Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 12, 2019

Postal ilustrado com um bravo senhor e entrar no mar cintilante, jactos de água a agredirem-me os esplénios e os trapézios
--- e outras insignificantes coisas mais





Ontem, quando estávamos a chegar à praia, ouvimos um casal à nossa frente. Dizia a senhora para o marido: 'Afinal há hotéis à beira da praia...'. O marido ficou calado e, depois, encolhendo um pouco os ombros: 'Pois é, mas agora já não dá'. A senhora olhou o mar disse: 'Mas também aqui o mar é mais batido.'. Ficaram no varandim do passadiço e nós seguimos. Mais à frente, ao mesmo tempo, perguntámos um ao outro: 'Mais batido....?'. O mar estava chão. 

À noite encontrámo-los na 'baixa', na zona dos restaurantes. Fiquei na dúvida se eram eles mas o meu marido disse: 'São aqueles do mar batido'. Ele estava quase igual, embora de calças e camisa, mas ela estava outra, produzida, toda maquilhada, toda ela finèsse.


Aliás, grande parte das mulheres aperalta-se a preceito para jantar. Á passagem deixam um rasto de perfume e todas elas desfilam elegância, salto alto, lábio reluzente de gloss, vestes vaporosas.

Eu não. Mal me cheira a férias e praia, mesmo que as férias sejam os dias do fim de semana, já eu largo tudo o que associo aos dias de trabalho: não há cá saltos altos, maquilhagem, bijuterias. Simples, o mais simples possível.

Tive foi que comprar outro chapéu. Nem me ocorreu que, com estas temperaturas, já não estamos em Maio mas no pino do Verão. Ontem, quando depois de almoço fomos dar um passeio ligeiro à beira-mar, estava uma luz de tal forma desabrida que, mesmo com óculos escuros, mal conseguia abrir os olhos. É de palhinha em cor crua, abas largas. Tem sido essencial. Não gosto de apanhar sol directo no rosto quando é à bruta, só ao entardecer que é suave.


Hoje de manhã o mar estava, de facto, levemente mais picado, Estava um pouco de vento e essa picardia associada ao sol que lhe caía a pique, fazia-o cintilar. Lindo. Não tive coragem de me meter lá dentro. Só um senhor que aparentava idade para poder ser meu bisavô é que se aventurou e aparentemente não lhe custou. Entrou na maior, lá esteve como se estivesse de molho e saíu todo lampeiro, secando-se na maior descontração, como se não tivesse vestígio de frio. A mulher, dez vezes o peso dele, sentada na areia, de perna aberta e sorriso largo no rosto, filmava-o, toda orgulhosa do seu macho alfa.

Já não na praia, pus-me a jeito de ser agredida com jactos de água quente, em especial no pescoço, nuca e ombros e, portanto, sinto-me bem melhor. Aplica-se-me, portanto, aquilo do quanto mais me bates mais gosto de ti (mas a água quente à pressão tem esse exclusivo). Como também não tomei nenhum comprimido ontem, hoje tenho conseguido manter-me acordada.


Agora, por acaso, uma vez que estou a escrever deitada, até me está a dar uma leve soneira mas vou ver se consigo ainda ler qualquer coisa do Expresso. 

Daqui a nada voltamos à praia. E eu, que tenho esta coisa de instantaneamente pôr tudo para trás das costas, estou aqui como se estivesse nas Caraíbas, a milhas de Rui-Rios e seus muchachos fabricantes de fake news, de Cristas & seus descerebradinhos colaboradores, do ex-ubíquo Marcelo e do intrigante buraco negro mediático em que se enfiou, do emplastro Nogueira que ameaça continuar a denegrir a imagem dos professores por mais muitos e bons tempos, e de tudo o mais que assola os ares de quem vive no mundo real (se é que a vida política tem a ver com o mundo real, coisa de que cada vez tenho mais dúvidas).

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E, assim sendo, até mais logo.

[PS: Escuso de dizer que o Ártico ali em cima, pelos dedos de Einaudi, é para ver se ajuda a aliviar esta temperatura tropical]

segunda-feira, dezembro 17, 2018

Crónica de um domingo a deitar por fora, com a memória de uma noite muito louca




A ver se, sem me alongar, aqui deixo registo da trabalheira deste domingo. Mal me levantei pedi ao meu marido que me ajudasse no registo de, para cada uma das fotografias seleccionadas, resolver quantas e para quem. Quis dizer-lhe quais os critérios mas não teve paciência para me ouvir. Quando fui ver, estava a dar quase todas a toda a gente. Não podia ser senão ia dar milhares. Ficou logo mal disposto. Na segunda vez, estava minimalista e fotografias de que as outras avós ou as tias ou as primas iriam gostar não tinham sido contempladas. Chamei a atenção e ainda mais mal disposto ficou, que eu só faço coisas sem jeito nenhum, se alguma vez se viu tanta fotografia para tanta gente, que não tem paciência e que lhe peço ajuda mas que depois só quero as coisas feitas à minha maneira e que fizesse eu o resto.

E acabei por ser eu a acabar aquela maratona. Mas, apesar de tudo, muito menos que o ano passado em que, que me lembre, ultrapassaram as mil. Este ano ficaram-se pelas quinhentos e noventa e oito.

Depois da lide caseira e desta empreitada, fomos almoçar à Gulbenkian. Almoçámos lá como tantas mil vezes antes. Os meninos, apesar de mais crescidos, continuam a gostar de ver os patos e de brincar nos esconderijos entre os bosques de bambus e de outras árvores.

Ainda me fartei de rir, mas de ir às lágrimas, quando recordámos aquela vez em que lá fomos as duas sozinhas às compras de livros à noite. De sacos na mão, resolvemos ir para o carro por dentro do parque. Afinal conhecemos aqueles jardins desde sempre, como as palmas das nossas mãos. 


