Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, maio 24, 2019

O meu mea culpa perante Paulo Pedroso



Há temas que me revolvem as entranhas e me fazem perder a distância emocional de que a racionalidade precisa. Aquele que, há uns anos, invadia a comunicação social foi um deles. Tantas discussões que tive por causa disso, em especial cá em casa. Queriam chamar-me à razão e eu não queria ouvir. Teimava que, se as crianças diziam, é porque era. Nessa altura, eu não sabia que as crianças podiam ser manipuladas e que os investigadores poderiam condicionar as suas respostas.

Quando mete crianças eu cego, eu viro loba, predadora de quem pode querer fazer-lhes mal.

Nessa altura, eu também ainda não tinha aprendido que a justiça pode ser leviana, traiçoeira, destruidora, injusta e vil. Nem sabia que a imprensa escrita e televisiva saliva por sangue, por perversidade. Muito menos sabia do conluio entre agentes da justiça e a imprensa mais sensacionalista e nojenta. Ainda me lembro dum Expresso a fazer capa com Ferro Rodrigues. Nesse dia o meu marido divorciou-se do Expresso e eu, apesar de duvidar da notícia, não condenei o Expresso, apenas tive pena que o jornal se tivesse enganado tão grosseiramente. A minha compreensão andava toldada.


A toda a hora, se sabiam de casos, a toda a hora se ouviam e liam testemunhos. Foi feita uma lavagem ao cérebro dos portugueses. E eu, tão inocente na altura -- tamanhas eram a minha preocupação pelas crianças e a repugnância por quem poderia molestá-las --, não duvidei que a Justiça não estivesse a fazer o seu papel. 

De forma cega, condenei inocentes. Um deles foi Paulo Pedroso. 

Lembro-me bem das televisões a mostrarem a sua prisão na Assembleia da República, o juiz a acompanhar o espectáculo. E lembro-me da dignidade de Paulo Pedroso. Mas não coloquei a hipótese de que toda aquela encenação fosse um dos momentos mais negros da Justiça do Portugal democrático. 


Só passado algum tempo caí em mim. Mas caí em mim tarde de mais. Fui injusta, cega e, portanto, cruel. Percebi, só então, que não há maior crueldade do que condenar um inocente.

Gostava de poder voltar atrás no tempo e ter tido, nessa altura, a lucidez que penso que, com o tempo, fui adquirindo, com a constatação objectiva dos erros grosseiros e dos vícios da justiça em Portugal. Se isso fosse possível, teria a oportunidade de defendê-lo com unhas e dentes, teria oportunidade para mostrar a minha repugnância por quem ousasse enlamear de forma tão vil um homem inocente. Mas não é possível voltar atrás no tempo.

Por isso, a única coisa que posso fazer é aqui pedir públicas desculpas a Paulo Pedroso. Mas faço-o sabendo que isso é coisa que não vale nada, nada, pois mesmo que ele me desculpasse, jamais me desculparei eu a mim mesma. Condenar um inocente é coisa que não tem perdão.


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Escrevo isto depois de ter lido no Aspirina B: Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus que remete para o blog de Paulo Pedroso: O dia do triunfo do absurdo

E incluí aqui pinturas de Francis Bacon e se calhar não devia pois este texto não deveria consentir distrações uma vez que há palavras que devem impôr-se sobre tudo -- e assim deve ser um pedido de desculpas. Mas, quando penso em absurdo, em situações informes e degradantes, mentalmente associo-as às pinturas de Bacon. E a situação terrível, absurda e de uma violência demolidora pela qual passou Paulo Pedroso é isso tudo.

quinta-feira, maio 23, 2019

Não me lembro do nome dela





A secretária do director era uma pessoa intrinsecamente neutra. Nunca tinha opinião e nem valia a pena que tentassem tirar-lhe nabos da púcara: dizia que não sabia, que não tinha lido nem ouvido nada. As outras juntavam-se na copa e riam-se e comentavam tudo mas ela, por isso mesmo, evitava lá ir, especialmente se percebia que as outras lá estavam. Na melhor hipótese dizia-se dela que não dava confiança a ninguém e, na maior parte, dizia-se que era o cão de guarda do chefe. Creio que ela nunca suspeitou destes comentários pois parecia viver fechada no seu mundo.

Não gerava simpatias nem nunca lá lhe conheci uma melhor amiga ou alguém que lhe fosse especialmente simpático. Frequentemente, quando lhe ligava para saber se o meu colega estava disponível, não me lembrava do nome dela. Agora que escrevo também não me lembro. Deve ser das poucas pessoas de que nunca me lembrei do nome, como se fosse anónima, como se a sua identidade fosse irrelevante.

Aquele meu ex-colega sempre foi muito alegre e informal e bem disposto e tentava contagiá-la quer na forma como falava com ela quer na forma como queria que ela organizasse o trabalho. Mas ela era irremediavelmente formal. Colocava cada papel num separador de pastas de despacho, coisa antiga, e levava-lhe como se vivesse no século passado. Separava-lhe os documentos todos em pastas, tudo com um cerimonial a que já ninguém estava habituado. Parecia ignorar as possibilidades da informática. Contudo aprendia tudo num instante e, mesmo no computador, a organização das suas pastas eram exemplar.

Era mais ou menos da minha idade mas sempre a vi como pessoa velha. Não me lembro que tivesse rugas ou cabelos brancos e sempre a vi bem arranjada. Mas tudo nela era convencional, antigo, coisa de outra era. Estou a tentar lembrar-me dela e só me ocorre que parecia estar sempre vestida de igual, de uma cor indefinida, de saias e blusa mas tudo fora de moda, como se vivesse na província, décadas atrás. Tenho ideia que andava geralmente em tons de castanho, com o cabelo também sempre igual, da mesma cor, nem mais curto nem mais comprido. E até pode ser que houvesse cambientes mas é assim que a minha memória a guardou.

