Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, outubro 21, 2019

"A realidade é aquela coisa que não se vai embora quando se deixa de acreditar nela." *





Se vos contasse o que me apetecia poder sentir a liberdade de cortar amarras, de partir à descoberta, começar uma nova vida. 
Bem, não todas. Há amarras que não são amarras, são laços, laços indestrutíveis. Desses jamais me poderei separar. Mas há outros que sim. Facilmente seria capaz de desfazer os nós e sair sem voltar para trás.
Sinto, por vezes, que me poderia abeirar de uma estrada nova onde me sentiria como me gosto de me sentir: sem saber o que vou encontrar.


Lembro-me quando fui a uma entrevista há muitos anos, sem saber nada, nem qual a empresa, nem o que ia fazer. Fui. Quase como se fosse de olhos vendados. Lembro-me de quando comecei a trabalhar nesse sítio depois de passar por entrevistas, algumas bem desafiantes. Mandaram-me apresentar num sítio onde antes nunca tinha ido. Não fazia ideia. Fui à aventura. Quando fui ao departamento de recursos humanos fiz algumas perguntas que deixaram a pessoa que estava a acolher-me muito espantada: mas não se informou antes? Aceitou o emprego sem se informar? De facto, não. E estar a ocorrer-me ali fazer aquelas perguntas até a mim me surpreendeu.

Ao contrário de outras pessoas que se informam, que estudam tudo antes de para irem a algum lado, eu gosto assim. Blind date. É como quando vou visitar outra terra. Conheço quem estude os locais, os restaurantes, estabeleça percursos, e vá conhecer a terra como se fosse apenas confirmar na prática aquilo que já conhece na teoria. Eu não. Quero descobrir, quero surpreender-me.

E é o que me apetece: iniciar uma nova ocupação, conhecer outras gentes, outro mindset. Encalhei no mindset e tive que ir ver a tradução. Mentalidade. É isso: outra mentalidade, outro comprimento de onda, outro ambiente, outras palavras. 


Uma das vezes em que uma das empresas passou por uma fusão foi, para mim, um entusiasmo. Disseram-me, tal como disseram a outros colegas: agora vai ser responsável também por aquilo. E aquilo era algo que eu desconhecia em absoluto: o local onde trabalhavam, o que faziam, quem eram. Enquanto os meus outros colegas ficaram a processar, a avaliar como fariam a abordagem à pista, a estudar processos e os perfis das novas pessoas eu, para surpresa geral, no dia seguinte meti-me no carro e, sem aviso e às cegas, apareci lá. A surpresa de todos, incluindo a minha: foi uma coisa boa, uma daquelas emoções que nos enovela o estômago e nos põe um frémito no corpo todo. Falem-me de vocês, digam-me quem são, contem-me o que fazem. E assim foi: estivemos um dia à conversa. Saí de lá com ideias novas, parecia que tinha entrado num mundo novo. 

Mas agora nem era isso que me apetecia, isso já me parece pouco. Agora era mesmo um outro rumo, uma profissão diferente, hábitos culturais distintos, gente desformatada. 

Interrompi para jogar no euromilhões porque pensei que há o lado prático e isso, na realidade, poderia ser uma ajuda.

E ando com umas ideias. Muitas ideias. 


Por exemplo, acho que isto do clima é coisa muito séria e que medidas de fundo têm que ser tomadas e que há paradigmas que vão ter que ser radicalmente alterados a curto prazo e acho que a ciência e a tecnologia têm que se focar nas prioridades: travar a desertificação, garantir o abastecimento de água potável, conseguir reduzir o aquecimento. E acho que uma destas questões vai passar por encontrar tecnologia acessível. Já entreguei documentação sobre um caminho possível para que se estude o investimento mas quem o recebeu achou a ideia tão à frente que não lhe deu a devida atenção. E eu acho que não estão a ver bem. E acho que é coisa para o Governo, as empresas e as universidades trabalharem em conjunto. Estou a querer puxar pelo lado empresarial mas, às tantas, se calhar deveria puxar por outro. Ou insistir. 

Mas isso eu só gostava de lançar e de acompanhar até garantir que ia mesmo avante. Porque, no mais fundo de mim, o que eu gostava mesmo era de ter tempo para me dedicar a outra actividade, uma coisa muito diferente, um mundo muito novo. Outra gente, outros ambientes, outro mundo. 

E mais. 


Pode soar a loucura e se calhar é e, se calhar, sou meio louca. Ou completamente. Mas não faz mal.

Quando, no meu dia a dia, tenho que aturar gente medíocre que se acha a maior, gente que se agarra  aos seus pequenos poderes, gente que não consegue ver ao longe ou dar espaço a que outros despontem e se afirmem, só me apetece levantar-me e dizer que se vão catar, que já dei demais para tão infértil peditório, que tenho mais que fazer. Debato-me pois com o sentir que tenho que engolir sapos, porque faz parte, ou ser inconveniente, levantar-me, dizer que, se é para ficar, é com gente de confiança, gente capaz. 

E nem sei porque estou com esta conversa quando sei que a vida é assim mesmo. 


Tirando isso, só tenho a dizer que, talvez devido ao adiantado da hora,  tudo me parece possível, quer a capacidade para ir aguentando o lado pior da realidade quer a capacidade de manter em suspenso os sonhos, sonhando um dia poder abraçá-los.

E depois há a natureza, minha sempre presente mestra: ensina-me, maravilha-me, encanta-me, mostra-me o que é a vida, o perecimento, a queda, mas também a reinvenção, o renascimento. 

Por exemplo (e, na verdade, não sei bem o que pretendo exemplificar). Ia a passar e sentia o perfume. Perfume fresco e limpo. Parei. Vi o que me parecia um resto de flores secas, como que um cacho de pequenas flores. Aproximei-me. Cheirei. Era dali que vinha o perfume. Ao pegar para melhor aspirar o perfume, senti que não estavam secas, estavam frescas e macias. E depois reparei que havia mais. Muitas. Muito perfumadas. Nunca as tinha visto. E, no entanto, que lindas e gráceis e perfumadas florzinhas. Que maravilhosa surpresa. Que bom auspício.


As fotografias foram feitas in heaven (e repararam que os cogumelos já começaram a aparecer? e não são lindos, uma perfeição?). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor justamente de Where do we go from here.

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* Com os meus agradecimentos e o devido crédito ao ninghem que escreveu o que coloquei no título e me deixou mais dois presentes num comentário num post mais abaixo.

