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terça-feira, agosto 27, 2013

Sobre António Borges, o economista que não tinha razão


No post abaixo falo das birras literárias entre críticos, editores e tudo o que vagamente tenha a ver com conversas e negócios à volta da literatura. O que me leva a escrever sobre isto é o espalhafato de vizinhas entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos, que quase os está a levar a andar ensarilhados no meio do chão a arrepelarem os cabelos um ao outro - e tudo, imagine-se, a propósito do livro de correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões.

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui a conversa é outra.


><

Não sei bem porquê, porque não gosto de escrever obituários, acho hoje que deverei dizer qualquer coisa sobre a morte de António Borges.


Há já algum tempo, seguramente há bem mais de um ano, um amigo estava a contar-me que tinha estado a ouvir António Borges aí numa 'cena' e que, antes e depois, tinham estado a trocar uma prosa. Comentei a sua magreza que, à vista desarmada, era de mau agoiro, ao que o meu amigo me disse, 'ele tem cancro no pâncreas, coisa séria, mesmo séria, está no caminho descendente. Mas continua com uma agenda como se estivesse para dar e durar'.

Fiquei admirada pois estávamos numa altura, com esta coisa de ele ser o ministro oculto mas, de facto, talvez o mais poderoso, em que as polémicas sistematicamente se incendiavam em volta dele. Estando assim tão mal, para que andava metido nisto, envolto em controvérsias, em vez de aproveitar o tempo que lhe restava, em tranquilidade? 

O meu amigo contou que eu nem imaginava, que tranquilidade era coisa que não existia na vida dele, que as viagens em trabalho ao estrangeiro eram regulares, que inclusivamente fazia viagens intercontinentais, coisas de dia inteiro, e reuniões e mais reuniões de trabalho e que identicamente mantinha reuniões e almoços para amigos em casa e que ninguém percebia aquela vontade de fazer parecer que nada se estava a passar.


Perguntei ao meu amigo: mas que explicação encontra para o facto de ele, sabendo que tem pouco tempo de vida, em vez de descansar, ler, estar com a família, andar nessa correria e sempre com bocas polémicas, provocatórias?

O meu amigo também se mostrava admirado mas adiantou uma possível explicação: sabe? pessoas assim acham que tudo na vida é uma questão de vontade, que, querendo, sempre se consegue, que na vontade é que está o segredo do sucesso, penso que talvez ele ache que é superior a isso, que vai ultrapassar. Tal como acredita que se vai vencer esta crise, que se vai ultrapassar a crise da dívida, o défice, isso tudo.


António Borges: a vida é breve


Depois disso, eu, ao vê-lo na televisão, impressionantemente magro, pose arrogante, desafiador, mostrando-se superior à plebe, e sempre a acreditar que os mercados é que mandam e que, mesmo num cenário desregulado como é aquele em que vivemos, os mercados haveriam de encontram um equilíbrio racional, interrogava-me: como é que um sujeito que toda a gente diz que é inteligente dá tantas provas de que o não é - e toda a gente continua a dizê-lo brilhante?

Sempre achei que quase tudo o que ele defendia estava errado. Se fosse inteligente, ele deveria ver que, tal como o seu próprio corpo lho estava a demonstrar - com as células malignas multiplicando-se descontroladamente -, tem que haver regulação e, além disso, tem que haver uma força moral a sobrepôr-se à força bruta dos mercados ou da matéria.

O Insead, que ele dirigiu, é uma das grandes escolas de gestão, é certo, mas é a escola onde se ensina(va) aos gestores que gerir bem é criar valor para o accionista e ponto final (e acreditem: sei do que falo). Sobre o que isso tem de redutor e o que isso desgraça a economia já aqui falei antes. Criar valor para o accionista é fundamental  sim, mas tem que ser um dos parâmetros - um dos, não o principal ou, mesmo, o único.


É que foi isso, associado ao facto de os Governos estarem manietados pelas Goldman Sachs desta vida (Goldman Sachs à qual ele também pertenceu), que fez com que as políticas fiscais dos países mais vulneráveis favoreçam o não reinvestimento dos lucros. Em vez disso, as políticas fiscais favorecem que se recorra a financiamento bancário (pois isso, aumentando os juros, aumenta os custos e, aumentando custos, reduzem-se os lucros e, reduzindo lucros, paga-se menos impostos e, portanto, maiores os lucros líquidos - e, lá está, maior o valor criado para o accionista).


Ora isto, que foi um excelente negócio para todo o sector financeiro, foi a desgraça para as empresas (que se endividaram até ao tutano). E não foram apenas as empresas privadas, foram também as do Estado cuja gestão emulou a gestão privada.

E assim chegámos à dívida colossal que destruiu a economia e colocou o país nas mãos dos bancos e do sector financeiro em geral.

Esta é a política liberal defendida por António Borges e seguida acefalamente pelo Governo de Passos Coelho.


  • Já agora, um pouco sobre isto, recomendo a leitura deste lúcido artigo de Viriato Soromenho Marques, um dos homens inteligentes e sérios deste país (e que tive o privilégio de conhecer antes dele ser publicamente conhecido - mas quando já era, porque sempre o foi, uma pessoa diferente, interessada, informada)



Que sabendo o que acima referi (porque, sendo inteligente como diziam que era, António Borges tinha forçosamente que o saber), ele tenha defendido que a solução para o País era vender ao estrangeiro as suas maiores empresas, baixar os salários dos trabalhadores portugueses e outras imperdoáveis falácias é coisa que nunca consegui digerir. Quem defende isto não pode amar o País. Ou então não é inteligente.


Por isso, por sempre ter achado isto, não é agora, que ele se foi, que vou mudar de ideias.

Mas isso é uma coisa e outra muito diferente é regozijar-me com a sua morte. Era um homem com família e a família deve ter sofrido a perda do seu familiar querido. Custa-me ler o que tenho lido por aí, muita maldade irracional, muito fel inútil, uma agressividade latente e desfocada.

Eu queria que o Governo do meu país não o tivesse contratado ou que não seguisse as suas ideias, só isso.