Quando eu estava no gabinete do meu colega, ela aparecia a perguntar se eu queria chá e se eu dissesse que sim ela perguntava se preferia lúca-lima, menta, cidreira. E aproveitava para verificar se a garrafa tinha água. Era silenciosa, quase invisível, quase desconfortavelmente discreta. Muitas vezes quase não dava por ela e, quando ia agradecer-lhe, já ela estava a sair.

A certa altura, o meu colega começou a andar preocupado. O novo accionista estava a impôr algumas mexidas e na área dele, em concreto, queria que se passasse grande parte do trabalho para outsourcing o que implicaria mandar embora várias pessoas do departamento. E ele falava, com muita preocupação, de alguns jovens licenciados em quem vinha apostando e de quem, provavelmente, teria que abrir mão. Os jovens nem supunham que o seu destino estava a ser discutido com a maior frieza. Faziam-se contas, equacionavam-se vantagens e desvantagens. O meu colega batia-se como um leão e eu e outros colegas estávamos ao seu lado. Tudo se fez para combater a estúpida moda de externalizar os serviços. Substituía-se mão de obra especializada, gente motivada e dedicada, por serviços que se compravam, serviços esses prestados por outros jovens mal pagos, desmotivados, sem qualquer 'amor à camisola'.

Mas a sentença estava traçada.

Aquela direcção foi reduzida a quase nada e o meu colega foi incentivado a sair ficando ligado à empresa através de uma avença.

Tudo muito triste.

No meio disto, ninguém se lembrou dela. Um dia, ia eu a passar no corredor ao pé do espaço dela, uma espécie de antecâmara do gabinete do meu colega, e vi-a com a cabeça entre as mãos. Senti como que um choque. Nem por um momento me tinha lembrado dela. E agora gostaria de a referir pelo nome e não consigo ter nem ideia de qual fosse. Parei, perguntei-lhe o que se passava. Disse-me o óbvio: tinha sido convidada a ir-se embora. Contou-me que o meu colega lhe tinha dito que não era obrigada a aceitar sair, que ficasse. Mas ela tinha medo de ficar sem nada que fazer ou de ser mandada para outro serviço onde se sentisse recebida por favor, onde não conhecesse o trabalho. Lembro-me que dizia: 'Ainda me põem a lançar facturas'. E eu dizia-a que isso não tinha mal nenhum. Ela dizia, voz quase estrangulada, que não sabia nada de contabilidade. Eu dizia que para lançar facturas não é preciso ser-se contabilista e que a ensinariam. Mas ela reagia como se qualquer dessas perspectivas fosse um pesadelo. Tentei convencê-la: que não estivesse assim, que, para onde fosse, a fariam sentir integrada. Mas ela não queria sequer equacionar essa possibilidade. Nunca tinha conseguido enturmar-se, nunca tinha estabelecido laços de amizade com ninguém. Vivia para trabalhar naquilo que sabia: para servir o chefe, para organizar o trabalho dele. Chorava enquanto falava, mas quase como se não houvesse ali emoção, como se tolhida pela angústia e pelo desalento. Tive muita pena. Ela olhava, com uma tristeza difícil de descrever, as suas estantes tão arrumadas e dizia que não sabia quem ia zelar pelo arquivo e que, de repente, ninguém queria saber de nada daquilo, como se anos de vida profissional vividas com tanto zelo afinal não valessem nada. Disse-me que não conseguia dormir, que só lhe apetecia chorar.

Falei com o meu colega. Estava preocupado. Também ele estava a viver tempos difíceis. E vê-la assim deixava-o ainda mais prostrado. Com a maneira de ser dela, não a via a poder fazer outra coisa na vida senão ser secretária daquela forma dedicada, quase obsessiva. Queria que ela ficasse na empresa. Se fosse para o desemprego, não arranjaria nada.

O meu colega, começou a aparecer menos, alguns dos gabinetes foram ficando vazios e, logo de seguida, ocupados por outros serviços. Ela continuava lá, a olhar para a parede ou para o computador. Todos os dias eu passava por lá, tentava animá-la. Estava amorfa, frequentemente com olhos de sono. Andava a tomar ansiolíticos. 

Até que um dia, a vi a arrumar gavetas. Disse-me que já tinha acertado as contas. Ia para o desemprego e ia receber o subsídio todo de uma vez e porque ia explorar um quiosque, vender revistas. Estava desencantada, com ar cansado. Eu nem queria acreditar. Disse-me que já não aguentava mais estar ali. Eu olhava para ela sem perceber como poderia ela lidar com clientes, ter expediente para saber o que encomendar, como gerir as compras e vendas de uma pequena papelaria. Só pensei que ia desgraçar-se, gastar o dinheiro todo num investimento que não podia dar certo. Não queria desanimá-la. Derrotada já ela estava. Mas também me custava não alertar para os riscos daquela ilusão que, à partida, já era apresentada por ela com ar desiludido.


E lá se foi. Não se despediu de ninguém. Quando por lá passei estava o lugar dela vazio. Nunca mais soube dela. Quando perguntava se alguém sabia dela, ninguém sabia. Acabei por me esquecer.


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Só ontem, e já passaram tantos anos, voltei a lembrar-me dela. Foi ao fim do dia, quando fui fazer a minha caminhada, ao passar por um pequeno café, vazio, todo pintado de cor de rosa, duas ou três mesas com toalhas cor de rosa. Ao fundo, um pequeno balcão que também me pareceu vazio e atrás dele uma senhora com o cabelo apanhado e com um avental cor de rosa. Olhei e senti um aperto no peito.

