Aqui chegadas, a este antro de perdição, as almas sensíveis devem fazer uma de quatro:
1 - Fechar os olhos
2 - Saltar para o post seguinte
3 - Fechar o computador
4 - Não fazer nenhuma das anteriores mas, a seguir, ir a correr rezar cem avé-marias
Agora que o aviso está feito, acrescento apenas que, não encontrando eu o livro que procurava, me dirigi à livreira: 'Por favor: tem o livro do João Habitualmente?' ao que ela, disfarçando que tinha ficado intrigada, indagou: 'Mas como é que se chama o autor?'. E eu 'João Habitualmente' e ela, achando que não estava a ouvir bem: 'Habitualmente?! É o nome dele?'. Não consegui ser assertiva: 'Acho que sim'. É que não faço ideia se é nome mesmo, se é nom de plume.
Já cá o tenho. E é o que eu antevi quando o ouvi e vi na RTP. Um ganda maluco. Portanto: gosto.
E que não se pense que é tudo assim, como o hímen. Não é. Mas este caíu-me no goto. Salvo seja, claro. Melhor: caíu-me tudo no goto -- os poemas, o livro em si, o desgrenhado e desavergonhado autor.
Mas, então, vamos lá. Com vossa licença.
A acompanhar o hímen (in 'Um dia tudo isto será meu'), uma fotografia de Robert Mapplethorp, a primeira, e outra de Man Ray, a segunda. E, para rematar, porque nada como umas notas de música para abrilhantar uma festa, Michelle Pfeiffer, a fabulosa.
No post abaixo já falei das minhas leituras ao longo do dia, de Sócrates, do meu horóscopo, de um filme que metia escutas, de algumas memórias, de uma confissão, de uns quantos animais e, se calhar, de outras coisas, já nem sei.
Mas isso é a seguir. Aqui a conversa é outra.
Uma vez, era a minha filha pouco mais do que um bebé, talvez um ano e tal (já que eu ainda nem sequer estava grávida do meu filho), e estando eu reclinada no sofá da sala e ela feliz da vida a fazer gracinhas, eu a despertar o seu riso solto e ela a fazer-me rir a mim, numa de um imprevisto ímpeto de alegria como se estivesse a fazer o cúmulo das gracinhas, pegou numa caixa de cerâmica das Louças de Sant'Anna que tinha um cinzeiro acoplado e que estava no pequeno móvel encostado ao sofá, atirou-o ao ar. Felizmente a peça não caíu ao chão e, portanto, não se partiu e ainda a conservo. Está na mesa em frente da lareira in heaven. Quando os meninos lá estão, retiro-a para um sítio mais elevado para não desafiar a sorte. Mas nessa vez, há um bom par de anos atrás, a bonita peça de cerâmica não caíu ao chão porque caíu em cima da mim, mais propriamente em cima do meu nariz.
Dei um salto de dor, agarrei-me ao nariz, as dores no nariz são terríveis, as lágrimas corriam involuntariamente, ela, coitadinha, assustada, e eu aflita. Só que aos poucos o nariz foi inchando, os olhos inchando e toda aquela zona estava roxa. Um susto só de me ver ao espelho. Pensámos que era melhor ir ao hospital pois às tantas estava era com o nariz partido.
Lá fomos, eu, muito jovem, o meu jovem marido e a bebé provavelmente ao colo, não sei. Quando lá cheguei, a médica que me atendeu olhou-me a mim e ao meu marido com suspeição. Como é que isso aconteceu? Quem leva um murro em cheio no nariz deve ser assim que fica. Aflita com dores e inferiorizada por me saber disforme, murmurei: 'Foi ela que me atirou uma coisa ao nariz...'. A médica com ar de quem achava aquilo inverosímil, 'Ela...?' olhando, sem acreditar, para aquele nico de gente. 'Como?!'. Claro que a miúda não teria força para me agredir com uma peça pesada, atirando-me à cara se eu estivesse de pé. Lá expliquei que eu estava deitada no sofá e ela, na brincadeira, tinha pegado naquilo e que a caixa tinha aterrado em cima de mim. A médica não queria ir na conversa e olhava ainda com suspeição para o meu marido e nós parecíamos que estávamos a encobrir um episódio de violência doméstica, atirando as culpas para uma criança quase de colo.
Voltei a sentir um olhar desconfiado do mesmo género quando fui ao hospital este fim de semana. Olharam-me com suspeição: 'Como foi isso...?'
Contei. Caí desamparada quando ia subir umas escadas, um pé no ar para alcançar o degrau e o pé apoiado sobre uma mancha de água estagnada escorregadia como óleo, levando-me a levantar voo para aterrar violentamente sobre um dos lados do corpo e batendo com a cara nos degraus.
Fiquei num lindo estado mas a ferida na cara ainda foi o menos já que má mesmo foi a queda sobre a anca. A radiografia parecia indiciar fractura dos ossos da bacia e isso assustou-me imenso e tive que fazer uma TAC. Mas o resultado descansou-me: apenas traumatismo. Mas que traumatismo... Umas dores que me retiram a mobilidade. Claro que estou medicada e tenho que estar em repouso pois sinto-me como se tivesse os interiores fora do sítio e despedaçados, dores que só visto. Valem-me as canadianas mas o diabo é levantar-me e deitar-me, umas dores nas costas e na bacia que me fazem quase ganir. O médico também recomendou que não me sentasse e, claro, evito ao máximo até porque me custa, claro. Disse-me que seria coisa para uns dias e, por isso, estou em casa, umas férias inesperadas.