E isso é muito diferente de querer a sua morte. Uma vez mais, a responsabilidade por o ter escolhido e por seguir as suas ideias - apesar delas se terem revelado a causa dos problemas do País (do nosso, tal como também de todos os que vêm caindo nas mesmas malhas) e apesar de se ver que as soluções que continuava a defender se mostravam inequivocamente erradas - era e é de Passos Coelho. Foi nele que as pessoas votaram e é ele o responsável pela (des) governação de Portugal. 

(E, obviamente, também não desejo a morte de Passos Coelho, nem pouco mais ou menos, apenas quero que deixe de ser primeiro ministro de Portugal. Apenas isso. E será muito)

**

Permitam que relembre: sobre as cenas de faca e alguidar entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos é só descerem um pouco mais.

quarta-feira, abril 17, 2013

Conselho de Ministros ainda dura. A Conferência de Imprensa para comunicar onde vão aplicar nova dose de austeridade foi adiada para amanhã. O que se passa com aquelas almas para, ao fim de dois anos, ainda não saberem o que andam a fazer? Não conseguem atinar com os cortes? Os números não lhes batem certo? Pegaram-se à batatada? Apelo: há por aí alguma mosca que possa lá ir ver e que depois venha aqui contar-nos, para a gente se fartar de rir?


Passa das 10 da noite e o Conselho de Ministro - que foi antecipado para hoje para aprovarem as medidas extraordinárias para atingirem não sei que objectivo - parece que ainda dura.

Passos Coelho deve estar de cabeça perdida - não é que alguma vez a tenha tido no sítio (a julgar pelos resultados).



Passos, um coelho de cabeça perdida


Não sei se:

  • andam à nora para ver se desencantam onde roubar mais os contribuintes já que já não há muito mais por onde espremê-los, 
  • não conseguem perceber como sacanear mais os portugueses (por exemplo, indo sacar algum dinheiro aos desempregados e aos doentes, mas já são tão pobrezinhos que por mais que os roubem nunca dá grande coisa), 
  • andam a ver como mandar os professores para casa já que é gente muito opiniosa, com mania que sabem muito (mas, se se metem com eles a Ana Avoila e o Mário Nogueira - que têm andado tão sossegadinhos - eles ainda se agitam e armam um banzé como o que armaram com os peanuts da avaliação que a pobre da Maria de Lurdes Rodrigues quis montar. 
  • andam a ver como mandar para casa os desgraçados que estão entubados, algaliados, uns gastadores dos caraças, que se fartam de gastar dinheiro nos hospitais.
  • .... não sei.


O que sei é que parece que deviam ter anunciado as medidas às 7 da tarde, depois foram adiando, para as 8, para depois das 9, lá para as 10, e, afinal, ainda lá estão e agora fizeram saber que só amanhã é que comunicam.



Primeiro Ministro - uma criatura de cabeça perdida

Com a língua de fora e a cabeça debaixo do braço
como é que pode alguém querer que dali saia ideia inteligente?


O que sei é que, são barracas atrás de barracas, e isto só quer dizer o mesmo: não sabem o que andam a fazer.

É que são umas atrás das outras: ao fim de um mês, já o aborto do OE 2013 tinha derrapado, depois agora as medidas ilegais não passaram e têm que engendrar outras, e uma após outra nada lhes corre de feição, não conseguem acertar com uma, senhores. Nada. Nabos. Nabos encartados.

Com vossa licença, já lá dizia o meu amigo Luís: a quem não sabe f... até os pêlos do c... atrapalham.

Mas voltando à vaca fria, àquilo da Reunião do Conselho de Ministro nunca mais acabar (o que é típico, já que não é a primeira vez que se enleiam todos uns nos outros, horas a fio), pergunto:

0. Estas medidas (ou outras, tanto faz) não era o que tinha ficado de ser feito pelo Paulo Portas? Ou ele era mais o 'paleio' que ia embrulhar a coisa, numa de dourar a pílula? Mas, seja como for, se ele era para ter um papel nisto, e sendo Ministro de Estado e bla-bla-bla, não seria suposto uma Conselho de Ministros desta natureza contar com a presença dele? Como é que estas coisas são tal sangria desatada que não dá para esperar que o homem chegue da viagem? (Pergunto...)

1. Não estando cá nem o Paulo Portas, o Rei das Nuances e da Prestidigitação, nem o Alvarito, o Ministro sem Pelouros e o verdadeiro Rei dos Pastéis, quem é que está a bater o pé ao Gaspar-não-acerta-uma para aquilo durar horas a fio? É que não acredito que vão para lá, sem trabalho feito, ali mesmo a fazerem contas em cima do joelho.

2. Ou ninguém bate o pé a ninguém? Aqui em casa, a versão que ouço é essa: que não atinam, que já deram cabo da folha de excel e já nada bate certo.

3. Ou é o novo ministro adjunto, o Maduro, que resolveu marcar território, fazendo chichi em cada cantinho, e se pegou na discussão de teorias de cão de caça com o Gaspar?

3. Ou é desta que andam todos à batatada uns com os outros? 



Breacking news - Gritos, insultos, fanicos e ameaças ?


O Gaspar com o Paulo Macedo? A Paula Teixeira Pinto, furibunda, à tareia com o próprio Passos Coelho? O Mota Soares ao pontapé com o Aguiar Branco? O Miguel Macedo a pôr os pés da Cristas para cima, antes que as pernas lhe inchem? O Maduro desnorteado, baratinado com a gaiola de doidos onde aterrou, à biqueirada com o Passos Coelho que já está sem cabelo e todo mordido tamanha a fúria da Paulinha? 


Breacking News -
Consta que o próximo Conselho de Ministros vai ser numa piscina de lama.
Terá ainda mais graça.


(Esqueci-me de algum ministro? Do Borges? Do Catroga? Do Moedas? De mais dois putos que, apesar da austeridade, e apesar de não terem experiência de espécie alguma, foram agora contratados para acompanharem a execução do memorando? - é que, se não são ministros, mandam tanto ou mais que eles; consta que até a D. Francelina das limpezas sabe mais da poda que eles)

-

Bom, fico-me por aqui. Tenho mais que fazer. Tenho que falar de mais uma bronca. Já volto.



Fico esgazeada com  a ignorância e a incompetência a que assisto, senhores!


