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terça-feira, novembro 05, 2024

Terra maravilhosa
- E receita de arroz de feijão com picadinho e quiche de frango e espinafres --

 


Choveu que deus a deu. Mal deu para sair de casa. Ao fim do dia, então, foi torrencial. O maluco do cão andava sabe-se lá por onde. O meu marido chamou por ele e nada. Mas com o barulho da chuva, estando ele longe, dificilmente ouviria. Passado um bocado apareceu. Escorria. Um pinto.

De tarde, estávamos na sala, sentados no sofá que dá para a rua. O meu marido, então, exclamou: 'Olha ali, um esquilo.' Mas, com a chuva e sem saber exactamente onde, não vi. Passado um bocado o meu marido viu outra vez. Andava nos cedros. O meu marido acha que eram dois.

Pouco depois, vi um vulto a dar um grande salto na pedra grande aqui ao pé da porta. Levantei-me para tentar confirmar mas já não o vi. 

Por debaixo dos pinheiros há pinhas roídas como nunca vi. Tantas, tantas. Ou andam esfomeados ou são vários. 

Mas talvez ainda mais extraordinário são os novos cogumelos. 

Nascem todos os dias. O meu marido levanta-se cedo e vai apanhá-los. Com a Lens do Google temos visto que vários são venenosos e, por isso, não vá o cão algum dia sentir algum interesse, é melhor não os ter por aí. Claro que o meu marido já anda saturado pois apanha baldes e baldes deles. A curiosidade é que, embora ainda haja dos marrons e brancos, agora aparecem amarelos, cor de laranja, cor de coral. 

E são vibrantes, brilhantes, aparatosos. Lindos. Estes aqui acima bem como o último, lá mais abaixo, já tinham sido arrancados pelo meu marido. Fotografei-os antes de serem levados.

Como é que da terra brota tal quantidade e variedade de seres extraordinários? O que há no subsolo para estas maravilhosas criaturas lá serem geradas desta maneira, tão perfeitas, tão coloridas?





Ando à chuva, a ver tudo isto, a fotografar, encantada com os pequenos filamentos de musgo, as inocentes folhinhas verdes, os líquenes, os pauzinhos, tudo. 

Tirando isso, fiz um arroz de feijão com picadinho para o almoço.

Fiz assim. No outro dia tinha comprado igual quantidade de carne limpa de vaca e outro tanto de porco, tendo pedido no talho para picar 1 vez. Foi para fazer hambúrgueres recheados de queijo para os meninos. Mas era carne a mais e, por isso, não usei toda e congelei o que não usei.

Hoje, numa frigideira coloquei um pouco de azeite, uma cebola picada, uns 3 ou 4 dentes de alho, salsa picada, 1 folha de louro. Quando alourou um pouco, juntei um tomate aos bocados, uma mini, e a carne, entretanto descongelada. Temperei com um pouco de sal e um pouco, mesmo pouco, de açafrão-das-índias. 

Entretanto, para outro fim, tinha a cozer, 2 peitos de frango do campo.

Quando o frango estava cosido, deitei o caldo no tacho do arroz. No conjunto, a olho, calculei que o caldo que estava no tacho deveria ser o equivalente a 2 copos. Juntei, então, 1 copo de arroz. Já sabem que uso geralmente o basmati. Acho mais saboroso e mais fiável.

Quando o arroz estava quase, juntei 1 frasco inteiro de feijão encarnado cozido com caldo e tudo (mas quase não tem caldo). Este foi do Lidl. É bom. Misturei.

Quando o arroz estava cozinhado, desliguei. Coloquei um fio de azeite e deitei umas esguinchadelas de vinagre. E, com um garfo, misturei ao de leve. Ficou a apurar. Ficou bom (modéstia à parte).

Claro que sobrou mas é da maneira que esta terça-feira não preciso de cozinhar. Até porque, para o jantar, fiz quiche de frango e espinafres e sobrou bastante.

Esta fiz assim.

Liguei o forno no máximo. Tinha comprado uma embalagem de massa quebrada já estendida. Untei uma forma com azeite e orégãos. Forrei-a com a massa. Piquei e levei ao forno, colocando o formo em 180º.