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E os meus votos de um dia feliz a todos vós

domingo, outubro 06, 2019

assim diz a flor


Houve um pedido: três palavras. Chamou-lhe o desafio insano

Sugeri 'rompem flores das paredes'. Depois, ao ler as palavras da Alexandra, brinquei mas, flor, tem razão: na realidade, a sugestão a sério era mesmo essa 'rompem flores das paredes'. 

E hoje, ao ler para a UJM, fui logo ver. 

E não foi só o espanto, não foi só o agrado. Foi que me senti retratada. Talvez com o filtro da generosidade da flor, talvez com o filtro do talento da flor que embeleza aquilo em que toca. Mas, sob a capa da beleza das palavras, senti-me eu.

Depois, enquanto andava a passear entre as árvores, os pés pisando a caruma macia, tentei lê-lo em voz alta. Não consegui. Lágrimas nos olhos, a pele arrepiada, a voz comovida.



rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


(a minha casa vista do exterior, aqui, in heaven, onde se vêem dois dos brinquedos com que os meninos sempre brincam quando cá estão)

Obrigada flor. Quase fico com vontade de continuar a ir deixando sementes no seu a faca não corta o fogo na esperança que delas rompam sempre flores tão belas como este seu poema.

domingo, setembro 22, 2019

Goal.
Leonard Cohen ainda e sempre entre nós



Silêncio, por favor. 

Leonard Cohen entra, de novo, nas nossas vidas. Ainda vivo. Sempervirens. Eternamente cantando para nós, eternamente envolvendo-nos no veludo esculpido no carvão das suas palavras e da sua voz.

I can't leave my house
Or answer the phone
I'm going down again
But I'm not alone
Settling at last
Accounts of the soul
This for the trash
That paid in full
As for the fall - it began long ago
Can't stop the rain
Can't stop the snow
I sit in my chair
I look at the street
The neighbor returns my smile of defeat
I move with the leaves
I shine with the chrome
I'm almost alive
I'm almost at home
No one to follow
And nothing to teach
Except that the goal
Falls short of the reach



segunda-feira, agosto 05, 2019

Uma rosa é uma rosa é uma rosa





No seu pequeno jardim, a minha mãe tem rosas. Tem sempre rosas muito perfumadas e com cores muito bonitas. Não sei onde as arranja, nunca me ocorreu perguntar-lhe.

Muitas vezes quando vou a sair, o meu marido já no carro à minha espera, ela chama a minha atenção: 'Já viste a cor daquelas rosas?' e eu olho, vou ver, vou cheirar e, muitas vezes, pasmar com a imprevista beleza daquelas flores. Agora tem umas novas. São cor de salmão, quase cor de laranja. Nunca tinha visto umas rosas daquela cor. Lindas, lindas, absolutamente femininas. 

Tem também rosas brancas. Rosas brancas, ou, talvez, cor de pérola -- porque brancas, brancas, elas não são --  são sempre sofisticadas. E, no centro do canteiro do meio, tem umas em cor de rosa, um cor de rosa afirmativo, quase pink. Também tem, por vezes, no canto do canteiro junto ao muro, rosas em encarnado profundo, tinto, umas rosas quase dramáticas.

Comigo, in heaven, as rosas não se dão. As rosas precisam de cuidado, não podem sofrer temperaturas extremadas, não podem sofrer a inclemência das securas ou dos ventos intensos. Sá um dia que eu esteja lá mais assiduamente e possa ter um canteiro abrigado para elas. As rosas, femininas como são, são bicho de requebros, requerem atenção, olhares devotos pousados na sua pele, alguém que aspire o seu perfume e reconheça a sua intrínseca beleza.

O que lá se dá, e eu gosto muito -- e, quando estão floridas, estou sempre a avisar que não se confunda com silvas -- são as roseiras silvestres que dão efémeras e muito perfumadas rosas em Maio. Têm aquele perfume que, para sempre associarei aos domingos de Maio em que se celebrava a primeira comunhão dos meninos da minha escola e à pequena capela decorada com gipsófila e rosinhas onde eu estava de anjinho e onde, uma vez, tomei pela primeira vez a hóstia e não fui de anjinho mas com um vestidinho de renda branca que salvo erro também usei quando fui de menina das alianças no casamento dos meus tios.

Gosto muito de flores, de todas as flores e encanto-me e espanto-me com a sua suprema perfeição mas, de facto, se quiser ser justa, terei que reconhecer que a flor que talvez mereça a mais profunda admiração seja mesmo a rosa. A rose is a rose is a rose -- e não há como negá-lo.

E mais ainda desde que, em boa hora, me contaram o milagre da rosa de Paracelso e eu, para sempre, fiquei presa a esse milagre, a essas palavras. E, nos meus pensamentos mais secretos, eu recordo essa rosa que sempre renasce, sempre, apesar de viver naquele reino misterioso em que vive um certo tigre azul que se esconde no meu coração. 

Estas que aqui abaixo, no vídeo, se vêem, lindas e perfeitas, tâm a graça suplementar de crescerem no Quénia e de serem as mãos cuidadosas de mulheres como Winnie Gathonie Njonge que delas tratam com mil desvelos até que as colhem e deixam que atravessem lonjuras para ir encantar gente de terras longínquas.
Some of the best roses in the world bloom in Kenya. While the country is widely known for its scenic national parks and wildlife reserves, it’s also a major flower producer. Winnie Gathonie Njonge is the production manager at Nini Flowers, which sits on the shores of Lake Naivasha. She knows all there is about growing perfect roses and oversees the harvesting of 300,000 to 450,000 a day. “The ultimate goal of growing roses is to make other people happy,” she says. It brings her joy to know the roses she cultivates are sent to the United States, Japan and other countries, spreading love and beauty all over the world. 

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Estava na dúvida: apetecia-me uma música dançável mas, ao mesmo tempo, queria que tivesse a ver com rosas. Acabei por decidir-me pelo Bécauld, 'L'important c'est la rose' que não sei se é a mais indicada. Mas, enfim, talvez seja, talvez seja boa também para dançar, uma dança feliz como devem ser todas as danças que se dançam nos braços de quem se ama. E se a mulher tiver no cabelo uma rosa tanto melhor. Ou, se o penteado a tal não se proporcionar, pois que a coloque no decote. Uma rosa bela, renascida, eterna, encostada ao coração nesta bela noite de verão.

sexta-feira, agosto 02, 2019

Ler a mente em dia do caneco e de noite povoada por quimeras




Talvez em todas as eras tenha havido isto de se achar que se está a caminhar para o fim dos tempos, tudo a degradar-se, tudo a entrar num processo de decadência acelerada. Pior: uma desintegração pouco digna. Mas talvez isto aconteça desde sempre. Talvez seja da natureza humana cavar o próprio túmulo. 