Além disso, com tanta estupidez a que assisto todos os dias, já estou com os neurónios a assar e, pior, já me estou mas é a fazer velha. 

sábado, janeiro 26, 2013

Na questão da RTP, o Paulo Portas ganhou e o Relvas foi derrotado? Talvez. Ou talvez não. Passarões como o Relvas nunca são derrotados. A esta hora já anda a fazer contactos para outra coisa qualquer. É que aquilo é o verdadeiro artista, aquilo mesmo só visto e ouvisto...! (E porque gosto de uma bela fofoca: o que andam o Paulo Portas e o António Costa a tramar? Andam para aí com conversetas...? Será...?)


O ministro Vai-Estudar-ó-Relvas apareceu ontem na RTP para anunciar a reestruturação da dita. Depois do João Duque e Companhia terem feito um estudo que foi para o galheiro, depois dele, Relvas, ter feito muitos contactos, e se o Relvas é bom nisso, em contactos, depois de entrevistas de António Borges em que anunciava cenários de concessão, depois de umas quantas reviravoltas e cambalhotas, depois de agora afinal é privatização a 49% e mais uns angolanos terem vindo que queriam a televisão pública portuguesa, então não haviam de querer?, depois do próprio Borges ter ontem também vindo dizer que a privatização estava mesmo para quase já, eis senão quando Paulo Portas, finalmente, conseguiu fazer valer a primeira ideia, e consegue que a RTP não se venda já. 

Claro que o Relvas deve ter logo pegado no telefone e ligado para os amigos a dizer eh pá não é já mas ainda vai ser melhor porque assim a gente limpa aquilo tudo e depois vende tudo limpinho e por tuta e meia - quem não conheça o Relvas que o compre.

E, assim, animado do melhor espírito que se possa imaginar, lá foi ele todo lampeiro armar-se em bom para a frente do José Pisca-o-Olho. Só viso e ouvisto.





Que iam reestruturar e que ia ser doloroso - e fez um ar de quem quer meter medo - e que aquilo custa muito dinheiro aos portugueses - e atirou com um número. E depois - e fez um ar muito responsável - que contava com a participação dos trabalhadores para a razia que quer fazer. 

E eu - que sou muito suspeita: não gosto dele, nunca gostei e nunca hei-de gostar - pergunto-me: como é possível um sujeito destes ainda ser ministro? Até na República dos Camarões com Bananas uma criatura destas já tinha sido posta a andar. 

Com a falta de aproveitamento escolar que sempre teve, saberá ele escrever o número que disse? Gostava de lhe pôr uma folha e uma caneta nas mãos e dizer, ora escreva lá aí o número que disse. E saberá ele como se chega ao número? Gostava de lhe perguntar: mas isso são custos ou são resultados? Ou é dívida? explique lá - era o explicas, sabe lá ele. E saberá ele se aquele número é suportado pelos impostos ou pela publicidade? E que direito tem uma criatura daquelas a impor o que quer que seja que implique redução da qualidade de serviço ou o desemprego de alguém - quando desde que é ministro já fez e desfez, disse e desdisse?

E é doloroso e quer que as pessoas participem? E ninguém lhe diz que se gosta de práticas de sado/masoch que participe ele e deixe os outros em paz? 

Que país é este em que ninguém impede que um incompetente destes que parece empeçonhar tudo em que toca ainda continue em funções num governo?

E o que leva uma pessoa como António Borges a ainda andar metido nestes carnavais? Magro, mal encarado, uma sombra do que foi, que deve ter dinheiro de sobra, que necessidade tem de andar envolvido nisto? Não consigo entender. Que uma pessoa se meta em missões complicadas, como tratar de leprosos em África, alfabetizar crianças nos campos de refugiados no meio de um cenário de guerra, eu percebo. Agora que uma pessoa se meta numa comissão ou grupo ou lá o que é, em que, a torto e a direito, deve ter que fazer fretes a toda a gente, a criaturas desqualificadas - que entre o Relvas, o Efromovich, os amigos angolanos e outros que tais, venha o diabo e escolha - isso não entendo mesmo. Há coisas mesmo muito estranhas.

É a mesma dúvida que tenho em relação a Paulo Portas. Não me esqueço de uma vez, na AR, quando o Relvas lhe estava a dizer um segredinho, a pressa com que Portas se afastou, como se tivesse medo que a baba do Relvas lhe sujasse o fato ou, então, como se o hálito do Relvas fosse fétido, um nojento bafo de onça. Percebi-o muito bem, eu também me afastaria à força toda. O que não percebo é como é que o ex-jornalista Paulo Portas consegue conviver com gente desta raça... Ser conivente com as políticas e as práticas desta gente... Como? Porquê? A troco de quê, senhores?





PS: Quanto ao que se passa no PS, não consigo ainda pronunciar-me. Sempre achei que o Tozé não tem punch, falta-lhe garra, carisma, energia. Sempre achei que António Costa daria um melhor líder socialista. Mas, enfim, na altura António Costa não o quis e o Tozé lá tem vindo a fazer o melhor que pode. Mas claro que o que ele pode não é muito e só assim se explica que, perante uma governação tão desastrada, incompetente e calamitosa, o PS não tenha disparado, mas disparado a sério, nas sondagens. 

Mas agora que esta crise vem mesmo a calhar ao Passos, Relvas e Gaspar, lá isso vem. Portanto, o que espero é que, no PS, tudo se clarifique rapidamente, a bem do País. 

*

Para quem aterrou agora aqui sem antes ter visto o post anterior, informo que, depois de ter lido esta conversa sobre pessoas pouco interessantes, é tempo de arejar a cabeça e nada melhor do que um pequeno filme com a Irina Shayk Aveiro num vídeo super educativo. Por isso, sugiro que desça um pouco mais porque vale a pena. E é para o menino e para a menina!

E por aqui me fico. A todos desejo um belo sábado!

domingo, setembro 30, 2012

No dia 29 de Setembro de 2012, o dia em que o guru do Governo de Passos Coelho, o avençado António Borges, disse que achava a famigerada medida da TSU 'extraordinariamente inteligente' e chamou 'completamente ignorantes' a todos os empresários portugueses, e a poucos dias de se conhecer o novo balde de austeridade que aí vem com o Orçamento para 2013, Portugal saíu à rua e compareceu na Concentração no Terreiro de Paço. São nossos todos os caminhos. (Texto acrescido com a minha opinião sobre as diferenças entre a manifestação de 15 de Setembro e esta)


O Povo é quem mais ordena - cantemos também


[Grândola Vila Morena, cantada por manifestantes neste quente mês de Setembro]


Este ano está a ser, para mim, o ano de todas as iniciações. A primeira anestesia, a primeira cirurgia, etc, etc, a primeira manifestação, e, hoje, a primeira manifestação da CGTP. 

