Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, abril 30, 2020

O enigma





Não sei se é a simetria se o requinte do recorte. Olho a pequena flor e parece-me de uma beleza extraordinária. Outras vezes são as palavras. A ligação entre ideias. O inesperado do significado, o inesperado do som. A harmonia. A palavra certa na frase certa, no raciocínio certo. E isto de dizer que é certo é absurdo. Mas certo no sentido de me soar bem, de me surpreender e me agradar. A ligação de formas, a elegância das linhas. A subtileza das cores. A toada. Aquela melodia que nasce de lugar nenhum. A beleza que nos leva, que nos enleva.

Referem-me os clássicos. Sem os clássicos tudo é nada, sugerem-me. Percebo. Como se, sem ter passado por aí, qualquer juízo meu fosse juízo feito em campo aberto, sem escala, inválido. O certo, segundo percebo os conselhos, seria começar pela linha de terra. Depois, então, aventurar-me em busca da linha de água. Só depois ousar a linha de horizonte.  E eu até aceito que possa fazer sentido. Há quem acredite que a b chega-se depois de passar pelo a, a c depois de passar pelo b. As bases, a sequência certa. É o que se ensina na escola, a percorrer o carreirinho.

E, no entanto, há outras cartografias. Não há como negá-las. Situam-se no ar, em terra de ninguém. Cartografias insolentes, não mapeáveis. Não se deixam decifrar. Referências voláteis, inexplicáveis. Topologias que se deslocam, variáveis no tempo, no espaço, lugares apátridas, sem fronteiras, imateriais. Território talvez de uma pessoa só. E de quem queira lá entrar e partilhar esse indecifrável espaço de afinidade, de afecto, esse lugar onde não há explicações possíveis. 

Não sei de certezas nem posso dizer que só sabe alguma coisa quem teve a paciência de começar pelo princípio, quem soube colher o que de melhor alguma vez se fez. Não sei de nada disso, não sei o que é melhor. Mas isso é talvez porque eu sou outra, viro as costas ao saber e aos consensos, não sigo lição moral, não sigo nada, sou bicho de trilhos não percorridos, sou de me aventurar, sou de me deslumbrar com o último fiapo de luz a escorrer pela montanha ao longe, sou de ficar meia hora a olhar para uma frase, sou de ficar com lágrimas nos olhos a olhar um céu imenso e nele apenas uma lua a crescer e uma estrelinha brilhante. Sou de outros vocabulários, sou de outras contas, sou de outras bibliotecas, de outros caminhos. Não sou de me deixar agarrar. Não sou de soletrar, não sou de alfabetos, não sou de tabelas periódicas, não sou de tabuadas. Prefiro a variabilidade das bases, das escalas, prefiro o enigma.

É isso.

Sou capaz de percorrer mil labirintos, de me arriscar por mil abismos, sou capaz de negar os clássicos e as leis mais básicas da física, sou capaz de ignorar a gramática e as mais sábias recomendações de quem sabe mil vezes do que eu. Sou mesmo -- e tudo só para continuar, em total inocência, a procurar a intangível e inexplicável beleza. O que quero mesmo é permanecer na ignorância, não desvendar, nunca, o enigma. Viver no limiar do eterno mistério. 


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Vermeer e Nick Knight ao som de Fields of Gold na voz de Katie Melua

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Há coisas que parece que não rimam: padres em layoff...?


Gente, tou besta. Primeiro, estou a ver o Portela Filho da Bial na RTP 3 a falar de vacina e a toda a hora pronuncia vacína. Até dá vontade de escrever vá-ssi-na para condizer melhor com o a todo aberto. Acresce que parece não ter herdado do pai o dom de reencarnação. Eu, como sou ignorante de físicas e metafísicas, não posso dizer se isso é bom se é mau. De aspecto, posso dizer que é escorreito e não me admirava nada se fizesse surf ou equitação, quiçá até ténis. Mas não dá mostras de pretender falar na encarnação do espírito, parece que o negócio dele é mesmo só as vá-ssi-nas e outros preparados.

Depois, está um Bettencourt em videoconferência, pessoa de Oxford e do Jenner Institute, que diz que não se pode desbocar, que tudo aquilo que anda a fazer, é confidencial. Mas, logo a seguir, parece esquecer-se do pomposo disclaimer e relata tudo ao pormenor. Além disso, diz vacina de forma normal. Curiosamente está todo encasacado e com um nó na gravata que impõe respeito. Parece tudo menos um investigador. Pelo aspecto, poderia ser um contabilista do século passado mas, lá está, quem vê caras não vê corações nem neurónios. Do que lhe ouço, parece tratar o corona por tu. Não sei o que pensar do cara. 

Este mundo é um mundo muito maluco, é o que tenho a dizer. Em cima de tudo há ainda mais esta da igreja entrar em layoff também é boa. Os padres a entrarem em layoff deixou-me na base do what???. Parece que ninguém lhes vai bater à porta, a pedir milagres, nem se lembram de dar gorjeta agora que não há missa. Portanto, chegamos a esta situação paradoxal em que um país de crentes, beatas, procissões e beijinhos na cruz, numa altura destas em que tanta benzedura, reza e milagre dava jeito, se esquecem dos seus agentes e os deixam a precisar de layoff. Uma pessoa fica banza. Até o Avillez faz serviço social. Mas não é só ele, toda a gente faz máscaras, mangas ou refeições para oferecer ao pessoal dos hospitais. Mas os padres e freiras viste-os. Não os vejo a fazer voluntariado, a dar guarida aos infectados que não têm onde estar, nada. E agora entram em layoff. Jesus Cristo deve estar beige. Ainda faz tão pouco tempo que ressuscitou e, com os desmandos desta turminha que para aí anda pregando em seu nome, já deve é estar capaz de se ir enterrar outra vez.

E agora vou ao youtube, lugar de meditation e pastação, e dou com esta cena da cura. Cristo, himself, a dar um jeito num lázaro e num outro doente. Se isto não é um sinal....


E nem precisou de vá-ssí-na.

quarta-feira, abril 29, 2020

Solilóquio de uma mulher que deixou de ser consumista





Há coisa que não tem jeito. Faz nem sei quanto tempo que não consumo. Abstinência total. Um bom comportamento de dar direito a medalhinha. 

Curioso é que nem fiquei de ressaca. Nada. Parece que esqueci o tempo em que consumir fazia parte da minha vida.