Ou, então, sou eu que, como acho de um pacovismo insuportável acharmos que somos melhores ou diferentes do que outros, prefiro pensar que somos iguais desde que nos pusémos de pé e começámos a perceber que pensamos: frágeis, incoerentes, mais irracionais do que os outros animais.

Mas enfim, isto era a introdução. Estou dada a intróitos e nem sei porquê já que, na verdade, estou até em dia pouco dado a frescura.

Estou a tentar pôr para trás das costas tudo o que hoje me caíu em cima. A começar, uma reunião em que algumas coisas ditas de forma ligeira por outros que não eu se prestaram a interpretações ao lado, conduzindo a conclusões erradas e perigosas. Depois, um conjunto de situações que me parecem pouco transparentes para o meu gosto e às quais não quero estar ligada levaram-me a desafiar quem prefere estar instalado, e a expor factos que toda a gente acha que deviam permanecer no limbo opaco onde é suposto habitarem. Acontece que eu, quando desencabresto, sou difícil de agarrar. Agora mesmo disparei dois mails que presumo que, a esta hora, estejam espetados na garganta de quem os recebeu.
Como sempre, não sei quais as consequências disto e podem ser radicais para mim mas, se nunca pactuei com coisas que não me agradam, agora, então, não me limito a afastar-me ou a dizer discretamente porque me afasto. Agora é à bruta, às claras e a bola chutada para o lado de lá e outro que não eu que se atravesse e assuma a responsabilidade por dar cobertura a situações que comigo não, violão.
E, portanto, foi neste desencabrestado estado de espírito que fui à procura de notícias boas que me trouxessem bons auspícios, boa energia, boa onda, coisa cheia de smiles e emojis saltitões. 

Mas está bem, está. Só notícias do caraças, sendo que aqui o caraças é mesmo sinónimo de caneco, de cacete (e, aqui, refiro-me ao cacete mal conotado) -- ou seja, porcaria e da grossa.

Tenho ideia que o nosso estado de espírito atrai. Se estamos numa boa, só nos chega coisa boa, radiosa. Se estamos com as candeias às avessas, só damos com meia rota, jararaca, lâmpada fundida, cocó de cão debaixo do sapato, peixe de olho baço e arremelgado, côdea dura e bolorenta. Coisas assim.

Para atestar, passo a enunciar as trastes de notícias que vieram até mim:

Cientistas cruzaram macaco com pessoa. Chamaram quimera ao ser e, quando viram que tinha vingado, supostamente não o deixaram ver a luz do dia. Supostamente, repito. A coisa deu-se na China onde estas coisas da ética não colhem lá muito. Entretanto, o Japão já deu o ok a que se avance com o mesmo, dizem que é promissor, que vai ser do melhor, que desses híbridos se vão poder sacar órgãos que é um mimo. Se a dita quimera, meio macaco, meio gente, tem ou não raciocínio ou sentimentos isso não interessa para nada. Mas eu, talvez por estar num estado a modos que meio irritadiço, acho que isto é daquelas ideias peregrinas que não pode acabar bem. Parece até pesadelo pronto a virar realidade cabeluda e malvada.

E outra que também é do mesmo calibre é aquela de haver implantes tecnológicos que lêem pensamentos e os traduzem em palavras. Mind reading they say. A Google e o Facebook na competição, anunciando para breve notícia de estalar o mundo. Que pode ser bom para dar voz a quem não a tem, pode, mas que também pode ser diabólico e descontrolado, pode. Diz que é para, num mundo dominado pela inteligência artificial, os humanos poderem alinhar. Diz. Mas pode também ser o caminho aberto para a manipulação absoluta, para a ficção megérica virar realidade, coisa mil vezes pior que filme de terror. Não quero nem pensar. Um precipício negro a desenhar-se à frente dos pés dos estúpidos humanos.

E já nem falo nos robots que falam de uma maneira que parece humana, respondendo a perguntas, na maior das calmas. Ou, como desde hoje em Espanha, drones que nos sobrevoam e multam se nos esticarmos, carregando demais no pedal. Ou câmaras de vigilância que nos filmam e fotografam mesmo em ruas sem luz, reconstruindo a nossa imagem a partir do know how que entretanto adquiriram, machine learning e coiso e tal.

E, portanto, eu que andava à procura de notícia boa -- campo de flores, borboleta multicor a rodopiar em volta, mavioso canto de passarinho, poeminha bom segredado ao ouvido, fotografia de coisa nenhuma, história brava de princesa guerreira, filme de bailarino alado, árvores majestosas cheias de esconderijo dentro, planta do bosque com propriedade mágica e efeito benfazejo -- dei com os burrinhos na água, ou melhor, com a tromba na porta. Dito de outra forma: dei foi com coisa perversa, prenúncio de monstro, nuvem carregada de tempos pesados, caminhos estreitos que vão dar a becos que não auguram nada de bom. Uma chatice, em suma.





E isto aqui abaixo não será novidade. Mas mostro porque não gosto.

Aliás, Alexa, Siri ou Google Home, tanto dá, tudo a dar no mesmo.


 Trouxe aqui pintores mexicanos porque me apeteceu ter cor. Ao menos cor.
Penso que é tudo ou quase tudo de Lourdes Villagómez excepto a do macaco que é do Jose Santos


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E uma happy friday a todos, tá?

terça-feira, julho 30, 2019

Avistamentos no metro, conversas sobre automóveis e, com vossa licença, algumas ignoranças neste mundo pequeno


Que não se pense que me armo. Nada. Não é isso.

A questão é que, por ter que me movimentar bastante entre distâncias que são razoáveis, não apenas a nível pessoal mas, sobretudo, a nível profissional, me vejo forçada a deslocar-me de carro. E, por isso, não sei há quantos anos não ando de transportes públicos. A última vez foi há uns bons anos e foi uma pequena deslocação de autocarro (de que aqui dei conta pela diversão que foi).

De metro, então, nem faço ideia. Resmas, paletes. Muitos anos.

Ainda ontem conversávamos sobre isto: o mundo desorganizou-se de uma forma irracional. 

O número de carros que invadiu as cidades é um absurdo. Há gente demais a trabalhar longe das suas casas, tendo que se deslocar bastante. Como frequentemente não há transportes directos acabam por usar o carro, em especial se tiverem que incluir no trajecto a escola dos filhos. Tenho alguns colegas que usam os transportes públicos mas apanham quatro transportes para chegar ao emprego, consumindo nisso quase duas horas (duas para cá mais duas para lá). Esses são os que não têm dinheiro para irem de carro. 

