Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, janeiro 31, 2019

Jardins e suspiros





Tanto trânsito, tantos acidentes. A grande e bela cidade tem isto de mau: muitos carros em circulação. E, quando vem a chuva, vêm os acidentes. Hoje passei por vários. Felizmente, não vi feridos. Num deles, dois carros amachucados e uma mota literalmente desfeita. Impressionante o estado em que estava a mota. Mas não havia ambulâncias, apenas pessoas com coletes, trocando informações. Por isso, porque olho e não vejo sofrimento, não me compadeço. E repare-se que digo que olho não porque me detenha a olhar, empatando ainda mais o trânsito, mas porque, dada a redução de vias, quem conduz não tem outro remédio senão ir a passo. E o que acontece é que uma pessoa, às tantas, só quer é poder chegar ao destino a tempo e horas e já fica é furiosa por não o conseguir, enredada naquele horrível pára-arranca. Quer-se lá saber se é só chapa ou se algo mais, quer-se é passar ao largo e seguir viagem. E digo isto com total franqueza, sabendo que pode parecer insensibilidade, porque a verdade é que tanto tempo perdido todos os dias já nos torna impacientes, indiferentes. E, no entanto, quem se vê metido nesses assados também não tem culpa, não o faz de propósito.


Naquela altura em que parecia que tinha uma nuvem negra a pairar em cima de mim, maçadas e pressões por todo o lado, na mesma semana bateram-me duas vezes por trás, escaqueirando-me o carro. Numa das vezes foi de tal forma que o meu carro saltou e foi espetar-se no da frente, ficando o carro também espatifado à frente e até de lado, tal a violência do impacto. A seguradora chegou a equacionar perda total. Em qualquer das vezes eu estava parada. Em qualquer dos casos, quem me bateu, fê-lo por distração. No primeiro caso, o rapaz viu abrir o verde para a fila do lado e pensou que era também para ele, avançando à confiança. Três dias depois, foi um homem de uns cinquenta e tal anos que, passado um bom bocado, quando conseguiu sair do carro, apenas me disse: há dias em que uma pessoa não devia sair de casa. Pediu-me muita desculpa, perguntou-me várias vezes se eu estava bem. Estava enervado, preocupado. Tinha os óculos partidos, a cara e a camisa cheias de sangue, parecia ter o nariz partido. Presumo que, com o impacto, tenha disparado o airbag e lhe tenha feito todo aquele estrago. Não consegui perceber como foi possível aquilo. Estávamos parados e, de repente, o carro veio bater-me com aquela inexplicável violência. O do carro da frente também estava espantado com o que tinha acontecido mas o causador não se explicou, apenas pediu muita desculpa, aparentemente também sem perceber o que lhe tinha acontecido. O que sei é que durante uma meia hora ali estivemos a atrapalhar o trânsito e a atrasar a vida a muitas dezenas de pessoas. Por acaso, agora estou a lembrar-me que nem me lembrei de vestir o colete. Aliás, estava muito vento e os papéis voavam todos. Uma chatice. Quando liguei ao meu marido e lhe disse: 'Bateram-me outra vez' ele fez um tom de voz preocupado, como se fosse o cúmulo da pouca sorte, como se ficasse receoso do que poderia vir a seguir. Como não sou fatalista, não me preocupei demais, fiquei foi arreliada por tanta maçada na mesma semana.


Depois de almoço fui a um sítio sem estacionamento próprio mas com um parque público subterrâneo ao pé. Pois estava completo. Tive que ficar à espera que um carro saísse para que a cancela levantasse. A seguir, tive que dar várias voltas, em vários pisos, até encontrar o lugar vago.

Imagino que quem me lê, tendo a sorte de viver numa terra pequena onde se pode ir a pé para o trabalho, onde, querendo usar o carro, há sempre onde estacioná-lo, nem consiga perceber o que é viver assim, gastando, em média, cerca de três horas por dia dentro do carro.

Há vantagens, claro que há. Há a possibilidade de ter acesso a muitas coisas boas, interessantes. Ainda hoje. Gostei muito. Não é todos os dias que se tem uma sorte destas.

Mas a verdade é que chego a casa, chego aqui ao meu sofá, e só tenho vontade de me evadir. Não consigo falar de temas românticos, não consigo ter vontade de falar de política, não consigo pensar em assuntos com alguma substância. Só me apetece ver vídeos tranquilos, jardins, bailados, ouvir sonetos, sei lá.