Entretanto, desfiei os peitos de frango. Numa frigideira, coloquei um pouco de azeite, uma cebola grande às rodelas e fritei-a ao de leve. Juntei, então, uma embalagem inteira de espinafres folha baby e volteei-os com um pouco de sal. Com o lume baixo, coloquei uma tampa, apenas para não irem inteiramente crus ara a tarde. Mas tive-os lá coisa de uns cinco minutos, se calhar nem tanto.

Num copo misturador, juntei 4 ovos inteiros, um pacote de natas light, umas pedrinhas de sal e também uns pós de perlimpimpim de curcuma (coisa que dizem que é super saudável). Bati, mas não é preciso muito, 1 minuto chega.

Tirei então do forno a forma com a massa já um pouco cozinhada. Coloquei o conteúdo da frigideira, depois o frango desfiado e, a seguir, os ovos com as natas. Tapei com queijo ralado, 1 embalagem. Polvilhei com orégãos e coloquei um fio de azeite.

Foi ao forno a 180º. Cerca de 30 minutos.

Boa. Comemo-la ainda quentinha e acompanhámos com salada.

Sobrou, claro. Com sorte, entre a quiche e o picadinho, com salada à mistura, ainda sobra alguma coisa para quarta-feira...

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Lá em cima Dinah Washington interpreta What Difference A Day Makes

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Desejo-vos uma bela terça-feira

Boa sorte para todos

[E, claro, que ganhe a Kamala Harris]

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Sem título





Às vezes os dias teimam em não passar, arrastam-se na maior indolência, sem história nem tremura de pele que os distinga. Não sei se posso afirmar, suportada pela estatística, que geralmente isso me acontece em dias de céu cinzento e pressão atmosférica incerta. Mas, com base no que agora estou a sentir, afirmo.

Não gosto de dias assim, acho que estou a desbaratar um bem precioso. Num deserto, ver uma fonte a deitar um vagaroso fio de água e passar-lhe adiante, com desdém (sem perceber que, mais à frente, quando a carne mirrar de tão seca, poderei já não ter como reverter a situação), parece-me até desfaçatez.

Então invento aventuras para poder ter com que entreter a cabeça e o coração. Pulo cercas artísticas, deslizo invisível por salas de museus, espreito quadros nas paredes a ver se algum me acelera a batida, percorro jardins, enfio-me nas grutas mais escuras, chamo o papão, desenlaço tranças imaginárias para ter com que enlear algum incauto príncipe que se aproxime, bebo licores raros a ver se algum me faz sentir especiosa -- qualquer coisa.

Outras vezes, em dias de mansidão, apenas abro clareiras para que a sombra do tédio se afaste e chegue até mim a luz das páginas de algum livro que me encontre. Não me esforço, apenas espero que seja livro com falas de pintores desaluados, diários de escritores tresloucados, reflexões de pernas para o ar de algum filósofo arredio, frases soltas de algum bem-aventurado, cartas de poetas a editores, recados de mulheres friorentas a homens tratadores de árvores -- coisas assim.

Ou, se a preguiça do dia já se me colou à pele, deito o olhar pela janela e ele, sozinho, que escale a serra ao fundo, que encontre os espigões de rocha onde se fixar, que deite mão às lianas por onde possa balouçar-se até encontrar o cume, o leito, a razão de ser.

Pode acontecer também que esteja completamente serena, uma vontade de doçura e subtileza, e que uma palavra, um olhar, um sorriso faça por valer o dia. Em dias assim, de brandura e calidez, posso até procurar o nome de flores generosas para, em imaginação, as passar nos pulsos, no recôndito do detrás da orelha, no prenúncio dos seios. Mas têm que ser raras e desconhecidas: boronia, tuberosa. Adentro-me então em procuras: que outros nomes têm, com que se parecem. Fico contente quando as reconheço: magnólia, nardo, loendro. Hesito, então: será que não as deveria temperar com rosas e jasmins ou com a folha fresca da laranjeira? Ou escavar uma abertura no tronco grosso de um pinheiro da longínqua Flandres e mergulhar lá as mãos, encostar a nuca, deixar que o cheiro activo da seiva roce a minha pele? Imagino como um véu invisível, feito de um bouquet irreal, traria maravilhas únicas aos meus dias parados. E, com isto, os dias agitam-se, preenchem-se de vontades - onde encontrar as flores, como misturá-las, como imergir nesse manto leve de perfumes inventados?