Os meus filhos gozaram, 'Velhinha...! Não será caso para uma prótese na anca...?'.
Encontrei no hospital, por acaso, umas pessoas da família e uma delas, quando contei o que tinha acontecido, certamente porque estava preocupada com o caso do familiar e, portanto, distraída, perguntou-me 'Isso não será problema de falta de cálcio?'.
Não. Acidente puro. Se tivesse a mão no corrimão, se calhar não tinha voado ao pisar aquela água verde que deslizava como óleo.
E, afinal, do mal o menos. Não parti nenhum osso, não dei cabo da cabeça. E estou de repouso, no bem bom, não posso queixar-me de muito mais do que isto.
Agora os comprimidos dão-me uma sonolência terrível, passei o dia a ler e a adormecer. No domingo devia ter ficado em casa deitada mas não resisti a ir para casa do meu filho pois era o dia da mudança e a família reuniu-se toda para os ajudar. Estive quase sempre sentada ou encostada apoiada a qualquer coisa, e tanto que eu gostava de poder ajudar, mas não podia, entrevadinha de todo. A questão é que vim de lá ainda mais aflita e esta segunda feira estava pior e, por isso, a ver se consigo manter-me sossegada para me pôr boa.
Por isso, não sei se é deste estado que não se recomenda ou se é mesmo de falta de assunto, nem sei que vos diga.
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As fotografias são de Man Ray.
A música é Cinema Paradiso, Chris Botti com Yo-Yo Ma no violoncelo.
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Relembro: a seguir há muita conversa sobre o que li ao longo do dia, sobre o que concluí, sobre Sócrates, sobre pessoas que conheci, sobre a minha intuição, sobre o meu horóscopo. Uma salada, portanto.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.
E já sabem: isto é de se aproveitar bem enquanto não estamos doentes ou acidentados.
O que nós então não sabíamos, e por isso não podíamos prever, é que se o genial nos retirava da miséria do quotidiano, das pequenas doenças inerentes ao quotidiano, ao mesmo tempo, nos preparava e infectava doenças maiores, incuráveis, tais como a doença da temporalidade ou a absoluta consciência da finitude, o que é o mesmo, ou próximo.
Só o genial nos podia poupar, embora nunca irreversivelmente e em definitivo, do pavor do tédio.
O que distingue a genialidade da inteligência, mesmo da inteligência superior, agora que volto a pensar nisso, e suspeito, aliás, que me estou mais uma vez a repetir, um dos sintomas mais naturais da idade avançada, talvez por já nada encontrar de novo à sua frente para ser vivido, e tem, assim, de regressar sem fim ao mesmo, que não voltará a ser vivido.
A inteligência é uma espécie de velocidade, de destreza, de facilidade em ligar isto com aquilo, de relacionar o que num primeiro momento não parece relacionável, de encontrar algo comum ao que parece irrecusavelmente dividido, enquanto a genialidade é a invulgar capacidade de construir um mundo, cada génio o seu, onde passa a viver no mais completo isolamento, e solidão.
(...)
Digo rosa e digo qualquer rosa e todas as rosas no universo inteiro. Porque as palavras são a primeira manifestação do espírito, o que pertence, não ao mundo, mas sim ao que está fora do mundo para poder falar dele, dando sentido ao que por si não tem qualquer sentido, uma estonteante acumulação de factos e mais factos. As palavras têm asas, e voam, por isso mesmo que são, não isto ou aquilo, mas sim o voo entre isto e aquilo, entre tu e eu, intrépidas sobre os abismos, ligando o que está separado.
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O texto pertence ao livro Espécie de Amor de Pedro Paixão.
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A menina lá em cima é russa, chama-se Alisa Sadikova e tinha na altura 9 anos, quando tocava harpa, em 2012, no St. Petersburg State Conservatory: The Fountain — Marcel Lucien Grandjany.
E aqui ficam os meus agradecimentos ao Estimado Leitor que tão gentilmente me enviou este vídeo.
E eis-me chegada ao quarto aniversário do Um Jeito Manso. O tempo passa.
Repito-me: nunca, quando comecei numa noite quente de um sábado de verão, in heaven, sem saber ao que ia, poderia alguma vez imaginar que gostasse tanto de aqui estar.
Tantas vezes já aqui o referi. Não conhecia este mundo, nada sabia das técnicas associadas a isto, ia experimentando, por instinto, e, de resto, também não conhecia ninguém na blogosfera, ninguém para me ensinar, ninguém para me recomendar.
Logo nessa noite, para ver como era isto de publicar posts, escrevi três, muito pequenos, para ver como se inseriam fotografias, para ver como se escrevia, se alinhava o texto, etc.
1
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No terceiro post escrevi um poema de Nuno Júdice que tinha acabado de escrever, com pincel e tinta, num canteiro alto que antes tinha pintado com cores a la Rothko.
Não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra.
E rematava com umas palavras que diziam aquilo que enforma a minha atitude perante a vida: Sejamos optimistas, 'sejamos realistas - exijamos o impossível', levantemo-nos. Hoje.
E assim vim andando.
Começar do zero, a tactear. Uma, duas, três visitas, depois quatro, cinco, seis. Dez pessoas?! Tantas... Quem serão? Um caminho de passos pequenos, pequenas descobertas, pequenas surpresas.
