Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, setembro 08, 2014

Lembrar o mar que me entrava pela janela, os restos de caravelas que o sal da água trazia, as aves que passavam sem que eu as contasse e as palavras que me incendeiam os sonhos
















deixa que o mar te chegue pela janela e traga uma onda de luz













espera que no sal da água venham
os restos de uma caravela

















senta-te no frio rumorejo da areia
e conta as aves que passam
















e se no céu uma nuvem ensombrar a luz
confia na palavra que te incendeia










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Poema 473 de Viandante Viator em Homo Viator

Fotografias feitas na Meia Praia (a primeira feita a partir da janela do quarto).

O primeiro vídeo é Dança do Mar - O bailado das medusas (ao som de Nocturno de Chopin)

O último é o poema Ode to the sea de Pablo Neruda lido por Ralph Fiennes


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Estava a tentar acabar o post que ontem deixei a meio mas não estou a conseguir encontrar as imagens que queria com a rapidez necessária pelo que ainda não é hoje. Esta segunda feira reinicio a minha vida normal, acabam-se-me os folguedos em horário útil. E volto a ter que me levantar cedo, cedo, cedo, coisa que é contrária à minha natureza noctívaga. Mas contra factos não há argumentos: acabaram-se-me as férias grandes. Quinze dias úteis muito bem vividos. Ainda tenho uns diazitos que farei render até final do ano. É a vida, já lá dizia o outro.


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Para A noite do mundo com homens que andam sobre o mar talvez procurando a sua sombra, é descer, por favor, até ao post seguinte.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana
(e a mim também desejo pois a readaptação nunca é fácil e vou entrar no meio de mil coisas, que bem as fui acompanhando, com o coração ao largo, através das dezenas de mails diários que fui recebendo. Ai...)


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domingo, setembro 15, 2013

O suave correr do tempo nestes dias de fim de verão aqui, in heaven.


No post abaixo falo de um lugar clandestino habitado por silhuetas para onde gosto de me esgueirar para dançar um tango e ouvir palavras de amor (tudo se passa apenas em sonhos, mas paciência).

Mas aqui, agora, o tom é outro.

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Que soe a música do Romance


(Mozart)



O sol em Setembro é muito doce e eu aproveito o seu calor brando e a sua luz suave, andando pelos caminhos em que por vezes as árvores fazem uma sombra rendilhada, sentindo sobre a minha pele a macieza de quem se prepara para se despedir.

Estou in heaven. Agora que estou a escrever, muito tarde, noite avançada, a temperatura baixou bastante. Há instantes, abri a porta que dá para a rua e estive aqui fora, gosto de sentir este fresco. As árvores tapam a lua. Poderia aventurar-me mais, às escuras, para a poder ver, nua e branca como eu. Mas tenho algum receio. E está frio.




Embora sozinha, a estas horas tardias, não me aventure para muito longe da casa, gosto de estar na rua de noite, ouvindo os sons vagabundos que não se percebem de onde vêm. Bichos? O vento? Recordações? 

Mas se agora está frio, de dia esteve um sol quente, bom. A hora que prefiro é o cair da tarde. Os cheiros intensificam-se, os pássaros aquietam-se, as sombras ficam elegantes.

Estive deitada no banco de pedra que está ao pé do grande pinheiro que não pára de crescer. Se tivesse o corpo coberto talvez a caruma que tapava o banco fosse uma cama macia. Assim, para não me picar, retirei-a, deitei-me directamente na pedra. Gosto de olhar o céu através da copa das árvores.




Ali estive, vendo os desenhos que as sombras desenhavam no muro. Lembrei-me de Barceló que, na entrevista ao Expresso, diz que anda a usar apenas o branco nas suas pinturas. Aqui havia também o cinza desenhando arabescos no muro que também já não é branco, o tempo vem enriquecendo a sua cor.


Do banco onde me encontrava ia sondando com o olhar os caminhos que, em tempos, imaginei e que agora vejo como os via dentro dos meus sonhos. 

Labirintos abertos por onde é bom andar, por onde é bom ir vendo como o tempo os vai mudando. 

Daqui a nada será inverno, o verde do musgo invadirá o chão, os muros, nascerão cogumelos imprevistos, as árvores escorrerão da frialdade da noite, os pássaros estarão escondidos.


