Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Miguel Cintra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Miguel Cintra. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, abril 12, 2019

Cinco obras de arte em dias destravados




Os dias desta semana andam-me desencontrados. Na terça-feira, quando fui fazer o euromilhões, convencida que era quarta-feira, preenchi apenas uma aposta para sexta-feira. À noite, às tantas, quando estava a ver as notícias, vi a chave vencedora do euromilhões e, espantada, fui confirmar: era mesmo terça-feira. Fiquei a sentir-me desfasada. Hoje, estava a combinar reuniões e a tentar encontrar um buraco na agenda para 'amanhã' e outro para sexta. A pessoa com quem eu estava a falar olhou-me e perguntou-me: 'Que dia é hoje?' e eu, estranhando a pergunta, pensando que ele é que estava desorientado: 'Quarta' e ele 'Quarta...? Pois. Era bom, era. Mas isso foi ontem'. Fiquei desconfortável. Ele, simpático, tentou que eu não ficasse a pensar que o problema era meu: 'Os dias andam a passar a correr'

Há bocado, estava a ver como vai ser amanhã e voltei a ficar baralhada: já sexta-feira? Já dia 12? Já a meio do mês de Abril?


Aliás, de manhã, no carro, liguei a um a perguntar-lhe o que se passava para ainda não me ter respondido a um mail no qual lhe pedia uma data para avançarmos para uma certa coisa. E ele explicou-me que está sem recursos, que não encontra gente, que já está a contratar gente no Brasil e que prudencialmente o melhor era apontarmos para daqui por um mês. E eu fiz contas de cabeça e vi que aquilo ia dar para depois de férias quando eu, a estas horas, já queria era ter despachado aquilo. E, depois de desligar, fui a rebobinar enquanto conduzia e a pensar em que é andei a ocupar o tempo para não ter dado pelo tempo a passar desta maneira. E a verdade é que tive alguma dificuldade.

Talvez seja que, com a idade, venha uma aceleração do tempo. E isso não é uma boa sensação.

A meio da tarde fui a uma reunião onde estava alguém com mais dez anos que eu. Muito bronzeado, muito tranquilo. Explicou que vive agora a maior parte do tempo numa quinta na Beira -- junto dos passarinhos, disse ele. Como cheguei atrasada, expliquei que tinha apanhado o trânsito cortado numa certa zona. Ele sorriu, disse que em Lisboa ja não usava carro há muito tempo. E toda a sua conversa foi de pessoa sem pressa, de pessoa que não deixa os dias assarapantarem-se, fugirem sem se dar por eles.


Agora, antes de chegar ao blog, abri os jornais e vi a fotografia de um velho de cabelos brancos e longas barbas brancas. O título da notícia referia Assange e eu, desatenta, pensei que aquele era alguém que não ele. Noutro jornal vi a mesma fotografia. Olhei, então, com mais atenção. Percebi que era mesmo ele. E voltei a sentir-me a viver um jet leg agudo, como que sugada por um qualquer buraco negro. Pois se não há muito o homem ainda era relativamente novo, quantos anos decorreram sem que eu tivesse dado por nada para o homem já estar assim?

Serei só eu? O tempo está a andar ao seu ritmo normal? Só eu é que ando desfasada da realidade cronológica? Se calhar sou.

Enfim. 


Felizmente, encontrei um artigo que agora me alegrou: As cinco obras de arte mais espectaculares do mundo. Antes de deslizar pela página fechei os olhos tentando pensar em obras de arte espectaculares para ver se algumas coincidiam com a selecção de Claire Beghin. Depois fui ver. Zero. Aliás, das cinco, apenas conhecia Puppy de Jeff Koons, esta aqui acima, mas, na verdade, nem me ocorreu. Na altura, quando estive ao lado dela, fotografei-a de vários ângulos, acho que até tenho uma fotografia com ela atrás, coisa rara pois nunca apareço nas fotografias. Achei uma coisa bem apanhada. Mas mais do que pensar nela como uma obra de arte, achei uma ideia engraçada, bem arquitectada, engenhosa. 

E agora tenho estado a saber mais sobre cada uma. De facto, todas me parecem espectaculares e gosto de todas. A primeira, a das sete montanhas mágicas de Ugo Rondinone, já está a dar-me vontade de chegar lá ao meu little heaven e empilhar pedras e pintá-las. É o tipo de coisa que me traz alegria. 

