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quarta-feira, novembro 06, 2019

Trabalhar 4 dias por semana e aumentar a produtividade





A Microsoft testou uma semana de quatro dias de trabalho nos seus escritórios no Japão. Resultado: a felicidade dos trabalhadores aumentou, mas também a sua produtividade.
O programa envolveu 2.300 trabalhadores que tiveram as sextas-feiras de folga. O Work-Life Challenge Summer 2019 decorreu durante o mês de agosto, avança o The Guardian. 
As semanas de quatro dias levaram a reuniões mais eficientes, trabalhadores mais felizes, com a produtividade a disparar 40%, concluiu a empresa. 
Os trabalhadores não têm dúvidas: 92% disseram gostar da semana mais curta. Durante o programa, o salário dos trabalhadores não sofreu qualquer redução. (...)
Artigo completo aqui.



Não sei se o facto de ser pré-histórica me dá direito a opinar mas, mesmo que não dê, opino a mesma pois, tendo já atravessado tantas modas na gestão e tendo assistido a uma longa série de anos no mundo do trabalho seria preciso não ter dois dedos de testa para não ter formado opinião.

E a minha opinião é a que os homens (e aqui homens em lato sensu) são estúpidos de dar nervos. Animais burros, mas mais burros que os burros. Todos uma cambada que, com a mania que são racionais, não passam de umas bestas quadradas. Quase tudo o que fazem é contrário aos seus interesses. Destroem o habitat, destroem-se uns aos outros, destroem-se a si próprios.


Há mil anos li um livro que me entusiasmou pois demonstrava-se ali que, por esta altura, a maioria das pessoas, dado que as horas de trabalho necessárias teriam sido reduzidas substancialmente, teriam tempo para a cultura e para o lazer (pelo que tudo o que fosse inerente a estas actividades continuaria a crescer). Identicamente se preconizava que as actividades associadas à qualidade de vida dos idosos cresceriam também consideravelmente (cuidados de saúde, alimentos e medicamentos, adaptação de instalações, turismo e ocupação para a terceira idade, etc).

Não falhou muito excepto no que se refere às horas de trabalho necessárias que, por qualquer misteriosa razão, teimam em não reduzir e às mentalidades que, em vez de evoluirem, involuem.

Ao fim de muitos anos e com tudo mais do que automatizado, trabalho que nem uma mula de carga. Saio cedo e chego tarde a casa como se não se tivessem inventado tecnologias e métodos de trabalho que teoricamente facilitariam a vida a toda a gente.


E, no entanto, fosse eu a mandar, e aqui quero dizer 'mandar a sério', e a ver se não reduzia a ocupação de toda a gente, não direi a metade mas quase. 

Falo por mim: o tempo que perco a aturar gente que fala pelos cotovelos em reuniões que, muitas vezes, não interessam nem ao menino jesus. Reuniões que consomem tempo em si mas também a fazer power points para lá apresentar. Mais a quantidade de gente que se ocupa de tarefas que não lembram ao diabo e que não servem para nada excepto para dar trabalho aos outros. Mais o tempo em que a malta está a ver o Facebook dos amigos, o Instagram de tudo o que é estrela e primo ou vizinho mas o twitter para ver as bocas do Daniel Oliveira a responder à Joacine. E etc. Tempo inútil em cima de tempo inútil.

Menos um dia de trabalho por semana seria canja de galinha. Nos quatro dias de trabalho a malta absorveria o que há a fazer. Sem espinhas.


Claro que isto obrigaria a uma reformulação geral. Em tempos, a semana de trabalho tinha seis dias, depois cinco e meio. Depois passou para cinco e não morreu ninguém. Há países em que já não se trabalha à sexta-feira à tarde e tudo tranquilo, são sociedades tão ou mais prósperas do que as dos burrinhos de carga,

Há casos e casos, bem entendido: as micro empresas, o pequeno comércio, etc, poderiam não poder reflectir isso nos horários dos trabalhadores sendo que muitas vezes os patrões são, muitas vezes, os empregados. Mas já hoje as regras dos outros muitas vezes não se aplicam a eles. Mas, no conjunto, deveria ser tema a repensar.

Repensar tudo.


