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quarta-feira, março 18, 2026

Sobre bengalas, audioguias, clubes de leitura

 


No outro dia identifiquei-me completamente com o José Ricardo Costa do Ponteiros Parados. Não que isso não aconteça com uma certa frequência. Mas, naquele dia em particular, gostei mesmo do que li, senti-me acompanhada.

Não há muito, alguns amigos organizaram-se para uma visita guiada a um museu. Senti-me bem dividida pois, por um lado, gosto imenso de estar com eles, mas, por outro, não consigo ver um museu com guia. Andar ao ritmo dos outros, ouvir explicações, assistir à indecente dissecação de uma obra que se quer una, inexplicável, indescritível, parece-me a mais absoluta contradição dos termos. Nem sequer consigo visitar uma exposição com audiofones, pura e simplesmente não consigo, imagine-se, então, com um guia humano, integrada num grupo. Impensável.

Não fui. Com muita pena pois gostaria de ter estado com os meus amigos, mas foi mais forte que eu. Não conseguiria estar parada, no meio deles, a ouvir o que a guia estaria a dizer. 

Quando muito poderia ouvir os autores, os pintores. Por exemplo, gostava muito de ouvir a Paula Rego. 


A forma desprendida como dizia que já não se lembrava porque tinha pintado o quadro ou ao improvisar o que é que ali estavam a fazer aquelas figuras, ou, numa outra vez, quando lhe perguntaram porque é que estava um tomate ali e ela respondeu que, ao pintar, tinha achado que havia ali um vazio e, então, para encher, tinha pintado um tomate. Ouvir falar assim acho delicioso, fica presa. E gostava de ouvir as suas histórias, as suas recordações, a forma quase inocente como falava dos homens maus, ou o que a motivava ou como preparava o cenário para, depois, o pintar. Mas tudo contado naquela sua forma desconstruída, desligada das opiniões alheias. Disso eu gosto.

Agora um guia a interpretar, a dissertar sobre a gramática da pintura, isso para mim seria insuportável. Ou andar de sala em sala e, em vez de estar com a alma virgem, andar conduzido por um audioguia, a ver as coisas pelos olhos de outros ou a dividir o texto poético da pintura em orações e a encontrar-lhe o sujeito, predicado e complemento directo (que já nada deve chamar-se assim...), isso, para mim, seria uma tortura.

Para mim, ver pintura (ou escultura) é um acto íntimo, não quero gente ao meu lado, quero parar, deixar-me absorver, deixar que a pintura me envolva, deixar-me emocionar, sem palavras. Ou, então, seguir adiante, indiferente.


Nota: 'Gerei' as duas imagens acima com recurso a IA, descrevendo o que queria (o estilo, as cores, as texturas, etc) -- obviamente inspirando-me em Rothko, um dos meus musts, aquele género de coisa que não se explica.

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E, a propósito, vou falar de uma coisa que receio choque algumas pessoas: os clubes de leitura. 

Já faz cerca de um ano que frequento o Instagram e, volta e meia, aparecem-me referências a encontros de clubes de leitura. E lá vejo as fotografias e a alegria que têm em estar juntas. Falo no feminino porque só vejo mulheres. Uma irmandade, todas cheias de ideias, de opiniões, de entusiasmos.

IA também, mas desta vez pedi-lhe um clube de leitura actual só que à luz do Vermeer

Já quando trabalhava, uma colega com quem eu me dava muito bem, gostava muito de ler, era muito dada a actividades de voluntariado que envolviam livros e dinamizava um clube de leitura. Sabendo-me também leitora regular, de vez em quando desafiava-me. Mas nunca foi bem sucedida. Uma outra, com quem eu me dava também muito bem, uma com um certo pendor alternativo que eu muito apreciava, era também muito disso e frequentava muito os encontros, em livrarias também meio alternativas, em que falavam de livros. Dizia-me: 'Há de experimentar. Um dia venha comigo, vai ver que vai gostar.' Nunca fui. E, com esses convites, constatava que eu nunca me dava verdadeiramente a conhecer pois, se me conhecessem de verdade, saberiam que é o género de coisa a que sinto aversão, aversão incondicional. Tudo naquilo me causaria desconforto, desde o tema, à conversa, passando pelo facto de ser um clube do bolinha ao contrário.

