Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, março 19, 2020

Sobreviver ao isolamento e ao teletrabalho.
Derrubar o estafermo do COVID.
Dar a volta por cima.




Dia, de novo, agitado e complexo. comecei com uma conference call. Muita gente, cada um em seu sítio. Não por imagem mas apenas som. Não foi fácil. Cada um reportando a situação. Casos sob suspeita, obrigando a quarentenas, a problemas. Casos dificílimos para resolver. Situações que parecem irresolúveis mas que têm forçosamente que ser resolvidas. Dei por mim, com a mão na testa, a pensar que uma coisa destas enfrenta-se uma vez na vida e que nem todos saem dela para o contar. 

Acabei arrasada, sem saber bem como dar a volta a tantos problemas tão impossíveis de resolver. Quando acabou, agarrei-me ao computador e mandei mails com propostas de mitigação para algumas das questões.

E continuou assim. Muitos problemas, muitas dúvidas.


A meio da manhã, exausta com tanto mail, mensagens e telefonemas, levantei-me, peguei num balde com água e detergente multi-usos e resolvi lavar o chão da casa. Ouvia os mails a chegar e os pings das conversas e ia espreitar mas, dado que achei que podiam esperar uns minutos, mantinha-me na lida doméstica. Lavei o chão da cozinha, depois o da sala da lareira. Quando me preparava para ir despejar e pôr água limpa para seguir para o corredor e para o quarto, quiçá ainda para as casas de banho, veio um telefonema que tive mesmo que atender. E assim me mantive até à tardia hora de almoço. Felizmente ainda tinha massa com tomate e salmão de antes de ontem. Do lado do meu marido os telefonemas e os mails também choviam. Uma estereofonia enervante.

Depois de almoço, sentei-me no sofá e pensei que me saberia bem dormir a sesta. Mas durou um minuto essa ilusão. 

Meio desanimada, resolvi fazer uma coisa: ir trabalhar para a rua. Peguei numa almofada, no computador e no telefone e fui sentar-me em cima de uma pedra. Às tantas, com o sol a dar-me, fiquei com calor e tirei a blusa de manga comprida, ficando apenas com um top de alcinhas. E ali fiquei trabalhando, mail para aqui, mail para acolá, telefonemas e, pelo meio, whatsapps a que fui levada a aderir por pressão familiar. E, também pelo meio, um mail da minha menina mais linda a perguntar que é feito de mim, e com muitos bonequinhos coloridos e em movimento. Fiquei logo toda derretida. Naquele instante abriu-se uma clareira inundada por luz e o covid evaporou-se e, com ele, todas as suas consequências.

A seguir, voltei à doideira, stress, stress, stress, falta disto, falta daquilo, pedidos disto, pedidos daquilo, problemas a caírem. Fui dizendo que em contingência há que estabelecer prioridades, que isso não, aquilo não, outra coisa tem que esperar, outra é para esquecer, outra claro que sim, outra o mais urgentemente possível. 

Às tantas, uma barulheira, uma louca correria, um gato a passar rente a mim, um cão atrás a ladrar, furioso, o gato aflito, a seguir outro cão pequenino também em perseguição. 

Durou segundos mas fiquei ali em suspenso. De onde tinha toda aquela cena aparecido? De que outro filme?

Levantei-me a perceber para onde tinham ido todos. Já não os vi. Desapareceram. Fiquei um bocado a olhar para o ar pensando no mistério de tudo isto. Toda esta vida é um mistério. Uma sucessão de acasos que umas vezes se conjugam harmoniosamente e outras em que tudo se desencaixa, ameaçando fazer ruir tudo de forma irreversível.

A seguir fui vestir outra blusa, pus um fio, brincos, penteei-me e fui instalar-me para a vídeo conferência. Quando acabou, passei para outra. Depois, aprovação de cenas e mais mails. 

Por fim, já o dia se estava esvair. A sala estava escura e eu com frio. O meu marido apareceu, também já livre de trabalhos. Disse-me para vestir um casaco pois já estava frio na rua. Fui buscar a máquina fotográfica e fomos passear. Enquanto andava, liguei à minha mãe. Continuei a pedir-lhe que não saia, que não deixe entrar ninguém em casa a não ser a senhora que lá a vai ajudar com o meu pai e que essa tenha cinquenta mil cuidados. Contou-me piadas, contou de uma vizinha que lá foi levar uns medicamentos e que apareceu de capuz na cabeça, máscara, óculos escuros e disse que era um assalto. E rimo-nos que nos fartámos. 

A seguir liguei à minha filha e estive a vê-la e aos meninos, mais lindos, grandes, tão queridos. Cada um do lado da mãe, abraçados a ela, meigos, meninos mais amorosos. Que saudades. Enquanto falava, o gatinho preto e branco estava deitado em cima de um muro. Tal como o gatinho cor de mel já não se assusta comigo, este também se deixou ficar. Fotografei-o. Mas quando me aproximei para o filmar para o mostrar, os meninos a falarem alto, que eu não estava a filmar bem, para a esquerda, para baixo -- ele fugiu. Meus meninos queridos, como eles haveriam de gostar de aqui estar. 

