Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, outubro 19, 2019

Não fui capaz de comer o amor-perfeito




À minha frente estava um inglês. Por detrás dele estava a melhor vista de Lisboa quando avistada de dentro de Lisboa. Lisboa e rio e o lado de lá. Um daqueles cenários tão maravilhosos que uma pessoa poderia ficar um dia inteiro a olhá-lo. Talvez a ouvir música, música muito a meu gosto. Ou alguém a tocar piano num canto, sem que eu visse onde. 

À entrada, reparei numas jarras grandes, de vidro, quadrangulares, com pedras brancas no fundo, e água e flores amarelas muito bonitas. Flores tão lindas. Pensei: não podem ser verdadeiras. Não há flores amarelas tão exóticas, tão grandes, tão exuberantes. Então, discretamente, enquanto os outros falavam da vista e diziam olha ali o castelo, olha ali a basílica, olha ali o passeio junto ao rio, eu passei a mão nas pétalas. E eram verdadeiras. Tive vontade de tirar uma flor, de ficar com ela, trazer para casa, pousar na mesa. Mas o momento não era para frescuras. Disfarcei, escondi a alegria de ter descoberto que a natureza é capaz de coisas tão raras e que a beleza é infinita e inesperada.

Como não podia deixar de ser, falámos do Brexit. Ele ainda não quer acreditar que isso vai acontecer. Contou uma coisa que se passou num lugar, uma experiência social, em que as pessoas votaram numa coisa contrária aos seus interesses e, na verdade, sem saberem em que é que estavam a votar e tudo porque alguém os manipulou, acicatando as pessoas contra uma coisa de que não gostavam e embrulhando a outra coisa nessa tal que foi usada como engodo. Eu disse que por vezes tudo parece uma anedota: as decisões estúpidas que as pessoas tomam, a gente estúpida que as pessoas elegem, o rumo estúpido que as coisas levam. E ele disse que até tem vergonha. E eu compreendi e não disse mais nada pois não quis envergonhar um inglês com um accent tão british, todo ele tão gentleman.

Do que comi nem vou aqui falar pois foi bom de mais. Mas posso dizer que, para sobremesa, a tarte não era só boa, era também linda. Tinha em cima não apenas umas bagas pequeninas, lindas como enfeite de natal, como um amor-perfeito pequenino. E o amor-perfeito era amarelo fulgurante e roxo de veludo. E era tão lindo que não consegui comer. Cometo heresias a toda a hora mas comer uma flor tão linda é heresia para lá de violenta, do lado de lá da linha vermelha que não ouso transpor. Disseram, coma, é bom. Mas nem pensar. Disse que não com a cabeça e olhei para a cidade grande, vasta, estendendo-se ao longo do rio. No pratinho ficou um risquinho sólido de chocolate, e ficou porque estava pregado ao prato, e a florzinha que se salvou por ser tão linda.

Depois das despedidas fui para o parque subterrâneo. E aqui acaba a poesia e começa a comédia. Mas como tudo tem vários lados, para mim foi comédia mas para a outra pessoa envolvida foi um sufoco, um drama.

Mas já lá vou.

Agora antes.

Horas antes, quando entrei, depois de passar a cancela e percebendo que o piso estava cheio, dirigi-me para a descida para o piso inferior. A faixa livre tinha sinal de proibido e na outra faixa vinha uma lady a subir dentro do seu formoso bólide. Pensei: tinha que ser, enganei-me, enfiei-me no lugar onde só se sobe. Então comecei a fazer marcha atrás mas, como todos os parque novos nesta cidade, é tudo feito para carrinhos pequenos ou para ilusionistas capazes de encolher os carros. Então, pensei: estou frita. E como estava apenas a pensar não foi frita que pensei. Mas pensei: tenho que conseguir. E lá comecei a tentar fazer uma manobra impossível até porque já tinha outro carro atrás. Nisto ouvi alguém a bater no vidro. Era um senhor com ar aflito. Abri a janela. E ele: onde é que vai? não consegue fazer marcha atrás. E eu: mas como é que vou para o -2? Aqui é proibido. E ele: Mas a senhora vai bem, aquela que vem a subir é que vem na faixa errada, enfiou-se em sentido proibido. Então foi quase a correr ter com ela. E ela muito admirada, como se estivesse tudo maluco, lá fez uma manobra também arriscada, saltando para a faixa do lado e eu lá consegui descer pela faixa já desobstruída.

Pois bem. Agora, então, à tarde.

Quando vinha a conduzir no parque para sair, apareceu à minha frente, vindo do -3, um mercedes antigo. Só que, em vez de virar logo, avançou até a um ponto em que ficou sem espaço para curvar, entalado entre dois pilares. Fazia marcha atrás e roçava atrás, chegava à frente e batia à frente. Não tinha espaço e notoriamente estava enervado. Saí do carro para perceber se havia margem. Não. Só batendo ainda mais. Ao princípio tinha pensado: Que aflição. Podia ser eu. Deve ser uma mulher. Mas não, era um homem. Ao seu lado, um rapaz. O rapaz também saíu. O homem pediu para ele tentar. O rapaz não queria. Disse: o carro é teu, não quero dar ainda mais cabo dele. Atrás do meu carro, parou outro carro e saíu de lá uma mulher. Perguntou-me: Mas o que é que se passa? Eu disse: Encravou o carro. Agora está ali entalado. Ela deu uma gargalhada: É uma mulher, certo? E eu: Pois, também pensei. Mas não, é um homem. E ela riu ainda mais: Mas não sabe conduzir, não? Como é que ele fez aquela merda? E foi, resoluta, ver se dava algum palpite. Mas voltou para trás e disse: Não tem solução, o carro é grande demais, só se lhe perder o amor. Entretanto, o rapaz passou para o lado do condutor. O condutor estava num estado de nervos de dar dó. Ajudou o rapaz. Mandou-o recuar contra um pilar. O som da lata a bater. O rapaz ganhou uns centímetros para curvar. Depois mandou-o curvar na direcção do outro e ouviu-se o carro a raspar violentamente no pilar. Ao fim de um bocado, lá conseguiu. Trocaram de lugares e seguiram e eu segui atrás deles e a outra mulher atrás de mim. Com isto atrasei-me. Mas não me importei. Soube-me bem estar ali sem fazer nada, aqueles minutos num parque subterrâneo, apenas à espera. Ao princípio pensei que provavelmente só com um guindaste para o içar e que isso poderia durar horas. E não me importei.


Também posso recuar outra vez a umas horas antes, a quando estacionei e, como era cedo, resolvi ir andar a pé. De dia, num dia útil, não costumo andar por ali a pé. E fiquei muito admirada. Street style. Fashion da boa. Tanta gente tão moderna, tão bem vestida, tão inusual. Parecia que estava na proximidade da Vogue, da Vanity Fair, nos boulevards elegantes de Paris. Há tantos mundos dentro do nosso mundo e o que conhecemos é nada. Quando cheguei ao meu destino, cruzei-me com uma cena de filme e era tudo filme, o cenário, grandes espelhos, grandes candeeeiros, um luxo, até as pessoas eram de filme. Pensei que a pessoa que não pertencia ali era aquela mulher que eu via no espelho e que me levava a mim escondida dentro dela, uma que gosta de andar pelo meio do mato, a pisar caruma, a andar por entre os pinheiros perfumados a apanhar pinhas para a lareira, a fotografar as folhas douradas com que o outono embeleza os meus dias in heaven.


