Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta língua portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta língua portuguesa. Mostrar todas as mensagens

sábado, outubro 05, 2019

A mulher do meio largou as vírgulas da mão





A semana foi de tal ordem que ainda nem me parece que a semana esteja a acabar. De tarde caí em mim e pensei que uma sexta-feira tem que ser festejada e que talvez uma boa maneira fosse ir ao cinema. Falei ao meu marido. Vita & Virginia. Que não, que devia ser chato. Sugeri-lhe que podia ir para outra sala, ver outro filme. Perante essa perspectiva, que ele sabia ser impossível pois eu não lhe perdoaria se aceitasse a minha sugestão, acabou por aceder. Mas teríamos que sair a horas decentes para dar tempo a jantar antes. Mas os deuses protegem os corta-baratos pois vimo-nos ambos, cada um em seu lado da cidade, ensarilhados no trânsito. Portanto, ao telefone um com o outro, percebemos que cinema já era. Salvou-se de ver em filme a história que conhecemos dos livros. No entanto, acho que iria gostar. Eu iria. A ver se para a semana. Nisto, manda-me o meu filho uma sms a perguntar se não queríamos ir jantar com eles. Não sabíamos se conseguiríamos chegar a tempo, que avançassem que logo veríamos. Quando lá chegámos já lá estavam e já o bebé tinha virado meio prato de sopa com bocados de pão à mistura. 

Logo de início, o menino que sabe tudo de futebol estava entusiasmado, queria que eu visse uma coisa na televisão. Pensei que era alguma jogada espectacular. Mas não: 'Olha, olha agora, o António Costa a zangar-se com um senhor que disse uma mentira'. E era mesmo.

E eu e o meu marido dissemos que, ao fim de muitos dias de cansaço,  é natural que a uma pessoa lhe salte a tampa ao ver-se acusado de uma mentira. Nada de mais. Alguém quer ter governantes que sejam máquinas, indiferentes a calúnias e a acusações injustas e maledicentes? Eu não quero. E também me parece que uma sociedade de censores em que não se admite uma reacção humana aos políticos não será uma sociedade saudável. 
No carro já tinha ouvido 'o caso', mais um 'caso', bem como as reacções do Rio e da Cristas e de vários comentadores que de imediato tinham sido convocados para opinar. Já vinha saturada. Um homem chateia-se por ser acusado de uma coisa grave que não aconteceu -- e cai o carmo e a trindade. Não indignados com a mentira mas com a reacção. Não se aprende nada nestas alturas. Estas gentinhas que vivem de comentar o que os outros fazem e dizem só me parecem vizinhas coscuvilheiras, só acusações, só parvoíces polvilhadas por polígrafos e papagaiadas. Não há pachorra.
E eu, a esta hora, aqui chegada ao meu sofá acolhedor e silencioso, já não estou nem aí. 

Estou aqui a pensar é noutra coisa. Tenho um colega que é muito culto. Cultíssimo. Culto de uma forma invulgar. Junta a isso o ter uma memória como nunca vi. A meio de uma frase minha pode lembrar-se de um verso de um poema e di-lo na língua original. E se eu, desconfiada, à socapa, depois, for googlar, constato, espantada, que aquele verso existe mesmo, que o autor é mesmo aquele. Uma coisa que descrita parece mentira mas que é estranhamente verdadeira. Tenho alguns livros que ele me tem oferecido e são sempre invulgares e surpreendentes. Pois bem. No melhor pano cai a nódoa. Hoje, num mail que me enviou, mail que, como sempre estava muito bem escrito quer na forma quer no conteúdo, as ideias sempre muito bem sistematizadas e apresentadas, quase no fim, um erro ortográfico. Onde deveria estar 'podemos' estava 'pudemos'. Fiquei ali parada a olhar para aquela letra trocada. Doeu-me como uma nódoa. Pensei devolver-lhe o mail e pedir que o revisse e mo enviasse de novo sem o erro. Por pura ironia e por saber que ele perceberia o meu desconforto. Mas depois pensei. Temi que ficasse a sentir-se mal. Se fosse comigo, eu ficaria doente se enviasse um mail com um erro daqueles. Depois pensei em responder-lhe ao tema em questão e, no fim, como uma notinha insignificante, um alerta para o typing mistake. Mas depois não fiz nada disso. Para quê? Para quê ir aborrecê-lo? Quantas vezes já eu troquei letras, deixei restos de frases alteradas no meio das frases novas, quantas vezes mudei de ideia a meio da frase deixando a vírgula onde antes fazia sentido e depois deixou de fazer? Quantas vezes, ao reler o que escrevi, fico perplexa com os erros que encontro? Quantas vezes me auto-recrimino por publicar coisas sem antes as reler, sem antes as editar? E isto já para não falar no corrector automático que, às vezes, de sua lavra, escreve palavras que não queremos e que, se não damos por elas, seguem viagem mesmo assim.

E, depois, quem me diz que o meu sentido de rigor na escrita não está furado, ultrapassado, gatado?

Tanta preocupação que tenho de pôr as vírgulas no sítio em que a conversa inflecte ou que a respiração precisa de pausa e, afinal, na volta, a conversa pode fluir, refluir, estacar, voltar atrás, dar uma volta, abrir um parêntesis, gargalhar, chorar, tudo, sem precisão alguma de vírgulas. 

E não estou a falar de cor, não. Estou a falar porque constatei. Não foi a primeira vez, claro. Mas desta vez eu estava a ler o livro, a ler, a ler, e não dei por isso. Eu lia fazendo as pausas todas sem dar pela falta das vírgulas. Quando dei, voltei atrás para verificar se a ausência vinha desde a primeira página. E vinha. E não me tinham feito falta nenhuma.

Exemplifico.
38. Tenho desde há muito o hábito de em algumas noites acender uma vela dentro de um pequeno castiçal junto à janela. Penso que se verá da rua. Creio que os anjos de grandes asas pesadas se háo-de abeirar ainda que por pouco tempo do lugar onde eu moro. Sei que nada é mais terrível do que a perfeição de um anjo e por isso os espero assim. Perdidos nas rotas da chuva e com um cansaço quase humano no rasto que deixam.
214. A tristeza tem mil e uma formas de ser dita mas a alegria não tem história. Claro que isto já foi escrito e com mais eficácia mas hoje voltei a comprová-lo. Encontrei uma pessoa que me convidou para um café e pensei oh diabo tenho para umas duas horas. Mas não. Disse-me logo não vou maçá-la está tudo a correr bem não tenho nada para contar. Com efeito em meia hora bebemos um café e conversámos sobre platitudes. E eu pensei nos caprichos do acaso mas nada disse.
Não concordam comigo? Percebem a minha dúvida? Para quê incomodar as vírgulas, andar com elas em preparos, com rodeios e mesuras, em bolandas? Porque não deixá-las em paz? Não viveremos, afinal, bem sem elas?

Tenho que tentar. Mas não me vai ser fácil, ainda estou muito apegada às maganas.


Os excertos em itálico pertencem ao belo diário de Ivone Mendes da Silva, 'A mulher do meio'. 