Curioso, também, que nem sequer sonhei.
Digo isto porque, depois de ter deixado de fumar, volta e meia sonhava que fumava. Longas inspirações. Ou aspirações, tanto dá. Depois expirava lentamente. Aquele prazer. E invariavelmente, nessa altura, acordava num sobressalto, tinha voltado a fumas, tinha-me esquecido de que já não fumava. Até que, aos poucos vinha a mim e percebia que tinha sido um sonho. Mas aquela sensação tinha sido absolutamente verdadeira. Custava a voltar a adormecer, tão intrigada ficava com aqueilo: tinha mesmo revivido a sensação de fumar.
Mas nada. Nada mesmo. Nem blusinha, e tanto que gosto de blusa fininha de seda, nem brinquinho, e se eu sou amarradona em brinquinho, nem um chanelinho, e se eu curto um cincozinho. Nem livrinho. Nada. Livrinho novo, nada. Tanto que eu gostava de andar a fazer-me rogada, que só ia olhar de longe, que nem pensassem que iria bandear-me, no way, já estou bem servida, não preciso de mais, só olhar que olhar não arranca bocado. Mas depois, já cedendo à tentação, toda eu a inclinar-me para o pecado. Se me parecia de bom verbo, de bom aspecto, elegante, bom ao toque, já eu me sentia a cair, toda eu a arrastar a asa. Saía de lá com um pela mão. Ou mais. Em dias de gula e destempero, já era um em cada mão, ou, se era para a desgraça, uns três ou mais encostados ao peito.

Chegava a casa e cheirava-os, espreitava-lhes os interiores, passava-lhes a mão pela lombada. Um prazer. Abrir ao acaso, ler, perceber como eram quando apanhados na curva, sem aviso prévio. Tão bom que era.

Há quanto tempo.

Asceta dos quatro costados, agora. Enfiada no campo, roupa do fundo das gavetas do fundo, sem uma gotinha de perfume que se justifique, toda eu entregue à comidinha caseira, a passeios pelo campo, fotografia a toda a hora de florzinha simplória. Esta agora sou eu.

Está certo que, pelo meio, faço outras coisas mas isso agora não interessa para nadinha.

Num desses pelo meio nova discussão: está na hora de se regressar ao local de antes do merdinhas? Eu acho que a coisa tem que ser na base da prudência, só regressar quem tem que regressar, manter as empresas a trabalhar mas da forma mais segura possível. Mas claro que se isto, por um lado, bate tudo certo e parece sensato, por outro, implica que mais gente como eu se torna não consumista. E, se isto é muito lindo, a verdade é que toda a gente que trabalha neste tipo de comércio vê a vida a andar para trás. Claro que aparecerão novas actividades, claro que tudo, aos poucos, se reajustará. Mas, pelo meio, os donos das grandes torres de escritórios e das grandes catedrais de consumo devem estar a deitar contas à vida. Quanto desemprego para tanta gente?
A propósito: li que um dos donos do Colombo é um dos futuros donos da Brisa. Ui. Numa altura em que as contas do Colombo devem andar pelas ruas da amargura vai assinar pela concessão de autoestradas que estão vazias. Coitados dos que estão à espera de bons rendimentos à conta destes investimentos. 
Adiante que, à noite, no meio do campo, a minha mente não tem nada que se esgueirar por tão ínvios caminhos.

Dizia eu. Isto do consumo. Coisa perversa. Penso: mas será que estou capaz para voltar a uma livraria? Passar a mão neles, pegar-lhes? E se algum corona ranhoso lá pousou? Quem garante que uma tosse ou uma mão contaminada não o contaminaram também?

E blusinha linda? Vou provar? Vou pegar numa coisa em que outras mãos pegaram?

Mas também para quê? Preciso lá eu de mais alguma coisa?

Ando nisto, nesta divergência entre mim e mim. Quando vou voltar a circular para além do básico? Vou ao supermercado e já me chega. Trabalho em casa. Ando pelo campo. Estou bem assim. Quando puder circular, irei ver os meus amores e amorzinhos. E eles poderão vir cá. E tudo ficará melhor ainda.

Mas vai ser esta a vida? A minha? A de todos os reconvertidos? 

Recebi uma sms da simpática cabeleireira de bairro onde ia quando o rei fazia anos. Diz que podemos contar com o cuidado dela. Coitada, tenho pensado tanto nela. Mas vou lá fazer o quê? Quando preciso de cortar no cabelo, pego numa tesoura a corto.

Paguei outra vez o mês inteiro à senhora que lá ia a casa, na cidade, uma vez por semana limpar a casa e passar a ferro. A casa está vazia há mês e meio. Quando vou voltar a precisar de limpezas semanais naquela casa? E vou querer que uma pessoa que circula por várias casas por lá ande,  pela minha casa, mexendo em tudo? Mas coitada dela. 

E estou nisto. Cheia de dúvidas. A cabeça dividida. Sem saber para que lado orientar os neurónios. Os chamados mixed feelings.


Vá lá que, quando a cabeça precisa de se alienar ou não atina com o caminho, há os vídeos que caem do céu para me tirarem dos becos de onde não sei sair.

Pode ser uma que não faço ideia quem seja ou outra que idem. Não faz mal. Ponho-me a ver e gosto. E gostos não se discutem, ora essa. E se aparecem a mostrar a casa ainda melhor. Gosto de ver casas. Excepto as escuras, as armadas ao pingarelho ou as desnaturadas. Mas estas que o meu amigo me recomendou são bonitas. Gostei.




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As pinturas são de Maqbool Fida Husain que, à primeira vista, não me parece que vá muito à bola com o Smile interpretado pelo David Gilmour. Mas quem sabe se à segunda...

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E uma boa quarta-feira. Saúde e carapaus para o gato.

Brad Pitt e o Dr. Anthony Fauci


Tenho muitas razões para gostar do Brad Pitt. E agora mais uma. Desde que o conheci que fiquei assim, devota. E, por muito mal que se porte -- e, sim, sou mais uma daquelas que gosta de bad boys - eu perdoo-lhe sempre tudo. E nem vale a pena tentar arranjar argumentos em minha devesa. Pode até acontecer que haja quem ache que, para algumas situações, não há argumentos que atenuem a coisa. Não quero saber. Olho para ele e só vejo bons argumentos. 

Mas, dizia eu, agora mais uma. Este vídeo:


Acrescento ainda que tenho muita pena do Dr. Fauci. Temo pela sua saúde mental.

terça-feira, abril 28, 2020

Viver é, afinal, o sentido da vida?
Será?
O grande mistério não é, afinal, mistério nenhum?







Ao fim de semana o meu marido afadiga-se a desbastar árvores, a podar silvas e tojo. Tem posto os sobrantes num monte que não se queimava porque ele tinha esperança que isto do covid aliviasse e que se fizesse uma grande fogueira quando cá estivessem todos. Os meninos gostam imenso de ver, sentem aquele misto de susto e vontade de vencer o medo. O meu filho também gosta.

Mas o monte de mato já era uma montanha, não dava para continuar a amontoar, e hoje decidiu produzir a sua queima. Inscreveu-se no site e, tendo obtido o ok, ao fim da tarde atirou-se a isso.


Quando foi lá para baixo, fui com ele. Estava um resto de sol, um entardecer agradável. Ele a queimar mato e eu a caminhar pelos caminhos em volta. Ia pensando: caminho por caminhar, não com o objectivo de chegar a algum lugar mas apenas pelo prazer de andar. Andar em volta como numa oração mas com a mente desocupada de palavras ou ideias.