Ou seja: não consigo resumir o meu dia e, de boa acção, acho que a única digna de registo foi não ter canibalizado o inocente amor-perfeito.

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Obtive a fotografia de Lisboa em 20 locais de interesse numa visita a Lisboa

As duas últimas foram feitas in heaven.

Espero que tenham vindo pela mão de Monteverdi. Pur ti miro, Pur ti godo

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A todos desejo um sábado à maneira

quinta-feira, março 14, 2019

Shen Yun





Já o disse muitas vezes
mas andar a escrever coisas há alguns anos tem que dar nisso: uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se repetitiva: 
fui boa aluna mas não boa estudante. Nunca fiz uma directa, nunca estudei muito, nunca fui muito de apontamentos, de fazer cábulas, de me empenhar para garantir que obtinha o máximo. Nunca. Estudava apenas o qb e, se era boa aluna, era apenas porque tinha facilidade, não porque me esforçasse. Por isso, nunca queria receber elogios ou parabéns, achava que se tinha boas notas era mero acidente, não propriamente mérito resultante de hard work.

Ainda hoje sou assim: vou para as reunião sem cadernos, notas, tablets. Só quanto vejo toda a gente aparelhada é que me ocorre que estou de mãos a abanar e que tomara que não me veja numa situação em que precise de algum suporte. Felizmente nunca preciso mas, uma vez mais, não me parece que seja mérito, parece-me que é mais por levar as coisas na levezinha. 


E não estou a dizer isto para me gabar. Digo-o apenas porque reconheço em mim um grande gosto por conhecer muita coisa e isso resulta numa incapacidade em dedicar-me esforçadamente a alguma coisa em especial. 

Dito assim pode parecer que estou a fazer género até porque, quem venha a minha casa e veja várias carpetes de arraiolos ou quem conheça este blog e verifique que já publiquei mais de cinco mil posts, pode pensar que não é bem assim. Mas é. O que faço, faço por prazer, sem me esforçar. Tudo o que me violente ou obrigue a sacrifícios é banido. 

E, no entanto, como admiro as pessoas que se aplicam para se superarem... Por vezes cruzo-me com pessoas que, equipadas a preceito, fazem corridas e percebe-se que já fizeram quilómetros. Enquanto eu caminho, na boa, sem medir passos, tempos ou pulsações, incapaz de me traçar objectivos exigentes, é com admiração que vejo como há pessoas que, ali vão, monitorizadas, passada larga, velocidade considerável, transpiração.


Ou esses ou os que, quando fazem anos, fazem bolos elaboradíssimos para levar para o lanche dos colegas. Admiro mesmo essas pessoas. Acontece-me não conseguir conter-me e, para além de elogiar por estar tão saboroso, dizer: 'Deve ter dado um trabalhão, não...?' e a aniversariante, toda contente, desatar a contar-me, com pormenor, a receita. E conta como pôs de molho as amêndoas, como lhes tirou a pele, como torrou, como as picou, como fez bolo e o cortou às fatias, e fez um creme e uma calda e mais não sei o quê. E eu ouço, espantada, por ver a generosidade da pessoa que deu horas da sua vida para fazer um bolo com que os colegas galifões vão acabar em três tempos. Eu, para começar, nem me ocorre levar bolos quando faço anos. De preferência, nesse dia, ponho-me a milhas. E, para os que vêm cá a casa festejar, o bolo é de compra. Fazer a comida propriamente dita faço porque gosto de fazer. Bolos, que têm que ser by the book e dão muito trabalho, está bem, está.


Ou os pianistas. Horas e horas de trabalho. Acho extraordinária a dedicação, o gosto pela perfeição. Inúmeras vezes a tentarem que o acorde saia perfeito, a tentar que a música flua como se um rio navegando. Os dedos já autónomos a voarem sobre o teclado. Horas de prática diária.
E, escrevendo à medida que as ideias me chegam aos dedos, estou a misturar alhos com bugalhos -- arte e trabalho, esforço com cortesia -- mas não faz mal. Não pretendo que a taxonomia se aplique aqui que nem luva. Prefiro não distinguir géneros. Esforço é esforço, abnegação é abnegação. E ainda bem que, em todas as áreas, há gente trabalhadora, esforçada, gente que persegue a perfeição. Se ontem falei dos caçadores de mel, hoje poderia estar aqui a falar dos caçadores da perfeição. Não especialmente de bolos artísticos, não dos corredores de maratona. Nem de borboletas, muito menos de lolitas: apenas da perfeição. 

E isto para dizer que olho os fantásticos bailarinos de Shen Yun e fico espantada. Quantas horas de treinos,  quantas horas longe dos amigos, quantas quedas, quantas dores?
A mind of steel, a body that’s pushed to its limits, a heart of humility, and much more. Learn about the rigorous physical, mental, and spiritual requirements for studying at the highest levels of classical Chinese dance and being a Shen Yun dancer. This video is written and narrated by Shen Yun performers and illustrated through real practice footage.

What Does It Take To Be a Shen Yun Dancer?




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Bolas. Se soubessem o que me aconteceu... Credo. Bolas.

Conto-vos. Isto começou por me dizer que estava com falta de espaço em disco. Depois propôs-me apagar alguns ficheiros. Respondi que sim e ele começou a arrumar-me a casa e a perguntar se podia apagar isto ou aquilo. Desinteressadamente fui dizendo que sim. Depois apareceu a dizer que tinha actualizações. Agendei para uma hora depois. E pus-me a escrever. Quando estava mesmo a acabar e já não me lembrava de tal coisa, desligou-se-me isto e desatou a instalar cenas. Só que a demorar, a demorar, dizendo-me que não desligasse. Adormeci. Quando acordei, estava isto ainda a configurar. Pensei: isto está empancado, é para esquecer, na volta deixei que apagasse alguma coisa vital e agora não sai daqui. E pensei: o fim de semana todo sem poder fazer nada no blog. Ou seja, acordei de tal forma aluada que pensei que fosse sábado. Olhei para a televisão, sem perceber bem. Só depois percebi que qual sábado... era bom, era. Tentei desligar o computador à força. Quando veio a ele, continuava na mesma. Desisti. Pensei: vou dormir. E nisto, quando estava a prepara-me para me levantar, milagrosamente restabeleceu-se e, aos poucos, começou a aparecer no ponto em que estava antes desta faena. E agora, aqui estou, a acabar o post. Tinha estes bailarinos fantásticos para vos mostrar mas, a seguir, tinha outra coisa. Só que depois disto é para esquecer. As máquinas têm vontade própria e isso, volta e meia, é uma maçada. Podia até, agora, depois disto, pôr-me a dissertar sobre machine learning ou artificial intelligence mas isso era se fosse a outras horas. Ou se este blog não fosse coisa de quem é mais bolos.


Os bolos são de Elena Gnut e deve ser uma pena comê-los. Por isso, sugiro que os olhemos apenas. E podemos acompanhar com L'incoronazione di Poppea "Pur ti miro, Pur ti godo" de Monteverdi com Jaroussky e Danielle De Niese

domingo, dezembro 30, 2018

Madrugar à conversa convosco






Não sei o que é isto hoje que a casa parece que não quer aquecer. Estou com um aquecedor a óleo aqui à minha beira e com a salamandra a queimar lenha como se não houvesse amanhã -- e a sala continua fria.