A bela mulher retratada podia ser a Ivone mas não, é Ida Rubinstein

Abaixo, Alessandra Ferri dança enquanto Sting interpreta Bach, suite 1 para cello


Desejo-lhe um belo sábado. Tudo de bom para si.

sexta-feira, julho 26, 2019

Nota à Introdução





Dizer o quê? Que dos nomes da gramática retive o sujeito, o predicado e o complemento directo? Bem, o indirecto também. Já a voz activa e a passiva não sei se é coisa que encaixe na gramática ou se é outro ramo da matéria. Dividir em orações já nem me lembro do propósito. Lembro, sim, a charada das orações nos Lusíadas. Coisa para ser levada a sério tem que ter lógica, alguma matemática. Agora coisa que mais parece entretém de dondoca desocupada e que não dá para traduzir em teorema que se perceba, não pega. 

Escrever eu escrevia. Chegava à hora da redacção e eu via meia turma de cabeça no ar sem saber como pegar no título para com ele insuflar a página e já eu por ali fora, cheia de ideias, histórias a atropelarem-se para caberem todas na folha. Ler também. Muita leitura. Agora chegada à hora da gramática era uma contrariação. Sem o saber já era avessa a burocracia e aquilo era regrinha frouxa uma a seguir à outra. A minha mãe queria que eu prestasse atenção, não rejeitasse, tentasse dar importância. Qual quê.

Depois, quando os meninos foram para a escola e eu espreitava a matéria já aquilo tinha tudo mudado de nome. Os casos notáveis ou a forma de dar a volta às equações ainda estava tudo na mesma mas a gramática estava travestida, talvez para ver se tinha mais graça. Mas não. Inútil na mesma.

Agora, se calha ouvir os meninos dos meninos a falarem do assunto, é ainda pior: é língua estrangeira. Não se percebe nada mas, ao que me parece, permanece a inutilidade, a burocracia, um banho de desengraçamento em cima da beleza das palavras.

Dir-me-ão: é preciso ser muita bruta para escrever tamanha alarvidade. E estarão certos. Sou bruta mesmo. Primitiva. Podia viver nua nas cavernas, descer até ao rio e apanhar peixe à mão, subir às árvores para apanhar frutos e bagas, deitar-me na terra a ouvir o som dos bichos e ver os desenhos das nuvens. Ou podia viver num mosteiro, descalça, em silêncio, e, à hora da reza, à socapa, fugir para os claustros do mosteiro vizinho para ouvir os cânticos dos monges gregorianos e viris. 

Para quê a agramática? Para quê comezinhar a beleza singela da escrita, arranjar-lhe significados e subentendidos, minimizando-a? Não me entra. Atribuir segundas intenções ao texto, inventar-lhe sub-textos, espreitar as intimidades das palavras parece-me feio, falta de decoro, é não saber respeitar o pudor da frase. Não, comigo não, violão, não contem comigo para nada disso. 

E isto já para não falar do latim ou do grego. Grego nem nunca tentei. Latim aflorei mas não era a minha praia. Para mim, língua morta já era. Pode ser que seja a raiz e que conhecer a raiz, ou, sei lá, a semente ou a linhagem, seja importante. Não digo que não. Digo só que vivo bem sem isso. Podiam as palavras ser de geração espontânea, podia ser como se a fada do dentinho ainda por aqui pairasse e todos os dias me deixasse, debaixo da almofada, um papelinho com palavrinhas novas. Por mim, estava bem. E o grego, aquilo de estar tudo nos gregos, de ser essencial conhecer as tragédias gregas -- filho que mata a mãe, gentinha que esvazia os olhos, pai que se perde no mar mas que afinal se encontra, mulher que fica à espera feita freirinha bordadeira, órfãos incestuosos que se desgraçam a cada passo que dão (e se non è vero que estes são gregos, è ben trovato e honi soit qui mal y pense), ou ninfas, monstros ou bicharada aluada -- que é que isso acrescenta à minha felicidade? Nada.


Se fosse dada a cenas dessas, via as telenovelas portuguesas do horário nobre. E não quero saber que estejam de boca aberta perante tamanha ofensa à cultura matricial, à génese da civilização. Não quero mesmo saber.

Tudo o que seja obrigatório me incomoda. Não gosto de ortodoxias. Latim e grego são fundamentais? Passo.

Fundamental para mim é outra coisa: é não ter que ler documentos escritos por doutores que escrevem 'poder-mos' ou 'á um mês atráz' ou não ter que ouvir outros eloquentíssimos seres a dizer em que nunca foram fortes a matemática para se desculparem por não saberem quanto é dez por cento de quinhentos.

Portanto, é isto.

E também não sei porque é que estou com todo este converseio. Se quero ser casca bruta pois que o seja em privado, que não o alardeie em público. Mas é aquilo de a ignorância ser muito afoita. Perco a prudência e mostro ao que venho. Azarinho.

Tirando isso, com vossa licença, uma 'Nota à Introdução'

Pinar só co'a cabeça
É protérrima noção
Ca Literatura começa
Ter em muita aceitação.

Entrada a tola entra tudo: taco
tórax e veio.
Se não couber no buraco
Racha-se o buraco ao meio.

-- Nem rachar será preciso:
Só rasgar um bocadinho.
Como na árvore, inciso,
O nome do passarinho.



-------------------------------------------------------------------

O poema é de Mário Cesariny in 'O Virgem Negra', as pinturas de Júlio Pomar e o Cry Baby é cantado com as vísceras de Janis Joplin
_____________________________________
😜
____________________________


E queiram aceitar o meu convite e apareçam no meu Ginjal para testemunharem que não é Nem no cântico dos seios nem no soluço das pernas, coisa que proveio de David Mourão-Ferreira ao som da Carmen.

_______________________

domingo, março 18, 2018

E lá se foi o saloio* Feliciano Barreiras Duarte
... e já vai tarde porque quem escreve como ele escreve merece é levar reguadas naquelas mãos e ser posto de castigo ao canto da sala


A dream team do Rio
(a olho nu via-se bem que a coisa não augurava nada de bom)

Enquanto escrevo, ouço a desanda que o nosso senadorzinho de trazer pela TV está a dar no ex-secretário-geral do PSD e ex-braço direito do PSD. Que é um saloio, que se portou mal, que o que fez é uma bacoquice, que devia era ter vergonha na cara (esta não disse assim mas por outras palavras) e que o Rio devia ter agido há mais tempo em vez de andar a apanhar bonés (sic) e que espera que não estivesse com o rabo preso. E tal e tal.


E eu que ontem já tinha aconselhado o pobre-coitado Fefé BD a dedicar-se a outra coisa -- não a coser meias mas a descacar batatas -- vejo, com agrado, que já anunciou que ia pregar para outra freguesia. Talvez para descacar batatas tenha jeito. Tem ar disso. Eu olho para ele e diria que para presidente de uma junta de freguesia ali numa qualquer aldeia do Bombarral talvez ele também leve algum jeito. Mas mais do que isso já me parece um desafio ao Princípio de Peter.