É certamente um défice meu, pode até ser um défice cognitivo (ou psicológico, tanto se me dá): não consigo dissertar sobre um livro. Consigo resumir vagamente, consigo dizer também vagamente porque gosto ou não gosto. Não mais que isso. Não me interessa esvaziar a alma dos personagens, não quero saber das hipotéticas intenções do autor, muito menos tenho qualquer interesse em conhecer a opinião detalhada das outras pessoas sobre o livro. 

E depois, geralmente, os livros que escolhem como alvo de autópsia são geralmente livros sobre os quais eu não dou um chavo, são livros mais ou menos mainstream, não quero saber daquilo para nada, nem daqueles livros nem daquelas conversas. E, note-se, nunca fui a nenhum desses encontros. Digo isto só de imaginar. Se lá fosse, então, viria certamente a espumar, cansada da cabeça de tanto me esforçar para parecer educadamente interessada, desidratada e com a tensão arterial nos mínimos. Não sei porquê mas quando estou com pessoas que falam muito, em especial quando falam sobre coisas que não me interessa, fico assim, arrasada.

Um livro, tal como uma pintura, uma escultura, uma música, o que for, são para ser apreciados de forma individual, intransmissível, recatada. 

Neste caso, pedi à Inteligência Artificial que me gerasse uma imagem inspirada na arquitectura de Luis Barragán: um templo sóbrio, com aquelas cores típicas dele e com aquelas maravilhosas entradas de luz, e em que uma mulher estivesse, sozinha, a ler um livro

Não sou dada a rezas nem a nada disso mas, neste caso, acho que uma obra de arte deve ser venerada em silêncio, tomada para nós -- isto quando nos toca, evidentemente. Se não nos diz nada, bye bye, adeusinho,  por aqui me desbaldo. Não temos que dar justificações.

Mas, enfim, isto sou eu. Cada um é como é, já lá dizia o outro. 

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Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, abril 30, 2020

O enigma





Não sei se é a simetria se o requinte do recorte. Olho a pequena flor e parece-me de uma beleza extraordinária. Outras vezes são as palavras. A ligação entre ideias. O inesperado do significado, o inesperado do som. A harmonia. A palavra certa na frase certa, no raciocínio certo. E isto de dizer que é certo é absurdo. Mas certo no sentido de me soar bem, de me surpreender e me agradar. A ligação de formas, a elegância das linhas. A subtileza das cores. A toada. Aquela melodia que nasce de lugar nenhum. A beleza que nos leva, que nos enleva.

Referem-me os clássicos. Sem os clássicos tudo é nada, sugerem-me. Percebo. Como se, sem ter passado por aí, qualquer juízo meu fosse juízo feito em campo aberto, sem escala, inválido. O certo, segundo percebo os conselhos, seria começar pela linha de terra. Depois, então, aventurar-me em busca da linha de água. Só depois ousar a linha de horizonte.  E eu até aceito que possa fazer sentido. Há quem acredite que a b chega-se depois de passar pelo a, a c depois de passar pelo b. As bases, a sequência certa. É o que se ensina na escola, a percorrer o carreirinho.

E, no entanto, há outras cartografias. Não há como negá-las. Situam-se no ar, em terra de ninguém. Cartografias insolentes, não mapeáveis. Não se deixam decifrar. Referências voláteis, inexplicáveis. Topologias que se deslocam, variáveis no tempo, no espaço, lugares apátridas, sem fronteiras, imateriais. Território talvez de uma pessoa só. E de quem queira lá entrar e partilhar esse indecifrável espaço de afinidade, de afecto, esse lugar onde não há explicações possíveis. 

