Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, dezembro 06, 2013

Leonor - jantar de Natal e noite de amor






Nem pareceria que já estamos em época natalícia se não se fizesse sentir este friozinho agudo, este sol que não consegue esconder a humidade das folhas caídas. 

Por ali, então, a névoa matinal, o frio que se entranha, a neblina que envolve o entardecer, as noites gélidas são a regra. Faz parte da mística do lugar, dizem.

O grupo está, uma vez mais, reunido na grande casa que se esconde entre altas árvores, muralhas, escadarias e muros cobertos de hera. Lá dentro a grande lareira está acesa como sempre mas agora há também aquecedores a gás espalhados pela casa. O frio parece emanar das paredes de pedra e, sem um suplemento de aquecimento, o lugar em vez de acolhedor seria inóspito. A sala brilha agora com os dourados envelhecidos de uma grande árvore de natal decorada com objectos antigos, raros. E existem mais velas acesas do que é costume, o que transmite um ar de ainda maior aconchego e, num recanto, está o presépio que a mulher de Manuel arranja em conjunto com a cozinheira e restantes empregadas da casa.

Por esta altura reúne-se aqui o grupo do costume mas agora com os respectivos cônjuges. É o jantar de natal. Leonor é a única mulher da equipa de gestão e não traz companhia. Aliás, os colegas, por vezes, na brincadeira, insinuam estranhas preferências como justificação para o facto de não ter companheiro que se lhe conheça. 


Estão, portanto, as mulheres dos colegas; já se conhecem umas às outras e é costume, mal se encontram, retomarem, com animação, a conversa que tiveram na ocasião anterior em que se estiveram juntas. Falam quase ininterruptamente, reportando os acontecimentos familiares desde a última vez ou comentando as notícias que preenchem os tempos que correm: filhos que estão a estudar ou a trabalhar fora, as conversas via skype, as saudades, o receio de que por lá fiquem, e espantam-se com a imbecilidade destes ministros, riem-se da imaturidade e cretinice de alguns secretários de estado, e mostram preocupação pela devastação que o governo está a levar a cabo e que empobrece toda a gente e o país no seu conjunto. 

Leonor enturma-se com elas. Nota-se nas senhoras uma certa curiosidade em relação a esta colega dos maridos. Leonor fala também de assuntos correntes, desliga-se de assuntos profissionais quando conversa com elas. De resto, se há várias que não trabalham nem sabem o que isso é, outras há que são médicas, professoras ou reformadas e que, portanto, têm uma visão muito concreta do que é a vida.

Está também a mulher de Duarte embora ele não esteja. Foi ela a atracção principal no início da conversa. Toda a gente se lhe dirigiu para saber como está ele. Maria João explicou que está bem mas que não o tem visto, que não recebe visitas, que está a fazer uma cura de sono, que teve um esgotamento e dos sérios, que os médicos recomendaram um internamento para poder dormir, descansar, desligar-se de tudo. As outras mostram preocupação, querem saber pormenores. O que sentia? Como estava? Não tinha percebido? Como foi?


Maria João explica que foi progressivo. Que o marido chegava tarde a casa, que andava cansado, irritadiço, que tinha insónias, que andava desconcentrado, que os comprimidos que tomava parece que já não faziam efeito, tomava mais e nada resultava e que estava a emagrecer a olhos vistos. Que, a dada altura, chegou a desconfiar que ele tivesse outra mas que afinal ele estava mesmo era arrasado. E que parecia que não conseguia relativizar os problemas, que tudo era motivo para o deixar ainda mais em baixo. E que, depois, outras vezes andava eufórico, que até custava a aturar de tão doido que ficava. Que chegou a temer que ele se tivesse tornado bipolar.

Enquanto Maria João falava, Leonor temia que ela, na sua inocência, voltasse a falar em cortes de ordenados ou coisas do género que levassem as outras a perceber que a história estava mal contada. Mas ela não falou no assunto e Leonor descansou. Mas receava também que alguém, ao ouvi-la, através de um sorriso ou palavra em falso, cometesse um deslize e ela percebesse que, sim, que ele tinha mesmo outra, sempre, já muitas, ou que alguém piedosamente lhe explicasse que ele namorava como se tivesse necessidade de se sobre-ocupar a todos os níveis, e até a nível amoroso. Mas não ocorreu nenhuma inconveniência e Maria João, com naturalidade, foi prosseguindo a sua conversa. Aliás, num aparte, Maria João tinha-se chegado a ela e, num tom de voz muito baixo para que ninguém ouvisse, tinha-lhe pedido desculpa por aquele telefonema de dias antes, que naquela noite estava assustada, tão preocupada, sabe lá o que aquilo foi.

Leonor disse-lhe que ela não tinha que pedir desculpa, que percebia perfeitamente, que a vida no mundo doss negócios, especialmente agora, é muito stressante e que, às vezes, as pessoas se vão abaixo, mas que tudo ia ficar bem, que ele, repousando, estando uns tempos afastado do stress do dia a dia, iria ficar bom.

Duarte tinha aceitado tratar-se com a condição de ninguém, nem no trabalho nem na família, saber qual a verdadeira causa do problema. Leonor tratou de tudo, falou com médicos, acompanhou, aconselhou e apoiou Duarte. Para todos os efeitos, diriam que ele ia tratar-se de um esgotamento nervoso, que iria ficar internado para fazer cura de sono. Depois teria um período de baixa para continuar a ser seguido.
Entretanto, Duarte tinha começado a dizer que ia largar o emprego, que iria viver para o campo. Mas quer os médicos, quer Leonor o aconselharam a que deixasse os planos para depois.
Maria João não soube o que se estava a passar tal como não soube da intervenção de Leonor. Aliás, ninguém soube.
Por várias vezes Afonso tinha perguntado a Leonor se sabia o que se passava com Duarte e ela tinha mantido a mesma versão: parece que estava à beira de uma depressão ou de um esgotamento, seja lá o que isso for, e de tal forma devia ser, que os médicos o mandaram internar.


Neste jantar não está também a mulher de Afonso. De resto, foi uma surpresa para toda a gente. Quando não a viram, toda a gente lhe perguntou por ela. Com ar descontraído, informou que se estavam a separar. Os próprios colegas ficaram a saber naquela altura com excepção de Manel a quem ele tinha dito antes. Algumas senhoras ensaiaram um ar compungido mas alguns dos colegas levaram o caso para a brincadeira, Pois o que seria de esperar? Quem é que atura um tipo destes? E outro, mais malandreco acrescentou logo, Parece que a coisa correu tão, tão mal que ela até terá trocado de gostos: parece que o trocou por uma e não por um. Afonso riu-se, via-se que era assunto que não o incomodava.

Leonor ouvia e sorria, como se o assunto para ela fosse tão irrelevante como para cada um dos restantes.

O jantar foi requintado como sempre mas, desta vez, houve uma inovação: juntou-se à cozinheira um chef conceituadíssimo que preparou algumas iguarias de tipo cozinha de fusão e, em conjunto, serviram uma surpreendente ementa de degustação. A qualidade e criatividade das receitas animaram ainda mais o ambiente que, no entanto, se manteve no mesmo registo suave, adoçado pela luz das velas.

Mais para o fim do jantar Leonor sentiu um pé a subir pela sua perna. Afastou-o quase sem se mexer e continuou a conversar como se nada se passasse. Admitiu que fosse Afonso mas ele também conversava naturalmente com as pessoas do lado e nada no semblante o poderia denunciar.