Também achei fantástico o nome da aranha de Louise Bourgeois: Maman. Disse a autora que a obra era uma ode à mãe, a sua melhor amiga. Que associe a imagem de uma aranha à mãe e a uma pessoa muito amiga parece-me curioso.

A escada para o infinito, Diminish and Ascend de David McCracken, também é o máximo. Houve uma altura que me dava para meter escadas que não levavam a lado nenhum no meio das minhas pinturas. Não sei porque as fazia. Apareciam ali. Esta escada também me parece uma ideia fantástica. Parece que as gaivotas se espetavam no bico em que termina (acaba em bico, justamente para, através de ilusão óptica, parecer que acaba no infinito) pelo que agora o substituiram por um material menos rígido.

Mas a minha preferida é esta aqui abaixo. Celestial Vault de James Turrell. Acho uma ideia maravilhosa. Um local para sentir a magia do espaço imenso, o céu, a luz, o vagaroso devir do tempo.


-----------------------------------------

E não sei se A mão no Arado vem a propósito -- o mais certo é não vir -- mas apeteceu-me tê-lo aqui


sexta-feira, agosto 03, 2018

Bibliotecas onde se sente a pátria portuguesa





Por algum motivo de que agora não me lembro bem -- mas que tenho ideia que tem a ver com a longa noite fascista -- a palavra pátria não tem conotações lá muito boas. Ou, então, isso é fruto da minha imaginação. Pode ser.

Mas eu gosto do conceito pátria. Gosta da minha pátria. Em especial, identifico-me com aquela coisa de a minha pátria ser a língua portuguesa. Essa ideia é daquelas bem paridas: ouvindo isso a gente quase sente vontade de jurar a pés juntos que, pela língua portuguesa, morrerria.

E depois há aqueloutro território: o dos livros. Podia fazer uma casa só com livros: as paredes feitas de livros, uma cama, um banco, uma mesa. Livros. Um caminho feito de livros. Podia viver no meio de livros.

Não sei se uma pessoa se revela através dos livros que possui. Admito que sim.


Já vos contei que, de vez em quando, não tendo especial má impressão de uma pessoa, quase fico a desprezá-la quando me conta, deliciada, a porcaria de livro que anda a ler? A sério. Disfarço, claro. Mas vem uma tal onda de rejeição cá de dentro...

Ou música. Por exemplo, não tinha muito má ideia de uma certa criatura. No outro dia fiz uma viagem com ele. Às tantas, resolve pôr a sua play list. Fogo... Lá uma ou outra que se aproveitava mas, a maioria, uma basbaquice, uma pimbice... E o tipo todo contente. E eu, por dentro, 'és cá um belo basbaque...'

Bem. Falava eu de livros.

A ver se nas férias de verão convenço o meu marido a ir ao Ikea comprar uma estante alta e a levar a estante pequena para o hall dos quartos. Ando nesta luta há séculos... e ele recusa-se. Quer o hall desatranvacado e não quer ir ao Ikea. Mas já não tenho onde pôr os livros. Por exemplo, agora tive cá, até há pouco, três meninos. Os pais foram comprar bicicletas e deixaram-nos cá. As crianças queriam sentar-se no cadeiraozinho pequeno e tiveram que estar a tirar-lhe os livros de cima. Felizmente não quiseram ir para um sofá para onde gostavam de ir e que agora está soterrado por livros. Acho que tantos os livros que nem perceberam que, por debaixo, estava o sofá que era de estimação.


Claro que, se vier a conquistar a estante nova, já sei que vou ter a mesma tentação de sempre: repovoar de novo toda a biblioteca. Enfim, repovoar mais ou menos. Tirar tudo, tudo, para fora e voltar a reordenar, redefinir critérios, arrumar direitinho, à larga, deixar ficar espaço livre para acomodar novos.

Uma coisa que, um dia que tenha tempo para mim, hei-de fazer é andar a conhecer bibliotecas, ver qual a organização, espiar os critérios, deleitar-me com obrasfantásticas, respirar o cheiro bom dos livros.

.................................................

Estas três que aqui partilho convosco são três das mais belas bibliotecas do mundo. Conheço as duas situadas em Portugal e confirmo que são especiais, belíssimas. Poderão ver outras em The world's most beautiful libraries – in pictures, artigo do The Guardian -- baseado em In a new Taschen book, the Italian photographer Massimo Listri travels around the world to some of the oldest libraries, revealing a treasure trove of unique and imaginative architecture

.....................................................