Ao entrar em casa já havia mais mails, mais mensagens, mais dúvidas, mais questões: e agora com o estado de emergência? e agora com tanta gente em quarentena? e agora quando precisarmos de ir?


Mas a preocupação e o cuidado são sempre estes: em casa sempre que se puder, a trabalhar sempre que tiver que ser. 

A vida continua, a vida tem que continuar. Todos com mil cuidados mas a fazer a vida continuar. Lavando-se, protegendo-se, desinfectando-se mas fazendo o que tiver que ser feito. E este é o espírito de todos. As cadeias de abastecimento e os serviços indispensáveis não se podem romper.

Não podemos deixar que o mundo seja sugado pelo medo. Temos que ser capazes de vencer isto.

E que alguém mande deitar mãos à obra.
  • As fábricas de produtos químicos que façam desinfectantes, as fábricas de pensos higiénicos e fraldas que façam máscaras, as fábricas de embalagens que façam óculos de protecção, as fábricas de confecção têxtil que façam fatos de protecção. As fábricas de medicamentos nacionais, que as há, que façam os medicamentos que têm estado a provar alguma eficácia. 
  • E as fábricas de automóveis ou de electrónica ou todas façam ventiladores ou o que fizer falta.  
  • E os investigadores ousem soluções, avancem, proponham munições, façam testes. 
  • E todos se unam para vencer esta guerra.
O país tem que converter o medo em acção. Não podemos acabar tolhidos, infelizes, esfomeados, pobres, inanimados.

Inventem-se novas formas de trabalhar, inventem-se novas formas de nos relacionarmos, inventem-se soluções para problemas que ainda mal sabemos formular.

Ouvi Marcelo. Não falou mal. Mostrou bom senso. Marcelo tem que abdicar da ânsia de protagonismo e ouvir, mais do que o apelo pela popularidade, o bom senso e o pragmatismo de António Costa. Marcelo será mais amado, e ser amado é a praia dele, se souber mostrar ser o suporte institucional do Governo. Neste momento o país precisa de sentir a união esclarecida de todos.

Ouvi António Costa. Excelente. Sensibilidade e força. Inteligência e sentido prático. Visão de curto e de médio prazo. Podemos estar confiantes. António Costa vai ajudar-nos a sairmos rapidamente deste buraco negro.

Depois ligou o meu filho e o bebé levou-me a ir outra vez para a rua, à noite, para ver os lugares onde gosta de estar quando cá está. Contei dos gatinhos, da perseguição do cão. O menino do meio quis saber se o pai se portava bem quando era pequeno e eu tive que ter muito cuidado com o que respondia. A menina mais linda estava tímida e com sono. Todos lindos e tão queridos. Que vontade de poder enchê-los de beijinhos.

Os tempos não estão fáceis. Enquanto estava a escrever, estive a ouvir Fernando Maltez. Não fiquei tranquila. Porcaria do covid: tão pegajoso e traiçoeiro, o raio do bicho. Tão tinhoso, infiltrando-se pelos pulmões abaixo. Mas ele, o médico, tão sabedor, tão comedido, tão frontal. 

De manhã, ao saber-se os números, o meu filho enviou para a família uma fotografia com o gráfico. O crescimento é de susto mas menos do que a exponenciação pura daria. A minha filha respondeu logo, animada.

Sendo devota da matemática, sei que há casos em que a matemática pura e dura, não pode ser usada a seco. A matemática é linda e pura mas é quando conhecemos todos os factores e conseguimos transpô-los a todos para as equações. Não é o caso de quem se põe a prever flechas a caminho do inferno. Ignorar factores como os comportamentos que influem no contágio, como a imunidade que a comunidade vai adquirindo, como a resistência do vírus à temperatura ou outros aspectos é uma estultice. A matemática, tal como a música ou a poesia, são para ser usadas com inteligência, com respeito, com arte e com humildade.

Já vai longo este texto. A ver se esta quinta-feira consigo lavar mais um bocado de chão. Também tenho que fazer o almoço e a ver se faço a mais para dar para o jantar. Gostava também de conseguir arrumar umas tralhas que, há umas semanas, trouxe da casa da cidade. Mas já sei que não vou ter tempo para tudo. Talvez isto acalme e eu consiga usufruir um pouco mais deste meu retiro. 

Continuo esperançada. Não creio em milagres que caiam sobre nós como brindes mas creio em milagres nascidos da força dos homens e da força da natureza. 

O covid não pode ser o fim do mundo. Não vai ser o fim do mundo. É apenas o inesperado motor da transformação do mundo. E acredito que a transformação vai ser para melhor.