Pois, pois. O pior é que estava escuro, não havia iluminação e perdemo-nos completamente. Desorientadas, não dávamos com os portões, não dávamos com nada. Quando pensávamos que estávamos num sítio, está quieto, não dávamos com ele. Até que demos com um muro. Mas o muro era alto. Resolvemos que a única solução para sairmos dali era saltarmos o muro. Claro que, no meio disto, dava-me uma vontade de rir que só visto. Cena mais maluca. E subirmos para o muro...? Está bem, está. Até que percebemos que havia uns rolos de mangueiras. Lá conseguimos ganhar altura. Os carros passavam na rua e paravam num semáforo. Quando viam duas malucas em cima de um muro faziam-nos sinais, diziam que não, apontavam nem sei para onde. Ela, afoita, saltou. E dizia-me que eu saltasse também. Mas eu olhava para baixo e achava que, se me atirasse, me haveria de espantilhar toda. E sobretudo ria, ria, ria. Só de ver a maluqueira em que estávamos, perdidas de noite na Gulbenkian, a saltar um muro alto, ria, ria, ria. Ela ria-se e dizia-me que saltasse. Lá saltei.

O meu marido diz: 'Ficaram sozinhas durante um bocado e olha no que deu'.

Bem. A seguir, já só os dois, a exposição do Eça. Bela exposição. A ver se amanhã consigo ocasião para falar dela. Agora não que já é tardésimo e daqui a nada tenho que estar a pé e temo os pincéis que me aguardam.

Dali fomos para a catedral do consumo. Teoricamente, a pior ideia possível. Na prática, a pior ideia possível. Uma multidão. O ar quente, quente. Gente vagarosa, gente aos magotes, gente por todo o lado, filas abissais para pagar. Um horror.

Mas já encomendámos as fotografias (séculos para encomendá-las), já comprámos quase tudo o que faltava.


No fim estávamos desidratados, exauridos, tivemos que ir comprar uma garrafa de água. E depois, percebendo que estávamos também cheios de fome, fomos comprar uma bucha: ele uma queijada de requeijão e espinafres e eu um pastel de massa tenra. E eu, se era para o nonsense, pois que fosse para o nonsense total: comi também uma azevia de grão. E que se lixe a alimentação equilibrada.

Dali passámos por casa do meu filho para deixar a mochila que tinha ficado esquecida, com coisas do bebé que podiam fazer falta. 

Claro que chegámos a casa já bem de noite. Estive a fazer a janta e a adiantar a de amanhã, estive a fazer arrumações e etc.

Segue-se ainda separar os presentes por destinatários pois agora tenho a sala de jantar pejada de sacos, a eito. Quando for buscar as fotografias tenho que separá-las e emoldurar algumas e envelopar as restantes.

E estou a pensar que aquela sugestão de, em vez de dar presentes a toda a gente passarmos a optar pelo amigo escondido, é capaz de ser coisa a explorar. Só se comprava um presente e só se recebia um presente. 

Claro que isso vai contra a minha tentação por excessos e o meu prazer em oferecer mas, por outras, resolvia-se esta obscenidade. 


E pronto, por agora é isto. 


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domingo, dezembro 03, 2017

Sobre o Questionário aplicado no 2º aniversário do Governo, a palavra a um Leitor que participou no trabalho





Já vem tarde este meu post. Outras coisas se foram metendo, o meu tempo sempre escasseando, a actualidade, que é breve, fugindo.

Não é, pois, tema actual o que aqui me traz hoje. Ao ritmo a que o tempo é arrebatado pela vida, quase roubo por esticão, tudo parece ganhar uma relevância exagerada num instante para logo cair no esquecimento no instante seguinte.

Este ímpeto devorador a que se entregam as mentes mais limitadas e a que a comunicação social dá palco é um perigo. Perante iniciativas que as suas pobres mentes não alcançam, logo os seres mais limitados se prendem às migalhas e delas, e apenas delas, se alimentam. Tudo o mais, que não percebem, é triturado como se de resíduos se tratasse. Ora isto conduz, forçosamente, à estupidificação colectiva.

Por isso, tentando, na modestíssima medida das minhas fracas possibilidades, contrariar esta onda de mediocridade, aqui estou a repescar o assunto.

E o assunto é o que de seguida passo a expor.


Aquando do 2º aniversário do Governo e da sessão que decorreu na Universidade de Aveiro (UA), o tema ocupou como um fogacho a comunicação social descerebrada que nos calhou na rifa.


Como geralmente acontece com os idiotas que, ao verem apontar as estrelas, se focam na ponta do dedo que aponta, assim a Madame Cristas da Coxa Grossa & Cérebro de Galináceo. E assim os seus seguidores  que pululam no PSD e que, à falta de líder, se encostam a qualquer galinha que cacareje mais alto.


Não quiseram conhecer as perguntas, não quiseram saber das respostas, não quiseram conhecer os estudos subjacentes, não quiseram saber nada: apenas se focaram nas ajudas de custo que os participantes na sessão de perguntas e respostas receberam para ali estarem.

Gentinha descerebrada -- que acha que fazer política é andar a expelir sound bites, na ânsia de, com esses dejectos, conquistar o apoio suficiente para se alcandorar a lugares onde possa ter mais poder --, não sabe que fazer política é uma coisa séria, que deve apoiar-se em avaliações sistemáticas, em estudos bem fundamentados, que deve levar em conta o que as populações pensam (o que pensam mas não de forma superficial mas, sim, estruturada -- o que pensam os jovens das zonas mais desenvolvidas, o que pensam os das zonas mais carenciadas, o que pensam os desempregados de longa duração, o que pensam as mulheres trabalhadoras, o que pensam as reformadas, o que pensam os trabalhadores mais qualificados, o que pensam os funcionários públicos, etc, ec).


Infelizmente o rebotalho não vem ganhando terreno apenas na política (e veja-se, mas veja-se bem, o que são hoje o CDS e o PSD). O refugo inunda também a comunicação social. Já mal vejo os media portugueses, especialmente os malfadados espaços de comentário televisivo mas, se calha ver, é, salvo raras excepções, uma coisa miserável. Não acrescentam valor à reflexão -- pelo contrário, poluem-na.

Pois bem, no meio da agonia que senti ao ouvir a onda de comentários alarves que, na altura, se formou e que ignorou por completo o lado sério do trabalho, eis que recebo de um Leitor que é bolseiro na UA e que participou no estudo, um mail, e depois mais outro, falando no assunto.