No final, a cozinheira e o chef vieram saber se tinha estado tudo bem e toda a gente louvou e agradeceu a arte e a perícia que eles tinham demonstrado na confecção da refeição. Depois, na mesa da sala, havia uns saquinhos com umas lembranças.

Despediram-se com boa disposição e, em alguns casos, com verdadeira estima pessoal. Leonor lamentava que o seu amigo Dr. Lampião e a mulher, uma senhora muito querida, não estivessem, mas era sabido que, mal Dezembro começava, eles não descansavam enquanto não rumavam a norte. Por lá as temperaturas exteriores são frias mas o seu coração aquece-se com o calor do reencontro dos seus. Nem a ele, nos mails que trocam, Leonor tinha contado o que se estava a passar com Duarte. Dir-lhe-á mais tarde, e só a ele, pessoalmente.

Quando se estavam a despedir uns dos outros, Duarte que, como de costume, estava de moto, como quem não quer a coisa disse a Leonor, Hoje está para além de boazona. E esse vestido fica-lhe a matar… Posso ir conferir como estamos de underwear?

Leonor com o ar mais normal do mundo, os outros vendo-os a conversar daquela forma pensarão que estão a falar de trabalho, respondeu-lhe, Hoje quero serviço de massagem. Tem competência para isso? Se tiver, dispenso o massagista brasileiro que contratei e arrisco pôr-me nas suas mãos.

Pelo caminho, noite fria e escura, estradas ladeadas por grandes árvores, Afonso foi a serpentear na estrada, ora ultrapassando o carro de Leonor ora deixando-se ultrapassar.

Leonor entrou na garagem, Afonso estacionou no passeio.

Quando Afonso tocou à campainha já Leonor o esperava. Afonso zangou-se, Mas o que vem a ser isto? Já despida? E toda despenteada? Querem ver que me atrasei...? Já aqui esteve o massagista brasileiro ou quê?

Leonor olhou-o e, em voz baixa, perguntou, Estou mal?
- Não... Mas é que estava tão boazona, queria tê-la assim só para mim. E queria ser eu a despi-la devagarinho. 
Olha para ele, que abusador... Mas ainda não percebeu que está aqui só como massagista? Por isso, vá lá, profissionalismo, se faz favor.
- Então, vá, vamos tratar do ambiente. Vou escolher uma música apropriada. Vá-se pondo a jeito. Já sei, Agnes Obel. Vai gostar. Ouça. Deixe-se ir.






 
- Vá, não lhe disse para se pôr a jeito? Deite-se de barriga para baixo. E feche os olhos, não olhe assim para mim... senão não respondo por mim. Sinta as minhas mãos no seu corpo. E descontraia. 
Leonor respondeu, Eu estou descontraída, você é que está desfocado. Concentre-se na massagem e pare você de olhar assim para mim.
- O que é que quer? Sou um simples amador. Se quer profissionalismo, se calhar é melhor chamar mesmo o brasileiro.
Leonor disse, toda ela malícia, Já é tarde para isso senão chamava-o e você ficava a ver... para aprender. Mas daqui a nada você tem que se ir embora, e ainda temos que dormir alguma coisa. 
- Mas, ó Leonor..., nem hoje me vai deixar ficar cá a dormir...?
Nem pense. E vá, se não tem competência para me dar uma massagem, ao menos dispa-se e venha aqui para o meu lado.


Afonso despiu-se, pegou num papel e num lápis que estava na mesa de cabeceira, e provocou, Sim, doutora. Diga lá então o que é que quer que eu faça agora, mas diga tudo, step by step, dite que eu escrevo que é para não falhar nada.

Leonor olhou-o nos olhos, toda ela entrega, sedução, gozo, Largue o papel. Não vou dizer nada. Improvise. Faça o que quiser. No fim logo toma nota de algumas acções de melhoria. Agora não. Agora limite-se a provar do que é capaz.

E ele assim fez.



THE END


*****

As músicas são, respectivamente:
  • Have yourself a little Merry Christmas, por Melody Gardot e 
  • Close Watch por Agnes Obel

Este é o último episódio desta história. Dei-lhe o nome de Leonor e Afonso e pode ser lida de seguida, (do primeiro ao último episódio, de baixo para cima, claro) se procurarem esse título nas etiquetas aí em baixo do lado direito. Se quiserem ler apenas o episódio de ontem, está aqui: Duarte - a queda do belo albatroz 

*****

Sobre a morte de Madiba poderão descer um pouco mais que está já aqui a seguir.

*****

E, por hoje, é isto.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Duarte - a queda do belo albatroz






De quantos espantos, de quantos sustos, de quantos medos, de quantas desilusões precisa alguém para se fortalecer?

Pode alguém querer andar ao vento, sobre as ondas, deslizar e correr sobre as águas, sentir-se envolvido pelas asas das grandes gaivotas brancas e não conseguir senão andar em terra, entre corredores e paredes, entre disfarces, alcatifas e conversas de salão?

Pode. Pode. Uma vida inteira a ser-se quem não se é? Pode-se muito bem. 

Aquele que voando se sentiria rei dos mares, em terra sente-se desajeitado, um pobre palhaço sempre no dever de fazer rir os outros para disfarçar a sua condição, um albatroz de asas colossais arrastando-se por terra tal como Baudelaire tão bem o descreveu.

Habitua-se assim o nobre albatroz a ser o bobo da corte, o primo dilecto, o bem sucedido executivo, o divertido e charmoso donjuan. Habitua-se a levantar-se e ver-se no espelho já nem estranhado que aquele que o olha seja outro e que, depois, caminhe todos os dias não como se fosse para o cadafalso mas para um redil, um entre outros seres selvagens que a vida aprisionou. 

E os anos vão passando e os sonhos vão ficando caídos cada vez lá mais para trás, esquecidos, esboços que o tempo não completou, ténues sombras no passado, quase apenas uma longínqua imaginação.

Mas algo se vai quebrando por dentro.

Por vezes nunca se chega a ser suficientemente forte.

Até que um dia.

Até que um dia uma vontade súbita de voltar a sonhar.

E depois outro. Voltar a sentir o gosto da maresia na pele tisnada.

E mais outro. Voltar a sentir a alegria dos grandes espaços.

E de novo. Velejar, trepar pelas ondas, desafiar tempestades, atravessar o pôr do sol.

Mesmo que se esteja sozinho, fechado entre quatro paredes.

E, aos poucos, já uma necessidade. Não passar sem esse suplemento de ânimo.

E já todos os dias.

E já não conseguir suportar o vazio dos dias iguais sem essa euforia do voo do albatroz sobre mar encapelado. Ou ser o forte albatroz de longas asas no meio de suaves gaivotas rasgando as nuvens. Fantásticos devaneios. Tão bons. Tão bons.  

E depois já mais que uma vez por dia.

E aos poucos uma vergonha. E depois, cada vez mais, também o não ser capaz de suportar a vergonha. Fraco, fraco, tão fraco. Precisar de ajuda para não se lembrar da penosa vergonha.

E a dificuldade em adormecer. E ajuda para adormecer.

E uma ajuda para se manter acordado.

E uma ajuda para não pensar no que está a acontecer.

E a necessidade cada vez mais frequente, mais premente. 

Pó branco como uma nuvem bondosa. E comprimidos como inócuas guloseimas. 

E dinheiro.

E cada vez mais dinheiro. 