Uma coisa horrível, horas de vida desperdiçadas.

E sei do que falo pois, apesar do cu tremido, não são negligenciáveis as horas que também estupidamente desperdiço.

As ruas estão pejadas de carros. Nas ruas, em pára-arranca, nos passeios, em cima dos passeios. Carros, carros e mais carros. Já nem falo na poluição, problema maior. Falo agora na invasão territorial, retirando a possibilidade às pessoas de andarem nos passeios, desfrutarem a cidade. 

No dia em que os aspectos da sustentabilidade do planeta e da qualidade de vida das pessoas forem levados a sério, uma quantidade de políticas integradas e disruptivas terá que ser posta em marcha.

[Pena que, em vez de se limitarem andarem de roda de temas do tamanho de golas, os políticos não se ocupem de coisas verdadeiramente relevantes)

Este punk alternativo,
leva uma tira de entrecosto na cabeça

Não sei se as medidas passam por fazer pesar crescentemente a fiscalidade sobre cidadão em cujas habitações exista mais do que um carro, se simplesmente por aumentar os transportes públicos de qualidade. Ia escrever de qualidade e rápidos mas não é preciso pois, mal se consiga reduzir o número de carros em circulação, o trânsito fluirá melhor. E outra coisa que, de resto, já se vê bastante em Lisboa: ter cada vez mais vias bus. Se se facilitar a vida aos transportes e complicar aos carros individuais os hábitos começarão a mudar. 

Mas, enfim, quando a questão é sistémica, para actuar sobre ela é preciso actuar em todas as suas variáveis. E são tantas. Portanto, nem vou aqui dar palpite porque o assunto é sério, é para urbanistas, para gente que estudou e sabe do assunto, não para amadores especialistas em palpites.

Agora uma coisa é certa: um dia que me veja livre desta coisa de trabalhar parte do tempo numa cidade diferente daquela em que vivo e no resto do tempo numa terceira cidade, é muito provável que compre um passe social (e baratos como estão ainda melhor) e me desloque quase exclusivamente  em transportes. Nem sei até se, sendo velhinha, não terei ainda rebuçadinho exta. Claro que, para ir a casa dos meus pais ou para o campo, irei de carro mas, tirando isso, vai ser uma liberdade fantástica. Só o facto de não ter que andar às voltas para ver se descubro um lugar para deixar o carro me parece um alívio extraordinário.

Reparem na bolsa que o senhor leva na mão
(mais do que uma bolsa,
uma escultura em madeira)

E depois há outra: tenho ouvido dizer que as estações de metro estão uma graça, com obras de arte, coisa de dar gosto. Quando confesso a minha pecha, não acreditam e vão desfiando: 'Mas quê?! Nem a do Chiado?!' e vão dizendo uma atrás de outra. Galeria de arte que um dia terei mesmo que frequentar.

Quando andava a estudar, deslocava-me de metro que me fartava. E gostava. Arranjando-se lugar sentada, então, até dava para ler. Bem bom. 

Como sempre gostámos de fotografia, durante alguns anos assinávamos a Photo. E lembro-me bem de algumas reportagens feitas no metro de Nova Iorque, Coisas do além, as que se viam. Por cá tudo muito neutro, muito mediano e, por lá, de vez em quando, cada excêntrico, cada exótico mais engraçado... 

O Bored Panda tem uma série também cheia de imagens insólitas. 45 Funny And Strange Things Spotted On the Subway 

Estive a ver de gosto (e aconselho a que vão até lá para ver se também não ficam a ver de gosto como eu). Da minha parte, ainda maior teria sido o gosto se pudesse tê-las visto ao vivo e, oba!, fotografá-las.

Acho mil vezes mais piada a coisas assim do que ver gente muito emproadinha.

No outro dia tive um almoço de trabalho num dos restaurantes icónicos da cidade. É grande, muito bem decorado, muito caro, cheio de empregados que se sentem gente muito importante, nobres de gema. Enquanto lá estive, vi chegar, em separado e para mesas distintas, um reputadí$$imo e pentadí$$imo advogado da nossa praça, pouco depois um conhecido especialista numa dada matéria e, por isso, presença assídua nos comentaderos da TV e, pouco depois, o empertigadote líder parlamentar de um partido da oposição acompanhado por um trio que cá para mim eram de um jornal (e a ver vamos se, um dia destes, não vai sair uma cena daquelas 'à mesa com'). Tudo gente apertadinha, daquela que não parte um pratinho, gente dentríssimo da caixinha, sem um fio de cabelo descomandado-zinho. E eu, igualmente rodeada por ilustres cavalheiros bem comportados, só pensava que haveria de ter graça se, numa mesa qualquer, alguns dos comensais, indo ao engano, se apresentassem em contramão, ruidosos, uns declamando poesias do Bocage, outros cantando canções de escárnio e maldizer. Isso, sim, é que era. Mas não. Tudo bem comportado do princípio ao fim. Além disso, o arroz estava mal cozido, encruado. Não paguei a conta mas é daqueles almoços que grátis mais grátis não pode haver. Além disso, puxa, a pagar é que lá não punha os més. Mesmo.

Cenas.

Cá por mim, mal por mal, mil vezes preferia ir passear com um cacho de bananas pela trela.

Cá está:
um cacho de bananas com uma trela, como se fosse um animal de estimação
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E, a despropósito, dois vídeos muito bons com o doçura e o afecto que o sotaque brasileiro confere à língua portuguesa


David Sacks, que gravou com Tom Jobim, e Nelson Faria tocam e conversam sobre a Bossa Nova



E uma vez mais, aqui, um vídeo precioso pela voz e pelas coisas extraordinárias que a voz diz:

Manoel de Barros - O Livro das Ignoranças, Mundo Pequeno e Autorretrato


E agora vou dormir uma little sesta que o meu corpo continua a exigir que eu reponha as horas que não usei na noite de sábado para domingo. Se acordar pode ser que ainda cá volte porque hoje é daqueles dias em que assunto tenho bué

sábado, julho 20, 2019

Is this love?





Depois de dois dias preenchidos de alto a baixo, cansada das ideias e sem pitada que possa aqui reportar, é de gosto que regresso ao meu sofá e leio a troca de ideias na caixa dos comentários aos post 'Em tudo havia beleza'. Convido-vos a irem até lá -- e estejam todos à vontade para opinar se os humildes e sérios estão de um lado e os políticos de outro já que o tema se afigura como tendencialmente fracturante. E, mesmo que não se sintam apetrechados para esgrimir argumentos através de fraseado de fino recorte, não se acanhem, opinem na mesma. Ou, se preferirem, leiam apenas. Estimula os axónios e os dentritos.