Mas agora ainda nem sequer é Outono, agora é apenas o Verão que começa a despedir-se.


E depois, aos poucos, a luz foi ficando mais dourada e eu, encantada, desloco-me como uma gata procurando os melhores recantos, aqueles em que a luz se detém mais demorada, mais dourada.




Pode ser entre a renda de uma teia, a luz quase prateada, aprisionada entre um esboço de folhagem: e eu ali fico, maravilhada. Nada se compara à beleza das coisas simples.




Na mesma árvore coexistem as folhas ainda verdes e as que já estão folheadas a ouro. Tanta a fragilidade destas (de todas, aliás). Sei que estão assim douradas porque o seu fim se aproxima. Mas para que vou estar a pensar nisso? Agora ainda aqui estão e isso é o que interessa, que alguém as olhe e as ache belas (porque a beleza só sabe bem se virmos reflectido no olhar dos outros o encantamento que a beleza desperta).




Gosto de fotografar o beiral ao longo do ano. O céu vai mudando, a folhagem também. Na Primavera a folhagem está viçosa, o céu incerto; no Verão está assim, de um verde quente, quase dourado, o céu despreocupadamente azul;  não tarda, no Outono, vai estar cor da terra à qual as folhas estão quase a voltar, e o céu começará a toldar-se. No Inverno os ramos estarão nus, prontos para acolherem os rebentos que virão para renovar a vida e o céu estará branco ou cinzento, carregado de água.

E eu, cá em baixo, olhando o beiral e o plátano e o céu e vendo o tempo que passa.




Se estou na cozinha a esta hora do sol que se põe, perco-me a olhar cá para fora mas hoje olhei a janela da cozinha pelo lado de fora e quase me vi lá dentro, parece que eu já estou nas coisas deste lugar. Gosto tanto da minha cozinha, tão luminosa, tão boa para se estar lá a preparar as refeições. Há uma chaminé larga sobre o fogão e, quando estamos cá fora, se há comida ao lume, sentimos o cheirinho bom que sai e se espalha no ar, misturando-se com o perfume da figueira, dos cedros, dos pinheiros.




Continuo a andar pelos caminhos, por entre as árvores. Podia ser uma gata, eu. Às vezes passa aqui à porta uma gata sinuosa (ou um gato, não sei). Olha cá para dentro, curiosa, e depois segue. Tolera, portanto, a nossa presença. Ou podia ser um pássaro. Há aqui muitos pássaros. Sinto-os mais do que os vejo. Já pensei: vou arranjar uns pratinhos com sementes e vou espalhá-los por aí, em cima dos muros ou dos bancos, para ver se os atraio, quero vê-los de perto, quero que se habituem a andar ao meu lado, quero que me ensinem a voar.

Espreito por entre o alecrim, a folhagem da azinheira e do pinheiro, que dourado que está tudo, que doçura que há no ar. Vejo como a luz dourada ilumina também as outras mulheres que aqui habitam, as de Rivera, as de Szenes, outras.




Até que o sol quase se põe, começa a esfriar, terei que vestir qualquer coisa ou que me recolher. E é já de dentro de casa, à porta, que espreito o pôr de sol, o céu que fica encarnado, as árvores que adquirem um ar secreto.




Depois ficou de noite. Tão silenciosa, tão boa. A casa em sossego, os meus livros aqui desarrumados ao meu lado, vocês aí desse lado velando por mim. Lembrei-me agora de ir espreitar as estatísticas para poder escrever isto: só nesta última hora (entre a 1:19 h e as 2:19 h) estiveram aqui, junto a mim, trinta e seis pessoas, grande parte de Portugal mas doze do Brasil, duas dos Estados Unidos, duas da Venezuela e uma da Alemanha. Mas não são números. São anjos bons, são amigos, são luzes brilhando no horizonte? Não sei. Mas sei que gosto muito de estar a escrever e saber que vocês estão aí.


Amanhã irei de novo lá para fora, colher raios de sol, apanhar figos, pôr outros a secar, ver se ainda há amoras, apanhar uvas, comê-las logo de seguida, estão doces como mel, percorrer caminhos à procura de sombra que o sol, de dia, está quente, tentar descobrir pássaros no meio das ramagens, depois deitar-me a ler, ao sol, sentindo a luz a aquecer docemente a minha pele.

