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terça-feira, junho 02, 2020

A tessitura e o açauí







Para não ser preciso ir despejar o lixo ao contentor da estrada, separamos os plásticos para um lado, o vidro para outro, o cartão para outro e, quando saímos para ir ao supermercado ou para ir ver  a família, levamos para a reciclagem, para os contentores grandes que estão perto da estrada nacional. Os restos, os orgânicos, vou despejar lá em baixo, sob a caruma. Os animais comem-nos e, o que sobra, vai sendo revolvido na terra. Acho que fertiliza o solo, que aproxima os animais, e escusamos de andar a pôr restos que se degradam no contentor da estrada.

Mas, então, um destes dias ia eu à noite, às escuras, descalça, pé ante pé, com um pratinho na mão com cascas de batata ou de fruta, quiçá alguns ossinhos, e dou com um pirilampo a voar à minha frente, a alumiar-me o caminho. Nestas alturas, arrepio-me. Não sei se é emoção pura, se é o inesperado do dito hecho estético de que Borges falou:
La música, los estados de felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético." 
Eu ali, a noite com aqueles seus sons que cruzam o silêncio, a lua a crescer no céu, os meus pés nus e cautelosos sobre a caruma e, à minha frente, ziguezagueando, um pirilampo. Emocionada, pensei: olha, o açauí veio ter comigo. E ia andando e dizendo em voz muito baixa, quase sussurrando: 'Açauí, açauí...', como se querendo falar com ele. Açauí, açauí...

E, desde aí, quando escurece, eu olho em volta e penso: 'Será que o meu amigo açauí vem visitar-me?'. E, sem que ninguém me ouça, eu murmuro Açauí.... açauí...

Ao mesmo tempo ocorre-me, de vez em quando: 'quem será que aqui veio dar-me a conhecer este outro nome do pirilampo?'. E ponho-me a pensar se será este, se aquele, se aquela, tentando perceber como será a pessoa que tão generosamente me ofereceu um nome para eu dar à irreal aparição que é um pequeno açauí voando na noite, um pontinho de luz em que dificilmente se acredita.

Hoje cheguei aqui e resolvi rever o comentário para ver se havia alguma pista que me deixasse antever quem seria. Li, reli e não queria acreditar. Afinal não é açauí coisa nenhuma, é arincu. Reli. Arincu? Se o que ali está escrito é arincu, como é que eu registei açauí...?

Fui agora verificar o significado de açauí e, para ainda maior espanto, é palavra inexistente. E, no entanto, o pirilampo lindo que cruza a noite para deixar que eu o acompanhe parece que fica melhor vestido de açauí do que arincu. Não sei se alguém pode registar o nome ou se fica só meu. É um arincu mágico que muda de nome quando chega perto de mim, transforma-se em açauí.

Enfim. Não liguem. Coisas minhas.

É como tessitura. Li e pensei na La Dame à la licorne. Fiquei a pensar no que tinha lido e a pensar que a palavra certa ali era mesmo aquela, palavra que descreve bem tudo o que envolve coisas como  à mon seul désir (que eu, volta e meia, confundo com à mon seul plaisir). Tive vontade de ir buscar A Dama e o Unicórnio para reler alguns poemas, para ver as tapeçarias, para perceber bem as declinações de desejar e ser desejado: a primeira, a segunda e a quinquagésima derivada. 

Tessitura. Ponto a ponto, passo a passo, o fio que se entrelaça, que desliza e prende e volteia e se cruza com outro fio, de uma outra cor, o ponto e outro ponto, a tessitura perfeita, o desenho a anunciar-se, a insinuar-se. 

A Dama seduz
Ou o Unicórnio entrega-se?

No jogo da sedução
Quem usa a taça e a seta?

Eu capricho na conquista
no fogo da sedução

Sou Dama da minha vida
deixo nela a minha pista

Senhora de meu desejo
de meu prazer e paixão

Agora, estando eu nisto, assaltou-me a dúvida: tessitura? ou tecedura? Reli. Tessitura. Fui conferir. Pois, li uma coisa, tresli e pensei noutra. E, no entanto, agora parece-me que são sinónimos. Ou uma outra forma de dizer a mesma coisa. 

Aliteração. Alitero o sentido das palavras, aconchego-as a mim, ao fogo da minha paixão, ao capricho da sedução, teço e entreteço e enlaço e deslizo o laço e em alvoroço escondo a taça e espero que o prazer das palavras de mim não faça sua escrava porque não nasci para serva mas para senhora da minha vontade e, mesmo quando me desnudo, nunca mostro o meu corpo nu mas a minha alma que apenas ilude uma nudez que nunca é real. E agora que o escrevo penso que talvez aliteração também não seja a palavra certa mas isso agora também não interessa para nada até porque é capaz de não haver palavra para isto de nascerem asas no corpo das palavras. Portanto, adiante.





E um dia bom para si que aí está desse lado

segunda-feira, maio 18, 2020

Porque sì dolce è'l tormento, be kind -- até porque dizem que dano e virtude andam a par e passo
Um domingo de Maio in heaven





Difícil falar do que penso e sinto. No fundo, se calhar isto tem a ver com o facto destes dois meses terem sido muito desgastantes. No outro dia uma pessoa dizia-me que o teletrabalho para algumas pessoas é um passeio. Diz ele que há pessoas de quem nada sabe vai para dois meses. Acredito. Há trabalhos que se prestam a que, em casa, haja pouco que fazer. Mas para mim não tem sido fácil. A minha filha dizia-me hoje que eu não devia trabalhar tanto. Mas como? E as pessoas que dependem de mim? Vou deixá-las meio ao abandono? Sou de me envolver, sou de puxar por eles. Não sou de me recolher e deixá-los entregues à sua sorte.

O meu marido, que agora observa de perto, diz que ninguém trabalha assim, que é demais. E eu, que sempre trabalhei assim, agora, vendo com o este excesso invade a minha vida familiar e doméstica (porque trabalho em casa, à vista da familia), também acho, também acho que merecia uma vida mais descansada. Só que não sei onde pôr a fronteira entre trabalhar como gosto (e que é a única maneira que conheço) e o baldar-me, deixar os meus colaboradores decepcionados, ficar aquém das minhas próprias expectativas.