Não sei de certezas nem posso dizer que só sabe alguma coisa quem teve a paciência de começar pelo princípio, quem soube colher o que de melhor alguma vez se fez. Não sei de nada disso, não sei o que é melhor. Mas isso é talvez porque eu sou outra, viro as costas ao saber e aos consensos, não sigo lição moral, não sigo nada, sou bicho de trilhos não percorridos, sou de me aventurar, sou de me deslumbrar com o último fiapo de luz a escorrer pela montanha ao longe, sou de ficar meia hora a olhar para uma frase, sou de ficar com lágrimas nos olhos a olhar um céu imenso e nele apenas uma lua a crescer e uma estrelinha brilhante. Sou de outros vocabulários, sou de outras contas, sou de outras bibliotecas, de outros caminhos. Não sou de me deixar agarrar. Não sou de soletrar, não sou de alfabetos, não sou de tabelas periódicas, não sou de tabuadas. Prefiro a variabilidade das bases, das escalas, prefiro o enigma.

É isso.

Sou capaz de percorrer mil labirintos, de me arriscar por mil abismos, sou capaz de negar os clássicos e as leis mais básicas da física, sou capaz de ignorar a gramática e as mais sábias recomendações de quem sabe mil vezes do que eu. Sou mesmo -- e tudo só para continuar, em total inocência, a procurar a intangível e inexplicável beleza. O que quero mesmo é permanecer na ignorância, não desvendar, nunca, o enigma. Viver no limiar do eterno mistério. 


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Vermeer e Nick Knight ao som de Fields of Gold na voz de Katie Melua

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quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Sobre o que vamos fazendo





Uma vez fiz uma almofada com fios saídos em argolinhas. A estopa estava esticada num bastidor. O desenho era inventado e as cores eram vermelho e laranja. E fiz toalhas de chá que penso que nunca usei. Crochet. E panos de tabuleiro. E uma toalha de renda grande. Usei-a uma ou duas vezes. É muito difícil de passar a ferro. E colchinhas de lã para as camas dos meus filhos. E tricot. Camisolas, casacos. E bordados. Muitos bordados. Algumas gavetas cheias desse meu dedicado labor, dessas inutilidades.

Houve uma altura, há mil anos, em que apanhava alguns transportes públicos para ir trabalhar. Trabalhava longe. Levava lãs e fazia crochet. Iam muitos colegas, todos homens. Ao princípio gozavam. Depois habituaram-se. 

Foi o meu percurso até chegar aos tapetes de arraiolos. Já não sei quantos fiz, tapetes e carpetes. Comecei por um simples. Logo a seguir quis fazer complicados. Outros à mão livre. O prazer de, do nada, de peças soltas -- um tecido, umas lãs -- fazer nascer uma peça intemporal.

Tenho isto: há coisas que não sabemos fazer mas que aprendemos e deixam de ser complicadas. Há outras coisas que não sabemos mesmo e que nunca conseguiremos.

Exemplifico. Quis ter os meus filhos a sangue frio e tive-os. Já aqui o contei várias vezes: foram partos muito complicados, induzidos, com fórceps. A sangue frio. Sem medo das dores. Sem pensar duas vezes. 
No trabalho também assim. É para fazer, faz-se. Não me ocorre pensar que nunca o fiz antes, que posso não ser capaz, que pode correr mal. Faz-se. O caminho faz-se caminhando.
Mas quando a minha filha tinha um dente a cair, preso por um fio ensanguentado, não consegui puxá-lo. Fomos para a casa de banho, assim não podia ficar, um dente suspenso por um fio. Tentei. Tentei mesmo. Enchi-me de coragem. Mas não consegui. A perspectiva de poder magoá-la tolheu-me os movimentos. Não consegui. Senti-me a desmaiar. Tive que me sentar, a ver tudo branco. Medo que lhe doesse. Ela, pequenina, pôs-se ao espelho, puxou o dente, arrancou-o. Ainda hoje fala disso. 
No outro dia, um menino disse-me que tinha um dente a abanar muito, quase a cair. Dias depois disse que já tinha caído, que a mãe tinha puxado. Relembrei. Pensei que, se tivesse que ser eu, voltaria a não consegui-lo. 

E a fotografia. Não tenho paciência para ler manuais, para ler livros técnicos ou para ir a aulas. Qualquer desses rituais me tiraria o gosto da descoberta. Faço fotografias a eito, milhares de fotografias. Mas não posso falar disso ao pé de quem saiba pois tendem a fazer-me perguntas sobre técnicas, se faço assim ou assado, se a objectiva é esta ou aquela. Não sei. Não quero saber.