Era para ter falado nisto ontem, para dizer que tomara que o cafezinho dê certo, que a senhora tenha sorte. E que aquela minha colega de que não consigo lembrar-me o nome também tenha tido sorte. Mas meteu-se aquilo do Prémio Camões para o Chico e quis aqui deixar-lhe o meu agradecimento e os meus parabéns. E, por isso, esta conversa ficou para hoje.

E é mesmo só isto que eu hoje tenho para dizer.


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[As fotografias são de Tamara Dean]

quarta-feira, maio 22, 2019

Chico e o seu jeito manso de amar a Teresinha
-- e, para além da Teresinha e de tantas outras mulheres, a língua portuguesa, a bem amada língua portuguesa.
Salve, amigo Chico Buarque, grande Prémio Camões 2019.





Já o contei muitas vezes: devo o nome deste blog à canção do Chico 'O meu amor'.

Faz já algum tempo, num certo sábado, tínhamos estado a ouvir as canções do Chico quer cantadas por ele quer pela Bethânia, canções que bem conhecíamos. Eu tinha levado para ouvirmos no carro e, depois, à chegada, apeteceu-nos continuar a ouvir e levei o CD para casa. E ali ficou a tocar. 

Como por vezes acontece quando ouve canções de que gosta, o meu marido passou o dia a cantarolá-la e eu também, entoando-a nós com a malícia que a letra pede. Às tantas, cantávamos ao despique. 

Sempre gostei especialmente de quando a Teresinha diz:

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada, ai

ou
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai

Quando, nessa noite, resolvi experimentar ver como se fazia um blog e tive que lhe dar um nome, foi sem pensar que me saíu 'um jeito manso'. 

Por vezes, ocorria-me que, como título de blog, 'um jeito manso' não fazia grande sentido mas a verdade é que sentia que o nome se me tinha colado. E até comecei a achar que, na volta, até fazia sentido. E assim foi ficando.

Tenho, pois, essa grande dívida ao Chico. Essa e muitas outras. Gosto muito das suas canções e da forma como as canta. Ainda não li as razões da escolha para Prémio Camões. Pode ser que tenha também a ver com os seus livros. Mas eu, em relação ao Chico, é pelas suas canções que mais me deixo encantar.

E há tantas.

Por exemplo, a sua Geni.


Ou as suas Mulheres de Atenas


Ou a ternura de João e Maria (aqui apenas a letra)



Ou tantas outras.

Claro que também pode ter recebido o Prémio pela cor dos seus olhos. E, se foi por isso, também terá sido muito bem dado pois quem tem uns olhos assim, cheios de mar, merece de certeza o prémio Camões.


Também pode ter sido por saber gostar de mulheres e por saber dizê-lo com tão bom gosto, mesmo quando escreve poemas de mulheres escritas na primeira pessoa.


Para acabar, uma de que muito gosto, aqui justamente cantada por uma mulher.
Elis Regina canta Tatuagem



Chico, muitos parabéns pelo Camões 2019. Salve.

terça-feira, maio 21, 2019

Sobre o debate televisivo nada a dizer.
Por isso, passo à frente e tento compensar as pessoas que vieram parar ao Um Jeito Manso e, certamente, não deram com o que queriam.


Tenho que confessar: volta e meia ia espreitar o debate com a Maria Flor Pedroso mas havia ali personagens que beliscam a minha paz de espírito e que, onde quer que estejam, conduzem a conversa para o vão de escada, para a conversa de deitar fora, para a mais rapada lorota. Não dá. Mesmo que algum deles quisesse ser esclarecedor logo aparecia um galã a fazer sorrisinhos de engate, especialmente quando a Marisa falava, ou uma galinha despenada a cacarejar espaventosamente fosse contra os outros, fosse contra a própria moderadora. Aliás, para falar verdade, nem percebi o que estava uma galinha a fazer ali. Será que, ao menos, pôs algum ovo? Ou nem isso?

Não aguentei, portanto. De resto, já sei em quem vou votar; não são estas rodas de baile mandado que me vão esclarecer. Portanto, salvo algumas fugazes espreitadelas, passei ao lado, estive entretida a recordar os tempos em que o Láparo made my days e a fazer outras coisas mais instrutivas.

E agora, antes de ir pregar para outra freguesia, fui espreitar as estatísticas do blog e, ao ver as palavras que algumas pessoas escreveram nos motores de busca e que as trouxeram até aqui, constatei que as mais frequentes são as de sempre: 'Um jeito manso', 'um jeito manso blog', 'quem é a autora de um jeito manso', etc, mas, que, a seguir, voltam a aparecer algumas fantásticas. Confesso que me deixam intrigada não apenas por não saber a que algumas se referem, como por não perceber porque é que o algoritmo achou que aqui iam encontrar o que queriam. E algumas expressões têm muita graça.

Mas porque receio que tenham vindo ao engano e porque não quero que falte nada a quem aqui vem, vou tentar satisfazer a curiosidade dos meus visitantes. Faltam-me palavras para os elucidar tal a complexidade do desafio pelo que me fico por imagens -- e espero que sejam self explaining.

A rapariga dos bincos de perla 



Uma rapariga pico de perila



Corno manso que é cavalo



Abano de sacoca de abanar fogo





Filme pornô m calçados





Sexo nacional de dona gina 



Cerveja Gina (ou Yoni beer) -- cerveja feita com essência de vagina

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E, agora, caso queiram recordar o nada saudoso Láparo, podem fazer o favor de descer mas deixem que vos diga que não é coisa que se recomende.

Desenterraram o Passos Coelho para mostrar que não aprendeu nada e, cá para mim, para enterrar ainda mais o Rangel.
Coisa esperta.
O PSD está a especializar-se em dar tiros nos pés.