Mas, portanto, ando com isto na cabeça.


O dia esteve mesmo bom, um calorzinho bom, um sol suave, todos bem dispostos. O meu marido pelo campo, entregue àquilo de que gosta, depois a arranjar os caminhos, a fazer uma queima de sobrantes, os meninos a brincarem às mangueiradas, com jogos, a minha filha ao sol, a ler, ou a jogar ténis com os filhos. Pelo meio fiz duas máquinas de roupa, estendemo-la ao sol, fiz limpezas. Para o almoço fiz frango no forno e ela fez esparguete para acompanhar. Para a sobremesa tentou replicar aquela gelatina com frutas do self do CAM que todos adoramos. Também ficou boa mas menos compacta e as natas não ficaram bem em chantilly porque não tenho batedeira, só tenho varinha. Mas ficou saborosa na mesma. Para o jantar fiz sopa de tomate com corvina e ovo escalfado, que eles comeram com pão torrado no fundo do prato (eu não, tenho que dosear, caraças, senão ainda acabo a quarentena com meia dúzia de quilos a mais). Os meninos comem como uns lobos. Pasmo. Fazem-me lembrar o meu filho na idade deles, também comia quantidades desconcertantes. Só que, como ela nunca foi de comer muito, a coisa, no conjunto, não era excessiva. Agora estes dois lobinhos comem que é uma coisa do além. Dá gosto. Eu, que gosto de cozinhar e ver que à minha mesa toda a gente se alimenta bem, fico consolada. O meu marido, volta e meia, desabafa: 'Eh pah, já estão a comer outra vez... Eh pah, assim não dá, daqui a nada já não há, outra vez, fruta...'. Quem diz fruta diz pão, que são coisas que voam. Mas, por hoje, ainda ali há um tabuleiro cheio de maçãs, peras, um prato de bananas, um saco de laranjas. Temos nêsperas nas árvores mas ou estão lá em cima demais, outras caem, outras os pássaros comem-nas. Por isso, não rendem nada.


Hoje perguntei ao meu marido: 'Vês-te a regressar ao trabalho em Lisboa?'.  Respondeu-me apenas: 'Vejo'. Espantei-me: 'A sério?'. Limitou-se a dizer: 'Tenho que voltar'. Mas já estava noutra, dali não dá para arrancar muito. 

De televisão, de novo, pouco ou nada vi. O Marcelo a festejar, de máscara, creio que a beber uma imperial e a fazer selfies. Não sei onde mas andava muita gente de roda dele. Quando uma pessoa vive no campo, ocupada de manhã à noite, é quase como se estivesse noutro lugar, noutro tempo, fora da realidade que tanto dá que escrever e falar a comentadores, jornalistas e afins.

Ah, ainda outra coisa. De manhã, alarido lá fora. Fui ver. Tinham encontrado a pele de uma cobra. Prateada, quase transparente, bonita. 


Fui ver, fotografei. Regressei à lida. Passado um bocado, um alarido ainda maior. Tinham visto a cobra. Dizem que era grande, gorda. A minha filha também a viu, diz que teria um metro ou metro e meio. Fui ver mas já não a vi. O meu marido só dizia que não queria ninguém descalço ali onde a cobra andava. Passa-se com a falta de cuidado de toda a gente. 

O mais novo veio a correr a casa e passado um bocado andava a dizer que era uma cobra rateira. Perguntei como sabia. Disse-me que tinha pesquisado. Depois foi o mais crescido que me apareceu a pedir o tubo de aspirador para a apanhar, que tinha pesquisado e que era a maneira de a caçar. Depois engendrou uma armadilhae passou à prática: um tubo com uma ponta no lugar por onde a cobra se tinha esgueirado e a outra ponta dentro de um jerricã. Mas não foi bem sucedido. Quando estava a falar com a minha mãe fui várias vezes interrompida, queriam isto, aquilo e o outro. Contei à minha mãe. Ficou assustadiça. Tem medo de cobras. Descansei-a, que a cobra é pacífica (sei lá se é...), que já fugiu para longe (sei lá se fugiu...). 

É a vida do campo, sempre uma animação.


À noite, estávamos aqui na sala, a minha filha de costas para a porta, vimos o gato a passar encostado, a espreitar. O meu marido disse: 'Olha o gato'. A minha filha deu um salto, assustada. Como à noite costumamos ter as portadas de fora fechadas e, portanto, não se vê para a rua, ela pensou que o gato estivesse dentro de casa. Mas não, tínhamo-nos era esquecido de fechar as portadas de fora. O meu marido, que passa a vida a avisar para não deixarmos as portas todas abertas deve ter pensado que qualquer dia, quando dermos por ela, temos mesmo o gato cá dentro. 

E é isto. Vou parar de escrever pois, por muito que escreva, pouco mais digo do que isto. 


Só que dei a ler à minha filha o Dano e Virtude da Ivone Mendes da Silva. Devorou-o. Gostou muito. Eu também. A autora é a autora e a personagem e o argumento e o fio que percorre o argumento e as palavras que dão corpo ao fio que vai tecendo, parágrafo a parágrafo, os dias que parecem iguais mas que são todos diferentes.

E eu, ao escrever o que estou a escrever, penso: e se eu agora abrisse as portadas de vidro e também as de fora e, de repente, vindo do nada, devagar, na ousadia, na malícia, assomasse aqui à porta o leopardo azul que todos os dias me deixa pétalas azuis voando no espaço, pétalas cujo perfume só eu reconheço? Que faria eu? Se calhar apagava a luz e ia para a entrada da casa, sentava-me no chão, deixava que ele viesse cheirar-me, dir-lhe-ia, em silêncio, palavras inventadas, sorrisos feitos só de olhar, um olhar feito de luz e de lágrimas. Talvez ele se sentasse também, talvez se deitasse olhando o céu e, de vez em quando, olhando os meus olhos como só ele sabe olhar.

