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quarta-feira, maio 06, 2026

Longe da civilização

 

Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento. 

Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'. 

Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.

Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.

Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.

Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...

Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.

O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.

Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida. 

Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.

Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.

Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.

E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.

Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.

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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.

Humanos Inacreditáveis ​​​​| 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K

Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.


Neste vídeo de viagem em estilo documentário, exploramos 10 comunidades extraordinárias:
  • Tribo Korowai (Indonésia)
  • Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
  • Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
  • Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
  • Povo Aymara (Bolívia)
  • Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
  • Povo Dogon (Mali)
  • Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
  • Tribo Kogi (Colômbia)
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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, maio 04, 2026

Quanto custa despedirmo-nos de árvores?

 

Esta tarde estiveram cá uns rapazes ágeis, cheios de força e determinação. Quase conseguiram levar a cabo a tarefa de derrubar todos cedros grandes que estavam tombados. 

Antes, um deles já tinha vindo sozinho, durante dias, e já tinha cortado um deles que estava totalmente caído, a obstruir um dos caminhos, e também uns três ou quatro pinheiros muito altos e secos, um cedro que inexplicavelmente também secou (e que ainda não tinha atingido um porte gigante), um outro que estava bem vivo mas muito tombado, apenas sustentado por outras árvores, pernadas grandes de pinheiros e de aroeiras que se tinham partido. Mas a tarefa de hoje era a pior: cedros enormes, muitos metros de altura, possantes, uma ramagem compacta de alto a baixo -- e inclinados pelo vento, quase a cair.  Tudo fruto da depressão Kristin.

E, entre os dois, conseguiram dar conta de quatro. A complexidade maior, para além da envergadura e do risco de lhes cair em cima, é que estavam entre muretes e em volta de uns muros/bancos forrados a azulejos que importava preservar.

Conseguiram. Mas ainda há muito trabalho pois, para cada um, o grande torrão composto por terra, raízes e parte do tronco, ainda está intacto, um volume compacto, pesado --- e entre muros. Ou seja, um tractor não consegue lá chegar. 

E, para além disso, agora há troncos por todo o lado, ramagens e mais ramagens. 



No fim, teremos que pedir a alguém para cá vir levantar tudo isto. Das ramagens talvez façamos uma queimada. Já estamos registados no portal das queimas e queimadas e solicitamos aprovação. Talvez a família se junte, os meninos gostam de ver a grande fogueira que, em dias assim, se forma. O resto será lenha que alguém um dia consumirá. Nós já não temos onde acondicionar mais. O meu marido já transportou muitos troncos cortados para o telheiro da lenha.

Falta ainda o cedro mais complicado, talvez o mais alto, o maior de todos, que está entre painéis de azulejos. Nem quero pensar. Vê-se da nossa casa, faz parte da paisagem directa, não precisamos de ir passear para lá para o vermos. 

Isso será feito de seguida. Não quero ver.

Destes que já foram abatidos, enquanto os rapazes lá andaram, mantive-me em casa. Ouvia as serras a cortarem em contínuo. Só fui quando se foram embora. 

Uma desolação inexplicável. Onde antes havia uns vultos gigantes, frondosos, cheirosos, há agora o vazio e restos de troncos espalhados por todo o lado. 

Tento abstrair-me, não dramatizar, pensar que acontece. Aconteceu connosco e com tantas pessoas e muito mais grave que nós. Tivemos sorte. Bem sei. 

Mas também sei que antes de ir trabalhar, muito cedo, ia aos viveiros, escolhia as arvorezinhas, depois plantava-as, depois regava-as todas as semanas, fazia uma protecção em volta para o vento não os perturbar, para os coelhos não os comerem. Até que vingassem, tratei deles com cuidado e amor. Anos. Depois senti-me orgulhosa quando os vi, adolescentemente a deitarem corpo, espigados, a crescerem todos os dias. Finalmente, senti orgulho por serem tão fortes, tão belos, a darem aquela sombra com que tanto sonhei, a exalarem a frescura que tanto me reconforta. 

E agora tivemos que os abater.

É a vida, é a natureza. 

E foi também a nossa ingenuidade e impreparação. Sempre adorei cedros e nunca me passou pela cabeça que os cedros não fossem o tipo de árvore mais adequado a um lugar como este. Só depois disto soube que os cedros não enraízam em profundidade, em especial se o terreno é pedregoso. Quando pequenos, de facto deitam raízes para baixo mas, com a idade, quando atingem alturas grandes, estendem as raízes na horizontal. E com o vento a fazer o efeito de vela e as terras molhadas, empapadas, não houve pressão subterrânea para os aguentar. 

Fica a aprendizagem. E fica a memória da sua beleza quando estavam majestosos. 


De qualquer forma, não acabo sem responder à pergunta que formulei no título: Quanto custa despedirmo-nos de árvores?'. Custa muito.

segunda-feira, abril 13, 2026

Um domingo com árvores abatidas, com a feliz vitória da democracia e da liberdade europeia na Hungria, com o impasse na estúpida guerra que Trump desencadeou contra o Irão e com Israel a continuar a mostrar que é quem manda nos Estados Unidos

 


O domingo amanheceu muito cedo, cedo demais, e logo depois já se ouvia o barulho em contínuo da serra elétrica. Começaram a ser cortadas as árvores que tombaram ou que estão em vias disso na sequência da tumultuosa Kristin. Aliás, hoje ventava de tal forma que, sempre que passava sob as agitadas copas, me interrogava sobre a minha segurança e a de quem por ali andava a serrar os tão amados troncos. Mesmo os cedros e pinheiros que secaram, provavelmente por terem estado tanto tempo com as raízes encharcadas, também já começaram a ser abatidos. Onde havia árvores grandes e frondosas há agora espaço vazio e, ao olhar para esse espaço sem nada, sinto tristeza..

E ainda faltam as árvores maiores, os cedros gigantes, os que estavam dispostos em lugares estratégicos e que maiores dificuldades vão colocar ao seu abate e remoção. Temos mais uns fins de semana destes pela frente.

Tento colocar o coração ao alto. Os paisagistas que cá estiveram foram consensuais: nesta terra pedregosa mais vale contentar-nos com árvores autóctones do que alimentar o sonho de ter belas árvores que, aqui, serão sempre vulneráveis. Os cedros gigantes enraízam superficialmente, sobretudo em terrenos pedregosos. Por isso, quando estão muito grandes, se o vendo os faz flectir, por pouco que seja, o seu centro de gravidade não é sustentado por um enraizamento profundo. E tombam, levantando por completo as raízes. Com os pinheiros não é a mesma coisa, creio que, por um lado, é o mal que lhes dá. Ou a vulnerabilidade face ao excesso de água. Não sei. Não caíram, simplesmente secaram. Mas isso aconteceu sobretudo com os bravos. Os pinheiros mansos estão bem e os outros, de que não consigo lembrar-me do nome, também.

E as azinheiras e as aroeiras e as figueiras bem estão. Portanto, festejo o que está bem e tento aceitar com naturalidade que o ciclo de vida das outras chegou ao fim.