Muitas vezes, ao longo da minha vida, fui muito contrária às posições da CGTP. Parece-me, quase sempre, um sindicalismo retrógrado, totalmente alinhado com o PCP. Mas, tal como no dia 15 de Setembro não fui para gritar contra a troika (porque, de momento, ainda não podemos viver sem apoio externo, o que temos é que fazer, e já!, é negociar, bater o pé) mas sim para dizer não a estas políticas e a estes políticos, fui especialmente para mostrar que estou contra os incompetentes e ignorantes que nos governam, também neste 29 de Setembro fui para a rua porque é na rua, todos juntos, mostrando o vigor e a energia de um povo unido, que podemos conseguir mudar o rumo dos acontecimentos.

Lá fui portanto.

Enquanto nos aproximávamos todas as ruas iam dar ao Terreiro do Paço. Casais com filhos, idosos, grandes grupos oriundos de vários pontos do País, gente com bandeiras, cartazes feitos em casa, muitos jovens.



Uma vez mais o povo saíu à rua


Ao chegar junto ao Cais das Colunas algo me chamou a atenção: algo avançava nas águas. Fiz zoom e captei a imagem.



Cão nadando a grande velocidade no Tejo, com uma gaivota seguindo os seus movimentos


Um grande cão. Maravilhosa imagem: o Tejo azul, o céu azul, o Terreiro do Paço transbordante de gente, e, enquanto isso, aquele cão ali andava a banhos. Que engraçado.

Mas impressionante foi, de novo, o imenso mar de gente. E depois as pessoas, milhares, muitos, muitos milhares de pessoas cantaram o Grândola Vila Morena. É muito emocionante ouvir em uníssono uma canção como esta. Há momentos especiais que todas as pessoas devem poder viver.

Poderia aqui mostrar-vos muitas das fotografias que fiz nas quais se vê a multidão. Mas já sabem que eu prefiro mostrar os pequenos apontamentos, os cartazes interessantes, as pessoas. Penso que, para quem não esteve lá, mostrando estes aspectos particulares, conseguirei transmitir melhor o ambiente.

Uma vez mais digo que, se algum dos retratados não permitir que a sua imagem aqui apareça, bastará que mo diga que logo a retirarei.

O que mais desperta a minha atenção e emoção são as pessoas de idade e as crianças. Estar nestes grandes ajuntamentos, em que é preciso andar bastante, pode não ser fácil para quem tem mais idade e, em especial, para quem venha de longe.



Um futuro difícil mas, enquanto existirem flores, haverá esperança


O calor apertava e nem a proximidade da água refrescava, em particular aqueles que percorreram longos caminhos para cá chegar.



Desencanto, preocupação mas, apesar das dificuldades, sentido de cidadania


Um dos aspectos mais gritantes quer nesta manifestação quer na de 15 de Setembro é o desprezo que todos os muitos milhares de portugueses mostram por Passos Coelho e pelos ministros do seu Governo.

É impossível a alguém governar um país que lhe perdeu o respeito, que goza com ele, que o trata por burro, por incompetente, por gatuno. É isto que está a acontecer a Passos Coelho. É humilhante para ele.



Coelho vai p'ra toca


A imaginação e o sentido de humor sai àrua nestes dias. As pessoas dão-se ao trabalho de escrever, desenhar, de montar, de transportar, de exibir os mais diversos gritos de revolta,


Contra o bullying política

E, no dia em que o vendilhão de Portugal, o avençado António Borges, chamou completamente ignorantes a todos os empresários portugueses, dizendo que não passariam no primeiro ano do seu curso (isto depois de na antevéspera Passos Coelho lhes ter chamado cobardolas e queixinhas), cá temos um cartaz em que o dito vendilhão é uma das figuras de proa.



Vieram peritos em habilidades...
(o António Borges, o Gaspar-não-acerta-uma, o etíope do FMI e o Senhor.Professor.Doutor.vai.estudar.ó.Relvas)


Mas o Gaspar aparece em vários cartazes. O maior nabo, o aprendiz não sei de quê, o que espantilha todas as contas públicas, o fulano que até hoje ainda não conseguiu acertar uma e que, mais grave ainda, ainda nunca percebeu nada do que se está a passar, é um dos mais gozados. Foi outro que virou cartoon, anedota.



Não se vê aqui o cartaz inteiro mas eu conto-vos: Estou... a... foder... vos... deva... garinho


Mas há um que é a gargalhada geral. O grande estadista Miguel Relvas, aquele que anda escondido, aquele que é amigo de espiões, que ameaça jornalistas, que quer despachar a RTP para os amigos e que tem uma carreira académica de mão cheia, e que, por mais inacreditável que possa ser, ainda é ministro, virou cartaz cómico.



Miguel Relvas: Doutor Horroris Caca


E depois, claro, sempre, nas mais variadas formas, temos o ex-doce, o maior responsável pelo desgraçado estado da nação, o Passos de Massamá, o marido da D. Laura, o Pedro do facebook.



Um polvo chamado Nini - duração de vida: e meses


E o sentido de humor, sempre o sentido de humor. O Coelho a violentar (digamos assim) um cidadão deu-me vontade de rir apenas pela ideia e pelo grafismo. Mas se nos lembrarmos que é isso que ele anda a fazer a milhões de portugueses, a coisa perde a graça.



Já chega! PORRA - diz o Zé povinho ao Primeiro-Ministro


À hora a que vos escrevo estou a ver na televisão a violência da polícia carregando sobre os manifestantes em Madrid. Em Portugal não há nada disso. As pessoas manifestam-se a sorrir, a cantar e os polícias manifestam-se juntamente com o resto da população.

Ouviu-se um grande aplauso quando chegou a coluna da PSP e GNR. As bandeiras ondulavam, hasteando os valores da fraternidade.