Mas, de tudo que se conhece -- desde ter enfeitado o CV com pepineiras criativas até ter recebido um subsídio indevido -- nada me parece tão grave como escrever como escreve. 

Transcrevo a conclusão da sua tese de Mestrado: SISTEMA POLÍTICO NACIONAL E SISTEMAS POLÍTICOS COMPARADOS e digam-me se quem escreve coisas destas não merece é um correctivo a preceito.
Em conclusão, a elaboração deste relatório, com os fins e objectivos anteriormente referidos, pretende-se que seja consabido, o relacionamento entre a primeira e a segunda parte do mesmo, com a evidência principal, que de entre a multiplicidade do currículo do seu autor, poderá sobressair e outrossim destacar, o fio condutor de que nas suas múltiplas actividades e intervenções, académicas, profissionais, não profissionais, mas de servidor público, jurista, professor, investigador, conferencista, autor e afins, está sempre presente uma trave mestra – a saber – que é a problemática do sistema jurídico e político português. Com uma incidência especial, na sua axiologia, a sua catalogação jurídico política e sobretudo a sua elasticidade jurídico constitucional. De entre outros temas possíveis e prováveis de serem expendidos pelo autor, a problemática associada a este tema, tem toda a actualidade para quem, tem 21 livros publicados, prefaciou vários trabalhos de investigação, foi conferencista e moderador em 164 conferencias, seminários e afins, publicou cerca de 750 artigos e cronicas em jornais e revistas, e tem variadas intervenções no plano profissional, extraprofissional, publica, política e de outras tipologias. 
Demitiu-se? Face a isto, é pouco. Tem que ser posto de castigo. Tem que fazer cópias, ditados. Deve desfilar com orelhas de burro. Deve levar reguadas. Deve voltar para o 1º ciclo. No mínimo.

Mas poderia dizer-se que, quando escreveu a conclusão já estava cansado, que já não atinava com as vírgulas nem com coisa nenhuma. Mas não. Veja-se, por exemplo, a abrir, a dedicatória --e digam-me se é possível uma coisa destas.
Agradeço à minha família (meu pai, minha mãe, minha mulher, meus três filhos, meu irmão e restante família) e a todos quantos nas últimas quase três décadas, partilharam bons e maus momentos e bons e maus resultados, em toda a minha vida não só familiar, mas acima de tudo, académica e profissional e também em toda a minha vida pública, enquanto servidor da coisa pública e protagonista da vida política, quer ao nível autárquico e parlamentar e também ao nível governativo. Agradeço, sobretudo aqueles, que se mantiveram fieis inabalavelmente à lealdade, competência, diligencia, sacrifício, honradez, sinceridade, amizade e confidencia. 
É muito jogo. É de Mestre. Mestre Fefé BD, o ás das vírgulas e da conversa da treta.

Olha. Bye bye, saloio* Feliciano.

[NB: Isto do saloio foi o Marques Mendes que dixit.]

sábado, dezembro 02, 2017

Cinemas NOS
-- uma antevisão do que seria um mundo governado por porcos.
[O filme 'A montanha no meio de nós' é bom mas ter-me-ia sabido melhor se o tivesse visto numa sala de cinema decente]


De manhã, fiz fotografias que me agradaram fazer mas que ainda não vi. O prazer está em captar o momento, não em revê-lo. A praia muito bonita, o sol banhando de luz a superfície do mar, as pessoas passeando, os vultos em contra-luz ao longe, a alegria do pescador a descer as rochas para ir resgatar o peixe tão grande, as crianças brincando. Podia ir buscá-las à máquina para as passar para o computador, mas não me apetece.

Também fiz muitas fotografias cá em casa, a alegria e confusão do costume. O bebé tão bonito e feliz, os outros rapazes já tão crescidos e sempre tão cheios de vitalidade, a menina sempre linda, muito  feminina e coquette, os crescidos todos na boa, bem dispostos, tranquilos. Mas essas fotografias eu não mostro aqui, ficam para mim e para a família.

Depois de todos saírem, saímos também.

Andava com vontade de ir ao cinema mas sem encontrar filmes que me seduzissem. Mas hoje um chamou-me a atenção e lá consegui arrastar o meu marido para fora de casa quando lhe apetecia era ir estender-se no sofá. Eu própria tive que vencer o apelo do corpo que, ao fim de um dia bem preenchido, pedia também algum descanso. Mas lá fomos.

Na bilheteira, toda a gente com baldes de pipocas e bebidas. Depois, a escada rolante parada, com os degraus pejados de pipocas.

Entrámos. A sala cheia. Quando ia sentar-se, o meu marido viu que o braço da sua cadeira e o chão por debaixo estavam cheios de coca-cola (ou pepsi, sei lá). Ficou furioso. Saíu e regressou com uma jovem de balde, esfregona e pano. Limpezas feitas, lá se sentou. Furioso. 'Nem ao menos fazem a limpeza da sala, entre sessões'. 

Ao lado dele um casal de gordos -- mas ponham gordura em cima deles. Gordos e gigantes. Nem conseguiam sentar-se bem. O gordo segurava num balde de pipocas e comiam-nas freneticamente. Felizmente o casal ao meu lado era silencioso. À nossa frente uma fiada de gordas, gordas, gordas, cada qual com seu balde pipocas. Riam-se e falavam umas com as outras. O meu marido continuava furioso e dizia que não aguentava estar no meio de mandibulantes desenfreados. Eu também estava incomodada mas não dei muita corda não fosse ele resolver levantar-se e desistir do filme. É menino para reacções dessas.

O cinema é da NOS. Antes do filme começar, publicidade com o som numa intensidade insuportável. Um chinfrim que, diria eu, nem deve ser saudável.

Finalmente lá começou o filme.

Um bom filme. Um daqueles filmes bom de ver, uma história de sobrevivência e de amor. 

Para mim, ir ao cinema é também a magia da sala escura, um certo culto que talvez seja já apenas ficção mas que, para mim, teima em persistir -- como se, num ambiente quase mágico, um grupo de pessoas ali estivesse a partilhar emoções. Contudo, ali isso é impossível. As gordas da frente riam alto, em momentos de maior emoção saíam-se com apartes completamente absurdos, descarados ou ridículos. O gordo do lado, saía-se com piadas brejeiras e inconvenientes. A sua parceira gorda partia-se a rir. Mas não eram os únicos. 'Bocas', risos, brejeirices. E o barulho das pipocas. Sempre o barulho das pipocas. E o enjoativo cheiro das pipocas. 

No intervalo, reparei que o corredor central do cinema estava sujo, bocados de pipocas polvilhavam a alcatifa. Cá fora, o chão também sujo e mais gente a abastecer-se de pipocas e de bebidas. Perguntei ao meu marido: 'Mas isto é tudo gente porca e estúpida?'. O meu marido já estava mais tolerante: 'Para estes gajos [referia-se à NOS], o negócio principal parece que é vender pipocas. E enchem os baldes daquela maneira. Transbordam, caem no chão, nas escadas, por todo o lado [referia-se às pipocas]'.  E eu: 'E reparaste que quanto mais gordos, maiores os baldes?' E ele: 'Não deve ser por acaso'

Um nojo.

