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terça-feira, agosto 22, 2017

Olha... tantos tomatinhos...!


Contei-o na altura: estávamos a preparar a janta. Eu estava a fazer umas coisas, depois interrompi para deitar um olho ao mais velho que estava a tomar banho sozinho enquanto a minha filha ficou a tratar da salada, depois ele foi para o quarto para se limpar e vestir e a minha filha foi para a casa de banho, ajudar no banho do mais novo.

Voltei à cozinha e, vendo uma tigela com os tomates cherry, de lá gritei à minha filha: 'Olha lá, lavaste os tomatinhos?'.

Para nosso espanto, acto contínuo, responde o pimentinha mais velho lá do quarto: 'Claro!'

Desatámos as duas numa risota e ainda hoje, quando vemos 'tomatinhos', nos rimos.

Lembrei-me disto (confesso que a despropósito) ao ver, no The Guardian, a fotografia abaixo, uma fotografia magnífica. Explico o que é, transcrevendo:
Villagers put tomatoes under the sun, creating a blanket of deep red, to dry them in Hejing county in the Mongolian autonomous prefecture of Bayingolin. (Photograph: Xinhua)

Estamos na altura do tomate maduro e eu, que sou uma meditarrânica dos quatro costados (apesar de ter um avô que parecia nórdico e de um outro que sempre achei que tinha uns certos traços asiáticos), gosto de o comer de todas as maneiras: em salada com cebola temperada com azeite e orégãos, em sopa de tomate, em ovos mexidos com tomate, em arroz de tomate, em ensopado de enguias e sei lá que mais.

E se gosto de ver campos de tomates ou ir atrás de atrelados cheios de tomates... Lembro-me também do meu avô cultivar tomates alongados, uma coisa meio rara naquela altura, e entrelaçar com a rama umas résteas que não eram de cebolas ou alhos mas de tomates, que ele deixava suspensos numa casa pouco iluminada que havia no quintal e onde ele guardava alfaias, cebolas, alhos, batatas e onde tinha também as galinhas a chocar ovos. Lá se aguentavam os tomates ao longo de meses, tendo nós tomates frescos e maduros todo o ano. Também o meu pai, quando lhe deu para ter uma horta, entusiasmo que não durou muito, cultivou uns pés de tomateiro nuns canteiros. Armava-os com umas canas fininhas, tal como armava os pés de feijão verde. E eu gostava de ver as frutinhas a crescerem e gostava de os ir apanhar para sentir aquele belo perfume. Ainda hoje, se compro tomate de rama, quando os arranco, cheiro-os para ver se trago de volta aquele perfume tão bom dos tomates recém-apanhados.


Claro que, apesar de gostar imenso de tomate, não gosto a ponto de me imaginar mergulhada num banho deles como acontece em Espanha, Buñol. Mas, enfim, vendo a alegria dos banhistas completamente tingidos pela bela cor da tomatina não posso dizer que daquele sumo não beberei.


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E, por falar em encarnado (e já nada a ver com tomates, claro está), que entre a música do mestre Ernesto Lecuonano colada ao corpo do casal do Grupo Corpo que aqui interprta uma coreografia de Rodrigo Pederneiras




Ou o Encarnado da bela trilogia de Kieślowski


E os belos rouges de chez-moi ao  pôr-do-sol


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E uma bela terça-feira a todos quantos por aqui me acompanham

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terça-feira, abril 19, 2016

Espasmos vaginais, a vida feliz quando ninguém sabia que ia deixar de o ser, noites azuis, tangos, amores impossíveis


Depois de ter visto aquele vídeo do hospital na Porta dos Fundos, lembrei-me daquela cena minha a ir à maternidade a meio da noite queixar-me de uma coisa que não tinha nada a ver. E, porque nisto, umas puxam as outras, agora lembrei-me de mais uma. Mas nem sei se conte. Não é coisa minha, é coisa de intimidade alheia.

Vou escrever com jeitinho, para não revelar mais do que devo e, no fim, logo vejo se vai para o ar ou se fica no limbo.

Vamos lá.
Noche azul que en mi alma reflejó 
La pasión que soñaba acariciar 
Vuelve de nuevo a dar paz a mi corazón 
No ves que me muero de dolor 



Quando andava a estudar, para além da minha colega alentejana que, sendo tão diferente de mim, era tão minha amiga, eu tinha uma outra muito boa amiga. Era minha colega de curso e namorava um rapaz de medicina que era uns dois ou três anos mais velho. Acabou o curso, ele, ainda nós estávamos a estudar.