Repensar o que se faz numa organização. Aproveitar as tecnologias para melhorar o funcionamento das organizações e a qualidade de vida de quem lá trabalha. Assimilar que é de burro querer que as pessoas cumpram horários rígidos mesmo quando há pouco que fazer, assimilar que é de burro cultivar o espírito workaholic. Perceber que o inteligente é eliminar trabalho inútil, trabalho desorganizado, descoordenado. Perceber que o inteligente é permitir que todas as pessoas tenham tempo para si próprias e se sintam úteis, motivadas e felizes. 

E quero com isto dizer que o que estou a dizer ou é uma onda de fundo, uma coisa levada a sério, uma motivação profunda de toda a sociedade ou não vai lá. Se não for assim (uma mudança geral de mentalidades), quem queira aplicar a si próprio este conceito vai sair penalizado, vai ser visto como um baldas, alguém pouco 'ambicioso', alguém com quem não se pode contar. Ou seja, nunca isto pode ser coisas individual.


Portanto, para ser efectivo, tem que ser uma coisa articulada, coerente em toda a linha, uma coisa a ser conduzida em sede de concertação social, pensada quer para a administração pública quer para empresas e outras organizações, quer para indústria, quer para serviços. Toda a sociedade tem que se tornar mais inteligente. Todos temos que aprender a preservarmo-nos. A preservarmo-nos enquanto espécie.

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Fotografias de afecto entre animais da autoria de Goran Anastasovski

A música é Birdsong in hollow valley e quem a interpreta, se bem entendo, é Zi De Guqin Studio
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Não advogo como solução para os males do mundo que se abandone a vida moderna para ingressar num estilo de vida que esteja nos antípodas. Mas advogo que haja tempo para desfrutar a natureza, o tempo, a vida enquanto dura.

Depois de mais um dia repleto de contrariedades e crises e faltas de tempo e mais as omnipresentes deadlines, nada me sabe melhor do que ver os vídeos da Li Ziqi. Descansa-me o espírito e ajuda-me a aguentar esta vida de trabalho de cinco dias por semana, muitas horas por dia (e, por vezes, de noite). 


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E, enquanto escrevo, vejo Sophia na RTP 1. Eterno bálsamo.

quinta-feira, outubro 24, 2019

O meu avô. A vida simples.
[E Li Ziqi que mostra como se comem as castanhas chinesas, como se fazem candeeiros e cestos, etc.]





O meu avô, que viveu uma vida longa, teve uma infância difícil. Contudo, isto sou eu a dizer porque a ele nunca ouvi um queixume nem o meu pai ou a minha avó alguma vez o referiram. Já o contei. De família abastada, o meu bisavô cedo se perdeu em mulheres e jogo, perdendo casas, terras, animais e, quando nada mais restava que a casa onde vivia com a mulher e três filhos pequenos, creio que para escapar a dívidas e vexames, fugiu para longe e, esqueci-me e ainda não me lembrei de perguntar á minha mãe, foi para a Argentina ou para a Venezuela. Não faço ideia o que aconteceu a seguir. Só sei que, ainda adolescente, o meu avô se fez à estrada e começou a trabalhar onde calhava. Presumo que se deslocasse a pé. Ou, então, de bicicleta. Andou de bicicleta até aos oitenta e muitos anos. O meu pai e o meu tio tinham medo, diziam que ele já não ouvia bem, que já não tinha idade para andar de bicicleta. Ele fingia que não ouvia, e continuava a fazer o que queria. Lembro-me dele com a cana de pesca em diagonal nas costas e a cesta para o peixe presa atrás.


Trabalhou em França e eu gostava imenso de o ouvir a falar em francês. Depois, não sei como, foi parar onde se fixou. Ali trabalhou até se reformar, vivendo perto. A casa tinha um terreno ao lado, onde tinha árvores de fruto e uma horta. Depois o terreno subia em socalcos onde ele, em pequenos talhões, plantava alhos, cebolas, favas, batatas. O terreno ia até lá muito acima. Acedia-se aos níveis superiores por caminhos, degraus, caminhos, degraus. Cá em baixo, tinha ainda uma capoeira grande; mas isso era pelouro da minha avó.