Ainda não há muito tempo tínhamos que comprar lenha. Mais recentemente comprávamos ao vizinho da ponta da estrada mas, antes de sabermos que ele tinha lenha a mais, íamos comprar a um lugar de que já uma vez aqui falei, um lugar muito estranho. Por vezes, algumas memórias minhas assomam como se quisessem que eu as revivesse mas algumas parecem-me improváveis, como se eu estivesse a ficcionar. Aquele homem silencioso e rude, aqueles cães enormes que ladravam e rosnavam ameaçadoramente sem que o homem tentasse acalmá-los, aqueles barracões cheios de lenha coberta por grandes oleados onde facilmente se poderiam esconder meliantes ou onde aquelas feras poderiam devorar presas indefesas sem que delas restasse algum vestígio é daquelas memórias que me parece saída de um filme de terror. Mas talvez aquele lugar, que existe na realidade, seja apenas um lugar muito pobre e o homem alguém a quem a vida não sorriu.


Mas isso era de quando as nossas árvores ainda eram pequenas. De repente, o lugar alterou-se. As árvores cresceram muito, a terra que, antes era castanha e seca, agora é fofa, escura, fértil e cobre-se de musgo, folhas secas, e dela brotam flores, arbustos, As pedras que antes tinham a superfície seca à vista agora também se cobrem de musgo, e nascem fetos, há heras a cobrir alguns rochedos. Toda a paisagem agora é outra. Estou a escrever e a pensar: do meu amor nasceu um bosque.


Temos, pois, lenha que não acaba. Levantei-me agora mesmo para ir pôr mais um tronco na salamandra. Cheira muito bem esta lenha. Quando chegámos, a casa estava gelada mas cheirava muito bem, a boa lenha queimada. Azinheira, cedro, pinheiro. Não sei se aroeira. Há madeiras que não queimam bem. Por exemplo, o meu marido não quer aproveitar a madeira da figueira, tenho ideia que diz que não arde. Mas deve arder, se calhar leva é mais tempo a pegar-lhe o fogo. Não sei.


Fico muito contente, orgulhosa mesmo, como se as árvores terem deitado tanto corpo fosse um pouco obra minha. Mas não quero parecer pretensiosa. A natureza não se deixará influenciar pelo amor de uma mulher. E, no entanto, as árvores sentem, comunicam entre si e são, acredito nisso, seres sábios, fortes e sensíveis, seres superiores. Quem sabe não se sentem mesmo felizes por se sentirem tão amadas e, como as pessoas que são felizes e criativas quando se sentem estimadas, também elas, as minhas queridas árvores, desataram a crescer e agora chamam os pássaros e dão abrigo a musgos, arbustos e flores? Quem sabe?


Faço perguntas cuja resposta desconheço. Sou bicho inferior, só sei fazer perguntas, não descubro resposta para quase nenhuma.

Estive a fazer o tapete enquanto via televisão mas está a dar um filme que não é adequado ao meu estado de espírito e as alternativas não são muito melhores. Por isso, voltei aqui para escrever e para plantar mais algumas fotografias que fiz durante a tarde. Fotografo tudo porque tudo me maravilha. Enquanto não levar um susto de algum javali, continuarei neste meu doce flanar.


Hoje de manhã fui cortar o cabelo à cabeleireira. Queria coisa mais profunda e estruturada do que as tesouradas que lhe dou em casa. Estou com uma grande vontade de fazer uma coisa nova, apresentei uma proposta, coisa arrojada, ousada mesmo, e tenho que estar preparada para a defender. No meu íntimo sei que joguei uma cartada arriscada, dir-se-ia de improvável sucesso. E, no entanto, sei que quero que aconteça e sei que, quando quero assim uma coisa, não descanso enquanto não a tenho nas minhas mãos. Perguntei ao meu marido: 'E se não consigo?'. Ele disse: 'Se não consegues sabes o que tens a fazer'. Sei.

Mas porque sinto que, de uma maneira ou de outra, alguma coisa vai mudar, decidi que tinha que mudar de corte de cabelo para melhor sentir que aí vem uma vida nova.


E, na cabeleireira, foi aquela diversão de sempre. Disse ao meu marido: 'Se lá pusessem uma câmara a gravar e difundissem via televisão, haveria de ser programa líder de audiências'. O que aquelas mulheres dizem, o que riem, a forma como dizem que dão a volta aos maridos, a forma truculenta como falam umas das outras ou como relatam as suas pequenas rebeldias do dia a dia, fascina-me. Tudo demasiado irreal, tudo extremamente divertido. Eu estava a ler as revistas que não perco por nada quando lá estou mas com um olho nas celebridades e outro naquelas fantásticas conversas. O mundo real é surreal. Tenho pena quando vejo que estou quase despachada.


No carro, à vinda para cá, adormeci completamente. Sabem-me mesmo bem estes sonos que me desligam do mundo. Só acordei quando já estavamos a caminho do supermercado da cidade mais perto aqui da aldeia. Há lá peças de carne que não encontro na 'minha' cidade e já estou a aprovisonar mantimentos para o almoço de Ano Novo. O meu marido, como é um apressado e gosta de planear tudo, até já sugeriu que eu cozinhasse já algumas coisas ou que, pelo menos, adiantasse já as cozeduras. Claro que não vou fazer isso, ia lá servir comida a saber a coisa já feita? Vou congelar e faço no dia, excepto uns petiscos que são de demorada confecção que, esses, farei de véspera.

E estou a sentir que preciso de férias. Aliás, estamos os dois. Mas nem eu nem ele podemos agora. O que me vale é que quando me apanho com um ou dois dias de descanso, aproveito muito bem, estico o tempo, sorvo cada instante com vagar, contemplo com minúcia a beleza de cada pequena coisa.


E agora vou dormir. Já viram bem isto? Estou para aqui a escrever de gosto, nem dou pelo tempo a passar. O lume espevitou, a sala finalmente parece mais quentinha. Estou com uma manta quentinha nas pernas e sinto-me confortável. Em contrapartida o Leonardo DiCaprio, coitado, continua ali naquela dolorosa labuta, a rastejar no meio do gelo e de sangue.  E, quem sabe, a esta hora, ali fora,  sob o belo céu estrelado, andam javalis a revolver a terra à procura de bolotas.

... e eu, se não me detenho, continuo nisto. Daqui a nada são três da manhã, não tarda começa a madrugar e eu ainda para aqui nesta conversa vadia convosco. Santa paciência para mim mesma.

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sexta-feira, agosto 10, 2018

Jadav Payeng, o homem que plantou uma floresta.
E eu, esta mulher que plantou um pequeno bosque.





Não há muito tempo fui entrevistada por duas psicólogas. Varreram-me a alma (varreram no sentido de scannear). Ora perguntava uma, ora outra, ora intervinha uma, ora atacavam as duas. Nem dava tempo a pensar. Pimba, pimba, pimba. Gosto de coisas destas. Não me importava nada de estar do lado de lá, a descobrir os meandros da vítima. Mas também não me importo de ser posta à prova, de ser a vítima.

Mas, no meio daquilo -- uma tarde inteira -- pede-me uma que descreva alguma coisa marcante que eu tenha feito, alguma coisa que tenha ficado. Pensei logo numa certa coisa mas certifiquei-me: 'A nível profissional?'. Elas disseram que sim. E eu fiquei com pena porque aquilo em que estava a pensar era a nível pessoal.

