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segunda-feira, março 09, 2026

Ça va san dire, que é o mesmo que dizer que that goes without saying

 

Não dormi nada bem. A meio da noite, ou melhor, da madrugada, vendo que a coisa não ia, por si só, a bom porto, levantei-me e fui tomar meio comprimido daqueles que cá tenho, acho que é de raiz de valeriana. Não me faz logo efeito mas, quando faz, para aí daí por uma hora, finalmente caio no sono. E já sei que, durante uma semana ou duas, vou dormir como uma santinha. Foi o médico de família que me receitou há algum tempo. Tenho ideia que cada caixa tem para aí uns 20 comprimidos e dá-me, à vontade, para 1 ano. 

Mas, por causa disso, acordei tarde. E com mais dor no pescoço. Agora, de vez em quando é isto, torcicolo. Na sexta-feira já me doía um pouco e fui ao ginásio na mesma, não quero dar mole. E, enquanto der, continuarei a ir, mesmo puxando pesos e fazendo aquelas forças que, ao que parece, me garantem a longevidade eterna. Só que, não sei a que propósito, também acordei com dor de garganta. Tenho cá para mim que, quando pinta um stress, o meu corpo reage, inflama, manifesta-se. Estou a virar um vidrinho, é o que é.

Por exemplo, no último ano de vida da minha mãe, em que andei permanentemente debaixo de uma enorme pressão, com ela a queixar-se de tudo e mais alguma coisa mas tudo de forma errática, ilógica, aparentemente nada correlacionado, e em que eu julgava que ela estava num estado descontrolado de hipocondria e já não sabia o que havia de fazer, andei constantemente com inflamações ora num joelho, ora num pé, ora num braço. Ora andava meio manca, ora completamente de perna no ar com canadianas, ora de braço ao peito. Quando ia com ela ao médico ou ao hospital, ela ia lesta e eu toda lesionada. Tenho para mim que o stress me afogava em cortisol e o cortisol amarfanhava-me de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

Depois meteu-se o pesadelo de esvaziar a casa, meses e meses, infindáveis meses, de stress. E a ter que carregar com sacos e caixas e toda feita dondoca, a deixar o esforço todo para os outros, em especial para o meu marido, pois continuei aleijadinha de todo e qualquer carga fazia exacerbar ainda mais a inflamação nas articulações. Só visto.

E dormir mal também me atrofia toda. Dantes, quando trabalhava, dormia seis horas, por vezes menos que isso, e andava fresca e arrebitada todo o dia, um mimo. Agora, se durmo menos que sete, já fico com alguma coisa a tender para o disfuncional. 

Seja como for, para já, nem o torcicolo nem a dor de garganta são por aí além. Por isso, fomos na mesma passear à praia. Não estava bom tempo. Mas estava um movimento do caneco, os estacionamentos inexistentes. Tivemos que andar por ali e pelas redondezas à procura de agulha no palheiro. Não íamos almoçar lá mas queríamos comprar sushi para almoçarmos em casa. Tudo cheio, a deitar por fora, tudo com montes de gente à porta. Não estávamos a perceber o que era aquilo. Vi uma mulher com uma roupa meio estranha e por um instante ainda pensei que, na volta, o carnaval se tinha estendido no tempo. Depois vi várias com flores. ainda me ocorreu que fosse dia dos namorados mas depois lembrei-me que isso já tinha sido. Antecipação do 25 de abril não porque não eram cravos. O meu marido também não estava a perceber. Pensei que se calhar era dia da mãe. Depois, porque gosto de confirmar as minhas suposições, perguntei ao gemini. Dia da Mulher. Só me apeteceu pensar que se calhar mais valia passar a chamar-se dia do restaurante.

