Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 31, 2018

Bye-bye 2018





A manhã foi atarefada. Toda ela daqui para ali, a tratar das mil coisas que, ao longo dos dias de trabalho, vão ficando para trás. Quando à hora de almoço liguei à minha mãe e contei das minhas andanças ela disse: 'a vida dos reformados é isso, a andar de um lado para o outro a tratar de coisas'. Respondi que a diferença é que podem ir fazendo, diluindo os afazeres ao longo de dias, enquanto eu tenho que tratar de tudo num único dia, por atacado.


Depois, já tarde, fomos almoçar à praia e dar um passeio à beira-mar. Mas, às tantas, deu-me uma tal pancada de sono que não via a hora de chegar a casa e dormir um pouco. Só que, já perto de casa, apanhámos um estúpido de um carro mal estacionado que nos impedia a passagem; por muito que apitássemos -- e para meu desepero e fúria do meu marido -- não apareceu o dono. Parece que há cada vez mais pessoas que não se importam de incomodar os outros. Intriga-me esta tendência. As pessoas está, genericamente, a tornar-se cada vez mais egoístas e parvas? Não sei. O que sei é que, se estivesse sozinha no carro, a esta hora ainda lá estaria travada, sem conseguir passar. O que nos valeu foram as peripécias e manobras de alto risco empreendidas pelo meu marido, incluindo pôr-me a mim a mandar parar o trânsito numa rua para ele sair em sentido proibido. Enfim, lá conseguimos resolver o imbróglio e chegar a bom porto. O problema é que, com isso, espertei. Ainda me deitei mas debalde, o sono tinha-se esvaído.


Daqui a nada tenho que me ir arranjar para me preparar para os festejos da passagem de ano. Mas parece que não estou muito convencida, como se ainda não estivesse completamente certa de que já passou um ano desde a última vez. Isto parece que está a andar depressa demais. Nem sei bem com que é que me distraí para o tempo ter passado sem ter dado por ele. 

Sei que foi, para mim, um ano do caraças sendo que, em boa verdade, com os dados de que disponho não possa dizer que foi mau pois pode muito bem ter acontecido que o valente pontapé que dei no que se estava a perspectivar tenha surtido efeito e que, no acto, e até involuntariamente, tenha aberto portas que antes nunca tinha pensado sequer que poderia transpor. Mas não sei. Se há coisa que posso concluir é que nunca se sabe tudo e que o que parece pode não ter nada a ver com a realidade. Há jogos de espelhos, silêncios, segredos, jogadas palacianas -- dos quais raramente alguém se apercebe. Penso que posso também concluir que, em não querendo alinhar com alguma situação, mesmo que isso implique correr todos os riscos, não deveremos claudicar. Se o não é para ser não, que o seja de frente, sonoro, inequívoco. E, se o que queremos é outra coisa, então que avancemos, sem medo, com convicção. E digo isto sem saber qual o desfecho da minha petite histoire mas também não me preocupo pois o que for soará e cá estarei para fazer frente aos imprevistos e para lutar pelas minhas ideias.


De resto sei outra coisa. Os mais flexíveis, os que têm a coluna vertebral muito dúctil, os que gostam de ser informadores, conselheiros e que dão tudo para comer à mão do dono são os que se aguentam melhor nos corredores, bastidores e ratoeiras. Podem vir vendavais e tormentas que todos soçobrarão menos eles. Mas um dia virá em que a maré muda e que quem vem de novo não se queira ver rodeado de lambe-cus. E então serão inapelavelmente despejados no esgoto dos irrelevantes que não ficam na história.

Fica o quê?


Ficam as boas pessoas, as pessoas generosas, bem intencionadas, bem formadas, boa onda, com sorriso franco, com sentido de humor. São essas as pessoas que realmente interessam. Percorro de memória as pessoas com quem lidei neste ano que está prestes a passar; seja em contexto pessoal, social, profissional ou virtual, confirmo: há qualquer coisa que separa as pessoas de personalidade informe, as que são tóxicas, azedas, paranóicas, vulgares, das pessoas genuínas, simpáticas, francas, com sentido de humor, inteligentes. À medida que o tempo passa por nós, passa cada vez mais depressa. É, pois, natural que nos vamos tornando mais selectivos, manifestando as nossas preferências pelas pessoas junto das quais nos sentimos bem, cujas palavras nos tocam, acordam, incentivam ou abraçam.

É a pensar nas pessoas boas que me têm acompanhado nesta minha jornada que escrevo este post.


Não sei se escreverei mais algum post ainda em 2018. No dealbar de 2019 tentarei aqui vir para vos desejar um bom ano novo. Mas, até lá, vou já formulando votos de que nos continuemos a encontrar por aqui, com saúde, com alegria, com disposição para ir em frente. E que os que estão doentes melhorem ou, pelo menos, sofram menos, e que os que estão tristes voltem a encontrar os caminhos da felicidade e que os que estão desmotivados descubram como arrncar de si o torpor e o desalento -- e que todos os dias que aí vêm sejam dias que valham a pena ser vividos.

E agora, co vossa licença, vou ali passar o meu lindo vestido a ferro para estar apresentável quando o Novo Ano der as caras.


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[Mais imagens no Bored Panda]

quinta-feira, agosto 30, 2018

Do lago saíram dois cisnes mas, afinal, o cisne negro não era um cisne:
era Leda


O homem estava à beira de um mar tranquilo como um lago. Era um homem grande que, numa quente tarde de verão, olhava o azul imenso. Olhar perdido nos veleiros, nas gaivotas, talvez nas memórias.

Até que viu o cisne. Ah... 




Fascinado, ficou preso à elegância com que ele deslizava sobre a subtil ondulação das águas. Um cisne branco passeava sob o olhar seduzido do homem que tinha chegado de terras longínquas. Seria guerreiro, o homem? Seria um navegador solitário?