Ouvi, então, um carro a parar lá em cima, na estrada. Desviei-me. Era o vizinho que vinha de acomodar as vacas lá em baixo. Pôs-se a falar com o meu marido. Falavam alto, de um para outro, para se ouvirem. Mas não muito alto. Sem qualquer outro ruído, a voz propaga-se bem e, mesmo à distância, ouviam-se bem. Percebi que falavam dos isolamentos e que o meu marido dizia que aqui, por estas bandas, no campo, o bicho não entra. Enquanto caminhava por entre as árvores, pareceu-me perceber que o vizinho respondia que não era bem assim, que um senhor da aldeia o tinha apanhado, que até foi levado para o hospital, que a família está toda sob suspeita. Ficaram a conversar, a espaços, com silêncios pelo meio. Quando se despediram, aproximei-me, intrigada. Na aldeia? O meu marido confirmou. Fiquei impressionada, parece-me uma coisa impossível. Tantas vezes que eu digo que por aqui, tudo tão longe uns dos outros, não há perigo algum. No outro dia, eu disse que podíamos ir à aldeia ver se por lá vendem feijão verde, cenoura e batata doce, coisa que consumo em excesso. Dizia eu que qual máscara, qual carapuça, qual cuidado, qual carapuça, aqui o ar é limpo, não há quem pegue bicheza.

Afinal.

O meu marido também estava admirado.


Depois andei a fotografar as florzinhas, os troncos lavrados das árvores cheias de vida, a descobrir outros cogumelos que, confundidos com este tempo outonal, desataram a ressuscitar. A ouvir os passarinhos.

Por acaso, por ali em silêncio, até apanhei um susto. Um restolhar ruidoso, um barulho que quase parecia uma moto aérea. Um pássaro grande levantando um apressado voo à minha passagem. Que som curioso, aquele intenso bater de grandes asasa.

Já aqui estou, de seguida, há tantas semanas e todos os dias me maravilho com o que vejo. Tantas coisas novas, tanta beleza, tanto milagre.

Ah, por falar em milagre. Hoje aconteceu-me mais um. Tomei banho e, como sempre, fui estender o lençol de banho na corda que vai do plátano ao abrunheiro. Passado um bocado, de repente, caíu uma chuvada brutal. Um daqueles aguaceiros tão violentos que pensei que até podia ser, outra vez, uma bátega de granizo. Uma coisa brutal. Estava a ter uma reunião e quase nem ouvia o que diziam tal a força da chuva. Passado um bocado, o meu marido passou ao pé de mim e, olhando lá para fora, disse: podias ter apanhado a toalha. Só então me lembrei dela. Entretanto, tinha parado de chover. Fui lá fora sem saber se a deveria trazer para dentro ou deixá-la, a ver se, com algum bocado de vento, secava. Pois bem, para meu total espanto, estava seca. Seca. Disse ao meu marido. Não acreditou. Eu afiancei: seca. Foi lá fora ver. Seca. 
Não tenho explicação. Não há explicação. À noite contei à minha filha. Ela perguntou: qual é a explicação? Respondi que não há. Perguntou se estava debaixo das árvores. Não, está no espaço aberto entre as árvores. Não há explicação. É um daqueles milagres que por aqui acontecem.

Mas voltando à queima. Gosto daquele cheiro de fogueira, em especial quando se dissolve pelo ar, pelo meio do arvoredo. Na minha cabeça é um cheiro que se mistura aos perfumes do campo, leva-me até à infância, leva-me até memórias que não consigo situar.

Quando regressei a casa, quase ao anoitecer, fiz os telefonemas do costume, os familiares e mais um ou outro profissional. E depois por aqui andei, com aqueles pensamentos meio desencontrados, a querer gostar de aqui estar, apesar do confinamento e da saudade, mas sem querer assumir que gosto. Talvez porque a jornada acabou ligeiramente mais cedo e, portanto, o dia me foi menos pesado, cheguei à noite menos revoltada, muito mais tranquila.


Entretanto, já estive a trabalhar para preparar o dia de amanhã que começa cedo e vai acabar tarde e agora, aqui, como habitualmente, para descansar a cabeça, resolvi espreitar os vídeos. E, treco-lareco, na mouche. Adivinhando que a minha disposição está para peace and love, natureza e harmonia, bucolismo e tranquilidade, tinha para me sugerir daqueles vídeos em que não percebo nada do que dizem. Mas sem problema. O primeiro tem legendas mas são tão miudinhas e o meu computador tem um monitor tão pequenino que não pesco uma. Mas não sinto falta. Gosto na mesma. Já vi duas vezes. Tão bonito. A casa, a luz, as fotografias, os gestos vagarosos, as grandes janelas, as árvores, os verdes, os trabalhos manuais. Uma tal paz. 


Penso: será que um dia vou ser assim, como a senhora deste vídeo? Feliz, apaziguada, vagarosa, toda eu tempo para tudo, para passar as mãos ao de leve sobre as coisas, olhando lá para fora. Fazer pão. Será que um dia me vai dar para fazer pão, para fazer compotas, para organizar as fotografias? Será que um dia vou deixar outra vez crescer o cabelo e fazer uma trança? Quando era adolescente usava muito uma trança. Uma trança de ouro velho como estava escrito num poema. Quando desmanchava a trança, o cabelo caía-me pelas costas, ondulando como fogo. Gosto dessa recordação.


E depois a Liz Qi que, por sinal, também usa uma trança. Aqueles gestos intuitivos, aqueles movimentos decididos, aquelas mistelas, flores com leite de não sei o quê, aqueles cremes com ar de serem doces, saborosos. Ela cultiva, ela colhe, ela monda, ela separa, criva, filtra, ela ferve, ela separa. E eu, sem perceber o que ela está a fazer, deixo-me dicar a ver. Gosto. Se ela morasse na serra, aqui perto, talvez eu lá fosse pedir-lhe que me aceitasse como discípula. Acho que era capaz de passar dias inteiros a aprender com ela.


Uma vez mais partilho algumas das fotografias que por aqui vou fazendo. Gosto de fotografar porque acho tudo muito bonito. Espero que, para quem vê, não seja uma seca. Gostava que também gostassem. Significaria que talvez víssemos o mundo com o mesmo tipo de olhar, um olhar embevecido, agradecido.


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Desejo-vos uma boa terça-feira.
Saúde e alegria.

segunda-feira, abril 27, 2020

Às vezes sou o tempo que tarda em passar e aquilo em que ninguém quer acreditar





O meu filho, no outro dia, perguntou-me como estava isto a correr e se me via a viver aqui. Disse-lhe que sim, mas não confinada. Em condições normais já eles teriam vindo cá várias vezes, já eu teria enchido os miúdos de beijocas e abraços melados, já eu teria ido ver o mar e passear à beira rio, já teria ido algumas vezes jantar fora, já andaria a ver que filmes por aí há para ir ao cinema, já teria cirandado pelas livrarias. Mas as circunstâncias, muitas vezes, não somos nós que as escolhemos e esta que todos vivemos é daquelas que a mim nunca me teria passado pela cabeça. Portanto, sendo as coisas o que são, do mal o menos, a ter que estar confinada, antes aqui.