E esconder. E esconder. E esconder sempre. De todos.

Quando quiser, vai parar. 

Mas esse dia não chega, nunca mais chega. Só mais hoje, só mais esta vez. Muitas, muitas vezes. 

E as pontas começam a ficar soltas. E como voltar a agarrá-las? Quando? Como? Tão espalhadas elas já estão.

E os novos amigos. E a vergonha. Escondê-los. Esconder-se. 

Tudo tão frágil.

E a pressão. O dinheiro, as ausências, os não resultados, a impossibilidade das justificações, a alergia, não: é rinite, a insónia, o sono, a impaciência, a agitação. E sempre a disfarçar, a negar, a esconder, a mentir. Tantas mentiras, tantas, tantas mentiras. E tanta vergonha.

E o desespero. Viver assim para quê?

Mas e o desgosto causado aos outros se isto acabar já?

E a vergonha se descobrem?

Labirintos escorregadios, alucinações, pesadelos.

- Calem-se todos. Desapareçam. Deixem-me entrar dentro do mar, deixem-me voar pelas escarpas, perder-me nas altas vagas, deixem-me, deixem-me.

Quantas vezes à beira das imensas fragas, acabar, voar, morrer a voar. Ou entrar no mar, mergulhar, procurar o fundo mais fundo do mar. E lá ficar. Tantas vezes essa vontade.

Tomara um colo quente, o abraço morno da mãe, os joelhos do pai, a tia: indo eu, indo eu, a caminho de viseu, encontrei o meu amor, ai jesus que lá vou eu, e a avó, dá cá um xi-coração Duarte, gosto tanto do teu xi. Tomara um colo, tomara o perdão. 

Desculpem, desculpem-me todos.

Dentro do carro em frente ao mar, Duarte sente-se vazio.

Depois dobra-se sobre o volante, rosto escondido.

Desaparecer. Sem deixar rasto.

Então, num impulso, sem pensar, liga a Leonor. ‘Preciso de ajuda’. Leonor ouve um choro convulso, quase parece um menino que chora.

Quando vai responder, Leonor repara que a chamada caíu.


*
L'Albatros 
Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers. 
À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux. 
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait! 
Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher. 
— Charles Baudelaire

Em português, por exemplo AQUI

***

A música é Nocturne de Claude Debussy.

***

Este episódio vem na sequência do que ontem escrevi, Leonor e Duarte - uma conversa muito difícil, episódio que já era seguimento de vários outros, sempre assinalados.

Abaixo poderão conhecer os meus últimos livros de poesia e, se quiserem esclarecer-me, estejam à vontade: porque é que algumas pessoas não gostam de poesia?

Abaixo desse post da poesia há um outro sobre 'Uma Agenda para Portugal', talvez a bomba que vai detonar o PSD passista.

No que se refere ao Ginjal e Lisboa hoje temos uma Metade bem especial e mais não digo pois acho que é coisa que merece ser vista/ouvida.

De facto, como temia, não consigo responder aos comentários, é tarde demais. Mas saibam que muito os agradeço [e aqui deixo uma pergunta ao Comentador-Poeta: para quando um poema daqueles especiais de que eu tanto gostava...? Tenho saudades...!

***

E, por hoje, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores uma bela quinta feira.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

Leonor e Duarte - uma conversa muito difícil




Quando chegou, Leonor cruzou-se com Afonso à saída dos elevadores. Meio a sério, meio a brincar, ele olhou-a de alto a baixo, ar apreciador e sussurrou com vago sotaque brasileiro, ‘Poderosa…!’. Leonor sorriu, gostava de começar bem o dia. 

O dia avizinhava-se mais do que preenchido mas tinha que arranjar um espaço na agenda para ter uma conversa com Duarte. Mas, antes de começar o dia, ainda queria fazer umas pesquisas na internet.

Pediu, pois, à Secretária que lhe ajeitasse os horários por forma a deixar-lhe uma meia hora livre para uma conversa com Duarte, em horário que conseguisse compatibilizar através da Secretária dele. 

Pouco depois, estando ela ainda a fazer pesquisas que a estavam a deixar certa mas muito apreensiva sobre o que muito provavelmente se estava a passar, a Secretária veio dizer-lhe que Duarte estava no gabinete mas que sairia dentro em pouco para uma reunião fora da empresa, seguindo-se um almoço e depois nova reunião pelo que só estaria livre mesmo ao fim do dia, isto se voltasse ao escritório. Leonor resolveu que o melhor, nesse caso, seria atacar já o assunto. 

Respirou fundo, olhou lá para fora, tentou controlar o nervosismo e avançou. 

Voltou a cruzar-se com Afonso, ‘Afastem-se que ela hoje veio para matar…’ disse-lhe ele baixinho e de forma disfarçada para que mais ninguém desse por isso, mas ela não prestou atenção.

Bateu à porta de Duarte e entrou. 

Duarte estava naqueles seus momentos de boa disposição, Muito bom dia a quem é uma flor. Então em que lhe posso ser útil, Madame? 

Leonor sentou-se e disse, Bom dia. Temos que falar, Duarte.

Duarte olhou descaradamente para o relógio, riu-se, Graças a Deus que daqui a nada tenho que sair. Até tenho medo de si, ui... Mas bom, se tem que ser… No entanto, enquanto aqui está ponha-se à vontade, se quiser pode descalçar-se.

Leonor sorriu, Não diga duas vezes senão ainda aceito.

Mas seria um gosto, Madame, até me ofereço para lhe massajar os pés. Veja lá, pense bem… E um café, aceita?

Isso aceito, sim senhor.

Duarte ligou à Secretária, Mais um cafézinho para mim e outro aqui para a nossa Doutora.

Quando a Secretária entrou, estava Duarte a assoar-se,  O Doutor devia pedir para analisarem a qualidade do ar aqui na sua sala, isso ou é do ar condicionado ou da alcatifa, anda permanentemente com alergia.

Duarte riu-se, Devo ter ar de bebé para todas as mulheres quererem tomar conta de mim... Isto não é defeito, Senhora, é feitio…! Rinite alérgica já lhe disse, coisa de família, em vez de sair com sangue azul saí com nariz a pingar. E não é só daqui, é em todo o lado. Dantes chamavam-lhe febre dos fenos, agora como já nem palha temos para comer, chamam-lhe rinite.

A Secretária saíu a rir.

Leonor pegou na conversa, Desde que o conheço, ainda estávamos lá do outro lado, já você sofria dessas alergias, não era?

Duarte riu-se, Já nem ligo. Devia pôr uns sprays, umas tretas, até devo ter isso para aqui, mas nunca me lembro. Mas então, Doutora, se é para brincarmos aos doutores, eu dispo-me e deito-me aqui no sofá para você encostar o ouvido ao meu peito a ver se a respiração está boa. O que me diz?

Leonor sorriu mas não deu saída. Duarte, você anda com algum problema?

Duarte soltou uma bem humorada gargalhada, Com algum?! Só com um…?! Era bom, era. Eu ando é com mil problemas. Não lhe contei já ontem? Mil. Mil! Até o gato está doente, imagine. E parece que agora entra água pela janela da cozinha. E a vedação do jardim tem que ser reparada. E aqui uns não compram, outros não pagam. E o Natal está à porta e a minha mãe e a minha sogra não se podem nem ver. E eu não suporto os meus cunhados. E o meu telemóvel anda marado, descarrega num instante. Continuo ou já chega?