2
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Não me ocorreu na altura dar-me a conhecer, não fazia sentido, era apenas uma experiência. Depois, quando começou a ser um prazer, também não fazia sentido identificar-me. As palavras que eu escrevia e as minhas escolhas (imagens, músicas) deveriam continuar a valer por si. Além do mais, o anonimato é-me confortável. Não quero que as minhas opiniões sejam relacionadas com o sítio onde trabalho tanto mais que exerço uma função de alguma responsabilidade, ou criem qualquer tipo de embaraço entre colegas ou perturbem de alguma forma a forma isenta como me posiciono profissionalmente. Poderia usar um pseudónimo mas um pseudónimo ou coisa nenhuma é a mesma coisa. Além disso, os Leitores começaram a tratar-me por UJM ou Jeitinho e isso é uma forma tão boa como qualquer outra de ser tratada.
3
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Não encontro registo do número de visitas que tinha tido quando decorreu 1 ano que por aqui andava mas devem ter sido poucas.
Mas já encontro de quando se concluíram os 2 anos: 137.000 visitas e já, nessa altura, eu tinha mostrado o meu espanto. Os números começavam a surpreender-me.
Quando há um ano atrás, cheguei ao 3º aniversário, estava eu admiradíssima. Num ano as visitas mais do que tinham duplicado: já eram, então, 300.000. O número crescente de visitas era para mim um mistério. De onde vinham tantas pessoas para ler o que eu aqui escrevia?
Pelas estatísticas consigo saber que vêm sobretudo de Portugal (60%), depois do Brasil (14%) e a seguir, bem mais abaixo, dos Estados Unidos, Alemanha, e depois já mais abaixo, com menos de dez mil cada país, outros países, alguns francamente surpreendentes como é o caso, por exemplo, da Polónia ou da Ucrânia. Aparece-me nas estatísticas com muita frequência o google translator pelo que presumo que estejam a traduzir os textos que escrevo…. E, do que tenho verificado, esta distribuição das visitas por países e o crescimento que tenho verificado é francamente consistente.
4
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Hoje chego aos 4 anos de Um Jeito Manso e, para minha perplexidade, já passei as 650.000 visitas.
Como foi tal possível? Ainda não consigo perceber.
Se olhasse para este crescimento do ponto de vista matemático teria que concluir que estou em presença de uma progressão geométrica, cujo valor duplica de ano para ano. Mas acho que não devo ver isto nesta perspectiva até porque pode faltar-me a inspiração, pode faltar-me a motivação ou posso começar a desiludir os Leitores.
Não acredito que este ritmo de crescimento se mantenha pois, sendo o blogue unipessoal e anónimo, ele depende apenas do seu conteúdo e de mim que o faço e eu sou falível, forçosamente falível.
Vamos ouvindo, por favor
5
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Quando vejo o bebé a portar-se mal e lhe pergunto o que é que está a fazer, ele responde-me com ar descarado: coijas. Assim estou aqui: faço coisas. O que me apetece em cada dia. Sento-me aqui e, a maior parte das vezes, não sei sobre o que vou falar. É o que me ocorre.
Não tenho uma agenda, não tento forjar uma imagem, não tento fazer-me passar pelo que não sou. Mostro-me como sou, sem disfarces, mais nua do que se estivesse aqui com fotografia e número de BI. Estando aqui anónima, livre, um ponto incógnito no meio de milhões de outros pontos que cruzam os ares neste mundo feito de seres, perfis, contas, likes, onde se cruzam desabafos, gritos de alma, suspiros, pedidos de ajuda com vaidades, ficções, ou maldades, azedumes, vinganças. A minha voz perde-se no meio de milhões de outras vozes e eu não tento falar mais alto, ter mais razão, criticar os outros que, tal como eu, deixam sair a sua voz na imensidão do universo. Tento apenas, porque assim sou quando estou cara a cara com quem quer que seja a falar do que falo aqui, defender as minhas ideias, os meus ideais, e falar de justiça, de beleza, divulgar aquilo que, de alguma forma, me toca e deixar uma palavra de esperança. Acredito que, quando queremos, alcançamos (pelo menos a maior parte das vezes).
6
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E assim, sendo eu em cada palavra que escrevo, aqui tenho vindo a acompanhar o tempo que passa.
Mas nunca acreditei que todos os dias fosse capaz de escrever coisas, escolher coisas, desencantar coisas e tenho a noção de que isto é capaz de ser uma realidade finita. Talvez chegue o dia em que não terei nada para dizer, nenhum fotógrafo ou pintor ou músico para descobrir, nenhum novo poema que me encante. Aí pararei.
Acontece também uma coisa: eu sempre fui de ler muito e de pintar e de fazer tapetes de arraiolos e de descobrir novas coisas (grafologia, por exemplo) e ainda sou. Tenho muita vontade de voltar a ter mais tempo para ler, de ter tempo para aprender a fazer vídeos por exemplo e o que me vier à cabeça. E isto de aqui, à noite, no meu turno da noite que começa invariavelmente depois das dez da noite senão depois das onze, me sentar e aqui estar até adormecer, é muito absorvente, não dá para acomodar outros vícios.
7
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E, portanto, sei lá se consigo esperar muitos anos, até me reformar, ou se atalharei caminho um dia destes?
Não sei.
O que sei é que hoje ainda cá estou, amanhã talvez também. Daqui por um ano, logo veremos.
E também logo veremos se, por essa altura, já terei ultrapassado o 1.000.000 de visitas.
O que sei é que este grande afluxo de visitas - que presumo que cheguem uns pela mão de outros, ou aterrando aqui através de pesquisas nos motores de busca - me tem trazido um número crescente de contactos.