Mais tarde, à noite, já olhando o rio, aqui virei de novo para vos deixar as minhas palavras. Bem hajam vocês, por gostarem de vir fazer-me companhia. Obrigada mesmo.

*

Um rasto de água arde sobre o corpo,
cresce mansamente dentro dos olhos,
salta-me húmido pelos lábios.
Pequeno fruto trazido pela aurora,
um jogo de volúpias azuis ao anoitecer.

Enlouqueço nas trevas, ébrio do teu cheiro,
quando a ausência se desenha
e sinto o estrangulado desejo da rosa,
a fria e frágil flor em que te desfolhas.
Luz, labareda, sangue e fogo.

Um sismo desliza-te pelo ondular do ventre,
se eu chego na lonjura do tempo,
se te cavalgo no cerrado campo do corpo.
Uma silhueta vem na sombra do silêncio:
toca-te os olhos, desce sobre o mar


['433. Um rasto de água ardia sobre o corpo' de Homo Viator]


«««»»»

Permito-me relembrar o Hernando's Hideaway em duas versões dançantes já aqui abaixo.

E, por agora, nada mais - apenas quero ainda desejar-vos um domingo cheio de graça.

sábado, dezembro 29, 2012

Sobre a Solidão - filosofia, psicologia, fotografia, música e poesia


Por estes dias, com a casa desatinada, um entra e sai com algum pó fininho à mistura, pouco mais posso fazer do que abrir a porta a quem toca à campainha, responder a uma ou outra pergunta relativa ao sítio exacto onde quero um projector, uma tomada, coisas assim. Só quando todos tiverem terminado é que se poderá limpar, pôr os móveis no sítio, arrumar.

A meio da tarde era para vir a turminha da (des)arrumação, pressupondo que as obras teriam terminado e que já haveria algum canto utilizável mas, afinal, com alguns extras, a coisa derrapou e só acabam amanhã. Ou seja, não puderam vir. Vinham talvez para dar uma ajuda, para lanchar, para estarem uns com os outros e, penso eu, também para me manterem acompanhada e ocupada (uma coisa de tipo terapia ocupacional pois acho que pensam que eu não consigo estar sozinha). 

Mesmo quando, este verão, estive em casa, recuperando das intervenções cirúrgicas, acho que não deve ter passado um dia em que não me arranjassem programa ou, se isso aconteceu, deve ter sido colmatado por  vários telefonemas. Às vezes pensava que à tarde ia conseguir pôr-me a ler um livro e deixar-me dormir, dormir uma bela sesta; mas, que me lembre, se isso aconteceu, deve ter sido coisa rara.

Não sei, pois, o que é solidão. Aliás, quase não consigo, sequer, saber o que é estar sozinha, sossegada. Estar sozinha, descansada, dispor do meu tempo e do meu espaço é coisa rara. Talvez também por isso goste tanto de ficar acordada até bem tarde, até à uma ou duas da manhã, senão mais. São momentos meus.

Mas já a solidão involuntária me parece coisa assustadora. Não gostaria nunca de experimentá-la.

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Música, por favor



Billie Holiday - Solitude

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No entanto, do que conheço da vida, apercebo-me que há muitas pessoas solitárias e que, aparentemente, não se esforçam por deixar de o ser. Recolhem-se dentro das suas casas, dentro de si mesmas, quase como se temessem que a quebra da sua solidão pudesse trazer-lhes males ainda maiores. E nota-se que a imagem de pessoas felizes, descontraídas, atenta contra a dormência em que se habituaram a viver ou, então, nota-se que isso as torna ainda mais tristes, sozinhas ou vazias.




Mas a solidão, não no sentido sofrido de isolamento, mas no sentido da imersão em si próprio, no que de mais íntimo existe em si mesmo, pode ser pacificador, ou pode ser um desafio.

Vem isto a propósito do interessante texto, Solidão, do blogue Homo Viator. Trancrevo uma parte: Estar só é entrar no segredo da nossa natureza e aceitar a nossa condição. Dizer que a solidão é a nossa condição tem a vantagem de mostrar que o solitário não é o produto de nenhuma decisão heróica, mas de uma conformação com aquilo que se é. Não há tragédia nem sequer drama na solidão. O que pode ser doloroso é o medo da solidão, a fuga perante a nossa natureza, a impotência perante o segredo que nos constitui e rumoreja no fundo de cada um.