Leonor sorriu. Problemas desses todos temos.

Duarte olhou-a de soslaio. Todos? Todos não. Você não. Você é a Miss Maravilhas, a si nada a afecta nem infecta. Tudo sempre em cima. 

Olhe que não, Duarte, olhe que não. Não tenho rinite crónica nem nenhum gato doente, nem sogra nem vedação mas tenho outros problemas.

Duarte riu-se, Deixe-me adivinhar. Cama fria?

Leonor empertigou-se, Não se estique, não vá por aí. E estou a falar a sério. 

E, então, encheu-se de coragem. Duarte, desculpe, é mesmo só porque quero ajudar... mas sou levada a crer que você está com problemas de dinheiro.

Duarte encostou-se para trás, riu, Olha! Que grande descoberta. Mas haverá alguém neste país que não o esteja?

Leonor sentia o coração a bater mais acelerado, Duarte estou a falar a sério. São já vários os indícios. Várias coisas não andam a bater certo. Se tem algum problema pode dizer-me, quero ajudar. 

Duarte ficou sério, agora parecia um pouco assustado, Um ou outro problema sem importância, coisas pontuais, nada de mais. Logo que eu tenha sossego, trato de tudo. Já lhe disse. Tanto drama por causa de uns míseros trocos.

Uns quantos mil euros, Duarte, aqui na empresa. Diz que tem as notas de despesa para regularizar e nada, o tempo passa e nada e nem é só pelo dinheiro, é que não podemos dar esta imagem, de uma certa balda. Não percebe? E vão aparecendo uns e outros indícios mais. Alguma coisa há.

Duarte reagiu tentando aparentar naturalidade, Se me derem dois ou três dias para procurar papéis nos bolsos dos casacos, na pasta, nas gavetas e para os pôr por ordem, acaba-se o dramalhão.

Mas Duarte, esta conversa já vem de há quanto tempo...? E de vez em quando a verba aumenta. Não percebe que não é possível? Que não pode ser? Que, se isto não se regulariza, vou ter que reportar?

Duarte impacientou-se, Porra, outra vez a mesma conversa!  E estava a ficar com o pescoço malhado e já todo agitado.

Leonor assustou-se um pouco, tentou acalmá-lo. Esqueça isso agora. Deixe lá agora os papéis. Mas diga-me: posso ajudá-lo?

Duarte foi peremptório: Pode, chiça. Já lhe disse. Deixe-me em paz.

Leonor olhou-o nos olhos e, sem grande convicção disse: É jogo, Duarte?

Ele atalhou, Não se meta onde não é chamada! E o que é que uma santinha como você sabe da vida para poder julgar uma coisa dessas? Não é jogo nenhum, tenho sorte ao amor não teria sorte ao jogo. Parvoíce.

Leonor fixou-o bem e, enchendo-se de coragem, de facto quase a medo, confrontou-o: É cocaína, não é Duarte? 

Duarte desatou-se a rir, Mas está a viajar na maionese, ó Leonor? Passou-se? Está a ver-me com ar de junkie? Poupe-me. Olhe: e veja mas é se não espalha um disparate desses!

Leonor hesitou, Duarte, não insisto. Mas pense no que anda a fazer. Peça ajuda. Não vou falar com ninguém. Vou aguentar isto por mais algum tempo. Se precisar estou aqui. Sabe disso, sempre estive. Não o vou julgar. Seja o que for. Mas não se destrua, Duarte.

Ele ficou a olhá-la em silêncio. Depois, de mãos nos bolsos, foi até à janela. Fungava, talvez estivesse a chorar ou talvez fosse apenas aquela alergia. 



Leonor esperou um pouco. Teve vontade de se aproximar dele, de lhe pôr a mão no braço. Mas não foi capaz. Depois saíu.

*


A música lá em cima é uma vez mais Agnes Obel, desta vez com Fuel to Fire.

Aos que aqui chegaram hoje, informo que esta história vem no seguimento do episódio de ontem intitulado Leonor e a mulher de Duarte em noite de medos e lágrimas que, por sua vez, já era seguimento de outros sempre devidamente referidos.

Num registo muito diferente, caso tenham vontade de ler sobre a venda - maioritariamnete ao estrangeiro - dos CTT e, a seguir, sobre o inenarrável Bruno Maçães, o Alemão, desçam, por favor, até aos dois posts seguintes.

Permitam ainda que vos convide a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde tenho hoje uma história, A Flor Maior do Mundo, dita por José Saramago.

*

Resta-me, por hoje, desejar-vos uma bela quarta feira. Saúde e alegria!

terça-feira, dezembro 03, 2013

Leonor e a mulher de Duarte em noite de medos e lágrimas





Ao fim do dia Afonso enviou um mail a Leonor dizendo: 6º de temperatura no máximo. Persiste na maluquice de ir andar à noite para a beira do rio?

Leonor respondeu: Está dispensado (aliás só costuma ir porque quer). Hoje vou fazer compras de natal.

Afonso respondeu: Para isso ainda é preciso mais coragem. Até amanhã então, vou sair. Porte-se bem, olhe a austeridade, não gaste o que não tem. Mas para mim não se iniba, gaste à vontade.

Leonor não estava para graças. Respondeu apenas: :)

Mas não foi fazer compras. Pelo caminho foi ouvindo Riverside, recomendação do seu bom amigo. Dirigiu-se ao rio mas não saíu logo do carro, deixou-se ficar a ouvir uma e outra vez, olhos fechados, o pensamento em círculo, E agora? E agora faço o quê? E só pensava no problema que tinha em mãos e na agressividade de Duarte. Tomara ter alguém ali a seu lado.
Why do I go here all alone, dizia a canção
Depois foi andar sozinha, o ar muito frio, o coração apertado, as mãos nos bolsos. Tanto, tanto frio, uma maresia aguda, uma preocupação que não sabia com quem dividir.
Down by the river by the boats 
Where everybody goes to be alone 
As noites assim junto ao rio têm um mistério que encanta os apaixonados mas que assusta quem por ali anda desprotegido. Leonor sentia o frio tão frio, o ar húmido, a aragem cortante. E mantinha a passada certa, apressada, avançava contra os medos. Tantos os medos.
Down by the water the riverbed  
Somebody calls you somebody says 
swim with the current and float away 
Depois, gelada, cansada, conduziu até casa e tomara que tivesse antes sido para bem longe, que tivesse flutuado nas frias águas do rio para outro continente, e foi ouvindo a mesma música uma e outra vez.

Quando estava a chegar a casa, desejando um duche bem quente e demorado, tocou o telemóvel. Não conhecia o número. Estranhou uma chamada de um número que não identificava àquela hora. Hesitou mas pensou que, se fosse algo de mau, não teria o número visível. Atendeu.
- Leonor?
Quem fala?
- É Maria João, mulher do Duarte. 
Leonor atirou-se para o sofá, aterrada, como que um antecipado sentimento de culpa. O que seria? Àquela hora? Algum acidente?