  • Se um País tiver muitos desempregados, que não descontam para o fisco e não contribuem para a Segurança Social, e, pelo contrário, recebem subsídio de desemprego, 
  • se, além disso, houver muita gente a emigrar e, portanto, sem fazer descontos no seu próprio país, 
são os que ficam e trabalham que descontam por todos. Ou seja, havendo menos gente a descontar, são os poucos que descontam que terão que suportar taxas de impostos e contribuiçãoes mais elevadas. Foi o que aconteceu na era do Láparo. Em especial a classe média foi esmifrada até ao tutano. Com  cortes de ordenados, agravamento de taxas e com taxas suplementares, penaram a bom penar. 

Em contrapartida, em era de maior desafogo, há menos desempregados, há menos subsídios a pagar e há mais gente a trabalhar e, logo, a descontar. E, se muitos emigrados voltarem, mais gente ainda haverá a fazer descontos. Mesmo que cada um pague menos impostos, e, portanto, sofra menos, quando tudo é somado, o 'bolo' total é superior. E é isto que se pretende, que mais gente pague e que cada pessoa pague menos. É o que acontece agora.

E é isto, caraças, que o Láparo (o campeão dos orçamentos rectificativos, o campeão do não-acerta-uma, o campeão dos insultos aos portugueses) não consegue perceber.  Apareceu agora na campanha eleitoral, ao lado do Rangel, a atacar o actual governo pela maior carga fiscal de sempre, sem perceber que houve um alívio a nível individual. 

E o PSD, um partido de gente doida varrida, parece também não conseguir perceber que, desenterrando o Láparo para ele exibir o que tem, ou seja, a sua proverbial ignorância e o seu deselegante e desagradável ressabiamento, só consegue uma coisa: enterrar ainda mais o incapaz Rangel. 

Andavam a cantar de galo, e nunca percebi porquê, dizendo que a campanha do PS estava a correr mal. Nunca percebi em que é que se baseavam. 

No fundo, apregoavam o que desejavam como se fosse uma verdade -- e os jornalistas-papagaios e os comentadores-papagaios, que nunca validam nada, repetiram a boutade como se fosse um facto. Mais: em cima da pueril parvoíce, construiram uma narrativa. Ficção, claro. E, claro!, enganaram-se em toda a linha.

E o que tudo isto revela é a triste falta de tino desta descomandada tropa fandanga laranja. 

O Rio, como sempre, pouco aparece. Deve andar a processar a informação -- sempre com um delay de dois dias. Como todos os dias há novas cenas, todos os dias precisa de mais dois dias. Ou seja, não consegue sair da fase de reflexão. O partido perde relevância de dia para dia e ele népias, tem mais que fazer.

Não vão longe, claro. Mas no dia 26 à noite logo falamos.


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Os cartoons do Kaos são do Kaos e eu, para não me repetir, só digo que muito gostaria se o dito We Have Kaos in the Garden regressasse. Faz tanta falta.

Onde andas, Kaos? Volta...

segunda-feira, maio 20, 2019

Para Duarte Pacheco a Grã-Cruz dos Inenarráveis Peitorais -- proponho eu.
Enquanto isso, Marques Mendes e João Vieira Pereira (cada qual mais Justiceiro-Mor que os demais que por aí pupulam), propõem retirar todas as condecorações a Berardo, Zeinal Bava, Bataglia... e, claro... Sócrates.


Tinha deixado a televisão da sala ligada. Fui acabar a sopa e tratar de outras pendências. Quando acabei, voltei para a sala para passar um brilhozinho nas unhas. Estava o Marques Mendes a perorar e, estando eu ocupada com uma tarefa que obriga a pouca movimentação não vá estragar o trabalhinho, deixei-o estar. 

E então ouvi o impensável: na sequência da convicta defesa da retirada da comenda ao Berardo, a quem chamou burlão e aldrabão, qual justiceiro adepto da justiça popular, dispensando os órgãos institucionais que têm por missão tomar decisões sobre isso, Marques Mendes defendeu que fossem também retiradas as condecorações a Zeinal Bava e Helder Bataglia e, de caminho, também a Sócrates (uma condecoração atribuída em 2005) e isto, segundo ele, devido a, e passo a citar apesar de "não ter sido julgado nem condenado" a sua conduta "foi inadmissível no plano ético e mancha a imagem de Portugal"


Ora não sei a que se refere ele. Se se refere àquilo que o próprio Sócrates reconheceu, de gostar de levar um estilo de vida digamos que desafogado e, para tal, recorrer a dinheiro emprestado por amigos, não sei se isso é razão para retirar condecorações a alguém. A menos que uma condecoração seja uma estrelinha de bom comportamento na caderneta. Mas, então, se é isso, o melhor é dá-las a padres e freiras e, mesmo assim, poucos passarão no crivo. Mas se refere a questões que constam da acusação e que nem o juiz Ivo Rosa ainda conseguiu digerir e que ainda estão longe de ser julgadas em tribunal que é onde estas coisas se tratam, então, uma vez mais Marques Mendes se esticou. sistematicamente mostra ser um manipulador e, se ainda é Conselheiro de Estado, muito mal aconselhado andará Marcelo Rebelo de Sousa.

E se a semana passada louvei o editorial de João Vieira Pereira, actual director do Expresso, por me parecer que estava mais atilado e isento, à segunda semana, constatei que me enganei, continua igual a si próprio, tendencioso, pouco profissional.