E, como esteve muito frio, estive mais tempo dentro de casa. E até fiz um chá e tudo. Só não acendemos a lareira porque, afinal, psicologicamente já nos estávamos a sintonizar com uma primavera quente. Este retrocesso climático não deverá levar-nos ao saudosismo da lareira.

Além disso, a madeira dos cedros e dos pinheiros não é boa para as lareiras, tem resina de mais.

Enfim, adiante.

Sobre o que por aí se vai passando um ou dois apontamentos:

Hungria

A derrota de Orbán é uma boa notícia para a União Europeia, para a Ucrânia, para a democracia. Ouvir uma multidão, em festa, a aplaudir Péter Magyar e a gritar a uma só voz Europa, Europa, é qualquer coisa de emocionante. A Europa é o berço, o refúgio, o chão e o tecto de quem, por estas nossas bandas, defende a democracia, o humanismo, o desenvolvimento, a liberdade, o Estado de Direito, a paz, a ética, a verdade. Que a Europa, livre e democrática, nos acolha, nos abrace, nos defenda, nos ampare.

Ao mesmo tempo, a derrota de Orbán é uma derrota para Putin, para Trump e para o oportunista e vira-casacos J. D. Vance, é uma derrota para Ventura e para todos os populistas de extrema direita que têm vindo a pulular na Europa à garupa do que julgavam ser a tendência vencedora Trump/Órban.

A caguada quase galáctica armada pelo idiota do Trump

 (nb: caguada com u para não ser um nome feio)

Ele não quer que se lhe chame guerra pois, para ser guerra, tinha que ter sido aprovada pelo Congresso. Como vai muito para além de uma operação especial ou de uma pequena excursão, como ele se lhe refere, prefiro chamar o que é, uma caguada em três actos.

O burro meteu-se nesta alhada, a reboque do outro que o tem na mão, e agora não tem como sair. Ele bem quer pirar-se de qualquer maneira, deixar tudo ensarilhado, e, como se fossemos todos tão burros e malucos como ele, dizer que ganhou. Só que o outro, o que o tem na mão, diz que espera lá aí: não sais, não senhor. E, para provar que não sai, não senhor, continua a bombardear tudo e mais alguma coisa, sobretudo o sacrificado Líbano, mesmo enquanto duram umas pretensas negociações com o Irão.

Para essas negociações, enquanto para representar o Irão, foi um grupo de homens feitos, com formação e experiência, para representar os Estados Unidos foi a tropinha fandanga do costume, a saber: o sinistro genro, o tipo de imobiliário e o totó do J.D. Vance. Enquanto para negociações similares em circunstâncias muito menos limites, outros levam meses ou anos, mas, vá lá, dada a urgência, no mínimo semanas, aqui julgavam que iam conseguir chegar a acordo em 21 horas. Como não conseguiram, vieram-se embora. E o paspalhão-mor, o doente Trump, ameaçou bloquear o bloqueado Estreito de Ormuz que, antes da monumental caguada, estava aberto. Uma tragicomédia que vai paa lá de ópera-bufa, mais parece um teatreco desconchavado engendrado por malucos internados num hospício para dementes encartados.

Qualquer dia nem é uma questão de ninguém conseguir pagar o combustível, é mesmo que não há. Escassez pura e dura.

Não se sabe qual a saída para isto. Airosa não há, mas mesmo que pouco airosa, não se vislumbra.

No meio disto, a esfíngica Melania veio fazer aquela conferência solene que, até hoje, ninguém conseguiu descodificar. Dizem que  uma ex-amiga dela, dos tempos de Epstein, ex-mulher de um grande amigo e apoiante de Trump, ameaçou pôr a boca no trombone e fazer revelações que vão mostrar o que é a verdadeira escumalha, e que, para se antecipar e mostrar que a escumalha não é ela mas, sim, o pato cor de laranja, Melania se antecipou. Mas há também quem diga que foi a Melania que já não pode com o marido e resolveu apertá-lo onde a ele lhe dói mais. Mas também há quem diga que foi Israel, que tem o casal na mão, que a obrigou a ela a ir pregar um susto ao marido para ele perceber que Israel é que manda e que, se ele quiser agora mijar fora do penico, ai ai, que eles pegam no material incriminatório que têm e o põem na prisão em três tempos. Who hnows...?

Um dia, presumo que não longínquo, teremos documentários, dramas e comédias sobre este período rocambolesco da história do mundo. E, muito provavelmente, em todos teremos o venal e idiota Trump retratado como estando simultaneamente nas mãos da Rússia, da China, de Israel e de Melania. Todos com material mais que suficiente para o chantagearem e o levarem a fazer todas as borradas a que vamos assistindo. Claro que tudo devidamente condimentado com o seu narcisismo e a sua demência. Ou seja, um filme.

Seja como for, por crime grosso de envolvimento com menores ou por desencadear uma guerra não autorizada, ou por estar a dar cabo da vida dos americanos ou por muitos outros motivos, parece que reina a agitação entre os republicanos. Preveem que não tarda se vão ver livres dele e já anda cada um para seu lado a ver se se organiza face ao tão esperado day after. Uns andam a arranjar maneira de o tirar rapidamente da Casa Branca, outros aguardam que a solução chegue por outra via: como vaticina um médico americano, esperam que um dia destes ele se engasgue de vez com um hamburguer ou, então, cometa um erro tão grave, tão grave, que tenham que interná-lo à força.

Eu, por mim, só mais modesta, gostava mesmo é que o mundo voltasse a ser como o era nos tempos em que a Rússia ainda não tinha invadido a Ucrânia, que Israel ainda não tinha destruído Gaza e agora o Líbano, em que Trump não tinha tido a sua 2ª e inexplicável vitória. Será que é pedir muito?

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Amanda Ungaro ameaça expor as ligações ocultas de Melania Trump nos arquivos de Epstein

A modelo brasileira Amanda Ungaro ganhou destaque nos media internacionais depois de alegadamente ter ameaçado "expor" informações relacionadas com Melania Trump, na sequência da negação pública da modelo de qualquer ligação a Jeffrey Epstein.

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, abril 05, 2026

Renascimento

 

Dias de labuta, apetece-me dizer. Mas não digo, não gosto de exagerar. Nem gosto de apresentar como obra feita o que é, sobretudo, um desejo. Para onde olhe, vejo coisas que precisam de ser feitas.

Longe vão os tempos em que, ao contrário da maioria das pessoas e, em particular, a minha família, eu estava bem era com obras. Adorava idealizar, ter cá o senhor das obras, mostrar-lhe as minhas ideias, os meus desenhos que ele não percebia e fazia-os ele, à sua maneira, com um bocado de tijolo riscando o cimento ou um pau riscando a terra. E depois ver a evolução, montes de areia e brita, sacos de cimento, pilhas de tijolos. Era a minha praia.

E chegávamos ao fim de semana, depois de uma intensa semana de trabalho, e depois de um bocado a dormir (a bateria descarregava, ia abaixo, mas dormia um par de horas a mais e, num instante estava recarregada), varrer, lavar, sacudir tapetes e cobertas e colchas, e, à noite, pintar ou fazer de arraiolos até ser quase de manhã. 