A vida que ela teve depois não se deseja a ninguém, tudo o que poderia haver de mau ela testemunhou e viveu. Tantas, tantas vezes a apanhei desesperada, lavada em lágrimas, metida em situações horríveis, do pior que há. E quando se pensava que nada de pior lhe poderia acontecer, acontecia. Muitas vezes não era directamente a ela mas a pessoas muito próximas, que viviam com ela, horrores inimagináveis. Era uma corajosa pois sobreviveu, inteira, a tudo. Uma vez, depois de ter estado algum tempo sem a ver, encontrei-a na Avenida da Liberdade. Por essa altura já ambas tínhamos, cada uma, dois filhos, ambas tínhamos sido mães muito cedo, até certa altura as vidas paralelas. Estivemos para aí uma hora de pé, no passeio -- nem nos ocorreu procurarmos um banco -- e ela arrasada, a contar os sofrimentos, as coisas horríveis que estava a viver. Eu, que sou frágil (ou assim me imagino), interrogava-a quase a medo: 'E tu assististe a tudo? Até ao fim? E conseguiste?' E ela tinha assistido, a tudo, até ao fim, tinha conseguido. Já estava calejada, pronta para qualquer coisa, sem fatalismos, já então sempre preparada  para o pior.


Pouco tempo depois, estava eu a almoçar nas Amoreiras, encontrei uma amiga comum. Perguntou-me se eu tinha sabido do que tinha acontecido à nossa amiga. Pensei que se estava a referir àquilo que ela me tinha contado, naquele encontro na Av. da Liberdade. Mas não. Era algo ainda pior. Desta vez tinha sido o marido o atingido pelo infortúnio. Uma coisa horrível. Nem conseguia imaginar como podia ter acontecido aquilo a uma pessoa com tanta energia, sempre tão alegre. Nem conseguia imaginar como estaria ela a reagir a uma desgraça daquelas com o seu tão grande amor. Pensei que ninguém merecia tamanha pouca sorte, tamanha dose permanente de acontecimentos infelizes, irreversíveis, dolorosos.

Mas, na altura a que se refere aquilo que vou contar, ainda ela era despreocupada e feliz, não imaginando o que iria ser a sua vida.

Eu tinha o tal namorado novo, estava apaixonadíssima, andava sempre abraçada e aos beijos, eram permanentes manifestações de grande amor. Ela tinha conhecido o meu namorado anterior, tinha testemunhado a minha atribulada situação de acumulação, e presenciava com divertimento, agora, o estado de arrebatamento em que eu andava. Ela e o namorado eram mais moderados, especialmente ela, já que ele era um speedado, magro, corpo elástico, um bacano, sempre com anedotas e graças, todo piruetas no andar, na conversa, na alegria contagiante. Ela andava encantada com ele, embora um bocado ciumenta. Homens assim, divertidos, inteligentes, bem humorados e brincalhões são uma tentação para as mulheres. Ninguém tem grande paciência para um telhudo, ensimesmado, macambúzio, metido a erudito. Ele era o oposto disso e ela temia o efeito daquela efervescência dele junto de jovens médicas e enfermeiras, em especial nas noites em branco, de 'banco'. Mais tarde viria a ter mesmo razões para sofrer com isso -- grávida, a estudar, a dar aulas e a tratar da casa e ele de cabeça virada, pronto para mandar o casamento para o alto, com um caso tresloucado com uma colega médica. Depois mudou de ideias e manteve-se casado, mas essa sua atitude durante a gravidez da mulher, deixou algumas marcas no casamento. Mas, na altura a que se reportam os factos de que vou falar, era apenas uma ciumeirinha boba a que ela sentia por ele.


Encontravamo-nos os quatro com frequência. Como ele começou a fazer aqueles estágios hospitalares, era sobretudo ao fim da tarde ou à noite que nos juntávamos. Eram noites de risota, noites sem sono, uma alegria, uma pândega pegada, especialmente por causa dele.

Um dia, contava eu aquela maluqueira de termos ido à maternidade para me queixar de dores de pescoço e diz ela: Ah, nem me fales em espasmos. Sabem lá vocês o que nos aconteceu...

Ela vivia então num daqueles quartos que algumas senhoras nas redondezas nas universidades (senhoras penso que geralmente solteiras ou viúvas), alugavam a estudantes. Por essa altura não me lembro se eu vivia também num quarto ou se vivia, por engano (já aqui o contei), na moradia feminina da Opus Dei. O meu namorado vivia com os pais (embora pouco lá parasse) e o namorado dela vivia numa residência masculina, talvez nas Forças Armadas, não me lembro bem.

E então, dizia eu, havia uma senhora que alugava quartos e ela estava num. Quando a senhora saía ao fim da tarde e ele já estava livre das aulas ou do hospital e não estava ninguém em casa, ele enfiava-se lá à socapa (era proibido, as senhoras não deixavam entrar rapazes para os quartos, quanto muito podiam ficar na sala). Para ele a transgressão era uma festa: subir pela escada a pular degraus, entrar à pressa, esgueirar-se pelo corredor e enfiar-se no quarto -- e, sem tempo a perder, truca-truca.


Só que um dia, estavam eles naquilo, pensando que tinham tempo para a função e para saírem de fininho antes que alguém chegasse a casa, quando ouvem a chave na porta e a voz da senhora que entrava com outra pessoa.