Passa da meia-noite, vou ainda fazer um bocadinho de tapete que só eu sei o que vai ser este dia e, se não desligo, se não esvazio a cabeça para acordar brand-new, não vou ter as asas soltas, os pés decididos a descobrir e a fazer caminho, os braços fortes para afastarem todo o mato que se me atravesse, todos os escolhos, a cabeça arejada, os olhos limpos para verem ao longe e pacientes para verem ao perto. Por isso, não levem a mal que me ponha aqui, sossegadinha da vida, a ouvir umas musiquinhas boas, umas boas pianadas, a olhar o verde da natureza, a descansar a alma. Vou buscar um soneto à toa sem querer saber do que diz, só para escutar a beleza das palavras, vou escolher um bailado solto, um jardim no meio da natureza. Fiquem comigo, está bem?.








Be happy. 
Be lucky.

sábado, janeiro 06, 2018

Fire and Fury
[O que o Trump daria para ter a minha (minha, salvo seja) motosserra nas mãos... ]





Lá fomos comprar a motosserra. Quando a minha filha me ligou, já tarde, estávamos a jantar e contei-lhe o que tínhamos estado a fazer. Lembrou-se: 'Ah, sim, o presente de Natal do pai...'. Pois, mais ou menos.

Dois betinhos da cidade armados em camponeses mas sem terem sequer a sabedoria necessária para fazerem as perguntas certas. Explico. Não é fácil escolher: muita coisa específica a ter em consideração. O rapaz, super-eficiente, ia assinalando as diferenças entre os múltiplos modelos: tamanho da espada, larguras dos troncos, potência do motor, durabilidade, representação em Portugal, etc, etc. O meu marido, atento. Eu a ver, sobretudo, o preço. Quando pareceu ter aparecido o modelo onde convergiam várias vantagens, o meu marido resolveu tomar-lhe o peso. Como qualquer homem que se preze, manteve-a ao alto (refiro-me à motosserra) sem dar parte de fraco mas depois, como quem não quer a coisa, comentou: 'Eh pá, isto pesa...'. E aí, vai o rapaz e diz: 'Não é para pegar assim, ao alto, é para cortar no chão, apoiada'. Percebemos, então, que deveríamos ter começado por aí: a ideia é cortar troncos nas árvores, ramos. Eventualmente, depois parti-los às postas, já no chão. Mas primeiro há que separá-los das árvores. Então, o rapaz disse: 'Ah, então, não são dessas, são destas!'. E passou-lhe uma outra para as mãos. 'Ah, pois, esta sim', e manejou-a quase como se espadeirasse um inimigo voador. E pronto, escolhida. Claro que, depois, mil ensinamentos: a corrente, o botão para não sei o quê, o travão de segurança, as regras para o óleo, para o combustível, para sei lá o quê. Aí já eu tinha desligado. Tenho um lado muito délicatesse, muito demoiselle. Maquinarias destas não são comigo. Népias. Não fixo nada nem tenho um módico de intuição para perceber minimamente como funcionam as coisas.


Nessa altura, aproveitei para ir à procura de suplemento alimentar para as laranjeiras e acendalhas. Trouxémos depois outras coisas mas isso logo conto (e, se mostrável, mostro). E também um aquecedor pequenino para pormos na cozinha porque a casa é grande, aquece-se uma divisão e na outra ao lado já está um gelo, a cozinha tem chaminé, vem  ar directamente de fora. Com o fresquinho que se avizinha, deve lá estar um ambiente siberiano. Temos um daqueles a gás mas para a cozinha, para estarmos lá só um bocado, será mais prático um daqueles rápidos, liga e desliga. 

Depois de uma semana do catano com reuniões e maçadas, crises e agitações que pareciam imparáveis, chegar ao fim de semana com a perspectiva de o passarmos no campo, com trabalhos rurais pela frente, tempo de inverno, calorzinho junto à lareira ou à salamandra, é para mim como ver-me a caminho do nirvana.