Lembro-me do meu avô sempre ocupado. Sempre que possível, ia à pesca e vinha carregado de peixes que eu pedia sempre para arranjar, as mãos mergulhadas nas vísceras, os dedos nas guelras puxando as tripas que vinham agarradas, ensanguentadas. E a minha avó sempre com medo que tivesse ficado um anzol na goela e eu ficasse presa. 


Ou, então, tratava da horta ou apanhava fruta. E a minha avó sempre a zangar-se por ele não limpar bem os pés no tapete que havia à porta da cozinha e levar terra agarrada aos sapatos. E ele a fingir que não ouvia. Mas nas mãos dele tudo passava por cuidados que me maravilhavam. Ele apanhava as cebolas e os alhos com a rama e entrançava-as, fazendo réstias que pendurava naquilo a que chamávamos 'a casinha'. Também o tomate. Havia tomate maduro todo o ano pois não se estragavam. A casinha tinha pouca luz. Talvez fosse por isso. Não sei. Quando alguma galinha ficava choca, era também nessa casinha, não tão pequena quanto isso, que se deitava a galinha, numa cama que lhe faziam, onde estavam os ovos. Por isso, era aí que nasciam os pintainhos. 

No quintal, havia ainda a casinha das ferramentas e a bancada onde estava um torno. Contudo, penso que o que ele aí fazia tinha sempre a ver ou com fazer um portão de madeira, ou uma escada para ir à fruta, ou um banco de madeira para a capoeira. Coisas assim, simples.


E tinha uma arte. E essa arte fascinava-me. Dos seus tempos de criança tinha-lhe ficado a lembrança da cestaria. Devia evocar a lembrança das pessoas da terra e, aos poucos, foi tentando reproduzir os movimentos e cada vez fazia melhor. Creio que ele falava em palma. Creio. Eram folhas estreitas e finas que ele abria ou dobrava. Tenho ideia que umas vezes fazia com as folhas secas e outras com elas ainda frescas. Fazia cestos para guardar os ovos, cestos para a fruta. Não eram muito perfeitas e, portanto, não se usavam como objecto decorativo. Mas eu gostava tanto. Gostava em especial quando ele os fazia com asas de lado ou uma única, ao alto, grande, a meio. Tenho ideia que uma vez pensei que queria ficar com uma recordação e quis uma dessas cestinhas. Mas com as mudanças de casa, com o tempo a passar, às tantas, perdi o rasto a uma que tinha. Não sei como foi possível. Ficou apenas a terna recordação.


Eu olhava para aquele avô com um grande fascínio. Como viveu até tarde, lembro-me especialmente dele quando reformado. Depois de almoço, sentava-se no cadeirão de madeira que agora tenho lá em casa, in heaven, ligava a televisão ou o rádio, pegava num jornal ou num livro, lia, e, por vezes, dormitava. Tirando isso, andava sempre ocupado. Nunca se zangava, nunca protestava. Por ele estava sempre tudo bem. A minha avó queixava-se do reumático ou das artroses, queixava-se dos filhos, queixava-se da outra nora que a afastava do filho, queixava-se de uma ou outra vizinha, queixava-se de ele trazer muito peixe e de ela já não ter paciência para o arranjar, queixava-se de ele ser pouco cuidadoso com o quintal, com o jardim e com as flores. Ele fazia de conta que não ouvia e, à socapa, sorria para mim. 


Sempre tive uma grande cumplicidade com ele. Quando deixei um namorado, ela preocupou-se e, quando apareci logo com outro, preocupou-se ainda mais. E quando aos vinte lhe disse que ia casar ainda mais preocupada ela ficou. Ele não. Ele não dizia nada, apenas sorria, deixava-a fazer os dramas. Não era bem dramas, era mais como se fosse uma agonia que ela tentasse disfarçar sem o conseguir. Nesse dia em que, em casa dos meus pais, eu lhes disse que dentro de um mês ia estar casada e que ela ficou arrasada ele ficou como se nada se passasse. Apenas veio ao pé de nós, de mim e do meu namorado, e disse: ela casou-se aos dezoito e ao fim de pouco tempo, já o teu pai tinha nascido e, pouco depois, o teu tio. Eu tinha vinte e cinco mas ela tinha dezoito. Por isso, aos vinte parece-me uma boa idade. 