Também não as organizo. Não sei se alguém, algum dia, vai fazer alguma coisa com tudo isto que, ao longo da vida, tenho vindo a fazer.

Uma pessoa contou-me que está a dar rumo às coisas dos pais. Uma casa muito grande, cheia de coisas. Diz que nunca mais acaba. Não sabe o que fazer. Há coisas de que não quer desfazer-se mas não tem onde guardar tudo o que acha que deveria preservar. Fala com lágrimas nos olhos.

Ao ouvir, pensei na minha casa. O meu marido diz muito isso: não vamos criar um problema aos miúdos. Geralmente é o argumento que vem para cima da mesa quando me quer convencer a deitar fora metade das coisas. Mas tem razão. Pode ser um grande problema. Tantos tapetes já sem saber onde pô-los, tantos quadros que já não tinha onde guardar (que paredes para os pôr já não havia), tantas fotografias que por aí estão em discos e nem sei onde mais.

Por isso, aqui, escrevo para o vento. Palavras soltas ao vento, para quem as quiser ler. Cartas que escrevo para quem gosta de me ler. Uma vez escrevi um livro. Não sei dele. Acho que estava numa disquette. Outra vez comecei a escrever outro. Achei por bem pôr uma password. Esqueci-me dela. Não faço ideia em que computador estará. Perdeu-se.


E talvez isto que acabaram de ler não faça muito sentido mas é que era para falar de uma coisa que me contaram e, afinal, achei melhor guardar o assunto só para mim. Pelo menos, para já.

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As pinturas são de Vermeer, ao som de Yann Tiersen com Porz Goret

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Caso sejam apreciadores de Trompe l’oeil: a arte da ilusão queiram descer até ao post seguinte.

terça-feira, junho 06, 2017

Opostos




Depois de um dia algo preenchido, já tarde, chego a casa, e, a seguir a um jantar ligeiro e a alguns afazeres domésticos, aterro neste sofá que é quase o meu ninho. 

Não me apetece falar do terrorismo que sentimos que vem chegando mais perto, não se restringindo aos lugares em que mal damos por ele (indiferentes ao facto de que é gente igual a nós que vai pelos ares ou que vive em situações de terror que não suportaríamos) para vir manchar as ruas por onde já andámos ou onde por onde andam pessoas nossas conhecidas. Não me apetece. De gente maluca quero é distância e tenho para mim que de tarados destes não se deveria fazer grande propaganda.

Portanto, fecho os olhos às notícias de primeira página. Desloco-me para outras paragens.


Vi algumas notícias que despertaram o meu interesse, nomeadamente as que referem que um certo tipo de medicação combinada está a trazer bons resultados no combate contra o cancro. Gostava de ser capaz de falar sobre o tema mas não gosto de falar sobre o que não sei e, sendo este um assunto sério demais, não me arrisco a dizer disparates. Deixo os links a quem possa interessar:


Next-generation cancer drugs boost immunotherapy responses

-- Early clinical trial data suggest that combining medicines improves treatment. --

e

Prostate cancer trial stuns researchers: 'It's a once in a career feeling'

-- Study with ‘powerful results’ finds that combining two existing therapies could extend the life of men with advanced, high-risk prostate cancer by 37% --


Tomara que sim e tomara que o que se provar que é remédio santo chegue a tempo de atalhar o mal a quem ande aflito, sentindo o horror da ameaça invisível que mina, por dentro, quem tem a pouca sorte de ser vítima deste mal desgraçado. Pelo menos, do que leio, é uma esperança muito concreta.

Mas, portanto, não sendo matéria na qual eu saiba pegar com precisão, sigo em frente.


E ocorreu-me, então, falar do tal lugar especial onde fui no outro dia, um lugar transparente num bom local de Lisboa.

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Contudo, com a preguiça que me chega mal me refastelo aqui, antes de deitar as mãos ao teclado, fui de veraneio por alguns dos blogues que nunca perco. 