Fomos passear à beira mar. Como sou míope, vi ao longe uma criatura pequena e gorda a rodopiar com os braços ao alto e um objecto na mão. Comentei: 'Até já as miúdas pequenas se auto-filmam em poses parvas. Em vez de olhar para o mar, olha ali aquela miúda a filmar-se a ela própria como se o mar fosse um mero pano de fundo. Caraças'. O meu marido respondeu: 'Qual miúda?'. Com o queixo apontei. Ele, sempre parco de palavras, apenas perguntou: 'Achas que é uma miúda?'. Pus-me a fotografá-la naquelas poses inestéticas, irracionais e despropositadas. Quando cheguei perto, vi que, afinal, criança era coisa que ela já não era,  era uma mulher baixa e gorda de calças muito justas, o volumoso rabo e as pequenas e gordas pernas a quererem estraçalhar aquelas calças todas. Num banco perto, uma criança à espera que a mãe se cansasse de fazer aquelas tristes figuras. Depois lá foram, à nossa frente. Fotografei-as: a criança mais alta que a mãe e, aparentemente, mais sensata, vestida mais normalmente. Só não ponho aqui as fotografias que tirei não vá a senhora descobrir e ficar furibunda. Afinal estou a descrevê-la como estou enquanto ela se vê, tenho a certeza, como uma nova Raquel Welch. E se já não há por aí a ler-me uma alma que saiba de quem estou a falar, então muito me contam. Serei a mais idosa ou a menos desmemoriada de entre todos os que por aqui passam? -- E ok, ok, façam o favor de fazer a caridade de não me responderem.

O que sei é que, à medida que ia andando, ia pensando: é este o mundo que temos pela frente. Não a perguntar mas a afirmar.

Mas, para não dar a viagem por perdida, ainda lá fiz dois pequenos vídeos que publiquei no Instagram. E, entretanto, ao telefone, a minha filha já manifestou, mais uma vez, a sua estranheza e incompreensão: não sabe o que é aquilo, o mar faz muito barulho, a minha voz mal se ouve, não falo de nada que interesse, e teme que ande, eu também, a fazer figurinhas tristes. Sosseguei-a: estava num sítio em que não havia mais ninguém. E são uns segundos, aponto o telemóvel, digo o que me ocorre dizer naquele instante e já está. Deveria editar ou ter o discernimento de me deixar estar quieta, bem sei. Mas se acho piada a fazer aquilo, porque não hei-de fazer, ora essa? E depois há coisas bizarras. Na quinta-feira à tarde fui passear à beira rio e vi um barquinho quase todo afogado. O barquinho chamava-se Faisão. Apontei o telemóvel e disse: 'Olha... o faisão foi ao banho...'. Pois bem, acreditam que ontem vi que aquilo já tinha sido visto mais de 3.800 vezes? Achei fantástico. E incompreensível. Claro que 3.847 é coisa nenhuma, zero vezes zero quando comparado com os milhões que as influencers de sucesso alcançam. Mas eu sou uma simples anónima, de voz sumida, que não diz coisa que se aproveite. Porque é que as pessoas veem? Será que acham que é uma coisa tão descabida que veem para tentar perceber se há ali alguma mensagem subliminar? Se é, lamento desapontar mas é mesmo só falta de jeito e, se calhar, também de tino.

E, para que vejam bem o grau de desorientação em que esta minha cabeça anda -- na volta porque o pescoço que a sustém está repuxado e a garganta dorida -- tenho que confessar que, quando abri o computador, vinha com a ideia de aqui desabafar um bocado a propósito do animal, do estupor, do infame e cruel cavalgadura que anda a desaustinar o mundo inteiro. Mas distraí-me e, depois, não me apeteceu arrepiar caminho.

Portanto, não levem a mal que eu não tenha feito mais nada senão por aqui ter andado na converseta, sem acrescentar nada que valha a pena... Mas, para que não fiquem a pensar que já estou mesmo maluca de todo e que, com a divagação pegada para a qual derrapei, me esqueci da abestalhada figura, aqui vai o cartoon que a Ella Baron fez para o Guardian

Finalmente, aqui chegada, e vou já dar a faena por encerrada, não faço ideia do nome que hei-de colocar lá em cima, como título deste post. Só me faltava mais esta, já meio a dormir e sem encontrar um denominador comum no que escrevi...

A guerra de Trump e Netanyahu no Irão: As novas roupas do Imperador 


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Desejo-vos uma boa semana

quarta-feira, março 04, 2026

O novo eixo do mal é um belicista aventureiro? Ou não passa de um grande e gordo motor de impulso laranja?

 

 Tinha identificado uns quantos candidatos a serem sucessores de Ali Khamenei mas o ataque foi tão bem sucedido que morreram todos. 

Isto foi dito por Trump. 