E porque de palavras se fazem os livros e de livros as bibliotecas, aqui vos deixo algumas belas palavras ditas por quem as tão bem sabe dizer e escritas por quem as sabia arrancar da terra e de dentro do corpo


..................................

A 1ª fotografia é da Biblioteca do Covento de Mafra

A 2ª fotografia é o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro

A 3ª é a Biblioteca Joanina de Coimbra

.........................................................

Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, janeiro 01, 2018

2 0 1 8





E já cá estamos. Eu aqui e você, Caro Leitor ou Cara Leitora, aí desse lado. Juntos. Em 2018, um ano que começa e que eu desejo que comece e continue e termine em beleza. 

O tempo vai, o tempo vem. 

No outro dia escrevi isso num comentário a um texto que muito me impressionou e o João L. lembrou-me que, para alguns, por vezes é tarde demais para recomeçar. Talvez. Aliás, sei que sim. Mas neste infinito devir, a vida acontece mesmo quando alguns não conseguem acompanhar o tempo que passa. Outros o farão. Alguém agarrará o testemunho e seguirá em frente. E isso é bom na mesma. 

Já o contei. Há aquilo de que verdadeira sabedoria é plantar uma árvore sabendo que jamais nos sentaremos à sua sombra. Todas as árvores que plantei, plantei supondo isso. Hoje estão frondosas, imensas, cheias de pássaros, plenas de vida. 

Deixar o legado. Pode ser uma árvore, pode ser apenas a sua sombra. Ou apenas a sua memória.

E continuarmos, seguirmos em frente, sempre. E haja alegria na jogada. E haja esperança. E despojamento: se não for para nós, que outros o aproveitem. Generosidade. 


Recebi o Ano Novo em festa. Música, brindes, beijos, fogo de artifício. Estas fotografias foram feitas há pouco. Quero sempre recebê-lo assim para que ele se dê bem comigo e com os que me são queridos.
Desta vez tomei uma resolução: até este ano, quando soavam as 12 badaladas que precediam a meia-noite, todos nos atirávamos aos bagos de uva. E era sempre um problema: sendo enormes os bagos, não conseguíamos degluti-los ao ritmo de 1 bago por segundo. Chegava a meia-noite e estava tudo de boca cheia num esforço para não nos babarmos. Este ano foi diferente: em vez de bagos frescos, usámos passas. Uvas velhas para nos despedirmos do ano velho. Foi limpinho. Doze passas, depois o brinde à meia-noite, desejos, beijinhos, etc. A seguir, para brindar ao ano novo, comemos então tranquilamente os doze bagos de uva fresca. Assim sim. 
Penso que o ano tem tudo para ser um bom ano. Estejamos nós disponíveis para detectar oportunidades, para acolhermos os imprevistos que tantas vezes encobrem boas surpresas, saibamos dar sempre o melhor de nós, saibamos aceitar as diferenças, saibamos descobrir o que de melhor nós e os outros temos para dar. Saibamos ouvir e respeitar o nosso corpo. Tratemo-lo bem. E tratemos bem quem nos quer bem.


E tudo, tudo de bom. Que 2018 seja para vocês, queridos Leitores, queridas Leitoras, um ano muito bom. E para mim e para os meus também. Saúde e felicidade para todos.

Enquanto eu puder estarei aqui. E muito feliz me sentiria se pudesse contar convosco também aí desse lado. Juntos. Por todos os motivos, seria um bom sinal. Juntos. Inteiros. Felizes da vida.

..............................................................................

E agora deixem que comece o ano com poesia portuguesa dita por quem a sabe dizer com a sobriedade que é devida às belas palavras

Luís Miguel Cintra diz poesia portuguesa


................................

Um bom 2018 para todos!

.............................................

quinta-feira, dezembro 21, 2017

É hoje





Meus Caros. Isto hoje está impossível. Cheguei aqui ao computador depois da meia-noite. Vi os mails e ainda consegui responder a um. O Leitor dizia-me que descansasse e tirasse férias do blog por uns dias que os Leitores compreenderiam. Pela forma carinhosa como estava escrita e pelo cuidado, comovi-me e agradeci. A seguida ia escrever um post sobre isto de se terem privatizados os CTT e de a coisa estar como está mas, meus amigos, caí num sono profundo. Acordei agora. E não há volta a dar: não consigo. É hoje que não vou conseguir dar uma para a caixa. Não que não tenham existido mil outras situações idênticas. Mas penso que nunca tão nulas como me palpita que hoje será.