No artigo 'O sorriso é dele, a vergonha é nossa', no qual salta a pés juntos em cima de Berardo, não hesita em ceder ao seu vício: o de ir buscar Ricardo Salgado e, sobretudo, Sócrates, para os apresentar como os pais de todos os males do mundo para, como sempre, através deles, justificar o percurso de Berardo.
A dado ponto escreve: 'Tal como Salgado e Sócrates, também Berardo foi idolatrado. Algo que acontece com demasiada frequência. Basta lembrar que durante anos ninguém questionou a alegada herança de Sócrates que lhe permitia comprar apartamentos de luxo ou fazer uma vida desbragada numa das mais caras cidades do mundo.'
E mais à frente: 'Quando entrou no Parlamento Berardo deve ter achado que Sócrates ainda era primeiro-ministro ou que os banqueiros mandam alguma coisa'.
Uma forma rudimentar de pensar e, lamento dizê-lo, também de escrever.

E, lendo aquela prosa, fico sem perceber se o João Vieira Pereira tem dons mediúnicos e consegue ver o futuro, sabendo já a sentença do caso Marquês, ou se, uma vez mais, confunde o manuel germano com o género humano, a árvore com a floresta e a beira da estrada com a estrada da beira. Ele já sabe se Sócrates comprou mesmo apartamentos de luxo? Ele já sabe se Sócrates cometeu crimes? Se sabe, seria interessante que o dissesse. Mas que o dissesse fundamentadamente. É que eu não sei ainda de nada.

Sempre conheci João Vieira Pereira assim: pouco perspicaz, gabando o que os outros gabam, louvando o que os outros louvam, incapaz de ver um palmo à frente do nariz. Mas, quando alguém cai em desgraça, aí ele vira o mais implacável saltitão a pés juntos. Um puro maniqueísta, ainda por cima desprovido de subtileza.

Volto a dizer aquilo que sei: Sócrates foi julgado politicamente através das eleições e é nas urnas que se julga quem vai a votos. No que se refere às suspeições -- sobre as quais a gente mais incompetente que a Procuradoria já pariu construiu impunemente o maior monstro jurídico alguma vez foi visto e que temo que nenhum ser vivo conseguirá alguma vez virar de lés a lés -- há que esperar que, nas nossas vidas, alguma conclusão seja retirada. 

Pela parte que me toca, a minha posição é a de sempre: qualquer pessoa é inocente até prova em contrário. E não há justiceiro de meia tigela que me faça mudar de ideias, seja ele uma espécie de conselheiro de estado, seja ele um director de jornal.

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E eu, se é para ser assim, com base no diz-que-diz-que e no vale-tudo popularucho, avanço já daqui com uma proposta de condecoração com a Grã-Cruz do Macho com o Body mais Improvável para Duarte Pacheco do PSD, esse espectacular macho latino a quem não se conhecem outros feitos que não o de cultivar bem o corpo e de ter uns mamilos indecorosamente arrebitados.



E, tirando isso, nada mais.

domingo, maio 19, 2019

Viver num mundo paralelo





Madruguei, salvo seja, para ir à cabeleireira. Quando liguei, só havia hora para a tarde o que cortaria o dia. Ficou mas pedi que, se houvesse alguma desistência, me avisasse. Ligou há dois dias a dizer que a primeira cliente do dia tinha adiado por uma semana. Ao sábado ter que me levantar tão cedo é contranatura e violência gratuita mas, enfim, era a hora que estava livre, fui. Quando lá cheguei ainda o salão estava fechado. Arrependi-me de ser tão bem mandada, bem podia ter dormido um pouco mais. Paciência. Fiquei sentada no parapeito da montra.

Quando ela chegou não refilei. Coitada. O dia todo de pé, sem horários, não deve ser fácil. E é uma simpatia, discreta, contida, boa profissional. 


Quando viu a ficha, disse-me, com ar admirado, que eu já lá não ia há alguns meses. Até para mim foi surpresa, não pensei que tivesse passado tanto tempo. Depois, ao pegar-me no cabelo, disse que já tinha perdido o escadeado, que já estava sem corte, que estava com muito volume e pesado e que não sei quê, não sei que mais. Ou seja, cá para mim estava a tentar que eu confessasse. Mas não me denuncio facilmente. Não confessei que tenho cortado o cabelo em casa. Mas o cabelo cresce-me muito e, volta e meia, tenho vontade de me recondicionar toda, a começar pela cabeça -- e lá vai disto. Portanto, ter corte até tem, tem é dos meus, tesourada aqui, tesourada ali.


Aproveitei foi para o de sempre, para me atirar à literatura ali residente para pôr a fofoquice em dia. Revistas variadas. O problema é que cada vez mais conheço menos daquela gente. Ou são de telenovelas que não vejo ou de programas da manhã ou da tarde que também desconheço. E uns são ex de outras e namoram numa revista e desmentem na seguinte e são amigos para a vida numa outra. E há desaguisados que metem baptizados e não se percebe se a mãe da criança convidou a namorada do ex-marido e se as indirectas da namorada no facebook são directas para ela ou se para a geral ou se é mera filosofia. E depois, para minha surpresa, vejo o Conde rodeado de duas putativas namoradas de um agricultor e, quando aprofundo, leio que uma descobriu sms de uma com o Conde e que ficou sentida e prefere afastar-se. E quando ainda estou a refazer-me, sem perceber nada, vejo uma outra que foi descartada por um agricultor agora a namorar com um dos que casou à primeira vista. Sem perceber, perguntei: 'Mas afinal passam de uns programas para outros e só desistem quando casam mesmo?'. Ela disse-me: 'Numa era destas, como é que as mulheres se sujeitam a isto, a entrarem em programas destes, serem escolhidas?' e eu disse: 'Mas, do que percebo, as que não foram escolhidas num programa, vão tentar a sorte com os ex-maridos à primeira vista do outro programa...'. Ela disse, resoluta: 'Isso não sei, não tenho tempo para ler as revistas. O que sei é que o pior de tudo é o da TVI, em que são as mães que escolhem para os filhos. Só consegui ver um bocado, uma vez. Um disparate que não imagina, até revolta, desliguei logo'. Eu confessei que esse não conhecia, deve dar a horas a que não apanho. Expliquei que, no campo, sem cabo, ao sábado à noite, volta e meia, à falta de melhor alternativa, vejo um bocado daquilo do agricultor e que é coisa de doidos, mulheres aparentemente normais a sujeitarem-se a andar a disputar um namoro com outras. Uma coisa do além. Mas agora vê-las aparentemente a tentarem a sua sorte com outros de outro programa ainda me faz achar que tudo isto é ainda mais rocambolesco e que a televisão e as revistas e tudo isto é um nonsense pegado.