Isto do lado desse meu avô.
Esqueci-me de referir um aspecto que talvez explique muitas coisas. Ele tinha umas feições levemente orientais que o filho mais novo herdou e de que uma das minhas primas ainda é portadora. Penso que talvez por isso tivesse aquela paciência de chinês.
Do lado da minha avó do lado da minha mãe era também sempre uma actividade mas aí uma coisa mais restrita: era renda. Fazia rendas lindas. Colchas, toalhas de mesa, rendas para lençóis, entremeios de mesa. Nunca estava sem nada que fazer e era altamente produtiva. Tenho várias coisas feitas por ela. 'Tirava' por amostras, 'tirava' por revistas, 'tirava' por onde calhasse. Eu adorava ver a destreza daquelas mãos.


Talvez por isso, quer a minha mãe, quer o meu pai sempre foram muito activos, sempre ocupados, muito habilidosos. Com o que calhasse. Contudo, lembro-me especialmente dessa actividade e criatividade depois de reformados pois antes a vida profissional ocupava-os bastante. 

E, talvez também por isso, eu seja como sou, incapaz de estar sem nada que fazer. Contudo, vejo-me limitada. Limitada, desde logo, em tempo. E, talvez tão importante como a falta de tempo, é o sentir-me limitada pelo preconceito de recear não saber fazer. O receio contraria a confiança e para se fazer o que se quer é preciso ser-se afoito. E para se ser afoito é precisa ignorância. Ora, se a gente se põe a pensar muito, estraga a ignorância, perde a afoiteza e lá se vão os sonhos.

Mas, senhores, que vontade sempre tenho de fazer coisas. Pintar, fazer tapetes, fotografar (como estas fotografias que fiz no outro dia in heaven), cozinhar, varrer, escrever. E outras coisas. Tantas outras coisas.


. . .   &   . . .

Já aqui mostrei muitas vezes aqueles vídeos que, para mim, são uma fonte de tranquilidade. Os movimentos serenos da jovem Li Ziqi, os seus passeios pelos bosques, a forma harmoniosa como se move, os gestos ancestrais no manuseio de frutos, de flores, o fogo, os preparados que faz, a comida que confecciona, as peças que talha. Tudo me faz ficar presa a olhar. Mesmo que não perceba o que faz, mesmo que não saiba que produtos usa. Mesmo assim eu fico a olhar. Penso que era uma vida assim que eu gostava de ter. Uma vida simples, sem tempo, sem pressa, sem ruído, embalada pelo canto dos pássaros. 

Fazer coisas bonitas para a casa.

(E foi por vê-la a fazer cestas que me lembrei tanto do meu avô)



Os frutos secos do Outono



Mas quem é Li Ziqui que tem milhões de seguidores?


Desejo-vos uma quinta-feira tranquila e boa

sábado, agosto 10, 2019

O tempo, a serenidade, a beleza





À vinda, uma mensagem a dizer que já tinham aterrado e bjs. Respirei de alívio, senti-me agradecida e, como não dava para escrever de volta já que estava a conduzir, liguei. Estavam à espera das malas e, ao mesmo tempo, a controlar as crianças e, portanto, não era a melhor hora para telefonemas, pelo que ok, tudo bem, bjs, etc. Fico sempre mais descansada quando os tenho por perto. Bem podem tentar explicar-me que a sua segurança não depende de mim que não quero saber. É uma coisa física, mais do que racional. Entretanto, liguei ao meu marido a dizer que já tinham chegado. Ficou contente.


Depois de chegar, fui ao supermercado. Depois à loja das frutas e legumes porque os tomates no supermercado não estavam bem maduros e a fruta também não me inspirou. Depois vim arrumar as compras a casa e outras coisas como pôr alguma roupa a lavar e etc. 

A seguir, como a canseira fosse razoável e a preguiça ainda maior, fomos passear para a praia. Pode ser que pessoas haja que, estando a precisar de descansar, se deitem sossegadas. Nós não somos exactamente assim e, pelo menos nisso, somos parecidos. A menos que estejamos a cair para o lado, a canseira dá-nos sobretudo para ir lavar a alma para a beira de água. Também podia ser enfiar-nos nos bosques, atravessar serras e andar por entre árvores e outros bichos secretos -- mas isso era se estivéssemos perto desse outro mundo mágico por onde gostamos de adentrar-nos. E não estávamos.