Conto embora acredite que adivinham.

Uma das coisas que mais prazer me deu fazer (deu e dá) -- e que haverá de me sobreviver -- foi a transformação de um terreno pedregoso com mato rasteiro e uma casa numa ponta, numa quinta rodeada por um bosque. Não sei se é correcto chamar agora quinta ou chamar bosque. Mas era o que eu idealizava e, para mim, é isso que agora existe. Já mil vezes aqui falei disso e já mil vezes contei a luta que tive que travar durante anos para conseguir levar a minha adiante. Quando o Um Jeito Manso atingiu 1 milhão de leitores, o meu filho falou nisso, relatando alguns aspectos mais pitorescos dessa árdua e empolgante fase. 

Inventei caminhos, muros, murinhos, bancos, zonas de descanso, zonas de sombra, zonas de meditação, zonas de leitura -- e agora tudo isso existe. Não usufruo da maneira que imaginei mas, para mim, o prazer está em imaginar e fazer, não propriamente em 'ter' ou 'usar'.

E imaginei grandes cedros, grandes pinheiros, grandes azinheiras, grandes eucaliptos, grandes ciprestes, e grandes arbustos de madressilva, alecrim, rosmaninho, as barreiras de rocha cobertas de hera e, também, orégãos, louro, e tudo o que ali, naquela terra, medra como se não houvesse amanhã. Imaginei e plantei e reguei e desbastei e cuidei como se fossem crianças a precisar de amparo e carinho.

Os pássaros começaram a procurar a minha casa, os coelhos já lá estavam e mantiveram-se, os gatos foram aparecendo, as lagartixas adoram andar ao sol e sei lá o que mais por lá há.

Já não tenho onde plantar mais nada e o meu marido, quando anda a esfalfar-se a desramar árvores e arbustos, ganha fúrias comigo por eu não ter descansado enquanto não florestei o terreno de ponta a ponta. Depois de me ter contrariado e tentado demover durante anos e anos, a verdade é que se habituou a amar aquele pedaço de terra tanto quanto eu. Mas claro que não é capaz de o assumir.

Se o terreno fosse o dobro ou o triplo do que é, a esta hora eu andaria a tratar de lá fazer o que fiz a este: desenhos de novos espaços, a ver onde haveria de ir comprar aquelas espécies de árvores que teria em mente, a avaliar quantos anos demoraria a vê-las garbosas e adultas. Assim tenho que me limitar a manter e a tentar conter a força desmesurada da natureza que aqui habita.

Podia também falar da casa, que era escura e triste e que hoje é luminosa, aberta ao exterior, ou do alpendre, do forno de lenha, do pequeno abrigo, do relógio de sol, da fonte, do grande portão de ferro que desenhei e que acho tão bonito, dos recantos... e da capela, pela qual lutei durante anos. 

Mas é o bosque, os caminhos atapetados, as copas frondosas e ondulantes, os mil verdes, os mil cheiros, a sombra acolhedora, o canto dos pássaros -- que mais me enchem de orgulho.

Não comparo com o ter feito, amamentado, acompanhado de perto, tão, tão de perto, dentro do coração, ao alcance dos meus abraços, os meus filhos que adoro ou, agora, amores dos meus amores, os meus queridos netos. Isso é outro campeonato e está fora de qualquer competição. 

Quando falo com amor e orgulho do meu heaven não estou a dizer que é mais ou menos do que sinto em relação aos meus amores. Não há comparação possível nem tem que haver. O meu coração e a minha alegria ou capacidade para me sentir realizada têm espaço mais do que suficientes para acomodar várias e distintas situações.


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E hoje deu-me para voltar, uma vez mais, a este tema que me é tão caro porque li, de novo, sobre Jadav Payeng, o homem que tem dedicado a vida a plantar uma floresta.  Apesar de já uma vez aqui ter colocado um vídeo sobre a sua história, trago-o de novo. Emociona-me de uma forma que não imaginam.


Transcrevo do Bored Panda:
The largest river island in the world, Majuli, may disappear. Over the last 70 years, Majuli has shrunk by more than half and there are concerns it will be submerged in the next 20 years. The island is under constant threat due to the extensive soil erosion on its banks. The reason for this is thought to be the large embankments built in towns up the Brahmaputra river to protect them during the monsoon season which redirect the devastating fury of the river to the islet. Since 1991, over 35 villages have been washed away. And while Indian authorities are trying to figure out how to save the island, its life may have even been shorter if it wasn’t for one local environmental activist.
In 1979, Jadav Payeng, then 16, encountered a large number of snakes that had died due to excessive heat after floods washed them onto the tree-less sandbar. Then and there, Jadav made it his life’s mission to save Majuli from erosion by planting trees. Working tirelessly every day, he has planted 550 hectares of forest – larger than Central Park in New York City (340 hectares). That forest is now home to Bengal tigers, Indian rhinoceros, and even a herd of over 100 elephants regularly visit it every year. 
As pessoas genuínas que se dedicam a propósitos simples como este de que aqui se dá conta emocionam-me. Partilho-o convosco. Espero que também gostem.



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As fotografias foram feitas in heaven

Lá em cima Philippe Jaroussky interpreta "Cara, la dolce fiamma" de Johann Christian Bach

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segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Domingo feliz in heaven

[Com ramen soup para o almoço]


Os que chegaram mais cedo trabalharam na queima. Os meninos levando os ramos, os mais crescidos garantindo que o fogo cumpria a sua função sem indesejadas colateralidades. De início, o fogo estava brando, parecia estar domesticado. 



Mas estava muito vento e logo depois o vento foi levantando o fumo. Talvez por ter caído uma chuvinha mansa durante a noite, o vapor que se formava era espesso, branco. Os meninos corriam em volta: a alegria dos afazeres ancestrais. Ou a atracção pelos elementos da natureza.

Entretanto, chegou o resto do bando. Ruidosos, sempre felizes por se reverem, os meninos logo correndo, brincando.

Depois o almoço. A preparação. A cozinha como ruidoso e animado cenário de colaboração. Os meninos querendo rapinar a carninha partida para a sopa ramen*. O bebé, almoçando não a sua papa mas a esmagada dos legumes usados para dar sabor à carne e os fiapos de carne lá presa. Todo contente. A mãe dizia que ele estava a comer cozido à portuguesa. Logo, logo o almoço grande. Os grandes tachos a seguirem para a sala de jantar. Sempre um momento animado, todos conversando e comendo em alegria. A seguir cantoria. Um domingo bom: todos rindo e brincando e cantando e alguns dançando. Uma festa. A lareira sempre acesa, um calor bom, o perfume da madeira de cedro.

Depois mais brincadeira. Futebol. Brincar às escondidas. Pregar sustos, perseguições, esconderijos, correrias, gritos, risos.