Já aqui vos contei que fui contactada para participar num programa de grande audiência da televisão (e que recusei, claro) e também já o referi muitas vezes a pena que tenho por não ter tempo para responder a todos os comentários, tão interessantes, que mereciam ser discutidos, que mereciam, pelo menos, uma palavra de agradecimento. O mal é meu que, assim que me ponho a escrever, perco a noção dos limites e uso o pouco tempo que tenho em cada coisa que faço. Não doseio porque me entrego toda em todas as palavras que escrevo e, por isso, opto frequentemente pela solução mais radical: não responder. Mas fica sempre um remorso terrível a roer-me. Também recebo muitos mails e não consigo, por vezes, responder a todos, ficando-me sempre com a incómoda sensação de estar a ser mal educada, mal agradecida.
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O que acontece é que, pura e simplesmente, não tenho tempo.
Também não consigo ler livros originais que me enviam, pedindo a minha opinião. Não apenas o tempo me escasseia como não me sinto habilitada a pronunciar-me sobre algo tão importante na vida de uma pessoa como é a escrita de um livro.
No entanto, tenho que vos confessar que tenho conhecido pessoas interessantíssimas através do blogue ou, em particular, através dos mails que me chegam por via do blogue.
Tivesse eu mais tempo e estou certa de que seriam amizades que haveriam de se estreitar pessoalmente.
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Ainda há pouco estive a responder ao mail de uma leitora que por aqui conheci e por quem sinto aquela atenção vigilante e amiga que se sente por quem nos é muito próximo, quase como se nos conhecêssemos desde a infância. Diz-me ela que por aqui me acompanha como se eu fosse da sua família e que quase consegue ouvir os pimentinhas quando falo deles. Fico sensibilizada.
A gente escreve e vê as estatísticas a subirem mas não sabe se quem lê, gosta do que lê.
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E, vendo que as minhas palavras podem ser uma companhia, podem ser a família que por vezes, na realidade não existe, comovo-me.
Fico com vontade de todos os dias conseguir dizer uma palavra de proximidade, quase como se as minhas palavras pudessem ser um braço infinito que conseguisse chegar até a casa de cada um que me lê com estima, para que a minha mão pudesse fazer uma festa a quem não tem quem as faça na realidade.
Ou que as minhas palavras conseguissem transportar a alegria necessária para que todos nos juntássemos numa roda, em dança, alegres como crianças.
Ou que transportassem o misterioso sonho de veludo que habita fronteiras clandestinas, ou quartos frescos onde a sombra é cúmplice, ou os jardins atraentes como perigosos abismos onde se passeiam faunos, mulheres nuas ou cavalos azuis.
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0 - A primeira imagem, Blue Flower, é uma pintura de Georgia O’Keeffe, pintora americana muitas vezes aqui presente e abre este texto para deixar muito claro que este é um blogue de uma mulher, uma mulher que gosta muito de ser mulher.
1 - A imagem seguinte, também em azul, é de Mark Rothko, pintor que misteriosamente me atrai sem que eu consiga explicar porque tenho vontade de mergulhar nas suas cores quando elas eram luminosas ou vontade de rezar ou ler poesia quando as cores começaram a indiciar o negrume no qual viria a mergulhar.
2 - A segunda é de Balthus e é a imagem que encimou o Um Jeito Manso nos seus primeiros dias. É uma das suas meninas levemente más, maliciosas, perigosas com quem, por vezes, às escondidas me identifico.
3 - A terceira, a mulher que pensa ao pé de livros é uma pintura de Menez. Assim gostaria eu de ter tempo para estar: em silêncio, sem limites, sem pressa.
4 - A fotografia seguinte é de Man Ray, e mostra Kiki de Montparnasse de olhos fechados com uma máscara atenta. Quase assim sou eu: sossegada enquanto a UJM escreve e dá a cara pelo que lhe apetece.
O vídeo traz-nos Caroline Nunes, uma inesperada adolescente brasileira, num jardim de uma cidade de Minas Gerais, Poços de Caldas dizendo o magnífico Tabacaria de Fernando Pessoa aka Álvaro de Campos.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(...)
5 - A fotografia seguinte é uma das belas fotografias de flores e não só de Robert Mapplethorpe que está comigo desde o início do Um jeito Manso
6 - A mulher que sonha sonhos inconfessáveis é Marie Thérèse de Pablo Picasso, que copiei para azulejos e que tenho na minha sala in heaven.
7 - A seguir está Celle qui fut la Belle Heaulmière, uma pequena escultura de Rodin, uma das que, até hoje, mais me tocou.
8 - A seguir tenho uma aguarela de Guilherme Parente: as suas cores vivas e felizes sempre me transmitiram a inocência da infância e a elas regresso quando sinto vontade de me purificar.
9 - A seguir, a mulher que passa ao de leve mas deixando um rasto de sedução é Kate Moss fotografada por Annie Leibovitz, duas presenças que aqui muito me têm acompanhado.
10 - A seguir está La danse de Henri Matisse, que igualmente fiz reproduzir num painel de azulejos e me acompanha in heaven. A alegria sem pecado e a partilha total aqui bem presentes.
11 - Seguem-se os Cavalos Azuis de Franz Marc, cujos passos subtis e ardente resfolegar ouço quando, à noite, o luar invade as minhas noites in heaven.
Para terminar, uma mulher que também aqui me tem acompanhado com frequência: Sylvie Guillem, a graciosa, elástica e vibrante mulher das longas pernas e personalidade vincada. Dança o Bolero de Ravel, música que é um bom acompanhamento para actividades não declaradas.
E mais não digo.