Quando ela, de escova e secador na mão, me perguntou se era como sempre, despenteado, eu disse que sim, claro. E daí até estar despachada foi um ápice pelo que nem tive tempo de digerir esta minha condição de marginal. Quando leio estas revistas -- e gosto de folheá-las para me certificar disso -- concluo sempre o mesmo: há um mundo paralelo àquele em que vivo. Aliás, há muitos. São mundos habitados por pessoas diferentes das que conheço, que pensam e agem de forma oposta à minha. Votam como eu e o seu voto vale tanto como o meu. E, no entanto, eu e esses seres somos perfeitos estrangeiros. Não falamos a mesma língua, não temos os mesmos hábitos, não perfilhamos os mesmos valores. Aparentemente nada nos une.

De lá viemos para cá. No caminho, voltei a mostrar como sou fraca: comprei outra vez o Expresso. Ver a Sophia na capa da Revista fez-me não hesitar. 

Li no carro, li depois de almoço, antes de adormecer, li depois de acordar, li antes de jantar e depois de jantar. Sobre a Sophia e não só. A ver se para a semana nada me tenta porque isto não pode ser.

E já passeei ao vento, já fotografei, já me maravilhei com a beleza de todas as florzinhas, e já fiz uma máquina de roupa que secou ao vento e já limpei o pó e já zaragateei comigo mesma por nunca ter tido coragem de acabar com este acabamento rústico das paredes que faz com que as teias de aranha se infiltrem nas rugosidades e já senti aquela sensação boa de fazer a cama com roupa de lavado, acabada de colher, ainda transportando o vento e a sol.

E fotografei estes frutos cheios de luz e doçura e a seguir comi-os e, portanto, é assim que me sinto agora, doce e cheia de luz. Mas isto sou eu a dizer, claro.


E estou a ver o Sexo e a Cidade 2 e o Mr. Big continua cheio de charme e passa das duas e meia da manhã e eu gosto tanto da noite, de aqui estar neste dolce fare niente, a escrever coisas de nada. E, de madrugada, hei-de despertar ao de leve para abrir a janela e deixar entrar o cantar dos pássaros e a frescura do alvorecer e vou bendizer a vida e vou sentir a felicidade de respirar este ar tão bom e tão cheio de paz aqui neste meu mundo paralelo, e voltarei para a cama para adormecer e dormir até a manhã ir alta porque não há coisa melhor do que dormir até tarde numa manhã de domingo.

(Quer dizer, haver até há. Mas faz de conta que não para o texto poder acabar em beleza)

No gume da perfeição, no intenso halo da líquida luz transparente, no ronco da treva, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme




Há qualquer coisa de muito parecido na maneira de tratar de um jardim ou escrever. No fundo, há uma atitude fundamentalmente idêntica, uma certa mistura de florescência e geometria. Ambas as coisas exprimem, em mim, uma confiança no sntido positivo do universo.




E a noite lá fora, com os seus perfumes misturados, com os seus murmúrios e silêncios e sombras e brilhos, parecia o rosto de uma promessa



  • Excertos do artigo O princípio de Sophia de Ana Soromenho no Expresso de 18.05.2019
  • Fotografias feitas este sábado in heaven
  • Coro de Câmara Lisboa Cantat - dir. Jorge Alves, música de Eurico Carrapatoso sobre poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen



sábado, maio 18, 2019

Danças com lobos






Se me visse frente a frente com um lobo talvez morresse de medo. Talvez nem resistisse. Talvez por delicadeza me deixasse morrer

Ou talvez não. Não sei. 

Talvez o olhasse nos olhos, talvez convencida que também ele assim me quisesse olhar. Talvez quisesse que ele me visse como igual pois era assim que eu queria senti-lo, igual, incompreensível, secreto, perigoso. 

Talvez nas noites em que gosto de entrar sozinha eu gostasse de saber que algures, numa outra geografia, também a entrar na noite, um lobo avança sozinho, olhando a imensa escuridão, sem medo, com apetite de susto, com vocação para desafiar abismos, com os olhos abertos procurando sinais inexistentes, apenas intuídos.


Somos assim. Lobos que não se oferecem facilmente, esquivos, silenciosos. Lobos que secretamente se procuram. Se uivam contra a noite é apenas porque a emoção não cabe no peito nem os olhos a conseguem reter; ou porque têm medo. Por vezes a solidão que se adensa no seio da noite fere o coração. Os gritos por vezes são inevitáveis, longos, queixumes que atravessam o espaço, que se despenham contra a distância.

Estou em silêncio. Escuto, espero.

E sei que o lobo que está aí, escondido, à espreita, se ri com palavras como estas, desprovidas de sentido, que encobrem o que não querem dizer, palavras que se perdem de mim, que se perdem na noite. Sabe que a sua respiração chega até mim, um bafo acre que sinto vindo de longe, um bafo que faz arquear o dorso, o peito, que faz fraquejar as pernas. Louco o lobo, louco, descarado, insolente. E eu aqui, desprotegida, esperando que uns passos se arrisquem silenciosamente, descaradamente, até mim. Eu aqui, traiçoeira, contendo o salto, contendo o rasgar que vai acontecer, os dentes ansiosos pela carne, a paixão que rebentará todos os diques. Neve, vales, grutas sem fim, escuridão atravessada pelo silêncio e pelos gritos das aves. As noites são frias, escondem terríveis mistérios, inconfessáveis temores, loucuras sem explicação, segredos, sussurros, efémeras confissões. Andas na neve, percorres as florestas, enfrentas tantos perigos, tantos, tantos.


