadoras do mundo, do futuro, da esperança, da alegria. E preparamos com infinito desvelo a sua chegada e tudo fazemos para que esteja bem tratado, bem agasalhado, bem arranjado, muito acarinhado, tudo, tudo de melhor.

Pablo Picasso - Mãe e Filho


Mas se, por desconhecimento dos métodos de planeamento familiar ou desestruturação da vida, quando engravidei, eu estivesse sem trabalho, sem dinheiro para sustentar uma casa, se o pai da criança estivesse nas mesmas circunstâncias, se estivéssemos sem esperança de ter uma vida melhor, só antevendo, na melhor das hipóteses, trabalhos precários que não dariam para poder pagar casa, creche, leite, enfim, para poder proporcionar ao bebé uma vida condigna – talvez, então, no meio da maior angústia e desespero, eu arrancasse de mim esse embriãozinho de gente porque mãe que é mãe não quer que o seu filho ande ao deus-dará, com fome, com frio, com doenças.


Paula Rego - da série dedicada ao aborto

Por isso, respeito quem interrompe a gravidez e sinto-me incapaz de julgar quem, em momento de desespero, assim decide.

Quanto ao suicídio é uma situação igualmente complexa. Amo a vida, abençoo todos os dias o dom de estar viva, eu e todos os que amo. Amo a vida, a terra, o mar, o céu, as árvores, os animais, as palavras – e amo em especial as pessoas, prodigiosos acontecimentos da natureza.

Renée Magritte - Memória


Mas, talvez, se estivesse doente, a sofrer, sem meios de subsistência, sem capacidade para viver dignamente, sem haver organismos ou instituições que me pudessem valer e na contingência de ter que causar transtornos continuados a outros, nomeadamente, prejudicando a vida dos meus filhos, aí, não sei.


Ou seja, não consigo fazer juízes de valor em relação a decisões tão pessoais, tão íntimas, decisões tomadas sempre em momentos de aflição e desespero. Mas consigo, isso sim, desejar que deixem de existir as condições que levam a essas decisões angustiadas.

Por isso, também, digo que Estado que é Estado zela pela sua população, por toda a sua população, evitando que aumente o número de pessoas para quem viver ou dar vida se torna insustentável. Senão mais vale não existir.

E interrogo-me: o que se está a passar em Portugal e em outros países do dito mundo desenvolvido para que a população esteja a ser saqueada, empobrecida, violentada nos seus direitos, a perder a esperança, a perder a vontade de se reproduzir, a perder a capacidade de sonhar - e tudo isto aparentemente apenas para o Estado pagar juros (que nem a dívida se está a amortizar)?


Hieronymus Bosch - O inferno



Como chegámos aqui?

Que monstros criámos?

Que sociedade é esta?

------

Em momentos assim é mais difícil:
não dá para disfarçar o peso do mundo.
A angústia enrola-se na garganta como um agasalho usado,
e há toda uma vida (que pretensão!) a clamar por dentro
'porque me abandonaste?'


Em momentos assim é mais difícil
fingir que só se está a escrever um poema.

------

O poema acima chama-se Momento, é de Luís Filipe Castro Mendes e pertence ao livro Lendas da Índia.

E: por falar em poesia, hoje o poeta que está de visita o Ginjal e Lisboa, a love affair é Bernardo Pinto de Almeida. Em volta dele voaram as minhas palavras ao som de Puccini, hoje pela voz de Andrea Bocelli.

-------

Bom... hoje isto não me saíu muito animado (aquelas duas notícias, a do aumento dos suicídios e a do aumento de abortos entre as mulheres desempregadas, incomodaram-me muito). Mas não deixem que isto estrague o vosso dia. Animem-se, vá... Afinal já é sexta feira! Tenham um bom dia, está bem?


terça-feira, março 13, 2012

Vita Brevis - o mal pode estar dentro de nós ou à nossa espreita (com exemplos práticos: Paula Rego, Hieronymus Bosh, Edvard Munch e Renoir); e, para aligeirar, uma sugestão: que Nuno Crato, para a próxima, em vez de nos desiludir mais, nos surpreenda e imite Jacob Bovia


Música, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)

Rodrigo Leão - Vita Brevis


Falamos, arreliamo-nos, enfurecemo-nos, gritamos, insultamos, adiamos, negamo-nos, e sempre como se tivéssemos tempo para corrigir os erros, para viver melhor, para darmos largas aos nossos ensejos.

