Vi e ouvi Passos Coelho na entrevista concedida à RTP 1, agastado com a confrontação, a boca num esgar, aqueles olhinhos em viés que não revelam qualquer clarividência, contradizendo-se a torto e a direito face ao que anunciara em tempos eleitorais ou início de governação, revelando o amadorismo e a ligeireza com que encara todas as medidas, mostrando que, tudo o que faz, o faz em cima do joelho, mostrando que não é inteligente (e não me refiro apenas à inteligência racional, refiro-me também à inteligência emocional).
Tudo isto seria irrelevante se ele fosse estafeta numa empresa do Ângelo Correia. Mas, sendo Primeiro Ministro no meu País, é muito preocupante.
Aposta numa economia de salários baixos, não percebe as relações de causa e feito entre o que decide e as consequências que daí derivam, nem sequer percebe que a receita fiscal também é da responsabilidade do Governo - e nem acrescento muitos mais aspectos para tudo isto não ficar demasiado deprimente e fastidioso de ler. Mas constatar como funciona a cabeça daquele homem é preocupante, é aflitivo.
E voltou a mostrar que não sabe o mínimo dos mínimos a nível de aritmética. Diz ele que, uma vez que Belmiro de Azevedo vai baixar em 5 e tal por cento os custos de pessoal (por via da redução na TSU das empresas), pode baixar os preços, compensando assim o corte de 7% nos ordenados dos trabalhadores. Ouço isto e fico a pensar: Passos Coelho ou é um demagogo encartado ou devia voltar ao ensino básico.
Conforme já aqui o disse, os custos de pessoal são uma pequena parcela nos custos totais das empresas. Na grande distribuição deve ser uma parcela pequena já que a principal parcela deve corresponder aos custos dos produtos em si. E há ainda outros custos como os das instalações, dos transportes, do marketing, etc. Mas, por simplificação, vou supor que a parcela correspondente aos custos com pessoal será da ordem dos 20%. Como a taxa da TSU das empresas baixa cerca de 5 e tal por cento, teremos (multiplicando os dois factores) um abaixamento de custos totais de cerca de 1 e picos por cento. Mesmo que Belmiro de Azevedo resolva baixar os preços em 1%, onde é que isso compensa os 7% que as pessoas recebem a menos?! Onde, senhores?!
E agora vem ainda dizer que este corte vai ser modelado, poupando quem ganhe salário mínimo e sobrecarregando mais quem mais ganhar. Ou seja, se em média vai cortar 7% e uns não pagam ou pagam menos, significa isto que, quem ganhar mais (quanto? acima de 1.000 ou 1.500€/mês), sofrerá um corte de quê? 10%? 14%? Inenarrável. Escandaloso. Impossível. E só não digo aqui um palavrão 'à maneira' porque, enfim, não sou mulher do norte. Mas é o que este indivíduo está a pedir.
Não me vou alongar mais sobre a entrevista (estiveram bem, os entrevistadores), apenas referir que, pelo meio, Passos Coelho ainda arranjou maneira de entalar
Paulo Portas perante o seu eleitorado.
Diz ele que obviamente todas estas medidas têm sido discutidas e trabalhadas com Paulo Portas,
como não podia deixar de ser. Também acho. Seria desleal e esquisito se cometesse todos estes desmandos sem conseguir a cumplicidade do seu Ministro de Estado. Mas isto faz de Paulo Portas um de dois: ou é um banana a mando do Massamá Man, um banana que entra a defender uma coisa e sai de fininho a fazer tudo o que o outro quer, ou é um mentiroso que promete uma coisa aos seus eleitores e aos seus deputados e, no conforto dos gabinetes do Governo, faz exactamente o contrário.
Mas hoje foi também o dia em que António José Seguro, formal, institucional, apareceu nas televisões a dizer que vai votar contra o Orçamento. Não é que eu estivesse à espera de muito mais mas, caraças!, aquele homem não consegue elevar um pouco mais a voz, transmitir um pouco de paixão? Mostrar que vai conseguir um governante todo-o-terreno?
Mas ele é assim, paciência. Vai votar contra e fará muito bem. E se apresentar uma moção de censura também fará bem. Estamos a falar de serviços mínimos mas, enfim, ao menos isso.
Durante algum tempo, em público, falavam as vozes de quem, falando, tinha alguma coisa a perder. Os destemidos ou os malucos.
No entanto, a pouca vergonha foi tanta, o despautério foi de tal forma levado ao extremo que, aos poucos, uma a uma, as vozes dos que já não têm nada a perder, se fazem ouvir alto e bom som.