E já o lanche. De novo em volta da mesa. A lareira a deixar o seu calor impregnado na casa. E fotografias. A bisa pediu uma fotografia dos bisnetos. Quer ter uma fotografia grande com uma moldura bonita a servir de tampa à caixa do contador da electricidade. mas pede o impossível. primeira tentativa. Estavam ao sol, tapavam os olhos, franziam-se. Depois à sombra: ela não queria, não levantava a cara, os outros chamavam por ela, o bebé, ao colo do primo, chorava. Depois não queriam mais. Quando em casa, junto à lareira, voltei a pedir. Não queriam, fartos de tanta fotografia. Até que o meu filho teve uma ideia: depois da fotografia, um after-eight para cada um. Logo todos a correrem para a fotografia. Mas um torto, outro de olhos fechados, um atrás de outro. Acho que ainda não é desta que a bisa vai ter a sua fotografia. Não sei como algumas famílias conseguem ter os seus meninos todos arranjadinhos, sossegadinhos, numa pose bem-comportada. Na minha, isso é missão impossível.

Depois, ao fim do dia, foram. Nós dois junto ao portão a despedirmo-nos, a dizermos adeus enquanto os carros partem.

Dar uma arrumadela, ver o que há para trazer, fechar janelas e portas. Fui ver se lá em baixo estava tudo bem, apetecia-me uma volta. Levei a máquina. Já anoitecia. Os pássaros ainda cantando mas já baixinho, mais espaçadamente. Preparam-me para dormir, aquietam-se. Ao lusco fusco suspendem a festa. À minha passagem, os ruídos do costume que quase me assustam, em especial quando a visibilidade já é exígua. Bichos que correm, pássaros que se agitam.


Reparei que apareceram os primeiros lírios do campo. No lusco-fusco do dia que acabava, brilhavam imaculados, o anoitecer tingindo-os, quase azulados.

Depois, à vinda, logo que o carro arrancou, telefonei à minha mãe: já não dava para lá ir, já tarde, um pouco cansada, ainda a sopa para fazer. Mal acabei o telefonema, adormeci. Dormi profundamente durante todo o caminho. Quando cheguei, ainda estava estremunhada.

Depois assei no forno as postas de bacalhau que tinha levado para fazer de entrada, com grão. Não foi necessário, para além da ramen soup havia mais petiscos.

Também já fiz a sopa. E já lavei alguma roupa e já arrumei roupa no quarto de vestir e já separei a toilette de amanhã. E já vi as fotografias do dia. 174. Cento e setenta e quatro registos de um dia feliz.

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E já aqui volto a este post para partilhar a receita da sopa ramen

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Sopa Ramen

Foi a primeira vez que fiz. Não conhecia. O meu filho enviou-me a receita. Depois recomendou-nos um restaurante onde a têm. Fomos. Boa. Então fiz. Não estava igual mas também não segui a receita à risca.  A fotografia não é da minha sopa, é da net, já que, como sempre, mal a comida fica pronta e vai para a mesa, não há tempo para sessões fotográficas. Marcha logo.

Fiz assim:
Num panelão: água, sal, uma cebola grande, uma cenoura grande, meio nabo grande. Dois bocadões de chambão de vaca. Duas horas depois, lá para dentro, também um frango do campo, cortado aos pedaços. Por cima outra cebola, a outra metade do nabo, uns quantos feijões verdes, salsa.
Num tachinho à parte, cozem-se ovos, um por pessoa. Depois descascam-se. 
Quando as carnes cozidas, retiram-se. Depois de menos quentes, o frango desossado e a carne toda, a de frango e a de vaca, cortadas aos bocadinhos pequenos.  
Os legumes todos retirados (eram apenas para dar sabor -- mas o bebé adorou-os), a gordura do caldo deitada fora, o caldo coado. 
Num outro tacho, pouca água a ferver com um pouco de sal. Junta-se couve chinesa, cenoura cortada em esparguete. Quando volta a ferver, os rebentos de soja. Escorre-se.  
No caldo de cozer as carnes, molho de soja, vinagre, noodles de trigo com ovo. Cozedura rápida. 
Numa tigelinha cebola roxa fatiada. Noutra, coentros picados. 
Misturam-se os ingredientes apenas no momento de servir. Em cada prato, dispõem-se as carnes, os legumes (a dita couve chinesa, os fios de cenoura, os rebentos de soja -- aos quais juntei milho cozido de lata), a cebola roxa crua, os coentros, os noodles, o ovo cozido em duas metades, conchas de caldo fumegante por cima.

Bom. Saudável. 

Como sempre, sobrou um bom bocado que se separou para levarem de farnel.

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sábado, agosto 12, 2017

Lu, a mulher infiel
- O folhetim em todos os capítulos -
(A pedido de várias famílias)





É verdade, Paulo. Sou meio desorganizada, confesso (e o 'meio' é auto-simpatia minha). Quando me dá para escrever folhetins, vou escrevendo em posts avulsos e, se algum dia quiser relê-los de fio a pavio, está bem, está. 

Volta e meia os Leitores pedem-me: Porque é que, no fim, não faz um apanhado de todos os capítulos? E eu fico a pensar: Pois, devia mesmo ter alguém que me fizesse essa simpatia. Porque eu gosto é de escrever, não é de andar a organizar o que escrevo. Então, com luvas de pelica, sugiro ao meu marido: Olha lá, podias organizar um bocado aquilo. Mas nunca tenho sorte. Pergunta-me: 'Mas achas que sou maluco ou quê?'. E pronto, ficamos assim. 

Mas hoje, deu-me para ser bem mandada e, portanto, do 1º ao último capítulo, aqui estão os links para todos os capítulos da história da Lu.
E só espero que lido assim, de seguida, não apareçam inconsistências. Escrevo na hora, sem pensar, sem ler o capítulo anterior -- e, no fim, poupo-me: nunca releio. Portanto, já sabe, se der com muitos disparates, faça o favor de fazer de conta que não dá por eles. Mas se forem de susto, então, faça a caridade de me informar. Está bem?
Boas leituras (espero eu).

Lu, a mulher infiel 













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[Espero não ter saltado nenhum fascículo]

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E a si que aí está envio um sorriso e um abraço e os votos de que este sábado seja mesmo bom.

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terça-feira, junho 06, 2017

Opostos




Depois de um dia algo preenchido, já tarde, chego a casa, e, a seguir a um jantar ligeiro e a alguns afazeres domésticos, aterro neste sofá que é quase o meu ninho. 

Não me apetece falar do terrorismo que sentimos que vem chegando mais perto, não se restringindo aos lugares em que mal damos por ele (indiferentes ao facto de que é gente igual a nós que vai pelos ares ou que vive em situações de terror que não suportaríamos) para vir manchar as ruas por onde já andámos ou onde por onde andam pessoas nossas conhecidas. Não me apetece. De gente maluca quero é distância e tenho para mim que de tarados destes não se deveria fazer grande propaganda.

Portanto, fecho os olhos às notícias de primeira página. Desloco-me para outras paragens.


Vi algumas notícias que despertaram o meu interesse, nomeadamente as que referem que um certo tipo de medicação combinada está a trazer bons resultados no combate contra o cancro. Gostava de ser capaz de falar sobre o tema mas não gosto de falar sobre o que não sei e, sendo este um assunto sério demais, não me arrisco a dizer disparates. Deixo os links a quem possa interessar:


Next-generation cancer drugs boost immunotherapy responses

-- Early clinical trial data suggest that combining medicines improves treatment. --

e

Prostate cancer trial stuns researchers: 'It's a once in a career feeling'

-- Study with ‘powerful results’ finds that combining two existing therapies could extend the life of men with advanced, high-risk prostate cancer by 37% --


Tomara que sim e tomara que o que se provar que é remédio santo chegue a tempo de atalhar o mal a quem ande aflito, sentindo o horror da ameaça invisível que mina, por dentro, quem tem a pouca sorte de ser vítima deste mal desgraçado. Pelo menos, do que leio, é uma esperança muito concreta.