Jamais o saberemos. Sabemos, apenas, que não mais conseguiu desviar o olhar do gracioso cisne que, à sua frente, o envolvia num bailado todo ele inocência e tentação.

Mais surpreso ficou o homem quando viu que havia um outro cisne, um cisne negro. Saídos das águas, sinuosamente ondulando pelo areal, deslocaram-se ambos até mais acima, até onde uma quase cama os esperava. 

Ao sol, o cisne branco e o cisne negro. Elegantes, belos. O cisne negro dado à leitura, o cisne branco apenas aos banhos de sol. 

Mas, olhando com atenção, poderia reparar-se no olhar pouco amigável do cisne branco. Talvez despeitado. Enquanto isso, o cisne negro, inocentemente entregue à leitura, não se apercebia dos riscos que corria. O cisne branco, balouçava-se e talvez não fosse apenas pela aragem: era um cisne ameaçador que esperava a oportunidade para atacar.


E, de repente, já não eram dois cisnes. Agora a mulher era Leda e o seu belo corpo preguiçava ao sol, e toda ela absorta, entregue às palavras, ao romance. A seu lado, o cisne desviava o olhar da escultural mulher que resplandecia ao sol. 

O tempo passou, entardeceu com vagar, a luz dourada e morna fazendo brilhar o maravilhoso ébano  da pele de Leda.

Terá adormecido, terá sonhado? Leda não saberá dizê-lo.

Num momento era um cisne que a olhava e não olhava e, no instante seguinte, ao despertar, já era um homem que se curvava sobre ela, a mão na sua coxa, palavras tentadoras, sorriso perigoso. 

Entre eles, o cisne silencioso baixava a cabeça. Talvez já fosse apenas um invólucro vazio, talvez se tivesse transformado no homem que tenta e é tentado por Leda.

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.







terça-feira, novembro 28, 2017

Eu perguntaria:
somos um corpo com um software exclusivo que é desactivado logo que o corpo se desliga ou somos uma alma transitoriamente alojada num corpo?
(Não sei é se atendem chamadas de outro país)



Há coisas extraordinárias. Esta que se pode ver no vídeo lá mais abaixo, a da Biblioteca Pública de Nova Iorque ter um serviço personalizado em que qualquer pessoa pode telefonar para colocar uma pergunta e haver sempre alguém a responder, é, nos tempos que correm, do além.

Explica uma das funcionárias que talvez sejam pessoas que não têm acesso às tecnologias ou, então, pessoas que gostam de ter alguém que fale com elas.

Acho isto tão bonito, tão bom, tão genuinamente humano que nem sei bem como exprimir-me. A partilha do conhecimento através de um interface humano parece coisa quase ficcional. E, no entanto, até há não muito tempo era assim que as coisas funcionavam: através do contacto humano.


Sou do tempo em que a internet começou a aparecer nas empresas. Ao princípio nem se percebia bem o alcance da coisa. Havia um motor de busca de que eu gostava muito. Chamava-se, se não estou em erro, Altavista. Parecia-me uma fantástica janela aberta para o mundo. E sou do tempo ainda mais antigo em que, para saber coisas fora do meu alcance, subscrevia revistas estrangeiras ou era-me dado conhecimento do índice dos livros novos que chegavam à biblioteca, livros, bem entendido, dentro do meu intervalo de interesses. Já, por essas alturas, eu andava em busca da inteligência artificial, de modelos complexos, de coisas assim. 

Outras vezes, ligava para a bibliotecária, senhora muito low profile, quase parecendo esvaída tanta a sua vasta erudição, e colocava-lhe questões complicadas. Dizia-lhe o que gostava de saber sobre um assunto e pedia que ela espreitasse livros que tratassem disto ou daquilo. Depois ela ligava-me, contava-me sobre as suas pesquisas e enviava-me, por envelope interno que um contínuo distribuía pelos gabinetes, fotocópias de algumas páginas. Com as suas pesquisas, tantas vezes 'ao lado', aprendi também muita coisa pois, mesmo que as fotocópias não contivessem bem aquilo que eu procurava, não raramente introduziam-me noutros mundos.

E eu gostava de falar ao telefone com ela. Na altura, eu tinha um telefone dos modernos. Era cinzento e tinha teclas. Muitas outras pessoas tinham telefones pretos com um marcador de andar à volta, com o dedo preso no buraquinho correspondente ao número.


Enfim. Se eu contar isto aos meus pimentinhas acharão que é mais uma das minhas histórias, daquelas que gostam de me ouvir contar e que invento à medida que vou contando. Mas aconteceu. Numa outra era.

Agora, enquanto escrevo -- e a propósito daquilo de as pessoas ligarem talvez porque gostam de ter alguém com quem falar -- estou a lembrar-me da minha tia, a tia que, por tanto gostar dela, convidei para madrinha de casamento e a quem ela, eu ainda uma miúda, tinha convidado para madrinha da sua filha. Telefonava-lhe todas as sextas-feiras. O meu primo trabalha, claro, e tem uma profissão sem horários. A minha prima vive numa oura cidade. O meu tio tinha-nos abandonado havia pouco,  uma morte súbita que o poupou a maior sofrimento, deixando-nos todos muito tristes e a ela ainda mais. Ela não queria ir para lado nenhum, queria estar em sua casa. Cada vez mais doente, cada vez mais fraca. E todas as sextas feiras, ela cada vez mais débil, me falava da sua falta de forças, me falava da nora que era tão impaciente com o meu primo e de como lhe custava ver aquela rapariga gritar com o 'parvo do teu primo, que aceita que ela fale com ele daquela maneira', me falava dos netos, tão espertos, e da neta bebé da minha prima, filha de uma segunda relação, e quem ela tinha pena de não poder ir ajudar, 'faço ideia aquela casa, os filhos do rapaz, as filhas dela, tanta gente, e mais os cães, e uma casa tão grande e ela que nunca gostou nada das coisas da casa, faço ideia, faço ideia'. E, sem forças, toda se emocionava por não poder meter-se na camioneta e ir ajudar a filha. Eu conversava com ela de coração partido. Sentia que as forças estavam a abandoná-la. Comecei a convencê-la a ir para um lugar onde tivesse assistência. A minha mãe, com alguma ginástica e aflita por deixar o meu pai durante tanto tempo, conseguiu ir vê-la nesses últimos dias. Veio de lá, cheia de lágrimas, 'Coitadinha... Já não dura muito... Coitadinha... Para andar, já só dobrada e encostada aos móveis... Já não dura muito'. E não. Morreu pouco depois.