Já tenho comigo as mais de mil fotografias. Fomos buscá-las esta noite. Já fizemos umas compras que ainda faltavam (e tomara que não me lembre de mais nada). Tinha ideia de chegar a horas de ainda as separar por destinatários e começar a separar e embalar presentes. Nada. À vinda, vários acidentes, um trânsito sem explicação. Horas para tudo. Um desespero. Passo pelos acidentes e nem me ocorre pensar naquelas pobres pessoas ali no meio da estrada com os carros amachucados, apenas maldigo o tempo que me fazem perder.

Cansada. É que, com estas coisas e com o trabalho, só consigo começar com estas faenas natalícias depois das oito da noite. Amanhã mas um dia de reuniões e múltiplos afazeres. Conciliar uma agenda a rebentar pelas costuras com a preenchida vida familiar é um equilíbrio que, pelos vistos, deixa marcas. O estado de soneira profunda em que estou só pode ser disto. À hora de almoço, IKEA com a minha filha e com os miúdos. Compras a gosto dela e, de caminho, estar com pimentinhas que já estão sem aulas e que, se puderem ter umas saídas da escola, melhor se sentirão. Uma alegria, claro. O que gosto de estar com eles vale por mil cansaços. Mas a hora de almoço no ikea não é uma hora pequenina porque está repleto, porque o restaurante transborda, porque os miúdos brincam e é preciso estar de olhos neles no meio daquela confusão. Portanto, ao fim do dia, a saída do trabalho teve que ser mais tarde. E é sempre isto e, por uma razão ou por outra, nunca consigo sair cedo, vir cedo para casa.


Ainda não comprei o que o meu marido disse que queria de presente: uma serra a gasolina para cortar troncos grossos. Temos uma serra mas não é grande coisa etem que estar ligada à electricidade, não dá para andar pelo campo. Cada vez há ramos maiores que lhe dão muito trabalho a serrote. Éramos para ir ao Leroy. Gostamos de lá ir. Descobrimos ferramentas que percebemos que são úteis. Cada vez mais temos este apelo do campo, da terra. Mas ainda não conseguimos. Claro que dizer que é presente de Natal é uma forma de expressão mas, enfim, apesar de tudo, ainda temos estas coisas de crianças, da troca de presentes, mesmo que, na realidade, não sejam presentes-presentes. 

Enfim.

Hoje não deu e não está a dar para escrever sobre o que quer que seja.

Não estou a queixar-me, longe disso. Estou apenas a deixar um registo. Talvez isto seja mesmo uma espécie de diário.


No outro dia (ou ontem de manhã?) ouvi o Luís Miguel Cintra a dizer poemas e estava com ideia de tentar descobrir esse poema. Mas não consigo. Coloco apenas dois outros e este apenas não é coisa menor. É maior. Apenas que não foram estes que ouvi. Mas também não faz mal.

________________

E tenho que ficar por aqui. Não tarda tenho que estar a pé e não consigo escrever mais. Tomara que não encontrem gralhas assustadoras. Não vou conseguir reler.

As fotografias foram feitas durante o fim de semana in heaven

______________________

Um dia feliz a todos quantos têm a paciência de acompanhar esta minha adormecida peregrinação através das palavras. Saibam que vos agradeço. 

-------------------------------------------------------

segunda-feira, novembro 02, 2015

São precisas tantas coisas para que as nossas mãos se encontrem. Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias



Domingo tranquilo, dia de leituras boas, pausas a saborear a frase perfeita, olhos fechados a sentir o ambiente descrito: o apelo da natureza, a cumplicidade dos homens. O livro é Butcher's Crossing de John Williams e, tal como Stoner me prendeu, também este me tem enlaçada.

E passeio à beira-rio, à chuva, ao cair da noite que é quando os passeios sabem melhor, qualquer coisa de clandestino, qualquer coisa de interdito. Depois uma procissão silenciosa que passa. Um cheiro a castanhas assadas roçando a penumbra. Uma igreja iluminada à noite, dourada. Música numa tasca na praça, ensaio uns leves passos de dança, sinto-me leve.