E eis que, num deles, me chega um daqueles textos que nos agarra quase à bruta. O lenhador que se fez ao mar atira mágoas à pá cheia, chora afectos não expressos, com as mãos fortes e rudes de quem delas faz bom uso escreve palavras ásperas, pisa flores, fotografa lonjuras, despede-se de quem um dia viu no berço.


E, lendo a sua escrita despida fico, de repente, sem vontade de prosseguir na minha escrita. Escreve ele com sentimento quando o coração lho pede, sobre o acontecimento. Dilacerado, ele usa as palavras com a firmeza de quem sabe domar as emoções, de quem sabe controlar-se e seguir em frente. Somos tão diferentes uns dos outros.  Tão diferente de mim que, quando tenho amarguras na alma, as disfarço e por aqui me entretenho falando de doces ou travessuras, rindo ou ficcionando.

E, portanto, depois de ler deste texto arrancado da carne, sinto que tudo o que eu possa escrever me parecerá frívolo, inútil, imediatamente descartável.

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Tenho estado a ouvir Philippe Jaroussky enquanto vejo pinturas de Vermeer. 

(Não sei porquê Vermeer, mas foi o que me apeteceu. Talvez por ser o oposto do que vou escrever, tal como o que vou escrever é o oposto do texto acima referido e que tanto me impressionou)

Hesito. Ou me fico por aqui, despeço-me e vou ler -- ou regresso à minha pobre coitada triste ideia e continuo a escrever.

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Com as vossas desculpas, eu escreverei e fá-lo-ei mais pelo gosto de estar a escrever do que pela nenhuma importância do que vai ser dito. Relevem, pois, por favor, a irrelevância do que vão ler.

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Como vos referi antes, tive no outro dia um compromisso numa conhecida torre de Lisboa. Conhecia-a de passar por lá perto – aliás, grande como é, vê-se bem das redondezas – mas não sabia como, a partir de uma das conhecidas artérias da cidade, se entrava para lá. Coloquei o gps e percorrendo algumas ruas, algumas bem intrincadas, por onde nunca tinha passado, e no meio de instruções algo equívocas da menina que me guia (‘aos 20 metros vire ligeiramente à esquerda’ e eu com duas ruas a virarem ligeiramente à esquerda; ou ‘agora continue em frente’ e eu com três ruas à frente, etc) lá fui dar. Coloquei o carro no parque do edifício e de lá subi ao piso para onde me devia dirigir.


Estar num local assim é, em si, uma experiência. Ia dizer uma experiência de vida mas claro que isso é estupidamente excessivo. O que sei dizer é que é uma sensação agradável estar num local como este. Tudo envidraçado, visibilidade a toda a volta, uma sensação de quase levitação. Materiais notoriamente de boa qualidade, bom gosto nas escolhas. Depois, dentro do sítio onde propriamente me dirigi, um requinte de decoração. E uma simpatia no atendimento. Mas uma simpatia afável, natural, sem aquele toque de afectação que por vezes se encontra nestes locais. Num outro onde vou com alguma frequência, a pessoa que vem receber-me e levar-me à sala de reuniões parece uma viscondessa ao pé de mim que, inevitavelmente, ao pé dela, me sinto quase uma sopeira (sem ofensa para as sopeiras). Mas neste tal sítio não. Há jovialidade e mesmo um toque de informalidade que nos faz sentir muito à vontade. 

A pessoa com quem eu ia encontrar-me veio esperar-me, uma simpatia. Tudo decorreu muito bem, tudo muito terra a terra mas com naturalidade, com risos frequentes.


Quando saí, no elevador, encontrei uma conhecida actriz de telenovela, elegante, vistosa, loura, bronzeada, e toda ela se sorriu, simpaticamente dando-me os bons dias. Noutro piso entrou uma mulher muito alta, muito loura, muito bonita, com um vestido muito curto de crochet branco, toda ela transparência, com umas botinhas de pele clara. Parecia a Bo Dereck nos seus tempos áureos. Simpática também. Reparei que tinha o lábio superior levemente tumefacto e que sorria com algum comedimento. Provavelmente teria um botox recente. E eu, no elevador, nada bronzeada, vestida banalmente, entre aquelas duas beldades -- que pareciam saídas de Hollywood e a caminho de um spa ou de uma vernissage, nem sei, tanta a frescura e leveza que lhes senti – tentei não me sentir deslavada, apesar de saber que não poderia negar que trazia colada à pele a imagem de uma monotonia confrangedora, tendo que ir trabalhar para um escritório, levando uma vida banal, desprovida de glamour. 