Mas, portanto, não sendo matéria na qual eu saiba pegar com precisão, sigo em frente.


E ocorreu-me, então, falar do tal lugar especial onde fui no outro dia, um lugar transparente num bom local de Lisboa.

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Contudo, com a preguiça que me chega mal me refastelo aqui, antes de deitar as mãos ao teclado, fui de veraneio por alguns dos blogues que nunca perco. 

E eis que, num deles, me chega um daqueles textos que nos agarra quase à bruta. O lenhador que se fez ao mar atira mágoas à pá cheia, chora afectos não expressos, com as mãos fortes e rudes de quem delas faz bom uso escreve palavras ásperas, pisa flores, fotografa lonjuras, despede-se de quem um dia viu no berço.


E, lendo a sua escrita despida fico, de repente, sem vontade de prosseguir na minha escrita. Escreve ele com sentimento quando o coração lho pede, sobre o acontecimento. Dilacerado, ele usa as palavras com a firmeza de quem sabe domar as emoções, de quem sabe controlar-se e seguir em frente. Somos tão diferentes uns dos outros.  Tão diferente de mim que, quando tenho amarguras na alma, as disfarço e por aqui me entretenho falando de doces ou travessuras, rindo ou ficcionando.

E, portanto, depois de ler deste texto arrancado da carne, sinto que tudo o que eu possa escrever me parecerá frívolo, inútil, imediatamente descartável.

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Tenho estado a ouvir Philippe Jaroussky enquanto vejo pinturas de Vermeer. 

(Não sei porquê Vermeer, mas foi o que me apeteceu. Talvez por ser o oposto do que vou escrever, tal como o que vou escrever é o oposto do texto acima referido e que tanto me impressionou)

Hesito. Ou me fico por aqui, despeço-me e vou ler -- ou regresso à minha pobre coitada triste ideia e continuo a escrever.

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Com as vossas desculpas, eu escreverei e fá-lo-ei mais pelo gosto de estar a escrever do que pela nenhuma importância do que vai ser dito. Relevem, pois, por favor, a irrelevância do que vão ler.

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Como vos referi antes, tive no outro dia um compromisso numa conhecida torre de Lisboa. Conhecia-a de passar por lá perto – aliás, grande como é, vê-se bem das redondezas – mas não sabia como, a partir de uma das conhecidas artérias da cidade, se entrava para lá. Coloquei o gps e percorrendo algumas ruas, algumas bem intrincadas, por onde nunca tinha passado, e no meio de instruções algo equívocas da menina que me guia (‘aos 20 metros vire ligeiramente à esquerda’ e eu com duas ruas a virarem ligeiramente à esquerda; ou ‘agora continue em frente’ e eu com três ruas à frente, etc) lá fui dar. Coloquei o carro no parque do edifício e de lá subi ao piso para onde me devia dirigir.


Estar num local assim é, em si, uma experiência. Ia dizer uma experiência de vida mas claro que isso é estupidamente excessivo. O que sei dizer é que é uma sensação agradável estar num local como este. Tudo envidraçado, visibilidade a toda a volta, uma sensação de quase levitação. Materiais notoriamente de boa qualidade, bom gosto nas escolhas. Depois, dentro do sítio onde propriamente me dirigi, um requinte de decoração. E uma simpatia no atendimento. Mas uma simpatia afável, natural, sem aquele toque de afectação que por vezes se encontra nestes locais. Num outro onde vou com alguma frequência, a pessoa que vem receber-me e levar-me à sala de reuniões parece uma viscondessa ao pé de mim que, inevitavelmente, ao pé dela, me sinto quase uma sopeira (sem ofensa para as sopeiras). Mas neste tal sítio não. Há jovialidade e mesmo um toque de informalidade que nos faz sentir muito à vontade. 

A pessoa com quem eu ia encontrar-me veio esperar-me, uma simpatia. Tudo decorreu muito bem, tudo muito terra a terra mas com naturalidade, com risos frequentes.


Quando saí, no elevador, encontrei uma conhecida actriz de telenovela, elegante, vistosa, loura, bronzeada, e toda ela se sorriu, simpaticamente dando-me os bons dias. Noutro piso entrou uma mulher muito alta, muito loura, muito bonita, com um vestido muito curto de crochet branco, toda ela transparência, com umas botinhas de pele clara. Parecia a Bo Dereck nos seus tempos áureos. Simpática também. Reparei que tinha o lábio superior levemente tumefacto e que sorria com algum comedimento. Provavelmente teria um botox recente. E eu, no elevador, nada bronzeada, vestida banalmente, entre aquelas duas beldades -- que pareciam saídas de Hollywood e a caminho de um spa ou de uma vernissage, nem sei, tanta a frescura e leveza que lhes senti – tentei não me sentir deslavada, apesar de saber que não poderia negar que trazia colada à pele a imagem de uma monotonia confrangedora, tendo que ir trabalhar para um escritório, levando uma vida banal, desprovida de glamour. 

Não sei se por isso, se por já ter alguma fome ou o quê, não sei que sinal de trânsito é que é que não vi que, tentando sair das ruas envolventes do edifício, me vi em sentido proibido sem espaço para inversão e com carros que não paravam de vir em sentido contrário. Depois de a muito custo me conseguir realinhar com o sentido do trânsito, não conseguia perceber como sair dali para voltar a entrar na avenida. Enfim, depois de algumas voltas, lá consegui lá chegar mas no sentido oposto àquele para onde queria ir e sem possibilidade de inversão. Tive que andar uns quilómetros para chegar a uma rotunda onde consegui finalmente pôr-me no sentido pretendido. 


Quando já reinstalada no meu poiso, pouco depois já estava a receber por mail um relatório relativo ao tema que lá me tinha levado e um pouco depois já estava a receber uma chamada de outra pessoa para combinarmos um próximo encontro. Uma eficiência elegante, compaginável com a distinção e modernidade do local onde tinha estado.

Já lá voltei. Desta vez consegui lá chegar com alguma facilidade. Enquanto esperava pelo elevador, no parque subterrâneo, chegou uma outra mulher. Olhei-a e foi uma daquelas situações em que uma pessoa quer ver mas sem ser apanhada a olhar. Corpinho delgado, sem uma gordura que se percebesse. Anca estreita, seios pequenos. Um vestido de renda em azul alfazema. Renda forrada dos seios até á orla da saia, ligeiramente acima do joelho. Vestido justo de manga curta, um cinto fino na cintura. Saltos altos, uma carteira linda. Toda ela uma elegância aterradora. Um cabelo impecavelmente penteado, o rosto maquilhado mas com suavidade. Parecia uma boneca, linda, elegantíssima. Uma vez mais me interroguei: mas para onde vão e de onde vêm estas mulheres tão bonitas, tão bem arranjadas? Quando íamos no elevador, ela sem me ver e eu a desejar-me invisível, sentindo-me em estado quase selvagem, imprópria para frequentar lugares daqueles.


Depois, o meu compromisso: outra vez um momento agradável, como se estivesse a experimentar um bocado de tempo numa civilização mais à frente.