Em casa, abrigada, deleitada, um candeeiro ao lado, o livro ao colo. Vejo-me nas fotografias, primeiro serena, depois a rir, depois a atirar-me para trás no sofá a rir ainda mais. Depois de novo sossegada, a olhar a câmara. 

Mais tarde sentei-me ao computador. Tinha visto uma reportagem sobre os refugiados, estava comovida. Mas custa-me falar, a quente, sobre o que muito me emociona: as crianças a dormir na rua, os pais exaustos, uma pessoa de muletas ajudada pelos outros, quase sem forças também, tantas crianças perdidas nas águas, por vezes tão perto da costa, tanta gente a morrer todos os dias nesse sonho vão de fugir da morte. 

Por isso, como poderão ver no post a seguir a este, apesar de ter uma garra a amordaçar-me o coração, preferi escrever sobre o falado regresso de Madonna e Sean, o tumulto das paixões sem freio.


Depois parei.

Agora dei uma volta pelos jornais online e por outros blogs. Queria esquecer o olhar daquelas crianças que atravessam países cujas fronteiras se fecham ou o desânimo dos adolescentes, desalentados, desesperançados, vendo estreitar-se o largo horizonte com que sonhavam. Mas não consegui que alguma outra coisa se sobrepusesse à tristeza que se tinha depositado em mim.

Então resolvi, antes, apaziguar o espírito. Quando se sente uma grande impotência perante o grande sofrimento pouco mais se pode fazer do que pousar a alma e deixar que as asas da poesia a levem para bem longe da imoralidade humana.

...

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio (...)

A mão no arado - vídeo novo do Cine Povero



Ruy Belo (1933-1978), "A mão no arado" in «O Problema da Habitação - Alguns aspectos», 1962 Luís Miguel Cintra in «Poemas de Ruy Belo»

...   ...   ...
Los ponientes y las generaciones.
Los días y ninguno fue el primero.
La frescura del agua en la garganta
de Adán. El ordenado Paraíso.
El ojo descifrando la tiniebla.
El amor de los lobos en el alba.
La palabra. El hexámetro. El espejo.
La Torre de Babel y la soberbia.
La luna que miraban los caldeos.
Las arenas innúmeras del Ganges.
Chuang-Tzu y la mariposa que lo sueña.
Las manzanas de oro de las islas.
Los pasos del errante laberinto.
El infinito lienzo de Penélope.
El tiempo circular de los estoicos.
.
(...)
Se precisaron todas esas cosas
para que nuestras manos se encontraran.

Las Causas - Jorge Luis Borges



Que as mãos que se procuram se encontrem.
Um dia. Talvez quando as maçãs brilharem ao sol.
...

As fotografias mostram paisagens na China e vi-as no Bored Panda
..

Sobre amores possíveis impossíveis, adiáveis inadiáveis, fala-se já a seguir.

..

domingo, julho 27, 2014

Estás aqui comigo à sombra do sol



In heaven, em paz, numa noite do fim de Julho. Enquanto vejo um filme - no qual duas mulheres se aproximam e se afastam, amores e desamores, pele contra pele, lágrimas, gritos, abraços - vou revendo as imagens de hoje à tarde. 







As figueiras estão carregadas mas os figos ainda estão pequenos, rijos, verdes. Percorrem os mesmos caminhos que os cavalos azuis que por aqui passam em tropel enquanto, sonolenta, deslizo entre o sono e a leitura, o sono e o sonho.

Os marmeleiros também têm marmelos, não muitos mas já a amarelecer. De longe parecem reluzentes mas, vistos de perto, estão cobertos por dócil penugem. Quando estiverem mais maduros libertarão um odor doce. Os figos também. Tal como os loendros agora. E o rosmaninho, o alecrim, o alfazema, o tomilho, os orégãos. E os pinheiros e os cedros. De todos se solta o doce perfume que atrai os cavalos azuis, os dançarinos nus, os pássaros misteriosos que cantam sem que eu os veja, as sombras cúmplices, o tempo que passa com vagar.

O sol vagueia pelos muros, entra em casa, ilumina os meus passos, e eu quase durmo, deitada a ver o céu sobre a copa das árvores ou as árvores do lado de lá dos vidros.

Não dormi, estava a ler, mas estava com muito sono, fechava os olhos, quase adormecia, e a luz do fim da tarde e os sons e os cheiros embalavam o meu corpo agradecido.