Não sei se por isso, se por já ter alguma fome ou o quê, não sei que sinal de trânsito é que é que não vi que, tentando sair das ruas envolventes do edifício, me vi em sentido proibido sem espaço para inversão e com carros que não paravam de vir em sentido contrário. Depois de a muito custo me conseguir realinhar com o sentido do trânsito, não conseguia perceber como sair dali para voltar a entrar na avenida. Enfim, depois de algumas voltas, lá consegui lá chegar mas no sentido oposto àquele para onde queria ir e sem possibilidade de inversão. Tive que andar uns quilómetros para chegar a uma rotunda onde consegui finalmente pôr-me no sentido pretendido. 


Quando já reinstalada no meu poiso, pouco depois já estava a receber por mail um relatório relativo ao tema que lá me tinha levado e um pouco depois já estava a receber uma chamada de outra pessoa para combinarmos um próximo encontro. Uma eficiência elegante, compaginável com a distinção e modernidade do local onde tinha estado.

Já lá voltei. Desta vez consegui lá chegar com alguma facilidade. Enquanto esperava pelo elevador, no parque subterrâneo, chegou uma outra mulher. Olhei-a e foi uma daquelas situações em que uma pessoa quer ver mas sem ser apanhada a olhar. Corpinho delgado, sem uma gordura que se percebesse. Anca estreita, seios pequenos. Um vestido de renda em azul alfazema. Renda forrada dos seios até á orla da saia, ligeiramente acima do joelho. Vestido justo de manga curta, um cinto fino na cintura. Saltos altos, uma carteira linda. Toda ela uma elegância aterradora. Um cabelo impecavelmente penteado, o rosto maquilhado mas com suavidade. Parecia uma boneca, linda, elegantíssima. Uma vez mais me interroguei: mas para onde vão e de onde vêm estas mulheres tão bonitas, tão bem arranjadas? Quando íamos no elevador, ela sem me ver e eu a desejar-me invisível, sentindo-me em estado quase selvagem, imprópria para frequentar lugares daqueles.


Depois, o meu compromisso: outra vez um momento agradável, como se estivesse a experimentar um bocado de tempo numa civilização mais à frente.

Não é que o país não esteja todo ele mais moderno, mais elegante e simpático. Está. Não é apenas Lisboa que está uma formosura, é todo o país. Quando dou os meus passeios pelo país o que vejo são terras bem arranjadas, gente simpática, tudo acolhedor. 

Mas, ainda assim, há locais que se distinguem. Relativamente habituada a frequentar locais com alguma sofisticação devo dizer que, das duas vezes, saí deste de que estou a falar com a sensação de ter estado algures numa outra galáxia, onde tudo se aproxima da perfeição – até as pessoas que o frequentam, com excepção desta vossa humilda serva.


Como daqui por algum tempo lá vou voltar, a tentação é fazer uma reportagem para vos mostrar -- mas não sei se será inconveniente tirar fotografias. O melhor é não fazer isso senão ainda sai da parede algum segurança para me levar para alguma masmorra (transparente, requintada, intergaláctica) onde, para meu castigo, me põem a ver desfilar as mulheres belas e irreais que sabem comportar-se em lugares daqueles, para eu perceber que, enquanto não lhes passar dos calcanhares, não poderei lá voltar a pôr os pés.

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E agora é que já chega. 
Saíu um post em que nada tem a ver com nada. E nada a fazer.

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Dias felizes a todos quantos por aqui passam.

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domingo, outubro 28, 2012

Os animados museus de Amesterdão, o Rijksmuseum, o Stedelijk Museum, o Van Gogh Museum - as raízes e o futuro da arte que floresce nesta cidade tão cheia de vida


E, então, os museus. 