Dancemos, provoquemos, batamos o pé, voemos
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Por agora, por aqui me fico. O meu dia foi longo e eu estou com sono, coisa que, de resto, é um clássico por aqui, certo? Não consigo rever o que escrevi. Estou a pé há quase há 18 ou 19 horas, nem sei, e não consigo energia para rever este lençol. Ponho-me a escrever e a escolher imagens e o tempo vai passando e, quando chego ao fim, até tenho vergonha do tamanho do castigo que vos inflijo e das lindas horas a que me vou deitar.
E portanto, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira e por aqui vos espero amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã e depois e depois e depois... durante muito tempo: será sinal de que estamos vivos, bem dispostos, eu sem ainda ter ido entregar-me de corpo e alma a uma outra qualquer actividade e vocês com paciência para me continuarem a aturar.
Obrigada uma vez mais, mil vezes obrigada! E sejam felizes, está bem?
Para os sisudos que querem é saber o que disse o Marcelo ou o Sócrates e para as vencidas da vida que aos 30 já se achavam acabadas, sugiro que passem por cima do apontamento que se vai seguir e que é bem revelador da minha ligeireza mental e sigam até ao post abaixo onde falo da falta que sinto das explicações do Pedro Lomba.
Mentira.
Não sinto falta nenhuma. Falo é do que uns amigos meus gozaram com a pouca sorte que os lombinha briefings trouxeram à política nacional.
Mentira, falo disso mas é só de raspão.
Falo é da pouca sorte trazida pelos métodos rebuscados do Poiares Maduro (a quem toda a gente chama Poia Madura mas a quem eu, porque acho que ele tem carinha de piu-piu, acho melhor chamar Poiazinha Madura. Mentira. Não acho nada que ele seja maduro. Acho até que é muito verdinho. Por isso, gosto mais de lhe chamar poiazinha verde).
.... Mentira também, falo disso mas também é só de raspão.
Só mostro é fotografias sobre estes dois fofinhos que azararam esta coisada toda mas isso é mais para memória futura do que por outra coisa..
Agora a sério: falo é de uma excelente crónica de Pacheco Pereira e de mais um alerta de Pedro Lains sobre as coisas pouco claras que podem estar a passar-se debaixo do nosso nariz.
Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.
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Algum dos cavalheiros que me lê acha que, em vez de uma mulher de 40 e tal, é melhor duas de 20?
Ou alguma das minhas leitoras mais entradas teme a concorrência das meninininhas com idade para serem suas filhas?
[Ah, o que eu abomino este tipo de conversa..! Mas adiante.]
Então, para os cavalheiros mal informados e para as madamas que desistiram de se manter vivas, aqui deixo três testemunhos muito recentes que provam que há coisas que não se degradam com a idade.
Beleza, sensualidade, ousadia, sedução - são atributos que, pelo contrário, se valorizam com a idade. Para quem o queira, é claro.
Helena Christensen para a FutureClaw Magazine
Helena Christensen aos 44 anos
O fotógrafo dinamarquês Gregory Derkenne fotografou a supermodelo Helena Christensen no seu apartamento de New York.
Que casa fantástica a dela. Adorei, adorei.
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Cindy Crawford para a Summer MUSE Magazine
Cindy Crawford aos 47 anos
O fotógrafo Mariano Vivanco fotografou a modelo Cindy Crawford
(Supostamente ela estaria sem cuecas, mas não sei o que é que isso tem de especial para darem tanto relevo a essa pequena informação)
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Naomi Campbell desfila para a colecção Versace 2013/2014
Naomi Campbell aos 43 anos
Atelier Versace Fall/Winter 2013-14 com Naomi Campbell | Paris
Donatella inspirou-se na fotografia a preto e branco dos anos 30 modernizada pelos fotógrafos Horst e Man Ray
E eu, se me saisse o euromilhões, gostaria muito de ter alguns destes modelitos.
(É que, como é sabido, gosto muito de fotografia e de Horst P. Horst ou de Man Ray nem é bom falar)
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Note bem:
Claro que estas mulheres têm um corpinho que não está ao alcance de qualquer uma. Mas que não seja por isso.
Primeiro:
Ter um corpo saudável deve ser um objectivo de qualquer pessoa, homem ou mulher: alimentação equilibrada, sem excessos calóricos, com poucas carnes vermelhas, mais peixe, muita fruta e legumes, um pouco de vinho (tinto de preferência) e combate ao sedentarismo são fundamentais (digo-vos eu: caminhar é do melhor que há).
Segundo:
Não é preciso ter um corpinho perfeito para uma mulher poder ser ousada, sensual, sedutora. Tudo isso é uma atitude mais mental que corporal. Prazer de viver, gostar de ter prazer e de dar prazer, são atitudes fundamentais. E quem nunca o tentou, que o tente sem medo. Posso garantir que não faz mal nenhum.
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E por aqui me fico.
Desejo-vos, meus caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.
Há uns anos, na altura de Maria de Lurdes Rodrigues, não me identifiquei com o alarido que veio do lado dos professores. Pareceu-me uma luta excessiva para o que estava em causa, as avaliações. O método poderia não ser o melhor mas a ideia em si, a de avaliar o desempenho dos professores, parece-me normal, aceitável.
Eu sou ferozmente anti-burocracia. No desempenho das minhas funções raramente tomo apontamentos, eu própria não guardo papéis (as pessoas que trabalham comigo, por força das suas funções, guardam alguns mas isso é lá com eles).