E a seguir falarão os que antes se acobardavam ou os que só falam quando o coro vai alto ou os que gostam de cavalgar a onda.
Desde há algum tempo que se vinha percebendo que esta gente que nos governa não representa nenhuma elite, nem a elite do saber, nem a da inteligência, nem a da nobreza de carácter. Começou a ser claro que esta gente se representa apenas a si própria ou, talvez,também investidores chineses, angolanos, ou os amigos da Ongoing ou outras organizações do género, talvez os amigos do Relvas.
Vítor Gaspar falhava todas as metas mas, usando linguagem hermética ou vagarosa, uns por não perceberem, outros por não terem paciência para acompanhar conversas em câmara lenta, foi passando despercebido. Era apenas um boneco fácil de imitar.
O Álvaro, coitado, andava sempre ao lado, e foi sendo ultrapassado pelo Relvas, pelo ministro clandestino Borges, por quem quer que fosse, até que desapareceu e as pessoas esqueceram-se dele. Era apenas um boneco fácil de parodiar.
O Crato revelava uma hipocrisia e um desconhecimento propício à balbúrdia mas, pela voz doce e pelo sorriso afável, foi sendo desculpabilizado especialmente pelo sector feminino da classe. Era apenas uma decepção que as professoras lamentavam, num suspiro.
O Portas apostou em andar longe da piolheira, fazendo-se passar por caixeiro viajante, sorriso espertalhão, verbo fácil e lá fora, onde sempre está, indo dizendo que, lá fora, não fala sobre o que se passa cá dentro. Ladino. Era apenas alguém de quem se fala quando a suspeição dos submarinos volta à ribalta.
E isto foi acontecendo, durante algum tempo, com todos os ministros a irem mostrando a sua incompetência mas ainda gozando da boa vontade dos portugueses. Apesar do descalabro evidente, as sondagens mostravam que o descrédito ainda não era total e ainda havia alguns, para além do inefável Carlos Abreu Amorim, que o defendiam.
O desemprego aumentando, o roubo descarado por parte do Governo aumentando, a dívida aumentando, e todos os dias mais impostos, e menos subsídios, e todos a ficarem mais pobres. Mas tudo sendo tolerado, os portugueses são assim, míopes, macios – até ao dia em que se sentem ofendidos. Foi o que aconteceu.
Até ao dia em que este Governo passou da conta. Até ao dia em que se soube que Relvas tinha feito a licenciatura através de um expediente que lhe permitiu obter um diploma fazendo 4 cadeiras, as quais nem tão pouco parece ter frequentado. Até ao dia em que foi público que já ninguém o respeitava e que foi vaiado em público, quase sendo impedido de prosseguir o discurso, com as televisões a mostrarem-no, sorriso amarelo e humilhado.
Sobretudo, até ao dia em que Passos apareceu a dizer que iam roubar 7% aos trabalhadores para darem 5 e tal aos patrões, indo o resto para os cofres do estado. Até aparecer na net uma fotografia de Passos, saído da conferência em que fez este anúncio, num espectáculo musical, a rir e a cantar ao lado da mulher, igualmente galhofeira.
Até ao dia em que escreveu no facebook a desculpar-se, feito fedelho parvo. Até ao dia em que, a seguir, apareceu o Gaspar a dizer que isso e mais uma subida de IRS e mais um corte nas reformas e mais despedimentos e mais não sei o quê.
Até ao dia em que a net foi inundada por gente a tratar Passos Coelho por cobardolas, reles, ordinário, merdolas, gatuno e outras expressões que me abstenho de transcrever.
E aí percebeu-se que, de repente, todo o respeito também por ele se tinha esgotado. E aí percebeu-se que os seus dias como Primeiro Ministro estão a chegar ao fim.
Antes de ontem de tarde foi
João Galamba (e que bela figura ele tem...!) que, num discurso inflamado, quase agarrou Vítor Gaspar pelos colarinhos, chamando-lhe irresponsável. E as televisões mostraram um jovem aguerrido, peito feito, a defender o povo - e um ministro fraco, desligado da realidade, fora de jogo.
E, de noite, foi Manuela Ferreira Leite que desmontou, trucidou, pisou e cuspiu em cima de toda a política económico-financeira-social deste Governo. Depois de tudo o que ela disse, sendo ex-líder do PSD, ex-ministra das Finanças, amiga pessoal do Presidente da República, nunca mais ninguém deste Governo vai ser ouvido com respeito.
De manhã foi também Rui Machete, também ex-líder do PSD, que disse na TSF que as medidas são desproporcionadas e que o Governo tem que arrepiar caminho. À hora de almoço ouvi José Eduardo Martins, ex-deputado, ex membro de um anterior governo, dizer que se fosse deputado e o Governo prosseguisse nesta senda, resignaria e que votar este Orçamento é para os deputados do PSD uma questão de consciência.