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Como é bom de ver, as fotografias foram feitas in heaven
Lea Desandre & Thibault Cauvin interpretam Sì dolce è'l tormento de Monteverdi
E, como não há duas sem três, despeço-me com Be Kind de Charles Bukowski
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Uma boa semana!

terça-feira, novembro 12, 2019

Sopa da pedra com um crime napoleónico e um cisne à procura de uma Leda à mistura





Recomeça a semana e só de pensar no programinha de festas que aí vem já me apetece evadir-me para outros territórios, quiçá para o meio da serra, entre arvoredo e sons da terra e dos ventos, quiçá hibernar num mosteiro nas terras frias, entre granitos, uivos de lobos, voos de águias, cheiro de flor de laranjeiras num pátio onde há, a meio, uma fonte de pedra. 

A manhã foi muito ocupada e a tarde de hoje não foi das piores mas, mais adiante, uns gabinetes a seguir ao meu, a coisa esteve preta. Gritaria, discussões acesas. Fiz de conta que não estava a dar por nada e deixei-me estar na minha, resolvi o que tinha resolver, reuni-me com quem tive que me reunir. E fizemos todos de conta que o elefante não estava ali ao lado. 
Não sei porquê, nos últimos tempos parece que não há conversa em que alguém não fale num elefante no meio da sala. As salas de Lisboa a abarrotarem de tanto elefante, nunca se viu coisa assim. Portanto, por contágio, também digo. Já disse, aliás. 

A meio da tarde, um dos envolvidos na refrega veio, num ápice, ao meu gabinete, fechou a porta, meio a correr e meio em voz baixa relatou o forrobodó. Depois saíu, agitado, avisando que a coisa ia continuar. E continuou. Quando saí, desci ao mesmo tempo que um colega que também fez de conta que não tinha ouvido a berraria que se ouviu toda a santa tarde. Falámos normalmente, ele contou peripécias divertidas e rimos. Temos todos esta camada de indiferença em cima de nós que nos impede de nos importarmos com maçadas alheias. 

Quando entrei no carro, era de noite e estava muito frio e uma grande ventania. Ao abrir o porta-bagagens voou de lá um saco de papel que não faço ideia o que lá estava a fazer. E o meu cabelo andou pelos ares, levitando em todos os sentidos. Já no carro, reparei que as árvores tinham a ramagem na mesma, tal qual o meu cabelo mas em verde. E eu pensei que um dia havia de experimentar uma cabeleira a fingir de ramagem de árvore. Tentei perceber que árvores eram aquelas: creio que jacarandás mas ainda longe de estarem floridos. E pensei que uma cabeleira de jacarandá em flor também haveria de ser bonito.


Estreei um casaco lindo, lindo, feito pela minha mãe. Estava a guardá-lo para o estrear numa cena que aí vem mas hoje não resisti. É uma obra de arte. Cor, cor, cor, um gosto. Contei à minha mãe que o casaco estava a ser um sucesso e ela ficou toda contente. Disse-me que nunca tinha feito nada tão difícil, e não pelo ponto em si mas pela montagem das peças. Eu disse-lhe que era uma obra de geometria e ela concordou. E, então, pensei que assim vestida, com aquele casaquinho lindo, ficaria muito à maneira com uma cabeleira feita de jacarandás floridos.

E vinha a conduzir, a atravessar Lisboa à noite, a ver as árvores a esvoaçarem a sua densa cabeleira, a ouvir uma música boa, nestes pensamentos, quando me ocorreu que só me faltava ter ali ao lado alguém que me fosse a ler um livro. Ou, ao contrário, ir alguém ao volante e eu a ler. Um serviço de taxi mas em que o condutor fosse apreciador de leituras e fizesse o serviço a troco de que alguém, a seu lado, fosse a ler. Parece-me uma boa ideia. Car sharing para gente de boas leituras. 
Já contei algumas vezes, acho eu: quando faço viagens maiores com o meu marido, gosto de levar um livro e ir a ler em voz alta. E ele também gosta de ir a ouvir. Acho um momento bonito de cumplicidade. E não sei se diga cumplicidade ou intimidade.

Mas, nisto do car sharing, o difícil seria convergir no livro a ler. Tenho aqui ao meu lado 'A arte da brevidade', contos de Virginia Woolf. Deve ser bom de ler, de ouvir ler. 
Também não sei se já contei que fico sempre um bocado embaraçada, para não dizer desconfortável, quando alguém, achando que eu sou dada a livros ou cinema, vem, todo contente, perguntar-me se já li dado livro ou se já vi dado filme. Geralmente é sempre tudo na base do mainstream. Daqueles que toda a gente lê ou vê. E eu não. E fico sempre com a sensação que a pessoa fica na dúvida se serei mesmo dada a livros ou a filmes porque nunca li ou vi nada do que me perguntam. E, como digo que não, a pessoa começa a gabar o produto, e o elogio é rasgado, coisa do melhor. E dizem: tem que ler. Ou tem que ver. Vai ver que vai gostar. E eu sinto que fico especada, sem saber como reagir, apenas desejando que a pessoa pare com aquilo. E já tantas vezes isto me aconteceu e ainda não aprendi. Não sei como reagir: ser franca? Não pode ser, poderia parecer que estava a menorizar o gosto da pessoa. Ainda passaria por arrogante. Armar-me em fingida e dizer que sim, que vou seguir o conselho? Não sou capaz. Nestas ocasiões sinto sempre que tenho algumas limitações sociais. 
E isto vinha a propósito de quê? Nem sei.


Ah. Outra coisa.