E chegaram-me mensagens, palavras brincalhonas escritas por um menino que já tem seis anos e depois foi o irmão que quis falar comigo, disse que queria vir para cá. Disse-lhe que estamos quase de férias e que, não tarda, virão todos para cá. Depois, começaram os dois a dizer palermices e a rir, e depois pedi ao mais pequeno que cantasse o hino porque não há igual. A plenos pulmões, cantou com aquela energia fantástica que se lhe conhece, 'Às ajas! Às ajas!'. Sei que não se deve rir quando alguém canta o hino mas como resistir a este hino...? Claro que ninguém o corrige, fica melhor assim, às asas, às asas. Além disso, como lhe iríamos explicar o que são armas?

Já de manhã tinha estado com os meus outros meninos, já chegados do sul. O bebé, quase a fazer dois anos, já sobe sozinho as escadas do escorrega e grita, 'Eu conchego!'. E consegue mesmo. Trepa muros, sobe escadas de rede (embora, por vezes caia, claro) e fala quase como gente grande. A maninha linda, de vestidinho florido, rodopia, coquette, e vai dar-lhe um beijinho.

Também telefonei aos meus pais, estão bem, o meu tio esteve lá, estiveram a conversar mas, para o fim, como sempre, o meu pai já estava impaciente. Conversar ou ouvir conversar durante muito tempo, cansam-no. Mas está bem. Este domingo à tarde lá estarei. Comprei de tarde, antes de vir para cá, dois Pães de Deus da Padaria Portuguesa para lhes levar, são muito fofos e cremosos e eles gostam muito. Se já houvesse figos ou marmelos maduros, levaria. As uvas também ainda estão verdes. O que está maduro são as amoras, adoro comer amoras escuras e doces. Por vezes, fico picada, as silvas são ariscas. Mas não é coisa que lhes leve, ficaria toda picada se tentasse apanhar uma quantidade que se visse.

Tenho sempre pouco tempo para estar aqui no campo, sossegada, mas o tempo aqui parece que dura mais tempo, é uma tal acalmia.

Ao anoitecer caíu uma leve neblina e a serra aparecia-me suavizada, em contra-luz. É lá que o sol se põe e, em dias de muito calor, o céu fica em chamas. Não hoje que o sol estava dourado e depois se deixou envolver pela fresca névoa que trouxe a noite.

Gostava de poder ficar cá já esta semana, estou a precisar de descansar. Chega a esta altura do ano e começo a ficar cansada. De cada vez que alguém me entra no gabinete a dizer que temos um problema só me apetece que o vão resolver e que, só depois, me venham falar nele, mas, se fazem favor, com os verbos no passado, tivemos um problema. Mas não é possível, ainda tenho que pôr a minha resistência à prova por mais uns tempos. Mas não me queixo. Como poderia queixar-me se tenho trabalho, se sou respeitada, se sou remunerada pelo que faço? Não, por todas as pessoas que queriam ter trabalho e não tem, ou que têm um trabalho de que não gostam ou que não se sentem reconhecidas ou recompensadas, por todas as pessoas que, para terem trabalho, tiveram que se afastar do país, eu tenho que sentir-me agradecida pela sorte que tenho e desejar que todos esses venham, em breve, a ter também sorte. A desigualdade fere-me.

Por isso, pelo que tenho, sinto-me agradecida, sim. E sinto-me tanto mais agradecida quanto tenho a sorte de ter descoberto, em vida, a parcela de paraíso que me estava destinada, este bocado de terra de cujas pedras nascem árvores carregadas de fruta e de pássaros, e flores que perfumam o ar doce que respiro.

E tanto mais agradecida quanto sei que, junto a mim, estão todos vocês, a receber estas minhas palavras que espero que cheguem intactas e limpas até vós.

Obrigada por estarem aqui comigo.








Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela










e sou amável
selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso
talvez porque aqui sentado
dentro de casa
sou
 outra coisa








Estás aqui comigo 
e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala 
a pensar noutra 
coisa





Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. 
Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome 
depois talvez encoberto noutro
nome 
embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico





Estás aqui comigo
deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz




Deixa-te estar aqui 
perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos 
não pares 
procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo 
mas sei que tu estás aqui








___


A música lá em cima é  Rachmaninov, Rhapsody on a Theme of Paganini

Os excertos de poema pertencem a Tu estás aqui de Ruy Belo que, no vídeo, é dito por Luís Miguel Cintra


___


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo e feliz domingo. 


.