Eu não digo nada porque tenho a cabecinha muito esvaída, as sinapses estão fraquinhas, um fiozinho de nada de energia a correr por entre um bando de neurónios adormecidos. O que há esgota-se no prazer de ler as espadeiradas entre a Isabel, o P. Rufino e o A Kullervo.

E o que posso dizer é que, de todas as notícias que li, agora que percorri num relance jornais e revistas, a única que reteve a minha atenção foi uma que não me agradou: o euromilhões saíu e não foi a mim. Ah, que desiludida fiquei. Já tinha um plano tão bom na minha cabeça: chegava ao pé de uma certa marmanjona que se acha muito madama e mandava-a ir comer bolotas. E chegava ao pé de uma pessoa por quem nutro genuína empatia, que juraria ser recíproca, e dizia que tinha muita pena mas que já tinha dado demais para o peditório do politicamente correcto pelo que sorry but bye buy, alimentasse ele a outra a bolota. 

Tirando isso o que posso dizer é que me apetece ir ao cinema ver um grande romance de amor, uma daquelas fitas em que há sedução, uma inteligência fulminante ao serviço do amor, passeios no bosque, canto de passarinho na copa da árvore sob a qual o casal se abriga para experimentar os prazeres do corpo, desacatos caprichosos, cenas de ciúme mal comportado, e, para apimentar a coisa, um professor de uma matéria muito inesperada surgido do nada, uma prima inocente que só atrapalha, um mistério de resolução impossível -- e uma cabana na serra e mil olhares suspeitos, mil olhares de pura atracção, mil olhares de puro deleite, mil olhares de uma incontornável malícia. Ah, e um filósofo poeta para desafiar preconceitos e ortodoxias. Ou seja, um filme daqueles com um enredo onde não se possa pôr defeito. Mas ao espreitar o que aí vai só vejo o Rei Leão e afins. Portanto, mais uma frustração.

Poderia ir à procura de dvd, rever a Constance ou outra, ou o Visconde do olhar irrecusável e uma língua a passear pelos lábios na mais descarada alusão, ou outros. Mas ver filmes em casa é sucedâneo, coisa insuficiente. Bom mesmo só no escurinho do cinema. 

Ou livro. Livro de amor. Ah, apetecia-me um livro de amor, mas dos bons, uma escrita destilada, frases elegantes, daquelas que deslizam sem ruído, uma melodia suave e bela, palavras que se se enleiam como se dançassem abraçadas, um daqueles abraços profundos, longos, pele, carne e entranhas em sintonia, corpo uno, e o prazer absoluto da admiração mútua, do olhar que não sabe como desprender-se. Mas também não sei de nenhum que desconheça, que me surpreenda como se me deixasse em mar alto, me tirasse o pé, como se estivesse a fazer-me nascer pela primeira vez.

Ou carta. Carta também seria bom. Uma carta linda, um papel bonito, suave como uma seda roçagante, e nele uma letra sincera, palavras boas de ler e reler e reler, mil vezes. E que lá de dentro, ao desdobrar o papel, se soltasse uma flor romântica, perfumada como só as flores de amor conseguem ser. Mas já não há cartas. Para que estou a pensar no que apenas existe na minha memória?

Também podia ouvir bater ao de de leve aqui na janela e apanhar um susto dos antigos e, ao ir espreitar, trémula e aflita, descobrir um pequeno vasinho de violetas com um bilhetinho e, desdobrando o bilhetinho, um poema. Mas um poema de verdade, sem palavras normais, só palavras leves como delicadas notas de música. E um tigre azul a saltar do telhado para a rua, um salto leve como um voo.

Mas qual quê. Tenho que aceitar que tudo isto não passa de uma louca rêverie numa noite quente que desliza para o fim de semana.


Portanto, vou ver se me ocorre um assunto qualquer sobre o qual escrever porque, assim de repente, não me ocorre nada. Só se me puser a ouvir poemas.


Ou isso ou pensar naquilo de que, na volta, há vida por aí a pontapé, por todo o lado na nossa galáxia e no universo

Até porque, se calhar, um dia abro a janela e entram-me mil folhinhas de papel, cada uma com seu poema, poemas feitos de palavras até aí inexistentes, cintilantes como se nascidas de uma luz ao mesmo tempo muito antiga e muito nova -- uma luz impossível de descrever porque nunca antes sequer imaginada -- e mil pétalas cada uma de sua cor, cores nunca vistas, perfumadas, acariciantes, ciciantes como segredos sussurrados ao ouvido. E, se olhasse para o céu, é mais do que certo que veria mil serzinhos insolentes, insolentes como nunca antes conheci nem em vida, nem no cinema nem em livro. 

Mas, pronto, vou calar-me para não estar para aqui a maçar-vos com esta falta de assunto.

["Je ne peux pas choisir l'air que je respire - pourquoi serait-il différent avec les sons que j'entends, les symboles que je vois?" -- on m'a dit e eu não sei o que responder porque é óbvio que é mesmo isso]

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A primeira fotografia é de Sanjeev Gupta e a segunda não sei.

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Um belo sábado.
Saúde, alegria e amor para todos.

quinta-feira, julho 18, 2019

Em tudo havia beleza
[Mas eu agora mal consigo ter tempo para ela]





Só para dizer que estou esperançada de que a partir da próxima semana e até ir de férias o meu ritmo possa abrandar. Mas até chegar ao fim da semana vai ser obra.

E se há trabalhos que faço de gosto há outros para os quais parto em esforço -- e os que invadem todo o meu espaço e me deixam sem tempo para mim são deste último tipo. Gosto de gerir o meu tempo. Fico impaciente e cansada quando não consigo dispor nem de uma escassa fracção de tempo, quando não consigo nem uns minutos em que não tenha que estar com atenção. Satura-me ter que estar no activo desde madrugada até tarde na noite, para recomeçar no dia seguinte logo ao romper do dia e, uma vez mais, non stop até que o dia acabe,

Quando digo que admiro as pessoas que exercem cargos públicos -- até pelo facto de terem que estar disponíveis todos os dias, de sol a sol quando não de madrugada à noite -- falo genuinamente. Não ganham tanto quanto isso e sacrificam completamente a sua vida pessoal e familiar.
Sei que muitos dos que me lêem (a Isabel, por exemplo) não concordam nada com isso, acham que é tudo gente oportunista e que, por muito que eles se esforcem, nunca lhes devemos nenhum agradecimento. Eu não penso assim. Claro que há, entre eles, gente corrupta, incompetentes e caciques. Esses, bem entendido, não merecem qualquer admiração ou apoio, merecem repúdio ou cadeia. Mas os que generosamente dão muito de si a bem dos outros, a esses eu acho que somos devedores de gratidão.
Mas isto para dizer que ultimamente não me chega o tempo para mim e me sobra o trabalho e isso, no balanço dos dias, pesa-me, deixa-me com a sensação de tempo mal aproveitado e, sobretudo, com vontade de férias.