Acho que tão cedo não voltaremos a um cinema NOS. 

Se quisermos imaginar o que seria o mundo se fosse governado por porcos, acho que poderemos visualizar uma sala de cinema NOS.

Para ajudar à festa, no intervalo vi uma troca de mails profissionais em que fui posta em conhecimento e que acentuou ainda mais a sensação de estar a viver num mundo em que falta de qualificações de toda a ordem começa a imperar. Que mails mais miseráveis. Ideias mal apresentadas, frases mal construídas, pontuação errática e erros ortográficos insuportáveis. Fiquei, uma vez mais, petrificada. A minha vontade foi enviar um mail a pedir que regressem à escola primária, que aprendam a escrever, que arrumem as ideias e que me poupem a lástimas como as que me tinham dado a ler.

Contudo, não fiz nada. Mas fiquei agastada. 

Por delicadeza, deixamo-nos morrer. Neste caso, talvez não morrer mas vencer. Vamo-nos calando e aceitando tudo. Lemos textos que são autênticas alarvidades, estamos em salas de cinema que são pocilgas e em que ao nosso lado se sentam porcos que nem tentam comportar-se como gente civilizada. E tudo aceitamos. 

Não deveria também eu ter-me levantado e pedido, alto e bom som, que parassem de mastigar, de fazer barulho, de ser inconvenientes? Que soubessem respeitar o filme e as pessoas que ali estavam a assistir? Que soubessem portar-se de forma civilizada?

E não deveria eu escrever uma reclamação dirigida à NOS a dizer que me incomoda que não respeitem a arte do cinema e que não garantam o asseio das suas instalações?

Claro que deveria. 

Já passa das duas da manhã e estou com sono e já sei que, mal entre o dia, vou à minha luta e vai faltar-me a paciência e o tempo para me insurgir de forma mais consequente mas, de qualquer forma, aqui fica lavrado o meu protesto.

.............................................................

As fotografias que usei a despropósito no meio do texto, referem-se ao filme.

A montanha entre nós com Idris Elba e Kate Winslet, aqui ´num trailer legendado em brasileiro



.............................................

A si que está aí desse lado desejo um sábado feliz.
Saúde e alegria.

...............................................

quinta-feira, abril 20, 2017

João Pereira Coutinho é todo a favor das vácinas,
conforme dissertou ao balcão da Correio da Manhã TV


Fui agora espreitar as estatísticas do blog. Dizem-me que 'agora' estão 83 pessoas a ler o Um Jeito Manso. Mas estão aí desse lado e eu dava-me jeito é que estivessem aqui. Aqui. A beliscar-me. Todos, ao mesmo tempo, a beliscar-me.

Explico porquê e vocês já vão dar-me razão.

Antes de jantar, enquanto decorriam os preparativos, liguei a televisão e fui fazendo zapping. Estava a caminho da Sic Radical para ver se hoje havia o Colbert. Mas, a meio da operação, passei por um canal onde acho que até hoje nunca parei. Até hoje - leram bem. Vi e não acreditei. Parei para confirmar. Podia ser uma visão. Infelizmente não, vi que era real. O João Pereira Coutinho, ele mesmo, o grande intelectual, essa direitola figurética da luso-piolheira, comentando o caso da jovem que morreu com sarampo. Na CMTV.


O grande mestre da teoria política, ex-guru da blogosfera, agora transformado em vulgar profissional da crónica azeiteiro-social. Com uma fita rolante a passar-lhe em cima da cabeça com dizeres relativos ao Ronaldo, ali estava ele, populista, populista, demagogo, demagogo, a dar na cabeça dos pais da jovem. A mim que, claro está, nem me passaria pela cabeça não vacinar os meus filhos, sem conhecer os factos relativos a este caso não vou falar sobre eles, muito menos aos balcões do infecto-contagioso Correio da Manhã. Já li que a miúda tinha tido um episódio grave de alergia a uma vacina e que, por precaução, os pais resolveram não reincidir. Não sei. Não me pronuncio. Dor maior já os pais devem estar a sofrer, escusamos de deitar mais sal por sobre cicatrizes que, certamente, estarão em carne viva.
É certo que é uma boa oportunidade para apelar à racionalidade dos pais que se encontram nalguma deriva metafísica, pondo em risco a vida dos filhos, mas que o seja com contenção e, sobretudo, não ao balcão de uma coisa como a CMTV, no meio de uma conversa desenvolvida em tom fútil e demagógico.

E se eu visse um daqueles comentadores que tanto falam de Passos Coelho, como de uma jogada mal apitada pelo árbitro, como de uma camioneta que tombou na estrada despejando ruidosos bácoros, ainda vá que não vá -- uma pessoa, vai-se habituando a que baixem os padrõezinhos*. Mas, com o caneco... o João Pereira Coutinho...? Já desceu a esse ponto? Comentadeiro no Correio da Manhã...?!?! 


É onde se acolitam agora os ressabiados, os desaguados da democracia, os de má bílis, os moralistas do regime, os enfatuadinhos, os pintarolas encartados? No Correio da Manhã...? Muito me contam.

Mas a minha surpresa não se extinge aí. É que a criatura dizia vá-cinas. O entrevistador perguntava-lhe o que achava de não vacinar crianças e ele, cinquenta mil vezes, vácinas: vácinas para aqui, vácinas para acolá.

Totó como sou, ainda pensei: querem lá ver que eu é que ando com o passo trocado? Então fui validar e o totó é ele. Diz-se vacina com os dois a's fechados pois vacina é, obviamente, uma palavra grave.

Agora, vocês que aí estão sossegados e nem se dão ao trabalho de aqui me vir beliscar para eu ter a certeza que não eu estar a delirar, digam-me: como é que um intelectual destes, com esta carinha de menino inteligente, professorzinho da Católica e tudo, não sabe disto e diz vássinas**...? 
** Que, da maneira como ele diz, acho que até deve escrever escrever vássinas, senão mesmo váccinas como se ainda vivessemos no tempo das bexigas das vacas...
Minha mãe santíssima.

Estou banza, é o que é. Não estava psicologicamente preparada para ver uma coisa daquelas.

Quando a intelectualidade de pacotilha vira comentadeira do Correio da Manhã... o que se vai seguir...? Um dia ainda vou ver ali o Pedro Mexia, a pronunciar-se sobre o roubo por esticão ou sobre a namorada do CR7? E, ainda por cima, a dizer 'námora-da' ou Márcelo? Ou o cardeal Clemente comentador nos programas da Cristina Ferreira a falar do maestro gay que foi corrido pelo pároco de Castanheira de Pêra? A procuradora Mana do Vidal como avençada no programa da Júlia Pinheiro a comentar as aparições da pequena Maddie? O António Lobo Antunes a dar troco ao cacarejante Rangel? What...?


Não sei mas, depois do que presenciei, acho que temos que estar preparados para o pior.