Não é que o país não esteja todo ele mais moderno, mais elegante e simpático. Está. Não é apenas Lisboa que está uma formosura, é todo o país. Quando dou os meus passeios pelo país o que vejo são terras bem arranjadas, gente simpática, tudo acolhedor. 

Mas, ainda assim, há locais que se distinguem. Relativamente habituada a frequentar locais com alguma sofisticação devo dizer que, das duas vezes, saí deste de que estou a falar com a sensação de ter estado algures numa outra galáxia, onde tudo se aproxima da perfeição – até as pessoas que o frequentam, com excepção desta vossa humilda serva.


Como daqui por algum tempo lá vou voltar, a tentação é fazer uma reportagem para vos mostrar -- mas não sei se será inconveniente tirar fotografias. O melhor é não fazer isso senão ainda sai da parede algum segurança para me levar para alguma masmorra (transparente, requintada, intergaláctica) onde, para meu castigo, me põem a ver desfilar as mulheres belas e irreais que sabem comportar-se em lugares daqueles, para eu perceber que, enquanto não lhes passar dos calcanhares, não poderei lá voltar a pôr os pés.

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E agora é que já chega. 
Saíu um post em que nada tem a ver com nada. E nada a fazer.

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Dias felizes a todos quantos por aqui passam.

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quarta-feira, maio 24, 2017

Só lhe queria dizer que comigo, o que me salvou foi o amor, o dos outros por mim e o meu pelos outros, e não conheço muitas mais curas.
-- Escreveu uma Leitora num mail que li com emoção.





Foi levar-me documentos para eu aprovar e, como muitas vezes acontece, ficou à conversa. Gosto de conversar com ela. Deve ser mais ou menos da minha idade, talvez uns dois ou três anos mais nova que eu. Trabalha numa outra área da empresa. É uma pessoa genuína. A única coisa que, por vezes, me perturba na conversa é ter uma certa tendência para pôr as palavras no diminutivo. Mas faço por superar. Gosta também de descrever as conversas que tem, relatando-as em discurso directo. Quando tenho pouco tempo, aflijo-me por dentro -- porque não a quero interromper -- pois o detalhe faz com o tema se espraie e eu, nas minhas pressas, não vejo fim à conversa.

Mas o que diz interessa-me sempre.

Ao fim de semana ela e o marido vão amanhar a terra. Percebo  que é um bocado de terreno relativamente perto da casa, num dos subúrbios da grande cidade. Desta vez foram apanhar batatinhas pequeninas. Depois assou-as no forno, com frango. Batatinhas pequeninas, das novas, diz-me ela. E, então, estavam lá na apanha, o marido diz-lhe: 'Olha, vai espreitar lá ao fundo' e, pela cara dele, ela percebeu logo que ele lhe reservava uma surpresa. E, conta-me ela, foi andando até que, ao fundo, viu uns arbustos, quase uma trepadeira. Faz uma pausa e pergunta-me: 'Está a ver as moitas de silvas que dão amoras...? A diferença é que as framboesas são maiorzinhas, mais encarnadas. Plantou, deixou que crescessem, tudo para me fazer surpresa. De longe gritou para eu ver se estavam boas. Oh se estavam. Comi as mais pintadinhas. As outras tapei-as com folhas a ver se os pássaros não dão por elas, a ver se ainda há algumas no fim de semana'.

E ouço-a e quase parece que me ouço a mim.

A conversa corre neste comprimento de onda. Pelo meio, enuncia-me receitas, desta vez eram os legumes num tabuleiro debaixo do frango, um limão e uns dentes de alho dentro do frango, o frango lavado com azeite, sal e louro. Explica tudo muito bem.


Conheço-a há quase vinte anos. Nunca a ouvi dizer mal de ninguém. Enquanto fala sorri. O seu trabalho por vezes é rotineiro e frequentemente intenso. Não se queixa. 

No outro dia calhou ficarmos as duas numa sala, a participarmos numa sessão por videoconferência. Criaram uma amostragem e estão a testar uma iniciativa, ouvindo antes a reacção de um grupo de pessoas. Do nosso local de trabalho, saíu a rifa a nós duas, eu na qualidade de dirigente, ela na qualidade de pessoa sem cargos de chefia. Entrosámo-nos muito bem e as nossas opiniões tiveram, como sempre, grandes afinidades. A forma como ela compreende as dificuldades de quem manda mas que está também sujeito a regras e condicionamentos quase me comove. 

É daquelas pessoas que tem uma energia positiva que faz bem a quem a rodeia. De vez em quando tem problemas de saúde mas ultrapassa-os com uma leveza que surpreende. O responsável pela área na qual trabalha, por vezes comenta isso comigo: 'Qualquer outra no lugar dela... e no entanto aí anda, sempre sorridente'. 


Uma vez estava muito preocupada com a mãe. Magra, cada vez mais magra, sem apetite, parecia que tinha uma coisa ali atravessada -- contou-me ela no meu gabinete, numa tarde. Quando a conseguiu convencer a ir ao médico, já era tarde demais. Um médico dizia que era de operar, um outro que era melhor não mexer. Ela aflita. O que fazer perante duas opiniões contrárias? Que se conhecesse alguém de confiança... Disse-lhe, então, que uma pessoa próxima é dessa especialidade, que podia ligar a ver se a podia receber. Liguei. Que ela fosse com a mãe ao hospital e que levasse os últimos exames. Foi. A mãe ficou logo lá. Pediu sinceridade total e teve-a: pouco tempo de vida, nada a fazer, apenas atenuar o sofrimento. Ela prostrada, num desgosto. A mãe ficou lá até ao fim. Fui levá-la algumas vezes ao hospital, outras buscar. Um dia ligou-me, era dia de Páscoa: o que se esperava tnha acontecido, a mãe tinha morrido. Dias depois ligou-me de novo: gostava de oferecer uma coisa ao dito médico, queria agradecer o carinho e cuidado dele com a mãe, desde o primeiro ao último dia. Disse-lhe que não, que não era pessoa que esperasse isso. Mas ela insistiu, que não imaginaria o sofrimento ainda maior da mãe se não tivesse estado tão bem acompanhada.

Por indicação médica, por prevenção, foi fazer ela um exame. Uma coisinha, contou-me ela. Biópsia. Positiva. Teve que tirar. Dias depois, já a trabalhar, animada, que felizmente tinha dado com aquilo a tempo. Depois tratamentos e ela sempre serena: tive sorte, grave é quando não se detecta a tempo.

Contudo, aqueles dois meses da mãe arrasaram-na. Diz que só se lembrava da mãe a definhar, já sem força para andar, sem conseguir comer nem reter comida no estômago. Custava-lhe aceitar como, antes de se ter descoberto, nunca lhe tinha passado pela cabeça uma coisa destas. Diz que há que tempos que a mãe se queixava que parecia que andava sempre cheia, que parecia que andava enfartada, sem fome nem vontade para nada. E nem a mãe, nem o pai nem ela atribuíram importância a isso. Pensava que, se tivesse percebido antes, talvez a mãe tivesse salvação. Com estas ideias a corroerem-lhe a mente, arranjou uma depressão. Reconheceu que não estava bem, tratou-se, esteve um mês de baixa. Veio outra vez igual, bem disposta. 