Sim, sou eu. Diga. Aconteceu alguma coisa?
Um silêncio do outro lado e depois, em voz ansiosa, Não sei, acho que sim mas não sei. O meu marido não anda nada bem. Anda muito nervoso, anda estranho, não dorme, grita com os miúdos, hoje falou-me em demitir-se, em ir para fora. Diz que está com problemas na empresa, que discutiu consigo, por isso lhe estou a ligar, procurei o seu número no telemóvel dele. Desculpe-me mas é que não sei o que fazer, não sei o que se passa.
Leonor sentiu-se trémula. Cheia de frio. Cheia de medo. Medo também de estar a empolar uma coisa sem importância. O que dizer?
- Está?
Estou, sim. Estava a ouvi-la.
- Desculpe, é que não a ouvia. Desculpe estar a incomodá-la a esta hora mas é que ele saíu de casa agora, ia desnorteado, nervoso, discutimos, discutiu com os filhos, e eu sem saber a quem pedir ajuda, mas não estou a pedir ajuda, estou só a querer perceber, desculpe a esta hora.
Deixe, não tem mal. Mas não sei bem o que lhe dizer. Ele anda nervoso, sim, mas acho que é o normal, é a pressão normal, se calhar ele anda mais cansado, são fases, passam, se calhar não há razão para preocupação, talvez ele devesse descansar.
- Mas ele disse que teve uma discussão consigo, que nunca esperaria isso de si. Eu em condições normais nunca lhe telefonaria por causa de uma coisa destas mas, da maneira que o vejo, já nem sei o que hei-de fazer e se pergunto é porque se eu soubesse o que se passa talvez pudesse ajudá-lo, não sei.
Mas não foi nada de especial, coisas de trabalho, diferentes maneiras de ver as coisas, nada de mais.
- Mas a empresa está mal, não está? Não sei se é também isso que o está a deixar preocupado.
Mal? Não. Mal não. Passamos por uma fase muito difícil, a conjuntura é a que se sabe mas, enfim, dadas as circunstâncias até não nos podemos queixar.
- Ah, pensei... como deixaram de pagar prémios e como cortaram os ordenados, pensei...

Leonor fechou os olhos, pôs a mão na cara, apeteceu-lhe chorar. Ficou sem saber o que fazer. Meu Deus. Duarte, Duarte, o que se passa?, pensou.
- Está?
Estou. Estou muito cansada, sabe. Tinha acabado de chegar a casa. Não me leve a mal. Percebo a sua preocupação mas não sei bem o que lhe dizer. Talvez convencer o Duarte a ir ao médico, a tirar uns dias. Mas deixe estar que eu amanhã vou conversar com ele. Depois, se eu achar que devo falar consigo, descanse, eu falo. 
- Obrigada. Agradeço. E desculpe a maçada. Obrigada.

Leonor desligou o telemóvel, pareceu-lhe que a mulher do colega estava a chorar ou a controlar-se para não chorar. Deitou-se no sofá, tapou-se toda com uma manta, cabeça e tudo, e desatou a chorar. Tanto o estranhamento, tanto o medo pelo que se poderia estar a passar, tanta a impotência. Em silêncio ouvia-se a perguntar, Duarte. Duarte o que se passa?

No dia seguinte tentaria falar com ele num outro registo e tomara que não se estivesse a passar nada de grave mas estava com um mau pressentimento. Adormeceu ali mesmo no sofá, a tremer.


*

  • A música linda, linda, é Riverside de Agnes Obel (e o vídeo merece também ser visto com atenção).

  • Para um registo nos antípodas, para saberem a minha opinião sobre o grande feito da troca da dívida da troca-tintas-albuquerca e, a seguir, sobre as arrecuas da cobra-crata, é descerem, por favor, até aos dois post seguintes.
  • Num formato um pouco diferente do habitual, tenho hoje o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa onde tenho poesia dita por Eugénio de Andrade e as minhas palavras perdem o tino por causa de um certo Green God. Muito gostaria de vos ver por lá.

NB: Hoje, uma vez mais, não consigo reler o que escrevi, passa das 2 da manhã e o sono é mais que muito. Já sabem, qualquer coisinha relevem, está bem? Mas coisas graves, avisem-me, sim?


*

E resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira!

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Duarte e Leonor (as coisas começam a complicar-se)





Dia de reunião de Direcção. Manel à presidência, o Dr. Lampião de um lado, Leonor do outro e todos os restantes à volta da grande mesa oval.

Os dados da empresa são apresentados, as vendas, os custos, as margens, a evolução dos projectos, elementos relativos a recursos humanos, a assuntos jurídicos e fiscais. Cada um se vai pronunciado sobre a sua área, a reunião vai avançando.


Quando chega a vez de Duarte, que está anormalmente mal humorado, as coisas começam a complicar-se. Engana-se, faz afirmações que não consegue sustentar, desculpa-se sem fundamentação, não consegue explicar porque continua aquém dos objectivos e tudo debaixo de um nervosismo que chega a incomodar. Quando o presidente o confronta e lhe pede que tente conduzir os assuntos de outra forma, com uma inesperada agressividade responde que só se receber ordens por escrito. Os outros entreolham-se, o clima não costuma ser este, as coisas andam complicadas, toda a gente o compreende, mas Duarte parece não se esforçar, ou não se empenhar suficientemente. Parece que há ali qualquer coisa que não anda a bater muito certo.

Quando diz aquilo de querer ordens por escrito, faz ao mesmo tempo um gesto brusco, como que com vontade de se levantar. Nessa altura, toda a gente em silêncio, Manel diz secamente, Duarte, se não estás bem mais vale que saias da sala.

Duarte levanta-se precipitadamente quase fazendo cair a cadeira e sai, batendo com a porta.

Leonor troca olhares de espanto com Afonso e com o Dr. Lampião. Qualquer coisa se está a passar.

A reunião prossegue sem que ninguém comente o que se passou. Dir-se-ia que nada de incomum aconteceu, todos aparentam a serenidade usual.

Quando a reunião está prestes a terminar, abre-se a porta e eis que Duarte está de volta, sorridente, bem disposto, aquela alegria esfuziante tão sua característica, ainda com o sobretudo, cachecol e óculos de sol, despenteado, percebe-se que deve ter ido dar uma volta. Manel pergunta-lhe, Então, já esfriaste as ideias? 

Duarte riu, bem disposto como se estivesse a entrar de novo e viesse para a paródia, Peace and love. Dei vinte voltas ao quarteirão e, com o griso que está lá fora, esfriei logo a cabeça. Estava na esperança que já tivessem acabado para desandarmos daqui e nos irmos atirar ao bacalhau da ordem.

Manel manteve-se sereno, Estamos quase.

Até a reunião acabar, Duarte mexeu-se na cadeira, puxou as meias bem até aos joelhos, fez desenhos, meteu-se com os colegas do lado, bebeu água como se não houvesse amanhã, piscou vezes sem conta o olho a Leonor. 

Afonso disse, Este gajo tem bicho carpinteiro. Manel riu-se na direcção de Duarte, Eras hiperactivo em criança se bem me lembro, certo? 
- Hiperactivo e precoce. Lembras-te da prima Zezinha?
Manel sorriu, Está calado e presta atenção senão terei que te convidar outra vez a ires dar outra curva.

Quando a reunião acabou e iam a pé para o restaurante, Leonor ia conversando com o seu amigo Dr. Lampião, como ela lhe chamava. Viu bem aquele despropósito, Leonor?

Estranho, não foi? As coisas não andam bem com ele. Será que está com algum problema? Primeiro num nervosismo que até contagiava, a seguir entra numa euforia disparatada. E os resultados na área dele andam péssimos e, sinceramente, ainda não consegui perceber bem porquê.
- O Manel tem uma paciência ilimitada com ele.
São primos, é natural que tente não arranjar problemas. É o mal de ter família próxima nas equipas. Ainda por cima o Duarte parece que anda nem sei bem como dizer, desorbitado ou lá o que é.