Lembrei-me agora de uma notícia que li, uma coisa sinistra, sinistra. Mas tudo ali puxa para a comédia. Um filme sinistro mas de gargalhada. Oleg Sokolov, um russo, condecorado, figura ilustre da intelectualidade, investigador e historiador. Gostava de se vestir de Napoleão, o seu ídolo, o seu objecto de grande estudo. Sessenta e tal anos. Apaixonou-se por Anastasia, uma aluna de vinte e poucos, uma jovem linda, que até alinhou na fantasia e vestiu-se à maneira para acompanhar o Napoleão. Viviam juntos. Até que um dia, a semana passada, discutem. E a discussão acaba mal. Dá-lhe tiros. Mata-a. No dia seguinte, há uma festa em sua casa. Mostra-se na maior, entretém os convidados, a rapariga morta na sala ao lado. Não contente com isso, sem saber o que fazer, perturbado, no dia seguinte corta-a aos bocados. E aqui entra o meu espírito de curiosa encartada: como é que um tipo normal consegue cortar uma pessoa aos bocados? Falo por mim: para cortar um frango aos bocados, em especial se for dos grandes, do campo, tenho que fazer uma força.... Faria se fosse uma pessoa (ai, credo!, só de pensar...). Bem, muniu-se de uma serra que, mais tarde, foi encontrada cheia de sangue, em casa, ao pé da cabeça da Anastasia que, vá lá saber-se porquê, também foi separada do corpo. Um pesadelo. Mas, então, não contente com  a habilidade, meteu os braços da rapariga numa mochila, juntamente com a arma, e resolveu ir atirá-los a um rio gelado. Só que, como estava podre de bêbado, ao dar balanço para atirar a mochila, desequilibrou-se e caíu ele à água. Nisto, uma pessoa que passava viu a cena e pediu ajuda. Quando estavam a salvá-lo, descobriram uns braços dentro da mochila. Imagino o susto que apanharam. A sumidade, em estado de total perturbação, contou que tencionava a seguir ir suicidar-se em grande estilo, vestido de Napoleão. Uma maluqueira pegada. Pena é a jovem -- ainda por cima, transformou a paródia em tragédia.


Bem.

Estava agora aqui com uma ideia em mente mas este post está tão sopa de pedra que acho que não comporta bife do lombo, que a ideia tem a ver com um livro que aqui tenho sobre Al Berto. Mas nem pensar. Há que respeitar. E é que nem vinha a propósito.

[Nem vou reler nem tentar captar a essência do que estou para aqui a escrever. Sei que não faz sentido mas, se o comprovo, não posso fazer de conta que não percebo que deveria era apagar tudo e recomeçar. Mas recomeçar com cabeça, tronco e membros (ai, bolas, que agora até parece trocadilho com o triste fim da namorada do Napoleão)]

Portanto, adiante.

Que venham os cisnes e que, por via das dúvidas, as Ledas deste mundo cubram as suas partes mais íntimas. Não é por nada mas é que consta que.


E se há por aí algum empedernido que acha que os cisnes não têm feelings pois que ponha os olhos neste aqui em baixo, uma tendresse viral.

A insólita relação entre um cisne nada franquista e o seu cuidador no El Escorial


Bom, não sei se a poesia ou a mitologia têm cabidela neste contexto mas, qual pedra para rematar a sopa, desculpem que aqui traga Leda e o Cisne, uma cena que já por mais de uma vez me inspirou (por exemplo, aqui).

Este é que o Tom O'Bedlam, um dia que me dê boleia numa noite de Lisboa, os jacarandás em plena revoada, havia de me ler baixinho com esta sua voz grossa e rouca, quase ao ouvido (para me fazer arrepiar).


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As fotografias que usei neste post são de alguém de quem as más línguas poderiam dizer que não bate bem da bola. Mas eu não acho. Chama-se David LaChapelle. O Sì dolce è'l tormento de Monteverdi é muito bem capaz de estar aqui a destoar mas o que é que eu hei-de fazer?

Mil desculpas mas hoje não consigo responder aos comentários: é tarde e tenho que madrugar. Aliás, já devia era estar quase a levantar-me. Li todos, gostei de ler, agradeço. Mas já sabem que não consigo responder a despachar e agora não tenho mesmo tempo para delongas.

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E uma boa terça-feira. E tenham juizinho, ok?
Ponham os olhos aqui na je.

sábado, outubro 19, 2019

Não fui capaz de comer o amor-perfeito




À minha frente estava um inglês. Por detrás dele estava a melhor vista de Lisboa quando avistada de dentro de Lisboa. Lisboa e rio e o lado de lá. Um daqueles cenários tão maravilhosos que uma pessoa poderia ficar um dia inteiro a olhá-lo. Talvez a ouvir música, música muito a meu gosto. Ou alguém a tocar piano num canto, sem que eu visse onde. 

À entrada, reparei numas jarras grandes, de vidro, quadrangulares, com pedras brancas no fundo, e água e flores amarelas muito bonitas. Flores tão lindas. Pensei: não podem ser verdadeiras. Não há flores amarelas tão exóticas, tão grandes, tão exuberantes. Então, discretamente, enquanto os outros falavam da vista e diziam olha ali o castelo, olha ali a basílica, olha ali o passeio junto ao rio, eu passei a mão nas pétalas. E eram verdadeiras. Tive vontade de tirar uma flor, de ficar com ela, trazer para casa, pousar na mesa. Mas o momento não era para frescuras. Disfarcei, escondi a alegria de ter descoberto que a natureza é capaz de coisas tão raras e que a beleza é infinita e inesperada.

Como não podia deixar de ser, falámos do Brexit. Ele ainda não quer acreditar que isso vai acontecer. Contou uma coisa que se passou num lugar, uma experiência social, em que as pessoas votaram numa coisa contrária aos seus interesses e, na verdade, sem saberem em que é que estavam a votar e tudo porque alguém os manipulou, acicatando as pessoas contra uma coisa de que não gostavam e embrulhando a outra coisa nessa tal que foi usada como engodo. Eu disse que por vezes tudo parece uma anedota: as decisões estúpidas que as pessoas tomam, a gente estúpida que as pessoas elegem, o rumo estúpido que as coisas levam. E ele disse que até tem vergonha. E eu compreendi e não disse mais nada pois não quis envergonhar um inglês com um accent tão british, todo ele tão gentleman.

Do que comi nem vou aqui falar pois foi bom de mais. Mas posso dizer que, para sobremesa, a tarte não era só boa, era também linda. Tinha em cima não apenas umas bagas pequeninas, lindas como enfeite de natal, como um amor-perfeito pequenino. E o amor-perfeito era amarelo fulgurante e roxo de veludo. E era tão lindo que não consegui comer. Cometo heresias a toda a hora mas comer uma flor tão linda é heresia para lá de violenta, do lado de lá da linha vermelha que não ouso transpor. Disseram, coma, é bom. Mas nem pensar. Disse que não com a cabeça e olhei para a cidade grande, vasta, estendendo-se ao longo do rio. No pratinho ficou um risquinho sólido de chocolate, e ficou porque estava pregado ao prato, e a florzinha que se salvou por ser tão linda.