A PSP e a GNR ao lado do povo, contra este Governo e contra as suas políticas


E depois há o sentimento geral de que os políticos que agora estão no poder são mercenários, gatunos. São palavras que se multiplicavam pelos cartazes. Nas mãos de um belo sorriso juvenil, estes cartazes têm ainda mais impacto.



Mercenários (Cavaco à frente do grupo composto pelo Governo)
e Falas de barriga cheia - devolve as regalias e vai mas é trabalhar malandro!


E, claro, há a revolta, os lamentos, o sentimento de injustiça. 


Os reformados não são lixo! Não ao confisco dos subsídios.
É imoral!
É ilegal!



Muito engraçada também a declaração desta jovem ex-simpatizante do PSD. O cabelo ocultava a parte de cima, mas o que se via era elucidativo.



Sou leal à Social Democracia mas não ao 1º Ministro
Pedro Passos Coelho traíu e trais os princípios e valores do PSD


E depois houve de novo a força imensa da juventude, da beleza, da irreverência. Quando os jovens acorrem em força, da forma como eu tenho visto, temos que ter esperança. Talvez esta seja a hora em que os jovens vão perceber que têm que se interessar pela política, que têm que lutar pelo seu futuro.



Sorrisos, flores, cor, alegria, graça  -  e a vida pela frente


E os chapéus? Fantásticos. Adorei este aqui abaixo. Adorei.



Um guerreiro no Terreiro do Paço


E, no fim, já quase no rescaldo, o calor...? E a sede...? E o convívio...? E a joie de vivre...?



A beleza da juventude... e que haja cervejas para todos


Claro que esta manifestação foi diferente da de 15 de Setembro. A de 15 de Setembro em Lisboa congregou essencialmente pessoas de um meio mais urbano, e era notória a predominância das classes média e média alta. A deste sábado era uma manifestação convocado pelos sindicatos de todo o país e, portanto, via-se gente vinda da província, de meios rurais, talvez ainda do que sobra de meios fabris. E achei tocante ver toda aquela gente, muitos com aspecto muito humilde, outros com ar de quem vinha a Lisboa, todos mobilizados e festivos. Havia bandeiras da CGTP, havia palavras de ordem, havia organização e isso é um aspecto relevante e que merece ser saudado. É importante que os trabalhadores estejam organizados e que tudo se processe de forma tão ordeira. Mas, depois, havia também todas as outras pessoas de Lisboa e arredores que se lhes juntaram, gente, tal como eu, que não se identifica com muita da praxis sindicalista nem com os mandamentos dos partidos ditos comunistas e que estava ali apenas para se insurgir contra a destruição que está a ser levada a cabo no país. E via-se de novo muita gente 'muito bem' (desculpem-me a expressão), ou seja, via-se, de novo, gente muito heterogénea. E esta mescla é dos aspectos mais marcantes numa concentração desta dimensão.

Pessoalmente, reconheci-me mais na de 15 de Setembro, muito espontânea, muito mais alegre e emotiva. E de 29 de Setembro teve, em meu entender - e estou à vontade para falar porque sou estreante nestas lides - algumas características que tendem mais a desmobilizar do que a congregar: os discursos intercalados por palavras de ordem, o discurso longuíssimo de Arménio Carlos, já não são forma de cativar e motivar as pessoas.

Já na de 15 de Setembro me pareceu que faltou qualquer coisa que 'prendesse' um pouco as pessoas quando chegaram à Praça de Espanha. Chegaram ali e acabou.

Ou seja, parece-me que seria uma forma bastante interessante de prender e mobilizar as pessoas se o palco e as instalações sonoras fossem aproveitadas para que se ouvisse poesia declamada, canções projectadas nos ares, e, talvez, pelo meio, pequenas intervenções de opinião e mobilização.

O que aconteceu com o discurso de Arménio Carlos e o que aconteceu também na ausência de qualquer coisa na Praça de Espanha foi o mesmo: um imenso mar de gente com disponibilidade para se manter por mais tempo unido e atento e empolgado e que acaba por dispersar sem que tenha havido, digamos assim, um momento de clímax.

Seja como for, foi bom, e só o facto de vermos a população a sair à rua, a percorrer as ruas com vontade de dizer BASTA e de o dizer de peito feito e cara destapada, já é uma vitória.

E, portanto, depois foi tempo de regresso. As camionetas que vieram de longe, abrigavam geleiras, cestas, cabazes e, na hora de voltar à terra, fizeram-se pic-nics mesmo ali e as caixas com entrecosto frito, com pastéis de bacalhau, passavam de mão em mão, e toda a gente comia e bebia, feliz, animada.



Estas são as formigas trabalhadoras que ao longo dos tempos alimentam as inúteis cigarras como António Borges, Passos Coelho, Miguel Macedo, Vítor Gaspar, Miguel Relvas, Paulo Portas e outros 


Este é o povo que começa a levantar-se e a cantar Acordai!, este é o povo que percorre os difíceis caminhos da democracia e da liberdade. Este é o povo que recomeça a sentir que são nossos todos os caminhos.

**

Uma vez mais, saíu-me longo este post. Cheguei a casa muito tarde. Depois estive a passar as fotos para o computador, a escolher algumas de entre as muitas que fiz. E só agora, e já passa um bocado das 2 da manhã, estou a acabar isto. Por isso, peço desculpa aos meus queridos Leitores que comentaram o post anterior (quer do Um Jeito Manso quer do Ginjal e Lisboa) por hoje não responder mas estou mesmo cansada. Amanhã também vou ter um dia cheiinho que nem um ovo mas arranjarei tempo para responder, está bem?

Também não consigo manter os olhos abertos por mais tempo pelo que não vou nem espreitar o que acabei de escrever. Por isso, se descobrirem letras trocadas, vírgulas a mais, a menos ou fora do sítio ou gralhas de qualquer tipo, relevem, sim?