Ao contrário dos meus colegas que, quando mudam de instalações (e as vezes que eu e os da minha idade já mudámos nem dá para acreditar), têm caixotes e caixotes, eu tenho para aí uns dois e uma parte é com tralha que não tem a ver com trabalho (uma pedra que apanhei numa praia, uma caixinha de alumínio com a imagem do Fernando Pessoa, uma peça de madeira de que gosto, uns quadros, coisas assim).
De todas as vezes que mudei, aproveitei para deitar coisas fora de que ainda não tinha tido coragem de me desfazer em vezes anteriores (dossiers relativos a projectos feitos com o acompanhamento do Banco Mundial, reestruturações acompanhadas pela Mckinsey, outras pela Boston Consulting Group, outras feitas internamente, outros trabalhos que me marcaram, etc - tudo para o lixo. Passado. Lugares a que não vou voltar. Tanta e tanta coisa que foi ficando para trás. Para quê guardar provas disso? Lixo.)
Quando vou para reuniões vou eu e nada mas que eu. Não vou com computadores, não vou com dossiers, a maior parte das vezes nem a caneta encontro na carteira. Os meus colegas vão com brutas pastas, carregadas nem sei de quê, outros abrem os portáteis e ali estão e eu chego e até me sinto mal, parece que vou a passeio. Se calha discutir-se algum assunto que me parece relevante, ainda peço uma folha e escrevo meia dúzia de palavras. Quando chego a casa e vejo uma folha na carteira, já nem me lembro do que é e, quando vou ver, já me parece irrelevante - e lixo com ela.
O que é importante fica-me na cabeça: não me esqueço, ponho em marcha, acompanho. O que não retenho é porque não merece ser retido e, portanto, para quê acumular papéis, apontamentos, actas?
Antes de trabalhar no mundo empresarial para onde entrei mal acabei o curso, tinha dado aulas durante dois anos e picos no ensino secundário (entre o na altura chamado bacharelato e a licenciatura que, na altura, era composta de 5 anos lectivos).
Quando acabei a licenciatura, muito por influência da minha mãe que achava que ser professora era o máximo (ela era professora), concorri para o estágio e fiquei colocada na escola que queria. Mas apenas lá estive até ao final de Outubro, data em que entrei para a empresa. Mas aqueles dois meses de estágio foram um suplício: planos de aulas, planos e fichas de aulas, nem sei. Tudo aquilo me parecia uma chachada, uma aberração contra-producente. Eu, que sou uma intuitiva, de ir para onde a intuição me leva, achava que aquilo violava a minha natureza. Não via a hora de me livrar daquilo. O orientador de estágio era, para mim, uma pessoa limitada. Os meus colegas de estágio ainda mais limitados eram. Todos achavam normalíssimo ter que preencher tanta papelada, e olhavam para a minha repulsa como se eu é que fosse anormal. Não me via metida naquele filme. Foi a minha primeira experiência burocrática.
Depois, na empresa, sempre tive a liberdade de funcionar à minha maneira.
Contudo, há uns anos, depois de ter fugido disso durante muito tempo, não tive como escapar às avaliações. Aqui que ninguém me ouve, digo-vos que acho isto das avaliações, na forma como as fazemos e na forma com grande parte das organizações as faz, uma treta.
Mas não posso fazer vingar a minha ideia, tenho que me sujeitar a seguir o método adoptado. Avaliar é importante mas deve ser feito de uma forma quase intuitiva e deve ser monitorizado por quem tenha grande conhecimento de causa - nunca por burocratas, que têm uma visão administrativa da coisa.
Mas este mundo não é perfeito.
O que faço eu então? Aligeiro, aligeiro, aligeiro até não me dar quase trabalho nenhum. E aproveito a ocasião, isso sim, para falar com cada um dos meus colaboradores e dizer-lhes, francamente o que penso deles: que se deixam entusiasmar por ideias novas e se marimbam para o que tem menos interesse e que isso não pode ser, que gostam de se exibir e que eu, mais do que estrelas, gosto de quem trabalha bem em equipa e puxa pelos outros, que são pouco pró-activos e que eu preciso que me dêem ideias e não de ter que andar a ter ideias pelos outros, etc. Esse é o verdadeiro momento de avaliações para mim, aquele em que discuto, de forma aberta e adulta, o que acho do desempenho de cada um dos meus colaboradores, tentando que melhorem. O resto do acompanhamento é feito no dia a dia. Antes de falar com eles, na altura das avaliações, preencho umas fichas e chego a um valor para cada um, que lhes transmito. Regra geral concordam comigo. Sou capaz de levar um dia nisso. E é tudo.
Eu própria sou avaliada e aí a coisa ainda é mais sui generis. Então como é que se classifica? Então e na visão estratégica acha que merece quanto? Eu digo que, o que ele disser, está bem. Ele diz o mesmo. Depois eu digo que ele me deveria poupar a cenas deprimentes. E ele lembra-me que tem que ser, pelo que o melhor é despacharmos o assunto. Farto-me de rir e ele também. Quando saio, nunca faço ideia de quanto é que tive 'no exame'. É-me indiferente.
Não me revejo no método. No entanto, uso-o - mas à minha maneira. No entanto, tenho colegas que preenchem écrans, folhas de cálculo, sei lá. Queixam-se, lamuriam-se, mas para ali estão - no fim, sem qualquer valor acrescentado, trabalho para o boneco. Eu não me queixo, aquilo não me dá trabalho que se veja, acaba por ser útil. Não estou para me ralar com o que não tem importância.
Quando foi a guerra das avaliações dos professores, ouvi falar em excesso de burocracia. Seria certamente possível adaptar. Não era caso para uma guerra daquelas.