Aqui, pelo menos, estou in heaven. E estar no paraíso é a ambição de qualquer crente. E crente é o que eu sou, tão crente que quero cá estar ainda em vida.


Nunca na vida fui de livros ou filmes de ficção dita científica ou de terror. Cenas de epidemias a tomarem conta do mundo é daqueles guiões de que sempre fugi a sete pés. Acharia improvável, absurdo. Se me tivessem perguntado se uma coisa destas seria minimamente provável teria respondido que não, sem pensar antes duas vezes. Pensaria que a ciência já dispõe de armas de defesa mais do que suficientes para que uma qualquer ameaça deste género fosse rapidamente debelada e, portanto, o risco de ficarmos como hoje estou seria nulo. Zero probabilidade. Next question...?

Não conhecia os receios de Bill Gates ou de outros, bem informados, que temiam que isto acontecesse. Se conhecesse, talvez tivesse tocado em mim alguma campainha. Mas não tocou. Por isso, estava a milhas.


Amigo bem informado tinha-me enviado os top risks identificados no World Economic Forum para 2020: guerras comerciais entre os super-poderes, aquecimento global, ciberataques, destruição de eco-sistemas, desastres naturais, incêndios descontrolados. Coisas nesta base. Pela cabeça dos inquiridos, supostamente os eleitos de entre os bem pensantes do mundo, também não passou que meses depois o mundo ajoelharia, sem reacção, sem defesas, vencido por um merdinhas invisível.

Vou espreitando as notícias sempre tentando descobrir indícios de boas novas. Mas elas tardam a aparecer. E sei que quando uso o verbo tardar estou a ser fútil porque numa luta destas o tempo não se mede na mesma escala que se mede a nossa impaciência. Mas também aqui, as coisas são o que são e eu penso com a impaciência que me toma, não com a bagagem científica de quem pode reverter o jogo.


E, por isso, enquanto a nível profissional participo nas discussões onde se avaliam as condições para o regresso à normalidade, sem que ninguém saiba bem o que isso é, a nível pessoal ando com a cabeça às voltas, tentando adaptar-me, tentando encontrar um ritmo que me seja quase natural, tentando manter a cabeça fresca para acorrer aos que trabalham comigo e começam a dar sinais de ruptura psicológica ou a outros que, de forma voluntarista, teimam em ignorar os riscos de saúde pois estão a entrar em estado de alarme com os riscos económicos e financeiros ou, ainda, a outros que parece que querem resolver em dois ou três meses assuntos que andam há anos a empatar.


Bem.

O sábado é sempre dia de muito trabalho, limpezas, arrumações. Mas o domingo é dia de descanso, dia de calmaria, de caminhar, de fotografar em silêncio e com vagar. E de tratar de outras coisas. Junta-se muita coisa para fazer num único dia. Mas deu para ler, para passear. E deu-me para fazer outras limpezas, desta vez atirei-me às juntas de azulejos das casas de banho. A minha vida agora é assim, nada mais que isto. Pelo meio, ligo duas vezes por dia à minha mãe e falo com os meus filhos, vejo os meninos. Durante a semana é outra conversa, é reunião e telefonemas em contínuo, uma correria insana sem sair de casa. 

Por isso, sim, podia viver aqui mas, se for enquanto trabalho, tenho que aprender a trabalhar menos para ter mais tempo para mim. Penso que o teletrabalho é uma grande solução para todas as funções compatíveis. Mas não pode ser este abuso de mais de dez ou doze horas diárias. Estamos todos a aprender e estamos a aprender debaixo de uma convulsão de circunstâncias, sem tempo para nos ajustarmos, é um ajustamento forçado, imediato, sem tempo para reflexão. E no meio de um mar e incertezas.


Amanhã de manhã, arranjar-me-ei com a preocupação de manter o look profissional. Talvez me aconteça como noutros dias, pensar que deveria pôr perfume. Numa outra era, eu não saía de casa sem me perfumar. Agora acho que não faz sentido. E custa-me isso. Perfurmar-me era um ritual tão meu. Agora parece-me inútil.

E troco a minha vida por um dia de ilusão

E penso aquilo em que já pensei tantas vezes: um dia que deixe de trabalhar, manterei o gosto em arranjar-me, em maquilhar-me, em perfumar-me? Conseguirei manter alguma disciplina? Ou deixar-me-ei entregue a rotinas simples como cozinhar, arrumar a casa, pôr a roupa a lavar, descansar, fazer umas caminhadas, tomar as refeições, ver televisão? Será essa a vida que me espera? Quando me sinto saturada por achar que trabalho demais, que outra vida gostaria eu de ter? 

Sinceramente não faço ideia. Melhor: neste momento, não faço ideia.

[Tamanho é o confinamento deste Abril acuado que até os cogumelos voltaram a nascer]

Está a começar uma nova semana. As semanas avançam inexoravelmente. Mal dou por elas. O tempo, para mim, acelerou. Talvez não apenas para mim, talvez para toda a gente que não estava habituada a viver fechada em casa. Talvez para toda a gente para quem o referencial que nos orientava tenha desaparecido.

Não sei bem o que nos espera. Não sei onde estão os top riscos que toda a gente temia. Estarão ainda por aí, à espreita? Será que a nossa vida vai ser isto, vivermos encurralados, enquanto o perigo nos cerca?

Não sei. Só sei que, se é isso, então não pode ser. Não pode ser.

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou é um grito
De um amor por acontecer




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Olhe, Desconhecido, veja como escolhi para o meu post de hoje uma banda sonora em português. Ia dizer que condiz com o meu estado de espírito mas não sou estulta a esse ponto. Não gosto de me pôr em bicos de pés. Esta canção está muito acima não apenas deste meu pobre post mas de quase tudo o que não passa da mediania, é uma grande canção, uma grande interpretação. Pelo menos, é o que eu penso. 

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Desejo-lhe, a si que está aí desse lado, uma boa semana. 
Saúde.

domingo, abril 26, 2020

O 25 e o Prof. Marcelo, bichos nocturnos, Harari e o corona, Randy, Trump e a lixívia





Contra a vontade do meu marido, estivemos, aqui na sala, até anoitecer, de janela aberta. E refiro-me às janelas de dentro, de vidro. Duas portas largas de vidro. Uma delas aberta. As portadas de fora também, claro. Vi a noite vir chegando, lentamente. Vi os passarinhos a saltitarem aqui à porta. Ouvi-os a cantarem, um chilreio de dar gosto. O meu marido nunca quer as portas abertas ao fim do dia, diz que entram bichos. Diz bichos para dramatizar. Como se pudessem entrar pumas, chitas, javalis. Mas refere-se a melgas. Sei que sim, que há esse risco mas acho que vale a pena. Agora pus na tomada do quarto uma daquelas coisas que supostamente emitem uns ultrassons ou lá o que é que nós não ouvimos mas que põem a cabeça em água a moscas e mosquitos, afastando-os de lá. A ver se resulta, senão, para além das melgas, terei que o ouvir também a ele. 