Não é de loucos? Eu ouço isto e não consigo conter uma gargalhada. Não parece uma anedota? Mata um para pôr uns que ele lá sabe e, afinal, mata-os a todos? Se não fosse trágico, não era de ir às lágrimas?

É como aquela outra maluquice. Perante as crescentes vozes de que não havia quaisquer evidências de que nos próximos anos o Irão representasse qualquer risco, o fofo Marco Rubio, sempre com aquela sua boquinha de folhos e ar meio perdido, veio dizer que a coisa tinha sido assim: os americanos tinham sabido que Israel -- que se está nas tintas para as negociações que os dois artolas, o genro e o outro totó também do imobiliário, andavam a ter com o Irão -- tinha descoberto uma cena que era uma janela de oportunidade e que iam avançar à bomba sobre o dito Irão. E que pensaram que, se isso ia acontecer, os iranianos, furiosos, iriam retaliar e ainda iam fazer mal aos americanos. Portanto, antes que isso acontecesse, apanharam a boleia de Israel e lá foram dar cabo deles.

Perante a candura desta confissão, a casa veio abaixo: uns a rebolar a rir, outros de boca aberta. Então foi essa a grande razão para avançarem para uma guerra destas que está a desestabilizar o mundo? Então é mesmo verdade que o Bibi é que manda nos Estados Unidos?

Face a esta revelação que pôs o mundo a dar cambalhotas para trás e para a frente, meio mundo perplexo e desconcertado e o outro meio sem sabe se rir ou chorar, Trump, para remediar a barracada, veio contradizer o Marquito: não, não nada disso, não foi bem assim, ele é que forçou a mão de Israel. Só que ninguém acredita numa palavra que ele diz.

Enquanto estou a escrever, estou a ver televisão. E de novo aqui está ele. Confirma que mataram todos os que pensaram que poderiam suceder a Khamenei mas que vão lançar uma onda de ataques ainda mais ofensiva e que, provavelmente, vão matar outros que talvez também pudessem servir. E como, se calhar, a seguir haverá outra onda de ataques ainda mais destrutiva, se calhar depois já lá não conhecem ninguém. 

Ouço isto e penso: mas isto não será para os Apanhados? Isto não será uma comédia? É que é tudo uma maluquice tão grande que é impossível encontrar aqui algum racional.

Também o ouvi a dizer que vai proibir todo o comércio contra Espanha e que, se quiser, usa as bases que (o corajoso e, aparentemente, dos poucos adultos na sala) Pedro Sánchez diz que ele não pode usar. Que não precisa mas, se precisar, os aviões vão para lá e sempre quer ver quem é que o vai proibir. 

Ouço isto e penso que é preciso respirar fundo. Um palhaço destes armado em ditador, em imperador de meia tigela... 


Mais um dilema para Trump
(da autoria de Ben Jennings para o The Guardian)


E não sei se este voluntarismo é bazófia, se é loucura, se é um destemperamento provocador e inconsequente, se é ganância, ou se é demência pura e dura. Sobretudo penso que um estupor destes está é a precisar de uma lição.

E, o que mais me tira do sério, é que, ao lado dele está Merz... a apoiá-lo... Porquê? Como se ouve uma coisa destas e se fica a apoiar? Como!? Não deveria interrompê-lo, não deveria dizer que cada país é soberano e que ninguém se pode sobrepor a isso e, mostrando que não está para alimentar a sede imperialista do bufão laranja, não deveria levantar-se e sair da sala?

Enfim... Um mundo pantanoso em que uns quantos espantalhos se levantam para roubar, vilipendiar e matar os indefesos que esbracejam, tentando salvar-se.

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No vídeo abaixo fala-se numa coisa que me parece muito verdade: se pensarmos em líderes que desencadeiam guerras ilegais, cruéis criminosos de guerra que causam muitas mortes absurdas, então, ao lado de Putin, haverá que colocar Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Claro que, ao falar-se em líderes, David Rothkopf torce-se todo e questiona-se sobre se Trump é mesmo um líder ou, até mais do que um belicista aventureiro, não é senão um grande e gordo motor de impulso laranja. 