Bem. E com isto, cheguei tarde a casa e na caixa de correio mails amigos para todos os gostos: piadas, coisas bonitas, o vídeo do clone do Marcelo que pode ser visto no post abaixo, um poema do Leitor LS que me fez lembrar de quando eu era miúda e... o Fire and Fury, de Michael Wolff. Já estive a folheá-lo, trezentas e tal páginas de Trump na White House, o livro de todas as polémicas, a loucura descrita com pormenor. Transcrevo um petit peu apenas para aguçar o apetite (e grazie mille ao E., pela inexcedível simpatia):
(...) Donald Trump’s marriage was perplexing to almost everybody around him—or it was, anyway, or those without private jets and many homes. He and Melania spent relatively little time together. They could go days at a time without contact, even when they were both in Trump Tower. Often she did not know where he was, or take much notice of that fact. Her husband moved between residences as he would move between rooms. Along with knowing little about his whereabouts, she knew little about his business, and took at best modest interest in it. An absentee father for his first four children, Trump was even more absent for his fifth, Barron, his son with Melania. Now on his third marriage, he told friends he thought he had finally perfected the art: live and let live—“Do your own thing.” He was a notorious womanizer, and during the campaign became possibly the world’s most famous masher. 
While nobody would ever say Trump was sensitive when it came to women, he had many views about how to get along with them, including a theory he discussed with friends about how the more years between an older man and a younger woman, the less the younger woman took an older man’s cheating personally. Still, the notion that this was a marriage in name only was far from true. He spoke of Melania frequently when she wasn’t there. He admired her looks —often, awkwardly for her, in the presence of others. She was, he told people proudly and without irony, a “trophy wife.” And while he may not have quite shared his life with her, he gladly shared the spoils of it. “A happy wife is a happy life,” he said, echoing a popular rich-man truism. (...)
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Para quem não esteja bem ao corrente:

Na quinta-feira, Donald Trump tentou parar a publicação do livro através dos seus advogados. A editora, Henry Holt & Co., respondeu antecipando a publicação para esta sexta-feira, quatro dias antes do planeado.
by Jeremy Nguyen
O livro está neste momento em primeiro lugar na lista de livros mais vendidos na Amazon e esgotou em muitas da livrarias que o puseram à venda esta manhã. (...)
Michael Wolff teve acesso privilegiado aos bastidores do primeiro ano de Donald Trump como presidente dos EUA e faz uma série de revelações, incluindo que o republicano nunca acreditou que iria ganhar a corrida e que a sua equipa não acredita que ele seja capaz de desempenhar o cargo. 
O livro também abriu um conflito entre Trump e o seu ex-conselheiro, Steven Bannon, devido a acusações que Bannon faz no livro. Entre outras criticas, Bannon descreve uma reunião entre o filho do presidente, Donald Trump Junior, responsáveis da campanha eleitoral do e "um grupo de advogados russos", realizado na Trump Tower em junho de 2016, como "um ato de traição" e "antipatriótica". (...)

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O curioso casal Melania e Donald Trump



Colbert fala do sumarento livro: POTUS cries (about) Wolff



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As fotografias dos cristais de gelo sobre paisagens enregeladas são da autoria de Cass Blair. 
Lá em cima os 2cellos & Lang Lang interpretam Live And Let Die


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E agora, se ainda não viram, vão por mim: o gémeo separado à nascença do nosso Rei dos Afectos está já aqui abaixo.

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domingo, abril 30, 2017

Estar a levar uma massagem tão, mas tão boa... e adormecer.





Há alturas em que me ponho a marcar passo, quase vencida pelo politicamente correcto. Ainda não escrevi a primeira letra e já as ouço a remorderem que a vida não é só isto, coisas boas e sorrisos, ou que sou uma exibicionista ou que rebéubéu, pardais ao ninho. Embora, em geral, me esteja nas tintas para comentários verdes de raiva -- pois acho que, quem não gosta tem bom remédio, basta não ler o que escrevo -- a verdade é que, volta e meia, parece que me sinto reprimida avant la lettre.

Na verdade não sei se hoje estou assim pelo tema sobre o qual me apetece escrever ou se o ter lido uma notícia triste me deixou desconsolada. Vão desaparecendo as pessoas que, de uma maneira ou de outra, atravessaram a nossa vida. Este sábado foi um cronista que me acompanhou durante anos e me proporcionou belíssimos momentos de leitura, reflexão e gáudio. A minha mãe dizia-me que o meu tio, quando lá vai a casa, está o tempo todo a falar de pessoas conhecidas e de episódios passados e que, de vez em quando se esquece dos nomes e pergunta à minha mãe se se lembra. E que, por vezes, conclui que cada vez há menos vivos nesse grupo de quem fala. E a minha mãe disse-me: 'E é. Vão morrendo'. Fiquei sem saber o que responder porque isto é mesmo assim, a vida parece uma bateria que, apesar de várias recargas, um dia, inexoravelmente, chega ao fim e já não há recarga que lhe valha. Contudo, por muito que racionalmente se pense assim, a verdade é que deve dar muito medo quando se vê que os anos já estão a entrar naquela zona de risco em que, face à esperança média de vida, o que vier a mais já é ganho e em que se começa a sentir uma nostalgia antecipada por se saber que, muito provavelmente, já não se acompanhará a vida toda daqueles que amamos.