Por isso fomos para a praia, bem rente ao mar.


Névoa, frescor, uma luz coadíssima, um entardecer dourado, um intenso e húmido perfume a maresia. Não me cansei de fotografar. A noite a cair sobre um mar em fúria e eu maravilhada com tamanha beleza. O mar revolto, tomado por aquela força avassaladora, é de uma grande e assustadora beleza.

A seguir fomos petiscar.

E depois, uma vez mais, espreitar o mar. Mas já estava frio e eu, com uma blusinha curta e fina e, por cima, apenas um poncho ultra-aberto de crochet aos buracos, senti que o melhor seria bater em retirada. Ele fez de conta que se zangava comigo, perguntando-me retoricamente se eu tinha mesmo achado que, contra a humidade e frio da noite, aquela 'coisa' ia servir para alguma coisa. Expliquei-lhe pela enésima vez que ele xailinho aconchega que se farta. Ele gozou, porque não acredita, e desistiu. Há coisas difíceis de explicar e as mais simples são as mais difíceis.

E agora passa da uma da manhã e estou perdida de sono. Perdida, perdida. Só de pensar em ir ali ver se as fotografias do mar estão boas para aqui as incluir já me apetece é fechar os olhos, encostar melhor a cabeça e deixar que o sono me pegue ao colo. Mas vá, tem que ser, não ia estar aqui a falar da braveza do mar e da sua enorme belezura e guardar as imagens só para mim.

Mas não posso ir tarde para a cama pois a alvorada vai ser cedo e há mil coisas a arrumar pois a jornada promete.


Entretanto, aqui ao lado, ele já dorme há que tempos. Não ter este meu vício de dar asas aos dedos ao fim da noite é capaz de ser bom. É capaz. Mas mal conheço.

Se não era para escrever aqui, era o tapete de arraiolos ou pintar. Também houve aquilo de escrever o livro. Mudei de computador, pu-lo numa disquete. Isto deu-se naquela era remota em havia disquetes. Depois perdi o rumo da disquete. Foi-se o livro. E se eu me empolgava a escrever noite adentro, o meu marido a perguntar, lá do quarto, a que horas é que ia deitar-me. Sempre a dar uso aos dedos. Dedos que têm vida própria, estes meus. Escrever não é coisa mental. Muito menos de coração. É mesmo apenas coisa de dedos, ainda por cima dedos desmiolados.


Isto para dizer que, a menos que pinte por aí uma espertina, hoje não vai ter Clara e Manel nem nada mais. Até porque ainda não sei que nome dar ao folhetim. E isto porque também não sei onde aquilo vai dar. Aliás sei onde deu na realidade mas, como tenho que pintar a realidade, não sei como vai ficar depois de photoshopar o filme real. Ou seja, preciso de um break e esse break vem a calhar num dia como o de hoje. Ainda por cima hoje não tem Alone e tanto que eu gosto de ver aqueles lá a inventarem como sobreviver, junto ao mar ou na floresta, do lado de lá de ursos grandes. Seria eu capaz de viver assim? Sozinha não de certeza mas a dois, se calhar, sim. Mesmo assim, receio que não. Mas gosto de ver. Mas hoje não dá. Uma lacuna.

Para compensar pus-me a ver o último vídeo da Li Ziqi, aquela jovem chinesa que sabe fazer tudo com uma precisão impressionante. Ela apanha bagas, flores, ela faz infusões, geleias, bolos. E até tinge roupa. E borda. E costura. Aquele meu lado de menina prendada faz-me ficar a olhar, presa, com vontade de viver num lugar assim, de ter um espacinho lindo assim, arrumadinho. E saber fazer aquilo tudo e ter tempo e sabedoria. Tempo. Tempo e motivação e recolhimento e capacidade de entrega. Tempo e sentido de harmonia e beleza.


Olho e ponho-me a imaginar se poderia criar um espaço assim para poder fazer as minhas cenas à vontade. Talvez in heaven. Espaço lá não falta. Só que, mal começo a pensar, percebo logo que comigo não dá. Não gosto de estar sozinha. Só à noite. Gosto muito de estar sozinha à noite. É como se, de tudo o que fui durante o dia, sobrasse esta que chega à noite, destilada, pouco mais do que a essência de mim. De dia sou outra.