Depois das despedidas fui para o parque subterrâneo. E aqui acaba a poesia e começa a comédia. Mas como tudo tem vários lados, para mim foi comédia mas para a outra pessoa envolvida foi um sufoco, um drama.

Mas já lá vou.

Agora antes.

Horas antes, quando entrei, depois de passar a cancela e percebendo que o piso estava cheio, dirigi-me para a descida para o piso inferior. A faixa livre tinha sinal de proibido e na outra faixa vinha uma lady a subir dentro do seu formoso bólide. Pensei: tinha que ser, enganei-me, enfiei-me no lugar onde só se sobe. Então comecei a fazer marcha atrás mas, como todos os parque novos nesta cidade, é tudo feito para carrinhos pequenos ou para ilusionistas capazes de encolher os carros. Então, pensei: estou frita. E como estava apenas a pensar não foi frita que pensei. Mas pensei: tenho que conseguir. E lá comecei a tentar fazer uma manobra impossível até porque já tinha outro carro atrás. Nisto ouvi alguém a bater no vidro. Era um senhor com ar aflito. Abri a janela. E ele: onde é que vai? não consegue fazer marcha atrás. E eu: mas como é que vou para o -2? Aqui é proibido. E ele: Mas a senhora vai bem, aquela que vem a subir é que vem na faixa errada, enfiou-se em sentido proibido. Então foi quase a correr ter com ela. E ela muito admirada, como se estivesse tudo maluco, lá fez uma manobra também arriscada, saltando para a faixa do lado e eu lá consegui descer pela faixa já desobstruída.

Pois bem. Agora, então, à tarde.

Quando vinha a conduzir no parque para sair, apareceu à minha frente, vindo do -3, um mercedes antigo. Só que, em vez de virar logo, avançou até a um ponto em que ficou sem espaço para curvar, entalado entre dois pilares. Fazia marcha atrás e roçava atrás, chegava à frente e batia à frente. Não tinha espaço e notoriamente estava enervado. Saí do carro para perceber se havia margem. Não. Só batendo ainda mais. Ao princípio tinha pensado: Que aflição. Podia ser eu. Deve ser uma mulher. Mas não, era um homem. Ao seu lado, um rapaz. O rapaz também saíu. O homem pediu para ele tentar. O rapaz não queria. Disse: o carro é teu, não quero dar ainda mais cabo dele. Atrás do meu carro, parou outro carro e saíu de lá uma mulher. Perguntou-me: Mas o que é que se passa? Eu disse: Encravou o carro. Agora está ali entalado. Ela deu uma gargalhada: É uma mulher, certo? E eu: Pois, também pensei. Mas não, é um homem. E ela riu ainda mais: Mas não sabe conduzir, não? Como é que ele fez aquela merda? E foi, resoluta, ver se dava algum palpite. Mas voltou para trás e disse: Não tem solução, o carro é grande demais, só se lhe perder o amor. Entretanto, o rapaz passou para o lado do condutor. O condutor estava num estado de nervos de dar dó. Ajudou o rapaz. Mandou-o recuar contra um pilar. O som da lata a bater. O rapaz ganhou uns centímetros para curvar. Depois mandou-o curvar na direcção do outro e ouviu-se o carro a raspar violentamente no pilar. Ao fim de um bocado, lá conseguiu. Trocaram de lugares e seguiram e eu segui atrás deles e a outra mulher atrás de mim. Com isto atrasei-me. Mas não me importei. Soube-me bem estar ali sem fazer nada, aqueles minutos num parque subterrâneo, apenas à espera. Ao princípio pensei que provavelmente só com um guindaste para o içar e que isso poderia durar horas. E não me importei.


Também posso recuar outra vez a umas horas antes, a quando estacionei e, como era cedo, resolvi ir andar a pé. De dia, num dia útil, não costumo andar por ali a pé. E fiquei muito admirada. Street style. Fashion da boa. Tanta gente tão moderna, tão bem vestida, tão inusual. Parecia que estava na proximidade da Vogue, da Vanity Fair, nos boulevards elegantes de Paris. Há tantos mundos dentro do nosso mundo e o que conhecemos é nada. Quando cheguei ao meu destino, cruzei-me com uma cena de filme e era tudo filme, o cenário, grandes espelhos, grandes candeeeiros, um luxo, até as pessoas eram de filme. Pensei que a pessoa que não pertencia ali era aquela mulher que eu via no espelho e que me levava a mim escondida dentro dela, uma que gosta de andar pelo meio do mato, a pisar caruma, a andar por entre os pinheiros perfumados a apanhar pinhas para a lareira, a fotografar as folhas douradas com que o outono embeleza os meus dias in heaven.


Ou seja: não consigo resumir o meu dia e, de boa acção, acho que a única digna de registo foi não ter canibalizado o inocente amor-perfeito.

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Obtive a fotografia de Lisboa em 20 locais de interesse numa visita a Lisboa

As duas últimas foram feitas in heaven.

Espero que tenham vindo pela mão de Monteverdi. Pur ti miro, Pur ti godo

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A todos desejo um sábado à maneira

quinta-feira, março 14, 2019

Shen Yun





Já o disse muitas vezes
mas andar a escrever coisas há alguns anos tem que dar nisso: uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se repetitiva: 
fui boa aluna mas não boa estudante. Nunca fiz uma directa, nunca estudei muito, nunca fui muito de apontamentos, de fazer cábulas, de me empenhar para garantir que obtinha o máximo. Nunca. Estudava apenas o qb e, se era boa aluna, era apenas porque tinha facilidade, não porque me esforçasse. Por isso, nunca queria receber elogios ou parabéns, achava que se tinha boas notas era mero acidente, não propriamente mérito resultante de hard work.