E, com isto, já estão a perceber que, uma vez mais, escolho quem quero ouvir sobre o que se passa. Fonte sempre muito bem informada, David Rothkopf, aqui no vídeo ainda não tinha ouvido a confissão de Rubio e as parvoíces de Trump que se lhes seguiram já que a conversa com Joanna Coles foi gravada na 2ª feira de manhã. Mas é sempre uma voz que se ouve de gosto (relembro que nas definições do vídeo podem seleccionar legendar e, aí, seleccionar a auto-tradução para português)

Como a guerra de Trump desencadeou um novo eixo do mal | Podcast do The Daily Beast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para defender que a guerra de Donald Trump contra o Irão revela um presidente que acredita governar como um rei, e não como um comandante-chefe constitucional. Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast e fundador da DSR Network, apresenta os argumentos de que se trata de uma guerra ilegal, iniciada sem a aprovação do Congresso, com apenas 21% de apoio público, sem um processo coerente do Conselho de Segurança Nacional e com baixas iniciais que já agravam o caos. Relaciona o ataque impulsivo de Trump aos incentivos políticos de Benjamin Netanyahu, ao risco de escalada regional, aos choques petrolíferos em vésperas de eleições intercalares e à perigosa fantasia de que a mudança de regime resultará de alguma forma em democracia em Teerão.


Desejo-vos um diz tão feliz quanto possível 

sexta-feira, abril 28, 2023

Sobre o vídeo com Augusto Santos Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e outros: nada.
Prefiro os trabalhos de Gerhard Haderer

 

Mais uma vez tivemos um caso a preencher o dia. Todos os dias as televisões têm que ter casos para terem pretexto para nos enxamear os ecrãs com comentadores e toda uma chusma de opinadores que tanto opinam sobre finanças como sobre companhias de aviação como assuntos jurídicos ou sobre o preço das batatas. 

E, quando não há casos, a comunicação social cria-os. A seguir, cinicamente, vêm sugerir a dissolução da Assembleia por causa da sucessão de casos e casinhos. Claro que, a bem verdade, há que dizer que, a seguir, vem Marcelo também alimentar o tema 'dissolução'. Um círculo vicioso.

A divulgação do vídeo feito na Assembleia da República quando Augusto Santos Silva, Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e outras pessoas conversavam, entre eles, informalmente, é de uma imperdoável canalhice. 

Recuso-me a comentar uma conversa breve e inócua entre pessoas que se conhecem há muito tempo e acho uma coisa de vizinhas, de gente desocupada, tudo o que se diga em torno do que eles conversavam entre eles.

E concordo que se apurem as responsabilidades para se descobrir quem fez a pulhice de divulgar uma conversa cuja gravação e divulgada não foi autorizada.

Quanto às reacções do Chega e do IL são o que são, são aquilo a que nos vêm habituando, populismos exacerbados, palhaçadas, cegadas que poluem o espaço público, que visam minar a credibilidade da democracia. 

O que penso sobre isso já aqui o tenho vindo a dizer: não digo que se lhes corte o pio senão vão vitimizar-se. Digo apenas que, em minha opinião, pela vacuidade e pelo desrespeito que mostram pelas instituições democráticas, o pio deles merece desprezo e não palco.

A bem de uma respiração saudável no espaço público, os círculos viciosos têm que ser travados.

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O que me parece digno de realce são os trabalhos do caricaturista e cartoonista austríaco Gerhard Haderer. O mundo actual passa todo por aqui e melhor faríamos todos se parássemos para pensar um bocadinho no que andamos para aqui a fazer.











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Desejo-vos uma bela sexta-feira

Saúde. Cabeça fria. Olhos abertos. Paz.

sábado, novembro 12, 2022

Kherson e o tudo o mais que dificilmente compreendo

 


Há muitos assuntos relevantes, cada um em seu patamar. E eu não sei bem em que patamar hoje quero estar. E este 'querer' não tem a ver com afinidade mas com capacidade. Poderia até ter vontade de me abeirar de vários. Mas sei que não iria conseguir. 

Longe vão os tempos em que ficava bem com meia dúzia de horas de sono e, se falo em meia dúzia, até estou a pecar por excesso. Não há muito ia pelo menos uma vez por mês passar o dia em reuniões nas instalações da empresa a norte. Levantava-me às cinco e tal, saía de casa às seis depois de me ter deitado à uma ou duas. E, muitas vezes, com receio de não acordar com o despertador, quase não conseguia pregar olho nas escassas horas de cama. E, no entanto, estava fresca e aguentava um dia inteiro de reuniões, coffee breaks, almoço, viagens. Chegava a casa tarde, voltava a deitar-me tarde e no dia seguinte já estava fresca e a pé às sete e tal e pronta para outro dia.