Dias feitos de silêncios. E, neste esvair de tempo, por vezes consigo sentir que os momentos que invento enriquecem o meu viver. Mas se isso não me satisfaz ou se algum sucedimento não pousa no meu dia, pois então desato as mãos e deixo que a rede dos meus pensamentos se espalhe no espaço. E fico à espera.


Agora que escrevi isto, olhei pela janela, espreitei o céu. Se nada vejo é porque os meus olhos ainda andam desaprendidos do indizível. Mas sei que há uma flor navegando pelos ares, que há água e estranhas formas de vida noutros planetas, que há milhões de sóis, milhões de céus, milhões de sonhos perdidos em órbitas desencontradas, palavras flutuando sobre as ondas que as marés siderais levam e trazem, medusas aladas, anjos, luas, pedrinhas, memórias, braços que procuram abraços, sons estelares, infinitos nadas; e lugares escuros, sem tempo, onde passado, presente e futuro se misturam. E então ocorre-me que só tenho que me deixar estar porque a chave que desvenda a minha existência está algures, presa entre os dentes de algum misterioso ser que de longe me olha, me desafia, me seduz, me envolve em segredos, em ternuras, em subtis destempos.

E assim vou vivendo, esperançosa, paciente, deixando palavras destas pelos ares, palavras que às vezes entram no coração de alguém, palavras que, tantas vezes, se perdem de mim e que ninguém vê, ninguém ouve, ninguém toma para si, palavras que não compreendo, palavras ditadas por uma alma que não me habita.


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Ao pé dos cardos sobre a areia fina 
que o vento a pouco e pouco amontoara 
contra o seu corpo (mal se distinguia 
tal como as plantas entre a areia arfando) 
um deus dormia. Há quanto tempo? Há quanto? 
E um deus ou deusa? Quantos sóis e chuvas, 
quantos luares nas águas ou nas nuvens, 
tisnado haviam essa pele tão lisa 
em que a penugem tinha areia esparsa? 
Negros cabelos se espalhavam onde 
nos braços recruzados se escondia o rosto. 
E os olhos? Abertos ou fechados? Verdes ou castanhos 
no breve espaço em que o seu bafo ardia? 
Mas respirava? Ou só uma luz difusa 
se demorava no seu dorso ondeante 
que de tão nu e antigo se vestia 
da confiada ausência em que dormia? 
Mas dormiria? As pernas estendidas, 
com um pé sobre outro pé e os calcanhares 
um pouco soerguidos na lembrança de asas; 
as nádegas suaves, as espáduas curvas 
e na tão leve sombra das axilas 
adivinhados pêlos... Deus ou deusa? 
Há quanto tempo ali dormia? Há quanto? 
Ou não dormia? Ou não estaria ali? 
Ao pé dos cardos, junto à solidão 
que quase lhe tocava do areal imenso, 
do imenso mundo, e as águas sussurrando - 
-ou não estaria ali?... E um deus ou deusa? 
Imagem, só lembrança, aspiração? 
De perto ou longe não se distinguia.

[Metamorfose de Jorge de Sena
-- poema deixado por Rosa Pinto em comentário abaixo e que me deixou emocionada]
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Hubbard Street Dance Chicago dançam “Waxing Moon” numa coreografia de Robyn Mineko Williams, com os bailarinos Jacqueline Burnett, Jonathan Fredrickson

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Já respirei fundo, já fiz uma pausa.
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E agora deixem que vos convide a descer até ao post seguinte onde fiz uma entrada de pé em riste na direcção do Miguel Sousa Tavares, o gémeo separado à nascença do João Miguel Tavares (facto a que, bem entendido, Sophia, a mãe do primeiro, é alheia)

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