Ainda hoje sou assim: vou para as reunião sem cadernos, notas, tablets. Só quanto vejo toda a gente aparelhada é que me ocorre que estou de mãos a abanar e que tomara que não me veja numa situação em que precise de algum suporte. Felizmente nunca preciso mas, uma vez mais, não me parece que seja mérito, parece-me que é mais por levar as coisas na levezinha. 


E não estou a dizer isto para me gabar. Digo-o apenas porque reconheço em mim um grande gosto por conhecer muita coisa e isso resulta numa incapacidade em dedicar-me esforçadamente a alguma coisa em especial. 

Dito assim pode parecer que estou a fazer género até porque, quem venha a minha casa e veja várias carpetes de arraiolos ou quem conheça este blog e verifique que já publiquei mais de cinco mil posts, pode pensar que não é bem assim. Mas é. O que faço, faço por prazer, sem me esforçar. Tudo o que me violente ou obrigue a sacrifícios é banido. 

E, no entanto, como admiro as pessoas que se aplicam para se superarem... Por vezes cruzo-me com pessoas que, equipadas a preceito, fazem corridas e percebe-se que já fizeram quilómetros. Enquanto eu caminho, na boa, sem medir passos, tempos ou pulsações, incapaz de me traçar objectivos exigentes, é com admiração que vejo como há pessoas que, ali vão, monitorizadas, passada larga, velocidade considerável, transpiração.


Ou esses ou os que, quando fazem anos, fazem bolos elaboradíssimos para levar para o lanche dos colegas. Admiro mesmo essas pessoas. Acontece-me não conseguir conter-me e, para além de elogiar por estar tão saboroso, dizer: 'Deve ter dado um trabalhão, não...?' e a aniversariante, toda contente, desatar a contar-me, com pormenor, a receita. E conta como pôs de molho as amêndoas, como lhes tirou a pele, como torrou, como as picou, como fez bolo e o cortou às fatias, e fez um creme e uma calda e mais não sei o quê. E eu ouço, espantada, por ver a generosidade da pessoa que deu horas da sua vida para fazer um bolo com que os colegas galifões vão acabar em três tempos. Eu, para começar, nem me ocorre levar bolos quando faço anos. De preferência, nesse dia, ponho-me a milhas. E, para os que vêm cá a casa festejar, o bolo é de compra. Fazer a comida propriamente dita faço porque gosto de fazer. Bolos, que têm que ser by the book e dão muito trabalho, está bem, está.


Ou os pianistas. Horas e horas de trabalho. Acho extraordinária a dedicação, o gosto pela perfeição. Inúmeras vezes a tentarem que o acorde saia perfeito, a tentar que a música flua como se um rio navegando. Os dedos já autónomos a voarem sobre o teclado. Horas de prática diária.
E, escrevendo à medida que as ideias me chegam aos dedos, estou a misturar alhos com bugalhos -- arte e trabalho, esforço com cortesia -- mas não faz mal. Não pretendo que a taxonomia se aplique aqui que nem luva. Prefiro não distinguir géneros. Esforço é esforço, abnegação é abnegação. E ainda bem que, em todas as áreas, há gente trabalhadora, esforçada, gente que persegue a perfeição. Se ontem falei dos caçadores de mel, hoje poderia estar aqui a falar dos caçadores da perfeição. Não especialmente de bolos artísticos, não dos corredores de maratona. Nem de borboletas, muito menos de lolitas: apenas da perfeição. 

E isto para dizer que olho os fantásticos bailarinos de Shen Yun e fico espantada. Quantas horas de treinos,  quantas horas longe dos amigos, quantas quedas, quantas dores?
A mind of steel, a body that’s pushed to its limits, a heart of humility, and much more. Learn about the rigorous physical, mental, and spiritual requirements for studying at the highest levels of classical Chinese dance and being a Shen Yun dancer. This video is written and narrated by Shen Yun performers and illustrated through real practice footage.

What Does It Take To Be a Shen Yun Dancer?




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Bolas. Se soubessem o que me aconteceu... Credo. Bolas.

Conto-vos. Isto começou por me dizer que estava com falta de espaço em disco. Depois propôs-me apagar alguns ficheiros. Respondi que sim e ele começou a arrumar-me a casa e a perguntar se podia apagar isto ou aquilo. Desinteressadamente fui dizendo que sim. Depois apareceu a dizer que tinha actualizações. Agendei para uma hora depois. E pus-me a escrever. Quando estava mesmo a acabar e já não me lembrava de tal coisa, desligou-se-me isto e desatou a instalar cenas. Só que a demorar, a demorar, dizendo-me que não desligasse. Adormeci. Quando acordei, estava isto ainda a configurar. Pensei: isto está empancado, é para esquecer, na volta deixei que apagasse alguma coisa vital e agora não sai daqui. E pensei: o fim de semana todo sem poder fazer nada no blog. Ou seja, acordei de tal forma aluada que pensei que fosse sábado. Olhei para a televisão, sem perceber bem. Só depois percebi que qual sábado... era bom, era. Tentei desligar o computador à força. Quando veio a ele, continuava na mesma. Desisti. Pensei: vou dormir. E nisto, quando estava a prepara-me para me levantar, milagrosamente restabeleceu-se e, aos poucos, começou a aparecer no ponto em que estava antes desta faena. E agora, aqui estou, a acabar o post. Tinha estes bailarinos fantásticos para vos mostrar mas, a seguir, tinha outra coisa. Só que depois disto é para esquecer. As máquinas têm vontade própria e isso, volta e meia, é uma maçada. Podia até, agora, depois disto, pôr-me a dissertar sobre machine learning ou artificial intelligence mas isso era se fosse a outras horas. Ou se este blog não fosse coisa de quem é mais bolos.


Os bolos são de Elena Gnut e deve ser uma pena comê-los. Por isso, sugiro que os olhemos apenas. E podemos acompanhar com L'incoronazione di Poppea "Pur ti miro, Pur ti godo" de Monteverdi com Jaroussky e Danielle De Niese

segunda-feira, julho 30, 2018

Coisas complicadas como a vida da gente.
Coisas simples como limpar a casa em poucos minutos.




Eu gostava de ser capaz de escrever aforismos que me ensinassem as coisas importantes da vida. Em vez disso, escrevo lençóis que não me ensinam nada.