Mas foi tão bom estar na sala assim.


O dia hoje esteve ameno, não um sol franco mas um suave entressol-entrenuvens, nem frio, nem ventoso, nem chuvoso. E, há pouco, aqui na sala, fui sentindo a frescura da noite que se avizinhava, aquela frescura feita de penumbra e paz, uma lentidão harmoniosa, limpa, boa.

Quando fui fechar as portadas de fora vi o céu. Aquele azul límpido que antecipa o negrume da noite, apenas uma lua a vir em crescendo e, um pouco mais acima, uma única estrela. Brilhante, única. Olhei a toda a volta. Nada, apenas a imensidão do azul e aqueles dois pontos, uma estrela e uma lua a caminho. Emocionei-me. Isto é o mundo na sua perfeição. Só a natureza, o canto dos pássaros, a beleza das nuvens recortadas na linha do horizonte, o mistério das árvores escuras, igrejas onde os pássaros cantam a capella. Nada mais. Eu a olhar para o céu e para tudo, comovida por estar aqui, por me ser dado o privilégio de estar viva a ver, a ouvir e a sentir tamanha tranquilidade e beleza.

Aqui só temos uma televisão, esta, nesta sala, onde agora vejo um bailado na 2. Não há na cozinha, onde almoçamos quando estamos só os dois. Antes de irmos almoçar, liguei-a para espreitar as notícias. Estava a acabar o noticiário mas ainda ouvi que às três se cantaria o Grândola à janela.


E assim fiz. Já aqui estava de volta à sala. Liguei a televisão e confirmei. Fui então lá para fora e cantei. O meu marido estava do outro lado a fazer não sei o quê mas diz que também cantou. Mas nem eu o ouvi a ele nem ele a mim. Ainda tive esperança de ouvir um repicar de sinos ao longe ou um qualquer outro som que me fizesse saber que alguém, para além de mim, comemorava o 25 de Abril. Mas não. Só eu e os pássaros.

Li algures que o Marcelo se tinha portado bem e, curiosa, pus-me alerta. Não o ouvi inteiro mas, pelo que ouvi, hoje dava-lhe um beijinho. Dava. Dava se isto fosse pré-merdinhas. Assim, não dou porque isto do distanciamento é para valer. Mas ofereço-lhe um cravo. Se foi todo na base do que ouvi, terá sido um grande discurso. Directo, sem meias palavras. O discurso de um democrata. Critico-o quando vai atrás do efeito fácil, quando cede à sua necessidade de sentir o afecto dos outros ou à sua atracção fatal pelo mediatismo. Mas, num dia como o de hoje, tenho que louvar a clareza das palavras, a frontalidade, o elogio e a defesa da liberdade e da democracia e a importância de respeitar a casa dos que foram eleitos pelo povo. Marcelo, Ferro e Costa, um trio de peso que sabe tomar conta da democracia em Portugal. Gosto.


Tenho ainda a dizer, em minha defesa, que, de tarde, mais para o fim da tarde, concretamente, quando fui dar o meu passeio, me apeteceu filmar. No primeiro, a dada altura, ouvi o meu marido, a quem eu tinha dito que ia sair para ir andar, a chamar por mim. Cortei mas penso que deve ouvir-se o meu nome. Se eu tivesse paciência para ir aprender a fazer edição, talvez tivesse paciência para ir ali buscar a máquina e pôr-me com coisas. Fiz um outro mas tenho ideia que não deve ter pitada de graça e ainda um terceiro, sobre um arbusto que dá uma flor miudinha, branca, que cheira como os anjos da minha imaginação. Mas já não me lembro como se faz para passar os filmes para aqui, estou com preguiça. Além do mais, aconteceu o de sempre, não me dá jeito andar a falar alto, sozinha, e portanto, a falar baixo e com o meu fio de voz, há-de ter ficado o sussurrar do costume. Depois ouço-me e fico arrependida.
[Agora tive que me levantar para perceber que animal é aquele que ali vai avançando devagar na parede. Se ainda aqui estivesse o meu marido (já dorme a sono solto), já estava a dizer que, com aquilo de eu insistir em estar de janela aberta, vai ser um ver se te avias de bicharada. Afinal é um inocente bicho de conta. Sempre achei graça. Se eu lhe tocasse, fechar-se-ia feito bolinha. Mas não toquei. Ali vai, devagarinho, seguindo o seu caminho. Hoje é dia da liberdade. Hoje e, aqui, sempre.]

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Entretanto, o corona também vai fazendo o seu caminho e, se me sinto descansada por os números revelarem um crescimento contido, por outro lado, sinto o contrário, sinto que o grau de imunidade da população é baixíssimo e, portanto, mal o confinamento se atenue, isto vai voltar a crescer. E a ver se o merdinhas-vírus não vem com mais força, que aquilo ali é pior que traveca normal, é bicheza dada a transformismos tinhosos. No início do mês, quando eu dizia que as projecções destrambelhadas do Buescu não me convenciam, dizia também que se os números oficiais chegassem a 30.000 no fim de Abril, os números totais, no máximo eram capazes de andar pelos 200.000. Estamos a cinco dias do fim do mês e vejo que as minhas previsões, pelo menos no que se referem ao número de infectados, não deverão falhar por muito e isso significa que, a nível do número global de infectados, também não deve andar muito longe. Ora, isso é nada face ao que garantiria uma imunidade razoável. Ou seja, até que a vacina ou o tratamento cheguem, a liberdade de movimentos vai ter que continuar a ser muito controlada sob pena de voltarmos ao empinamento da exponencial.
(Se calhar nada disto vem muito a propósito da primeira parte do post mas também não sei porque haveria de vir.)
Aqui abaixo, Harari, obviamente também em quarentena, diz de sua justiça. Fala da humanidade e do que o corona faz com ela. E é sempre uma voz inteligente que se ouve de gosto. O meu marido trouxe os livros dele mas acho que ainda não lhes pegou desde que cá chegou. Aliás, na cidade, eram livros de cabeceira dele. Volta e meia, via que estava a lê-los. Mas nem ele lhes pegou nem eu. Tinha pensado ler à vez, com ele, e, afinal, nem de tal me lembrei até agora. Não temos tempo. Ou é a trabalhar no duro durante a semana ou, ao fim de semana, eu atirada às limpezas de casa e ele do mato. Depois, chegamos ao fim do dia e já não atinamos com as letras. E os dois livros ainda ali estão, onde ele os depositou quando viemos deportados.



E, para acabar com um apontamento de tragicomédia, deixo-vos com o Randy Rainbow a propósito de mais uma anormalidade da besta quadrada do Trump. Só não sei é porque é que ninguém lhe dá uma injecção de lixívia naquele rabo gordo e esbardalhado para ele comprovar se, para além de ficar branquinho, fica também limpinho de vez. Bom. Mas também não tinha que ser lixívia pura que eu, nisso, não sou de tratamentos radicais. 