E eu, durante muito tempo, chegava a sexta-feira à tarde e sentia a falta de falar com ela. Sempre que eu me despedia, ela dizia: 'adeus, minha querida, obrigada por ligares sempre'. E tratava-me pelo meu diminutivo. Ela dizia que ficava à espera que eu ligasse e eu ficava à espera de serem horas de lhe ligar. Já foi há algum tempo mas continuo a lembrar-me disso. Sinto a sua falta. Era tão alegre, tão moderna, tão para a frente, as tuas palavras tão humanas. Tão consciente da sua finitude. Tão corajosa..

E isto que estou a dizer não tem a ver com o google humano ou com a função social dos bibliotecários. Foi assunto que chegou enquanto eu escrevia. Tem a ver apenas com as saudades que sinto de uma pessoa de bem, que sempre conheci sorridente, boa companhia, muito amiga. Gostava de me sentar ao fim da tarde das sextas-feiras, marcar o seu número e ficar ali a ficar com ela. Ainda não apaguei dos meus contactos no telemóvel o número de telefone lá de casa. Há pessoas de quem me custa pensar que desapareceram para sempre. Preferia acreditar que a alma delas vive agora num outro corpo qualquer. Poderia até ser no corpo de um animal. Ou numa árvore.

Talvez um dia ligue para a Biblioteca e pergunte: 'Por onde anda agora a alma da minha tia?' ou, então, 'As palavras que troquei com a minha tia naquelas tardes de sexta-feira desapareceram no imenso cemitério das palavras mortas, ou andam ainda por aí, acompanhando-me ao longo desta minha caminhada?'

Se um dia o fizer, o que será que a Rosa Caballero me dirá...?


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O Google Humano da Biblioteca de Nova Iorque



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Já agora, se me permitem, algumas outras bibliotecas maravilhosas

(entre as quais a que acima se mostra)


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E mais livros, desta vez livros proibidos, uma instalação também extraordinária. Na Alemanha.


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Junto ao texto, as imagens mostram esculturas digitais de Chad Knight

Música de Philip Glass para harmónica de vidro

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quarta-feira, outubro 25, 2017

Voar sem rede


E não me perguntes porquê. 
    E não queiras que te conte de mim. 
       E não tentes encontrar a ponta do fio. 
Não há fio. Acredita. 
Não há ninguém por detrás de mim. A sério. 
E não há razões. Não há. Sobretudo isso, não há razões.

Sonha. 
Sonha que me sonhas. 
Sonha que sou um sonho. 
Sonha que desço do teu sonho para me deitar ao teu lado. 
Sonha. E eu vou sonhar também.




Desvenda os segredos que trago sobre mim. São véus invisíveis. Um a um, retira-os.

Procura com as tuas mãos a pele que me cobre, sente a carne macia e sumarenta que espera por debaixo.

Adivinha que caminhos em mim percorre o fio de luz que me chega vindo não sei de onde, talvez do nada, talvez de um outro tempo.

Adivinha onde se vai ele acolher. Adivinha. Adivinha com os teus dedos, deixa que eles sigam o seu caminho. Ou deixa que o insolente fio de luz os guie.


Olha-me nos olhos. Vem. Não te desarmes. 

Olha lá bem no fundo. Não te percas no abismo que talvez adivinhes no intangível ponto onde a luz se faz nada. 

Olha os meus olhos. No fundo deles há um lago imenso que me transporta até ao mais fundo do mundo. O lugar da perdição. O meu olhar.

Não mergulhes. Não percas o pé. Não te percas. Olha-me apenas. Pressente-me. Não te percas de mim. Nunca te percas de mim.


Ouve como respiro.
Ouves? Ouves?

Voam dentro de mim mil pássaros, mil anjos, mil sonhos. 
Ouves?

Estende as tuas mãos e toca-me. 
Sentes-me?

Sente como as ondas de cor e de luz me envolvem. 
Sente como as tuas palavras me beijam. 
Sentes?

Sente como do teu olhar se desprendem abraços, sorrisos, laços, laços tão suaves, laços tão leves, tão infindos que chegam até mim. Inconfessáveis. Imaculados. Tentadores.

E agora vai. 
Esquece. Esquece-me.
Guarda dentro de ti todos os mistérios, os meus, os teus, todos os secretos desejos, os nossos. Não existem. Nunca existiram.
Mas guarda-os. Guarda-os para sempre. Guarda para ti, para mim. Memórias, histórias, sonhos, rastos de luz, vislumbres, jardins suspensos que talvez nunca tenham existido, o cheiro do meu corpo apenas sugerido, o cheiro do teu apenas adivinhado, os nossos olhares para sempre enleados. Guarda-me dentro de ti. 

Mas não me perguntes. Não sei de nada. Acredita: não sei de nada.

Existo? Existes?

Não sei.
O que achas, tu?