Depois os problemas com o pai. Viúvo. Ficou maluco, diz ela. Anda com mulheres, gasta dinheiro, deixa-se enganar, não aceita conselhos, não ouve ninguém. E ela sempre com tranquilidade: 'Deixa-o, é a vida dele, também não estou a fazer conta com o dinheiro dele'. Um dia o pai ligou-lhe, que tinha ido ao supermercado com a romena que estava de mulher-a-dias (mulher-a-dias e não só, comentava ela) e, quando chegara a casa, não tinha janelas, tinham-lhe roubado as janelas e as portadas de alumínio. Quando me contou, dizia ela: 'É bem feita para aprender a não meter qualquer uma dentro de casa. Ninguém me tira da cabeça que foi armação dos romenos, tanto mais que a romena nunca mais lá pôs os pés. Mas vá lá meter-lhe isso na cabeça...' 

Pelo natal faz filhoses, umas com recheio, outras simples, e sonhos. Faz sempre a mais para nos levar. Deixa na copa uma caixa para nos banquetearmos. Espreita no meu gabinete e diz . 'Há-de passar pela copa'. E eu passo.

E eu também lhe conto dos meus pais, da minha lida no campo, das receitas que invento, dos miúdos. E falamos de como por vezes, parece que é quando o tempo muda, temos dores nas articulações e ela conta-me do que lhe faz bem e tem sempre mezinhas que me parecem fundamentadas e que, por vezes, sigo. E coisas assim.

Em tantos anos, nunca falámos de política, de literatura, de economia. Nem de comentadores de televisão. Nem de tantas coisas que aparentemente me são caras. E, no entanto, gosto tanto de falar com ela. Nas nossas conversas parece que só falamos da vida, da vida sem filtros, sem intermediação.


E isto que estou a escrever também não tem nada que se lhe diga e, mais que certo, espremido vale zero -- mas eu tenho esperança que, por vezes, estas minhas conversas à toa digam qualquer coisa a algumas pessoas que me lêem.

Ontem escrevi aquilo de alguns distúrbios mentais não serem visíveis a olho nu e hoje recebi um mail que me tocou: uma pessoa dizia que reconhecia a doença da prima do meu amigo, que ela também a tinha tido mas que acreditava que a tinha superado, e contava como o amor de quem a apoiou foi relevante na sua cura. E terminou o mail agradecendo-me: 'por ir chamando a atenção dos leitores do seu blog para estas questões que fazem parte da vida de todos'. E eu, lendo este mail, fiquei comovida e a pensar que vale a pena estar aqui a escrever -- frequentemente cansada, o corpo a pedir-me descanso -- se, por vezes, as minhas palavras confortam alguém ou chamam a atenção para os problemas invisíveis para quem não os consegue sentir (ou pressentir) mas que podem machucar a vida de quem os vive ou que com eles convivem de perto.


E eu sinto-me agradecida perante quem me lê e me diz que gostou de ler.

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[Se eu pudesse trincar a terra toda]


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[E peço mil desculpas por andar sem conseguir responder a mails e comentários. Ando com muito sono e escrever um post a dormir ainda vá que não vá. Mas já uma resposta requer cuidado para não parecer desmazelo se a resposta me sair com letras trocadas ou palavras a menos]

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As fotografias foram feitas no fim de semana, in heaven.

De Hahn, "L'heure exquise" numa interpretação de Philippe Jaroussky

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Talvez até já

(Ou até amanhã -- se fizer caso do que hoje me recomendaram: que durma mais, que me deite mais cedo a ver se deixo a  melatonina trabalhar à vontade)

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quinta-feira, julho 21, 2016

O que poderia ser um passeio para fazer com tempo


Sintra


Gosto muito de passear. Quando penso em ir, não me ocorre muito ir de avião, muito menos de barco, mas, sim, de carro. Ou seja, o que me parece natural é ter comigo o meu próprio meio de locomoção.

O meu marido em tempos tinha a ideia de ter um daqueles carros-caravana. Um primo nosso tinha um, com beliches, cozinha, uma salinha, casa de banho. Gostavam daquilo, eles. No entanto, isso a mim nunca me atraíu muito pois limitar-nos-ia a ter que procurar parques de campismo. Uma colega minha aluga uma coisa dessas e vai com o marido e com os filhos e diz que, por vezes, ficam mesmo nas cidades. Mas não sei. 

Parece-me que ir num carro normal e ir dormir a hotéis é mais tranquilo e nos dá mais liberdade.

Torre em Belchite, Espanha, destruída durante a Guerra Civil


Também gosto de andar de comboio, gosto até muito, mas acho que o comboio é bom para viagens ponto a ponto. É que, se o percurso pretendido é variado, a rede nem sempre nos leva onde queremos ou implica muitas mudanças. Ou seja, quando estou no ir é em ir de carro que penso. O problema é que sendo as férias curtas, ir de carro tem a limitação do tempo. Ou seja, só limitações, umas por razões profissionais, outras por razões familiares.

Dantes viajávamos bastante. Agora, desde o AVC do meu pai, faz-me impressão ir para longe e, por isso, poucos passeios temos feito. Fazemos cá em Portugal e bastante que gosto deles, o nosso país é lindo. Contudo, sinto a falta de me pôr ao largo.

Hotel del Salto, Colômbia


Para me animar, penso, então, que um dia que estejamos de férias todo o ano, haveremos de fazer os passeios que quisermos.

Um que eu gostaria de fazer, seria ir visitar belos lugares abandonados. Fascinam-me esses edifícios que, um dia, foram imaginados para serem vividos em felicidade e que, fruto das circunstâncias, se viram sem ninguém e que, apesar disso, apesar das inclemências do tempo ou da força da natureza, resistem, mostrando ainda vestígios da sua antiga beleza.

Claro que isto sou eu a sonhar porque, se lá fosse, a esses lugares misteriosos e decadentes, haveria de ter medo de lá entrar, medo que as paredes ou os tectos ruíssem, medo que aparecessem monstros, espíritos, gente fora do mundo, tigres azuis, vozes sem corpo, assustadoras respirações.

Uma solitária e esquecida igreja em Frnça

Um dos locais que, ao ver as fotografias, me inquietam e, ao mesmo tempo, mais despertam a minha curiosidade, é a infinita escada para o paraíso. Na origem da sua construção estiveram motivos bem prosaicos e, na prática, o que se pode dizer é que terá sido um projecto falhado. De manutenção difícil e muito perigoso, há formas mais expeditas e seguras de chegar ao cimo do monte. Mas, abstraindo-nos desse lado mais pragmático, é uma constução maravilhosa com quase 4.000 degraus.

Stairway to Heaven’, Oahu, Hawaii
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Talvez um sonho. Talvez uma impossibilidade eu ir um dia ver sítios assim. Talvez nunca passe disto, de ver as fotografias destes lugares solitários, belos, que resistem à decadência que o impiedoso devir do tempo lhes reservou. Não faz mal. Também gosto de imaginar e de ir viajando pela internet, vendo fotografias, descobrindo lugares mágicos que talvez um dia recuperem a vida que conheceram em dias felizes. Ou que vão acabando aos poucos, dust to dust.

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Edifice


Dirigido, editado e filmado por Rogerio Silva
Coreografado e interpretado por Carmine De Amicis e Harriet Waghorn 
Música de  Alaskan Tapes "Then Suddenly, Everything Changed"

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E queiram, por favor, descer para uma paródia encenada para gozar com a confirmação do clown Trump para canditado conservador à presidência dos EUA. Parece anedota. Parece mesmo.

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