E aí, a minha amiga, apavorada, coitada, teve um ataque de espasmos vaginais. Não me lembro se ela falou em vaginite, ou talvez tenha sido ele, acho que sim, mas não garanto que tenha sido isso que lhe aconteceu. Só me lembro de ela contar que tão violentos eram os espasmos que ele ficou lá preso, entalado, ela cheia de medo de ser apanhada, cheia de medo de que ele não se conseguisse tirar de dentro dela, que a senhora os apanhasse naquela linda figura, e cheia de dores e contracções, com a preocupação de não falarem, e ele aflito, enfiado, sem conseguirem controlar a situação.

Lembro-me do meu espanto, nunca me ocorreria que isso pudesse acontecer, e ele a rir-se, gozão, gozão, e ela a contar: 'Vocês nem queiram saber... O pânico, o pânico...'


Depois, lá devem ter respirado fundo, ele lá a deve ter conseguido acalmar, lá conseguiram apartar-se. E, com o coração a mil, ali ficaram assarapantados, sem saberem como sair dali sem serem descobertos. Por fim, a senhora lá saíu com a outra e eles lá conseguiram raspar-se. 

Quando contavam a aventura, ele brejeiro, malandro, apimentava a coisa, transformava aquilo numa cena macaca, daquelas de que se iriam rir até ao fim da vida. Mas ela dizia, 'Não sejas parvo, não sejas ordinário. Vocês nem queiram saber o pânico que senti, já nos imaginava a ser levados para o hospital, agarrados um ao outro, na mesma maca, ele em cima de mim, um vexame, sabem lá a sensação horrível, eu a querer que ele saísse e apertada, apertada, ele completamente preso. E não sejas parvo, não gozes que também estavas em pânico'.
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Entretanto, as nossas vidas profissionais levaram-nos por caminhos diferentes e as desgraças que lhe sucederam depois acabaram por quase afastá-la do mundo em que eu me movimentava. Acabei por lhe perder o rasto.

Há algum tempo, num centro comercial, pareceu-me vê-la ao longe. Ela ia numa direcção e eu na oposta. Ainda pensei voltar atrás, correr, confirmar se era mesmo ela. Mas senti algum medo. Temi que lhe tivessem sucedido mais horrores, temi ouvir da boca dela aquilo que eu tinha sabido por outros. Mas pareceu-me bem, pareceu-me diferente, como se fosse outra, como se tivesse entrado num novo mundo. Tomara que sim.
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Estive a reler o que escrevi. Vou publicar. Pode ser que entre os meus leitores esteja ela. Se ela lesse, reconhecer-se-ia. E saberia que me lembro muito dela e dos tempos que vivemos tão intensamente, tão alegres, ela ainda tão ingénua em relação ao que a vida tinha guardado para a castigar sem que ela tivesse feito nada para o merecer. E lembro-me muito bem das suas duas filhas, tão queridas, tão amadas e a quem ela tanto tentou proteger. Tomara que também estejam bem.
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Apeteceu-me intercalar aqui fotografias de bailarinos cubanos dançando nas ruas de Cuba. Talvez seja porque, apesar das dificuldades que enfrentam, conseguem conservar a elegância e a força para seguir em frente, para voar. O seu autor é Omar Robles.

Admiro as pessoas que, mesmo quando teriam razões para se deprimirem ou afundarem em desesperança, conseguem manter a vontade de rir, de conversar, que são generosas em qualquer circunstância, que não perdem tempo com diferendos fúteis, com quezílias menores, admiro as pessoas que conseguem manter a alegria e a vontade de abraçar a vida e os outros. 

Talvez por isso seja nos cubanos que pensei não apenas para as fotografias mas também para a música: Ernesto Lecuona. Lá em cima, Placido Domingo cantou Noche Azul. E agora o Grupo Corpo dança No es por ti, cantado por Zoraida Marrero numa coreografia de Rodrigo Pederneiras.

Não sou dada a orações (ou talvez seja mas não me apetece assumir), sou mais dada a exorcizar tristezas, medos, perplexidades ou anseios através de devaneios, danças, alegrias, através do corpo a corpo. E, especialmente se falo de memórias que, de alguma forma, me trazem alguma melancolia, se há coisa que me apeteça ver são bailarinos como estes aqui abaixo a dançarem música como esta. 

Por isso, porque acho que ficam bem aqui, a festejarem a vida apesar das complexidades, labirintos e alçapões que, por vezes, a compõem, aqui vos deixo na companhia deste casal e desta música.


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E, por falar em cubanos, antes de me ir apetece-me ainda ouvir um poema de José Ángel Buesa

Poema del amor imposible


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E, se ainda não me visitaram na maternidade nem aos camaradas da Porta dos Fundos no hospital, então queiram, por favor, descer até ao post seguinte.


sexta-feira, janeiro 02, 2015

A questão de saber se os tomatinhos ficaram ou não bem lavados e outras peripécias e alegrias nesta minha entrada em 2015.