Estavam eles nisto, aparece o Duarte por trás, põe-se entre os dois, um braço por cima dos ombros de cada um, todo brincalhão, Então os pombinhos…? E dirigindo-se ao colega mais velho, Um dia ainda vou dizer à Maria Alice deste seu affair aqui com a nossa brasa.

Leonor, nem reagiu habituada que está a brincadeiras deste tipo, mas perguntou, Mas então, Duarte, que diabo foi aquele desacerto ao princípio? Passou-se ou quê? E era lá caso para isso? Não percebi.

Duarte riu-se, TPM, Leonor, TPM. Não dizem que toda a gente tem os dois sexos? Pois bem, eu tenho o meu lado de gaja muito activo nestes dias, fico com uma neura que não lhe digo nada. 

E afastou-se a rir para se ir meter com outro. Leonor chamou-o, Espere. Daqui a nada vou ter consigo.

Duarte riu-se, Com certeza. Vou estar à sua espera. Para não darmos nas vistas, desta vez pode ser naquele hotel da Praça de Espanha?

Leonor sorriu e respondeu, Não me confunda com a sua namorada. ... Praça de Espanha, então? É lá que se encontram? … Mas agora a sério, depois de almoço vou lá ter ao seu gabinete.

Simulando desilusão, ele respondeu, Pronto, se não quer ir ter ao hotel, recebo-a nos meus aposentos. Mas vou ter a lareira acesa para estarmos mais confortáveis, pode ser? E lá foi, rindo, fazendo-lhe adeus, e a meter-se com toda a gente.

Leonor fez-lhe também adeus na brincadeira. E tranquilizou-se. Bem disposto como Duarte estava, a coisa iria, certamente, ficar resolvida.

O almoço foi a boa disposição de sempre. Ninguém abordou, nem sequer ao de leve, o destempero matinal de Duarte.

Entre Leonor e Afonso não transpareceu mais intimidade do que entre quaisquer outros. Manel também não demonstrou qualquer acinte em relação a Duarte e este também não mostrou nem sombra de constrangimento pelo sucedido. O normal, portanto: gente civilizada é assim.

Depois de almoço, tal como combinado, Leonor dirigiu-se ao gabinete de Duarte. Estava ao telefone, todo divertido, contando piadas, rindo. Fez sinal a Leonor para se sentar na mesa de reuniões.

Quando acabou o telefonema, Leonor perguntou, Então, Duarte, é hoje?

Ele sentou-se à sua frente, sério, ar de quem se ia confessar.

Não vai acreditar, Leonor, mas não tive tempo. Não queira saber, aqui, como sabe, é um stress, só chatices, só reuniões, almoços, jantares, um pincel, e em casa, ou é a minha sogra com achaques, ou é a minha mulher que já nem dorme à espera dos telefonemas da mãe, ou são os miúdos, um que chega às tantas da manhã e se balda às aulas, outro que tem treino nem sei onde, ela que muda de namorado como de toilette, ou se põem a discutir uns com os outros e todos com a mãe, uma tourada. Tive lá eu tempo de tratar daquilo… Ora! E não tem mais nada com que se preocupar? Mas também qual é a pressa, Leonor? Já agora gostava de perceber.

Leonor levantou-se, Qual é a pressa? Eu não quero acreditar, Duarte! Está a gozar comigo? Sabe o que é que começo a achar? Que a coisa é séria. E, se é séria, não vai ser ao meu nível que se vai resolver.

Duarte pegou nos papéis que estavam à sua frente e afastou-os com violência. A ameaçar-me? Tem graça isto: a Leonor a ameaçar-me! Ao que chegámos…!

Leonor manteve-se imperturbável. Isto está a arrastar-se para além do razoável. Tenho vindo a dar o tempo que tem pedido mas acho que já passou tudo o que é normal. Não dá, Duarte. O que se passa? 
- Não passa nada, caraças!
Caraças?! 
- Sim, Leonor, caraças. Vá para o caraças!, e já aos gritos.
Mas você está doido… Está com algum problema, Duarte?
- Não me chateie. Não tenho problema nenhum. Ou melhor: tenho um problema sim. Chama-se Leonor. Olhe, ponha-se mas é  fora do meu gabinete.
Leonor saíu, tentando conter o nervosismo. Alguma coisa se estava a passar com Duarte, agora já não tinha dúvidas. Que situação. E agora?

Quando foi ter com o seu amigo para trocar impressões, já ele tinha saído. A Secretária disse, Já lá foi de férias, todo contente por ir rever o neto. Leonor sorriu mas pensou na falta que ele lhe ia fazer com os seus preciosos conselhos - conselhos sempre short and sharp mas infalíveis.

Leonor estava francamente preocupada, sem saber o que fazer. Sem querer contar a ninguém, não parava de pensar, um pouco atordoada, Que situação... Caraças!


||...||...||

  • Este episódio vem na sequência de um outro, um bocado lá mais abaixo, intitulado 'Leonor, a mulher' que, por sua vez, já era sequência de outros. 
(De vez em quando dá-me para escrever em directo, sem rede, estes folhetins blogosféricos. Cada maluco com a sua maluquice.) 

  • A música lá em cima é Katie Cruel interpretada por Agnes Obel  

  • Permito-me informar que, já aqui abaixo, poderão ler, ouvir e ver um interessante testemunho sobre a perigosidade da austeridade. É Mark Blyth e podem crer que ele sabe do que fala.
  • E, como se não bastasse, muito gostaria ainda de vos convidar a irem de passeio até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje, para além da boa música e vozes africanas, tenho as palavras voadoras sem tecto, sem chão, sem dono, de E. M. de Melo e Castro e o que eu gostei de andar de balouço com ele nem vos conto.

||...||...||

E, por hoje, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito boa a começar já por esta segunda feira. 
Apesar de fria e de ser segunda feira, um dia sempre ingrato, pode ser boa - porque não?

sexta-feira, novembro 29, 2013

Leonor, a mulher


Depois de uma tarde cheia de maçadas, telefonemas desagradáveis, gente a queixar-se, gente desmotivada e até desentendimentos entre colaboradores que acabaram em lágrimas, Leonor foi refugiar-se junto do seu amigo de sempre.