Agora está bem, está... Olho para o muito que há para fazer e penso que não tenho energia nem para um décimo. É que, ainda por cima, dantes a natureza ainda estava a desenvolver-se, era vê-la a crescer. Agora desenvolveu-se, avança, cresce, e há que arranjar, abrir espaço, cortar, limpar. Tudo muito mais que antes. Ou seja, é um misto disso e da minha genica que já não é a mesma que antes.

Fomos almoçar fora. Descobrimos uma tasquinha simpática numa aldeia não muito longe. Come-se bem. Para começar, havia uma tacinha de azeitonas temperadas e uma cesta de pão variado. Num ápice voou tudo. Adoro pão com azeitonas. Depois pedimos uma entrada de ovos com farinheira. Óptima. Ovos macios, cremosos, pouca farinheira, salsa picadinha. A seguir mandámos vir bochechas assadas, uma dose para cada. Mas, nessa altura já apenas consegui comer duas, e eram pequenas, com salada, um arroz soltinho e umas batatas estaladiças. O meu marido, salvo erro, ficou-se por três. Pedi que pusessem o remanescente numa caixinha. Ainda dá uma refeição para um, nas calmas. Depois um petit gateau de chocolate do Dubai, quentinho, com gelado de pistaccio. Bem bom. 

Resultado: ao jantar apenas comi um pouco de iogurte grego natural, a que misturei sementes e um kiwi com um pouco de burrata. Mas, ainda assim, sinto que engordei cinco quilos. No mínimo.

Quando chegámos do almoço, fomos estender a roupa que eu tinha deixado a lavar.

A seguir, deitei-me debaixo da meia sombra da figueira e quase adormeci. Um dos lençóis estava estendido na corda que vai de um ramo da figueira até a um gancho no telheiro e, por isso, a aragem trazia-me o perfume bom do lençol lavado.

Mas foi sol de pouca dura pois sabia que havia muito trabalhinho à minha espera. Não apenas estava só a ouvir chegar mensagens como não queria deixar passar a tarde.

Varri, varri, varri. Bolotas secas, folhinhas secas de azinheira, caruma, pinhas roídas e secas. Mais a terra que se junta. Não sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei e despejei. 

Parei já era quase de noite, e parei não porque já estivesse tudo feito mas porque receei que amanhã não conseguisse mexer-me.

Mas olho e vejo árvores que precisam de ser desbastadas, arbustos que rebentam demais, caminhos a precisarem de ser limpos. E dentro de casa há rodapés que, em algumas zonas, deveriam ser retocados. Sei lá. Sempre coisas para fazer. 

Ontem, quando se ligou a luz da cozinha, disparou o quadro elétrico. Percebemos, depois, que a lâmpada do candeeiro que está sobre a mesa, se tinha fundido. Mas pior, o casquilho parece que derreteu e não se conseguia tirar de lá. De cada vez que se ligava, o disjuntor disparava. Eu com uma lanterna e o meu marido em cima de uma cadeira a ver se conseguia sacar aquilo. Não conseguiu. Teve que tirar o candeeiro do tecto. Provavelmente com as humidades dos dias de muita chuva aconteceu alguma coisa. Agora, à noite, estamos à meia luz. Teremos que ir ver se encontramos uma peça que sirva de casquilho e se adapte àquele candeeiro. Ou seja, insignificâncias -- mas o pior é que, insignificâncias ou não, há sempre qualquer coisa mais para fazer.

E este domingo, logo de manhã, vem cá um senhor para dar um orçamento para tirar os cedros gigantes que tombaram ou caíram ou estão em vias disso e mais os pinheiros e mais roçar o tojo e etc. Não dá muito jeito, na manhã de domingo de páscoa, mas parece que é quando lhe dá jeito; por isso, muito bem, que venha. 

Nem quero pensar que me vou despedir de árvores que plantei, mínimas, e que agora têm muitos metros de altura e que não têm salvação possível. Uma dor de alma. 

E não sei se o excesso de água não continua a fazer estrago pois há mais um cedro e dois pinheiros completamente secos. Imagine-se: água como nunca se viu e as árvores secas. E mesmo um eucalipto gigante está com ar stressado, meio ressequido. A natureza tem coisas... Há que compreender e respeitar, bem sei. Mas o problema é que há coisas que custam a compreender. 

De qualquer forma, talvez para me consolar, penso que outras árvores crescerão, que a vida continuará como sempre continua, renascendo todos os dias.

E, enfim, é o que é. Os pássaros estão em festa, cantam, cantam. Esquilos é que nem sinais deles. Sempre gostava de saber onde é que, de vez em quando, se metem.

E eu chego a esta hora com sono. Mais uma vez não vou agradecer os comentários, um a um. Agradeço aqui colectivamente. É uma e tal da manhã e amanhã tenho que pôr a carne no forno cedo, para assar de vagar. E estar pronta quando vier o senhor. E o que me custa já levantar-me cedo...

O meu marido, há bocado, esteve a falar-me de umas coisas interessantes da Arte da Guerra, de Sun Tsu. Perguntou-me se eu sabia há quantos anos foi escrita. Respondi que talvez para aí há uns mil e tal anos. Não, foi escrita há mais de 2500 anos. Estava a fazer um paralelismo, por contraste, com os idiotas que agora não sabem causar outra coisa senão destruição e morte. Perguntei-lhe se não queria escrever um post sobre isso pois parecia-me bastante interessante (e eu, confesso, estava com preguiça de escrever, apetecia-me continuar a reler o Louvor da Terra de Byung-Chul Han). 

Mas ele também teve preguiça, também estava com sono, já foi dormir... E, por isso, aqui estou eu. Não tenho nada de interessante a reportar, só isto mesmo, mas a vida no campo também é um bocado isto, as pequenas coisas que vão surgindo todos os dias ou as pequenas conversas que se vão tendo.

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Desejo-vos um belo domingo

Que renasça a esperança em melhores dias, que renasça a paz onde hoje há guerra

Que a vida nos sorria a todos

sexta-feira, abril 03, 2026

Uma casinha na árvore

 

Hoje, quando a menina mais linda estava a andar de balouço, ouviram-se uns estalidos algo ameaçadores. O meu filho olhou e verificou que o tronco, enxertado no chorão, no qual foi construída uma armação para se suspender o balouço, está seco, parece que bichado, diz que não tarda vai partir-se.

Fiquei a olhar com pena. Pensei que, com jeito, talvez conseguíssemos retirar aquela montagem e substituí-la por uma nova, resistente. Mas é preciso muita força, aqueles troncos são muito pesados. E é preciso jeito. Se calhar também técnica. Não temos nada disso. 

Vejo aquelas pessoas que, perante qualquer situação, olham e facilmente engendram soluções engenhosas para as resolver ou melhorar. Não sou assim. Aliás, acho que, cá por estas bandas, ninguém é assim. Imagino que, perante um desafio mais complexo, olhem todos, digam que não sabem, que dá muito trabalho, que, para fazer, teria que ser bem feito, que esqueça, que não é para amadores, para totiços como nós.