O vídeo da Li Ziqui foi feito há um dia e já foi visto mais de um milhão e trezentas mil vezes. Há, afinal, muita gente que gosta de ver coisas assim. Parece-me espantoso. Na volta, há mesmo cada vez mais pessoas que apreciam a vida simples, o contacto com a natureza, os trabalhos manuais, as actividades em que sabe bem desfrutar o tempo e fazer nascer a beleza.


E um belo sábado a todos. 
Saúde e harmonia.

quarta-feira, maio 01, 2019

Entre os azuis de Monet, nos bosques com Liziqi





Uma pessoa que conheço há anos contou-me a sua história e eu ouvi sem perceber como pode uma coisa assim acontecer. Há pessoas que se acham especiais e com uma vida que deveriaa dar direito a um livro. Há outras que se acham normais, sem nada que as distinga. Eu incluo-me neste segundo grupo. Contudo, isso de uma pessoa ser normal é coisa que não existe. Acabei de ler nos onlines a história do assassino do Tagus Park, uma coisa assustadora e tremedamente triste -- e os colegas dizem que ele era uma pessoa normal. Sempre que há crimes, roubos ou desmandos, os vizinhos e familiares aparecem a atestar que os fora de lei são pessoas normais, pacíficas, tranquilas e, se necessário for, até acrescentam a pérola do costume: amigo do seu amigo.


Mas, enfim, ressalvas à parte, pelo menos da roupa para fora eu acho que sou normal; e a pessoa de quem falo também. E, no entanto, a sua vida, pelo menos até certa altura, foi singular, estranha, difícil. E eu, agora que sei disso, espanto-me que ele seja normal. E fico a pensar: quando se conhece uma pessoa, como podemos garantir que a conhecemos? E quando é que a pessoa é mais ela: quando se desliga da sua história ou quando a recorda? E a verdade é que não tenho respostas. 

E, logo a seguir a ter ouvido aquelas revelações surpreendentes, desliguei e continuei o meu dia como se não tivesse sabido nada e como se nada daquilo tivesse importância. E só voltei a lembrar-me disso ao jantar, quando contei ao meu marido. E fiquei também surpreendida comigo porque a minha cabeça parece que tem alçapões por onde desaparecem as coisas, por mais extraordinárias que sejam, fazendo com que os meus dias sejam 'normais', sem nada que os marque. E agora estou a pensar no tema enquanto escrevo e a pensar que não devo contar aqui nada já que é a vida mais do que privada de uma pessoa e não tenho direito de a expor mas sei que um dia, daqui por algum tempo, falarei nisso -- mas que, até lá, o assunto eclipsar-se-á no meio de todas as outras coisas que vou descobrindo e vivendo no meu dia a dia. E a importância relativa de cada coisa dilui-se na amálgama em que tudo parece transformar-se.


No entanto, e podem crer, preocupações não me faltam. Mas sobre umas nada posso fazer e sobre outras também não e as outras, sobre as quais posso fazer alguma coisa, em boa verdade não me preocupam, apenas me incomodam ligeiramente.

E, portanto, com tudo isto (que assim descrito dá ideia que espremido é nada -- e, quando visto em perspectiva, é), a verdade é que chego aqui à noite e, antes de ir dormir (e como já no outro disse), apetece-me adentrar-me no meio de bosques verdejantes, longínquos, inacessíveis, apetece-me ver formas de vida que desconheço e me atraem, apetece-me seguir os gestos tranquilos desta jovem aqui abaixo que faz gestos seguros e sábios, manuseando ervas, ingredientes, bagas ou fazendo misturas que me deixam intrigada, sem conhecer nada, sem perceber nada. E sou capaz de me deixar ficar assim durante imenso tempo.


Gostava de perceber quais as ervas que ela apanha, quais as técnicas de cozedura, quais os temperos, para tentar reproduzir. Mas, na volta. se soubesse, talvez deixasse de achar tanta graça. Acho que há ali tanta serenidade, tanta segurança, tanta elegância nos gestos que olhar para isto me descansa a alma. E que é bom não quebrar o mistério.


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[A quem apeteça uma escapadinha ao Algarve ou ao Porto recomendo que faça o favor de descer até onde a Vogue ou o Guardian nos recomendam]

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