____________

Fiz as fotografias à televisão e, depois, na segunda apeteceu-me pôr o comentador João pereira Coutinho ainda mais cor-de-rosa, com uma boquinha ainda mais mimosa. A ver se a imagem fica mais consentânea com o absurdo da coisa.

________________

E, a propósito de não baixar os padrõezinhos, aqui vos deixo o Lopes da Silva, o homem com demasiadas características.




_____

Um dia feliz a todos.

........................................

terça-feira, dezembro 27, 2016

O que peço a sua mercê ouça com muita atenção e vontade, porque nisso favorecerá o partido de meu trabalho.





Alguns que escrevem livros acostumam fazer, nos princípios, prólogos de sua defensão, o que eu não fiz. E tenho esta rezão, que me não quero queixar antes de ser ofendido. E mais, quem pode dizer mal de mi, que bo seja, pois aos maus não posso fugir, mas por qualquer parte sempre me hão de mal tratar. E contudo eu não dou licença que alguém possa ser meu juiz, senão quem ler os livros que eu li, e com tanto trabalho e tão bem ou milhor entendidos. E ainda assi a sentença há-de ser que, para emendar meus erros, escrevam da mesma matéria outras obras milhores, nas quais mostrem saber mais q'eu disto de que falamos.

E senão, tudo o que mais fezerem é murmurar, que não cabe antre homens sabedores. Pois quant'à dos inorantes não faço conta, e bem sei que não deixam de reprender senão o que não entendem. E mais, porque algum tanto me fiz nestes princípios breve, reprenderão mui asinha o que dixe, e não saberão, louvando, manifestar o que calei (como diz Cícero no segundo livro a seu irmão).

E não convido eu aos que mais sabem, cuidando que os não há i no mundo, mas seria eu ditoso que minhas faltas fossem causa do proveito que sua doutrina pode fazer. Ser eu curto em meu escrever, e não muito ornado com bos exemplos, e a falta d'algumas cousa que devera escrever e não fiz, e a dissonância d'alguns termos novos nesta arte que pus, usando de vozes próprias da nossa língua, tudo ante quem não folga de dizer mal terá escusa com olhar a novidade da obra e como escrevi sem ter outro exemplo antes de mi. E isto muito mais escusará o defeito da ordem que tive em meu proceder, se foi errada.

E contudo, o que com rezão pode ser reprendido, eu confesso que o não escrevi com malícia, e pode-se emendar. Antes peço a quem conhecer meus erros que os emende. E todavia não murmurando em sua casa, porque desfaz em si.



[Capítulo L (e último) da Gramática da Língua Portuguesa de Fernão de Oliveira (c 1507 - c 1582 , edição Da Fundação Calouste Gulbenkian]

:::::::::::::::::::::::::::::::
Fernão de Oliveira nasceu em Aveiro, em 1507. Foi um homem de múltiplos interesses, tendo desenvolvido atividades como gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval. Iniciou os estudos, aos nove anos, no Convento de S. Domingos daquela cidade, tendo sido transferido, em 1520, para o convento da mesma ordem, em Évora. Aos 25 anos, fugiu para Castela, onde se dedicou ao estudo da língua espanhola e se tornou clérigo secular. Em 1536, regressou a Lisboa, dedicando-se ao ensino e publicando a primeira gramática da língua portuguesa, intitulada Grammatica da Lingoagem Portuguesa. A partir desta publicação, passou a integrar o grupo dos gramáticos do Renascimento que se dedicaram à descrição das suas línguas maternas. Por volta de 1541, partiu para Itália, onde se dedicou à diplomacia secreta, provavelmente relacionada à complexa questão a respeito dos cristãos-novos que o rei D. João III manteve com a Santa Sé. Em 1543, regressou a Portugal, onde foi ameaçado de ser denunciado ao Tribunal da Santa Inquisição, por heresia. Temendo a perseguição do Santo Ofício, Fernão de Oliveira deixou o sacerdócio e fugiu para a França, onde se alistou como soldado e serviu na guerra contra a Inglaterra.

(Ler mais sobre Fernão de Oliveira...)

::::::::::::::::::::::::::

Lá em cima o Te Deum Zelenka (Per singulos dies) é interpretado pelo Coro Gulbenkian e Orquestra Divino Sospiro

O título do post é a frase que fecha a primeia anotação que Fernão de Oliveira fez da língua portuguesa, dirigida ao mui magnífico e nobe fidalgo, o senhor dom Fernando d'Almada, filhor herdeiro do mui prudente e animoso senhor dom Antão, capitão-geral de Portugal, etc.

*****

quinta-feira, abril 21, 2016

As palavras mais belas da língua portuguesa.
E outras conversas em redor.




Estou naqueles dias. Há vários assuntos que me convocam. Fotografias e a vontade de construir histórias em volta delas. Gosto de plantar aqui fotografias e, de consciência desprotegida, deixar que os meus dedos façam crescer palavras em volta delas. Ou músicas. Pode parecer que a música é acessória em mim. Mas não é. Sou é ecléctica, na música e em tudo na vida. Especialista em coisa nenhuma. Amante da diversidade. Parece que, da vida, quero conhecer uma amostra de quase tudo. O que eu acumular não vou levar para lado nenhum. Por isso, não quero acumular nada, muito menos conhecimento. Quero é provar. Degustação. Não quero reter coisa alguma. Mas quero ir conhecendo, inventando, tendo prazer na descoberta. Sem parar em nada, senão não seguiria em frente, descobrindo mais.

Tenho aqui um livro comigo. Não foi este livro o recomendado mas foi este que encontrei. Eu de volta do índice, curiosa de ir já conhecer a ideia dos outros. Mas a esta hora não dá.

E pôr-me aqui com as palavras descomandadas, acho melhor não, não sei se as conseguiria parar se elas tomassem o freio nos dentes. 


Pus-me, pois, a circular pelos jornais. Muitos zikas há a zumbir em volta da actualidade portuga. Há bocado até ouvi um, que deve ser avençado, a dizer que a Isabel dos Santos fez 43 anos e gostaria de ter tido outro presente, e a conversa toda a puxar o lustro à filha de seu pai, e eu incapaz de suportar isto. Stop. Em dias assim parece-me que tudo anda em volta de zikas ou de microcéfalos políticos, ou de inquisidores-novos, disse, não disse? a que horas disse? mentiu, não mentiu?, ah que momentos de glória para tão azikados deputados, muita gentinha desta há por aí -- e eu que não tenho tempo para descansar a ver se reponho os níveis de paciência que até acredito que o mal se calhar está em mim. Há quem tome ansiolíticos por ver tanto atraso de vida. Eu não. Desligo a televisão, ponho-me aqui, nisto. E passa-me. Mas devia dormir mais. Talvez parecesse mais boazinha. 

Há bocado, para descomprimir, estive a conferir a minha personalidade a partir dos bolos que prefiro e depois, já adoçada, pus-me a circular pelos blogs. Há alguns de que gosto tanto. São atípicos. São momentos bons. Depois estive a ver os mails, mails tão simpáticos. De vez em quando lá aparece um que destoa mas apago logo, para que haveria de guardar um mail desagradável? Mas, felizmente, é raro. De facto, pensando bem, só aconteceu uma vez. Mas já me esqueci. É como se não tivesse existido. É o que tem de bom ser primária.