O mais crescido estava a tomar banho mas dizia que a água estava fria, não queria lavar o corpo todo. Achando que era desculpa, fui lá e chuveirei-o e ensaboei-o todo mas, às tantas, achei que a água estava mesmo fria demais. Então fui ver o que se passava, enquanto a minha filha, apressadamente, acabava o banho e o punha no quarto ao lado para ele se secar e vestir, indo de seguida para a casa de banho para despachar um banho apressado ao mais novo.

Nisto, estando eu na cozinha, reparo que ela já tinha feito umas espetadinhas de tomate cherry com mozzarela fresca e de lá, alto, perguntei-lhe: 'Olha lá! Lavaste bem os tomatinhos?'

Responde-me o mais crescido, do quarto: 'Claro!'

E ela, toda censora, da casa de banho: 'Oh mãe... por favor!'

Escuso de dizer que desatei a rir de tal forma que não conseguia falar, queria dizer que me referia aos tomatinhos cherry mas qual quê...?
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À noite, na passagem de ano, quando nos aperaltámos para ir para a rua, tudo de gorros, casacões, vestidos como se fossemos para o pólo norte, resolvemos que o momento deveria ficar registado. No meio da confusão que é sempre tirar uma fotografia de grupo, eu que estava encostada às costas do sofá que está a meio da sala em frente à lareira, abraçada a um e a puxar por outro que se queria escapulir, nem dei por que o sofá estava a deslizar e por pouco não fui parar ao meio do chão com as crianças por cima. O meu marido registou o momento, eu numa diagonal acentuada, perigosa, encasacada e de chapéu, com as crianças meio caídas em cima, cheias de casacos e cachecóis, e, como de costume, perdida de riso.

A minha filha disse: 'O pai, em vez de ir agarrar a mãe, deixa-se estar tranquilamente a registar o momento...' o que foi um facto mas a verdade é que, se o não tivesse feito, eu agora não podia continuar a rir a ver as fotografias daquele momento de confusão.

Gostava de vos poder mostrar a macacada que ali esteve armada mas, paciência, fica para outro dia.

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De resto, o almoço de Ano Novo correu bem, mas as crianças, talvez ainda na ressaca da agitação da véspera, às tantas, irrequietas, já só queriam era levantar-se da mesa para irem brincar, e o bebé está constipado e estava meio rabugento, sem querer banquetear-se (e logo ele que, usualmente, come como um pequeno alarve). Mas foi bom  na mesma, um belo almoço em família.

A seguir, deslocámo-nos todos para a zona da sala onde o sol bate generosamente e o calorzinho é bom.




Estiveram a brincar, o mais crescido a querer jogar xadrez com o tio mas os outros não paravam sossegados, só a derrubarem as peças - até que eles desistiram. Depois os três rapazes estiveram a brincar com as suas coisas e a bonequinha mais linda entreteve-se a fazer desenhos e a escrever, coisa que gosta muito de fazer.




A seguir, antes que o sol batesse em retirada, fomos para a rua e todos brincaram, correram, saltaram, treparam a uma árvore enorme, jogaram às escondidas. Ao bebé parece que lhe passou a má disposição e voltou à sua forma habitual: brincou, fez cenas, fez-se ao boneco.

O pândego do costume. Um solzinho ameno, um céu limpo, todos felizes, em harmonia.

Há bocado recebi uma mensagem de uma das minhas primas, uma que vive em Coimbra e que, tendo uma menina pré-adolescente, mudou de companheiro, arranjou um outro que já tinha três filhos e que vivem com ele(s) e, para a festa ser a preceito, aos quarenta e tal, engravidou e tem agora uma nova menina que é praticamente da idade deste nosso bebé. Para além disso, têm três gatos e agora também um cão. Ou seja, um permanente arraial. Vivem numa moradia que tem um jardim que, assume ela, é uma autêntica selva, mas que isso não é coisa que lhes tire o sono já que, pura e simplesmente, não têm tempo para cuidar dele. 
Desejava-me ela e passo a transcrever: 'Um óptimo 2015 cheio de saúde, optimismo, tranquilidade e muita paciência para superar as coisas menos boas.' Gostei de ler isto até porque ela perdeu os pais no espaço de pouco tempo (os meus queridos tios de quem já aqui falei cheia de tristeza e saudade) e, apesar de tantas contrariedades, vai levando a sua vida sempre com uma alegria e tranquilidade surpreendentes. Há uma harmonia dentro dela que explica a capacidade que tem de se manter sempre optimista.
Mas, voltando aos meus fofos pimentinhas a brincarem ao sol.