Gosto sempre de museus, sempre gostei, gosto do ambiente, gosto de ver objectos expostos, gosto de deslizar pelas salas e ver as outras pessoas que deslizam como eu, gosto de pensar que aqueles objectos foram feitos por pessoas que sobrevivem e nos sobreviverão através da sua obra.

Amesterdão respira arte. 

Visitei apenas três museus, os quatro dias não deram para mais. Queria também ter visto a Casa de Anne Frank e não consegui. Mas não faz mal, quando gosto muito de um sítio gosto de ficar com motivos para lá voltar. 

O primeiro museu que visitámos foi o Rijksmuseum. O site merece visita pois é muito completo e permite ver as obras expostas ouvindo esclarecimentos interessantes, como é o caso da pintura Nightwatch. 




Por isso, mais do que mostrar-vos as obras que podem ser vistas no site, mostro-vos o ambiente, mostro-vos o ambiente tal como eu o senti.

Este é o museu onde se podem ver obras de Rembrandt, Frans Hals, Vermeer e outros. É um museu, tal como os demais, que transborda de vida. Dá gosto estar num museu assim, é o culto vivido em comunhão, é como estar numa missa.




Quando estou perto de obras que conheço de ver em livros ou em filmes fico ainda mais emocionada. Posso ver a técnica, posso perceber como resolveram os contornos, os volumes, deter-me com tempo a ver como conseguiram a luz e como sugeriram a sombra, como trataram os panejamentos, como desenharam as rugas nas mãos, a luz no olhar.

Vermeer é um dos mestres da luz: a forma como a luz incide nos rostos, nos objectos, nos brincos.




A leiteira que eu pensava ser um quadro de maiores dimensões, é, afinal, um pequeno quadro. Mas a perfeição, a perfeição, a perfeição sem tamanho.

Como sou um pouco míope (e não uso óculos senão para conduzir ou ver cinema) tenho que me aproximar para ver bem. Mas aproximo-me e fico tão próximo que só me apetece passar a mão e sentir a rugosidade da tinta sobre a tela.




Reparo agora que as mulheres e os homens retratados pelos pintores holandeses já pareciam felizes naquela altura, talvez seja, desde sempre, um povo feliz.




Rembrandt, que já antes eu tinha visto noutros lugares, está aqui, neste museu, em casa, e a sua obra, vista assim em conjunto, permite uma atenção mais detalhada às suas mais marcantes características, permite ver o cuidado virtuoso que tinha com cada pequeno pormenor e como, apesar do perfeccionismo, retratava com mestria a expressão de cada personagem e o ambiente em que se inseriam.




Como há sempre muitos grupos a visitarem estes museus e como estes grupos costumam trazer guias, deixo-me por vezes ficar por perto e vou ouvindo as explicações. Reparem na mão, reparem no rosto daquele que espreita, reparem na forma como a luz incide na prega do tecido. E ali estava um cão que foi depois apagado.




E eu vou ficando em estado de quase êxtase. Pode ser um pequeno quadro, pequeno mesmo, mas quanta vida naquelas cores, tanta vida naquela mão que toca o livro, tanta luz e tanto calor no veludo daquela capa.




A mão que acaricia o seio apertado pelo espartilho, o pudor da jovem alheia à multidão que a olha. Quanto sentimento nas expressões daqueles que um dia, há muitos anos, o pintor retratou.


Depois Vincent.

O museu Van Gogh está em reparação até Abril do ano que vem. As obras foram transpostas para o Hermitage Amsterdam. Este é um edifício maravilhoso de grandes janelas de onde se vê a rua, os canais, os barcos que passam nos canais.




Foi nesse belo museu que vi, pois, as pinturas de Vincent van Gogh.

Infelizmente aqui as fotografias são interditas. Fotografei a entrada e uma ou outra à revelia, tendo até sido admoestada numa das vezes.

Por isso, também aqui recomendo a visita do site.




Gosto muito, muito, de Van Gogh. As cores vibrantes, as texturas, a simplificação de motivos, o inesperado das perspectivas, tudo me encanta.