E eu aqui por ti. Escuta-me. Imagina o calor das minhas mãos, adivinha como é doce a minha baba, macio o meu pelo, tentador o meu olhar.  Antecipa o vagar dos meus passos, antecipa o mais que virá depois. Sei que estás aí. E sei que vens na minha direcção sem querer saber dos mil perigos, louco, rouco, arfante, aflito, cheio de medo, petulante, corajoso. Vem.

Lobo, lobo, lobinho.

Vem dançar comigo. Salta, voa. Vem.

O lobo sabe
"The wolf knows when it is time to stop looking for what he may have lost and to focus instead on what is yet to come."  - Jodi Picoult

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E a todos desejo um bom sábado

Não sabe em quem votar no próximo dia 26? Ora tome lá um Quiz muito simples que lhe dá uma boa ajuda.
E vote.
Por amor da santa ou da sua rica mãezinha, seja ela viva ou não, ou da prima ou de quem quiser, vote


Já nas últimas eleições eu tinha experimentado e acho que a coisa bateu certo. A lógica disto é mais ou menos a mesma que o Patriarcado usou: para um conjunto de questões críticas, analisa-se o programa dos partidos e vê-se quais as que batem certo com as respostas. Depois o resultado é uma percentagem dos matches. Só que no caso do Patriarcado ficaram-se pelas questões mais ligadas ao que se sabe e não ao que é mais relevante e para o qual, por exemplo, o Papa Francisco tem chamado a atenção (imigração, refugiados, etc). Mas já se sabe que para a ala conservadora, ortodoxa e reaccionária da Igreja Católica, o Papa Francisco é um perigoso socialista.

Adiante.

Não conheço o programa eleitoral dos partidos, sou preguiçosa. Portanto, ao responder ao questionário, respondo exclusivamente segundo a minha opinião.

Há uma primeira série de questões a que se responde segundo o que concordamos ou discordamos, mais ou menos. Seguidamente, há uma segundo lote de questões em que, independentemente, de concordarmos ou discordarmos, apenas deveremos dizer se o tema, para nós, é mais ou menos relevante ou indiferente.

Se ainda não experimentou, experimente. Clique aqui:

EUROPEIAS 2019

[Caso vos apareça aquela porcaria do Nónio pela frente, sigam o conselho do Paulo do comentário lá mais para baixo:
  • No caso do Chrome:  https://chrome.google.com/webstore/detail/nonioblocker/mgjhmbdcblaeiplecddckgalpiceoiaj?hl=en-US             
e depois clicar em               Add to Chrome
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No meu caso, não me importo nada de aqui transcrever os meus resultados. Quando vistos em panorama são:

Liberal/Pró UE
Conservador/Anti UE


Ou seja, segundo o QUIZ, sou 83% concordante com o PS (ie, liberal, de esquerda e pró UE). Curiosamente o partido logo a seguir é o PAN, partido cujos princípios e objectivos desconheço e que não faço ideia de se o que defendem é coisa sustentada e sustentável. Tenho que ir investigar.

Uma vez mais acho piada ao quadrante em que o PCP se situa: conservador.

O partido de quem estou mais distante é o BASTA. Uff.... livra!

E, já agora, mais uma dica. Se não sabe onde vai votar, clique aqui, preencha a pouca informação requerida e obterá essa informação.

E, se tem ainda mais alguma dúvida e isso lhe serve desculpa para não votar, que não seja por isso: escreva-me que tentarei ajudar. Vote.

E mesmo que ache que esta campanha eleitoral é uma pepineira, que não há pachorra para esta maneira antiguinha de fazer política, que não há pachorra para esta mania de andarem a falar de questiúnculas internas em vez de trazerem questões relevantes a nível europeu, mesmo assim, escolha aquele com quem mais se identifica --- e vote. Vote. O pior de tudo é a desistência, a abstenção, a porta aberta ao populismo. Por isso, vote.

sexta-feira, maio 17, 2019

Este, que dizem que é feito de lágrimas de anjos, é que eu, na altura, devia ter usado...!




Já aqui contei que, quando concluí o bacharelato, fui dar aulas no Secundário. Não sei se ainda há esse grau, de bacharelato. Tenho ideia que agora esses três primeiros anos correspondem à licenciatura. Na altura, a licenciatura obtinha-se ao fim de cinco anos lectivos. Pelo menos, no meu caso foi. Mas, então, mal acabei o bacharelato, como era habilitação própria, concorri para dar aulas e fui colocada na escola que, no concurso, tinha posto em primeiro lugar, escola que desconhecia, num lugar que também desconhecia. Tinham-me dito que era rapidíssimo lá chegar, que havia horários bons, completos, e isso para mim chegou. Percebi depois de lá estar que era uma escola especial num lugar especial. E claro que todas as escolas e lugares são especiais mas, nisso como em tudo, cada coisa é especial à sua maneira,

Tinha alunos quase da minha idade. Um deles, um gabiru simpático e divertido que assumiu a minha protecção, tinha apenas menos um ano que eu.