Eu acho que talvez não. Acho que te inventei e que, depois, enquanto sonhava, me inventei a mim.

A sério.

Não.
A sério, não: a brincar.

Estou a brincar. Até tenho vontade de sorrir.


Vou sorrir para ti. Escorrem-me dos dedos sorrisos, provocações, inocências.

Vês-me? Sentes-me?




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segunda-feira, setembro 25, 2017

Panorâmico de Monsanto: a beleza e a tristeza da decadência


No post abaixo poderão ver a extraordinária vista a partir do Panorâmico de Monsanto, o primeiro dos três edifícios que visitámos durante este dia de domingo, no âmbito do Open House Lisboa.

Aqui, agora, vou tentar dar uma ideia do estado de triste abandono a que está votado há anos depois de nenhum destino lhe ter assentado bem. 
Fez-me lembrar aquelas mulheres muito bonitas e desejadas, as Marilyns desta vida, que toda a gente acha belíssimas e que, não obstante, não conseguem acertar na companhia, não alcançam uma vida feliz, sentindo-se frequentemente solitárias, mal amadas e tendo, frequentemente, destinos trágicos ou, pelo menos, desoladores. 
Assim o Panorâmico: talvez belo demais, talvez bem situado demais, talvez com uma vista deslumbrante demais, talvez com demasiado potencial. 

E, no entanto, quanta beleza na sua decadência. Abandonado, maltratado, riscado, partido... e cheio de vida impressa nas suas paredes. E tão elegante nas suas curvas, no equilíbrio dos seus volumes, na distribuição entre desníveis e recantos, no balanceamento feliz entre a luz e a sombra. Tão belo apesar de tão sem destino, tão sedutor apesar de tão esquecido, tão promissor apesar de num tão triste estado de acentuado declínio.

O que eu faria com ele se pudesse decidir já o disse no post abaixo. Não há dinheiro? Há. Há sempre dinheiro quando o retorno é garantido. Mesmo em épocas de crise (e estamos a sair dela), dinheiro é o que não falta para bons investimentos.

Não falei ainda de um outro aspecto: o local em que está implantado. No meio da Serra de Monsanto, num dos seus pontos altos, entre arvoredo, frondoso arvoredo. Um local que parece fora de Lisboa. E, no entanto, dentro de Lisboa. Dali deveriam partir caminhos pedonais, caminhos para bicicletas (até caminhos para se andar a cavalo ou de atrelado).

O Panorâmico de Monsando deveria ser um ex-líbris de Lisboa e não a quase ruína que é.


Mas vejam o que os meus olhos viram.

























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Vejo um lugar assim e, apesar de me deixar entusiasmada com tanto que ver e fotografar, sinto pena. Penso que, com excessiva facilidade, se deixam perder preciosidades que, em tempos, alguém sonhou e desejou. Penso que se deixam perder oportunidades que, certamente, outros agarrariam e estimariam. Que se deixam perder ideias, riquezas, tesouros -- como sempre o fizemos, nós os portugueses que parece que nos desinteressamos da nossa história e das nossas heranças e que, desprendidamente, tudo deixamos esvair por entre os dedos. Perdem-se as memórias e os valores e nem se percebe porque se perdem. E o tempo passa e vai levando consigo quem se lembra dos sonhos que em tempos alguém sonhou. Ficam, depois, apenas frágeis memórias.

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Nem sei se vem a propósito mas apetece-me ouvir:

"What We Lost" de Michael Ondaatje (lido por Tom O'Bedlam)



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Pensava que teria tempo para falar dos dois outros lugares que visitei mas fica para amanhã
(embora um ou outro tema da actualidade me estejam a convocar).
Verei como me organizo.

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E queiram, por favor, continuar a descer para testemunharem as belas paisagens que do Panorâmico se avistam

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quarta-feira, novembro 25, 2015

António Costa: Primeiro Ministro de um Governo PS com o apoio do BE e do PCP. Chegou a hora da esquerda.
Enfim duma escolha faz-se um desafio, enfrenta-se a vida de fio a pavio, navega-se sem mar, sem vela ou navio, bebe-se a coragem até dum copo vazio.
E vem-nos à memória uma frase batida: hoje é o primeiro dia do resto da tua vida






A principio é simples, anda-se sózinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

......

Até agora, António Costa mostrou ser um jogador implacável. Muitas vezes aqui o censurei por, ao longo do período que mediou a sua eleição para liderar o PS e as eleições para as Legislativas parecer adormecido. Não se via o PS. Os PàFs punham e dispunham e o PS nada. Os PàFs, com arrogância, saltavam em cima de um PS que parecia apático -- e os eleitores iam-se desvinculando e aderindo a um BE que nos aparecia lutador e determinado. Os socialistas pareciam desaparecidos. Apenas António Costa aparecia e, ainda assim, pouco. Depois, a própria campanha eleitoral foi um desastre, a começar pela pirosice e amadorismo dos cartazes, pelas gaffes, pela falta de ânimo e de organização.

As sondagens iam mostrando o impensável: quando haveria condições para mostrar ao PSD e ao CDS que o descontentamento era total, o PS fraquejava, incapaz de capitalizar esse descontentamento, incapaz de descolar.


Na noite das eleições fiquei francamente desanimada. O PS não conseguiu ser o partido mais votado já que essa maioria foi para os PàFs, embora uma maioria relativa. A maioria dos eleitores tinha mostrado que preferia uma alternativa à política de destruição levada a cabo por um governo incompetente e composto por gente impreparada e servil face aos 'mercados' mas os votos tinham-se dispersado pelo PS, PCP e BE. E, para mim, face ao historial de anos e anos, jamais as esquerdas teriam a elevação necessária para se unirem com vista a vencer aqueles que combatiam e que tão mal tinham feito ao País.