Agora já não é bem assim. Nos últimos meses passei duas noites no hospital com a minha mãe (felizmente, saindo ela de lá bem) e, em ambos os casos, longas horas a pé (prefiro estar cá fora a andar de um lado para o outro do que estar no meio da apinhada sala de espera). E fiquei francamente cansada. Comparando com a minha resistência dos tempos dos esticões aquando das idas do meu pai às urgências não há comparação. Agora o meu corpo vai-se mais abaixo. Fico a sentir-me quase de gatas.

Ou seja, sinto necessidade de descansar, tenho vontade de ficar a dormir até mais tarde. 

E, por isso, chego a esta hora ou ao fim da semana e sinto que me falta a energia para falar de muitos assuntos. 

- As alterações climáticas e a nossa cultura e a nossa organização enquanto sociedade que nos leva a fazer uma vida assente no consumo de produtos produzidos a milhas, em viagens de avião a preço de uva mijona, em espaços industriais ou de serviços que se situam longe das zonas residenciais, em hábitos que são pouco saudáveis -- seria um dos temas em que hoje gostaria de falar sobretudo porque não vejo que estejamos colectivamente conscientes da inflexão que tem que ser feita, sobretudo porque não estou a perceber bem o rumo que isto está a levar.

- O Twitter, essa plataforma que meio mundo utiliza, nomeadamente políticos, empresários e tutti quanti foi tomada de assalto por um maluco encartado que despediu uns milhares e depois disse que os ia readmitir, depois que ia cobrar a certificação das contas verdadeiras e que ia fazer e depois desfazer,  montes de ideias ideias peregrinas, agora, perante a debandada geral, está nas bocas do mundo pelo risco de falência -- e esse seria outro dos temas sobre o qual também gostaria de falar. 

[A day of chaos brings Twitter closer to the brink]

[Two weeks after Elon Musk completed his acquisition of Twitter, the future of the company has never looked less certain. In the past week alone, one of the world’s most influential social networks has laid off half its workforce; alienated powerful advertisers; blown up key aspects of its product, then repeatedly launched and un-launched other features aimed at compensating for it; and witnessed an exodus of senior executives]

Sobretudo porque há em tudo isto muita coisa que não percebo, a começar naquilo que, pelos vistos, não oferece dúvidas aos milhões que tuitam. 

- Claro que também me apeteceria falar dos milhares de despedimentos do Facebook/Instagram e do que um dia aí virá para desgosto de quem se viciou na exposição pública da vida privada. Sobretudo porque um dia será muito claro que, para além dos fenómenos de adição ou de depressão, estas plataformas são um risco real para a democracia.

- Marcelo e as gaffes diárias (ou será horárias?) e a sua compulsiva necessidade de comentar tudo, seja de que natureza for, a qualquer hora, em qualquer contexto levando aos seus cada vez mais frequentes excessos, enganos, tons inapropriados, palavras deslocadas e/ou escusadas, tiradas infelizes, ideias trocadas e gatadas -- seria outro tema a que gostaria de deitar mão, em especial num dia em que, uma vez mais, se saiu com uma que logo mereceu reparos, correcções e sorrisos. Sobretudo não percebo se o senhor não está bem de vez ou se é achaque passageiro.

- Ou Matt Hancock, o bacano ex-ministro da Saúde inglês, demitido depois de ser apanhado abraçado e a apalpar o rabo a uma colega numa altura em que o distanciamento era obrigatório, e agora deputado, que está agora a participar num reality show, deixando os ingleses divertidíssimos e os conservadores em estado de rebuçado -- e disso eu apetecia-me mesmo falar. Sobretudo porque não percebo bem qual a dele e porque, para dizer a verdade, gostava de ver como reagiríamos se um qualquer nosso ex ministro e ainda deputado se metesse numa destas, a comer insectos e a conviver com cobras.

- E tantos mais temas... 

Mas não dá. O corpo está a pedir-me caminha.

Contudo, ainda assim, para que a vossa visita a esta vossa casa não seja completamente em vão, vou tentar falar de Kherson. Um bocadinho, que não dá para mais. E falo contente, claro. Como não...? Claro que fico contente. As imagens de felicidade dos ucranianos, a jovem a tocar violino na curva da estrada... Claro que tenho que me sentir contente. São momentos épicos.