O que abaixo transcrevo, em itálico, é parte do que me enviou e que, daqui, lhe agradeço.

Espero que, lendo, percebam como seria importante para todos que fosse dado o devido relevo a trabalhos desta natureza. Melhor: que fossem incentivados, que fossem postos ao serviço de um país melhor.


Ao contrário do que passou na comunicação social e do que sugeriram os Pafientos, o que aconteceu na UA foi um exercício bem mais interessante do que o show-off (que, claro... também fazia parte... senão o governo teria feito aquilo à porta fechada...).

Basicamente foi uma iniciativa que conjugou 3 elementos: 
  • um exercício de prospetiva (avaliação de quais devem ser as prioridades governativas nos próximos 2 anos), 
  • um exercício de participação pública (debate e partilha de opinião entre os cidadãos para formular um conjunto de perguntas ao governo e respetiva interação com o governo) 
  • e, por fim, um exercício de ciência política, com duas dimensões: a) avaliar se as percepções dos cidadãos se alteram com a interação direta com os governantes e b) avaliar as diferenças na avaliação de prioridades governativas entre o grupo de cidadãos representativo e os governantes. 
Para realizar este "mega empreendimento" foram mobilizados: a empresa Aximage, que forneceu cerca de 50 participantes, numa amostra que se exigia aleatória e o mais representativa possível da população (nós verificamos os dados sócio-demográficos das pessoas e o grupo cumpria esse requisito), o grupo de ciência política e, por fim, o grupo de sistemas de apoio à decisão.

Dentro das várias coisas que fazemos, uma em que temos tido mais trabalho externo é precisamente os estudos estratégicos e prospectivos (fazemos essencialmente no apoio à decisão em políticas públicas locais - por exemplo, construção de planos estratégicos), bem como no contexto de empresas e sectores económicos. São métodos de apoio à decisão muito interessantes! 



Portanto, fiz parte da equipa de apoio técnico na última semana e, especialmente, durante o dia de ontem e de hoje, para a aplicação do questionário (realizado através de um mecanismo de avaliação par a par das opções governativas, controlado por um sistema de avaliação / detecção de incoerências (para detectar pessoas que hajam de forma incoerente / aleatório).

O menos engraçado nestes dias foi a pressão da comunicação social (uma coisa assustadora), a quantidade de informação errada que fizeram circular no espaço público e... claro... o combate político com danos colaterais.

Permita-me algumas considerações adicionais: o objectivo central do exercício de domingo era a possibilidade de confrontar as prioridades de um grupo de pessoas com as prioridades dos governantes. Este confronto de perspectivas prospectivas tinha duas dimensões de análise: 
i) se as prioridades das pessoas mudavam após a interacção com os governantes e  
ii) se as prioridades das pessoas coincidiam com as prioridades dos governantes. 

Em termos técnicos, cingindo-me ao exercício de avaliação prospectiva (escolha de prioridades governativas) - aquele em que participei - efectivamente colocou-se a questão da representatividade. Ao contrário do que sugere a senhora prof da Universidade Católica (nos Prós e Contras na RTP 1) não é fácil reunir as condições ideais de realização destes métodos: reunir 200 pessoas, numa amostra aleatória representativa, é complexo em termos logísticos (recrutamento aleatório, custos, etc) e metodológicos (apesar de o inquérito ser desenvolvido num suporte informático, deve incluir a interacção dos participantes, por forma a produzir consensos - a análise estratégica prospectiva não é só escolher as prioridades mais votadas mas também potenciar a formação de consensos. Ora, acções de debate entre 50 pessoas já foram um desafio. Ainda assim, a solução de compromisso que encontramos foi dividir as pessoas em grupos de 5/6 elementos, tendo como critério o facto de terem dado respostas semelhantes no inquérito - ou seja, em grupos homogéneos. Assim, numa primeira fase, estes grupos procuraram chegar a um consenso, sobre qual a questão a colocar ao governo e depois apresentaram-na aos restantes participantes, recebendo críticas e/ou sugestões sobre a questão que pretendiam ver esclarecida pelo governo. É óbvio que realizar isto com 200 pessoas é muito mais complexo. Obrigava a muitas mais rondas e, a certa altura, é questionável se as pessoas mantém o foco no estudo... (notemos que todo o exercício durou cerca de 8h - com mais pessoas teria de durar ainda mais!).


Não vou ser chato a descrever todos os prós e contras, dificuldades, desafios, deste tipo de trabalhos. O meu ponto essencial é: a representatividade para extrapolação estatística é um elemento central num inquérito de opinião usual (como uma sondagem). A natureza deste exercício (um exercício predominantemente prospectivo!) tinha um objectivo diferente (aliás, as questões colocadas ao governo, transmitem claramente isso: não são questões sobre o que fizeram até aqui mas sobre o que pensa o governo fazer, no futuro, em certas áreas!). No entanto, é de realçar que o trabalho incluirá ainda uma componente de sondagem típica: o inquérito será disponibilizado online de forma livre e aberta, estando todos os cidadãos convidados a responder ao mesmo. Os dados recolhidos serão depois tratados por forma a desenhar uma amostra aleatória representativa da população - caso os dados o permitam - e serem assim tratados e apresentados. Volto a frisar que esta componente inquérito é distinta da anterior (exercício de prospectiva), que requeria o tal painel.

Para terminar, gostava de referir que a universidade católica tem também um centro de investigação financiado com dinheiro público (aliás, apesar de ser uma universidade privada, por via da concordata, tem um estatuto especial no acesso a fundos públicos para o ensino superior e ciência, que a aproxima bem mais de uma instituição pública que privada). Portanto, quer pelo facto de a actividade da universidade católica ser financiada com dinheiro público, quer pelo facto de que este exercício não foi uma sondagem mas um exercício de prospectiva - coisa que a senhora da universidade católica parece que não percebeu - acho extremamente injustas as acusações que são feitas à falta de credibilidade do exercício (e a comentários que já li pela blogosfera e redes sociais - de "prostituição intelectual").