Mas fico com pena. Agora, a nível da maltinha miúda já estão todos a ficar grandes e, em boa verdade, os rapazes nunca ligaram muito ao balouço, só mesmo as meninas. Só que é bonito, é uma graça, é daquelas coisas que a gente associa à infância, à liberdade de quase voar. Sempre gostei de andar de balouço, de dar balanço, de ir bem alto. 

(Para dizer verdade, temos um segundo balouço, mais estruturado, sem ser de estar preso à árvore. Mas também, praticamente, ninguém lhe dá uso. Mas existe, é amarelo e bonito, e traz alegria ao lugar -- e isso também importa.)

Mas, voltando ao tema: talvez por ter essa pequena frustração de não ser habilidosa nem ter habilidos por perto, goste tanto de ver vídeos em que uma pessoa sozinha faz mil coisas: uma cabana, uma casa subterrânea, uma casa dentro de um tronco de árvore. Antes aparecia-me uma jovem asiática que ia para o campo, aparecia com plantas, frutos, bagas diversas, flores, paus. E fazias tinturas, ou fazia saladas, ou construía abrigos, ou fazia umas comidas curiosas. Nunca mais me apareceu. Mas eu ficava ali vendo-a com a sua destreza a fazer as coisas mais inacreditáveis.

Hoje apareceram-me, como seria expectável, toda a espécie de vídeos sobre o Trump, sobre os seus dislates, sobre o facto de ter despachado a vil e engraxadora Pam Bondi, especulando já sobre quem vai ser a próxima. Mas estou zen, ou, melhor, perdida de sono, não estou para políticas, maçadas, inquietações.

Tive cá o pessoal. Um lanche ajantarado nesta altura do ano sabe bem melhor, podemos estar na rua, os dias estão já de bom tamanho, a temperatura está agradável, o tempo fica com ar de férias. Aliás, eles estão mesmo de férias e isso sente-se, a descontração é outra. Ainda agora estive a ver as fotografias. Sorridentes, as cores bonitas que o sol da tarde torna mais douradas. E a malta miúda sempre a crescer. E eu a ficar mais pequena no meio deles. 

E estava a ganhar coragem para agradecer os comentários mas acho que não vou conseguir. Para escrever isto, que não é nada, já parei várias vezes, a fechar os olhos enquanto escrevo. Tenho que ir dormir.

Mas mostro o vídeo que reteve a minha atenção -- embora, confesso, tenha também semi-adormecido cinquenta vezes pelo meio. Mas é daqueles que eu olho e penso: não é difícil, se a gente tentasse, se calhar, conseguiria fazer coisas assim. Mas não tentamos, se calhar porque sabemos que não conseguiríamos. 

Esta coisa das cabaninhas, das casinhas nas árvores, dos abrigos no meio da floresta estimula a minha imaginação. Talvez me faça lembrar a minha infância quando passava tardes inteiras com um amigo, um ano mais velho que eu, na altura em que um ano mais velho fazia alguma diferença, na pequena cabana de madeira que avô tinha construído ao fundo do jardim. Conversávamos, conversávamos. A minha avó ia lá levar-nos o lanche e comentava com o avô dele: 'Mas o que é que estas alminhas tanto têm para conversar...?'. E a verdade é que tínhamos. Eram tardes felizes, só nossas, nós e o nosso mundo. Planeávamos coisas, eu perguntava-lhe coisas pois ele sabia muito mais que eu e ele tinha uma paciência infinita. E, quando não sabia, dizia que não sabia e eu gostava, ficávamos os dois, por uns instantes, calados, certamente a pensar como haveríamos de descobrir a resposta. Durou até ao fim da escola primária, altura em que fui para o liceu e deixei de ir, à tarde, para casa da minha avó. Mas a memória dessa afinidade perdura até hoje.

Encontrei uma árvore oca gigante e construí uma casa secreta no seu interior

Descobri uma árvore oca gigante no meio da floresta e decidi transformá-la num abrigo secreto para sobrevivência. Neste vídeo, verá todo o processo de construção de um refúgio dentro de um enorme tronco de árvore, utilizando apenas ferramentas básicas e materiais naturais. Desde a limpeza do espaço interior até à criação de uma área habitável quente e segura, este projeto mostra como as capacidades primitivas e a criatividade podem transformar a natureza na base de sobrevivência perfeita.

Este não é apenas um abrigo — é uma casa secreta construída para viver em áreas selvagens durante longos períodos. Se gosta de bushcraft, vida fora da rede elétrica e construções de sobrevivência extremas, esta viagem irá inspirá-lo com técnicas práticas e momentos de paz na floresta.

Veja até ao fim para ver como uma árvore oca se transforma num santuário aconchegante e escondido na natureza.

@Minh Anh Survival Bushcraft


Desejo-vos uma boa sexta-feira

segunda-feira, agosto 18, 2025

Um heaven a precisar de alguma lei e ordem
(e um país a precisar de ser decentemente governado)

 

Depois de um dia belamente preenchido, quando ficámos sozinhos, à noite, ainda fomos fazer a nossa caminhada. E depois estive a tratar de uns assuntos e só agora me despachei. Como ainda por cima não posso levantar-me tarde, agora tenho que abreviar.

Caso tenham a possibilidade de me seguir também no Instagram (ao que eu cheguei... eu sempre tão contra as redes sociais...), poderão saber que tenho andado aos figos, barrigadas deles. Passo por perto de uma figueira e, mostrando que a minha vocação para o sacrifício é muito limitada, atiro-me aos figos com uma gula que não tem perdão. Vivo in heaven mas o meu heaven não é o paraíso das beatas elegantes, o meu heaven é um lugar em que se pode pecar à vontade e comer até não poder mais. 

Poderão também saber que parece que os coelhos estão de volta. Uma felicidade. 

E ainda não vos contei mas no outro dia tive uma ideia que o meu marido abraçou com todas as mãos de que dispõe: pedirmos um parecer a um paisagista. Com a queda de cedros quando foi o vendaval Martinho, consultámos uns experts que nos disseram que os cedros são frágeis perante situações adversas como as ventanias pois as suas raízes são superficiais e, ao crescerem muito em altura, ficam com uma fraca base de sustentação. Então o que fazer? Deixara que caiam? Ou agir antecipadamente? E substituir por que outras árvores? Também há o caso das laranjeiras que querem mais água do que a que lhes podemos dar. Arrancamos? Colocamos lá o quê? Suculentas gigantes? E há o mato que não sabemos se é bom e útil para manter o solo fértil e faz sentido ou se deve ser arrancado sistematicamente (rosmaninho, alecrim, sálvia, tomilho, etc) pois, ao secar, pode tornar-se perigoso. Em suma, que ordenamento do nosso pequeno território deve ser feito para que aquilo seja auto-sustentável, seja equilibrado, requeira pouca ou quase nenhuma manutenção, fique esteticamente agradável. É que, ainda por cima, tudo rebenta por todo o lado. Folhados, por exemplo, aparecem por todo o lado. Na serra da Arrábida, por exemplo, crescem espontaneamente, são verdinhos, são bonitos. Mas aquilo é serra, é suposto estar florestado 'selvaticamente'. Será que devemos deixar que também ali, no nosso terreno, a natureza se imponha?