Uma senhora que estava perto de nós a ler um livro ao sol, acabou por se afastar e ir tentar ler o livro para mais longe. Fiquei a pensar que o que para mim era a felicidade de nos ver a todos, unidos, vendo as crianças a crescerem juntas, bem dispostas, brincalhonas, para aquela senhora não passava, com certeza de uma maçada, a maçada da situação de uma família ruidosa ali por perto, a impedi-la de se concentrar na sua leitura. Assim é a vida. Interesses e motivações contrárias tendo que partilhar o mesmo espaço. Ou nem isso, talvez apenas circunstâncias díspares que acabam por levar as pessoas para mundos diferentes.

Quando regressámos a casa, já as crianças começavam a dar mostras de algum sono e já estava a escurecer. Parte do grupo foi à sua vida e outra parte veio para cá. Lanche, filme, pequena sesta, o bom aconchego familiar. Passava das 8 da noite quando a casa ficou silenciosa.

Da parte que me toca, não poderia querer um melhor começo de ano.

Nunca me senti atraída por réveillons em hotéis ou restaurante ou coisas do género. Até não há muito tempo, o nosso grupo de família alargada rodava entre si a casa onde se fazia a passagem de ano. Era um grupo enorme e muito divertido. Mas depois, há algum tempo (e naquela altura em que se diz que os homens já deviam 'ter idade para ter juízo' mas parece que viram adolescentes, com paixões arrebatadas) aconteceram divórcios que introduziram alguma perturbação, até porque o membro que mais animava a festa foi um dos que se separou e já não dava para manter a ex juntamente com a que veio a seguir. E aconteceu, também por essa altura, os filhos adolescentes começarem a ir um para aqui, outro para ali, e era difícil conjugar os programas dos pais que não queriam afastar-se muito dos filhos. A coisa foi-se circunscrevendo mas uma coisa tem sido uma constante: estar junto dos meus filhos no dia de Ano Novo. A família cresceu e já não são apenas eles e, portanto, a animação é agora ainda maior e, confesso, mais feliz.

Contudo, dizendo isto, penso nos que não têm família ou amigos ou os que os têm num número mais restrito. E fico até um pouco sem jeito, com receio que, por contraste, se sintam mais sós. Mas, como tão bem aqui se lê, saibam que não são os únicos. Há tantas pessoas nessas circunstâncias, que não faz sentido que alguém se sinta particularmente desolado por isso (e isto já para não falar nos que estão sozinhos por pura opção ou nos que, estando ou não sozinhos, não são dados a folguedos - e estou a lembrar-me de um amigo meu que sempre fez questão de passar o ano a dormir porque acha uma palhaçada os festins para celebrar uma coisa que, segundo ele, não tem nada que celebrar). 

E se descrevo a minha vivência é não apenas porque gosto, fica um pouco da minha vida aqui registada, mas também porque, justamente, alguns dos Leitores ou Leitoras com menos família e que, nestas ocasiões, pouca vontade têm de festejar, me dizem que gostam de ler e ver o que são estes meus dias em família pois é quase como se já sentissem que eu sou a família que não têm. E eu, muito sinceramente, não lhes quero faltar.

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Há pouco, ao ligarmos a televisão, apareceu-nos um senhor com ar de estar mais para lá do que para cá a dizer coisas, sentado ao lado de uma mesa onde uma moldura tinha ali pegado de estaca. O meu marido fez um zapping a todo o vapor que era o que lhe faltava entrar o ano a aturar aquela múmia quase paralítica.

Passado um bocado, noutro zapping, estava outro mal encarado a falar, um de farta cabeleira grisalha de quem eu, até há algum tempo atrás, achava que tinha um certo charme mas a quem agora acho que não passa de um fala barato com ar de quem nunca dorme o suficiente. Falava sobre a conversa do primeiro (digo eu; mas, às tantas, ainda estava era a falar sobre os submarinos que parece que foram abordados no discurso do chefe) e o meu marido praguejou e rapidamente mandou-o também às urtigas. Por isso, não sei de nada desses assuntos que dizem respeito a senhores requentados. Este ano de 2015 tem que ser bom e, para começar, já estamos a ser mais selectivos: nada de ervas daninhas, lesmas, papagaios, láparos, múmias. 
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E que entre a música:


Imagine - Playing for Change



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E ando com uma vontade de dançar, rir e estar na boa que só visto.


Nazareth pelo Grupo Corpo Companhia de Dança


(Coreografia de Rodrigo Pederneiras. Música de José Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth)


Uma alegria!



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Permitam que me repita: tem que ser um grande ano, este 2015.

E, no meio desta ligeireza, com muita força desejo também que se olhe a sério, mas muito a sério, caraças, para flagelos que envergonham quem assiste a eles como o do navio com 450 imigrantes a bordo que está sem energia ao largo da costa de Itália ou as formas modernas de escravatura a que Francisco, o meu Papa mais querido, se referiu.


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E, já agora, desejo-vos em particular, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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domingo, novembro 09, 2014

Toda a nudez será perdoada


Há coisas para as quais é preciso coragem. Uma delas é uma pessoa vestir-se com roupa que quase sugere a nudez.