Mas, enfim, é o que é.

De resto, falar sobre isto, não é propriamente registo que me agrade.

Portanto, para trás das costas as angústias que, de quando em vez, tentam abeirar-se de mim -- e vou mas é contar aquilo que tinha em mente. Uma coisa boa.


Massagem.

A lista de opções é longa. Massagem só aos pés, outra só às costas, outra qualquer coisa linfática, outra muscular para desportistas (esta que ainda se divide em massagem de preparação ou para depois, para relaxar os músculos mais retesados depois da prova desportiva), outra de reiki, outra de aromaterapia, e várias outras. Perante tanta coisa que me parece boa e outras que desconheço e, por isso, me atraem, fico com dificuldade em escolher. Arrisquei: uma geral, se puder ser um misto de tudo isso, melhor, uma que me deixe descansada.

E lá fui à hora combinada. Já estava à minha espera. Talvez uns trinta e tal anos, quarente e poucos. Olhos verdes, sorriso doce. Toda de branco, descalça.

Despi-me, deitei-me de barriga para baixo, a cara no buraco que há na marquesa. Como habitualmente fui tapada com uma toalha que ia sendo puxada para deixar à vista a zona do corpo que estava a ser trabalhada.

Uma música conhecida que eu, estupidamente, não identifiquei.  Agora, ao escolher uma que se assemelhasse, foi em Lizst que pensei. Talvez. E, ao contrário do que é habitual, desta vez as cortinas para o exterior não estavam corridas. Contudo, dado o ângulo, nada se veria da rua, em especial dos barcos. Mas eu via o mar, os veleiros. Um sensação boa.

E, então, começou a espalhar-me óleo quente e perfumado. Fez, de facto, um pouco de tudo. Começou pelos pés e, logo ali, comecei a flutuar.

Depois foi subindo e vértebra a vértebra, músculo a músculo, foi descontraindo, amaciando. O ar perfumado, a música, a vista -- tudo perfeito. Mas tinha um plus: ela dançava enquanto fazia a massagem. Não tanto com os pés mas com os braços, com as mãos. Ao som da música, ela passava os braços e as mãos pelo meu corpo, ora energicamente, ora com suavidade. Dançava e o meu corpo era, ao mesmo tempo, o plateau e o seu instrumento musical.

Depois de barriga para cima. Uma toalha dobrada a fazer de almofada para a cabeça ficar mais alta. A mesma coisa. Mas aí, embora geralmente eu estivesse de olhos fechados, ia abrindo ao de leve para a ver. Ela nem me via a olhá-la, de tal forma estava concentrada na dança, na música, uma coisa extraordinária, os olhos praticamente fechados, as mãos quase como se tocando piano ou harpa.

Por fim, puxou de um banco com rodas, baixou a marquesa e colocou-se, sentada, atrás de mim. Nessa altura já eu estava toda coberta pela toalha. Puxou-a um pouco para baixo para deixar o colo à vista. E começou então uma massagem que abrangia os braços, os ombros, o pescoço, o colo, a nuca.

E, como será fácil imaginar, aconteceu aquilo que adivinham. Sou de sono fácil. Não durmo muitas horas mas o meu sono, quando caio na cama, é imediato e profundo. Idem, no carro, quando não sou eu que conduzo. Ou no sofá, se estou sem nada que fazer. Imagine-se ali, naquele ambiente, naquela situação de relax total.

Comecei, pois, a sentir que estava a passar para o lado de lá, já meio a dormir. Mas tentei evitar. Sobretudo, parecia-me um desperdício estar a levar uma massagem tão boa e deixar-me de dormir.

Mas ela avançou, massagem na cara, na testa, dos lados, nas maçãs do rosto, no queixo, depois na cabeça, devagar, devagar, com as duas mãos. E aí não teve jeito: caí mesmo num sono profundo. Apaguei.

Acordei momentos depois, não sei quanto tempo decorrido. Falando-me como quase em segredo e tocando-me na mão, pareceu-me ter recebido um subtil sinal de que devereia despertar. Devo ter aberto os olhos, estremunhada. Ela sorriu lá na língua dela que me pareceu ser de leste travestida de espanhol: 'Muito sono...?'