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E agora deixem-me ver bem Timofej Andrijashenko, quero conhecer-lhe os voos. 
Quer-me cá parecer que é um outro ser alado


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Pinturas de Baatarzorig Batjargal

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E uma vez mais não consigo responder aos comentários, que são tão bons e que seriam tão gostosos de responder. Mas teria que me alongar e já não consigo. No outro dia, num comentário, alguém me perguntava porque é que eu não ia dormir em vez de me pôr para aqui com relambórios e com pinturas e músicas. Tenho ideia que não respondi mas respondo agora: porque sim, porque me apetece. Porque gosto, à noite, de lavar a alma e alimentar o espírito. E porque gosto de partilhar. Só por isso. 

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E uma boa quinta-feira. Saúde e força. 
Bora dar a volta à besta invisível?

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terça-feira, agosto 21, 2018

Tablóides, arte e coincidências do caneco





Nada se inventa, tudo se recria. Já lá dizia o Lavoisier. Ou seria o La Palice? Ou o caracolinhos da Quercus? Ou as meninas da reciclagem? Ou um daqueles sabichões que não podem ver nem cão nem gato que não digam que isso também na Grécia? Não interessa. O ponto é que ele há coisas.


E há-as de todo o género. Para mim, a pior de todas é haver pessoas iguais a mim. Isso atrapalha-me a existência. Quando penso em tal coisa, claro. Mas, quando penso nisso, eriço-me. Os cães quando se assustam eriçam-se. Eu também. Metaforicamente falando, claro. E ainda por cima dizerem que a minha voz também é igual. Pode lá ser. Clones? E a forma como me rio. E como ando. O cabelo. Tudo. Dizem que tudo igual. Não querem acreditar que eu não seja a outra. Isso faz-me muita espécie. Preferia pensar que sou one of a kind. Eu. Única. Mas não. Pelo menos mais duas iguaizinhas a mim. Se aparecerem ainda mais uma ou duas e viro commodity.


Outra do além é a gente parecer que conhece outra pessoa. Que conhece mesmo, mesmo. Que adivinha o que a outra pensa. Nunca a conheceu na realidade mas sente que a conhece por dentro e por fora como se, noutras vidas, a tivesse conhecido completamente. Ninguém acredita numa coisa destas e a gente também não tem explicação nem quer aprofundar. Mas as coisas são mesmo assim e não interessa tentar perceber o que está para além do nosso entendimento pelo que é melhor nem ir por aí. E, assim sendo, quanto a isto, façam o favor de fazer de conta que não leram.


Outra: adivinhar. Adivinhar simplesmente. Saber antes de saber. Começarem a contar-nos uma história e nem ser preciso continuarem porque se consegue adivinhar tudo. Uma história de verdade, quero eu dizer, uma história cheia de meandros, de mal feito à socapa, de jogadas e mistérios inconfessáveis. E eu adivinhar tudo. Quase pelas exactas palavras em que os factos reais foram proferidos. Deixar os outros transidos, a terem medo de terem sido espiados, sem saberem como explicar que eu reproduza com tal exactidão todos os segredos que traziam tão bem escondidos. De onde me vem esse conhecimento? Não sei. Mas também não me interessa. Bom mesmo era que adivinhasse o número do euromilhões mas isso está quieto. Portanto, está bem, está. Vou ali e já venho.


Mas enfim. Coisas do caneco, é o que é. 

Mas também boas são estas que aqui estou a partilhar convosco. Pinturas de antanho que parecem ter sido inspiradas por actores de Hollywood, pelas socialites que habitam o Instagram ou as revistas de moda e sociedade.  

Descobri-as atarvés do The Guardian, lugar onde encontro sempre alguma coisa que me interessa. Transcrevo alguns excertos do artigo: Beyoncé meets Botticelli: how tabloid photos throw new light on old masters
Tabloid Art History delights in hilarious yet visually convincing collisions of high art and celebrity culture. Melania Trump giving Michelle Obama a gift is compared with a manuscript illumination of Christine de Pizan presenting her book The City of Women to Queen Isabeau and Géricault’s Romantic vision of despair, The Raft of the Medusa, is matched with a pic of The Real Housewives of New York slumped on the floor at an airport.
Is this a lazy reduction of great works of art to the status of memes to snigger at? No, it’s a fresh and insightful way to look at art – and at life. We’re surrounded by great art all the time, these iconographic couplings reveal. Everyone is a statue or a painting, just waiting to be recognised. Harry Styles looks like an Egon Schiele self-portrait in a certain light. 
This game works because great art is universal. The gestures and expressions that artists such as Botticelli and Schiele saw in the world around them and distilled into sombre monumental images amount to a gallery of human possibility, a museum of moods, experiences and fates. All human life is in their masterpieces. So why is it surprising that Beyoncé looks for a moment like a Botticelli? He painted the way he did because he observed the street life around him with insight and truth. It’s no wonder today’s tabloid images and selfies occasionally throw up images of the same human truths.

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E depois deste momento dedicado à arte, queiram, por favor, deslizar até às árvores que dão rolhas, uma reportagem do Great Big Story.