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Mais informação sobre este trabalho no espaço que a Unidade de Investigação da Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP) da Universidade de Aveiro dedicou ao assunto e cuja leitura recomendo.


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As fotografias que usei não vêm a propósito do texto, estão aqui apenas porque sim. Fi-las in heaven.

Lá em cima, Ludovico Einaudi interpreta Experience

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Caso estejam mais numa de passeios à beira-mar, pois então recomendo-vos que desçam até ao post seguinte onde o sol da Caparica em noite de lua cheia vos espera. 

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sexta-feira, dezembro 09, 2016

O sereno devenir in heaven




Esta quinta-feira deveria ser o Dia da Mãe. Durante anos pensei que dia 8 de Dezembro era dia feriado por ser Dia da Mãe. Isto antes de mercantilizarem o dia da mãe. Afinal é por ser dia da Imaculada Conceição -- fui agora confirmar.

Andei parte do dia a sentir que era sábado. Depois lembrei-me que não. Dia de Nossa Senhora. Lembrei-me das Anunciações da Maria Teresa Horta. O melhor livro do ano. Mais plausível a jovem Maria de Maria Teresa Horta que as outras histórias da catequese. Desliguei-me de vez dos ensinamentos católicos quando, aos oito anos, projectaram um filme lá na nossa escola. Era a história da perseguição brutal a Cristo, toda a violência que culminou na cruz. Depois a ressurreição. Lembro-me que pensei que nada daquilo tinha jeito, nem a história nem estarem a mostrar aquilo a nós, crianças pequenas.


Era uma escola particular, muito protegida. A catequese era quase uma actividade curricular. Íamos à catequese e eu detestava, tudo aquilo me passava ao lado. Não havia racionalidade nem beleza naquelas histórias. E a ideia do pecado sempre muito presente. E a confissão. Um absurdo. Eu, que tinha tanta facilidade em aprender, não fixava nada daquilo, nada daquilo me interessava. Lembro-me que às vezes a minha mãe me perguntava o que tinha aprendido e eu não fazia nem ideia. A algumas pessoas deve acontecer isso em relação à matemática ou à física. A mim era com a catequese.

E nem consigo lembrar-me de quem era a catequista. Nem me lembro se a catequista ia à escola ou se éramos nós que íamos à capela. Varreu-se-me tudo. Só me lembro que aquilo era, para mim, um castigo.

Fiz a primeira comunhão e a comunhão solene. Mas, no meu íntimo, sabia que aquilo era uma coisa que me era completamente alheia. 

Nunca gostei de ir à missa, nunca senti que pertencesse àquele mundo. Apenas me lembro, e com agrado, do cheiro a rosinhas de Maio por alturas da minha primeira comunhão ou, no ano antes, em que fui de anjinho na procissão.
Já o contei e até já tive vontade de mostrar: a fotografia em que estou assim de branco, vestido até aos pés, grandes asas, uma fita com flores brancas a segurar o cabelo comprido que ondulava ao sol e eu a rir, feliz, é talvez das minhas fotografias preferidas. 
Gostava do cheiro das flores e dos cânticos, a Capela do Bairro iluminada, toda florida, jarras com grandes ramos de gipsofilas e rosinhas brancas, o sol a entrar, coado pelos vitrais, e as pessoas a cantarem. Disso eu gostava.


Do resto não. Esqueci tudo. Nada sei de evangelhos, de histórias biblícas. Nada. A igreja católica, com os seus métodos, destruíu qualquer possibilidade de eu me alguma vez me tornar devota ou fiel. Na escola e, mais tarde, no liceu ou na universidade, o meu santo nunca cruzou com os santos de gente beata, sempre todos muito apertadinhos, muito cheios de nove horas, gente que sempre me pareceu sem rasgo, sem visão, sem condescendência ou generosidade.

Os anos foram passando e fui continuando a conhecer gente ligada à igreja. Muitos têm tentado puxar por mim, acham que tenho uma alma religiosa. Não sei se tenho, se não. Mas, se não consigo alinhar-me em nada, muito menos poderia alinhar-me numa coisa tão pessoal. Uma pessoa quando se filia num movimento desapessoa-se, perde liberdade e eu perder a minha liberdade é deixar de ser eu. 

Mas vem a isto a propósito de esta sexta feira ter sido feriado religioso, dia de Nossa Senhora mas, se bem percebo, não por ter sido uma corajosa mãe de um filho rebelde, que perdeu a vida por uma nobre causa, mas por, supostamente, ter engravidado por obra e graça. Se fosse pela verdade histórica eu talvez desse importância ao dia. Mas tirar a humanidade a Maria, fazê-la mãe virgem (talvez por se pretender associar o acto sexual a um acto reprovável), isso a mim não me diz nada. Mas, seja como for, é boa ideia ser dia feriado e eu não sou esquisita quanto aos motivos.


Hoje o dia, como já mostrei, foi passado in heaven. Dia tranquilíssimo, sem televisão, sem notícias. É certo que agora à noite estive a escolher as fotografias pré-selecionadas, uma a uma, a marcar quantas de cada para depois a dar a este, àquele e ao outro. Ao todo, as impressões ultrapassam as setecentas. Concordo: se calhar exagero mesmo. Mas, poderia escolher só uma dúzia, por exemplo, seleccionando apenas de entre as dos dois últimos meses? Se calhar, faria mais sentido. O problema é que não sei ser moderada.

Em algumas entrevistas de emprego, o entrevistador pergunta: qual o seu principal defeito? Geralmente, os candidatos, que já sabem que esta pergunta é um must a que dificilmente escaparão, já levam a resposta engatilhada. Dizem que é a teimosia pois sabem que, numa certa perspectiva, isso pode ser uma qualidade. Se eu entrevisto pessoas não pergunto nada disso, quero é perceber como é a pessoa, se é boa onda, se tem vida própria, se vai trabalhar bem em equipa. A última coisa que quero é um cromo, um obcecado, um chato.