E eu, furiosa comigo mesma, que não era que o sono fosse muito... mas que a massagem era tão relaxante...

Ela sorriu, perguntou se eu tinha gostado.
Sessenta minutos de reiki, aromaterapia, massagem localizada e geral, dança ao som de piano... como não gostar? Pena mesmo é que durante os últimos minutos não tivesse dado por nada.

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E agora que já assistiram à minha sessão de massagem, caso estejam a sentir um certo apelo místico, queiram descer e assistir à refrega polemista que se avizinha. César das Neves desafia duas doutas vozes e afirma, contra todas as celeumas, que ele sabe, porque sabe, que Nossa Senhora apareceu mesmo, em pessoa, aos três pastorinhos

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segunda-feira, maio 30, 2016

E, então, o mar




Talvez por quase ter nascido com os pés na água, muita praia, muita ida com o avô apanhar isco para a pesca, depois com o pai, depois ir com o pai à pesca, e sempre praia, praia, praia, e depois, adolescente, passear à beira rio, e, em casa, levantar-me e ir à varanda ver o rio, e depois já em casa minha, levantar-me e ver o rio, sempre, e, pelo meio, sempre praia. Ou talvez por ser de um signo da água. Ou isso não tem nada a ver e é mesmo de mim. Ou talvez algum bisavô marinheiro, sei lá. O meu avô materno, o que morreu quando eu era bem pequena mas de quem me lembro a pôr-me às cavalitas, enorme, alto, cabelo muito louro, olhos muito azuis, mais um nórdico do que um sarraceno, sei lá de onde veio, talvez tenha sangue viking. Mas sei lá. O que sei é que, se me embrenho pelo meio das árvores -- e gosto de sentir a terra, e gosto de cavar e de plantar e não uso luvas porque gosto de sentir a terra, e gosto de podar árvores e tudo sem luvas porque nada como o toque da terra, das pedras, da madeira viva -- logo depois é a vontade do mar que me invade. O mar. Vontade de estar junto ao mar. 


O azul a sul, a luz azul do sul, as gaivotas que quase parecem brancas, longas asas, as gaivotas omnipresentes, na praia, nos lagos, junto às casas, nas igrejas, dir-se-ia que esta é a terra das gaivotas. Não estranham as pessoas, não se inibem.


Vivem em liberdade, fazem o que querem, brancas e descansadas ao sol do sul. Mergulham, esvoaçam, brincam, nadam, dançam, repousam, contemplam.


A cidade tem pouca gente, é bom andar por aqui nesta altura. Dos veleiros saem homens tisnados que se sentam, ruidosos, bebendo cervejas, rindo. Por vezes, vêm mulheres com eles, igualmente tisnadas. Ao nosso lado, a jantar, uma mulher louríssima, muito bronzeada, toda vestida de branco e com unhas em verde brilhante como escamas de sereia.


Muitos alemães, ingleses, franceses. Sobretudo terceira idade. Mas não só. Mas nada que se compare com Julho ou Agosto. Agora a cidade está por conta das gaivotas.

Queria apanhá-las a voar sobre o branco casario mas tão alegres e velozes andavam, fazendo danças e rodopios pelos ares, que não consegui. Só as apanhei assim como aqui as vêem, deslizando feitas cisnes, banhando-se feitas patas, brincando feitas crianças ou empoleiradas feitas cegonhas.


E eu caminhei rente à água, li, preguicei, vi o pôr do sol dourando os rochedos, o azul das águas e do céu reflectindo-se no ar que eu respirava. Vivo num país tão diverso e tão lindo.


Depois, entreguei-me àquele injustificável hábito que mantenho desde menina: apanhar conchinhas. Não resisto. Acho-as tão lindas, tão perfeitas, peças lindas que o mar esculpe, brilhos e tons tão subtis, umas com superfícies nacaradas lisas como seda, outras com pequenas formações como se sobre elas se tivessem alojados outros pequenos seres.

Escuso de dizer aquilo que já se sabe: o meu marido pergunta para que ando eu a apanhar conchas, se é para ele as deitar fora algum tempo depois.

Zango-me, não quero que deite fora as minhas conchas. Mas depois não digo mais nada pois penso que, se ele não o fizesse, onde poria eu conchas apanhadas ao longo de anos?