Desde o dia um, quando -- petrificada e revoltada -- caí na real e constatei que a Rússia tinha mesmo invadido a Ucrânia, tive para mim que Putin não estava apenas a assassinar muitos inocentes e a arrasar um país, estava também a cavar a sua própria sepultura. 

Putin manda destruir prédios, pontes, escolas, teatros, hospitais, manda chacinar uma população e eu olho para o que a comunicação social mostra e o que vejo é a derrocada do regime corrupto e ditatorial de Putin, o que vejo é um perdedor, um desgraçado. E vejo também a incrível força anímica do povo ucraniano, um povo necessariamente vitorioso. 

Contudo, o que se passou com Kherson é qualquer coisa que não entendo bem. É uma vitória ucraniana, certamente. Mas se isso corresponder ao que parece, uma pesada e humilhante derrota russa, a situação será ainda mais caricata. Custa-me a crer que as forças do Kremlin sejam tão nabas e estejam tão desgovernadas como parece porque, se o que está a acontecer é mesmo o que se vê, então tudo isto será mesmo fruto de um delírio absurdo de um homem maluco e de uns quantos cobardes que vivem à sua sombra. No terreno, no dito teatro de guerra, o que parece é que tudo não passa de bandos de patifes deixados à solta, de bandidos descomandados, violadores, ladrões, esfomeados, ou simplesmente jovens espantados e desnorteados, sem uma estratégia que os guie. E, se assim é, como se explica que o mundo assista estarrecido a este circo bárbaro sem ser capaz de impedir o assassino de prosseguir?

A partir daqui, será que é a isto que se vai assistir: debandada geral dos russos, deixando tudo para trás, maquinaria, munições (para além de rastos de barbaridade)? Um dia, mais cedo do que pensamos, acordaremos com a notícia do fim do regime de Putin? Acordaremos, em breve, felizes com a notícia de paz na Ucrânia?

Ou isto não é exactamente o que parece...? Poderemos ainda ser surpreendidos com alguma outra cartada de violência e destruição?

Que Putin vai ser apeado e que a Ucrânia sairá vitoriosa e será reconstruída e será um dos mais felizes países europeus disso não tenho dúvida. O que não sei é se será em breve ou se, até lá, ainda muito mais sofrimento vai acontecer. Isto de Khersen deixa-me um bocado confundida. 

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Ilustrações, de novo, de Pawel Kuczynski na companhia de Nicolas Altstaedt que interpreta Bach/ Cello Suite nr. 1 in G – Sarabande

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Um bom sábado

Saúde. Tudo de bom. Paz.

sexta-feira, novembro 11, 2022

Ceninhas do meu dia a dia
[E dois momentos do humor: o do Klebão e o do supositício ex banqueiro Carlos Costa]

 


Só para dizer que, há uns três anos, na empresa, mudaram de empresa de cartões de refeição. Fiquei com saldo de dois euros no cartão antigo(e sei porque me enviam o saldo). Em relação ao seguinte, como mudei eu de empresa, passei a ter um cartão novo e do velho não sabia o saldo. A última vez que tentei usar no supermercado (para quem não saiba, estes cartões tanto podem ser usados em restaurantes como em supermercados) não consegui pagar, saldo insuficiente. 

Em relação ao primeiro, ainda não usei pois nunca mais me apareceu uma conta de dois euros. Em relação ao segundo, fiquei também com ele em stand by até perceber como saber o saldo e tentar encaixar uma conta nele.

Até que, no outro dia, no supermercado, a pessoa à minha frente, por sinal uma brasileira anafada, extrovertida e com um cabelo num louro ostensivamente irreal, ao pagar decretou: 'É pa parcelá'. Fiquei sem perceber. Parcelá? Já estou como o Bolsonaro, sem perceber. Seria 'parcelar? Mas parcelar a conta do supermercado? Contudo, o rapaz da caixa não estranhou: 'Quanto no primeiro cartão? E ela: 'Dezassete e meio'. Passou o cartão. A seguir passou o segundo. Fiquei bege. Afinal dá para pagar a conta do supermercado com dois cartões!? Como é que nunca me tinha lembrado de tal? Como é que nunca me tinha apercebido disso?