Neste museu existe uma outra exposição, a dos Impressionistas. O impressionismo é um dos movimentos que mais me agrada na pintura (e, portanto, delicio-me sempre no Musée d'Orsay em Paris).

Aqui é interessante ver a pintura de Gauguin depois de ver a de Van Gogh, sabendo-se que Gauguin chegou a viver em casa de Van Gogh e que tantas divergências artísticas e tantas discussões tiveram. E é interessante ver como pintores contemporâneos interpretaram o que os rodeava de formas tão distintas.




Mas sobre Van Gogh, Gauguin, Monet, Cézanne e outros, para meu desgosto, não poderei aqui mostrar mais pois as poucas fotografias que tenho ou estão tortas ou mal focadas.


A seguir um outro museu, fantástico, uma construção moderna, arrojada: o Stedelijk. Uma vez mais sugiro que visitem o site. O museu é enorme e merecem visitas quer as exposições temporárias quer, obviamente, a colecção permanente.




O movimento neste museu é incrível, é um entra e sai que só visto, as salas cheias de gente, uma animação extraordinária.




Se me sinto quase em êxtase perante a pintura de Rembrandt ou Vermeer, é, contudo, com a pintura moderna que mais me identifico. E este museu é todo ele moderno. Não são apenas as obras expostas: é também a forma como estão expostas, é a forma como as obras se agrupam e como as pessoas se relacionam com as obras. 

Logo à entrada, uma pintura imprevista (e pouco favorecedora...) da Rainha Juliana prepara-nos para o que vai aparecer-nos daí para a frente.




Sendo um museu tão moderno, surpreende ver o elevado número de pessoas de mais idade. Esta é mesmo uma gente moderna.




Aqui as pessoas param, conversam demoradamente, olham, fotografam as obras expostas. Vivem a arte.




Se vos mostro agora todas estas fotografias (uma pequena parte das que fiz) é para que vejam que não exagero quando vos digo que, talvez como em nenhum outro lugar, eu vi tantas pessoas a conviverem tão de perto, com tanta naturalidade, com a arte. Novos, velhos, inválidos (vi várias pessoas em cadeiras de rodas), toda a gente vibra e dá mais vida às obras expostas.




Na fotografia acima não se percebe que aquela mancha de branco à volta da boca não é tinta branca mas, sim, uma luz que contorna os lábios. Mas reparem na quantidade de pessoas - e isto num dia útil.



Os bilhetes dos museus são caros, ou 15 ou 17.5 €. Mas, para o nível de vida holandês, isso não pesa. Contudo, o que se destaca é a informalidade e a habituação de toda esta gente ao convívio com a arte. E o convívio com a arte, já ontem o relembrei, transmite a sensação da paixão. E, portanto, é ver toda esta gente tão apaixonada, tão feliz...!




E há Chagall, o pintor do sonho, da magia, do amor romântico, várias maravilhosas e oníricas obras de Marc Chagall.




E há Picasso e o humor da sua pintura e dos títulos das suas obras, como esta mulher com chapéu em forma de peixe.




E há os retratos que parecem retratar os que passam e os olham.




E há os retratos que parecem olhar com suspeição os que os olham com suspeição.




E há os inesperados hologramas que se movimentam, que dançam numa coluna de vidro, pequenas figuras quase humanas que se transformam em luz e cor, quase tanta luz e cor como a do enorme quadro ali por trás.




E há os belos homens que fotografam as mulheres misteriosas das pinturas enquanto são fotografados por mulheres curiosas que gostam de observar os que observam.




E há as pinturas nas paredes que envolvem de cor e movimento as pessoas que ousam entrar em tão coloridos espaços.

Poderia ainda mostrar-vos as peças de mobiliário moderno, de design arrojado, ou instalações imprevistas, poderia mostrar-vos tantas coisas mais destes museus maravilhosos - mas sei lá se vocês ainda estão aí... às tantas já estão a dormir ou fartos de tanta conversa e tantas fotografias.

Por isso, fico-me por aqui. Se ainda aí estão, só posso desejar que tenham gostado.

Amanhã talvez vos mostre imagens dos canais, lindos, lindos nesta altura do ano.

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E não me alongo mais. Tenham, meus Caros, um belo domingo!