Agora já é tarde, Deveria parar por aqui. Mas li um artigo maluco, só pode ser maluco, e fiquei com vontade de pegar na ideia. 


"As 50 palavras mais belas da literatura em língua portuguesa". E pode? Como é que se escolhem as palavras mais belas? Loucura.

Pedimos ao colaborador da Revista Bula, Marcelo Franco, um dos maiores especialistas em livros no Brasil, que apontasse as 50 palavras mais belas da literatura em língua portuguesa. Marcelo Franco enumerou 100 palavras, destas, selecionamos 50. Obviamente que listas são sempre incompletas, idiossincráticas. Sabe-se que, como a percepção, a opinião — que é a base da maioria as listas —, é algo individual. O resultado não pretende ser abrangente ou definitivo e corresponde apenas à opinião do especialista e dos editores da Revista Bula, que fizeram a seleção a partir da lista inicial sugerida.
A seguir leio a lista das 50 palavras. Fogo. Leio e acho que só podem estar a gozar com a minha cara. 
Pentâmetro iâmbico, Palimpsesto, Funâmbulo, Imarcescível, Arquiduquesa, Antolhos, Ignoto, Lugar-tenente, Pneumotórax, Seljúcida
Juro. Estas são algumas das palavras que eles escolheram. Dá para acreditar? 
Belas? Caraças. Belas, o tanas. 
Nem nunca tinha ouvido falar nessa tal de seljúcida. Fui ver e já sei o que é. E também sei que só de confessar aqui a minha ignorância já me estou a pôr a jeito para que me apareça aqui o Leitor José Neves a dizer 'Ah. Logo vi. Tinha que ser. Por isso é que é tão básica da silva. Não conhecia a palavra seljúcida?! Seljúcida, toda a gente sabe o que é! Vá-se instruir, Minha Senhora'. Ok, eu vou. Um dia destes.


E, portanto, enquanto não me vou instruir
-- inclusivamente tive que ir ver aquela do pentâmetro iâmbico e, caraças, não é que até pode ter a ver com o grego e eu que ainda não sei grego, oh Caro José Neves, já viu isto?, bolas, como é que eu não sei o que é um pentâmetro iâmbico? Bolas, que até a mim me dói tanta ignorância -- 
vou continuar, por aqui, no bem bom do dolce far niente blogosférico.

Mas vá lá, avancemos.

Embora ninguém me tenha perguntado, eu respondo. Palavras belas da língua portuguesa (e que conversa é essa de palavras da literatura em língua portuguesa? poderiam ter escolhido palavras belas que não aparecessem em nenhum livro? Treta).

Então vou dizer ao acaso, sem elencar por qualquer ordem (nunca faço listas), sem pensar, sem filtrar, sem coisa nenhuma:
luz, amor, cal, muro, aragem, folha, mãos, olhar, amor, azul, veleiro, mar, tecer, abraçar, horizonte, além, tocar, toada, lua, aluada, corpo, solar, pele, ondular, onda, maré, sonho, som, branco, alvo, madrugada, noite, lobo, montanha, divino, silêncio, desconhecer, transparência, ventre, seio, sexo, nudez, perdão, sorriso, tu, filhos, meus, sangue do meu sangue, maresia, loucura, beleza, infinita, infinda, linda, sedução, galanteio, malícia, poema, sussurro, murmúrio, doçura, leitura, paz. 
Pronto. Acho que, para amostra, já chega. Não vos maço mais. Vou dar uma curva. Para os braços do meu amor.

___
  • As fotografias são respectivamente de Andres Serrano, Andreas Gursky, Philip-Lorca Dicorcia, Herb Ritts e Raymond Cauchetier. 
Se tiverem interesse em saber o valor comercial delas espreitem aqui. É para quem pode. E, como se vê, isto do 'valor' é uma coisa relativa -- já os outros lá o diziam, o Ricardo, o Karl e todos esses bacanos.
  • Lá em cima Stacey Kent interpreta You've got a friend. E é verdade. Estou aqui para os amigos,
_______

E, caso queiram saber o que é que o vosso bolo preferido diz da vossa personalidade, desçam, por favor. É já a seguir.

quarta-feira, julho 22, 2015

Os bons alunos de Matemática e os de Língua Portuguesa


A Roma Antiga deu ao mundo ocidental várias coisas boas: saneamento, estradas, vinho, bacanais... mas também trouxe outras coisas não muito boas, tipo aqueles números escrotos. É um festival de letras e tracinhos que dão uma pane na sua cabeça. Mas fica a pergunta: como eram as aulas de matemática? Eram juntas com as aulas de latim? Como que você sabia que estava diante de uma equação e não uma oração? Aliás, quem foi o génio que teve essa brilhante ideia de colocar letras e números iguais? Infelizmente, isso são fatos que se perderam pela História.


Romanos by Porta dos Fundos








Quiçá a língua portuguesa é um idioma difícil de dominar. Todavia são muitas regras por aprender que ao propósito podem acabar confundindo a pessoa. Excepto a dedicação e o estudo são as maneiras consequentemente que você em contrapartida irá talvez aprender a usar o língua corretamente. Ademais.

Problemas linguísticos by Porta dos Fundos





quarta-feira, junho 04, 2014

Alô, alô gente do Expresso! Alguém explica qual o critério de admissão para opinador do Expresso? Não têm, ao menos, que saber escrever??!!? Já nem digo o resto, digo apenas isso, escrever. Ninguém percebe que ter aí uma criatura como um tal Duarte Marques só dá ainda pior nome ao Expresso??!


Duarte Marques, o tal  que em vez de ter ido à escola
para ao menos aprender a escrever,
 andou na escola de malandragem das jotas.
Deu nisto.

Já aqui falei algumas vezes desse inteligente Duarte Marques. Dali não sai uma que se aproveite. É a forma e é o conteúdo. E é o invólucro e é o tempero e é o que quiserem. Só num partido como o PSD, onde qualquer cão ou gato chega onde muito bem lhe apetece, é que aquele coiso poderia ascender onde ascendeu.


Mas isso é lá com o PSD. Já se sabe que aquilo é mesmo um albergue espanhol de má fama. 

Agora dali trampolinarem-se para o Expresso?! A que propósito?

Este frangote tem ideias bem apanhadas? Vê o que mais ninguém vê? Exprime-se como um príncipe florentino? É um pândego sem igual?

É que se é, então eu vou ali e já volto. Nunca dei por nada.

Só vejo ali um chico esperto a precisar de ir para a escola a ver se atina, a ver se aprende nem que seja a toque de estalo.

Confirmo: continuo sem me registar no Expresso Diário (online). A maralha que lá vejo, como esta criatura, não me merece o trabalho de me registar e, depois, autenticar. Tenho pena porque há lá uns dois ou três que é gente de bem.

Mas a Direcção do Expresso não vê que é até ofensivo meter no mesmo saco um Duarte Marques e um Pedro Mexia?


Já não há quem saiba dar-se ao respeito?