Contudo, nessa noite, estranhei o tom sereno e bem disposto de Costa e percebi que estava longe de se preparar para atirar a toalha ao chão e entregar os pontos. Vi-o animado como nunca o tinha visto na campanha. O seu sentido de humor, a sua inteligência, a sua capacidade de pôr uma máquina em movimento estavam ali, inteiras. Parecia pronto para se pôr em marcha. 

De seguida, nessa noite, Leitor que muito prezo enviou-me a imagem aqui ao lado e disse que o cavaleiro não estava derrotado -- pelo contrário, já estava pelejando já que não era qualquer um que metia medo a cavaleiros endurecidos por batalhas anteriores. Gostei de ler. Animou-me.

Pouco depois, para minha absoluta surpresa, Jerónimo de Sousa deu o tom: o PS teria condições para formar governo. Já antes, na campanha, no debate com Costa, Catarina Martins tinha mostrado idêntica abertura.

E isto mudou tudo. Tudo. Inesperadamente o jogo virou.

A partir dessa altura, António Costa foi de uma eficácia tremenda. Admito como provável que, já antes das eleições, tivesse havido conversas entre eles mas, seja como for, o que sucedeu em Portugal daí para cá foi inacreditável. Contra uma direita em histeria e para quem valia tudo, contra um presidente pequenino, muito pequenino (e não o digo no sentido mignon do termo: digo-o referindo a sua mesquinhez, mediocridade, bairrismo bacoco), contra uma comunicação social minada, contra os cépticos e medrosos do seu próprio partido, António Costa seguiu em frente com uma firmeza e serenidade a todos os títulos notáveis.


Em todo este processo, é de salientar a inesperada e corajosa posição do PCP. Uma reviravolta destas poderia macular a sua identidade e a sua idoneidade. Contudo, Jerónimo de Sousa tem credibilidade, tem uma inteligência prática e a elegância de um príncipe.  Conseguiu uma inflexão no rumo do PCP que mostram que tem uma personalidade superior. Percebeu que o interesse do país e a própria sobrevivência do partido se jogavam nesse momento e, com uma capacidade de liderança formidável, imprimiu honorabilidade a este processo e é essa honra que transparece na atitude destes comunistas que garante o empenho que vão ter no apoio a este governo.

Quanto ao Bloco de Esquerda, Catarina Martins conseguiu a proeza de atrair, como um pára-raios, a esquerda criativa, lutadora, sem lastro do passado. Arguta, empática e decidida, os debates em que participou mostraram uma mulher bem preparada, aguerrida. E depois há Mariana Mortágua: uma fera na argumentação, voz baixa, temível. Prepara-se para os debates como poucos. Tem qualquer coisa de animal feroz. Aquele killing instinct que transparece em Sócrates, tem-no ela também. Li que Francisco Louçã e João Semedo assessoraram Catarina Martins e, portanto, estão igualmente de parabéns.


Uma esquerda assim é uma mais valia num país débil como Portugal. Assim consigam sempre manter-se unidos contra o capitalismo de casino, selvagem e desregulado, unidos a favor da industrialização e do relançamento sustentado da economia, do emprego, do desenvolvimento, do conhecimento, unidos na defesa da igualdade de oportunidades, na defesa dos mais desprotegidos, unidos na luta contra o envelhecimento, o desemprego, a emigração, o abandono escolar, unidos na defesa da cultura, do património e dos recursos naturais do país, unidos a favor de uma justiça célere, digna e justa, unidos na defesa pelo respeito e pela dignidade das pessoas. Assim saibam colocar sempre os interesses de Portugal acima dos interesses dos seus próprios aparelhos partidários.

Aqui estarei para os criticar quando achar que estão a pisar o risco, aqui estarei para os louvar quando achar que merecem.

Até ver, acredito que o Governo tem condições para ser um bom Governo. Há dois ou três nomes que me surpreenderam e não pelos melhores motivos mas talvez esteja enganada, não os conheço bem. Há dois ou três que me surpreenderam e pelos melhores motivos. E os restantes são sólidos, à prova de bala.

Gostaria de lá ver mais mulheres mas não é por se ser homem ou mulher que se é melhor ou pior (e nem sei se não terão sido algumas das sondadas que não se mostraram disponíveis -- que isto de estar ao serviço sete dias por semana, de manhã à noite, não conseguindo prestar apoio doméstico e familiar, não é para qualquer uma e, neste ponto, também ainda há grandes diferenças entre sexos)
Uma nota de rodapé para o diminuído presidente Cavaco. Nem no momento de indigitar António Costa conseguiu estar à altura. Todo o texto revela um mau perder indigno de uma pessoa que ocupa um lugar destes. Em vez de indigitar diz que indica e fá-lo desculpando-se com as opiniões dos outros. Mas sobre tão triste figura nem me apetece já falar. Não tarda vai-se embora e passará pela vergonha de sair rasteiramente pela porta baixa.
Mas como dos fracos não reza a história, esqueço o pequeno cavaco. 

Agora quero é desejar a António Costa e a toda a equipa governativa boa sorte e que preservem sempre a capacidade de perceber o que mais importa para o futuro do País e que tenham juízo, firmeza, presciência, elevação, tolerância e capacidade de negociação e, a toda a hora, respeito e amor pelos portugueses e por Portugal.


É tempo de abrir as asas - chegou a hora de voar. Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

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  • Obtive as fotografias no Bored Panda. 
  • A canção lá em cima é, como é bom de ver, O primeiro dia do Sérgio Godinho. 
  • Guilherme Gomes diz e realiza O Mostrengo de Fernando Pessoa 
  • Queria ter encontrado um vídeo mais longo do One Thousand Pieces, e sem os dizeres apologéticos, mas não descobri. Fica este mesmo porque, pela beleza, pela criatividade e pelo harmonioso trabalho de equipa queria tê-lo aqui. A companhia é Hubbard Street Dance Chicago, o coreógrafo é Alejandro Cerrudo e a música é de Philip Glass
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, saúde, sorte e muita alegria. E esperança.


sexta-feira, abril 03, 2015

Os que partem. Os que ficam. Os que chegam. A vida, a morte, as memórias, os sonhos.