Nessa altura eu era, pois, uma jovem adolescente que tinha acabado de fazer vinte anos e que entrava naquilo na maior inocência e em total desconhecimento do meio. Usava cabelo muito curtinho, vestidinhos leves ou calças com tshirts justinhas, brincos por vezes arrojados. Ousava sem pruridos e sentia-me sempre bem. Embora ainda estudasse (para concluir a licenciatura), não me queixava nem um bocado da minha vida. Tinha tempo para preparar as aulas e para corrigir os testes, para estudar, para ir ao cinema e ao teatro, para namorar, para passear, para estar com amigos, para ler. Não havia telemóveis nem internet, não tinha carro, mas nada disso me deveria fazer falta pois a vida não me era pesada. Tudo fluía na maior naturalidade. Não sei como fazia mas a verdade é que não me lembro de correr ou de andar cansada.

Contudo, apesar de ser aquela menina descontraída e bem disposta, na sala de aula levava o ensino muito a sério.

Gostando muito da matéria que ensinava, queria que os alunos percebessem a sua beleza e a sua utilidade. Contudo, via-me confrontada com salas cheias de jovens insubordinados que, de forma geral, achavam que não valia a pena esforçarem-se porque, axiomaticamente, a matéria era de dificuldade estratosférica. Acresce que eu dava o 11º ano e eles, nos anos anteriores, não sei o que tinham andado a fazer pois, na maioria, não sabiam nada de nada. Bases nenhumas, conceitos elementares zero. Uma frustração. Por cada coisa que eu queria ensinar, tinha que recuar para explicar o b-a-ba.

Acresce que uns drogavam-se, outros bebiam, outros riam-se dos restantes, e quase nenhum queria saber daquilo que eu ensinava nem tinham sequer preocupação em poder ter negativa.

Mas, como disse, eu levava aquilo mesmo a sério e, portante, não vacilava. Insistia, persistia, não desistia.

A minha voz, que é o que sabe, funciona bem no registo normal ou baixo. Se tenho que gritar, coisa que detesto, dá-me tosse. E, se grito por estar zangada e me dá um ataque de tosse, de seguida dá-me um ataque de riso por perceber a inconsequência e o ridículo da minha manifestação de desagrado. E, se havia motivo para me zangar e, a seguir, me desatava a rir, está claro que o respeitinho se ia imediatamente. Às tantas estava toda a gente a rir.

Acabaram por me respeitar, alguns acabaram por gostar da matéria. E eu gostava mesmo deles, fossem ou não casos problemáticos. Mas era uma luta diária.

E, por causa disso, apanhei várias faringites. Não tinha por hábito levar uma garrafa de água para a sala. Aliás, nem sei se, na altura, era costume andar-se com garrafinhas de água -- acho que não, não me lembro. Ficava, pois, com a garganta seca, não só de explicar a matéria mas também de mandá-los estar calados, esforçar a voz e, ainda por cima, porque parte da aula era passada a escrever a giz no quadro. Aquele pó era a cereja em cima do bolo nos estragos nas minhas cordas vocais.

Na altura, também usava lentes de contacto. Antes, andei mais de um mês na clínica a ver filmes em que a única coisa que aparecia era gente de todas as idades a pôr e tirar lentes numa tentativa de que, pelo exemplo, eu aprendesse a colocá-las pois, mal aproximava o dedo, involuntariamente fechava o olho e não conseguia colocá-las. Desesperava. Toda a gente me dizia que era nas calmas e os filmes assim o evidenciavam. Mas eu não conseguia.

Mas quando, finalmente, atinei tornei-me inseparável delas. Na altura, tudo era utilizável até ao limite desde que houvesse cuidado. Todas as noites, seguindo as indicações da clínica, colocava-os num estojinho com soro (acho que era soro), hermeticamente fechado, e o estojinho dentro de uma panelinha ao lume, com água a ferver. Volta e meia esquecia-me da panelinha ao lume, a água quase se evaporava e o estojinho deformava-se mais um pouco. Mas eu não me queixava do método de esterilização, queixava-me era de ser tão cabeça no ar. Mas não era queixa sentida pois pouco tempo depois acontecia o mesmo. Por fim, o estojo já mais parecia uma coisa informe cuja tampa já não fechava bem.


Usar óculos de ver -- sem serem de sol -- é que eu não usava nem por mais uma. Quer na faculdade, em que as salas eram grandes, quer na escola em que dava aulas, não podia estar sem ver bem. A miopia era fraca mas, enquanto aluna, era o suficiente para ver tudo desfocado para o quadro ou, enquanto professora, estando eu junto a ele, para não ver bem as patifarias que os meus alunos das últimas filas preparavam ou o copianço em dia de teste.

Acontece que o pó do giz não era lesivo apenas para as cordas vocais: era péssimo também para as lentes de contacto. De cada vez que eu apagava o quadro, sentia picadas nos olhos. Aguentei firme, claro. Náo podia esfregar senão picava ainda mais, ficaria a escorrer lágrimas. Por isso, era como se nada se passasse mas só eu sei o que me custava. A estética levava sempre a melhor sobre o conforto. Suportei isso durante os anos em que dei aulas. Mas, na verdade, para mim, aquilo era coisa sem importância. Chegava a casa, tirava as lentes, lavava-as, punha-as a ferver. E, para a garganta, chupava rebuçados de mel, de eucalipto. 

O médico bem me dizia: é o pó de giz, nada a fazer.

E agora, tantos anos depois, vejo no vídeo abaixo que há estes paus de giz maravilhosos que permitem uma escrita limpinha, elegante, desempoeirada, e percebo como teria sido bom que tivesse podido usá-los naqueles anos em que fui professora. Vêm do Japão, dão pelo nome de Hagoromo e dizem deles que são feitas de lágrimas de anjo.

Um vídeo muito bonito, que me fez lembrar esses longínquos anos.

Why the World’s Best Mathematicians Are Hoarding Chalk



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Lá em cima é Angêle que, na abertura do Festival de Cannes, evoca M. Legrand e Agnes Varda

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E uma bela sexta-feira para todos.

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