Vou eu, tantas vezes, ralada para a cama por não conseguir rever um texto que escrevi meio a dormir, com medo que alguma vírgula esteja fora do sítio e vai uma criatura destas escrever para o Expresso um texto que não tem ponta por onde se pegue e no qual as vírgulas parecem ter ainda menos miolos do que ele?

Ora vejam bem estes (de entre muitos) exemplos: 

O país precisa, de um PS forte, credível e respeitado, como alternativa de poder, o que de facto, também não tem conseguido ser.

Mas, há perguntas, que é útil fazer: quem tem medo do voto preferencial, ou da redução do número de Deputados?

A Troika, já se foi embora, mas as reformas exigem responsabilidade.


Uma vergonha.

Pergunto: Senhores Directores do Expresso, já vale tudo? Qualquer analfabeto já pode alcandorar-se a opinion maker no Expresso? 

Estamos bem, estamos, estamos.


PS: Para além disso, cá temos mais um que ou é mentiroso ou anda distraído - também diz que a Troika já se foi embora. É certo que, com tanta virgulada, aquilo pode querer dizer outra coisa qualquer.

Chiça.

_

Encontrei esta troca de piu-pius entre o Duarte Vírgula Marques e o João Galambra numa pesquisa através do google quando procurava fotografias do virguleiro.
Não sei se é verídico mas aqui coloco conforme vi.

Tem graça.

[Este Galambra não apenas tem pinta como tem garra (e graça)]

__

sexta-feira, maio 23, 2014

Jorge Jesus e Paula Rêgo, não sei se tás a ver, é tudo a mesma coisa. Pintores. Vocês não tão a ver mas um treinador é um tipo que é um criativo. Tu pões os jogadores a jogar assim e assado e isso exige muita conhecimento. Tu fazes as coisas e são muitas delas científicas mas ninguém percebe. Eu vi um quadro com uma que se chamava Maria e que era da Paula Rêgo e ela disse que ela tava a chorar, tás a ver, mas eu não vi lá ninguém a chorar mas ela sabia que a Maria tava a chorar, não sei se tás a ver


>>>   Monólogo de mim para mim, ao estilo do grande artista   <<<



O Jorge Jesus ganha milhões e parece que até é bom treinador. 

Tu não fazes ideia porque não percebes bóia de futebol, tás a ver, mas vês que o gajo até ganhou para aí umas coisas. 

Mas tu olhas para o cabelo dele (que agora até não tá mau de todo, não tá amarelo nem pelos ombros) e tu ouves as coisas que ele diz, e ficas passada. 

Um gajo que fala assim, trocando o género às palavras, passando pelos tempos verbais como boi por vinha vindimada, tás a ver, e ficas passada. 

O gajo até é capaz de dizer coisas com muita profundidade, comparar-se à Paula Rêgo não é pa qualquer um e, na volta, um dia destes até se compara ao Carlos Fiolhais já que já diz que é um cientista e, pá, tu ficas marada da cabeça.


Paula Rêgo - War, 2003

O gajo, o pintor, o Jorge Jesus, diz que não viu que a Maria tava a chorar, tás a ver, e tu ficas a pensar, mas o gajo não viu porque a Paula Rêgo se esqueceu de pintar as lágrimas ou porque o gajo estava com a franja para os olhos, tás a ver.


É pá e ficas a pensar, será que o cientista-pintor  não viu o quadro do láparo a reinar sobre os destroços? 

Ficas a pensar que gostavas de o ouvir a falar deste quadro. 

O que seria que o gajo veria neste quadro? 

Artista como é, ainda via nisto o ataque do Passos Coelho à população. Sabe-se lá. O gajo é criativo, capaz de ver coisas que mais ninguém vê. É que o gajo, tás a topar, vê coisas que mais ninguém vê. Ou será o contrário? Será que não vê coisas que toda a gente vê. Ó pá, não sei, é muita areia p'á minha camioneta, tás a ver.


___


Paula Rego no momento em que é apresentada a Jorge Jesus

(que cara é aquela, senhores...?)
__

Jorge Jesus no seu melhor

Qual a relação entre um pintor e um treinador de futebol? Jorge Jesus explica, comparando-se a Paula Rego.


Vídeo da extraordinária conferência de imprensa final da taça de Portugal 2014 



Ganda Jesus, meu. Tu vês isto e ficas sem palavras.


*

Agradeço ao generoso Leitor que me enviou este vídeo.

-

terça-feira, abril 08, 2014

José Sócrates dá baile ao papagaio pouco inteligente que teima em entrevistá-lo na RTP 1 enquanto, na TVI, Marcelo se queixa das colonoscopias sem sedação com que Passos Coelho tem andado a fustigar a população - e eu pergunto: porque não trocar ao domingo à noite o José Rodrigues dos Santos com a Judite de Sousa? Só para ver no que dava.


Há papagaios bem ensinados, há os que aprendem coisas a metro, há os que gostam é de espanejar e dar nas vistas, há de todo o tipo.

O que os papagaios deveriam ter presente é que, embora falem imitando outros, não são outros: são apenas papagaios. E, assim sendo, aconselharia a mais elementar prudência que medissem bem com quem se metem.

É que podem imitar um gato, um porco, um galo, podem cantar os parabéns a você... mas não sei se conseguem sair por cima se se forem meter com um animal feroz.

Vejamos um papagaio de um tipo mais evoluído: Einstein the Parrot, com quem o The Pseudo-Writer poderia ter umas sessões de coaching caso, armado em fera, persista em atirar-se à jugular do comentador. É que, assim como assim, já que não vai conseguir fazer sangue, ao menos sempre pode entreter-nos fazendo umas habilidadezitas.


E mais: talvez o papagaio Einstein o ensine que não se diz ter a haver mas sim ter a ver




Já em relação a Judite de Sousa, agora que anda mais cheiinha, toda bem maquilhada, toda gira e de bela perna ao léu, sugeria que fosse fazer uma cura de sono para acalmar os nervos que apanha à segunda feira, sempre que atura o chato do Medina. Hoje, então, antes do meu marido ter tido um ataque de fúria com o Vítor Bento que estava à desgarrada com o Medina, vi-a mesmo em palpos de aranha para pôr alguma ordem na mesa. Coitada. Deve sair dali com a cabeça feita em água. Ficava umas duas semanitas a banhos com o seu gato e deixava o terreno para uma certa experiência.

Eu punha o Bruno Nogueira a fazer a primeira parte do programa do Professor, tipo peão de brega. E isto na esperança de que entretanto tivesse adquirido maior perícia e desenvolvido alguma capacidade de réplica face ao que abaixo vos mostro.

E a seguir avançava então o papagaio orelhudo. Sempre queria ver se chegava carregado de folhas de arquivo e se desatava a fazer barulho e a arreganhar o dente armado em tigrão. 'Tenho aqui uns papéis a dizer que se encontrou com o outro num quarto de hotel'. 'Pois olhe que não é o que se lia na imprensa por altura da vichyssoise'. A ver se, de cada vez que o Marcelo abrisse a boca, o interrompia com uma treta tirada de um papel qualquer. 