Está uma noite de verão. Da rua sobe até mim o calor, o cheiro a flores. E vejo o rio espelhado e escuro lá em baixo, as luzinhas brilhando em volta. Haverá pessoas passeando pelas margens mas da minha janela não as vejo. Lá em baixo, na entrada do prédio, está um casal de namorados que se abraça e beija. A vida corre morna, macia.






Chego a esta altura da minha vida, depois de tanto museu, livro ou música e, cada vez mais, o que mais me surpreende ou comove é a convivência entre o efeito do tempo nas coisas e a marca que, quem passa, vai deixando nas coisas e em nós.

Recuo no tempo em busca do silêncio, da harmonia graciosa, dos sons que parecem descer dos céus, das paredes gastas, de restos de objectos que, em tempos, alguém amorosamente escolheu, e detenho-me perante a beleza do acaso, do encontro inesperado, da magia da simbiose perfeita, do pequeno desenho deixado como uma oferenda, da elegância de um pequeno ser azul sobre uma superfície de ferro que o tempo esculpiu, de gestos que se cristalizaram, de palavras que ficaram.




A vida é diversa, entram e saem pessoas na nossa vida, e ficam memórias, afectos intemporais, e entram outras, com leveza, e logo se cravam na nossa mente ou invadem o nosso coração, e aquilo de que gostávamos abre espaço para quem chega. 

Nos últimos dias partiram um grande poeta, um grande realizador, um grande economista. Os jornais e televisões não conseguem ter sossego: retrospectivas, evocações, tributos. As redes sociais enchem-se com os rostos de quem parte. Ainda nos estávamos a refazer da partida de Herberto Helder e já Manoel de Oliveira partia também e agora eis que Silva Lopes também se foi.


Mas eu, que não gosto de me deter nas partidas e que detesto despedir-me, permito-me pensar não só na marca que deixam mas também naqueles que, entretanto, chegam. E chegam novos músicos, novos poetas, novos bailarinos, novos pensadores, e logo nos encantam e, de entre os novos, alguns se haverão de destacar, de deixar as suas marcas e encher também os nossos corações. E depois descobrimos também outros que pensávamos presos ao passado, longínquos como se os tivéssemos conhecido noutras encarnações e é como se tivessem nascido de novo. E com memórias, com descobertas e com os que vivem à nossa beira, vamos avançando na vida. Assim somos nós, como uma parede que se vai erodindo, ganhando novas texturas, e na qual se inscrevem os ecos do passado e onde, quem passa, os poetas, os pintores, os músicos, vão deixando os seus sonhos azuis e onde também se inscrevem os afectos todos, os abraços, os olhares, as palavras.

Até que um dia partiremos também. Efémera é a vida.




Não tenho medo de doenças e, para falar verdade, não penso na minha morte. Um dia deixarei de existir mas, enquanto cá estou, penso é em viver.
Quando um dia, como já aqui o contei, o carro que conduzia perdeu os travões e, sendo um carro todo dado às electrónicas, não tinha um travão de mão de que eu pudesse socorrer-me, avancei com o carro desgovernado por uma estrada que descia ingrememente em direcção a uma rotunda em volta da qual circulavam camiões. Naquela fracção de segundos, pensei que o melhor a fazer, para não me ir desfazer contra os camiões, seria galgar o passeio e entrar pela rotunda acima. E assim fiz. Mas, quando olhei, vi o carro desgovernado em direcção a uma enorme peça metálica, de chapa, no centro da rotunda. Naquele instante, pensei que a chapa iria entrar pelo vidro e decapitar-me. Pensei: se calhar estou a viver os últimos momentos da minha vida. E, por estranho que possa parecer, não tive medo. 
Entretanto, com o impacto, houve um estrondo, o carro ficou cheio de fumo, quase virado no ar, e eu fiquei sem ver nada. Percebi que o carro se tinha imobilizado. Sem perceber bem o que tinha acontecido, sem saber se estava ferida, experimentei abrir a porta do carro, abriu, com alguma dificuldade saí do carro, e pensei: olha, não morri.
Entretanto, começaram a aparecer pessoas que saíram dos outros carros a dizerem-me para fugir porque o carro podia explodir porque estava cheio de fumo. Não me afastei, acho que percebi que eram os airbags que tinham rebentado e tinham deitado toda aquela fumarada. Tive muita sorte, podia mesmo ter ido desta para melhor. Mas teria ido sem medo.



Efémera e bela é a vida. Breves e misteriosos os instantes. Eterno o tempo que nos traz vidas de antes e as mistura com as de hoje e de amanhã. Festivos os afectos. Doces as memórias. Ternos os sonhos.

....

Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

.....



....

  • A música lá em cima é Ave generosa - Hildegard von Bingen - de Heavenly Revelations (Naxos); Maestro: Jeremy Summerly; Coro: Oxford Camerata
  • O poema é a carta da paixão de Herberto Helder in Photomaton & Vox
  • O bailado está a cargo de Hubbard Street Dance Chicago: One Thousand Pieces; coreografia de Alejandro Cerrudo; música de Philip Glass
  • As fotografias foram feitas no Ginjal
....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira com muito amor à vida.