Nunca me vesti assim, não sou suficientemente corajosa. Saber a gente que, mal chega a um sítio, toda a gente vai ficar de olhos postos em nós deve ser altamente inibidor.

Se vejo alguém a olhar-me para o decote ou para qualquer outro ponto, mesmo que inocente, fico logo com vontade de me deslocar até um sítio onde haja um espelho para ver se está tudo como deve ser.

Quando era jovem vestia-me como gostava, ignorando o efeito. Vestia shorts e blusas justinhas, vestidos curtos e colados ao corpo, o que me apetecia. A primeira vez que o meu marido reparou em mim e me trespassou com um olhar de tipo rx tinha eu um vestido verde-relva-viçosa de um tecido que devia ter viscose, parecia seda mas com pouco brilho e era macio, e era justinho e curto e sem mangas e um decote grande atrás e à frente e eu usava-o sem soutien para não correr o risco de se verem as alças. Durante muito tempo, ele lembrava-se deste vestido e perguntava porque não o continuava a usar. Mas eu já tinha perdido a inocência, já sabia o efeito que ele podia provocar, e, além disso, já me ficava justo para além da conta pois uma coisa é ter-se 18 ou 19 anos e outra é ter vinte e poucos mas já ter tido crianças, amamentado, etc.

Sophia Loren explica que estava a olhar
para o decote de Jayne Mansfield
porque teve medo que tudo naquele vestido explodisse
- BOOM! - para cima da mesa

Acontece-me às vezes estar junto a uma mulher que está excessivamente provocante e tenho que me esforçar para não me pôr a olhar, não vá alguém pensar que estou a passar-me para o outro lado. No outro dia, estive perto de uma jovem que se apresentava em ambiente profissional como se, a seguir, fosse atacar na esquina. Tudo ali era despropositado. Dei por mim a olhar e logo de seguida me arrependi pois quem me visse ainda poderia pensar que me estava a deleitar, mas a questão é que queria observar a extensão do disparate: estava de shorts de renda preta, estava de blusa decotada de forma quase escandalosa, saltos ridiculamente altos. Mas depois ocorreu-me que uma pessoa que sai assim de casa para ir trabalhar só pode estar à espera de chamar a atenção pelo que não seria de espantar que eu estivesse estupefacta.

Há tempos houve, no grupo onde trabalho, um curso sobre dress code. As mais jovens ou as que cultivam curvas mais sinuosas ainda se moderaram durante uns tempos mas o dá ideia que despique entre elas leva-as a excederem-se na criatividade. Há dias, na altura dos calores, quando entrei no elevador, estavam duas mulheres e dois homens que, de tão perfeitos, pareciam descontextualizados. parecia-me que estava a entrar dentro de um anúncio Dolce & Gabanna. Altíssimos, perfumados, vestidos como se fossem desfilar, elas impecavelmente maquilhadas, vestidas com saias curtas, pernas torneadas e bronzeadas, muito bem penteadas, uma coisa do além, eles identicamente produzidos como se fossem participar num filme. Nunca antes os tinha visto, nem sei se trabalhariam lá, na volta eram consultores ou advogados (também pode ser que tivessem ido lá rodar um anúncio).

Também no outro dia, estive numa reunião alargada em que participou uma advogada de um dos grandes escritórios da capital. Deveria medir metro e oitenta ou mais mas depois tinha uns saltos de uns 13 cm e ainda ficava mais crescida, e toda ela elegantérrima, cabelos muito compridos, um fato de seda em branco e preto. Por baixo do blaser, uma blusa branca quase transparente, quase inexistente. Quando ela entrou na sala, toda a gente ficou quase em estado de choque. Um colega meu segredou-me 'Yves Saint Laurent...? Deve ser. No mínimo...' e sorriu, malicioso. Ao longo de toda a reunião os meus colegas não tiraram os olhos da exuberância dela e todos eles sorriam por tudo o que era poro.

Mas, enfim, cada um anda como lhe apetece e é de louvar as pessoas que não receiam concitar sobre o seu corpo os olhares alheios.

A Harper’s BAZAAR dedica um espaço à evolução do vestido nu e tem graça ver como a vontade de mostrar o corpo através do vestuário não é de hoje.



Marilyn Monroe (a foto da esquerda mostra-a em 1962 na Casa Branca quando foi cantar os Parabéns a Você ao Presidente, seu ex-amante),
conhecida por usar vestidos que levava os outros a pensar: 'Estarei a ver qualquer coisa que não era suposto ver?'




À esquerda, Toni Braxton em 2001, 

ao centro Kate Mosse e Naomi Campbell em 1993

e Rihanna em 2014, num vestido reluzente que deu que falar (ou terá sido o corpo dela que deu que falar?)



- ou a arte de tapar o corpo mostrando-o - 
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E, por falar em corpos que parecem pedir a nudez, 

Charlize Theron: Dior - J'adore


(na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versailles, França)




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E, por falar em corpos que são belos (nus, pintados, ou vestidos) e se movem com extrema beleza,

Grupo Corpo - Sem mim




Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Carlos Núñez e José Miguel Wisnik (sobre canções de Martín Codax)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo.