E as televisões de repente encheram-se de gente que mostra o mais profundo desprezo por este elenco governativo. Veja-se, por exemplo Jorge Rebelo de Almeida, da Conferação de Turismo e presidente do Grupo Vila Galé, durante o programa de José Gomes Ferreira, "Negócios da Semana", na SIC Notícias. Por favor, queiram ver o vídeo
aqui e perceberão o asterisco que aparece no título.
E hoje, ao ouvir os debates que se seguiram à entrevista de Passos Coelho, alguns já falavam no passado. Este Governo já era.
As pessoas perguntam-se: o que acontecerá a seguir?
Já aqui o tenho dito: não acredito que este governo se aguente muito tempo. Pela lei natural da vida, espécimes incapazes têm dificuldade em sobreviver.
Agora... e como é que cai?
Cá para mim,
1. Ou Paulo Portas ganha vergonha e, em nome do respeito que deve aos seus eleitores, rompe a coligação,
2. ou os próprios deputados do PSD ameaçam chumbar o orçamento e Passos Coelho reconhece que não tem qualquer condição para prosseguir com a destruição do País, e demite-se,
3. ou todas as forças políticas e sociais em conjunto com a opinião pública e com a rua mostram que o Governo não tem quem o apoie
e Cavaco não tem como manter-se feito esfinge e parte para a acção.
E, uma vez o Governo demitido, o que fará Cavaco a seguir?
É até lapaliciano dizer mas acho que das duas, uma. Ou convoca eleições antecipadas ou forma um governo de união nacional que tenha o apoio de uma maioria estável. Penso que ele, na cabeça dele, se inclina para esta segunda hipótese: escolher figuras de mérito e experiência incontestável que mereçam acordo generalizado.
A hipótese de marcar eleições parece-me a mim que não seria muito oportuna neste meio tempo. Além disso, com uma destas, a liderança do PSD vai automaticamente à vida, pelo que o PSD teria que ir, internamente, a votos. Por outro lado, é sabido que António José Seguro está longe de ser consensual dentro do PS. Quanto ao CDS, se Paulo Portas não sair do Governo pelo seu próprio pé, dificilmente se aguentará como líder do CDS.
Não me refiro ao PCP e ao BE pois, nos tempos que correm, não são partidos de poder. O BE, para além disso, também está a atravessar um período de mudança de liderança.
Ou seja, penso que todos os partidos, de uma maneira ou de outra, preferirão que alguém tome conta do pedaço até que tenham tempo para se reorganizarem e aparecerem com caras novas numas próximas eleições, talvez no fim do contrato com a troika.
Seja. Não é difícil governar melhor do que este Governo o faz.
Quem sabe se a mudança para outros tempos, melhores tempos, não está a chegar?
Quero ainda deixar uma palavra sobre a manifestação de dia 15. Trata-se de uma manifestação convocada sob o lema ‘Que se lixe a troika’. Ora parece-me um tiro ao lado. Não há, de momento, hipótese de viver sem apoio externo. O acordo deverá ser revisto, isso sim, e a troika não iria contra isso. Mas a troika também já deixou bem claro que as políticas para se atingirem as metas são da responsabilidade do Governo. O que está mal neste País é a governação a que temos estado sujeitos, uma governação má em tudo, até no facto de não ser capaz de negociar com a troika, coisa que é imprecindível fazer. Quem tem que ser corrido é este Governo, não a troika (pelo menos, não já).
Por isso, hesito na minha participação. É certo que provavelmente ninguém atenta bem ao lema e as pessoas irão manifestar-se contra o actual estado de coisas e não, em particular, contra a troika. Mas eu sou dada a rigores e custa-me alinhar numa manifestação cujas palavras de ordem talvez não mereçam o meu total acordo. No entanto, penso que seria importante que as ruas ficassem cheias para mostrar o desagrado geral. E é isso que me faz balançar. Tenho ainda que pensar bem no que farei.
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As pinturas são excertos de quadros de Hieronymus Bosh, pintor holandês (1450-1516).
A fotografia (que circula na net e cuja autoria desconheço) mostra o Primeiro Ministro feliz da vida depois de anunciar o corte de 7% aos rendimentos de trabalho.
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Para quem se interesse pelos destinos do País e ainda o não tenha lido, permito-me recomendar a leitura do texto de um Leitor de Um Jeito Manso, J., já
aqui abaixo. É um texto deveras interessante.
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E é isto, meus Caros. Desejo-vos uma sexta feira muito feliz.