Se a mim alguma vez me tivessem feito essa pergunta, eu seria sincera: que tenho muitos defeitos, todos difíceis de controlar e que um deles é ser imoderada. Certamente não seria seleccionada. Ou, com um bocado de sorte, o entrevistador perceberia que ser-se imoderada, também numa certa perspectiva, pode ter algumas vantagens. Agora ia escrever 'por exemplo' mas estaquei, não consigo lembrar-me de nenhuma. Mas tem vantagens, tenho a certeza que sim.


Bem.

Acho que, quando comecei a escrever isto, tinha alguma em mente. Mas pus-me para aqui a ouvir música, a divagar, e perdi o rumo à conversa.

Talvez quisesse apenas dizer que, depois de andar a passear pelo campo e a fotografar os cogumelos que rebentam por todo o lado e o orvalho e as belas cores de outono e o musgo no chão e a rocha húmida, negra, vim para casa. A salamandra a aquecer a casa, o cheiro bom do azinho, as cores quentes da casa. Quando cheguei levava uma echarpe de lã que a minha mãe me deu mas depois, com o calorzinho bom, tirei-a.

Continuei a ler A Gorda. Há uma humanidade sem filtros que nos aproxima da autora. Ao contrário de Elena Ferrante que esconde a identidade para que a obra seja independente de quem a escreve, Isabela Figueiredo coloca-se inteira nos livros que escreve.


É muito bom estar enovelada, aninhada, em paz, a ler, sentindo o tempo a correr devagar. O lento devir.


À noite, fomos comer um gelado. Gosto sempre de comer gelados mas, não sei porquê, ainda mais no tempo frio. Comi um cone de chocolate fondant. Soube-me muito bem. Ia à procura de chocolate negro com laranja mas não havia. Uma vez comi um gelado de uma fruta de que nunca tinha ouvido o nome e que me disseram ser umas laranjinhas pequeninas. Era mesmo bom. Nunca mais lá apanhei desse. Também nunca mais me consegui lembrar do nome.

E agora acho que está na hora de vos deixar em paz que isto vai longuíssimo. Parece-me que é noite de sábado mas, afinal, o dia que se segue é de trabalho. Felizmente é sexta-feira. E eu ando com uma vontade de passear... Saio do trabalho à noite, vejo as luzes da cidade, tendinhas a vender não sei o quê, movimento nas ruas, e só me apetece largar o carro e pôr-me a pé, misturada com quem passa, com quem não tem pressa de chegar a casa, e pôr-me a fotografar, eu feita turista acidental. Tomara poder tirar uns dias de férias e ir à descoberta de um lugar qualquer. Estou mesmo a precisar.

E já estava outra vez a divagar, credo. Peço desculpa por esta seca que vos dei. Só visto.

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As fotografias foram feitas in heaven
Lavinia Meijer interpreta Divenire de Ludovico Einaudi. 

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quinta-feira, junho 23, 2016

História de um coração que parece de gelo mas que é capaz de emoções calorosas




Uma vez mais, adormeci. Depois de ter escrito o post sobre o futebol, sobre Gabor Kiraly, o carismático guarda-redes húngaro, e sobre a bela caracolada, deslizei até ao sofá e pus-me a ler sobre alguém que conheço bem. Não sei como é que conheço tão bem, mas conheço. A cada página, encontro um comportamento que identifico e quase poderia adivinhar a forma como vai reagir. Sei o que faz, sei o que pensa, sei como reage. E, no entanto, não é porque seja igual a mim. Pelo contrário: é o meu oposto. Mas é como se o conhecesse tão bem que poderia reproduzir, um por um, os seus passos. Ou melhor, não os seus passos, mas os seus pensamentos. 


Como livro, posso dizer que acho um bom livro mas não é daqueles que me levem pela mão por entre labirintos ou jardins na ânsia de conhecer os próximos passos, ou que me detenham, uma mão aberta no meu peito, suspendendo-me a marcha e forçando-me a reler cada palavra para que veja como a beleza pode descer sob os nossos olhos na forma de palavras cerzidas como sumptuosos bordados ou delicadas pinturas. Está bem escrito, claro, mas talvez porque não me traz novidade ou porque não existe aquela pitada de humor de que preciso como condimento em todas as parcelas da minha vida, dou por mim à espera que aconteça um sobressalto, que o coração do personagem se estilhace, que caia por um poço sem fim, que um lobo de verdade entre no quarto e o devore, letra a letra, desencanto a desencanto. 

À página 168 adormeci. Minutos, apenas, acho eu. 

Acordei com o calor.

Estive agora à janela. A lua está branca, reflecte-se no rio. A aragem já refrescou. Poderia estar ali à janela um bom bocado, com vontade de que uma gaivota viesse de novo até à minha varanda. Mas, de noite, as gaivotas não se aventuram em voos fugidios. Só de madrugada, por vezes, as ouço gritar, parecem aflitas.


Há dias em que sinto algumas saudades. Recebi um mail, alguém que nunca se esquece de mim. Um afecto que perdoa as minhas ausências. E eu sou tanto de ausências. Vou substituindo umas pessoas por outras, umas vão saindo da minha vida, outras vão entrando. Não há espaço para todas. Esqueço-me de datas de aniversários. Nunca tomo nota de nada, não me apetece carregar com compromissos, obrigações, fio-me que o importante se manterá vivo na minha memória. Mas não mantém. Quando dou por mim já passaram as datas que eu não deveria ter esquecido. E penso, por vezes com alguma auto-recriminação, que eu deveria arranjar espaço na minha vida para manter acesos os vínculos que foram importantes. Mas sei que me esqueço, que o que passa perde relevância. Apenas uma ou outra pessoa persistem, e dessas eu sinto saudades.

Li o mail, tão querido, querendo combinar um encontro para este verão e eu fiquei a olhar, enlevada. Não respondi logo, quis pensar no que responder. Passado um bocado, no meio de tantos afazeres, já me tinha esquecido. Depois, como o mail estava lido, já não o vi quando voltei a ver os mails. Só ao fim do dia me lembrei. Achei-me, uma vez mais, desligada. É como se fosse caminhando, e não apenas deslizando, em cima do tapete rolante do tempo, deixando para trás os que acompanham o movimento normal do tempo.