E não se deixem influenciar: agasalhem-se que parece que vai continuar friozito.

(Já os meus Leitores brasileiros bem devem poder descascar-se à vontade que o tempo aí deve estar a ir para o bom, não é?)

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segunda-feira, setembro 15, 2014

Alexandra Lencastre dança na final do Dança com as Estrelas e, uma vez mais, pergunto: quem é que escolhe os vestidos que aquela gente veste? Um excesso (ou melhor: um disparate) mas, enfim, talvez esteja de acordo com a personalidade de quem os veste, sei lá. Ou de quem vê estes programas - mea culpa, mea culpa.


Depois de, no post abaixo, ter falado na magreza de Teresa Guilherme que talvez tenha justificado a escolha do mini-vestido que usou na actuação na final do Dança com as Estrelas, aqui agora falo de Alexandra Lencastre.



Alexandra Lencastre é naturalmente bonita, sensual e boa actriz. Contudo, não percebo porquê, tem optado por esconder tudo isso sob uma capa de artificialidade que a menoriza. 

Por exemplo, optou por modificar a fisionomia por forma a não evidenciar rugas nem descaimento mamário e tanto botox e silicone tem enxertado que, de bonita, passou a excessiva.

Mas não optou apenas por se quitar a nível físico. Parece que a nível de personalidade também optou por exponenciar a sensualidade, tornando-se brejeira, aparentemente oferecida.

Como se isso não chegasse, também tem tido algum desequilíbrio a nível de peso pois tanto nos aparece a transbordar dos vestidos como mais magra.

Provavelmente tudo isto é fruto de alguma instabilidade emocional já que a imprensa rosa vai noticiando romances, uns mais clandestinos que outros. Aqui há tempos davam-na como namorada de Fernando Alvim, coisa que eu acharia deliciosa. Mas, enfim, não temos nada a ver com isso.

Vestida como uma cheerleader,
Alexandra Lencastre na final do Dança com as Estrelas


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Este domingo, na final do Dança com as Estrelas, de mera jurada passou também a interveniente. Claro que a coreografia tinha que ter qualquer coisa de picante, mostrando-a entre quatro garbosos bailarinos. Tudo bem.

A questão é que, uma vez mais, a vestiram como se ela estivesse na fase magra, como se tivesse menos 20 anos, como se tivesse um palmo a mais. Assim, bem nutrida como está, também com uma cabeleira loura ondulante costas abaixo, baixinha e de bota alta, nem sei o que aquela Alexandra Lencastre me parecia dentro daquele modelito, toda franjas, mini-saia, laterais bem fornecidos à vista. Talvez uma cheerleader distraída da idade. Não poderia ter uma dança sensual, estar toda ela picante (para estar consentânea com a sua imagem de marca) e, no entanto, ser uma sedutora com algum nível, boa pinta, boa presença? Eu acho que sim.


Alexandra Lencastre
em mais um dos seus momentos 'atirou-se para o chão'


E depois não sei se é ela que influencia a escolha da roupa, se é também pela roupa que se torna ainda mais excessiva e descabida. 

No final, quando a outra exagerada da Cristina Ferreira fazia a festa naquela sua pose habitual de perna aberta, a Alexandra pareceu querer fazer uma vénia aos bailarinos mas, desconcentrada como sempre parece estar, deu ideia de que, às tantas, quis ir mais longe, pareceu querer pôr o joelho em terra, mas a coisa foi além e quase parecia ir atirar-se aos pés dos rapazes. Um desatino. Ver-se uma boa actriz, à beira dos cinquenta anos, e sempre nestes desmandos, a atirar-se aos bailarinos, a atirar-se para o chão, é coisa que não se percebe. É daqueles casos em que apetece repetir o Diácono Remédios: não habia nechechidade. 

Seria bom que alguém lhe desencantasse um papel diferente, marcante, alguma coisa que a afastasse da imagem de bomba sexy e que ela se sentisse estimada mesmo sendo baixa, tendo rugas, olhos castanhos, e que deixasse de sentir esta absurda necessidade de estar sempre a representar, a evidenciar os seios, a ser provocante, engraçada, aparatosa.

Mas, enfim, cada um é como é e se ela for feliz assim, também não sou eu que tenho alguma coisa a ver com isso.

Quanto aos excessos a todos os níveis do Dança com as Estrelas falo também no post abaixo. Aliás tenho ideia de que a TVI, quando a coisa toca a entretenimento, é toda nesta onda, uma popularice pegada.

Vê quem quer, é um facto. Mas a verdade é que, com bimbalhices a toda a hora, se vai moldando o gosto da maioria dos portugueses.