Caso bem diferente é o que se passa agora. Depois dos cortes de ordenados, da subida de impostos, a forma aviltante como os professores são tratados, esta cena do horário zero, podendo ser atirados para a mobilidade e depois para o desemprego, o aumento da carga horária, a desvalorização de matérias que deveriam ser pilares do conhecimento e do desenvolvimento humano, tudo aquilo me fere - é muita maldade, muita iniquidade, muito maquinação. Tudo junto é insuportável.
De facto, há, na forma como este desGoverno trata os funcionários públicos, qualquer coisa que me agonia. Não sendo eu funcionária pública e trabalhando bem mais de metade do ano para impostos e contribuições, não posso, ainda assim, deixar de achar indispensável que haja uma função pública respeitada, qualificada, dignificada. Ter bons professores, bons médicos, bons agentes de segurança, bons gestores da coisa pública em geral, parece-me indispensável e todos nos deveríamos orgulhar da sua qualidade e motivação.
País que se preze deve zelar por que a sua população tenha acesso livre e gratuito a tudo o que serve para garantir o seu bem estar e desenvolvimento. E todas as pessoas que contribuam para isso devem ser olhadas pelos outros concidadãos com respeito.
Hoje, em casa dos meus pais, estivemos a falar disto. O meu tio falou de uma sua sobrinha (prima da minha prima, mas não minha prima) que, depois de andar de escola em escola, de concelho em concelho, foi colocada numa das nossas ilhas, onde, pensando assentar, comprou casa. No entanto, depois voltou a ser colocada no continente e agora vive numa casa alugada pois teme que, um dia destes, a vida volte a dar uma volta. É professora há mais de vinte anos e ainda é contratada (nem ele nem eu conhecemos bem a designação correcta pelo que não garanto que seja 'contratada' que se diz; ele disse que ela ainda é precária).
Acho isto desumano, ilógico. Acho até brutal. Como se organiza uma vida nestas circunstâncias? Esta 'rapariga', como o meu tio se refere a ela, tem quarenta e muitos anos e é solteira e diz o meu tio que é uma pessoa triste. Pudera. Como se consegue ter uma vida feliz numa situação destas?
Por tudo isto percebo agora muito bem a luta dos professores. E acho que toda a gente intelectualmente honesta deve também perceber.
Depois choca-me o acinte com que o desGoverno e seus avençados tratam a classe docente. Este desGoverno tenta lançar todos contra todos, novos contra velhos, empregados contra desempregados, pais contra professores. Uma indignidade.
Os professores, por lutarem por condições de trabalho dignas, por lutarem pela qualidade do ensino, por lutarem pela estabilidade na sua vida profissional, têm pois o meu apoio.
Só espero que eles próprios percebam que só a sua união lhes permitirá a sua defesa.
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Convido-vos ainda a irem de passeio até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, para verem (e ouvirem!) como Davide Martello, tendo levado um piano de cauda para a Praça Taksim, acalmou a multidão que parou para o ouvir. Há coisas fantásticas.
O que é uma mulher? É um ser que se resume a ser o feminino de homem? E qual o papel da mulher nos tempos que correm?
É um tema que me ocorreu no outro dia ao ouvir as bafientas palavras do Cardeal D. Manuel Monteiro de Castro, recomendando que, especialmente nestas épocas de crise, as mulheres fiquem em casa ou, pelo menos, trabalhem apenas em part time para melhor se poderem dedicar à família.
A autora de um blogue que muito aprecio, A Matéria dos Livros, de certa forma aborda este assunto ao referir um livro que tenho agora também aqui ao meu lado, Humilhação e Glória (O acidentado percurso de algumas mulheres) da autoria de Helena Vasconcelos, da Quetzal, um livro com uma bela capa de Rui Rodrigues sobre fotografia de Man Ray. Já o comecei a ler como costumo começar por ler os livros: em diagonal, de trás para a frente. Irei certamente agora retomar algumas das partes que, desta amostragem, maior interesse me despertaram.
Mas, enquanto não tenho material para me pronunciar de forma fundamentada sobre o livro, permito-me aqui apresentar a minha opinião baseada no meu caso pessoal.
Gosto muito de ser mulher. Acho que sou bastante feminina em tudo o que isso costuma querer dizer, mesmo no lado mais superficial: gosto de me arranjar bem, gosto de écharpes longas e macias de cores quentes ou suaves, gosto de perfumes, especialmente de perfumes Chanel, gosto de me enfeitar com jóias ou bijouteria, gosto de usar sapatos de salto alto, gosto de me maquilhar, gosto de ter vários batons, de cores variadas para condizer com o tom da roupa. Enfim, essas coisas de mulher.
E sempre senti o apelo do 'acasalamento'. Sempre namorei, casei cedo e cedo senti o forte apelo da maternidade. Sou toda protectora dos meus meninos, dos grandes, dos pequeninos.
E gosto muito da casa, da casa no sentido de lar. E, por isso, a minha casa é o lugar dos meus afectos, dos meus objectos, que arranjo com gosto e gosto de descobrir coisas que trago para casa mesmo que não façam falta nenhuma, como uma caixinha bonita, umas velas cheirosas, uma moldura rendilhada, uma almofada de um veludo macio, uma mantinha quente e de belo colorido.
E, no entanto.
E, no entanto, sempre vivi mais entre homens que entre mulheres. No meu trabalho, os meus colegas são quase todos homens. Até há muito pouco tempo era eu no meio de apenas homens.