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Por estes dias aprendo um novo léxico, conheço novos lugares, novas pessoas. De vez em quando na minha vida acontece-me isto: parece que bastam dois passos ao lado para entrar num mundo que desconhecia. Tudo novo.

Visito lugares em que já antes estive, várias vezes até, e porque me dão a ver uma outra realidade, eu vejo agora que tinha estado como que cega para aquilo que antes, por não estar alerta, pura e simplesmente ignorava, não via, juraria que não existia.

Entra, pois, na minha vida, uma outra vida, junta-se às anteriores. Depois, ao voltar a dar os tais passos ao lado, reentro na anterior e, de repente, aquela que antes me preenchia como sendo total e única já me parece apenas metade. E quase parece que, no espaço de dias, me transformei por dentro.

Poderia isto ser uma sensação única, extraordinária. Mas não, já me aconteceu várias vezes na minha vida. Depois entra na normalidade, a minha nova vida passa a ser esta. Até que volte a acontecer uma nova descoberta.

Escusado será dizer que gosto disto. Parece que me vou desdobrando, percorrendo caminhos quase paralelos, vivendo várias vidas.

A depois, a meio ou ao fim do dia, ou à noite como agora, enquanto penso naqueles que em mim pensam e de quem tenho saudades, procuro as águas que em mim correm, livres, limpas e nelas banho, com prazer, os meus pensamentos e sonhos.


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Talvez nem venha a propósito (mas eu gosto do que não vem a propósito, especialmente porque geralmente até vem). Para não darem por perdida a vossa vinda aqui, convido-vos a ver uma sessão fotográfica fantástica.

A Moncler Icelandic Fairytale by Annie Leibovitz


The moral of this story of icy snow and warm emotions? It is this: even the hardest, seemingly impenetrable ice can guard the warmth of the purest form of love. Layers and layers of ice can conceal the secret and harmonious sense of a profound emotive link. One which is worth fighting for, when necessary.

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As fotografias das terras frias da Islândia que usei para dar alguma graça ao texto são de  Pawel.

Lá em cima era Ludovico Einaudi a interpretar "Elegy for the Arctic"

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E, aos que aterraram agora aqui, convido a virem ver uma pessoa com muito estilo. Não será das calças nem do penteado: mas é um quelque chose que se sente à distância.


domingo, março 22, 2015

Que a minha loucura seja perdoada pois metade de mim é amor e a outra metade também


Não sei se a primavera começou hoje ou ontem. Pensava que era a 21 mas agora parece que é 20. E há o dia da Árvore o dia da Poesia e não sei se coincidem ou não. E eu que gosto tanto de árvores, de primavera e poesia, não sei se já foi se ainda é. Mas também não faz mal porque todos os dias o são.



Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


E hoje o meu dia teve tudo: primavera, poesia, árvores. E um rio grande como um mar.

De manhã andei rente ao rio. O dia estava um pouco cinzento mas junto ao rio a beleza é permanente. Olhar o rio traz-me paz, traz-me voos, traz-me saudades. 


Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo diziam:
Alegre ando eu.

Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo cantavam:
Alegre ando eu.



Duas gaivotas chegaram-se à beira da muralha e eu, imóvel, segui os seus movimentos. São felizes as gaivotas. Vejo-as muitas vezes contemplando as águas que correm. Têm todo o tempo do mundo, têm total liberdade, as suas enormes asas levam-nas a atravessar o espaço, a cruzar o horizonte. Acho que um dia ainda hei-de ver duas gaivotas abraçadas, a cabeça de uma encostada no ombro da outra, silenciosamente sentindo o prazer de estarem juntas.


Todas as aves do mundo diziam;
do meu amor e do vosso tinham no pensamento.
Alegre ando eu.

Todas as aves do mundo cantavam;
o meu amor e o vosso recordavam.
Alegre ando eu.



Mais à frente, dois veleiros brancos seguiam com o vento, e eu pensei que talvez fossem as duas gaivotas que se tivessem transformado, que deslizassem para bem longe onde poderiam sonhar com praias desertas, tardes de sol e silêncio, noites de cumplicidade.

Depois fui até onde a primavera já se anuncia em festa. In heaven a natureza resplandece, as árvores crescem, e eu olhei a gaivota que voa sempre junto a mim, ou dentro de mim. 


O meu amor e o vosso tinham no pensamento;
vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam.
Alegre ando eu.

O meu amor e o vosso recordavam;
vós lhes arrancastes os ramos em que pousavam.
Alegre ando eu.


Os pássaros andam felizes por lá, a terra é toda deles. Ando em silêncio e só a minha respiração os faz levantar, numa agitação de asas, numa alegria, e eu fico contente por cada vez mais os sinto próximos de mim. Outras vezes são os coelhos que saltam, correm, e eu penso que era assim que eu queria ser, e se calhar já quase sou, quase livre, a respirar o ar da terra tal como respiro o ar do rio, próxima dos bichos que os habitam.


Vós lhes arrancastes os ramos em que poisavam;
e lhes secastes as fontes em que bebiam,
Alegre ando eu.


A rocha está muito suave, azulada na sua ternura, e dela saem rebentos, pequenas flores esguias, delicadas. E eu passo a mão pela pele da rocha, e estava quase morna, o sol manso tinha estado lá a repousar. Gosto tanto destas pedras. Depois de chover ficam húmidas e, no sítio por onde a água mais escorre, ficam mais escuras. Mas agora, que não chove, estão apenas descansadas e belas na sua infinita sabedoria, acolhendo estas efémeras e belas flores cor de rosa.


Vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam;
e lhes secastes as fontes onde se banhavam,
Alegre ando eu.


O alecrim está todo florido, há um intenso perfume lilás no ar e o tojo também já floriu, amarelo, carregado de luz. Percorro o caminho muito devagar, sozinha, aspirando o ar, e constato que não vou a pensar em nada, penso que vou em processo de meditação. É como se todo o céu, todos os sonhos, todos os abraços inventados, todos os olhares imaginados, todas as palavras que em segredo deixo voar, me envolvessem. À minha frente, rente ao chão, vai a minha sombra, silenciosa também, e eu sei no que ela vai a pensar. Mas ela não mo diz e eu não lho pergunto. À terra, ao rio, às gaivotas, às rochas talvez todos os segredos se possam confiar. No coração da terra ou no fundo do mar, a sombra que se desprende de mim esconde os seus segredos mais puros, sabendo que um dia alguém os há-de ir lá buscar.