Ou seja, acho que está na altura de obtermos aconselhamento especializado. 

Poderia agora fazer a ponte para falar da desgraça dos incêndios, da aflição das pessoas que se veem cercadas pelo fogo, impotentes, assustadas. E poderia referir que têm razão para estar assustadas (aliás, temos todos razão para termos medo: medo de precisarmos de uma ambulância e não aparecer nenhuma, medo de irmos parar às urgências e não haver médicos, medo de nos vermos rodeados por fogo e não aparecerem bombeiros -- pois nem as ministras das respectivas áreas dão uma para a caixa, só fazem porcaria, nem o primeiro-ministro tem a humildade de pedir desculpa aos portugueses que enganou ao prometer resolver tudo em meia dúzia de dias ou de meses e, agora, contatarmos que não apenas não resolveu nada como estragou ainda mais o que encontrou). Mas não vou dizer nada pois são quase três da manhã e eu já deveria estar a dormir.

quarta-feira, julho 02, 2025

Origami

 

O calor destes últimos dias tem-me desfeito. Só estou bem em casa, ao fresco. 

Mas calhou termos combinado um almoço ali para as bandas do centro, de perto do rio. Um calor de ananases. Felizmente o restaurante era relativamente perto de um grande parque pelo que o stress do estacionamento desta vez não foi tema. Claro que tive que me abstrair da memória de todas as vezes em por ali andei quando a minha mãe esteve internada, durante quase um mês, no hospital lá perto, num belo quarto com uma bela vista, vista essa a que nem ela nem eu prestámos qualquer atenção. Mas, enfim, o tempo anda e temos que andar também, transportando as memórias.

Não tentámos pôr o carro perto do restaurante pois estamos escaldados com as dificuldades em encontrar lugar. Assim, ali era garantido e, de resto, a distância não era nada por aí além. Mas subestimámos o calor que estava. Caraças. Infernal. Um daqueles calores que queimam, que custam a suportar.

Lembro-me sempre do meu espanto, há uns trinta e tal anos -- numa altura em que as viagens não eram uma banalidade absoluta --, quando um amigo chegou de umas férias algo exóticas pelos locais menos turísticos de Marrocos e me contar que, de tudo, o pior tinha sido o calor, temperaturas em torno dos 40º. Falou dos ventos, das areias, das ruas estreitas, de mil coisas, mas o calor... isso tinha-o deixado francamente marcado. E eu perguntava como suportavam, o que faziam para prosseguir os passeios dentro de tal forno. 

A experiência mais próxima que eu tinha tido tinha sido em Angola, numa viagem feita na minha adolescência. Mas a viagem foi no verão de cá, logo no tempo menos quente de lá. Estava calor e o ar era pesado, tanta a humidade, o meu cabelo chegava ao fim do dia todo empapado, mas o calor era razoável, nada de nada de fornos acima dos 40º.

E, no entanto, agora, por cá, é o que se sabe. Uma coisa impossível.

Ainda não foi desta que fui conhecer o Macam, o novo museu, às terças está fechado. Ainda tive a ideia de ir até ao CCB mas fui demovida, a ideia era peregrina demais.

Portanto, depois de termos cumprido uns afazeres, regressámos a casa onde o cãobeludo nos esperava, estendido no chão de pedra. 

Vesti o biquini e fui ler para o spot que descobri ser o mais perfeito, aquele onde poderia estar todo o santo dia, uma sombra verde, fresca e boa. 

O livro não me convence mas isso parece ser o 'novo normal', livros que não aquecem nem arrefecem mas que, espantosamente, parecem ser do agrado dos editores (e, se calhar, de muitos leitores). Mas entre uma página e outra vou olhando para a copa das árvores, para os pássaros que por ali andam, para o céu, para lado nenhum.

E estou a gostar muito das caminhadas ao cair da noite. É a hora da doçura, da intimidade. As luzes das casas estão acesas, mas as janelas ainda abertas deixam ver o tom quente e dourado do interior. As ruas estão silenciosas, o ar mais fresco, e sabe muito bem andar assim, o cão mais ligeiro, nós conversando ou não que o silêncio às vezes é muito reconfortante.

E, agora à noite, depois de ter feito umas coisas para o Instagram (tenho este lado proleta, de não me baldar, parece que tenho sempre que produzir quelque chose e então lá está, todos os dias tento fazer uma coisa para a story e outra para o feed), o Youtube traz-me de novo a matemática e a física, temas que sempre trago no coração, e, uma vez mais, envoltas em poesia. 

Desta vez o tema é o origami, tema que sempre me atraiu (numa onda contemplativa, não executiva). O que se faz com uma folha de papel só não é mágico porque tem muita técnica. Uma maravilha.

This Origami is Changing Engineering…

Twenty-five years ago, physicist Robert Lang worked at NASA, where he researched lasers. He also garnered 46 patents on optoelectronics and wrote a Ph.D. thesis called "Semiconductor Lasers: New Geometries and Spectral Properties." But in 2001, Lang left his job to pursue a passion he’d had since childhood: origami. In the origami world, Lang is now a legend—and this Great Big Story documentary tells his true story. It’s not just his eye-catching, intricate designs that have taken the craft by storm. Some of his work has helped pioneer new ways of applying origami principles to complex real-world engineering problems.


Dias felizes

sexta-feira, junho 27, 2025

Nós somos a matéria dos sonhos mas somos também a matéria que sonha

 

As coisas vêm ter comigo. É aquilo de ir na rua e alguém, que não conheço, chegar ao pé de mim e começar a contar-me a sua vida. Ou estou com uma em mente, abro o youtube e, sem que antes tenha feito pesquisas (porque 'ele', o algoritmo google, poderia migrar informação do motor de busca genérico para o motor de busca do youtube), aparece-me um vídeo que tem tudo a ver com aquilo em que ando a pensar. Não sei porque é que isso acontece. Mas acontece. Coincidência ou coisa do caraças, eu não sei.

Sei que ando numa onda zen (o que V. poderão já ter testemunhado pelo que vou divagando por aqui e que os vídeos que tenho estado a publicar no instagram também demonstram) mas, quando abro o youtube, não vou à procura de nada. Limito-me a ver o que 'ele' tem para me mostrar. Gosto de ser surpreendida.

E abaixo já verão qual o vídeo que hoje estava em posição de destaque e que estive a ver até agora.

Chegámos a casa perto das dez da noite. Depois de nos instalarmos, pusemos a reportagem sobre o Sócrates. Falarei disso depois pois tenho que deixar assentar. A seguir abri, então, o Youtube.

Hoje tive mais um dia calmo, com arrumações domésticas, com caminhadas, com um passeio bom, e, pelo meio, com mais uma tentativa de prosseguir a leitura da biografia do Herberto Helder -- mas a achar aquele tijolo um repositório ora excessivamente detalhado ora desnecessariamente ficcionado --, a espreitar  'O outro lado dos livros', Memórias de um editor, Manuel Alberto Valente, e a achá-lo um bocado 'seco' (seco ou seca?), e, pelo meio, a olhar as árvores, a sentir o perfume das flores, a ouvir os passarinhos, a olhar o céu.