...

terça-feira, outubro 14, 2014

PSD e CDS: esta gente falhou em tudo e vai continuar a falhar até ao fim. E, até ao fim, sem perceber nada do que aconteceu. Cá para mim não é ideologia, é burrice mesmo. Assim de repente, faço uma breve resenha do que se passou desde que se alaparam no poder. E, no fim, para me ajudar a superar a arrelia que isto me provoca, chamo para o pé de mim Luís Filipe Castro Mendes que sabe do que fala, quando fala da Misericórdia dos Mercados. E chamo também os bailarinos do Nederlands Dans Theater para ajudarem a esconjurar os maus espíritos dos maus mercados e dos seus mentecaptos servos.


Por favor, vamos com música que vamos melhor

Philip Glass - Metamorphosis II





(com quem muito divergi nos tempos que ele refere ao dizer que integrava então a escola da pureza inconsequente)




Em 2008 a Europa estava a ferro e fogo com os fundos abutres a sobrevoarem as economias mais débeis, fundos que fazem apostas e que ganham com os incumprimentos, fundos que sobrevoam os países ou as empresas onde sentem o cheiro morno na carniça.

Poderia relembrar que a mesma Europa que antes, e bem, tinha tentado fazer frente a essa ofensiva dando ordem para que se avançasse em força com o investimento público para ver se se mantinham os motores da economia em movimento, veio depois (assustada com o escândalo das contas públicas falseadas da Grécia - falseadas com o apoio da Goldman Sachs e com a Alemanha a olhar para o lado, a fingir que não via, note-se) a mandar travar a toda a força, impelindo estes países para uma austeridade radical, provocando a angústia e incompreensão dos povos envolvidos. 

 "O Fabricante de Máscaras", (Wikicommons, Carlos Orduna)


Debaixo de um fogo externo severo (e não tendo maioria no Parlamento e, ainda por cima, sujeito a campanhas sórdidas forjadas pelos apaniguados do PSD, nomeadamente pelos Jotas que vieram depois a descrever em pormenor a forma concertada como actuavam nas redes sociais e comunicação social), Sócrates negociou um programa que tinha o apoio da Comissão Europeia, da Merkel, da França, do BCE, contando que, entretanto, viesse a ser aprovado um outro programa europeu que permitisse a Portugal sobreviver sem ter que se chamar a troika - uma vez que sabia que, entrando a troika, Portugal ficaria francamente sem grande margem de manobra para decidir. Tentou fazer aquilo que, mais tarde, por exemplo, a Espanha conseguiria, isto é, resolver, por meios próprios e recorrendo ao menor mal, o ataque que se abatia sobre o País.

Mas o PSD de Marco António, Relvas e Passos Coelho estava noutra, a avidez pelo poder era muita, era cega. O CDS, qual mulher fácil, abeira-se sempre dos que se acercam do poder e, portanto, também embarcou na aventura. Numa união espúria (que para sempre carregarão nas costas), o PCP e o BE aliaram-se ao grupelho mais desqualificado de que havia memória.

O que aconteceu foi o expectável: o Governo caíu, a troika veio.


Na altura, tirando alguns aspectos como alguma redução dos direitos dos trabalhadores (que achei que deveria ser, depois, renegociado) e tirando o facto do prazo ser muito curto (devendo, também, ser posteriormente renegociado), não fiquei especialmente chocada com o programa da troika. Havia um conjunto de propostas, até relativamente equilibradas, para reformar todas as artroses da administração pública, as metas eram razoáveis, estimulava-se o diálogo entre os parceiros e o reforço dos apoios sociais.

Contudo, como todos os alunos marrões e pouco dotados, o novo governelho, este que ainda se conserva em funções, achou que se um comprimido por dia fazia bem à anemia, então porque não tomá-los às mãos cheias?

Nessa altura, quais porcos a tomar conta da quinta, decretaram que o programa da troika era o programa deles e que iriam ainda mais longe do que o que era requerido.

Mas talvez tão grave quanto isso foi nunca terem percebido a razão da crise. Desde o início - e penso que até agora - pensaram que o problema residia na imoralidade ou fraqueza individual dos mais carecidos: os velhos que recebiam pensões mais altas do que o que precisavam, os desempregados que não trabalhavam porque não queriam, os mais pobres dos pobres que tinham contas no banco, os que compravam uma televisão quando podiam vê-la na montra da loja. Entretidos com a sua própria estupidez e moralidade balofa, não cuidaram sequer de fazer um simples cálculo aritmético para perceber quão ridículo era o seu raciocínio: quanto é que cada um desses pobres ou piegas precisava de ter gasto a mais para gerar um buraco tão grande nas contas do país? Se o fizessem perceberiam que jamais aí poderia ter residido a raiz do problema. Não perceberam isso tal como não perceberam que são os erros de gestão, nomeadamente os de gestão financeira (não terem renegociado os swaps de alto risco), o material de guerra pago por valores excessivos para cobrir luvas e outras prebendas, o dinheiro desviado da economia para offshores, o peso do serviço da dívida, a importação para suprir a ausência de indústria, e todas essas debilidades nacionais que pesam, e como pesam, no drama deste pobre país - e que deveria ser aí que deveriam ter incidido a sua acção, 

Mas não. Não têm cabeça para tanto.

O desastre foi o que se viu. Perante os sucessivos desaires, Vítor Gaspar ia-se confessando perplexo, nunca percebia o que acontecia. Cortava nos ordenados e nas pensões, aumentava impostos, cortava nos apoios sociais, aumentava transportes e taxas moderadoras e, para espanto dele, as empresas começaram a fechar e o desemprego a aumentar para além do previsto.



Como todos os burros encartadados, os membros do governo não conseguiram nunca perceber o nexo causal entre as causas e as consequências, olhando apalermados a realidade que desfilava perante si. E, para espanto da maior parte da população, para tentar corrigir a rota, os do governelho persistiram na receita e, alheados até da lei, foram sempre tentando aumentar a dose.