Sô Tôr...
- Qual Doutor... Antes enfermeiro.
Senhor Engenheiro, então…
- Senhora Engenheira…! Muito suspira a minha amiga…
Antes fosse engenheira.
- Está como eu. Engenheiros financeiros era o que devíamos ser.
Pois é… Mas, se não quer que o trate por doutor e também não por engenheiro, trato-o como? Por lampião?
- Lampião no bom sentido: sempre! Sou fiel aos meus amores.
Seja. Senhor Lampião… conte-me coisas boas. Estou precisada.
- Ah, está a pedir-me muito. Gosto muito de a ver feliz mas, desgraçadamente, boas notícias é coisa que não abunda por aí. Mas vejo-a com ar cansado, doutorinha. O que se passa?
Nada de especial. Estou cansada. Mas nada de mais. É o costume, muita coisa. E aí umas coisas com o Duarte. 
- Com o Duarte? Então?
Nada de especial. Se calhar não é nada. Mas estou cá com um feeling. Não sei. Mas tomara que não, senão não saberia o que fazer. Mas deixe lá, não é nada.
- Já hoje me apareceu por aqui o Manel também preocupado e também me deu a entender que era qualquer coisa com o Duarte. Será é a mesma coisa?
Não, acho que não, mas não sei o que é isso que preocupa o Manel.
- Já no outro dia a minha mulher encontrou a mulher do Duarte na Bertrand e ela fez um comentário que deixou a minha mulher muito admirada. Atribuí a que tivesse ouvido mal. Tomara que não haja problema nenhum com ele. É um bom tipo, gosto dele.
Então e eu? Claro que gosto imenso dele. Temos os nossos desaguisados mas é tudo da boca para fora. Mas olhe, deixe para lá. Rica vida é mas é a sua que já está reformado e só cá vem por desporto.
- Qual desporto? Venho porque não sei fazer mais nada e, ao menos aqui, a minha mulher não me atenta o juízo. Assim, aqui, posso olhar pela janela, pensar na vida, fazer umas pesquisas, dar uns palpites a quem mos pede, organizar aí umas coisas. Sou amigo do Manel e agora, que as coisas estão bravas, não quero virar-lhe as costas. E daqui vejo o mar, não se está mal. Além disso, enquanto aqui estou a minha mulher  faz a vida dela, também sem ter que me aturar. Quando nos encontramos ao fim do dia, já estamos cheios de saudades e é uma festa. 
Boa. Deve ser esse o segredo para ter tão bom ar e para ter um espírito tão jovem. 

- Ná. Isto foi das cachimbadas. Um verdadeiro elixir da juventude.

Está bem, mas ainda bem que deixou de fumar. Mas e agora outra coisa. Conte-me lá. Que livro anda a ler? E que músicas me recomenda? Sigo os seus gostos com devoção, já sabe. Nunca falha. Não quer enviar-me uma listinha com algumas dicas?
- Mando, sim senhora. Mando já amanhã porque no fim de semana vou até à Dinamarca e fico lá até ao fim do ano.
Sortudo. Quem me dera… Mas então amanhã venho cá despedir-me, está bem?
- Fico à espera. E descanse, descontraia, divirta-se. Não gosto de a ver com esse ar arreliado. Prefiro vê-la sorridente e combativa. Acha que há alguma coisa que justifique que ande a cansar a sua beleza...? Nada!
Acho que tem razão. Vou pensar nisso. Beijinhos à sua mulher.
- Serão entregues. Mas, como de costume, para mim nada...?
Leonor levantou-se, Sempre reivindicativo..., deu-lhe um beijo na face e saíu.

Ia mais confortada. Dali nunca saía aborrecida. Se há pessoa com bom coração, bom senso, inteligência e elegância é aquele seu colega. Junto dele procura apoio sempre que precisa.

Quando chegou ao estacionamento, mudou de sapatos, tirou o casaco grosso do porta bagagens e conduziu até à beira do rio.

Pelo caminho ligou o Afonso e, como de costume, deixou que o telemóvel tocasse duas vezes antes de desligar.

Noite cerrada. Um frio antárctico. Fechou o casaco até acima, enfiou as mãos nos bolsos e fez-se ao caminho. A meio caminho sentiu um braço por cima dos ombros e alguém a querer enfiar-lhe uma coisa na cabeça.



*



*

- Se não fosse eu o que seria de si?
Ai! Assustou-me! Um gorro? Ai que bom… e que quentinho que é. Estou melhor assim, sim senhor.
- Sou ou não sou aquilo que lhe faz falta? Confesse.
Então não? Um amiguinho que me apareça a meio da noite para me enfiar um gorro… Toda a gente precisa disso. Mas olhe lá: não tem frio? Todo esgargalado...
- Estava aqui à sua espera para não a deixar andar por aí sozinha. Mas espere um bocado para eu ir ao carro buscar roupa para a neve.
Quando regressou, já agasalhado, Leonor voltou à conversa, Mas, então, dizia você que me faz muita falta porque me põe gorros na cabeça... 
- E faço outras coisas.
Sim...? Diga lá a ver se há alguma de que eu precise. 

O passo ia acelerado, Leonor gosta de caminhar durante uma hora ao fim do dia e se está frio tanto melhor. A proximidade do rio, o silêncio da noite, as sombras furtivas, tudo aquilo lhe tira toneladas de cima dos ombros. E a companhia de Afonso também não é má de todo. Geralmente não falam de trabalho, vão na brincadeira. 
Afonso sorria, Leonor... Leonor... Está a pedir que eu lhe diga uma ou duas, não está?
Diga. Pode ser que acerte.
Afonso hesitou, Eu digo mas depois não se queixe, é você que está a pedi-las. Vou dizer. Dar-lhe um banhinho quente… pode ser?
Banhinho...? Banhinho, inho, inho… ah como está todo mariquinhas… um banhinho... E depois mais alguma coisinha, inha, inha…?
- Está a pedi-las, ah está, está.
Pois, bem que eu as peço mas você não se chega à frente…
- Essa é boa. Não me chego à frente? Está sempre a dar-me para trás e agora diz que não me chego à frente…?
E não chega mesmo. O que é que hoje já fez por mim para além de me enfiar um gorro pela cabeça abaixo?
- Leonor…Leonor… Não me desafie…
Desafio, desafio…
- Veja lá não se arrependa…
Mas eu sou lá pessoa de me arrepender? Mas está bem, já vi que consigo é só conversa.
Afonso parou. Mau.
Mau, mau Maria, disse Leonor a rir e parou também. Depois puxou-o para si e beijou-o. Ele abraçou-a com força enquanto se beijavam.
Quando pararam, ele disse, Que você é mazinha, ó Leonor…
Mazinha, eu? Mas porquê?

- Gosta de fazer sofrer, não gosta?

Eu? Nãããoo... Mas pronto, vá lá, eu agora sou boazinha. Vamos acabar o passeio e depois aceito o banhinho. E mais qualquer coisinha. Inha, inha. 


Afonso tirou-lhe o gorro, fez-lhe uma festa nos cabelos e disse, Deixe-me olhar para si Leonor. Que bonita que está, tão calma. 
Olhe bem que não é certo que depois de amanhã me volte a ver de tão perto, respondeu Leonor.

Afonso, abraçou-a, Cale-se, não diga disparates, limite-se a beijar-me.


E beijaram-se de novo, um beijo que parecia não acabar.


***

Este episódio é a continuação do de ontem intitulado Leonor, Duarte e Afonso, o qual, por sua vez, já era continuação de outros. Caso vos ocorra ler de seguida a história até ao ponto em que vai, poderão procurar aí de lado, lá mais para baixo, a etiqueta 'Leonor e Afonso'.

A música lá mais acima é Our love is easy de Melody Gardot (que, como não consegui incluir aqui na versão cantada por ela, coloquei uma versão interpretada por Clementine Noordzij (La Clé de Soul)).

**

Não quero estragar o climinha mas, se me permitem, deixem que vos informe que, a seguir, poderão saber (se é que ainda têm dúvidas) o que penso do Paulo Portas, Pires de Lima, Aguiar Branco e outros que hoje me apareceram na televisão todos contentes quando, se tivessem um pingo de vergonha na cara, pintavam-na de preto, enfiavam-se debaixo de uma mesa, fugiam para Espanha, uma coisa qualquer. é só descer um pouco mais.

***

E, por hoje, é tudo. Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira.


quinta-feira, novembro 28, 2013

Leonor, Duarte e Afonso.