Uma palavra para o vencedor do programa, Lourenço Ortigão. Deve ser moçoilo conhecido pelos dotes corporais pelo que as coreografias puseram isso a descoberto. Pareceu-me que, mais do que dançar, fazia acrobacias e mostrava músculos. Aliás as próprias coreografias pareciam-me coisas um bocado criançolas, mais uma brincadeira que uma dança. Pareciam, de facto, encaixar-se no estilo infantilizado, brejeiro e apimbalhado do programa, em que a coreografia é um mero pretexto para evidenciar a característica dos intervenientes na dança. O rapaz é conhecido pelo seu cabedal? Então bora lá mostrar isso que as meninas desatam a votar desenfreadamente.


Os cínicos dirão: muita crítica, muito desdém, mas viu, não viu? 

Certo mas toda a gente precisa, volta e meia, de um brainwahing e ver um programa como este é uma das formas de o fazer.


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Bom. Já que estou numa de dança, mostro um tango dançado com uma entrega incrível no Dancing with the Stars 2014 pela dupla Meryl Davis e Maks. Dizem que é um tango argentino.







E, se falamos de tango argentino, não podia esquecer-me do Grupo Corpo. Eu, noutra encarnação, posso muito bem ter sido uma bailarina como estas. Sinto que fui. Esta forma de dançar e de sentir o tango corre-me nas veias.

Aqui é, como em várias outras vezes em que cá estiveram, uma coreografia de Rodrigo Pederneiras sobre uma música de Ernesto Lecuona.





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Isto hoje não deu para grande coisa, eu sei, mas, por um lado, o meu fim de semana foi tão preenchido e animado que não me sobrou cabeça para muito mais e, por outro, estou com o assunto Novo Banco na cabeça, coisa que me maça demais por evidenciar de forma exacerbada a irresponsabilidade e incompetência de quem nos desgoverna - e a verdade é que não estou com disponibilidade mental para me pôr de novo a falar nisso.

Por isso, hoje fico-me por aqui e deixo-vos na companhia da dança e da minha opinião sobre três mulheres que marcaram a final do Dança com as Estrelas deste domingo, mulheres cuja imagem se confunde com o entretenimento da TVI, três mulheres excessivas, desbragadas, que contribuem em muito para o lado popularucho da televisão portuguesa: Teresa Guilherme, Alexandra Lencastre e Cristina Ferreira.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.


sábado, junho 02, 2012

A beleza da poesia dita, escrita, proseada, antevista, dançada (Mário Cesariny e Carlos Drummond de Andrade ditos; António Ramos Rosa lidos; o amor que não tem idade fotografado no Ginjal e em Cacilhas; e o fulgor da dança pelo Grupo Corpo ao som de Lecuona) - e tudo em volta do amor, claro


Hoje peço-vos o favor do silêncio, do tempo que passa em paz, de uma respiração pausada, de um olhar tranquilo, hoje peço-vos que venham comigo devagar, bem devagar.


Vamos, por favor, ouvir:

Rogério Samora, acompanhado de Rodrigo Leão (autor da música) lê Poema de Mário Cesariny


E agora ler, sentindo as palavras a deslizarem leves à nossa volta:


Por vezes de um poema concluído
subsiste um aroma frágil instantâneo
que acende sobre nós uma ingénua estrela
que ilumina os nossos gestos
e aligeira os passos sobre as pedras claras


E agora ver, sentir o verde, sentir ternura pelos corpos que se confundem com as flores:

No suave Jardim do Ginjal


E ler outra vez e apalpar as palavras que falam deste jardim que estremece rente ao chão:


Aceita, acolhe a minúscula anatomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.


E, de novo, deliciar-nos ouvindo, deixando que as palavras nos beijem 'como se tivessem boca':

Amar, poema da autoria de Carlos Drummond de Andrade


E, mais uma vez, ler em silêncio para sentir o sopro que se eleva dos barcos que hão-de vir, silenciosos:


Trago na palma da mão a luz diurna: e a ferida no flanco. O meu deus, o meu demónio, respira fundo e alto. Ela, a minha múltipla companheira, é uma coluna silenciosa e ardente. A luz sela esta aliança entre o sopro e a matéria e uma voz se eleva nos barcos do silêncio.


E, ainda em silêncio, dar graças pelo amor sem idade, resguardado, quer o vejamos em nós, quer nos outros:

Em Cacilhas, o Tejo correndo suave e Lisboa, tão perto

E, pela última vez, ler em repouso, devagar:


Era um país
para onde se ia adormecendo

e se caminhava no repouso

como num adeus invertido
ou numa folha enrolada
no seu próprio silêncio



E, finalmente, agora que estamos repousados, vamos dançar ao som de uma música feita para darmos largas ao corpo - e que viva o amor!

Grupo Corpo Companhia de Dança, coreografia de Rodrigo Pederneiras, música de Ernesto Lecuona




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O poema e os pequenos textos em itálico são da autoria de António Ramos Rosa in Antologia Poética

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Tenham, meus Caros Leitores, um belo sábado, se possível rodeados de beleza, de paz e de amor.