Mas quem nos garante que esse amanhã existirá?

Paula Rego - A dança


Às vezes vejo fotografias de festas, casamentos. Tantos familiares que lá aparecem saudáveis, felizes e que, algum tempo depois, desapareceram. Às vezes, posteriormente, descobria-se que nessa altura em que riam e festejavam e que julgavam estar resplandecentes de saúde, estavam afinal a alimentar, no seu interior, um monstro inclemente que se multiplicava em silêncio, disfarçado, alarve.

Hoje eu falava sobre uma nomeação pública que não percebia, tal como não tinha percebido a anterior demissão. Disseram-me: ‘tem um cancro e é dos mauzinhos’. 

(Não explica nada mas, enfim, tendemos, face a isto, a ser mais tolerantes.)

Depois há isto, 'dos mauzinhos', porque, nestas coisas de seres criminosos há diferenças. Há os maus que, se forem descobertos a tempo, são fáceis de vencer e há os outros, os que são mesmo maus, maus como as cobras. Mas a natureza é a mesma, bichos falsos que a fazem pela calada.

Tenho medo. É uma coisa que me mete muito medo.

Hieronymus Bosh - pequeno excerto de uma grande tela (aqui pretendo ilustrar o medo)


Já vi partir alguns que me eram próximos às mãos desta bicheza malvada. Pensa-se que se tem uma vida inteira pela frente e podemos correr o risco de, sem sentirmos nada, estarmos afinal a ser devorados por dentro, invadidos, dominados. Térmitas brancas, sonsas, dissimuladas, manhosas, infestantes. Claro que hoje, felizmente, grande parte destes animais tenebrosos que, em silêncio, tecem horríveis teias, já são, afinal, vencíveis e quem os vence sente-se, depois, vitorioso, feliz, renascido, mas, enquanto não se sabe que a guerra está ganha, que susto, que susto, que enorme coragem é necessária. Tenho, pois, uma sentida admiração por todos quantos têm essa força, essa coragem, essa esperança que os leva a enfrentar o mal e a vencê-lo.


Edvard Munch - O grito

Hoje também, quando ia para o trabalho, do outro lado da auto-estrada, uma confusão das antigas. Veículos parados, muita gente fora dos carros, ar aflito, muitos polícias, o trânsito, a seguir, todo parado ao longo de quilómetros. Entretanto, vinham a chegar ambulâncias do INEM e dois ou três carros de bombeiros, apitando, numa urgência, e ziguezagueando impacientes entre os carros parados .

Do lado que eu ia, o trânsito fluía sem dificuldade, gente que seguia normalmente para mais um dia de trabalho numa manhã de primavera, quase verão.

Separadas apenas por uma barra metálica, duas realidades tão diferentes. Eu e os outros que seguíamos no mesmo sentido, chegámos bem ao nosso destino; do outro lado, alguém que antes ia também descontraidamente para mais um dia igual aos outros, afinal, naquele momento, sofria na estrada - e tomara que fosse apenas um sofrimento passageiro. E, atrás, muitas centenas de pessoas, fechadas nos seus carros, pessoas que iriam chegar atrasadas, aborrecidas pelo contratempo e, sabemos lá nós, se, em alguns casos, esse atraso não ia também causar outros problemas.

/|\


É a precariedade do ‘normal’, do ‘estar-se bem’. É a aleatoriedade absoluta do ‘ser’. É o julgar-se que se está bem e que se é imortal e, no instante seguinte, constatar que se é pouco mais do que um ser vulnerável à espera de salvação.

