Gosto muito de escrever. Gosto de escrever a pensar que alguém gosta de me ler. Gostaria de escrever de modo a que cada uma das pessoas que me lê sentisse que era para ela, em particular, que escrevi.
Gostaria que as minhas palavras fossem como uma carta para cada um de vós.
Há muito tempo que não escrevo uma carta à mão para alguém -- ao mesmo tempo que não recebo nenhuma carta pelo carteiro. Por vezes, pelo natal ou pelos meus anos, uma amiga minha manda-me um cartaozinho no qual me pergunta por mim, pelos meus filhos, pelos meus netos, e informa-me sobre o seu filho, sobre ela, a quem sinto cada vez mas sozinha. Fico sempre com pena de as nossas vidas nos terem levado cada uma para seu lado, ela tão frágil desde que perdeu o marido, companheiro e amor da sua vida.
Dantes eu escrevia muitas cartas. Era um prazer. Sentava-me à escrivaninha e escrevia longas cartas. A seguir, ia, à pressa, pô-las no marco de correio já antecipando o prazer de receber a resposta pouco depois.
Agora há os mails. Gosto de receber mails, gosto dos que se parecem com cartas. Não consigo responder a todos nem consigo ser tão extensa como desejaria, mas isso deve-se, sobretudo, a que escrevo aqui. O meu tempo disponível não é muito.
Permitam, pois, que vos escreva. Se fosse por correio, juntaria uma fotografia ou as pétalas de uma flor.
Permitam, pois, que vos escreva. Se fosse por correio, juntaria uma fotografia ou as pétalas de uma flor.
Meu querido Leitor,
Espero que esta carta o/a encontre bem. Não tenho tido muitas notícias suas mas, como se costuma dizer, se não há notícias, isso são boas notícias.
O verão está à porta e eu, como sabe, gosto de ir para perto da água. Este domingo estive na praia. Não estava muita gente. A água estava muito boa.
Tinha havido um casamento, havia um toldo e bancos brancos e a areia estava cheia de pétalas. Junto à rebentação, estavam muitas conchas brancas, quase parecia um rasto de espuma para anunciar que por ali tinha passado uma noiva.
Vi também uma mulher que tinha umas ancas muito largas e umas nádegas excessivamente gordas e, imagine, vestia uma tanga de tipo fio dental. Usava um pareo à volta da cintura mas atrás levantou-o para ficar com o rabo ao sol. Ficava muito curioso. Ia andando e era como se tivesse levantado a saia e ficasse com o rabo de fora, um rabo descomunal. Aconteceu uma coisa também curiosa mas essa só a descobri agora. Queria fotografar um casal que, ao longe, brincava na água, aos mergulhos, e eu queria apanhá-los com a paisagem em fundo. Mas veio uma onda e eu desviei a máquina. Agora, ao passar as fotografias para o computador, vi que a fotografia está torta, que desse casal apenas apanhei metade da mulher e que, sem querer, apanhei um homem que estava sozinho na água. Vejo agora que estava nu e com uma erecção. Na fotografia está de perfil. Imagine.
Mas, claro, não mostro essas fotografias aqui. Prefiro mostrar conchinhas ou as flores das dunas, tão bonitas.
De tarde fui comprar uns ténis de rede, frescos. Custa-me sentir calor nos pés enquanto caminho, e não me dá muito jeito andar de sandálias. Fomos também comprar tintas. Escolhi um azul esverdeado e um verde azulado. Vou conjugar as cores para pintar umas paredes lá no campo.
Há bocado fiz sopa e fiz assim: numa panela meia de água e com um pouco de sal, juntei uma beterraba, um bom bocado de abóbora, uma cebola grande, quatro dentes de alho, uma courgette. Noutro tachinho, cozi alho francês cortado fino e feijão verde laminado. Quando estava tudo cozido, juntei azeite na panela e moí bem moído, para ficar bem cremoso. Depois juntei o feijão verde e o alho francês. A sopa ficou cor de vinho e muito saborosa.
Estive também a ler o livro O copo de cólera e, tal como ontem, gostei muito. De vez em quando aparece uma conjugação de palavras que cintila. E o texto vai decorrendo entre amores e calores, e da escrita transparece a sensualidade de que aquele casal transborda, e a gente a sentir que qualquer coisa ali começa a revelar uma qualquer tensão, nada que se tenha materializado, apenas uma electricidade invisível que parece aproximar-se do casal que faz amor de uma forma tão erotizada.
Mas estou a falar só de mim e isso não está certo. Deveria falar de si, querido/a Leitor/a, deveria dizer-lhe que gosto que esteja bem. E aproveito para dizer que me intriga não saber há algum tempo do André, que também nunca mais soube da Estrela, que me faz impressão não saber de pessoas de quem a gente se habitua de ouvir as palavras. Em tempos também eu sabia da Leonor, da Margarida, da querida Margarida, do António, e tanto que eu gostava das coisas do António, ou da Maria, sempre tão directa. E de tantas pessoas de quem há tanto tempo não sei se estão bem. Se souber alguma coisa dessas pessoas, diga-me, está bem?
Escolhi para ouvir enquanto lhe escrevo o pianista Alexandros Kapelis a interpretar, de Jean-Philippe Rameau, L'entretien des muses. Espero que goste.
Receba um abraço meu. Um abraço é a casa de que precisamos para guardar o nosso afecto.
Talvez porque gosto muito de ler cartas, também gosto de as ouvir. Permita-me, pois, que partilhe consigo um vídeo de que muito gosto (e que pertence a uma série relativa, justamente, à leitura de cartas).
Receba um abraço meu. Um abraço é a casa de que precisamos para guardar o nosso afecto.
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Trancrevo a história que prova a importância que, por vezes, a troca de correspondência tem na vida de algumas pessoas.
In September 1943, Chris Barker was serving as a signalman in North Africa when he decided to brighten the long days of war by writing to old friends. One of these was Bessie Moore, a former work colleague. The unexpected warmth of Bessie's reply changed their lives forever. Crossing continents and years, their funny, affectionate and intensely personal letters are a remarkable portrait of a love played out against the backdrop of the Second World War. Above all, their story is a stirring example of the power of letters to transform ordinary lives.
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Já antes aqui tinha tido Benedict Cumberbatch a ler “My dearest one", uma carta de Chris Barker dirigida a Bessie Moore.
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Hoje tenho Louise Brealey a ler uma carta de amor de Bessie Moore a Chris Barker
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Hoje tenho Louise Brealey a ler uma carta de amor de Bessie Moore a Chris Barker
"Dearest Chris"
Não é tão bonito?
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As fotografias que usei para ilustrar o texto (excepto, obviamente!, a de Bessie e Chris), foram feitas na Costa de Caparica.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.
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