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E agora vou ver como ficaram os vídeos que fiz a ver se consigo aproveitar algum

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Desejo-vos um bom dia de domingo

sábado, abril 25, 2020

25




 

Passa da meia-noite, já estamos dentro do 25 de Abril. De todos os feriados civis este é aquele que me diz mais. Não digo em geral porque o dia de Natal, para mim, tem um certo significado sobretudo porque assinala o nascimento de um ser que parece que era rijo e, ao mesmo tempo, generoso e, em cima disso, é aquele dia de festa em que a malta se esfalfa antes a consumir à labúrdia para chegar ao dia com os bofes de fora mas não faz mal, a casa enche-se e há alegria e brincadeira e gente sorridente e luzinhas e jingle bell no ar e eu gosto disso. Mas, boas intenções, fofices e mesa cheia à parte, o 25 de Abril é para mim aquele verdadeiro dia de festa, de liberdade, de democracia, de nunca mais o atrofio e a pata em cima, de nunca mais o medo e a mesquinhice e a modestiazinha contentinha, de nunca mais a bufice, a tacanhez, a vingança, a maldade bacoca, a estupidez encartada, a beatice, a cortina de mofo sobre a vida dos que gostavam de luz.


Acho, pois, muito bem que se festeje o 25 de Abril. Indispensável. Festejar, lembrar, dizer que nunca mais o antes do 25 de Abril, nunca mais o antes daquela madrugada tão esperada. Mas festejar o 25 de Abril deveria ser, todos os anos, um exercício de liberdade de pensamento, um desafio que apelasse à criatividade, ao desaforo, à surpresa, à coisa nova, à alegria, ao renascimento, à inclusão. 

Nunca achei graça a cerimónias quadradas, desengraçadas, sacralizadas, padre-nosso, avé-maria. Não digo que não existam. Se há quem sinta falta delas, pois muito bem. Não é é a minha praia. Discurso chato, déjà-vu, gente mentalmente engravatada, coisa que mais parece comemoração de clube privado, não me atrai. Não vou ver ao vivo nem vejo na televisão. Parece-me coisa chata, sem graça. Abafa a novidade do dia que foi e dos festivos dias que se lhe seguiram.

Quem não tem ideia porque nasceu muito depois vai ficar a achar que 25 de Abril é coisa de velho, de chato, vai ficar com vontade de dizer não chateis mais, ó pá.


Se fosse eu a responsável pelo festejo exigiria que, em cada ano, o dia 25 de Abril fosse uma festa, festa rija, festa de atirar chapéus ao ar, festa nunca vista, cada ano uma coisa de que ninguém nunca antes se tinha lembrado, uma coisa de deixar toda a gente de queixo caído, toda a gente a rir, a bater palmas, todos a pegarem uns e outros ao colo, tanta a felicidade, e música esfuziante, delirante, dança de tripa forra, coisa louca, desfile maluco, saltos, cambalhotas no ar, crianças a dançar em roda, gente a voar, flores ao dispor, permissão para não ter vergonha de rir e beijar e abraçar. Coisa de todos os anos ter pena do dia acabar e mal conseguir esperar pelo 25 do ano seguinte. 

Eu era assim que queria festejar. Mas, seja como for, festejo sempre. Nem que seja só cá para mim.

25 de Abril sempre.



Mas também gosto muito de ver isto aqui em baixo. Gosto. E gosto de cantar isto. Não canto bem mas gosto de cantar algumas coisas. Neste caso, tenho sempre que esconder que, por dentro, estou quase um bocadinho emocionada. 

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto a igualdade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti ó Cidade


25 !

sexta-feira, abril 24, 2020

You taught me what love is



Há pessoas que fazem parte da minha vida mesmo sem eu nada saber delas. Alguns Bloggers, alguns Leitores, por exemplo. São para mim como se fossem gente de carne e osso. Imagino-as como pessoas de verdade. Tem graça, isso. Sei que não são mas, aqui confinada, à mercê do devir, entretenho a mente com pensamentos peregrinos, ideias sem substância. Estão por aí, seres sem tangibilidade, vagueando pelo mundo, se calhar fingindo de gente a ler num telemóvel ou num computador, fazendo de conta que arregalam os olhos a ler isto ou fingindo que sorriem. É ou não é? Bem vos vejo. Mas não me enganam.

E eu, que aqui estou convosco, gostava que acreditassem que também sou de carne e osso. Não interessa se sou um robot de escrita automática, se sou uma réplica clonada de uma qualquer figura mediática da era vitoriana, sesou um travesti com múltiplas personas inside, se sou uma pessoa de quem gosto bastante e com quem volta e meia sou confundida, apesar de ser do sexo oposto e de fazer dois de mim e mais não digo, se sou gata ronronando na noite, se loba azul deslizando por entre a misteriosa penumbra. Não interessa porque nada disso interessa para nada. Sou um fio que se liga a quem me lê, sou palavras que se escrevem sozinhas. Imaterial, sem carne, sem osso, sem sangue, só palavras que por aí andam pelas clouds, pelos éteres, palavras invisíveis, voando pelo meio dos pássaros, pelo meios de anjos inexistentes.

E nem sei porque estou a dizer isto porque escrever é coisa de responsabilidade, escreve-se fica escrito, quem escreve desnuda-se disse-me um dia um advogado amigo que me aconselhava a ter cuidado com o que escrevia. Por isso, imagine-se a minha absoluta nudez com tanto que para aqui escrevo.

E para quê? Que nudez tão escusada.

Passo é para uma canção bonita. Já sabem: ao fim do dia, quando a noite é mais minha, quando os seres normais recolhem ao ninho preparando-se para regressarem à vida diurna, eu, que ando ao contrário e gosto é de entrar acordada até ao fundo da noite, cirando por aí, pelos caminhos em que descubro isto e aquilo, coisas de nada, coisas de tudo.

Hoje foi isto, uma jovem enfermeira com uma voz doce e meiga e comovente. E eu, que aguento de tudo durante o dia, chego a esta hora e sinto-me como se fosse de carne e osso e até, volta e meia, sinto que uma ou outra lágrima teima em fingir que quer aparecer.

Saudades, talvez. 

Ou seja, tudo o que escrevo são coisas que não fazem sentido. Mas isto deve ser fruto dos tempos. Pouca televisão vejo, poucos jornais leio, até poucos blogs leio. E livros só ao fim de semana. Mas, tirando os livros, quase tudo o resto me parece meio alterado, meio desfasado do rumo das coisas, parece que o mundo vai para um lado e as pessoas para outro. Muita coisa tocada pela loucura, daquelas loucuras mansas, sem propósito. Cada vez mais me parece que os pássaros e os gatos e os animais invisíveis que sei que por aqui vagueiam é que andam a passo certo com a vida de verdade. O resto são vultos, quimeras, seres sem rosto, sem nome.