Para preservar a memórias destas peças tão lindas, quando chego, ponho algumas em cima da blusa que vou vestir à noite e fotografo-as, tão bonitas. Um dia tenho que fazer um quadro com conchinhas e pedrinhas e restos de corda e espelhos e o som das ondas e dos gritos das gaivotas.

A ver se acho ou, se não achar, se compro a concha de um búzio, daquelas que, se lhe encostarmos o ouvido, escutamos o rugido do mar. Talvez, tendo a concha de um búzio comigo, suporte melhor a distância do mar quando, na cidade, estiver num lugar onde as janelas não se podem abrir e de onde não me chegam os sons da rua.

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No meio de tanto azul, vi há pouco, na televisão uns quantos betinhos e beatinhas, convenientemente pintados de amarelo, com crianças a fazerem umas coreografias e outros a actuarem, de cartazes em punho e muita mobilização dentro deles. 


Parece que uma espécie de instinto revolucionário se apoderou deles, andam eufóricos. Mas, pensando melhor, o que dá mesmo é a ideia de que uma força organizativa poderosa os anda a apoiar - ou melhor: a manobrar (a JSD, a JC e a Igreja em promíscuo conúbio?) - e, quequemente, querem, porque querem, que o zé povo suporte, com os seus impostos, as mordomias a que se acham com direito. Querem, porque querem, poder escolher o que, na cabecinha deles, é a 'melhor escola'-


Podem ter, lá na rua, uma escola pública mas não pessebem puque é ke hão ter que ir estudar com os pobrezinhos se podem ir para um colégio supé bom só pa eles. Parece que o senhor cardeal acha que eles têm supé razão e que a madame cristas também não pessebe puque é ke não fecham antes as escolas públicas. E, como as televisões gostam muito de fuzué, estiverem montes de tempo a mostrar aquela supé manifestação, podre de grande.


Ora eu, numa de indignação, poderia dizer-lhes: a pata que os pôs! mas, dado estar na terra das gaivotas, até fico sem jeito de dizer isso. Mas, como acho que eles não precisam de ajuda para se enterrarem ainda mais e, de resto, até já se pintaram de amarelo, acho que não preciso de dizer nada. O ridículo de qe andam a cobrir-se se encarregará de os pôr na ordem.

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Lang Lang interpreta um sonho de amor: Liebestraum de Liszt
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, afectos, alegrias e dinheiro para os gastos - para todos quantos me lêem.

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domingo, dezembro 20, 2015

As serenas incertezas




Dante acreditava que, durante a nossa viagem pela vida, se a graça o permitir, encontraremos uma alma companheira que nos ajudará, pelo caminho que fica para lá da selva escura, a reflectir sobre as nossas próprias perguntas e a descobrir o que quer que seja o nosso destino; acima de tudo, uma alma cujo amor nos mantenha vivos.
Acredito nisto. Já me foi dado encontrar esse alguém que parece ter sido misteriosamente posto no meu caminho para me mostrar que todos os acasos são possíveis. Nessa altura, todos os caminhos parecem ter inexplicavelmente convergido para aquele instante sagrado em que a nossa vida e a de outra pessoa parecem ganhar um novo e incompreensível sentido. E, a partir daí, uma serenidade invade o nosso corpo porque sentimos que um tem o outro e que, juntos, percorreremos com feliz expectativa todos os labirintos de que a vida é feita.

Todos sabemos que os acontecimentos por que passamos ultrapassam, no seu sentido mais completo e profundo, as barreiras da linguagem. Nenhum relato, nem sequer da mais pequena ocorrência na nossa vida, pode fazer verdadeira justiça ao que teve lugar, e nenhuma recordação, por mais intensa que seja, pode ser idêntica à coisa recordada. Tentamos relacionar o que acontece, mas as nossas palavras falham sempre, e aprendemos, após muitas tentativas, que a melhor aproximação a uma versão verdadeira da realidade só pode existir nas histórias que inventamos. Nas nossas ficções mais poderosas, sob a teia da narrativa, consegue discernir-se a complexidade da realidade, como um rosto atrás de uma máscara. A melhor maneira de contar a verdade é mentir.
Penso o mesmo. Tantas vezes vivo situações que são tão impossíveis de descrever, tantos loucos acasos, tantos inesperados momentos de afecto e sintonia, tantos mistérios, tantos momentos em que o conhecimento parece vir de há muitas vidas atrás, tantos instantes de paz e beleza - que não tento nem falar neles, ninguém acreditaria. Tantas vezes as situações parecem mais credíveis se eu alisar a realidade, se eu omitir o que parece ficção, se eu esquecer aquilo em que nem eu própria acredito, aqueles instantes que eu não sei explicar senão pensando que sonhei. 