Penso em falar de algumas coisas, falar de livros, evadir-me, inventar gente, dar vida a quem existe apenas aqui, contar história, criar romance, pôr-me dentro da pele de mulheres imaginadas e desatar a ultrapassar obstáculos,  a apaixonar-me por homens ficcionados ou armar ciladas de sedução a outros apenas antevistos, pôr toda a gente a viver loucuras, desafiar uns e outros, rir, chorar, ficar a pensar no que irão eles fazer a seguir -- e não tenho disponibilidade para isso. E fico a atrasar enredo, a atrasar conversa, a atrasar palavrinhas sobre livros ou sobre outras coisas; e, com o tempo, vou esquecendo o que tinha para dizer porque as ideias vão sendo devoradas pela pressão dos dias.

No entanto, não posso esquecer-me que está quase a fazer um ano que, estando eu em idêntico vórtice, fui surpreendida com um convite tão do além e tão irrecusável que fiquei numa saia de tal forma justa que, tendo resolvido dizer que não, assumi sérios riscos e passei por momentos muito difíceis. Mas de tal forma avancei de peito feito para o não que parece ter sido remédio santo. Contudo, dentro de mim parece que ficou a bailar o receio de que volte a acontecer. Ainda no outro dia um colega me dizia que tinha recebido um convite que era daqueles a que não se pode dizer que não. E, então, vai passar parte da vida num distante continente, viagens de muitas horas que fará de quinze em quinze dias para ver a família. Está apreensivo, sabe que corre risco de ser trucidado pelos lítigios que vai ter pela frente, está aborrecido porque vai ficar longe das duas filhas adolescentes. Mas não lhe passou pela cabeça dizer que não pois, segundo ele, quando se recebe um convite destes, não se pode dizer que não. Eu, sem pensar, teria dito: não. São maneiras de ser. Ou estadios do nosso percurso.

Mas é assim mesmo, é a vida. Uma sucessão de desafios, de descrenças, de entusiasmos, de cansaços, de alegrias. E de sei lá que mais. Tanta coisa.

Hoje, no trânsito, li quais os livros que o Prof. Marcelo tem para o verão. E à hora de almoço fui numa corrida a uma livraria e, pimbas, voltei a pecar. Não todos mas o qb. Comprar livros sabendo que o tempo não me chega para meia dúzia de linhas, quanto mais para meia dúzia de livros é vício, é doença, é pecado. Mas é também prazer e a minha alma de pecadora fecha os olhos quando a tentação aperta e, então, eu avanço às cegas, disposta a ceder.

Foram o 'Leonardo da Vinci' de Walter Isaacson, a 'Educação do Delfim, cartas de Calouste Gulbenkian a seu neto', 'Em tudo havia beleza' de Manuel Vilas. E depois, estando já no trilho do pecado, foram mais dois. Não resisti: 'Nem um dia sem uma linha' de Mário de Carvalho e 'Trajectos filosóficos'  de José Gil. E tenho ideia que outro mas acho que o meu marido já rapinou daqui um, levando-o para ler na cama. 

Estou a pensar se devo levar um para estes dois dias mas a verdade é que, na viagem, vou sempre na conversa  e, lá chegada, não tenho um minuto e, quando chegar à noite ao quarto, já irei capaz de cair para o lado e, ainda assim, tentarei vir ao blog escrever umas tretas de nada. Mas tenho isto, outra mania, levar sempre um livro. Melhor, dois. Para o caso de poder ler; e dois pois posso não estar com disposição para um, tenho que ter alternativa. Maluqueiras. Mas estou com uma tremenda vontade de ler 'Em tudo havia beleza'. Acho um título muito bonito. E é tão verdade: em tudo há beleza. Não há?

É também poeta, ele. Fui ao Youtube e apeteceu-me ouvir um poema dele.

Escolho este Mujeres lido por um actor e não por ele pois os que são lidos pelo próprio têm mau som. Estive a ouvir e se há passagens que me incomodaram, outras fizeram-me ter vontade de ouvir devagar.

Mujeres, Manuel Vilas


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As pinturas são de Franz Marc

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E agora vou pregar para outra freguesia pois não tarda tenho que me pôr a caminho.

Um dia feliz a todos quantos por aqui me aturam.

domingo, julho 14, 2019

Mulheres nuas a ler.
Ou em topless.
E em grupo.





Há coisas que não percebo. Não estou com isto a dizer que não concordo, digo apenas que não percebo. Talvez porque tantos anos de falta de democracia e fechamento deixam marcas na sociedade, talvez ainda não tenha conseguido libertar-me de ideias que, na volta, só demonstram que sou antiguinha: é que associo o corpo não apenas a um invóluco assexuado dentro do qual se arrumam os órgãos e se esconde a alma mas a isso tudo e mais a um objecto de sedução e desejo, ou seja, tudo menos um objecto assexuado. E isto seja o corpo de uma mulher ou de um homem. Sendo hetero, se estiver ao pé de um belo corpo de homem, não posso deixar de olhar de gosto. E se, por acaso, calhasse estar sentada numa praia ou num parque e, junto a mim, estivesse um grupo de homens nus a ler, eu haveria de me ver grega para não me pôr a olhar à descarada. E mais: haveria de ter que me esforçar muito para não tirar todas as medidas, para não apreciar as posições, os gestos, a graça, a capacidade de malandrice.

Da mesma forma, se, numa tarde, no relvado de um parque ou à beira de um lago, visse um grupo de mulheres nuas, muito me espantaria que nenhum homem prestasse atenção, como se elas não passassem de um normal um bando de patos. 


Mas, lá está, na volta sou eu que sou antiquada. Se calhar por essas e por outras é que não consigo identificar-me com os movimentos feministas. Eu defendo a igualdade de oportunidades, a igualdade de direitos e deveres, entendo que uma mulher não é menos nem mais que um homem. Mas não consigo defender que o corpo de uma mulher seja um objecto assexuado tal como não acho que se um homem olhar com interesse para o corpo de mulher isso é sinónimo de machismo. Não aceitarei se for incorrecto, invasivo, estúpido, abusador. Mas olhar, mostrar interesse, ser simpático e não o esconder caso sinta que há reciprocidade, isso parece-me até saudável da parte de um homem.