**

Desejo-vos um belo domingo. Despedimo-nos de Setembro, o mês da doçura, que foi tão quente. Esperemos que Outubro não seja ainda mais quente mas, se for, que o seja por uma boa causa. 

segunda-feira, setembro 03, 2012

Ainda não é desta que me atiro a este Governo, a este Passos Coelho que parece que ainda não percebeu que os sacrifícios que nos anda a infligir não servem para nada, só pioram tudo, a este Vítor Gaspar que continua sem acertar uma e que vai levar o défice para uns expectáveis 6,9%, a este Paulo Portas que dá uma no cravo e outra na ferradura e se esvai em puros tacticismos e nada mais... enfim, a esta gentinha toda. Ainda não é hoje. Falta-me a vontade para falar desta gente que tanto mal anda a fazer a Portugal.


Como música de fundo para o não-tema de hoje, 'A Quinta dos Animais' em versão Quim Barreiros

 isto é: Os bichos da fazenda

*

Devo andar ainda anestesiada. Acho que as gotas que o anestesista, há quase 2 meses, colocou no soro para eu ficar zen ainda  continuam a fazer efeito.

Assisto, 'passada':



O número um e o número dois do Governo, gente fina,
 gente 'altamente preparada do ponto de vista académico e profissional'
para as funções que desempenha

. ao descalabro absoluto das políticas deste Governo - que são o oposto das promessas eleitorais; que são as medidas da troika revistas e aumentadas em tudo o que tem a ver com austeridade (e esquecendo tudo o que tinha a ver com medidas de reforma do aparelho de estado, 'gorduras intermédias', rendas, ppp's, fundações, etc); que são pouco claras; que são mal fundamentadas; que têm conduzido o País a uma espiral recessiva; etc, etc,


*

Passos Coelho: esta cara nunca me enganou, cara de quem não percebe nada


. aos disparates sem nexo de Passos Coelho - que, talvez devido à sua estonteante impreparação a todos os níveis, continua sem perceber que as suas ideias não têm sustentabilidade teórica nem prática, que continua sem perceber que está a conduzir o País para a miséria e a desfazer-se, a preço de saldo e sem critério, das empresas mais estratégicas e/ou mais rentáveis, que não coordena os ministros, que não sabe a quantas anda, etc, etc,


*

Vítor Gaspar: cara de quem anda perdido, não pertence a este filme,
aqui está num papel errado, ainda não percebeu o que se espera dele,
falha todas as deixas, não acerta uma


. ao fracasso permanente de Vítor Gaspar - que vê 'chumbada' as suas medidas em toda a linha, que falha  uma a uma todas as metas, todos os objectivos, todas as previsões, que desde que aqui chegou ainda não acertou uma, etc, etc,


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Miguel Relvas: o emplastro do Governo, a vergonha que rapidamente
ultrapassou fronteiras, a anedota nacional, a caricatura do que é este Governo


. ao espalhanço público de Miguel Relvas - que tamanhos são os despautérios em que se vê envolvido que já envergonha todos os que lhe são próximos ou, melhor, já envergonha o País e que, por isso, anda escondido... e nem me alongo mais tantas as embrulhadas em que se está metido,


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Álvaro, o fofinho que gosta de se armar em duro, o dos pastéis de nata
e de outras ideias peregrinas,
um erro de casting desde que aterrou no Governo

. ao desaparecimento do Álvaro  - que já nem se lembra que era ministro da Economia, do Emprego e de mais não sei o quê, e logo numa altura destas em que seria vital ter um ministro inteligente, experiente,


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Nuno Crato, uma decepção, segundo toda a gente diz um troca-tintas,
um diz que diz que e que nada faz do que diz que faz, só se ri


. à hipocrisia gratuita de Nuno Crato, à miopia política, à falta de pensamento estruturado sobre o que é a educação - e que sorri com ar de quem tem mamar doce mas que só espalha confusão no seio dos meios ligados ao ensino,


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António Borges, ao que se diz, o homem dos grandes interesses, a sombra pardacenta.
Para quem é que anda verdadeiramente a trabalhar?


. ao papel dúbio, estranho, desagradável do que parece ministro António Borges - que espalha incerteza, suspeição, desconforto por onde passa,


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Paulo Portas: levou demasiado à letra a ideia de que é um verdadeiro artista,
e, no entusiasmo das performances, perdeu a identidade 


. ao tacticismo, típico de um macaco de rabo pelado, de Paulo Portas - que dá o dito por não dito e suporta gente de quem aparentemente sempre quis distância; e tudo a troco de quê, de um cargo de ministro num governo desqualificado e que há-de envergonhar quem dele fez parte?


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Paula Teixeira da Cruz: parece que é conforme os dias


. ao funcionamento ad hoc de todos, cada um apontando para seu lado, cada um dizendo cada coisa, descoordenados, baralhados, agindo como free lancers - como ontem a ministra Paula Teixeira da Cruz que se atirava contra o endeusamento da iniciativa privada (ao invés do pensamento oficial deste governo) mas a gente fica com a sensação de que disse isto como poderia ter dito o contrário porque já lhe ouvimos de tudo,

... etc, etc, etc.

... e, apesar de assistir passada, não me apetece falar de nada disto.

Custa-me viver num país governado por gente tão impreparada, tão incompetente, tão incapaz, claro que me custa. Esta gente está a destruir o País e a destruí-lo a grande velocidade, numa vertigem.

E o que me preocupa mais é que isto é bem capaz de ser tudo apenas estupidez. É que se fosse por qualquer ideia estruturada, ainda havia a esperança de caírem neles, de arrepiarem caminho. Agora, se isto é apenas estupidez e sendo a estupidez uma coisa genética, que esperança podemos ter?

Cá para mim, a esperança reside em que façam tantas e tão boas que o Governo impluda, que desatem todos à estalada uns aos outros, ou que Cavaco os despeça liminarmente, xô!, xô daqui para fora que me andam a sujar a casa!, ou que aconteça um qualquer número gago desse género, uma cena de gargalhada porque este Governo é tão mau, mas tão mau que se não fosse dramático o que andam a fazer, era de a gente se agarrar à barriga de tanto rir.

Repito-me: isto é tudo tão triste, tão triste, tão mau, tão medíocre, tão fraquinho, tão inenarrável que fico passada com esta gente e com o que dizem e fazem ... mas e vontade para me debruçar com mais profundidade sobre tão fraco material...?

Não consigo, não consigo, não me apetece, é que isto é mesmo mau demais, tenho até medo que isto me faça mal só de falar neles, sei lá.