Devia saber destilar as frases, encontrar a essência das palavras. Mas não sei. Em vez disso entreteço longas meadas de coisa nenhuma.


Também gostava de perceber o que os outros tramam sobre a minha vida mas, em vez disso, não presto atenção e estou sempre a ser surpreendida. Eu a pensar que nada e depois chego à conclusão que pensaram e repensaram e chegaram à conclusão que tinha que ser eu. E eu sempre tramada. 


E gostava de saber cavalgar as ondas, esforçando-me menos e aparentando mais. Em vez disso, luto contra a onda, atravesso a onda, enrolo-me na onda. E vejo os outros, frescs, sem mexerem uma palha, a aparecerem todos ladinos, a cavalo nelas. Espertalhões. E eu, burra, toda esfalfada, toda ensopada. Meto água.


Vivo rodeada de gente pouco inteligente que gere a sua vida de forma mais inteligente que eu. E ainda não descobri como se resolve essa curiosa equação. 


Penso às vezes: chegará o dia em que este mundo deixará de ser o meu. Terei que hibernar, deixar-me estar entre livros, entre árvores, entre bichos. No outro dia, um dos meninos disse que queria ser futebolista e ganhar muito dinheiro. A mãe disse que poderia não conseguir ser muito bom e que, assim, não ganharia muito. Ele pensou e disse: Imagina que eu ia para o Arsenal... O irmão, que ouvia a conversa, disse: Podia ser Youtuber. E eu não fui capaz de dizer nada. Não percebi aquela observação do Arsenal e quase me arrepiei com a sugestão do irmão. Coisas estranhas as que se passam à minha volta. Sinal de que os tempos são outros e que talvez eu não esteja a ser capaz de os acompanhar.


Chego a esta hora e não consigo tentar que a conversa pareça ter algum sentido. Sai como sai.

Acabei de ver a repetição do Marques Mendes na televisão. Não consegui prestar atenção. Nada do que ele diz me parece relevante. Fala de gente irrelevante e relata factos irrelevantes. A televisão está cheia de gente irrelevante. Espreito as notícias e é o mesmo. A comunicação social desligou-se do mundo real.


Mas se calhar o meu mundo é que já não é real. No outro dia, uma pessoa que conheço, já de uma certa idade, contou-me que nesse dia, à tarde, ia a um sítio. Que tinha visto no facebook e que, no dia seguinte, para surpresa dele, lhe tinham ligado a convidá-lo. Que ele não sabia o que era mas que ia ver. E estava todo animado. E eu, por dentro, só pensava: Olha que burro. Mas não disse nada porque pensei que se calhar a burra sou eu.


Mas tudo isto são coisas complicadas. Dilemas metafisicos, filosofias de pé descalço, areia a mais. E, na verdade, não chego lá. Só me apetece pensar em coisas simples. Mezinhas caseiras, truques simples e úteis, conversinhas brejeiras ou infantis. Talvez para trazerem alguma coisa fácil para a minha vida que anda tão cheia de reviravoltas e complexidades. Penso: vou transformá-las em coisas boas. Mas não sei como.

Então, entretenho-me a ver vídeos como o do post abaixo (regras de vestuário para homens e mulheres) e como este, já aqui, e aprendo imensas coisas úteis.

20 maneiras de limpar a casa em poucos minutos



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Os animais vieram até mim pela mão de Yago Partal e ao som do Lamento di Ninfa, coisa de Monteverdi [que, quando perceber onde veio parar, deve espernear a valer (lá onde estiver)]

quarta-feira, junho 13, 2018

Introspecções e outras visões





Mais um dia longe do mundo. Assim vão estes meus dias. Quando ia a sair, disse 'até amanhã' e umas que ainda lá ficaram olharam para mim a rir. Não percebi aquele sorriso. 'O que foi?' Entre sorrisos, elas explicaram, : 'Presume-se que amanhã não venha, não...? Amanhã é feriado'. Recentrei-me e sorri também, 'Ah, pois é... ' Tinha-me esquecido. Bolas, a desejar tanto ter tempo livre e, afinal, tinha-me esquecido. E, no entanto, Lisboa cheira a festas por todo o lado. Barraquinhas, esplanadas nos passeios, festões e balões, cheiro a sardinhas, turistas, turistas, turistas. E, apesar de tudo isso, tinha-me esquecido. Senti-me a mais palerma das palermas. E pensei: como será que me vêem? Despassarada? Aluada?


No outro dia aconselharam-me: devia prestar mais atenção à forma como as pessoas a vêem. Não quer dizer que a visão dos outros seja mais correcta do que a sua própria mas, se prestar atenção, terá uma outra visão e isso é sempre enriquecedor. Contestei: presto atenção. Sei ver quando alguém não está bem, interesso-me, as pessoas procuram-me para desabafar ou para se aconselhar. Disseram-me: quem a conhece melhor, sabe que é diferente da imagem que passa nas primeiras impressões mas não é isso, é prestar atenção à forma como as pessoas a olham. Não argumentei. Se é isso, então, é isso. Depois continuaram: não planifica a sua vida, parece não ter ambição. Confirmei. Mas foram mais longe: não é normal, na sua posição, ter tal desinteresse pela sua 'carreira'. Encolhi os ombros e disse: não vou mudar, isso é muito intrínseco em mim. Mostraram-me um gráfico. A seta estava no encarnado, perto do zero numa escala que ia até ao cem. Perguntaram: porquê? Pensei um pouco porque estava a pensar nisso pela primeira vez. Expliquei que a minha vida tem muitas parcelas e não quero que nenhuma delas devore as outras. Se me focasse demais numa das vertentes da minha vida, no trabalho, por exemplo, faltava espaço para as outras. E se me concentrasse muito em atingir um determinado objectivo, deixaria de estar alerta a factores inesperados que talvez seja melhores do que aquele que eu desejava atingir. Disseram: as suas opiniões são sustentadas, alicerçam a sua maneira de ser. Na sua óptica tem razão e, se calhar, faz sentido mas estas análises são feitas contrastando a maneira de ser de uma pessoa com a média de muitas outras pessoas que desempenham funções idênticas. Encolhi os ombros. Pensei: o que é que eu tenho a ver com isso? Como se adivinhando, disseram-me: não quer saber de nada disto, pois não? Confirmei: não quero. Concluíram: é uma pessoa desalinhada. Também me disseram que sou fora da caixa. E outras coisas. Quando cheguei a casa contei e mostrei o relatório. O meu marido riu-se e disse: 'E achas bem seres assim maluca?'. Respondi-lhe: 'Não sei se sou ou se deixo de ser, nem acho bem nem deixo de achar'. Ele rematou: 'É o que eu digo e agora está confirmado: és maluca'. Hoje, ao jantar, a propósito não sei do quê, gozou comigo, e, quando eu não percebi, explicou e, depois, concluiu que eu devia prestar atenção aos conselhos que recebo. E perguntou-me: 'Não reconheces que só um santo podia viver com uma pessoa tão atípica como tu?' Eu disse que ele deveria estar agradecido por lhe ter saído o brinde e não a fava. E ele riu-se e desvalorizou: qual brinde qual carapuça.