Fui buscar uma espreguiçadeira e levei-a para um sítio onde não costumo estar, debaixo de uma árvore onde antes nunca tinha estado a preguiçar. 

E foi uma maravilha, um encantamento, uma sensação de que eu poderia ser uma folha, um fruto a ganhar forma, um dos passarinhos que passarinha por aqui, uma pétala de rosa. Por acaso, sou esta que agora aqui escreve e que dá conta da perplexidade agradecida que sente por estar viva, por poder presenciar tanta beleza, tanta harmonia entre todos os elementos. 

E, com este estado de espírito, abro o youtube e dou com uma conversa entre o Bial e Marcelo Gleiser, um físico que me deixou fascinada a ouvi-lo.

Apetecia-me transcrever várias coisas que ele disse e que correspondem ipsis verbis ao que penso (ou que me deixam a pensar), coisas como estas duas aqui abaixo que podem não ser a última coca-cola do deserto mas que são grandes verdades (pelo menos a mim tocam-me bastante pois é destas evidências que parece que meio mundo anda esquecido):

  • Celebrar o privilégio de estar vivo neste mundo 

  •  Cara, acorda, você é feito de estrelas!

Somos feitos da mesma matéria que as estrelas, da mesma matéria que as árvores, há átomos de outras coisas e de outras pessoas dentro de nós. Somos magia, um acaso que, por milagre, se materializou em nós. 

O vídeo é um bocadinho longo mas acreditem que é interessante do princípio ao fim. Espero que gostem.

ESTRELAS, ÁTOMOS e mais com o físico Marcelo Gleiser | Conversa Com Bial | GNT

Um bate-papo que mistura ÁTOMOS, ESTRELAS, NATUREZA e o "mundo sobrenatural": o físico e astrônomo Marcelo Gleiser chega no #ConversaComBial para uma entrevista de expandir mentes.


Dias felizes

sexta-feira, junho 20, 2025

Podem desmentir-me se quiserem

 

Isto é uma catedral

Gosto agora muito de me sentar no jardim ou no campo, em especial à tardinha, a olhar para o ar, para o céu, para as árvores. 

No jardim há agora um perfume novo, creio que a mistura de várias flores. É um perfume floral, isso sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, doce e íntimo. Os pássaros também gostam. Descem e vêm passear perto de mim, entretendo-se a debicar o que encontram na terra. 

Se estou sob as árvores gosto de as admirar, vendo-as de baixo. Não existiam e foram-se tornando a maravilha que são. E gosto de ver as flores através da luz. Ou a luz através das flores. Parece o mesmo mas não é. 

As nuvens também me cativam. São efémeras como uma aragem. Não têm a noção do tempo nem do espaço, são livres como uma partícula elementar, como uma palavra solta ao vento, como espíritos vogando por aí.

Isto é um deus, e creio que daqueles que não são particularmente santos
(honi soit qui mal y pense).

Muitas vezes tenho um livro comigo mas, se o livro não tem nada que me impressione (e impressionar no sentido em que a luz impressiona a película, nela gravando imagens, sombras, movimentos), fecho-o e deixo-me estar.

Isto é um milagre. Inexplicável. Fruto da inspiração de uma inexistente divindade

Tenho saudades de fotografar com as minhas máquinas fotográficas. Foram-se estragando e, depois, para quê continuar?, já tinha milhares de fotografias. Faz sentido continuar a acumular fotografias? Não vou voltar a vê-las. O que gosto é do momento em que capto a imagem. A partir daí já não me interessam. Agora uso o telemóvel. E vou apagando pois estou sempre a precisar de mais espaço.

Isto é uma obra de arte. Fortuita. Com a vantagem de não ser um Miró 

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Já contei muitas vezes que, quando fazemos as nossas caminhadas nestes dias de calor, mal transpomos e entrada do nosso jardim, sentimos a frescura que nele se acolhe. A temperatura está uns graus abaixo da temperatura fora dele. São as árvores, as trepadeiras, as flores, é o carinho que retêm.

In heaven a mesma coisa. Vou andar lá em baixo e, no meio das árvores, é outra a geografia. 

Em qualquer dos casos, o tempo suspende-se. 

Hoje estava sentada no meio das flores, o cão deitado, os passarinhos a cantar. Pensei que poderia ficar assim saecula saeculorum. Talvez bastasse não me mexer. O mundo à minha volta a girar e eu ali, parte do tempo, imóvel como o tempo, uma partícula imaterial suspensa na infinitude do espaço.

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E para que não protestem com o teor da conversa, para quem prefere temas mais concretos, aqui está um vídeo que poderia muito bem servir de inspiração a quem tem a responsabilidade de melhorar os espaços públicos.

THE MINI FOREST - Rewilding using the Miyawaki Method

Terrell Wong is about to plant 100 trees in her small Toronto backyard, a dense mini forest based on the Miyawaki Method. What at first seems like a simple act soon evolves into a complex story about dirt, lawns, fungus, wildlife, native species, and finally the human brain. An anti-lawn anthem from director David Hartman, The Mini Forest explores this innovative form of afforestation and the importance of restoring the native woodlands that once covered so much of Canada and the World.


Uma boa sexta-feira

quinta-feira, junho 19, 2025

Bons momentos, boas memórias, jardins, boa gestão da água (para combater a desertificação), etc.

 

Gosto de livros, de filmes e de vídeos sobre jardins e jardineiros. Sobretudo, gosto de jardins. 

Tenho vivido bons momentos ao longo de toda a minha vida. 

Não guardo traumas (ou, pelo menos, não dou por eles). Sempre relativizei o que me desagradava. Na escola devo ter passado por situações menos boas pois toda a gente se lembra de ter passado e eu não devo ser diferente dos outros. Mas, de facto, não me lembro. Situações boas de que me lembre são aos montes. Provavelmente desde miúda que reajo como sempre me ter lembrado de ter reagido: não ligar a mínima ao que me desagrada.

Por exemplo, lembro-me de que, quando cheguei ao 1º ano do que se chamava Ciclo Preparatório, hoje 5º ano, não conhecia ninguém na minha turma. Na altura, as turmas eram inteiramente femininas. Várias das minhas colegas tinham andado juntas na escola primária e, portanto, já eram amigas. Eu aterrei num mundo desconhecido. Isso para mim foi apenas uma alegria, um mundo novo a descobrir. Era tudo desconhecido: o espaço, o ambiente, as professoras, as colegas, as regras. Com dez anos acabados de fazer ia, de autocarro ou a pé, sozinha para a escola e da escola para casa. Os meus pais trabalhavam e, por isso, eu estava por minha conta. Achava isso natural. Talvez estranhando não verem a minha mãe, perguntavam-me por ela e eu dizia que ela estava na escola, a dar aulas, era professora. Lembro-me de um dia uma colega me ter dito, com ar abespinhado, que eu julgava que era melhor que as outras e, quando eu me mostrei admirada e perguntei porque dizia ela isso, me ter respondido que eu dizia que a minha mãe era professora. Lembro-me bem do meu espanto e de ter dito: 'Mas ela é professora!'. E lembro-me de ter pensado: 'É mesmo burra, se calhar queria que eu dissesse que a minha mãe estava em casa, só para ser igual às outras'. Não me aborreci. Relativizei, achei apenas que ela era burra. E ao longo de todos os anos em que com ela convivi mantive a mesma opinião: só diz burrices.