E foi assim que a Segurança Social começou a desequilibrar-se, a dívida pública a aumentar, o défice a não abrandar, a recessão a impor-se, a emigração a aumentar.

Até que, não conseguindo mais gerir o descalabro, Vítor Gaspar se foi embora, confessando que tudo lhe tinha fugido das mãos, que a receita estava errada.

Poderia pensar-se que os que ficaram aprendiam alguma coisa com a lição. Mas não. Menos inteligentes ainda do que Vítor Gaspar, continuaram a persistir nos erros.

Depois de cortarem no rendimento disponível e na liquidez circulante, desataram a cortar naquilo a que chamaram gorduras: na investigação, no ensino, na saúde, na justiça. Sempre à toa.

É que poderiam tê-lo feito (embora o não devessem porque racionalizar não é eliminar!) com um mínimo de ponderação ou racionalidade. Mas não. Cortaram mãos, braços, pernas, com a displicência de quem corta cabelos ou unhas. Com os corpos em sangue e em sofrimento, apresentam-se, lampeiros, a pedir desculpa pelos transtornos ou a fazer pueris habilidades verbais.

Mural de Rivera pintado no Palácio Nacional, México

E nós assistimos perplexos à desvergonha, ao desrespeito desta gente. Pensamos, com pudor, que um povo não deveria ser governado por gente tão ignorante. É que é tudo muito mau, mau demais, humilhantemente mau demais.

A devastação que esta gente provocou no País vai ser difícil de corrigir.

Há questões que são estruturais e só gente muito inconsciente e irresponsável é que, querendo fazer arranjos em casa, desata a deitar abaixo os pilares e as traves, as paredes mestras, a escavar dentro de casa. E nem mesmo quando lhes cai o tecto em cima percebem que a culpa é do que estão a fazer.

Durante muito tempo me interroguei: será deliberado? será ideologia?

Mas agora tenho para mim que não: é burrice mesmo, apenas burrice, aquela burrice estulta dos que nem sequer se sabem burros.

Augustin de Lassus

Ao fim de três anos, a dívida disparou para valores assustadores, o défice não desceu nem dá mostras de estar controlado, o desemprego mantém-se elevado, o esbulho fiscal mantém-se, a economia está mais débil que antes e, mais preocupante, e isto é mesmo o mais grave, o investimento parou e a demografia prenuncia uma catástrofe a prazo. Ou seja, o mal que foi feito não é apenas um mal imediato: não, é um mal que vai perdurar.


Poderia ainda falar em tantos outros aspectos. Mas são tantos.

Por exemplo, poderia falar na cegueira e leviandade como se actuou no caso BES deixando ruir e despedaçar um banco que era um pilar do sistema financeiro português, poderia falar no que está a acontecer na PT em que com a mesma ligeireza dizem que não têm nada a ver com isso, como se os 14.000 empregos directos e os ainda em maior número indirectos ou um importante centro de decisão nacional ou a detenção de tecnologia fossem letra morta, objectos dispiciendos.

Poderia também falar na ligeireza com que entregaram a energia aos chineses, parte significativa dos seguros aos chineses, os aeroportos aos franceses, os correios a não se sabe quem, e, com idêntica ligeireza, querem entregar os transportes públicos a quem calhar, as águas a quem der mais (mais ou menos, tanto lhes faz), e etc, etc.

Poderia também falar da ligeireza com que se acolhe gente cujas fortunas não são explicáveis e que estão a comprar todo o património imobiliário relevante, tal como poderia falar na igual ligeireza com que fecham os olhos ao facto de grande parte da comunicação social já estar nas mãos de angolanos.

Poderia ainda falar no preocupante e gravíssimo desprezo pela arte, pela cultura em geral, pelo conhecimento no seu todo.

Poderia falar no desprezo pela dignidade das pessoas, na indiferença perante a dor e o sofrimento dos que ficaram desempregados, nos que caíram na mendicidade encapotada, nos que foram para longe das famílias, nos que foram formar família longe do seu país. Poderia falar de tanta coisa.




Mas vou poupar-me porque falar nisto deixa-me doente. Se eu pudesse e se soubesse que não me ia meter em trabalhos, juro que soltava os cachorros atrás desta gente que tão mal fez ao meu País.


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Não gosto de acabar o meu dia debaixo de uma nuvem de arrelia malsã. 

Podia, claro, escrever um outro post como geralmente faço. 

Mas, em vez disso, vou antes chamar um Poeta para ver se, com as suas puras palavras, me ajuda a purificar o ar por aqui. Luís Filipe Castro Mendes com Imitado de Alberto Caeiro e depois com A Casa na Noite em A Misericórdia dos Mercados parece-me ser a voz certa para isso.

















Ontem um homem das cidades
veio explicar-me os valores da vida.
Disse-me que a minha sobrevivência era um privilégio
e o conchego dos banqueiros uma justiça.
Falou-me de uma nova sociedade, feita de esperteza e água fresca.
Deixei-o falar.
Ele não sabe que ficou também do lado dos que perdem
e até o descobrir virão mais rosas
e a areia cobrirá todos os jardins.



Máscaras de dança da tribo Yupk, século 19
















O que foi teu e o que juntaste à vida,
tudo te mostra a casa iluminada:
no fim do caminho a luz estremecida,
no rasto dos teus passos a morada.


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E a dança, senhores. Que os corpos digam de sua justiça.





Nederlands Dans Theater

SLEEPLESS
coreografia Jirí Kylián, música de Dirk Haubrich
GODS AND DOGS
coreografia Jirí Kylián, música de Ludwig Van Beethoven
MINUS 16
coreografia Ohad Naharin, música de autores vários

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 E, por hoje, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.


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