Ou então o Marcelo a entrevistar o Sócrates - também teria graça. Com o pequeno Marques Mendes a apanhar bolas.

Ou o papagaio Einstein a entrevistar o Láparo. De cada vez que o Láparo respondesse, o Einstein desatava a rir-se à porco.

Mas, enfim, isto já é o meu olho para o negócio a pensar em fazer subir as shares se fosse eu a mandar num canal televisivo.

*

sábado, fevereiro 22, 2014

Aula teórica de português ("erros de português que ficam muito mal") e aula prática sobre o tipo de resposta a dar a um marido/amante/namorado/etc que se arme em exigente e picuinhas à mesa (post com bolinha vermelha no canto dada a imagética usada no vídeo que decorre, como é bom de ver, na Porta dos Fundos: é o diálogo entre a Odete e o Carlos Alberto a propósito da sobremesa)


Antes de mais, deixem que faça o aviso do costume: a seguir a este post há um post sério, interessante, uma explicação para o conflito ucraniano e um vídeo sobre um terrível extermínio pela fome. É um texto a não perder. Foi-me enviado por um Leitor.

Igualmente recebido de oferta, há mais dois posts, duas anedotas. Uma graça. Ou melhor: duas graças.

Mas aqui, agora, a conversa é outra.

*

Li no Expresso um artigo interessante e útil que versa sobre erros crassos, daqueles que impressionam mal. Qualquer criatura que faça questão de estar pelo menos um ou dois furos acima dos analfabetos que nos desgovernam deve ter isto em atenção.

Vou transcrever porque me parece de utilidade pública e é certo e sabido que aqui o Um Jeito Manso é um guichet do Ministério da Cultura. Um guichet clandestino, é certo, não vá o Xavier mandar encaixotar-me e levar-me na mala diplomática para ser rifada aí numa quermesse qualquer.

Ora bem. A vossa atenção que vou passar a transcrever e as palavras vão mesmo sem cuecas pois o Expresso adoptou essa prática e eu estou a limitar-me a transcrever. Custa-me. Correto e não correcto? Até dói. Mas enfim. É só hoje.


Aula teórica de português - Erros que não devem ser cometidos.


Em baixo/ abaixo

Erro: Vou lá em baixo
Correto: Vou lá abaixo
Explicação: Abaixo refere-se a uma localização, enquanto em baixo se usa para falar de uma posição relativa.

Onde/ aonde

Erro: Não sei aonde fica a sala do chefe
Correto: Não sei onde fica a sala do chefe
Explicação: A forma mais fácil de evitar este erro é pensar que só pode usar 'aonde' em substituição de 'para onde'. Por exemplo, 'aonde vais amanhã' está correto, mas 'aonde deixaste as minhas chaves' é um erro crasso.

À/ há

Erro: Terminei o curso à dois meses
Correto: Terminei o curso há dois meses
Explicação: Este é um erro que só se nota na escrita, mas é grave. Para indicar um tempo passado usa-se o verbo haver

Haver/ a ver

Erro: Esse assunto não tem a haver comigo
Correto: Esse assunto não tem a ver comigo
Explicação: Ter a haver é sinónimo de 'ter a receber', enquanto ter a ver significa 'dizer respeito a..." Se emprestou dinheiro a alguém que ainda não lhe pagou, pode dizer que ainda 'tem a haver esse dinheiro', por exemplo.

Ir de encontro a/ ir ao encontro de

Erro: Isso vai de encontro à minha proposta
Correto: Isso vai ao encontro da minha proposta
Explicação: Estas expressões são completamente opostas. No primeiro caso a ideia é o contrário da minha proposta, enquanto na segunda situação está absolutamente de acordo com ela.

Comprimento/ cumprimento

Erro: Com os meus comprimentos
Correto: Com os meus cumprimentos
Explicação: É um erro muito comum, mas comprimento está relacionado com tamanho e não com saudações ou realizações. O que está correto é dizer o comprimento da sala, o cumprimento de prazos e enviar os cumprimentos a alguém.

Descriminar/ discriminar

Erro: Descrimine os produtos na nota de encomenda
Correto: Discrimine os produtos na nota de encomenda
Explicação: Descriminar é absolver, é declarar alguém inocente, enquanto discriminar significa distinguir, diferenciar.

Auferir/ aferir

Erro: No final do dia, o empregado deve auferir se os valores da caixa conferem com as vendas feitas
Correto: No final do dia, o empregado deve aferir se os valores da caixa conferem com as vendas feitas
Explicação: Estes dois verbos têm significados diferentes. Aferir é conferir, calcular, avaliar. E auferir é ter, obter, ganhar. Exemplo: no novo emprego ele vai auferir um bom ordenado.

Quaisqueres/ quaisquer

Erro: Quaisqueres informações é comigo
Correto: Quaisquer informações é comigo
Explicação: A palavra quaisqueres não existe. O plural de qualquer é quaisquer.

Descrição/ discrição

Erro: Ele age com descrição
Correto: Ele age com discrição
Explicação: Descrição é o ato de descrever alguma coisa, por exemplo, ele fez a descrição da situação. Já discrição significa discreto.

(...)

Na minha opinião pessoal/ na minha opinião

Erro: Na minha opinião pessoal deves candidatar-te ao mestrado
Correto: Na minha opinião deves candidatar-te ao mestrado
Explicação: A sua opinião já é uma opinião própria, não precisa de repetir essa ideia.

Há cinco anos atrás/ há cinco anos

Erro: Há cinco anos atrás ainda estava no secundário
Correto: Há cinco anos ainda estava no secundário
Explicação: É redundante usar 'há' e 'atrás' na mesma frase, porque o verbo haver já se refere a tempo.

Senão/ se não

Erro: Senão consegue entregar o relatório no prazo, avise
Correto: Se não consegue entregar o relatório no prazo, avise
Explicação: Para transmitir a ideia de não conseguir fazer o relatório, o correto é o segundo exemplo. Senão quando escrito numa só palavra tem muitos significados, mas não este.

Fazem agora dois anos/ faz agora dois anos

Erro: Fazem agora dois anos que entrei nesta empresa
Correto: Faz agora dois anos que entrei nesta empresa
Explicação: O verbo fazer quando se refere a tempo é impessoal e deve conjugar-se na terceira pessoa do singular.


**

Aula prática de conjugalidade


O que deve uma mulher responder quando o maridão se arma em esquisistinho, exigentão, em patrão mandão?

Ora atenção e não tentem repetir a menos que saibam a lição de fio a pavio..

(Alerta às meninas sejam de que sexo forem: ponham, por favor, bastante algodão nos ouvidos. É que aqui a D. Odete parece que estagiou no Bolhão)





E os meus Leitores homens, pensem bem antes de refilarem. Um conselho: se tiverem uma Odete pela frente, então, é melhor comerem sem piar.


*

Relembro: Indo por aí abaixo poderão encontrar textos para todos os gostos.

Divirtam-se com os dois últimos, que não há nada melhor do que a gente rir-se.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana!!!!!!!!!!!!!