Mas, assim sendo, problema resolvido. Só tinha que descobrir o saldo do segundo que, pelas minhas contas, ainda teria dinheiro que se veja.

Então, hoje ao ir ao supermercado, tive uma ideia peregrina: ir primeiro à máquina do multibanco e ver se me dava o saldo do cartão. 

Enfiei o cartão. Ainda mal tinha introduzido o código já aquilo me estava a mostrar opções. Mas uma coisa atípica. Apenas duas opções 'Outras Operações' e 'Mb way'. Tentei  'Outras operações'. Em vez de me aparecer a opção 'consulta de saldos', não senhor, fui parar ao ecrã anterior. Tentei o Mb way. E, aí, nem saldo nem dinheiro nem nada. Zero. A máquina disse-me que, por razões de segurança, me ia reter o cartão e que contacte eu o banco. 

Fiquei siderada. Sou avessa a situações destas, sinto-me impotente, indefesa, fico a temer que o mundo me sugue, que um meteorito me caia em cima e me esmague para todo o sempre.

Mas, pronto, a vida continua. Fui fazer as compras. Pouca coisa e, sem saber como, cinquenta e dois euros. Isto está bonito, está. Imagino o sufoco para quem tem miúdos em casa e um ordenado curto ou para quem tem uma reforma baixa e medicamentos e despesas inadiáveis. 

Quando fui pagar, ao procurar o cartão normal, vi na carteira o outro cartão de refeição e constatei que, na máquina, me tinha enganado. Usei o cartão dos dois euros. Foi esse que, afinal, foi engolido. Ou seja, coloquei o código do cartão mais recente. Não percebo porque não assinalou que o código estava errado. Só sei que agora tenho que ligar para o banco e depois hei-de ter que ir buscá-lo. Ou deixá-lo lá ficar pois não sei se vale a pena grandes maçadas por dois euros.

Quando cheguei a casa, peguei no outro, o dito mais recente, aquele de que não sabia o saldo, e pus-me a vê-lo com olhos de ver. Vi que tem números de telefone. Nunca tinha reparado. Liguei. E fui guiada pelo atendedor automático: introduza o código. Depois: se quiser saber o saldo, digite 1. Digitei e aquilo disse-me o saldo. 29€.

Mas isto para dizer que andei este tempo todo sem saber como descalçar a bota e, afinal, era de caras: bastou ligar e fiquei logo a saber o saldo. E ando há anos a ir ao supermercado e desconhecia que dá para parcelar e pagar com dois cartões.


Às vezes acredito mesmo que devo ser de outro planeta, que não vejo e não ouço o mesmo que a maioria dos terrestes pois ignoro o que a maioria das pessoas sabe de cor e salteado. Ou então sou uma terrestre altamente limitada. É o mais provável, acho eu.

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As fantásticas ilustrações são da autoria do fantástico Paweł Kuczyński e lá em cima os Ok Go que, talvez por serem tão doidos eu acho o máximo, interpretam Here it goes again. 

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E, por falar em cartões, em especial os que parece que não têm saldo ou de que não se sabe se a culpa é do cartão, da máquina, do cu ou das calças, aqui fica o Klebão.

Aproximação segundo a Porta dos Fundos

Nunca foi sobre crédito ou débito, é sobre conexão, sobre estar junto em todos os pratos, em cada acompanhamento. É aquele acalento na alma na hora de pedir a conta e o coração chega a errar as batidas até a maquininha chegar. Ame seu garçom em praça pública!


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Já agora, o grande momento de humor do dia: o socialmente ainda respirante Carlos Costa parece estar a ver se ressuscita e, ao que consta, vai publicar um livro onde parece que faz de tudo a ver se se limpa. Está bem abelha. Aselha mais aselha não se conhece. Enquanto estava no posto armou-se em macaquinho tricéfalo: um não via, outro não ouvia, outro não falava. Os bancos a caírem como tordos, meio mundo a ficar a arder, e ele, tataranha, a fazer de conta que não sabia de nada e que, além disso, não era nada com ele. E agora, ao que parece, vai sair à pena com um livro em que parece que se põe a sacudir para cima de um e de outro. 

De gargalhada. Outra múmia paralítica que, volta e meia, quer fazer-se de viva. 

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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.