E isto para dizer que estive a ouvir esta canção e gostei da voz que a cantou e da pessoa que a compôs. Beth Porch.


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As imagens são de uma pessoa que diz: My name is Kerem, I'm a 19-year-old from Istanbul. I create  photo manipulations and transform my dreams into creative designs.

E agora vou ver se descubro outras coisas. Inté.

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quinta-feira, abril 23, 2020

Carta de amor





Todas as cartas de amor são ridículas? Talvez para quem está de fora. Talvez também para quem está dentro e não queira ver.

         Ofelinha, amorzinho. 

         Bombonzinho. Passarinho. 

Conversinhas pirosas, nicknames que não lembram ao careca, réplicas apatetadas, criancices absurdas. 

Não gosto de ler cartas de amor alheias. Parece-me devassa. Sinto-me a entrar em território estrangeiro, lugar em que apenas os amorosos se sentem em casa, conhecedores de uma língua própria. Não gosto.

Apenas suporto quando a coisa tem um toque de drama ou de graça, de encenação, quando vira teatro ou prosa declamada, quando é outra forma de ser poesia, quando ganha vida própria, eterna, longe da vida demasiado humana que lhes esteve na génese.

Cartas de amor, declaração de amor, confissão sofrida de um amor nunca antes visto, desabafo insensato, coisa assim isso também já não me vejo a escrever. Parece que ganhei aquela dose de vida que já só se compadece com cara a cara.
Talvez agora pudesse ser por videocoisa. Mas a videocoisa já é igual a olho no olho. Tempos novos requerem abertura a novas coisas.
Mas, quero eu dizer, que neste momento já apenas me vejo a verbalizar sentimentos a valer. Escrever: amor do meu coração, não sei viver sem ti, és a minha paixão, a minha razão de viver, coisas assim já não me parece que façam sentido que sejam traduzidas em escrita. Em escrita só se for mais subliminar, mais metafórico, mais virado do avesso, mais como se fosse outra coisa, mais disfarçado de indiferença, de quero lá eu saber.

Mesmo dito não me dá jeito dizer: amo-te. Só se for em momento de brincadeira. Amo-te é muita sílaba muda. Momento a sério não requer tradução em palavra gasta. Muito menos pergunto: amas-me? Não soa bem. Os lábios nem descolam. A-mas-me. É palavra pasmada, sem graça, sem vida. Não corresponde ao que é suposto. Não uso.

E a mesma coisa com receber carta de amor. Se aquele que o meu coração ama me escrevesse uma carta, mail que fosse, com uma conversinha deste género, amada minha, coração da minha alma, o que seria eu sem ti? alimento-me do teu amor, diz que também vives e dormes a pensar em mim, diz que sou o teu amorzinho, diz, minha eterna gatinha, diz, miau, eu ia deitar fora e dizer o tipo é mas é maluco, foge. 

Para mim, carta de amor para tocar o meu coração tinha que vir envolta em coisa rara, em loucura, em desvario, em coisa acima de tudo, em inteligência rara, em requinte intemporal, temperada com apontamentos de ternura, de entrega, de rendição. E tinha que vir escrita de uma maneira que me deixasse louca de espanto. E não deveria ter a palavra amor. Isso eu é que teria que adivinhar. Ora isso talvez já não haja. Portanto, tiro daí a ideia.


Mas, neste canal, eu gosto de ouvir ler carta de amor. Lá está: não sei quem são as pessoas. Poderiam não ter existido ou ser coisa de escritor e sua musa. Poderia ser tudo inventado. Virtual. Um amor virtual mas vintage.

Não conheço Edith Bowman, muito menos sei quem foram os seus avós. Mas gosto de a ver na sua casa a ler uma carta do avô para a avó. Se calhar é porque é dita em inglês e me soa a coisa de novela da BBC, coisa, também ela, vintage e de bom gosto.


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E a carta que aqui vinha partilhar era outra, a de uma pessoa muito triste. Mas de repente pensei que pessoa alegre se calhar não quer ver coisa triste e pessoa triste se calhar também não. Por isso, à última hora desisti. Fiz a agulha. Mas não sei. A gente sabe lá como tocar o coração dos outros. Se calhar a gente toca mesmo sem querer e sem dar por isso ou, outras vezes, quer lá chegar e fica é à porta. Ou ao portão, com os cães a ladrar. Sabemos lá. Eu, pelo menos, não sei.

Sei é que tive um dia excessivamente longo e, até passar da uma da manhã, estava a pensar que não vinha aqui escrever nada. Estava sem nada que dizer. Cansada. E estava à espera de um mail que não chegou. Não seria de amor, seria um mail diferente. E continuo à espera que chegue.

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As pinturas são de Alexander Roslin e parecem-me que fazem um bom pendant com a Love Letter que Nick Cave canta. 
Mas isso, claro, é subjectivo. E tudo o mais também.
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Uma boa quinta-feira. 
Saúde. E força.

quarta-feira, abril 22, 2020

Agruras de uma criatura em dia não muito sim





A questão é que hoje não estou em forma: dormi mal a noite passada e, por isso, estou perdida de sono. Em cima disso, dói-me a garganta. Há tempos, a minha mãe disse-me que costuma curar as dores de garganta gargarejando com água morna salgada. Hoje o meu marido disse que, no outro dia, lhe doeu a garganta e experimentou a mezinha da minha mãe e que, curiosamente, ficou logo bom. Mas não me afoitei, acho que sou capaz de não me sair bem, às tantas ainda me agonio, sei lá. Por isso, estou para aqui sempre a adormecer e com dores de garganta. Também sinto uma afta na ponta da língua o que igualmente me incomoda. E a mão ainda me dói. Diria que o meu corpo se descompensou, seja lá o que isso quiser dizer.

Como sou muito somática, toda eu corpo, se alguma coisa em mim se manifesta assim, logo eu fico nula, sem nada dentro, muda, nada que dizer. Não existe mente nem psique que resista a um corpo em oposição. Isto em mim, claro. Que há-de haver gente, muitos de vós, em que, mesmo com o corpo desfalcado ou insurrecto, a mente e a psique se mantêm nos eixos, segurando o equilíbrio de tudo. Eu não. Eu apeio. Eu cedo. Eu baqueio. A mente e a psique dissolvem-se no ar e sobra o corpo em estado de desagrado.

Portanto, como se vê, estou aqui sem tema, sem vontade, incapaz de prosa.

E os dias também não ajudam. Estou entre fogos cruzados, entre indecisões que não são minhas, entre diferentes pontos de vistas, entre muitos trabalhos, e, volta e meia, quando me sinto quase cercada, com alguma tentação pela indiferença. Por vezes, acontece sentir-me quase atordoada. E o mau tempo e o frio não passam. E eu, que gosto tanto de calor e de pouca roupa, ando encasacada, de meia grossa, metida em casa e a casa fica escura porque não há sol a vir lá de fora. Hoje, por acaso, o sol, a espaços, até deitou os pauzinhos de fora, raiou um arzinho de luz. Mas foi coisa pouca: logo acinzentou, o ar frio, o vento a fazer adernar árvores e arbustos. E o telefone sempre a ocupar o espaço. 