E, no entanto, nunca me senti condicionada por ser mulher. Trabalhei enquanto estava grávida (na primeira vez, calhou até trabalhar sob 'orientação' de um alto e exigente especialista do Banco Mundial, tendo que me sujeitar a horários e calendários rígidos), trabalhei enquanto os meus filhos eram pequenos e enquanto amamentava, trabalhei tentando conciliar a dedicação familiar, a dedicação profissional e não descurando os meus interesses pessoais e a minha aparência.
E, se foram momentos de grandes ginásticas e canseiras (trabalhar em Lisboa, com trânsito constante, com distâncias demoradas, muitas vezes a ter que me deslocar para fora, inclusivamente para o estrangeiro, foi um exercício de permanente equilíbrio), em que nunca me senti sacrificada por ser mulher, ou preterida do ponto de vista profissional por ser mulher, tenho que reconhecer que muito o devo ao facto de, em casa, sempre termos sido uma equipa, em que há suporte e respeito mútuos e, também, à sorte de, no trabalho, ter tido superiores hierárquicos inteligentes e pessoas do seu tempo.
Os meus filhos cresceram a saber que a mãe trabalha, que gosta de trabalhar, e que gosta de ter outras actividades. Os meus filhos cresceram habituados a perceber que, por vezes, em certos momentos, algumas coisas deixavam de ser prioritárias ou de ter grande importância. Mas sempre contaram com a disponibilidade da mãe para ir às reuniões na escola, para os acompanhar nos estudos, para os acompanhar com atenção e carinho (e ralhetes) em todos os momentos da sua vida.
E, no trabalho, toda a gente sabe que sou responsável, cumpridora, exigente, etc, mas que, ao primeiro telefonema porque uma das crianças estava doente na escola, eu largaria tudo porque, antes de tudo, estavam eles, sempre estiveram e sempre estarão. E, apesar disso, nunca senti que esta minha disposição me prejudicasse talvez porque todos sempre souberam também que, se for necessário, trabalho em casa, à noite, ao fim de semana, em férias - sempre que tal, efectivamente, é preciso.
Mas não faço, nem nunca fiz, género nem concessões de qualquer espécie. Não fico até às tantas, evito ficar a trabalhar à hora de almoço, evito almoços de trabalho, odeio reuniões intermináveis, odeio show offs, não faço de conta, não digo sim quando acho que devo dizer não.
Tenho visto muitas mulheres que acabam por ficar, profissionalmente, pelo caminho. Essencialmente são as que se queixam, as que vitimizam, as que se acham subalternas, as que não sabem gerir as suas prioridades.
Sei que poderia 'ser' mais do que sou, sei que, por exemplo, gostaria de fazer política - ou seja, sei que o que faço está aquém do que poderia e gostaria de fazer. Mas é um balanceamento. Se o fizesse teria que abdicar de algumas coisas de que, até aqui, não quis abdicar e teria que fazer concessões que, até aqui, não quis fazer.
Conheço muitas mulheres que, talvez fruto da educação que receberam e da qual nunca se conseguiram libertar, têm medo da opinião dos outros, têm medo de fazer valer a sua opinião ou a sua vontade, sentem que se devem mostrar submissas, tímidas, inseguras, passivas. Isso é, de facto, o maior obstáculo. As mulheres não têm que ter vergonha de se afirmar ambiciosas, exigentes, determinadas e, ao mesmo tempo, sensuais, sedutoras, femininas. Não são faces opostas: são complementares.
No entanto, há um aspecto que tenho que reconhecer. As mulheres conseguem impor-se mais facilmente e viver mais felizes, mais apoiadas e reconhecidas quando têm a sorte de viver rodeadas por homens inteligentes.
Em contrapartida, homens limitados, medíocres, mesquinhos, insignificantes, são frequentemente misóginos, acham-se superiores às mulheres, evitam-nas (num claro sinal de cobardia).
É um conselho que dou, não sem alguma ironia: sempre que possível, mulheres inteligentes e ambiciosas (ambiciosas no sentido de quererem ser como são, de quererem fazer o que lhes apetece) evitem ambientes em que pululem homens ignorantes, estúpidos, parvos, porque homens assim são um atraso de vida.
E, nunca por nunca, devem as mulheres abrir mão dos seus sonhos, dos seus desejos, da sua feminilidade. Ser mulher não é defeito, não é castigo, não é uma cruz. Ser mulher é uma coisa extraordinária que deve ser festejada a cada instante.
Dado o adiantado da hora não me apeteceu fazer pesquisa aturada que me conduzisse a um tema porventura mais apropriado
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E, por falar em Man Ray (1890 - 1976): as fotografias são dele, um americano que viveu grande parte do tempo em Paris, um modernista, e retratam mulheres também elas modernas, Lee Miller, Remy Durval, Kiki de Montparnasse, Comptesse de Saint Exupery, nomes que por si só recriam todo um ambiente feminino.
(E, se estiverem numa de palavras à solta, e de poesia de António Ramos Rosa, e de fotografia e de Schumann, não quererão dar uma saltada ali ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, a love affair?)
Cerca de 100 anos separam a pintura original de Ingres da fotografia de Man Ray, inspirada na banhista; cerca de 100 anos separam a fotografia de Man Ray da que hoje tirei.
E, se aqui a coloco, é apenas porque a posição e o turbante da mulher à beira do Tejo me fizeram recordar as duas mulheres que inspiraram Ingres e Man Ray. Passam os séculos e a graciosidade feminina é sempre a mesma.
A banhista de Valpinçon - Jean Auguste Dominique Ingres, 1808