Mas vem também a propósito de um interessante artigo da autoria de Kendra Cherry que, curiosamente li hoje   a seguir ao almoço (antes de ter lido o texto acima referido do Homo Viator), artigo que tem o nome de Loneliness - Causes, Effects and Treatments for Loneliness.

Este artigo é baseado na investigação de John Cacioppo, um psicólogo da University of Chicago e um dos mais proeminentes especialistas em solidão.

Nesse artigo leio que a solidão não tem a ver com estar-se sozinho mas, em vez disso, com a sensação predominante de se estar sozinho e isolado, distante.




Leio também que a solidão está fortemente ligada a aspectos genéticos.

Traduzo livremente o texto: há outros factores que contribuem, como os que têm a ver com a própria situação tal como o isolamento físico, a mudança para um sítio onde não se conhece ninguém ou o divórcio. A morte de algum ente querido também pode levar a que se sinta solidão. No entanto, a solidão também pode ser o sintoma de alguma desordem psicológica tal como a depressão. Pode também resultar de factores internos como, por exemplo, de uma fraca auto-estima. Pessoas a que lhes falta confiança em si próprias acreditam, muitas vezes, que não têm motivos de interesse para que os outros lhes prestem atenção ou dediquem, sequer, um olhar. Isto pode levar ao isolamento ou à solidão crónica.




Continuo a traduzir: A solidão tem uma série de efeitos negativos, quer a nível físico, quer mental. Alguns dos riscos de saúde associados incluem:

. Depressão e suicídio
. Doenças cardio-vasculares e enfartes
. Níveis acrescidos de stress
. Redução da memória e da capacidade de aprendizagem
. Comportamento anti-social
. Dificuldade em tomar decisões
. Alcoolismo ou outras dependências
. Progressão da doença de Alzheimer
. Alteração de algumas funções cerebrais

De um artigo do site Ciência Hoje, da autoria de Ana Margarida Nunes sobre a mesma investigação, leio que  a “solidão pode contagiar-se” mas também se pode tratar. O tratamento para a solidão pode passar por um aumento do exercício físico, por psicoterapia, por inclusão num grupo de voluntariado onde a pessoa se sente útil e pertencente a uma comunidade, partilhando interesses e atitudes que o valorizem. Passa também por aprender a desenvolver expectativas mais positivas, esperar o melhor e não a rejeição.




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Solidão. 
A multidão em volta 
e o pensamento à solta 
como alado corcel. 
E as ideias dispersas, em tropel, 
como folhas ao vento 
pétalas do Pensamento. 

Solidão. 
A angústia da Cidade, 
a impossível procura da Unidade, 
o clamor 
do silêncio interior, 
mais pungente, estridente, 
que os bárbaros ruídos 
que ferem, dilaceram 
os nervos e os sentidos. 

Fernanda de Castro, in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


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Nós não Somos deste Mundo

Para a solidão nascemos. Outras vozes 
nos chamam e invocam, outros corpos 
se perfilam radiosos contra a noite. 
Nós não somos daqui. Num intervalo 
de campanhas esquecidas nos dizemos, 
abrindo o coração aos de passagem. 
Mas quando a manhã chega nós partimos, 
mais livre o coração, longa a viagem. 


Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"



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Que cada um faça a sua leitura, retire as suas ilações. Que todos estejamos atentos a quem precisa de ajuda, a quem precisa de um sorriso ou de um gesto de proximidade mas que todos respeitemos também quem aprecia o silêncio.

NB: As imagens foram obtidas na net e desconheço a sua autoria.

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No Ginjal, continuando ainda com os meus livros inacessíveis, optei por um vídeo com interessantes frases de Clarice Lispector. Para quem, como eu, é devota dela, é um best of muito interessante.

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Fui ao IKEA agora à noite e, por isso, cheguei a casa tarde e más horas. Pus-me a escrever isto e, como é costume, saíu-me um texto enorme. É tarde (como sempre) mas a questão é que estou mesmo cheia de sono. Por isso, apenas amanhã responderei aos comentários, agora não consigo mesmo, estou a escrever quase de olhos fechados.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado!