Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, setembro 29, 2019

O espanto do meu marido perante o silêncio de Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, face à forma como a acusação do Ministério Público expõe as Forças Armadas.
E o que a minha mãe diz do Caso de Tancos, do Rui Rio e da Cristas.





O dia foi preenchido. De manhã tratámos de coisas cá em casa, depois fomos ao Leroy comprar parafusos e buchas, goma autocolante para fixar quadros pequenos sem ter que furar a parede e umas ripas de madeira para o meu marido tentar desempenar uma tela de um metro por oitenta cuja armação tem vindo a retorcer-se.

A seguir fomos levar algumas compras aos meus pais e, dali, seguimos para almoçar fora com a minha mãe. Umas belas sardinhas assadas. Depois fomos passear com ela à beira-mar e estava-se bem, calozinho bom, um sol ameno, uma aragem suave. Fotografei os veleiros e o mar e só não estivemos mais tempo, não por ela -- que está para as curvas -- mas porque o trabalho que nos esperava ainda era bastante. 

Depois de irmos pô-la a casa, fomos ao supermercado e foi mais um daqueles valentes carregos. Ao regressarmos, enquanto o meu marido foi aos seus afazeres, fui logo tratar do jantar que era trabalhoso pois deu-me para ter prato de peixe e prato de carne e, logo a seguir, chegariam todos (todos menos o mais crescido que foi passar a noite a casa de um colega da escola; não te esqueças que já é um pré-adolescente, avisa-me a minha filha quando me vê triste por não o ter cá também). E assim foi: chegaram, como sempre fizeram aquela festa quando se encontraram, conversámos, os pequenos brincaram alegre e ruidosamente, e etc. Depois jantámos e, a seguir, os dois rapazinhos mais crescidos foram brincar às lutas e, pouco tempo depois, regressaram ambos à cozinha e, directamente da travessa, desataram a comer os restos como se não houvesse amanhã e, claro, como se não tivessem acabado de jantar meia hora antes.


Mas, recapitulando, almoçámos com a minha mãe. No restaurante, a televisão estava ligada e a dar o noticiário. Quando apareceu o Rui Rio, a minha mãe quase tapou os olhos, virando a cara com ar enjoado, 'Já não tenho paciência. Olha aquele papagaiozinho. É mesmo um papagaiozinho. Um parvalhão. Não consigo ouvi-lo. Quando aparece, mudo logo de canal, vou ver aquele programa dos dois irmãos que restauram casas. É como aquela regateira da Cristas. Outra parvalhona. Já não consigo ter paciência.' Rimo-nos com a veemência dela. 

Quis saber a opinião dela sobre O Caso: 'Então, mãe, e aquilo de Tancos?'. Responde ela, igualmente enjoada: 'Uma pouca-vergonha. Nesta altura é que se saíram com aquilo. Não descansam enquanto não derem cabo do PS. Uma autêntica pouca-vergonha'. 

Contei-lhe aquilo de os ladrões terem transportados as muitas caixas das munições em carrinhos de mão e contei que a vedação é longe do quartel, que deve ter sido giro os ladrões a roubarem caixas pesadíssimas em carrinhos de mão, para trás e para a frente, vários percursos com o carrinho de mão. Ela desatou-se a rir.

O meu marido voltou à conversa que tínhamos tido no carro: 'A mim o que mais me intriga é o Marcelo não falar. Fala sobre tudo e sobre nada e perante uma coisa destas, uma acusação que põe a ridículo a PJM e a malta do quartel e as hierarquias das Forças Armadas de que ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas... e não diz nada? E se o Chefe da Casa Militar de Belém foi informado, ele não foi? E não diz nada? Deixa que as Forças Armadas sejam todas postas em cheque e não tem nada a dizer? Acho isso tudo muito curioso...'. A minha mãe, que geralmente está de acordo com o genro, disse: 'Pois é... Tem razão. Mas, se calhar, como disse que não é o papagaio, agora quer mostrar que sabe estar calado. Mas tem razão, é curioso. Mas a mim o que me chateia mais é isto ter saído em cima das eleições. Uma pouca vergonha'.


Confirmei: 'Vai votar, certo...?'. É que, volta e meia, especialmente quando há coisas destas que a deixam incomodada, parece que desalenta, fica a achar que já não tem paciência para 'tanta porcaria', perde a vontade, quase tenho que lhe pedir encarecidamente que não se abstenha. Se, em cima disso, está de chuva ou frio (o que não é o caso de dia 6, que até vai estar calor), então, ainda mais perde a vontade. Nessas alturas, ofereço-me para a levar mas não quer, diz que a escola é perto, que não é preciso. E já cheguei a apanhá-la hesitante em quem votar. Penso que tem oscilado entre o PS, se calhar algumas vezes PCP, se calhar alguma vez o BE e, cá para mim, também já votou alguma vez no PSD (mas isso, pouco assumidamente, quase como se tivesse sido um mau passo). Mas desta vez respondeu convictamente: 'Claro que sim!'.

E eu, sendo indiscreta: 'E pode saber-se em quem?'. A resposta foi imediata: 'No PS'.

Fiquei contente.

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E garanto-vos que o que escrevi é rigorosamente verdade, não estou a pôr palavras minhas na boca da minha mãe ou do meu marido. Aliás, ele está aqui ao meu lado e não me deixa mentir.

Embora concorde com ambos, as minhas palavras são estas:

Tancos: factos, dúvidas e conclusões. E muitas perplexidades.


terça-feira, outubro 16, 2018

Portanto, dizia eu: só se algum flamingo salvar a coisa...


Dizia eu, ontem à noite, depois de ter elaborado um raciocínio em torno das cuecas da menina Louise e antes de apagar, que ia ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer ou, se não fosse bafejada pela sorte, se algum flamingo salvava a coisa.

Acontece que a coisa se resolveu de outra maneira. Fui violentada pelo Morfeu que se aboletou aqui em cima de mim e que não apenas não pediu previamente o meu consentimento como veio ao engano já que não trouxe um único sonho de presente.

Portanto, ontem à noite os flamingos ficaram a fazer equilíbrio nos pernões para nada. Mas, lá está, guardado está o bocado para quem o há-de comer e ei-los aqui, agora, para nos virem brindar com a sua rosada existência.



As fotografias estão assim a modos que etéreas porque foram feitas de longe, quando estava a fazer bird watching no domingo à tarde num lugar lindo demais para explicar.

Foi a minha filha que me falou e que nos convenceu a ir lá passear. Juntámo-nos lá. De longe fiquei espantada com a altura dos meninos. Estou com eles todas as semanas mas, sei lá, talvez seja seja por vê-los ao longe, ao pé da mãe. Tão grandes. Não tardará muito que não estejam da altura dela. E ela é alta. Ou seja, antes disso, vou eu, quando estiver ao pé deles, parecer uma insignificante vovózinha lilliput. 

Mas, então, dizia eu, fomos dar a um lugar que parece fora deste mundo. Se eu andasse com veia poética poderia aqui descrever aquela paisagem encantada. Mas não. Ando prosa, prosa, prosa. Mas prosa de primeiro ciclo. Só consigo dizer coisas terrenas, básicas, assim como as vedes. 

Onde é que eu ia? Ah, sim. Que os fotografei de longe. Zoom ao máximo e uma aragem desmiolada. Ou seja, algumas desfocadas e outras reduzidas a pormenores no infinito.

Salvaram-se umas quantas -- e vai lá, vai -- que, com vossa licença, aqui partilho convosco.


E isto para dizer uma coisa que se tem vindo a firmar dentro de mim como irrefutável e horrorosa: a gente passa pela vida sem saber nada. Julga que sim mas está bem, abelha. Por exemplo: até há algum tempo pensava que conhecia razoavelmente a terra onde nasci. 

Pois bem. Basta ir a um lugar destes para perceber que conheço é uma ova. Nem sonhava. Ia andando e parecia que estava a entrar num outro comprimento de onda. Salinas, sim, já tinha visto não muito longe, zonas de sapal, também mais ou menos. Mas uma coisa destas. Que surpresa. Horizontes largos, ar limpo, uma luz clara, uma forma de natureza inesperada.

Pássaros, flamingos (que não são bem pássaros mas enfim; pelo menos acho que não fazem piu-piu), barcos de verdade onde não se espera. 


E o espaço do Moinho de Maré muito bem reabilitado, uma sala de estar que não dá para acreditar,  só mesmo vendo, uma  esplanada muito acolhedora, uma varanda pequenina e com uma vista ampla. Tudo muito recomendável. 

E esculturas de flamingos no passadiço. Uma graça, uma ideia agradável.
Não sei se tudo aquilo tem dedo da presidenta mas não me admiraria que tivesse pois parece ser mulher de acção e bom gosto. 
Chega-se à Mourisca e, ao aproximarmo-nos do moinho, vamos vendo aquelas elegantes esculturas da autoria de Pedro Marques e percebemos logo que estamos a chegar à terra deles.


Fiquei a pensar: se calhar, numa casinha aqui talvez eu conseguisse ser escritora. Uma casinha pequenina -- e não era para brincar aos pobrezinhos, era mesmo só para ser fácil de limpar -- com vista para os flamingos, com um pinheiro manso no quintal, com chão de tijoleira e uma mesa azul encostada à janela. E vasinhos com flores na parte de fora do beiral das janelas. Podia fazer caminhadas por entre as pequenas lagoinhas, podia fazer fotografias, quando a maré estivesse cheia podia pôr-me num barquinho a remos e, quem sabe, ir à pesca. Se apanhasse peixinho podia assá-lo num fogareiro. Depois, podia ir beber um café ao moinho. E à tarde poderia ficar sentada numa cadeira de balouço a ouvir os pássaros.

Não sei é quando é que escrevia. Se calhar, tinha que ser a partir das onze da noite. E na volta tudo se haveria de resumir a um post fajuta no blog. Uma sina, um desconsolo. 


Bem, escritas à parte, aquele lugar é abençoado. Muitos deuses esvoaçam por ali.

Acho que vou ter que lá voltar para melhor os poder ver e fotografar a voar. Uma mancha alada e rosada.

Também gostava de os ver a marchar. Les flamants roses. Um pequeno exército de vaidosos insolentes que só têm de desculpa o serem tão deliciosamente efeminados. Uns pássaros não vos digo nem vos conto: bichas, bichas, bichas. Parecem ser divertidos e alegres como as bichas malucas costumam ser.

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Lá em cima coloquei o Manon (uma coreografia Kenneth MacMillans dançado pela Tamara Rojo e pelo Carlos Acosta do The Royal Ballet) porque foi o que me ocorreu quando me apeteceu ter aqui um bailado interpretado por humanos.

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sábado, junho 21, 2014

Arrábida, a Serra de um Poeta, Sebastião da Gama, a Serra da minha infância, a Serra por onde voam agora os meus tios


Do Leitor Fernando Ribeiro, recebi este vídeo maravilhoso sobre a Arrábida. 

Foi Arrábida a serra cantada e adorada por Sebastião da Gama de quem já aqui contei: mais velho que a minha mãe, professor quando ela era aluna, mestre de quem ela gostava de ser discípula, a quem ela ouvia falar maravilhada sobre a serra, sobre os poetas, sobre os pássaros, sobre o imenso mar, escreveu um dia para a minha mãe, louríssima:
O cabelo é de ouro
para que vejam bem
que o coração
é de ouro também
Já também aqui falei algumas vezes desta serra que tanto frequentei na minha infância, onde tantas vezes fui com os meus pais, para cujas praias tantas vezes fui, não apenas para o Portinho - onde uma vez conheci um francês com corpo e cara de Apolo e com quem poderia ter tido um intenso romance - mas sobretudo para Galapos (já que era mais fácil arranjar lá lugar para estacionar o carro) ou para a Praia dos Coelhos onde o meu primeiro namorado, por ter feito nudismo sem protector solar, apanhou um escaldão onde menos lhe convinha.

Era também na Serra da Arrábida que, mais tarde, nas suas matas, fazíamos pic-nics divertidíssimos antes de nos irmos meter no barco da família que estava ancorado no Portinho e no qual eu detestava andar, tão rápido os homens jovens da família o conduziam, galgando ondas até à Tróia, fazendo curvas malucas, gozando com o medo que me faziam ter.

Foi também na Arrábida, num belíssimo palácio algures numa das suas faldas, que fui a um casamento da família, um casamento muito bem disposto, com baile e festa rija e no qual o meu filho, então com uns cinco anos, se tomou de amores por uma outra menina, tendo passado toda a santa tarde até à noite abraçado à miúda, a ir ao bar buscar-lhe sumos, a dançar armado em rapaz crescido e a ignorar-nos armado em adolescente. 

Por ser um lugar especial para toda a minha família, é também na Arrábida que os meus tios quiseram que as suas cinzas fossem espalhadas. Não creio que repousem porque não eram de repousar mas por lá devem andar a passear ou, se forem pela vontade do meu querido tio, a voar.

É um dos lugares mágicos deste mundo e português algum deveria desconhecê-lo.

Ao Fernando Ribeiro agradeço esta revisita que me deixou emocionada. Tenho que lá ir de novo. Muito obrigada, Fernando.




Tomo a liberdade de transcrever o precioso roteiro que o Fernando generosamente deixou num comentário.


Os lugares que consegui identificar são os seguintes:

0:00 - Galapos
1:12 - Convento Velho dos Capuchos
1:40 - Convento (Novo) dos Capuchos, sede da Fundação Oriente
1:47 - Galapos, a minúscula Praia dos Coelhos e Portinho da Arrábida
1:53 - Portinho da Arrábida
2:45 - Calhariz ou Casais da Serra?
3:15 - Fojo?
3:40 - Alto do Formosinho
3:56 - Vista a partir das imediações de Aldeia de Irmãos?
4:12 - Vale de Picheleiros visto a partir das imediações de Vila Nogueira de Azeitão
4:30 - Vista a partir das imediações de Aldeia da Piedade?
4:54 - Vista a partir da Serra da Arrábida para a Costa de Troia, Comporta e Costa da Galé
5:03 - Portinho da Arrábida
5:15 - Galapos, a minúscula Praia dos Coelhos e Portinho da Arrábida
5:25 - Galapos e Praia dos Coelhos
5:34 - Portinho da Arrábida
5:40 - Crista da Serra da Arrábida
5:58 - Mata do Solitário
6:03 - Convento dos Capuchos
6:11 - Vista a partir das imediações do Convento dos Capuchos?
6:16 - Fojo
6:29 - Pedra da Anixa
6:37 - Lapa de Santa Margarida
6:50 - Mata do Solitário
7:13 - Vista a partir do Alto do Formosinho, o ponto mais elevado da Serra da Arrábida
7:20 - Vista a partir das imediações do Convento dos Capuchos

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 Mil vezes obrigada, uma vez mais.