Les + grands secrets se cachent dans la lumière



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Lá em cima Pedro Lamares diz o poema Metade de Oswaldo Montenegro

As fotografias foram feitas este sábado.

O poema repartido sob as fotografias é de Nuno Fernandez Torneol, século XIII, e integra o livro Cem Poemas para salvar a nossa Vida, uma selecção de Francisco José Viegas

A música no final é de Ludovico Einaudi - Nuvole Bianche 

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Muito gostaria que me visitassem no meu Ginjal onde Mia Couta se junta a Manuel de Falla e onde falo de quem, com os seus dedos, recolhe gaivotas no raso voo sobre o meu peito.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

terça-feira, outubro 30, 2012

Lídia, a mulher que era triste e que agora está francamente enamorada, passeia pelas ruas e pelos canais de Amesterdão enquanto pensa que não pode continuar a esconder de Paulo o segredo que tanto a atormenta



*

Mal chegou, Lídia, de coração apertado e ainda com um certo sentimento de culpa, telefonou a Nita. Mas esta tranquilizou-a, Por aqui está tudo bem, tudo na forma do costume, os gatos continuam a entrar pelos buracos, as janelas estão todas escancaradas a deixar entrar a chuva, os homens têm vindo fazer visitas e, de caminho, roubam tudo, já sabe como é, a taralhouquice do costume. Mas tem comido bem, está calma. Por isso, não se preocupe, D. Lídia, aproveite bem, goze a estadia, namore muito. Nós cá tratamos da sua menina, não se preocupe com isso, descanse a cabeça, tire daqui o sentido e esteja descansada, se houver alguma coisa eu ligo, mas não vai haver, vá mas é curtir, dizem que isso aí é uma maravilha, descontraia, não ande preocupada. Lídia sorriu. Era este desprendimento e boa disposição de Nita que tanto a ajudavam.

Sara estava à espera que Lídia acabasse o telefonema para passar à parte prática: instalá-la, Vai dormir aqui, ali é a casa de banho, ali é a cozinha, não se assuste com a desarrumação, isto aqui é a bagunça total, mas é uma bagunça organizada...

Sem nunca antes ter vivido tempos de liberdade e despreocupação, Lídia via-se agora num pequeno apartamento habitado por jovens buliçosas, irreverentes, cheias de vida. Sara cedeu-lhe a cama e passaria a dormir no sofá. Rapidamente tomaram Lídia de assalto, fazendo-lhe perguntas, O que faz?, Onde vive? Vive sozinha? Já cá tinha estado? Quantos anos tem?, e sempre rindo, rodeando-a de alegria e futuro. Para Lídia tudo isto era uma novidade.

Depois de Lídia instalada, Sara pegou nela e de braço dado, como se fossem velhas amigas, foram rua fora, conversando, para se irem encontrar com Paulo. Quando as viu chegarem assim, Paulo desatou a rir-se. 




Na Dam Quare, a praça principal da cidade, passaram pela feira de diversões, parecia uma feira popular, e, no meio daquela música e daquelas luzes feéricas, Lídia teve vontade, mas não o confessou, de ir andar nas cadeiras que balouçavam a muitos metros de altura. 




Talvez quisesse, sem o saber, voltar ao tempo em que era menina para, agora, viver a meninice. ou talvez quisesse voar.

Depois Sara levou-os à Biblioteca nova, onde se maravilharam com aquela arquitectura moderna, com a cultura à disposição de todos os cidadãos, sete dias por semana, doze horas por dia. E depois ao Nemo, o centro de ciência, e toda aquela arquitectura moderna.




Depois, já cá fora, junto à Centraal Station, Sara deu-lhes um mapa, assinalou o local de encontro para jantarem, marcou o ponto em que estavam e riscou a vermelho o percurso que sugeria. E, com ar malicioso, despediu-se, Se precisarem de alguma coisa, liguem-me. Agora deixo-os sozinhos… Portem-se bem…  e afastou-se a dizer-lhes adeus, brincalhona.

Ficaram, então, os dois. Paulo pegou no braço de Lídia e enfiou-o na curva do seu para que ficassem de braço dado. Um casal passeando numa grande cidade. Lídia respirava fundo, como se quisesse absorver aquele ar tão livre, tão novo, como se quisesse reter aqueles doces instantes para sempre no seu coração.

E lá foram. Nunca imaginara uma coisa assim. Tanta gente. Tanta gente alegre. 




Tanta gente de bicicleta, tanto movimento, tanta liberdade, parecia que tinha chegado a outro mundo. 




Paulo ria-se, chamava-lhe a atenção para os prédios, para as pessoas, para as montras, Olhe, repare ali, no tecto, vacas pregadas ao tecto, e riam-se. 




Lídia e Paulo pareciam, pois, duas crianças caídas num outro planeta, um planeta habitado pela diversão e pela alegria.



Depois havia os canais e era como se toda a cidade fosse atravessada por pequenos rios dourados. O outono dourava as árvores e as folhas douradas caíam sobre a água dos canais. 




Lídia sentia um aperto no peito, tanta era a felicidade, tão desconhecida era esta felicidade. Queria falar mas não conseguia, não estava habituada a exprimir a felicidade, quase nem conhecia as adequadas palavras para falar desta suavidade, desta paz que a invadia.

Paulo olhava para ela e sorria, contente de a ver assim, olhos abertos de espanto, rosto rejuvenescido. 

Depois passaram por um mercado de flores, uma rua cheia de tendas brancas vendendo flores. 




Quando as viu, Lídia que tanto gosta de flores, parou, ficou em silêncio e depois Ah…, tantas flores, olhe este colorido, nunca imaginei nada assim, tantas, tantas flores, que bonito, ah se eu pudesse levar os braços cheios de flores.