Hoje, à tarde, uma pessoa perguntou-me como tinha sido, o que me tinham dito. Omiti as coisas positivas e disse: que devo prestar atenção à forma como os outros me vêem. Ele sorriu. Continuei: que muitas vezes a imagem que passo é a de que me estou nas tintas para o que os outros pensam de mim. Ele riu. Perguntei: 'É?'. E ele, rindo: 'É'.


Lembro-me da minha mãe: 'Não chegues tarde, não faças isto, não faças aquilo, vê lá o que vão dizer de ti ou o que vão as tuas tias dizer ou as vizinhas reparam e comentam'. Ficava aborrecida com a maneira de ser da minha mãe por se preocupar com a opinião dos outros. Nunca liguei a tal coisa e achava que a minha mãe se menorizava por se condicionar para não despertar opiniões menos abonatórias. Dizia-lhe: 'Sou como sou, faço o que quero e estou-me nas tintas para as opiniões dos outros'. Era a grande, e creio que única, razão das minhas divergências com a minha mãe. Ainda hoje, se sabe que vou estar com alguém da família, olha para mim, examina-me, diz que me penteie, pergunta se não podia ter vestido nada melhor. Já não respondo. Mas, apesar de tudo, está bem melhor agora do que quando era mais nova.

Só agora aos oitenta e tal é que ela começou a libertar-se: no outro dia estava com umas calças justas em cor de pérola, uma blusa justinha às risquinhas e tinha um colete que eu lhe tinha dado e que ela não usava porque é fúcsia e justo e ela achava que não tinha idade para coisas daquelas. Agora gosta de se ver. Quando começou a ser ela mesma, parece que lhe tiraram vinte anos de cima.


No meio da outra tal conversa, disseram-ne: não guarda ressentimentos, pois não? Confirmei: zero. Ponho para trás das costas. E, como sou muito primária, mal ponho para trás das costas, esqueço-me. Às vezes até penso que devo ser anormal. Disseram: mas isso é bom. Há muita gente que faz terapia durante anos para conseguir ser assim. 

Mas sei lá. Nem sei nem quero saber. Mas um dia que tenha tempo, a ver se consigo ler o relatório todo. Tem para aí uma dúzia de folhas e parece-me muita folha para me desconstruir. Não sei se terei paciência para ler tanta coisa sobre matéria tão pouco sexy. A parte dos conselhos, então, deve ser uma seca.


O que me chateia no meio disto tudo é não ter tempo para fazer tudo o que quero. No congresso do PS não falaram que iam fazer com que as pessoas tivessem mais tempo para si próprias ou que as pessoas trabalhassem menos horas à medida que vão tendo mais anos de antiguidade? Tenho ideia que sim. Espero bem que sim. Por exemplo, se pudesse trabalhar para aí só umas seis horas por dia era bom. Podia ficar livre a meio da tarde para poder caminhar à beira rio, depois ler, quiçá tentar descobrir como se faz meditação, estar tranquila, sem pressas. 


Também já estive a fazer o euromilhões e desta vez até fiz o totoloto. Se fosse contemplada, ficava a viver só de rendimentos até atingir a idade da reforma. Claro que ocuparia parte do meu tempo a cortar mato, a desramar árvores, a varrer o chão e outras daquelas actividades que tanto me motivam e realizam. No fundo, conseguir isso é a minha verdadeira ambição. E, por muito que isto possa parecer uma maluqueira, juro que estou a falar a sério.

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Um bailado líndissimo para enlevar a alma

Orphée et Eurydice de Gluck / Ópera dansada por Pina Bausch



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Ilustrações de Toni Hamel

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quarta-feira, setembro 07, 2016

Lamento de uma ninfa







Um silêncio abafado. Um corpo dormente.

Se as palavras se diluem e o ar se rarefaz, onde a força? Se o calor desfaz a carne e a água desaparece e pouco mais resta do que cores sem nome, onde o ânimo?

Nem mar nem rios nem sangue. Apenas o vazio, a espessa secura, a vida ausente. 

Onde a luz, onde o fluir, onde os contornos que contêm as formas? Onde a música que oculta o olhar para melhor tocar a alma?

Um pássaro diz: nuvem, névoa, neblina
Ninguém o ouve.

O pássaro murmura: sombra, segredo, penumbra
Ninguém o ouve.

Passa, em silêncio, a memória de alguém. Depois pára, espera que uma mão a colha. Ninguém a colhe, ninguém a sente.

Cobre-se de lágrimas mas não sente que um frescor a cubra. 

O pássaro diz: lamento, carícia, sonho.
Ninguém o ouve.

Esperar perante o imenso vazio? Nada mais querer senão a loucura branca do intangível infinito?

O pássaro diz: luz, vulto, sublime.
Ninguém.

O silêncio persiste. O calor. A dormência.

O pássaro diz: o vazio vai começar a rasgar-se.

E voa.

Depois uma tremura. 

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Pinturas de Fernando Zóbel

A soprano Núria Rial e o grupo "L'Arpeggiata", interpretam o "Lamento della Ninfa" de Monteverdi

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