E agora poderia dizer que há uma outra coisa que não percebo mas aí já hesito. Creio que já ouviram falar de clubes de leitura exclusivos para mulheres, sendo que elas se põem nuas ou em tronco nu para ler. E hesito porque percebo que se associe a nudez à leitura: um bom livro, quando verdadeiramente nos toca, é como se quisesse fundir-se connosco, como se a nossa disponibilidade para o receber fosse total. Mas isso é a única coisa que consigo perceber porque, de resto, também não percebo nada. Não percebo qual a graça de clubes só para mulheres ou só para homens. Nem percebo a lógica de um grupo de mulheres se juntar, em tronco nu ou todas nuas, para ler. 


Mas também admito que talvez pense isto porque nunca experimentei.
Quem sabe um dia não resolvo fundar o Clube das Leitoras Jeitosas? Traço um roteiro: Parque Eduardo VII, Jardins da Gulbenkian, Jardim Botânico, Jardim da Estrela, Jardim do Palácio de S. Bento, Jardim do Palácio de Belém, etc. Quiçá depois para outras cidades. Castelo Branco. Lousã. Faro. Vila Viçosa. Vila do Conde. Mértola. Sines. Coimbra. Porto. Etc. 
Uma vez por semana num dos Jardins, as Jeitosas todas nuas a lerem. Querendo poderiam ficar apenas em topless e querendo, para além dos livros, poderiam levar também farnel para um lanchinho. 
Mas adiante.

Como nunca me integrei em nenhum clube de leitura, não sei como se processa a escolha dos livros. Sei que há o livro sugerido mas não sei se o processo é rotativo, se uma semana escolhe uma, noutra semana escolhe outra.

E também não sei como se faz se o livro da semana for uma pepineira. Podem os membros exercer a objecção de consciência? Não ficará um clima de má onda entre os membros do clube se alguém, esforçadamente, seleccionar um livro e umas quantas flausinas se puserem a olhar de lado, a torcer o nariz?
[E imagine-se a cena com as flausinas de nariz torcido e com os mamilos em riste. Lindo. Ai, eu, o Valter Hugo Mãe não, pleeeaase, não é a minha praia, amigas -- e os mamilos espevitados, sem conseguirem disfarçar a irritação]
Bem.

Mas há outros tipos de clube: coisa mais discreta, menos (des)sexualizada, tudo mais na base da voz, gente que contribui com a sua leitura. E, de novo, não sei que diga pois estou habituada a ler em silêncio e não sei se esse prazer é substituível pelo da audição. Apenas de vez em quando, geralmente quando vamos de viagem, leio em voz alta para o meu marido. Não é frequente mas já aconteceu. Ele gosta. Fazemos quilómetros naquilo, eu a ler e ele atento a ouvir. Mas gravar? Cada uma ler um capítulo? Depois haverá pachorra para ouvir ler os capítulos que as outras leram? E se umas se armam em declamadoras do D. Maria? E outras, a despropósito, em hot women, dando cabo do lirismo que o autor queria imprimir ao texto?

Ou seja, não percebo.

[No entanto, agora que escrevo isto, há uma situação que percebo: para quem tem dificuldade de visão, ouvir ler é a alternativa possível e aí até será uma iniciativa generosa, a de ler para os outros]

© Mikael Jansson pour Vogue Paris

Mas isto a propósito do artigo Pourquoi les clubs de lecture sont-ils à la mode ? na Vogue francesa.
Portés par des célébrités influentes, des podcasts littéraires et une philosophie militante, ces groupes de discussion vieux du 19ème siècle connaissent une nouvelle vague de popularité. Bienvenue dans les clubs de lecture 2.0. [...]

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Com excepção da última fotografia que é da Vogue, acho que todas as outras se referem a um clube que aparece referido no dito artigo, The Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society clube que, segundo percebo, defende o direito das mulheres a usar o seu corpo onde quiserem, mesmo que nu e mesmo que em público, como um corpo assexuado -- e isto para lerem onde muito bem lhes apetecer.

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Já agora:
Shakespeare a nu num dia de Tempestade

Members of Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society put on a production of Shakespeare’s “The Tempest” — and the actors were all female and all nude


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E, já agora, reconheço: há alturas em que sabe mesmo bem ouvir ler.
E eu sinto-me agradecida pela amabilidade de quem me traz belas palavras lidas:

"No sorriso louco das mães" de e por Herberto Helder sobre música de Rodrigo Leão



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E a todos desejo um belo dia de domingo

quarta-feira, julho 03, 2019

Será que ainda sou deste mundo?





Comecei o dia muito cedo e sabia que a coisa não ia ser fácil. Mas foi ainda pior. Na sequência de uma outra faena que tinha sido também bem complexa, ia preparada para esgrimir argumentos num sentido. Acho que sou dura na queda e, se acredito numa coisa, defendo-a com convicção. Mas não ia preparada para mais um flic-flac da outra parte. Suponham, os meus Caros, que, por exemplo, eu fazia uma cuidada e equilibrada dieta mediterrânica e tinha pela frente um pançudo que comia quilos de bifes a escorrer sangue, carregados de molhos picantes e acompanhados de quilos de batatas fritas. Ia preparada para o esclarecer sobre os malefícios do seu regime. Contudo, ao sentar-se à minha frente, para minha surpresa, ele apresentava-se como vegan. Eu a ver que não mas ele, convictamente, a esgrimir argumentos opostos aos expectáveis, a dar-me, a mim, lições de boa alimentação. Desconcertada, sairia dali furiosa. E, dias depois, indo eu preparada para rebater as vantagens do regime vegan, apanho-o pela frente e agora já não é vegan mas adepto de um regime à base de ovos crus e vinho do Porto. Ou seja, uma conversa de surdos, divergente, uma conversa impossível, assente em coisa nenhuma. Assim foi. Um cansaço e uma deprimente perda de tempo.

E quando, depois disto, me preparava para um almoço descansado, ainda que breve, eis que desaba um problema, coisa na base do susto completo: a possibilidade do céu nos cair em cima da cabeça vista de perto. Declaração de situação de emergência, um grupo sem saber bem o que estava a acontecer -- mas que não era bom não era. E sem que quem talvez pudesse ajudar atendesse o telefone. Uns com o telemóvel no silêncio, outros com o telemóvel no bolso e, no restaurante, sem ouvirem.

Depois, finalmente, uma explicação, um grupo de crise montado, a resolução a caminho.

Um almoço a correr, entre telefonemas, mails e mensagens.

E logo de seguida outra reunião e mais situações e diferenças de pontos de vista e mais coisas e mais coisas e mais coisas e mais reuniões nos próximos passos.