Por isso, lamento, mas ainda não é hoje... 


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E tenham, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.
E vamos esperar que isto já esteja por pouco tempo porque, afinal, merecemos melhor, não acham?

sábado, junho 23, 2012

Vítor Gaspar assume derrapagem mas, pelo que disse, acho que ainda não percebeu porquê. A Popota Merkel , agora em versão hooligan, começa a virar o bico ao prego e já apoia o desenvolvimento (e ainda bem!). E Joana de Vasconcelos, a nossa Princesa em Versailles, enche-nos a todos de orgulho.


Música, por favor


Vira do Minho - Vira e torna a virar




Vitor Gaspar, o homem que não atina com os números: a realidade teima em não se comportar
 como os  modelos que ele engendrou, o que não admira pois, para fazer modelos económicos,
é preciso ter conhecimentos teóricos e práticos, não apenas teóricos


Com ar maçador e sem pitada de graça, ficando a milhas da piada de Manuel Marques quando o imita, o ministro-que-não-acerta-uma, Vítor Gaspar de seu nome, lá apareceu outra vez a confirmar aquilo que toda a gente com dois dedos de testa, toda a gente menos ele, já tinha adivinhado há muito tempo: que, apesar da espoliação aos contribuintes, os valores das receitas fiscais estão aquém do que estava à espera, que o défice está em risco, que a autonomia financeira do país está em risco na data prevista e que os nossos parceiros da Europa nos irão ajudar quando precisarmos.

Ou seja, um fiasco em toda a linha. Nem mais: as políticas de Passos Coelho a conduzirem o País à miséria, ao desemprego, à ruína, às falências em cadeia... e para nada.

Desde o início que aqui tenho dito - mas não é esperteza privativa minha pois, por todo mundo, muitas e muitas vozes, incluindo prémios Nobel da Economia e os próprios gestores do FMI, têm alertado para o mesmo - esta política absurda de cortes em cima de cortes, sem qualquer incentivo do lado do investimento, gera um tal desequilíbrio estrutural que só podia mesmo gerar recessão em espiral, em que a austeridade gera recessão que, se for combatida com mais austeridade mais recessão vai gerar e assim sucessivamente. O vazio a atrair a realidade a uma velocidade vertiginosa. 



Quanto mais a desgraça alastra mais Passos Coelho se ri com as graçolas do Vítor Gaspar
Penso que julga que este é um humorista, que o que diz são piadolas, acho que o confunde com  o
Manuel Marques - e também ainda não percebeu que o Manuel Marques é bom demais para se meter
nestas cegadas


Com excepção de uns happy few que sabem viver sempre a bom recato dos males que afectam o comum dos mortais, toda uma população está mais pobre, mais insegura, todo o tecido económico está mais frágil, o sistema de saúde está uma desgraça, já se rateiam os tratamentos, os mais pobres já não se tratam, a cada dia mais famílias perdem a casa, os mais jovens abandonam o país em massa, as melhores empresas do país são vendidas ao estrangeiro, não fica pedra sobre pedra - e, para surpresa do Gaspar-que-não-percebe-nada-da-vida-real, isto não conduziu ao eldorado que ele, rapaz que se tem por inteligente, imaginava. Pelo contrário, a dívida aumentou, o défice não vai ser cumprido e alguém terá que nos estender, de novo, a mão. Mas nestes negócios ninguém estende a mão com bons propósitos. Os juros são altos, as condições insuportáveis, os honorários das comissões que nos vigiam são exorbitantes e, não menos importante, continuaremos a ser geridos por burocratas que de vez em quando aí aparecem e que são tratados pelo Governo como se fossem nossos donos. Uma desgraça e uma humilhação.

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Angela Merkel - Isto foi noutro jogo porque no jogo de ontem estava de verde - mas o jeito marcial era o mesmo


Enquanto isso, a guru Merkel, antes de ir disfarçar-se de hooligan no jogo da Alemanha com a Grécia, reuniu-se com o Hollande, o Monti e o Rajoy e, marimbando-se para o Durão Barroso, Van Rompuy e outros inúteis, foi dizer como é - que desenvolvimento é essencial e que um programa europeu para relançamento da economia vai ser posto em marcha. É a reviravolta a começar a operar-se e em boa hora isso acontece; e tomara que muitas mais piruetas ocorram nos próximos tempos pois, caso contrário, não há  salvação possível para o euro e para a Europa que cairá no caos em três tempos. Claro que ainda não se sabe como, quando, controlado por quem, mas é um bom sinal. Não é caso para euforias, mas é um sinal.

Não imagino é como é que Passos Coelho e o Gaspar vão reagir perante isto. Provavelmente não vão perceber. E o homem da Goldman Sachs, o António Borges que por aí anda, à rédea solta, a tratar dos negócios, vendendo as nossas empresas estratégicas segundo critérios lá muito dele, pessoa esta que acha que a legislação laboral deveria ser mais flexível e que o abaixamento de salários é uma inevitabilidade, o que dirá ele? Se calhar vai acelerar na sua actividade antes que se faça tarde. 


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Música, de novo, por favor

Juliette Greco - Sous le ciel de Paris



E, para terminar, porque gosto de terminar em beleza, uma notícia mesmo boa, que a todos nos enche de orgulho.



Joana Vasconcelos, uma Princesa Portuguesa em Versaillles


A grandiosa Joana Vasconcelos está a arrasar em Versailles. A sua obra é tão imprevista como colossal.



Le dauphin et la dauphine - fainaças Rafael Bordalo Pinheiro vestidas a crochet



Com crochet, tricot, peças de arte popular ou utensílios domésticos (que, por aquelas bandas, a etiqueta realesca não adimitiu os utensílios íntimos), Joana recria, reinventa, imagina, ousa (e, de caminho dá trabalho a uma vasta de equipa de pessoas que ajudam a dar corpo a esta imaginação fantástica).