Por isso, se alguém me chateou (e, repito, só me lembro dessa vez), borrifei.

A minha mãe por vezes arreliava-se por eu ser assim. Disse-me várias vezes que me achava excessivamente racional. Na realidade, eu sempre fui muito o oposto dela. Embora para o exterior ela mostrasse alguma resistência à opinião alheia, a verdade é que se incomodava muito com isso. E guardava mágoas e ressentimentos. Eu zero. Não queria saber disso para nada. Ela às vezes dizia-me: 'disseram isso de ti e não queres saber..?'. E eu respondia que não, não queria saber. Zero, zero. Por isso, quando ela às vezes mostrava opiniões negativas sobre alguém, eu nunca sabia porquê. Se alguma vez tinha sabido, já tinha esquecido. Ela ficava passada comigo. Achava-me excessivamente desprendida. 

Mas dos momentos bons não me esqueço. E não os desvalorizo.

Podem ser situações aparentemente insignificantes mas, para mim, muito relevantes. Por exemplo, e já falei disso muitas vezes, dos momentos bons, relembro os que vivi, ainda que fugazmente, nos viveiros em que ia comprar pequenas árvores para tornar o nosso terreno pedregoso naquilo que é hoje. Já não me lembro como se chama a terra, se é Chamusca, se é Azambuja, sempre confundi os nomes. Saía de casa muito cedo, metia-me a caminho para lá estar muito cedo (não me recordo bem mas tenho ideia que aquilo abria às oito). Depois escolhia as arvorezinhas, levava o carro cheio e regressava a Lisboa, para ir trabalhar. 

As jardineiras, simpaticíssimas, de galochas, andavam pelo meio de todo aquele mundo, um mundo perfumado, húmido, generoso, a terra negra, fértil -- e elas conheciam todas as espécies pelo nome correcto, sabiam como cresciam, como se faziam, escolhíamo-las em conjunto, eu pedia a opinião delas, elas juntavam-se para andar comigo. Acredito que achassem curioso que ali chegasse aquela mulher vinda de Lisboa, vestida daquela maneira, de saltos altos, toda produzida, e por ali andasse conversando com elas, escutando-as com tanta atenção. Cheguei a dizer-lhes que as invejava, que não me importava de trabalhar ali. A forma como faziam transplantes de vasinhos para vasos maiores, a forma como tratavam as plantinhas como bebés, como animaizinhos que precisassem de cuidados, enternecia-me.

No liceu detestei botânica. Hoje penso que a forma como se ensina destrói a curiosidade e o gosto dos miúdos. Muito se deveria repensar sobre a forma de ensino.

Mas também é certo que o meu gosto por árvores, por flores, por trepadeiras, é um gosto mais espiritual que académico ou funcional. Por exemplo, não me sinto atraída por saber as regras de uma poda correcta ou por fazer uma horta. Mas gosto de andar junto às plantas, contemplá-las, venerá-las. É um gosto poético, um gosto imaterial, quase abstracto, difícil de explicar. 

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Não obstante, gosto de ver vídeos como este que aqui partilho em que se abordam temas bem pragmáticos, muito terrenos. Muito pertinentes. Este é um dos tipos de sabedoria que me cativa.

Portugal is Turning into a Desert – Can This Farming Method Save It?

Portugal is slowly turning into a desert. But is the real issue a lack of water—or poor water management? Lars and Denise are using a powerful technique to restore the land and prevent desertification. This technique can be applied anywhere in the world—not just in Portugal or dry regions. By using this method, you’ll gain a deeper understanding of farming and how to work with nature instead of against it.

In this short documentary, Lars—who has spent years working with nature—explains the basics of his approach, inspired by syntropic farming. Want to learn more? Together with Lars and Denise, I (Sara) have created step-by-step videos to teach this method.

00:00 - 00:37 Intro

00:37 - 02:17 Results

02:17 - 05:56 How to regenerate the land? Permaculture vs. syntropic farming

05:56 - 08:06 How long does it take to regenerate? No dig vs. dig

08:06 - 12:20 Water management

12:20 - 13:03 Step-by-step tutorials

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Dias felizes

domingo, abril 06, 2025

A tristeza de ver vidas interrompidas. E a beleza das flores, tão efémeras

 

Uma árvore gigante levantou-se do chão. Anos e anos e anos para ficar daquele tamanho e, num instante, o vento destruiu-a. Um desgosto muito grande.

Custa ver uma coisa assim. Na aparência ainda está viva. Aliás deve mesmo estar viva. Mas, infelizmente, não há possibilidade de a salvar. 

A terra está tão molhada, tão ensopada, que o vento não encontrou resistência.

Mais à frente uma outra, enorme, tombada, o canteiro todo partido. Não foi o único mas um bem pior e mais periclitante que o outro.

É a segunda vez que o vento faz grandes estragos por aqui, in heaven. E é sempre com o coração apertado que os vejo. Gostava que as minhas queridas árvores durassem para sempre. Sei que a vida leva algumas mais cedo e isso eu compreendo. De vez em quando, algum pinheiro seca. Fica de pé mas está sem vida. Isso não me custa tanto. O que me custa é ver árvores fortes, saudáveis, e, por um cruel golpe de vento, serem derrubadas.

Mas, pronto, é o que é. Agora é ver como resolvemos tudo isto. E bola para a frente.

A terra está coberta de musgos, de líquenes, de ervinhas, tudo verde. O ambiente húmido, frio, oxigénio puro, limpo, fresco, cheio do canto dos pássaros.

As videiras estão a rebentar, muitas folhinhas, tudo molhado e viçoso. Muita beleza. A natureza mostra-se pujante, fértil.

Até os troncos das árvores estão cobertos de líquenes. E há florzinhas de toda a espécie, cor e feitio. Maravilho-me. A simplicidade e a espontaneidade maravilham-me.


E depois há nuvens quase etéreas em verde. Creio que será funcho. Não sei se será comestível mas receio arriscar. Se calhar, numa salada com alface e coentros, ficaria muito bem. E estar a incluir na minha corrente sanguínea algumas destas plantas seria pura magia. Mas sou medricas. E se esta variedade é venenosa? Ou se me provoca alguma alergia?

Devia trazer cá algum ou alguma botânica... Mas não conheço nenhum/a.

Portanto, não os comendo, em contrapartida, fotografo -- de longe, de perto, de cima, de baixo. Parece-me tule, parece-me um vapor, parece-me quase irreal.


E depois os lírios. Uma beleza rara, exótica. Uma perfeição muito além do que é normal. Umas cores, uma delicadeza. Podia ficar horas a filmar (aliás filmei para o Instagram). Mas tem choviscado, nunca dá para estar muito tempo pois logo vem um aguaceirozito.