Os leitores na Idade Média usavam a Eneida de Virgílio como ferramenta de adivinhação, fazendo uma pergunta e abrindo o livro em busca de uma revelação; Robinson Crusoé faz basicamente a mesma coisa com a Bíblia, para encontrar orientação nos seus longos momentos de desespero. Todos os livros podem ser, para o leitor certo, um oráculo, chegando ocasionalmente a responder a perguntas não formuladas (...)
Também acontece isto comigo. Quando estou na minha capela, gosto de pensar no que me está a acontecer, na minha vida, nas minhas dúvidas e, então, pego na Bíblia, abro-a ao acaso e leio. E o que leio responde-me. É a única forma que tenho de ler a Bíblia. Não a leio numa perspectiva religiosa, pelo menos na perspectiva da religião católica. Sendo agnóstica, gosto, contudo, de acreditar que há respostas, que as respostas pairam no espaço à espera que agente as agarre e as encaixe nas nossas perguntas. 
E isto faço também agora. Pego neste livro e abro-o. Na página onde ele se fez abrir, eu encontro explicação para o que faço, para o que me acontece, para o que não sei dizer. Não é que fique, em tudo, completamente esclarecida mas, pelo menos, sinto-me acompanhada nas minhas perplexidades e, sentindo-me acompanhada, sinto-me serena. E isso, para mim, já é bom.
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O livro de onde transcrevi os excertos em itálico é 'A História da Curiosidade' de Alberto Manguel de que no outro dia falei. As fotografias provêm do BoredPanda. Lang Lang interpreta a Serenade de Schubert.
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Convido-vos, ainda, a descerem até ao post seguinte onde falo na sensualidade das gordas.

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segunda-feira, agosto 31, 2015

Todos os rostos e nenhum


Não é a primeira vez que aqui falo dela. Ninguém sabe quem ela é. E digo 'ela' porque assim se apresenta e admite-se que, ao menos isso, seja verdade mas, volta e meia, surgem hipóteses dadas como prováveis que a dão como sendo um outro muito conhecido escritor, homem. Não se sabe. 

O que se sabe é que é uma das escritoras mais conceituadas da actualidade. Dão-na como italiana, supostamente napolitana - já que ela o refere. Falo de Elena Ferrante que, naturalmente, também não se chama Elena Ferrante.


Desde que publicou o seu primeiro livro, em 1992, que a sua opção foi esta: o que havia de valer seriam as suas palavras e as histórias dos seus livros, não o seu rosto nem a sua própria história.

Claro que este anonimato tem concitado toda a espécie de curiosidade mas a autora não desarma: não, não e não. Não se mostra, não diz quem é. Responde por escrito a entrevistas, a algumas entrevistas, poucas - e é se querem.

Escuso de dizer que acho muito bem pois é essa justamente a minha atitude perante os livros: gosto do que leio sem querer saber da vida de quem o escreveu. Posso até dizer que não gosto muito de ver os escritores a exporem-se em feiras ou a darem entrevistas em que se desvendam como se esse strip-tease valorizasse a sua obra. 
Ou melhor: não é bem isso, não estou a ser rigorosa. Até gosto de ler entrevistas a escritores mas falando da sua actividade de escritores; ou até gosto de ler entrevistas, em geral, a pessoas interessantes -- mas não gosto de ver essa exposição ser posta ao serviço do marketing dos livros escritos pelos entrevistados até porque, nesse caso, geralmente, são entrevistas fúteis, irrelevantes. 
Não sei se me faço entender mas deixem, são coisas minhas que acho que os escritores devem recuar perante os seus livros. E devem fazê-lo até por humildade já que os livros, se forem bons, perdurarão e o corpo de quem os escreveu não. Mas o que eu penso aqui, agora, não vem ao caso.

Vem isto a propósito de uma entrevista que Elena Ferrante concedeu à Vanity Fair: Elena Ferrante Explains Why, for the Last Time, You Don’t Need to Know Her Name



[Permitam que traduza um excerto pois acho o tema interessante.
Anonimato, clandestinidade, segredos - e, no entanto, não nos esqueçamos:
les plus grands secrets se cachent dans la lumière.]