Pavillon é - em ferro forjado


Joana d' Arte

Joana vale tudo o que pesa e pesa tanto
de tachos faz sapatinhos de cristal
e as supostas filigranas se enredam no olhar

até o impensável garrafão brilha na relva
a provocar a provocar...

porque nas mãos de Joana tudo acontece
a mente de Joana é um palácio sem fim
e até os lustres são intimidade
na alma de Joana
Portugal é um país imenso
no coração de Joana
do passado se faz presente

e se constrói futuro
com fios e rendas de saudade



[Poema da autoria da Leitora 'Era uma Vez', a quem agradeço a generosidade, num comentário ao post de dia 19 deste mês]



Marilyn - tachos, panelas e tampas em inox


Muitos parabéns à Princesa Joana, a Lúcida, uma mulher empreendedora, arrojada, que honra a alma e a arte popular portuguesa.

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Se vos apetecer, gostaria de também vos ter lá no meu Ginjal e Lisboa
Hoje as minhas palavras entregam-se a um olhar sensual em torno da Lúbrica de Cesário Verde. 
A música é ainda de Shostakovich.

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E tenham, meus Caros Leitores, um belo sábado!

quinta-feira, junho 07, 2012

Uma receita fatal para os portugueses: redução de salários, estrangulamento fiscal, flexibilização do regime laboral, intensificação das medidas de austeridade. Empobrecimento, desemprego, insegurança. Pergunto: isto é bom para quem...?!


Uma economia competitiva é uma economia predominantemente composta por empresas competitivas. Para as empresas serem competitivas devem, em primeiro lugar, ter uma gestão muito profissional e competente.

Para tal, para além de uma liderança exemplar, com visão estratégica e uma correcta compreensão dos factores críticos de sucesso, são essenciais quadros muito competentes e bem preparados. Refiro-me a técnicos preparados para negociar em contexto internacional, quer a nível das compras, quer das vendas, técnicos muito bem preparados a nível financeiro e de controlo de gestão, técnicos que saibam como devem ser geridos os recursos humanos, técnicos que saibam tornar cada vez mais eficientes os processos de produção e manutenção, etc.

Uma empresa para ser competitiva tem que ter gente capaz, motivada, gente que sinta que faz parte de um projecto comum. Como tal, gente justamente remunerada.

É uma estupidez, mas uma estupidez que raia a burrice encartada, pretender que os salários devem baixar mais (quando já são vergonhosamente baixos quando comparados com os dos parceiros de UE). 

É uma estupidez, mas uma estupidez que raia o descaramento mais desavergonhado, pretender que o País precisa de flexiblizar ainda mais as já tão precárias condições de trabalho (ou seja: despedir ainda mais facilmente, despedir ainda mais barato, reduzir ainda mais os subsídios de desemprego e pagá-los cada vez por menos tempo). É inaceitável e estúpido. 

É uma inutilidade criar programas para encaixar nas empresas jovens, subsidiando esses estágios. É caridade, apenas isso. Retira os jovens da rua, o que é bom mas não é solução para o problema. Soluções que têm por base a caridade não vão a lado nenhum.

Empresas sem fundo de maneio, com problemas de tesouraria, sem dinheiro para pagar matérias primas, sem mercado porque os consumidores não têm poder de compra, têm problemas que não se resolvem se puderem admitir estagiários.

O que o País precisa é de programas inteligentes de estímulo ao desenvolvimento, actividades novas, novas empresas, e, também, condições para que as empresas que existem se aguentem (o que acontecerá se a economia funcionar e se a carga fiscal deixar de ser um garrote). Tal como existe nos Estados Unidos ou em países europeus, que se ponham no terreno programas de reabilitação urbana, ou que se lancem programas integrados e sustentados para actividades ligadas ao mar (pesca, aquacultura, investigação marinha, etc, etc), que se aposte com pés e cabeças numa indústria de turismo, que se perceba a riqueza económica associada às actividades ligadas à cultura, etc, etc. 

Claro que para isso é preciso governantes inteligentes, com visão, com cultura, com autonomia mental.

Gente que pouco sabe seja do que for, gente que parece que emprenhou pelos ouvidos a partir de cartilhas mal paridas, gente que se subjugou a um outro país da forma mais incompreensível e ridícula que já se viu e que parece estar cá apenas para cumprir um programa pseudo-ideológico a soldo de investidores e especuladores sem rosto, nunca será capaz de o fazer.

Portugal, de facto, tem tido na sua história períodos honrosos mas tem tido, também, períodos de apatia, de desnorte, de gastos à tripa forra, de mediocridade e mesquinhez. Este período que agora atravessamos é um desses períodos históricos para esquecer.

Aliás, não é impunemente que Portugal viveu durante quase 50 anos debaixo de um regime sem liberdade, sem democracia, sem estímulo ao conhecimento, louvando a pobreza, a ignorância e o isolamento. Talvez 30 e tal anos não tenham sido suficientes para limpar das mentes os resquícios destes tempos sombrios, pequeninos. 

Depois há os que regressaram de África nesse período e tiveram que adaptar-se a um novo mundo, apanhando os anos de dinheiro fácil, o período mais áureo do cavaquismo, de dinheiro fácil, em que era fácil trepar apesar do mérito duvidoso. Claro que a maioria dessas pessoas é gente lutadora, gente de mérito. Mas há os meninos que se enfiaram nas Jotas dos partidos, que, passado algum tempo, quase sem saberem ler nem escrever, já andavam pelos governos, já andavam nas empresas nomeados pelos partidos. Muita mediocridade, muita. E aí andam agora, governantes.

Não vou falar de nomes apenas porque tantos são os casos que ilustram o que aqui digo: Borges, Relvas, Passos Coelho, etc, etc, etc, etc, etc, ou seja, é fastidioso enumerá-los. Pululam.

O País está mais pobre, mais inseguro, menos competitivo, mais dependente, mais insignificante. Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Pacheco Pereira, e tantos outros nomes insuspeitos do PSD não têm poupado críticas à forma como este governo tem estado a fazer mal, um mal profundo e de efeitos duradouros, ao País.

É uma tristeza isto. A cada dia que passa Portugal está mais distante de um ideal de uma Europa progressista, desenvolvida, culta, forte. 

Hoje em dia ficamos orgulhosos ao ser suficientemente duros para infligir dor nos outros. Se ainda vigorasse um costume mais antigo, pelo qual ser duro consistia em suportar a dor, e não em impô-la, talvez devêssemos pensar duas vezes antes de preferir com tanta insensibilidade a eficiência à compaixão. [Tony Judt in Um Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos]

Isto tem que mudar.