Duarte, que é Duarte Maria, transborda de energia. Onde chega espalha charme, alegria, distribui piropos às mulheres, dá palmadas nas costas dos homens, diz piadas, senta-se à secretária e roda-se na cadeira, pede café, pede telefonemas, chama colaboradores ao gabinete, responde a mails e, pelo meio, ainda consegue enviar sms picantes à namorada.

Escusado será dizer que as mulheres se derretem com ele. A idade nele é um luxo que veste com a mesma elegância com que veste fatos feitos por medida, camisas com monograma, sobretudos que lhe caem como a um modelo Armani.

A manhã foi passada no frenesim habitual, a Secretária numa azáfama. As outras invejam-na. Não há por ali quem tenha melhor chefe que ela. Ele repara no que ela traz vestido (e o que ela se produz…), repara no corte de cabelo, repara se a pintura ficou um tom acima ou abaixo (Olhe que o cabelo mais claro a torna parecida com aquela daquela série, e toda ela se enleva; ou, Sim senhor, mais morena… e nem sei se não lhe fica melhor…, e ela sente-se aliviada porque aquela cor não deveria ter ficado tão acentuada), elogia-lhe os sapatos, detendo-se a olhar para as pernas e ela até acha graça a tanto descaramento, desfaz-se em mesuras de cada vez que lhe pede mais um café, pergunta-lhe pelo filho, pergunta-lhe pela mãe e tudo no meio de telefonemas e outras conversas.

De cada vez que ele, apressado, passada longa, atravessa o open space o mulherio estremece. E à sua passagem fica um rasto de perfume e sedução.

As picardias entre Duarte e Leonor são conhecidas. Dir-se-ia que há ali uma relação de amor-ódio que os anos não resolvem. Profissionalmente têm desentendimentos e discussões que ficam para a história da empresa. Ela acha-o superficial, gabarolas, gosta de armar show off, diz-lhe a ele próprio que ele se acha melhor do que aquilo que é. Ele diz-lhe que ela é intolerante, germânica, militarista, insuportável. Ela gosta de tudo bem explicado, gosta de avaliar planos antes de avançar, gosta de cumprir ao milímetro os planos e não tem paciência para as ligeirezas e imaturidades dele - isso é um facto.

No entanto, é reconhecido que se admiram mutuamente e que, até, se estimam. Mas, vá lá saber-se porquê, de vez em quando fazem faísca de uma maneira que os outros até se afastam. Deixá-los, dizem os outros, que se entendam.

De tarde, Leonor avançou para o gabinete dele. A Secretária apareceu para saber se queria um chá, Leonor disse que sim, de camomila. A Secretária disse, O doutor foi só ali, não deve demorar. 

Leonor percebeu que teria ido à casa de banho. Tinha-o visto a chegar de almoço.

Pouco tempo depois chegou ele, todo gingão, todo na animação do costume. Desatou-se a rir. Ela riu também, Qual a piada?

Mandaram-me uma coisa por mail e estava a lembrar-me: como noticiariam hoje os nossos media a história do Capuchinho. 
- Como era?
Não me lembro de tudo. Mas, ao dizer isto, já se ria como um perdido. Leonor também já se ria.
- Vá, diga lá…
Por exemplo: o Correio da Manhã diria ‘Governo envolvido no escândalo do Lobo’ e, ao dizer isto, ria-se à gargalhada. 

A revista Maria diria ‘Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama’ e já chorava a rir, e só de o ver a rir assim, também já ela se ria de gosto. Com muito esforço, ele continuou, Ou a Bola, ‘Lobo Mau será reforço de inverno na Luz’

Entretanto a Secretária chegou com o chá para Leonor e um café para Duarte e interrompeu a galhofa.

Duarte, entretanto assoava-se. A Secretária disse, O doutor continua com alergia…’. Duarte explicou, Não, estou bem, é de me ter estado a rir.

Quando a Secretária saíu e ele se voltou a sentar à mesa, Leonor disse-lhe, E sobre aquilo de ontem?

Duarte, de repente entre o nervoso e o agitado, Já disse que é um mal entendido qualquer. Não me lembro bem o que terá sido mas dê-me tempo que eu explico tudo. Não vale a pena dramatizar uma coisa que é uma porcaria sem importância nenhuma. Não sabe como tem sido a minha vida? Road shows, reuniões e mais reuniões, um dia cá, outro noutro sítio… 

Leonor mostrou boa cara, Não estou a dramatizar. Se alguém dramatizou a coisa, não fui eu, pois não? Um ataque de histeria ou o que foi aquilo e eu é que dramatizo? Ora, poupe-me. Resumindo: vai explicar ou resolver ou o que for, certo? Até quando? Até amanhã?

Duarte, ar aborrecido, Até amanhã? Está a brincar comigo ou o quê? Até amanhã? E fica você agora aqui a aturar os chatos que aí vêm? Ou vai você com eles à noite ao Eleven? Poupe-me você. Para a semana a coisa está esclarecida e até lá deixe-me trabalhar em paz que é aquilo de que preciso.

Leonor levantou-se e com uma voz muito calma respondeu. Na segunda feira venho aqui ter consigo e fechamos o assunto.

Passado um bocado, depois de ter feito um breve ponto de situação com os colaboradores mais directos, Leonor voltou para o gabinete.

Pouco tempo depois entrou Afonso. Esteve com o Duarte, não esteve?

Leonor respondeu, Bolas. Temos controlo operário, ou quê? 
- É, não operário mas da NSA, e dizendo isto, riu-se e fez adeus para o tecto como se por ali estivessem a ser filmados, espiados.  Mas, depois, continuou. Olhe, ele falou-lhe em alguma coisa do que se passou?
De que é que está a falar?, perguntou Leonor e via-se que tentava disfarçar a curiosidade.
- Hoje de manhã, estava eu no gabinete do Manel, ligou-lhe aquele japonês que cá esteve a semana passada e parece que disse qualquer coisa do Duarte que deixou o Manel em polvorosa. 
Sim? O que foi?
- Não sei, não me contou, mas ficou para morrer. O Duarte a si não tocou no assunto?
Não. Estava na maior das boas disposições.
- Ah, isso anda ele sempre. Aliás demais para o meu gosto.
Não seja implicativo. Olhe, mais logo vem comigo?
- Mas vai? Mesmo? Tem a certeza disso?
Claro!
- Claro...!? Não sei se é assim tão claro. Com um frio destes, ir andar para a beira do rio à noite não sei se é boa ideia.
Eu vou. Você se quiser venha, se não, tudo bem. E agora vá-se embora que tenho que trabalhar.


*

> Para os new comers: este episódio vem no seguimento do de ontem, intitulado, 'Leonor em toda a sua nudez' que, por sua vez, já era seguimento de outro.

> A música é Another Brick in the Wall dos Pink Floyd (vejam vocês bem do que eu me fui lembrar)

> Informo também que, fresquinhos, fornada do dia, há mais 3 posts por aí abaixo e são para todos os gostos (digo eu).

> Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje Benjamin Schmid tem uma nova excelente interpretação no violino e José Agostinho Baptista me leva a percorrer corredores vazios cujo chão está repleto de pétalas secas de uma certa rosa.


Nota: Estou perdida, completamente perdida de sono, não vou rever o que escrevi mas aviso já que pode muito bem estar carregadinho de gralhas de toda a espécie. Relevem, está bem? Amanhã ao fim da tarde logo tentarei rever.

*

E pronto, c'est ça. Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela quinta feira.