Hoje o meu marido saíu-se com uma. Disse aquilo em que já tantas vezes pensei em segredo. Claro que, mal ele falou, cortei cerce. Que não, que nem tal me passa pela cabeça, que ideia, nem vale a pena. Mas, em segredo, digo que é coisa que tem passado pela cabeça, sim. Mas sei que não, que não é a hora. Ademais, até me esqueci de jogar no euromilhões. Portanto, adiante.

Ao fim do dia, enquanto falava ao telefone, fiz fotografias e sempre à mesma coisa, a primavera a chegar a medo, as flores, as cores,  os verdes. E fui ficando com a ideia que estavam bonitas, as fotos. Por vezes procuro a abstração. Tenho a ideia de que a perfeição há-de ser abstracta. É como um grande amor. Um grande amor há-de ser sempre impreciso, indefinido, inexplicável, intemporal. Vou a andar e antevejo uma mistura de tons, a luz transparecendo difusamente. Aponto a objectiva sem querer a precisão, dispensando o enquadramento. Quero apenas o momento, o injustificável momento.

Mas agora não me apetece ir à procura da máquina. Pousei-a por aí, não sei onde. Não é hora de enveredar por expedição. Amanhã há-de aparecer.

Estou a escrever, sentindo que não deve ser fácil encontrar um fio neste vadio vaguear e, ao mesmo tempo, vejo-me incapaz de me organizar. Não consigo, não quero. Tenho a ideia de que, se um dia, escrever um texto completamente desprovido de sentido, sentirei que estou quase lá. Um texto como uma mancha imprecisa, uma mistura, um instante, um segredo guardado, uma sombra esquiva deslizando na página.

Sei que tenho leitores muito racionais, muito cultos, muito disciplinados e imagino como devem sentir-se descoroçoados perante coisas assim, com vontade de cá não voltar a pôr os pés. Percebo-os. Tenho pena de não conseguir atinar, gostava de estar à altura dos mais exigentes. Enquanto escrevo, vejo-me no desconcerto com que devo estar a ser vista. E, no entanto, o sono, a dor de garganta, a afta, o cansaço e uma certa saturação impedem-me de tentar encontrar a disciplina que daria um rumo nisto. Nada a fazer.

(Mas, para dizer a verdade, também não me importo por aí além. Maluco que é maluco nem sabe quão maluco é. Pior: maluco que é maluco inventa desculpa para ser assim).

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O que posso dizer é que espero que, pelo menos, gostem deste vídeo:

David Hockney sobre Vincent van Gogh



E também deste.


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As fotografias são de © Stefan Fähler e vêm ao som de Leonard Cohen interpretando The Hills.

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Desejo-vos um dia bom. Saúde.

terça-feira, abril 21, 2020

Em tempos de Covid, carta de um médico aos velhos e vulneráveis





Quem acima se vê é um senhor do grupo de risco. Tem setenta e dois anos. É daquelas pessoas de quem temos que nos manter longe para não os infectarmos. É daqueles que integram o grupo dos que terão maiores probabilidades de morrer se forem infectados.

Nos primórdios da era pré-Covid eu dizia que tínhamos que nos preparar, aumentar a limpeza dos escritórios, tínhamos que nos distanciar, deixar de apertar a mão e dar beijinhos, preparar a ida para casa. A resposta que eu recebia era invariavelmente: 'Tem medo...? Eu não... Não faço parte dos grupos de risco...'. E gozavam comigo. Mulher. Medrosa. Fraquelas.

E, por todo o lado, eu ouvia, como se não houvesse motivo para a gente se ralar: 'Dá com força é nos velhos... Calma... Não é para ter medo....' E eu não apenas sabia que não era só nos velhos, era em quem calhava, como, ainda que fosse verdade, seria tão dramático como se desse só nas pessoas de cinquenta, só nas de quarenta. Que é isso de ser alívio dar nos velhos? Velho é gente --  e gente é gente é gente é gente.

Ainda agora, quando ouço algumas notícias, é com uma indisfarçada nota de alívio que se percebe que dizem que era velho, que quem mais morre são os velhos. E ainda me apercebo, no tom, que subliminarmente a mensagem é que, pleeeaaseee, não há crise, nada de alarme, isto é mal que dá é nos velhos. 

E as notícias vão-se sabendo. Velhos deixados ao abandono, lares cheios de velhos doentes, entregues à sua sorte. Velhos mortos, abandonados. Ouço e nem quero ouvir, leio e não quero ler. Os velhos somos nós se lá chegarmos. Nós os jovens e saudáveis, nós os que resistiremos de certeza ao covid, nós talvez um dia cheguemos a velhos e a ver se não acabamos num lar, rodeados de outros velhos, infectados e contagiosos, alguém de quem toda a gente quer fugir a sete pés, nós velhos, bons é para ir engrossar a estatística e deixar de chatear os jovens e saudáveis.

Eu, com a minha mãe, falo é nos nonagenários e centenários que saem de boa saúde do hospital. Uma que saíu a dizer que estava com fome. Outro que resistiu a guerras e agora a mais uma. Falo-lhe é de casos surpreendentes de bons. E sou sincera. Fico surpreendida, fico contente. Gente resistente é um hino à vida.

E fico varada, tenho que me conter para não mostrar a minha náusea sempre que ouço falar com displicência, sem compaixão ou solidariedade, em que 'isto é mau é para os velhos'. Não lhes passará pela cabeça a angústia que sentem as pessoas de idade ao ouvirem falar do fantasma malvado que anda de foice em punho à solta por aí? Não lhes ocorrerá o medo que isto lhes causa?

E depois há o lado dos médicos, enfermeiros e demais pessoal hospitalar... São gente de carne e osso e, por mais que tenham nervos de aço a lidar com a doença, com a dor e com a finitude da vida, são também confrontados com momentos difíceis sabendo que, por vezes, não há nada que possam fazer para salvar algumas vidas. Aliás: sabem. Sabem ser honestos, humanos, sabem aliviar o sofrimento físico, sabem tornar digna e não penosa a passagem para o outro lado.

O vídeo abaixo é duro de ouvir. Mas é um vídeo franco. Um vídeo humano, honesto e, apesar de tudo, revelando uma tocante sensibilidade. 




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Para desanuviar, uma outra carta, esta cheia de ironia sobre o que se pode esperar dos humanos. Deliciosa.

Stephen Fry reading a letter from E. B. White to a gloomy fan


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As imagens que aqui juntei claro que não têm nada a ver com nada disto. Talvez tentem, apenas, aligeirar o que não pode ser aligeirado. São fotografias que tentam glosar pinturas conhecidas e respondem a um desafio. A coisa pode ver-se no Bored Panda onde outras proezas do género podem ser vistas. Museums Ask People To Recreate Famous Paintings At Home, Get 30 More Hilarious Pics

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