O motivo, nada a fazer..., é o lançamento do seu último livro, The story of the lost child.

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Romance


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De facto, onde é que trabalha, em que local?

Onde o possa fazer. O importante é ter algures um pequeno recanto. Ou seja, um pequeno espaço.

O que faz para descontrair?

Dedico-me a tarefas domésticas maçadoras.

É interessante que você -- escolhendo manter secretos alguns detalhes sobre a sua identidade -- em certo sentido, se tenha apagado a si própria. Poderia escrever tão honestamente se fosse uma figura pública? Ou isso não interessa para nada?

Não, se uma pessoa escreve e publica dificilmente se apaga a si própria. De facto, eu tenho a minha vida privada e pública completamente representadas nos meus livros. A minha escolha foi, de certa forma, diferente. Eu simplesmente decidi de uma vez por todas, há 20 anos, libertar-me da ansiedade da notoriedade e da necessidade de fazer parte do círculo das pessoas bem sucedidas, aquelas que acreditam que ganharam sabe-se lá o quê. Isso foi um passo importante para mim. Hoje sinto, graças a esta decisão, que ganhei um espaço próprio, um espaço gratuito (ou livre), onde me sinto activa e presente. Ceder face a esta decisão seria muito doloroso.

No entanto, ainda me sinto curiosa sobre o que leva um autor - especialmente uma autora tão bem sucedida e tão aclamada pela crítica - a escolher manter-se anónima?

Eu não escolhi o anonimato. Os meus livros são assinados. O que se passa é que me retirei dos rituais onde os escritores são mais ou menos obrigados a representar de forma a apoiar o seu livro emprestando-lhe a sua dispensável imagem. E tem funcionado bem até aqui. Os meus livros demonstram cada vez mais a sua independência pelo que não vejo razão para mudar a minha posição. Seria deploravelmente incongruente. 

O escritor nunca quer que o leitor sinta a sua presença, nunca quer chamar a atenção para si próprio, e, no entanto, um leitor atento saberá detectar aqui e ali algumas das impressões digitais do criador. Que direcções poderia indicar aos leitores desesperados de forma a que pudessem encontrá-la a si no seu trabalho (para além de os mandar dar uma volta?)

Tanto quanto sei, os meus leitores não desesperam de todo. recebo cartas de apoio a favor desta minha pequena batalha pela centralidade do meu trabalho. Evidentemente, para os que amam literatura, os livros bastam.
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Nem mais.

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  • As fotografias que usei para acompanhar o texto mostram mulheres que se expuseram perante Steve McCurry, da série Retratos.

Portraits reveal a desire for human connection;
a desire so strong that people who know they will never see me again
open themselves to the camera,  all in the hope that at the other end
someone will be watching, 
someone who will laugh or suffer with them.

A primeira foi feita em Itália, a segunda na África do Sul, a terceira na Etiópia, a quarta no Brasil e a última na Indonésia. 
  • O Romance de Liszt é interpretado por Lang Lang.
  • O artigo completo com a entrevista de Elena Ferrante pode ser lido aqui.
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E permitam que vos convide a descer até aos dois posts abaixo: aos Mirós deixados à beira-mar e aos veleiros deslizando sobre um rio de luz. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela, belíssima semana, a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, maio 17, 2015

Noite dos Museus em Lisboa - Obras marcantes [2º de 5 posts]


Este é o papel singular da alegria 
a lei errante do país 
é o maior dos silêncios. 

Caminhei por entre rios pontos de água 
estações de novembro 
pequena razão dos ventos da manhã. 




Não trafiquei não porque seja forte 
mas porque falo da alegria do estar sobre vós 
nestes pontos de água 
na acidez da flor 
neste país frequentado 

algumas coisas nunca mudarão. O rigor 
da luz torna invulnerável o desejo de perder 
esta pressa de verão. 




Algumas coisas serão sempre as mesmas: manhã 
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta 
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello 
longínquos. 




(Profanamos a casa não o corpo 
esta forma desenhada ruga a ruga 
esta cor amarela sobre a praia.) 



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A primeira fotografia mostra, no Museu de Arte Antiga, os Painéis de S. Vicente de Fora de Nuno Gonçalves.

As duas seguintes mostram, no mesmo museu, partes de Tentações de Santo Antão do pintor holandês Hieronymus Bosch

O poema é Este é o Papel Singular da Alegria de João Miguel Fernandes Jorge

Lang Lang interpreta Serenade de Schubert

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