E, neste mês de águas mil, parece que este domingo também promete. As rochas escorrem, tudo escorre. Até a casa, quando chegámos, estava húmida, fria, incómoda. O que vale é que a salamandra e o ar condicionado já resolveram o assunto.

Mas já viram bem a incrível perfeição desta flor? O raiado, as subtis nuances, a intimidade resguardada, a fragilidade... 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, março 16, 2025

Mas ainda há esperança. Há sempre esperança.
A prova é o rebentinho que a figueira já nos mostra

 

Até chuva de granizo tivemos. Este tempo não nos dá tréguas. Chuva, chuva, chuva. Frio, frio, frio. 

A terra está coberta de musgo, as flores irrompem em toda a sua audácia, os campos mostram vigor. E as rochas estão lustrosas de tão lavadas que têm sido.

Estava a almoçar, uma chamada. 

Interrompi o almoço. 

As conversas costumam ser demoradas, vim cá para fora. Costumam ser notícias de conhecidos, pequenas intrigas, coisas divertidas. Mas desta vez a voz estava fechada. Depois de ouvir a conversa habitual, comentei: 'Está constipada? Está com uma voz...'. Ouvi, então, o que jamais poderia esperar: 'Não estou nada bem. Acho que estou com uma depressão.'. Fiquei quase sem saber o que dizer. Era a última pessoa a quem poderia esperar ouvir tal coisa. Pessoa mais prática, mais despachada, mais habituada a levar a vida com uma perna às costas, tudo sempre levado para a brincadeira. Só consegui pronunciar um 'Então...?'. 

E então veio a explicação: 'O meu filho está com um cancro.'. Fiquei para morrer. Um rapaz novo. Tem trabalhado fora, de vez em quando vem e depois vai. Agora está cá. Perdeu 40 kg. De homem jovem e forte passou, em pouco tempo, para uma pessoa que, diz ela, está quase irreconhecível. Magro, os olhos a saltarem do rosto, sem cabelo. Diz que não sabe como não caiu ao vê-lo, como não desatou a chorar. Aguentou-se para ele não a ver a ir-se abaixo. Mas, depois, ficou com a cabeça a rebentar, nem sabia onde tinha a cabeça. Diz que não consegue pensar em nada, não consegue saber o que fazer. Sentiu-se mal, foi ao hospital. Receitaram-lhe ansiolíticos e recomendaram que passe a ter acompanhamento psicológico. 

Tentei animar: 'Não operam? Pode ser que a operação resulte... A taxa de mortalidade já não é o que era, já há tratamentos eficazes.'. Quase sem voz disse-me que a médica explicou que não dá para operar, que é de um tipo que pode aparecer em todo o lado. Estava enervadíssima, não se explicou bem nem eu quis aprofundar. Dor maior. O sofrimentos dos filhos é muitas mil vezes mais esmagador que o nosso próprio sofrimento, é uma angústia, uma impotência. Quando se supõe que é um sofrimento sem esperança, pior, muitas mil vezes pior, uma dor infinita e trituradora.

Despedi-me, 'Força'. Ela disse: 'Bem preciso dela'. Depois, disse-lhe 'Um beijinho'. Com uma voz sumida, sumida, agradeceu.

Voltei a casa, o meu marido já tinha acabado de almoçar, já estava a ver televisão. Contei-lhe. Só disse: 'Coitada...'. Vi que estava consternado.

Acabei de almoçar, já sem vontade nenhuma.

Depois fui dar uma volta.

Reparei que na figueira começam a despontar as primeiras folhinhas. 

Pensei que a natureza é sábia. Mesmo quando a árvore parece morta, a vida reaparece.

Há sempre esperança. 

Tem que haver.


segunda-feira, outubro 07, 2024

Não quero tomar-vos tempo demais com as minhas little questões caseirinhas.
Por isso, bora lá ver como tornar a terra mais selvagem...?

 

Parece que está de chuva e, por aqui, bem precisados estamos dela. 

É bom mas...

É chato, o cão vem para casa todo molhado, sacode-se por todo o lado, esfrega-se por todo o lado para se autolimpar e, ainda por cima, arma uma tourada quando vamos nós limpá-lo (salta, quer arrancar-nos a toalha, brinca em nossa volta). Além disso, a roupa custa a secar. E começa a não dar jeito fazer caminhadas de pernas ao léu. 

Mas é uma alegria pensar que a terra vai ficar hidratada e que as verduras vão ficar viçosas de dar gosto.

Tirando estes pequenos aspectos que são circunstanciais, estou com um problema numa das minhas duas laranjeiras. Deu tanta, mas tanta, laranja que agora, antes de ficarem maduras, caem aos montes. Não sei como mantê-las na árvore a amadurecer. As que caem estão rijas, nada doces e não sei se vão alguma vez chegar a bom porto.

E estou com um problema ainda maior na romãzeira. Desta vez os bichos -- ou pássaros glutões ou ratos invisíveis, não sei -- devoraram-nas todas. Não sobrou uma para amostra. Para o ano vamos ter que arranjar ratoeiras ou qualquer outra arma preventiva. Uma pena. Eu que gostava tanto de comer os rosados e sumarentos grãos, agora só se as comprar.

O limoeiro está carregado de limões, belos limões, mas está com a folha fraca, com um ar um bocado desfalecido. Aqui há tempos deitei-lhe um pouco de adubo para citrinos mas parece não ter tido efeito nas folhas. Se calhar, também neste capítulo, vou ter que recorrer ao ChatGPT.

Seja como for, vão gostar de ser regadas com aguïnha da chuva.

E, como poderão compreender, estou mais virada para temas assim, domésticos, caseirinhos, coisas rasteirinhas, do que para os tristes descasos da nossa política em que os partidos de esquerda se empenham em dar cabo da esquerda e os de direita andam a ver como roubar eleitorado à direita mais direita e mais populista, e o PS anda mais ou menos aos papéis a ver como sair airosamente da saia justa em que o Marcelo enfiou o País.

Por isso, como os temas da natureza puxam sempre por mim, resolvi partilhar convosco um vídeo muito interessante e inspirador. 

Era bom que todos os países tomassem em mãos missões assim: reflorestar, devolver a natureza à natureza. 

A uma escala minúscula, tenho o meu ínfimo exemplo ao transformar um pedaço de terra em que só havia mato rasteiro e pedras numa parcela de terra fértil, em que as árvores crescem como gigantes, em que agora há vegetação, musgo, infinitos cogumelos, muitos pássaros, lagartixas; e até esquilos lá apareceram.

O vídeo abaixo está legendado. 

A Bold Plan to Rewild the Earth — at Massive Scale | Kristine McDivitt Tompkins | TED

The first step to saving nature is the rewilding of our own minds, says conservationist and former Patagonia CEO Kristine McDivitt Tompkins. With an unwavering commitment to protecting ecosystems, she and her late husband Douglas Tompkins created vast conservation parks across South America that allowed ancient flora and fauna to flourish once again. Now, she's carrying that legacy and mission forward with a bold plan to connect parks across geographic boundaries, creating a system of continental-scale wildlife corridors — before it's too late. (Recorded at TED2024 on April 16, 2024) 

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Desejo-vos uma bela semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde, boa sorte.

Dias felizes