No post abaixo falo das birras literárias entre críticos, editores e tudo o que vagamente tenha a ver com conversas e negócios à volta da literatura. O que me leva a escrever sobre isto é o espalhafato de vizinhas entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos, que quase os está a levar a andar ensarilhados no meio do chão a arrepelarem os cabelos um ao outro - e tudo, imagine-se, a propósito do livro de correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões.
Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui a conversa é outra.
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Não sei bem porquê, porque não gosto de escrever obituários, acho hoje que deverei dizer qualquer coisa sobre a morte de António Borges.
Há já algum tempo, seguramente há bem mais de um ano, um amigo estava a contar-me que tinha estado a ouvir António Borges aí numa 'cena' e que, antes e depois, tinham estado a trocar uma prosa. Comentei a sua magreza que, à vista desarmada, era de mau agoiro, ao que o meu amigo me disse, 'ele tem cancro no pâncreas, coisa séria, mesmo séria, está no caminho descendente. Mas continua com uma agenda como se estivesse para dar e durar'.
Fiquei admirada pois estávamos numa altura, com esta coisa de ele ser o ministro oculto mas, de facto, talvez o mais poderoso, em que as polémicas sistematicamente se incendiavam em volta dele. Estando assim tão mal, para que andava metido nisto, envolto em controvérsias, em vez de aproveitar o tempo que lhe restava, em tranquilidade?
O meu amigo contou que eu nem imaginava, que tranquilidade era coisa que não existia na vida dele, que as viagens em trabalho ao estrangeiro eram regulares, que inclusivamente fazia viagens intercontinentais, coisas de dia inteiro, e reuniões e mais reuniões de trabalho e que identicamente mantinha reuniões e almoços para amigos em casa e que ninguém percebia aquela vontade de fazer parecer que nada se estava a passar.
Perguntei ao meu amigo: mas que explicação encontra para o facto de ele, sabendo que tem pouco tempo de vida, em vez de descansar, ler, estar com a família, andar nessa correria e sempre com bocas polémicas, provocatórias?
O meu amigo também se mostrava admirado mas adiantou uma possível explicação: sabe? pessoas assim acham que tudo na vida é uma questão de vontade, que, querendo, sempre se consegue, que na vontade é que está o segredo do sucesso, penso que talvez ele ache que é superior a isso, que vai ultrapassar. Tal como acredita que se vai vencer esta crise, que se vai ultrapassar a crise da dívida, o défice, isso tudo.
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| António Borges: a vida é breve |
Depois disso, eu, ao vê-lo na televisão, impressionantemente magro, pose arrogante, desafiador, mostrando-se superior à plebe, e sempre a acreditar que os mercados é que mandam e que, mesmo num cenário desregulado como é aquele em que vivemos, os mercados haveriam de encontram um equilíbrio racional, interrogava-me: como é que um sujeito que toda a gente diz que é inteligente dá tantas provas de que o não é - e toda a gente continua a dizê-lo brilhante?
Sempre achei que quase tudo o que ele defendia estava errado. Se fosse inteligente, ele deveria ver que, tal como o seu próprio corpo lho estava a demonstrar - com as células malignas multiplicando-se descontroladamente -, tem que haver regulação e, além disso, tem que haver uma força moral a sobrepôr-se à força bruta dos mercados ou da matéria.
O Insead, que ele dirigiu, é uma das grandes escolas de gestão, é certo, mas é a escola onde se ensina(va) aos gestores que gerir bem é criar valor para o accionista e ponto final (e acreditem: sei do que falo). Sobre o que isso tem de redutor e o que isso desgraça a economia já aqui falei antes. Criar valor para o accionista é fundamental sim, mas tem que ser um dos parâmetros - um dos, não o principal ou, mesmo, o único.
É que foi isso, associado ao facto de os Governos estarem manietados pelas Goldman Sachs desta vida (Goldman Sachs à qual ele também pertenceu), que fez com que as políticas fiscais dos países mais vulneráveis favoreçam o não reinvestimento dos lucros. Em vez disso, as políticas fiscais favorecem que se recorra a financiamento bancário (pois isso, aumentando os juros, aumenta os custos e, aumentando custos, reduzem-se os lucros e, reduzindo lucros, paga-se menos impostos e, portanto, maiores os lucros líquidos - e, lá está, maior o valor criado para o accionista).
Ora isto, que foi um excelente negócio para todo o sector financeiro, foi a desgraça para as empresas (que se endividaram até ao tutano). E não foram apenas as empresas privadas, foram também as do Estado cuja gestão emulou a gestão privada.
E assim chegámos à dívida colossal que destruiu a economia e colocou o país nas mãos dos bancos e do sector financeiro em geral.
Esta é a política liberal defendida por António Borges e seguida acefalamente pelo Governo de Passos Coelho.
- Já agora, um pouco sobre isto, recomendo a leitura deste lúcido artigo de Viriato Soromenho Marques, um dos homens inteligentes e sérios deste país (e que tive o privilégio de conhecer antes dele ser publicamente conhecido - mas quando já era, porque sempre o foi, uma pessoa diferente, interessada, informada)
Que sabendo o que acima referi (porque, sendo inteligente como diziam que era, António Borges tinha forçosamente que o saber), ele tenha defendido que a solução para o País era vender ao estrangeiro as suas maiores empresas, baixar os salários dos trabalhadores portugueses e outras imperdoáveis falácias é coisa que nunca consegui digerir. Quem defende isto não pode amar o País. Ou então não é inteligente.
Por isso, por sempre ter achado isto, não é agora, que ele se foi, que vou mudar de ideias.
Mas isso é uma coisa e outra muito diferente é regozijar-me com a sua morte. Era um homem com família e a família deve ter sofrido a perda do seu familiar querido. Custa-me ler o que tenho lido por aí, muita maldade irracional, muito fel inútil, uma agressividade latente e desfocada.
Eu queria que o Governo do meu país não o tivesse contratado ou que não seguisse as suas ideias, só isso.
E isso é muito diferente de querer a sua morte. Uma vez mais, a responsabilidade por o ter escolhido e por seguir as suas ideias - apesar delas se terem revelado a causa dos problemas do País (do nosso, tal como também de todos os que vêm caindo nas mesmas malhas) e apesar de se ver que as soluções que continuava a defender se mostravam inequivocamente erradas - era e é de Passos Coelho. Foi nele que as pessoas votaram e é ele o responsável pela (des) governação de Portugal.
E isso é muito diferente de querer a sua morte. Uma vez mais, a responsabilidade por o ter escolhido e por seguir as suas ideias - apesar delas se terem revelado a causa dos problemas do País (do nosso, tal como também de todos os que vêm caindo nas mesmas malhas) e apesar de se ver que as soluções que continuava a defender se mostravam inequivocamente erradas - era e é de Passos Coelho. Foi nele que as pessoas votaram e é ele o responsável pela (des) governação de Portugal.
(E, obviamente, também não desejo a morte de Passos Coelho, nem pouco mais ou menos, apenas quero que deixe de ser primeiro ministro de Portugal. Apenas isso. E será muito)
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Permitam que relembre: sobre as cenas de faca e alguidar entre Arnaldo Saraiva e Filipe Delfim Santos é só descerem um pouco mais.





