Renoir

Por isso – mas talvez também porque geneticamente sou como sou – não consigo entregar-me a raivinhas, a rancores, a ressabiamentos, a pequenas invejas. Talvez também por isso, tenho muita dificuldade em perceber as pessoas que perdem tempo a congeminar ajustes de contas, pessoas que se consomem a remoer o que fizeram, o que deviam ter feito, o que gostariam de fazer, o que os outros fizeram. Nada disso me interessa. Para trás das costas o que é passado (especialmente o que não é declaradamente bom) e para a frente é que é caminho.

Também não posso compreender estratégias políticas que assentam em empobrecimento, desemprego, insegurança, medo. Não as compreendo (porque são estúpidas), nem as aceito (porque são desumanas).

Vita brevis, tempus fugit - que é como quem diz, a vida é curta, o tempo foge. Não a desperdicemos, não sejamos tão mal agradecidos quanto isso, dando-nos ao absurdo luxo de a desperdiçarmos, por um minuto que seja.

.-.-.-.

Se a música de Rodrigo Leão já acabou, então, música, de novo, por favor
(pf carreguem na setinha de play mais em baixo, à esquerda, para não saltarem para o Youtube)
Katie Melua - Blowing in the wind


E porque estes temas são pesados e eu não gosto muito de carregar com eles, voltemo-nos então agora para coisas levezinhas (ou melhor: parvinhas).

  • Como a daquele tipo, Jacob Bovia, 28 anos, bem apessoado por sinal, que foi preso por andar a mostrar o pénis às meninas da universidade no estado de Maryland. O engraçado é que não era o verdadeiro, era um pénis falso. Brincadeirinha, terá ele dito – mas olhem, foi dentro na mesma.
  • Como a do Nuno Crato que tinha, ao menos, a obrigação de saber fazer contas mas que, ao que parece, nem sabe ler, nem sequer sabe fazer os cálculos mais elementares pois distorceu completamente o relatório elaborado pela Inspecção Geral de Finanças (IGF) após auditoria à Parque Escolar. A ser verdade o que hoje se leu um pouco por todo o lado, parece que nada do que ele diz corresponde à verdade e, para os casos em que há desvios, eles são explicados essencialmente por razões que não têm que ver com a qualidade da gestão. Aliás, há tempo, pessoa conhecedora destas matérias já tinha comentado que o caderno de encargos exigia que se cumprissem regulamentos que foram feitos por alemães (... para obrigarem as empresas de todos os países a comprarem equipamentos alemães que são os únicos que estão conforme os ditos regulamentos; e assim se percebe porque foram gastos equipamentos dispendiosíssimos que poderão fazer sentido em países cujos climas inclementes podem justificar aquecimento a sério mas não entre nós).

Mas, para verem a resenha do relatório da IGF e se perceber do que se fala, convém ler o artigo do Daniel Oliveira publicado no Expresso Online.

Este Nuno Crato não pára de me desgostar, são umas atrás de outras, francamente.

> Nos EUA um tipo é preso por andar a fazer uma graçola e aqui um ministro pode fazer e dizer o que lhe apetece que nada de mal lhe acontece. Assim como assim, acho que preferiria que, na próxima, em vez de aparecer a deturpar a realidade, Nuno Crato nos aparecesse antes a pregar partidinhas, como por exemplo a mostrar-nos um dildo. 

Exibicionista - obtido no Jow Cartoons


Tinha mais graça e de certeza que com isso não corria o risco de atirar com muitos milhares de pessoas para o desemprego nem nos maçava com tão grosseiras faltas de rigor.

«/\»

[Hoje no Ginjal temos Helga Moreira, uma Senhora que é Física e Poeta, uma conjugação virtuosa. Acompanha, claro, com Clair de Lune, um Debussy vintage. ]

«v»

Tenham, meus caros, uma bela terça feira. Aproveitem-na bem e divirtam-se à grande.