E, ao sair, mais uma chusma de mails e recados e problemas e sei lá que mais. E uma constipação a caminho.

Ao chegar a casa, meio exaurida da cabeça e a sentir-me engripada, diz o meu marido: eu se fosse a ti não ficava por dormir como dormes, sem nada por cima, janela aberta: ligava a ventoinha e apontava bem às costas.

É que não apenas sou eu que durmo do lado da janela (aberta) como durmo sem patavina em cima. Ele, ao meu lado, tapa-se com lençol e manta (fininha mas manta). Volta e meia ainda tenta pôr-me uma perna por cima mas tem a perna tão a ferver que o enxoto logo, não suporto dormir com um tição em cima. No inverno, como também durmo com pouca roupa, sabe-me bem encostar-me a ele mas no verão é impossível. 

E, na volta, ele tem mesmo razão, é mesmo capaz de ser o frescor da madrugada, que chega com gritos de gaivotas, que me causou um resfriado. Anda incerto este tempo. Todos os dias, ao ver o tempo que faz no dia seguinte, vacilo entre preparar vestes estivais ou prudenciais.

Mas isto tudo para dizer que há dias complicados, com pouca coisa boa.

Valeu uma coisa: enquanto conduzia, uma reportagem sobre  ECT, tratamentos com electrochoques. Juraria que foi na Antena 2 mas agora, antes de escrever, fui confirmar e não encontro. Para mim, um tema surpreendente. Falavam pessoas bipolares, outras com depressão, um com esquizofrenia. E falavam psiquiatras. E eu ia a ouvir com muito interesse, com vontade de conhecer melhor esta realidade, com muita pena das pessoas que sofrem assim, muitas vezes sentindo-se estigmatizadas, muitas vezes sem compreenderem porque se sentem tão arrasadas.

Pensei numa rapariga que trabalha numa das empresas e que desliza pelos corredores, com ar alheado, muitas vezes como se estivesse à beira das lágrimas. Quando a vejo passar assim, como se não estivesse ali, tenho vontade de a puxar para o meu gabinete e pedir-lhe que me conte o que se passa. Mas não sou psicoterapeuta, receio não saber lidar com o que imagino ser uma situação muito pesada, um outro mundo, um mundo onde não deve ser nada fácil estar, onde não se entra como se de visita -- teria que saber ajudar e temo não saber. 

E agora, enquanto escrevo, está a dar a Prova Oral com o grande Alvim e está lá o Manuel João Vieira e eu simpatizo tanto com ele. No outro dia, eu ia a descer as escadas que mergulham num parque subterrâneo e, à minha frente, ia um homem grande, de físico pesado, chapéu de aba larga. Ao fim do segundo lance, ele entrou para o parque e, nessa viragem, eu, que continuei a descer porque tinha o carro num piso mais abaixo, vi-lhe o rosto: era o Manuel João. E eu, em silêncio, soltei uma exclamação: 'Ah! O Manuel João!' e tive mesmo vontade de ir atrás dele e dizer-lhe: 'Simpatizo imenso consigo'. Mas nunca fiz isso com ninguém, não ia estrear-me logo com ele. Seria embaraçoso para ele e para mim. A fazer alguma coisa, teria que fazer uma coisa lógica, à altura dele, não um elogio dito de forma meio irracional.

No programa está também a Fanny que fala de coisas que não são já bem do meu mundo, diz que faz stories para manter o número de seguidores, e eles, ali no programa, mostram uns pequenos vídeos onde ela faz toda a espécie de parvoíces. Dá ideia que quanto mais parvoíces fazem para postar no Insta mais gente os segue. E nem sei bem que espectáculo é aquele em que ela vai entrar com o José Castelo Branco, fala creio que em roast. Quando lhe perguntaram um momento especial de manifestação de apreço, se foi quando saíu de algum reality show, a Fanny contou que uma mulher pôs uma mama de fora e pediu para ela a autografar. Uma coisa assim talvez fosse à altura do Manuel João. Eu, de salto alto, muito comportada, e fazer-lhe uma destas. Contudo, acredito que ele, na verdade um cavalheiro, ajeitasse o chapéu para disfarçar alguma estupefecção, e, a seguir, talvez mostrasse alguma caridade, talvez me aconchegasse o decote, me pegasse pelo braço e, cautelosamente, me levasse até ao Júlio.


E agora que aqui estou a descansar, percorri as news e dei com outra coisa desconhecida, uma coisa que penso que, se calhar, também já não é do meu mundo. E já nem falo da parvalhona da Ivanka, boneca insuflada, filhinha de papai, levada a passear ao G20, um absurdo que nem o mais maluco se lembraria de inventar. Falo de outra coisa. Falo destas pessoas que aqui abaixo se vêem.

Lil Miquela, Noonoouri, Shudu... Le phénomène des influenceurs virtuels

Aliás, terei que aprofundar porque nem estou certa de ter percebido bem de que se trata. Influencers virtuais. Vi as fotografias e fiquei na dúvida se é gente, se é coisa. Posam, mostram-se com roupas, parece que vão para o exterior, umas stars. Mas leio que é virtual, tudo virtual. Se calhar o exterior também é virtual. Mas têm montes de seguidores e parece que, agora, isso é que importa. E há vídeos com elas. E as casas de moda recorrem a elas. Elas e eles. E eu olho e não percebo o que é aquilo que vejo, nem percebo que descaminho é este em que os humanos parecem que gostam de seres inexistentes que emulam os humanos. Tudo demasiado estranho.


Sinto-me como que incomodada, aquela sensação estranha de não saber bem onde estou. Na volta é aquilo da zona de conforto, ou seja, é capaz de ser caso para dizer que esta gente virtual me tira da minha zona de conforto.

Por isso, fujo.

Leio, então, sobre árvores e livros, sobre lágrimas e terra, sobre coisas de estimação, frágeis, sobre pernas cruzadas que lembram o verão e figos e Godot e o mar, sobre sabores e cores e outros momentos e pensamentos de gente de verdade -- e isso traz-me o meu mundo, um mundo afável, diverso, humano, um mundo com recantos onde é bom estar, que apetece descobrir ou imaginar.

E, de caminho, vou em busca da paz dos bosques, do som da água, do canto dos pássaros, da música tranquila, dos gelados feitos com frutas, flores, vagares e sons familiares e envoltos em harmonia.


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I always wanted,
       to return
to the body
       where I was born.


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As pinturas que intercalei no texto são de Yoo Youngkuk

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Desejo-vos um belo dia. Alegria e saúde. E amor.