Paulo olhava as flores e olhava-a a ela, luminosa, colorida, feliz, percorrendo as tendas, curvando-se para ver melhor, passando as mãos ao de leve, cheirando, encantada. Depois comprou para lhe oferecer uma pequena cesta de flores, todo contente pelo cavalheirismo do gesto. E lá foram, rua abaixo, um casal enamorado, cheio de esperança numa vida que se desdobrava em felicidade.

A seguir passaram por um mercado de arte no meio de um jardim. O chão atapetava-se folhas douradas, todo o ambiente era dourado e as peças, Que beleza, que beleza Paulo… bailarinas, barcos, árvores, pinturas. 



Depois Lídia parou, encantada, numa tenda de sedas pintadas, lindas. Écharpes, gravatas, lenços, peças originais, divertidas, macias. Tocou-lhes, Que suavidade, que toque, suspirou. Viu o preço, impossível. Não vivesse ela com os tostões contados, permitir-se-ia uma loucura, mas assim… Paulo não resistiu. Também eu. Eu e quase todos os portugueses, todos vivemos agora com os tostões contados mas olhe, um dia não são dias. Escolha que eu faço questão de lhe oferecer, Lídia.

Lídia corou, Nem pensar, que ideia, é caríssimo, nem pensar, nem era isso que eu queria dizer, era só um sonho, a sério, não quero, oh Paulo, que ideia, não quero mesmo... Mas Paulo insistiu, Faço questão. E Lídia escolheu, tímida, agradecida, um lenço num estampado em tons de azul alfazema e azul violeta. 

Depois, quando se iam afastar, voltou atrás e disse, Vou comprar aquela écharpe do gato, ou do tigre, não sei que bicho é, mas é lindo, vou levar para a minha amiga Mary que está a passar por um momento menos bom, acho que ela vai ficar feliz por ver que me lembrei dela.

Paulo admirou-se, Tem a certeza, Lídia? Mas Lídia atalhou, Tenho; é o que diz, Paulo, um dia não são dias e a minha amiga Mary bem merece, é um gesto, é um mimo, e ela bem precisa de um miminho assim. 

E, quando se afastaram, Lídia e Paulo iam felizes na sua generosidade, no carinho que sentiam um pelo outro e pelos amigos.

Abraçados, um casal enamorado, continuaram o passeio, admirando a beleza dos canais.




Contudo, dentro de si, Lídia transportava um segredo. Desde há algum tempo que esse segredo a atormentava, sentia que teria que falar sobre isso com Paulo mas nunca conseguia, e ia adiando. Ali, passeando em Amesterdão, sentia que o momento de o revelar se estava a aproximar. Estava feliz, claro que estava, mas, lá no fundo, uma sombra de medo e vergonha escurecia os seus pensamentos.

A cada momento ocorria-lhe que tinha que ganhar coragem mas a verdade é que os momentos iam passando e a coragem não aparecia.

O frio começava agora a acentuar-se, o fim de tarde convidava ao aconchego. 




Paulo debruçou-se numa das muitas pontes que atravessam os canais. 




Olhe, um cisne. Lídia espreitou, sorrindo, Tão bonitos. Olhe, olhe, vêm lá outros, são três. Paulo passou-lhe a mão pelos ombros, E olhe os barcos, Lídia, disseram-me que há barcos que são casas




Lídia olhava e eram tantos os motivos de admiração e encantamento, Tão bonito tudo, Paulo, tão bonito, nunca pensei.




E passeavam ainda, enlevados, em silêncio, sorrindo ao de leve, quando Paulo, ao passarem por um banco junto a um dos canais, lhe disse, 

                                 Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
                                 Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
                                 que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                                 (Enlacemos as mãos.)

Sentaram-se e, então, segurou-lhe as mãos. Lídia sorriu. Conhecia muito bem este poema. Nunca imaginara era que Paulo o conhecesse. E então, com a voz trémula de emoção, as lágrimas a aflorarem, continuou ela:

                                  Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
                                  Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Paulo, em voz baixa, grave e quente, acrescentou – e Lídia sentiu as palavras dele como uma suave carícia sobre a sua pele, que se arrepiou:

                                  Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
                                  Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Tocou-lhe, então, devagar, no queixo, virando o rosto de Lídia na sua direcção e, de olhos fechados, beijou-a. Lídia deixou-se beijar. Depois, quando o beijo estava a terminar, com uma inesperada energia, encostou-se mais a Paulo e era como se toda ela se entregasse e beijou-o com paixão, muita paixão. Paulo abraçou-a muito, muito, o desejo muito forte.




Nem por um instante Lídia se lembrou que estava na rua, no meio de uma pequena multidão. Depois pensou que era forçoso, cada vez mais forçoso, confessar o seu segredo, impossível continuar a ocultar aquele facto que a feria de vergonha. Fechou os olhos para ganhar coragem.

Mas Paulo levantou-se, puxou-a pela mão, Vamos, daqui a nada a Sara está à nossa espera, venha.

Lídia suspirou, contar-lhe-ia mais tarde, talvez nessa noite. Quando estava de pé, Paulo disse-lhe ao ouvido,

                                Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
                                pagã triste e com flores no regaço

Lídia sorriu e fez-lhe uma festa no rosto. Depois deu-lhe um beijo na face e rectificou, Já não sou triste, Paulo, agora sou apenas uma pagã. Ele sorriu. E ela ouviu-se a dizer e tinha a certeza que os olhos se toldavam de malícia. 



Uma pagã cheia de vontade de pecar, Paulo…


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A música é Ancora da autoria e interpretado pelo pianista compositor Ludovico Enaudi. 

A poesia dita por Paulo e por Lídia é parte do poema Vem sentar-te comigo, Lídia de Ricardo Reis. 

As fotografias foram feitas por mim, tal como as anteriores, durante a visita que fiz a semana passada a Amesterdão.

Recordo que, caso queiram ler esta história desde o primeiro dia, poderão procurar nas etiquetas aí do lado direito, lá mais para baixo 'Lídia, a mulher triste'.

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Caso ainda tenham disposição para continuar na minha companhia, gostava muito de vos ter no Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras choram e o tom é de desalento em volta do poema Allegretto de Vasco Graça Moura. A música é de Monteverdi.

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E, por hoje, já chega, não é?
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.