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quarta-feira, abril 17, 2019

Carta de Paulo* aos políticos e aos capitalistas hipócritas






Permita-me algumas considerações pessoais sobre o debate em torno da “Sustentabilidade do sistema de pensões português”. Não sou especialista na matéria e, correndo os riscos de imprecisão de um leigo, procurarei apenas com as minhas considerações pessoais ancoradas no tal estudo demonstrar que o grande problema do estudo não é “técnico” mas político. 

O “crime” cometido pelos autores e promotores do estudo é exatamente procurarem esconder a relação – incontornável – entre a economia (enquanto ciência) e a política.

Ora, os estudos em ciências sociais (e na economia em particular) adotam necessariamente um conjunto de pressupostos e assumpções as quais, na generalidade, podem facilmente ser associadas a determinadas opções políticas.

Neste estudo em particular as conclusões são facilmente explicáveis desde logo pelos pressupostos explícitos (ou seja, sem analisarmos os implícitos): consideram-se a) a imutabilidade das regras atuais do sistema, b) baseia-se num determinado cenário de projeções demográficas e c) assenta numa análise da evolução da economia no que concerne apenas ao emprego e salários.

O que salta logo à vista neste trabalho é uma análise cuidada dos diferentes efeitos associados à evolução da produtividade e à consequente distribuição da riqueza gerada.

- Para começar, mensurar a produtividade não é tão simples como possa parecer. O estudo adopta a perspetiva salários+contribuições sociais / hora trabalhada. Ora, este indicador é especialmente indicado para avaliar a resistência de uma dada opção política estabelecida face a possíveis efeitos exógenos. Por exemplo, a produtividade mensurada pelo PIB / horas trabalhadas dá-nos, naturalmente, perspetivas diferentes sobre a economia como um todo e é especialmente útil para analisar diferentes opções políticas face a um mesmo cenário.
https://data.oecd.org/lprdty/gdp-per-hour-worked.htm#indicator-chart 
Um dos argumentos do estudo para os resultados negativos do atual sistema de protecção social é uma evolução muito comedida do primeiro indicador de produtividade que referi. No entanto, um comportamento negativo deste indicador não tem de representar necessariamente uma baixa geral da produtividade dos trabalhadores (ou seja, não tem de ser propriamente “negativo”). De facto, tal poderá ocorrer por motivos positivos (por exemplo, redução do horário de trabalho mas manutenção dos níveis remuneratórios). Infelizmente, os motivos negativos provavelmente são os mais prováveis: uma tendência de moderação dos salários e contribuições, mantendo-os sistematicamente abaixo da evolução do produto interno bruto (ou seja, uma diminuição do bolo que é produzido atribuído aos trabalhadores…). Assim, um dos primeiros pressupostos questionáveis do estudo é considerar que os cidadãos vão permitir uma perda dos ganhos crescentes associados ao cada vez maior volume e valor da produção (que pode ser obtido por via da crescente automatização e robotização de muitos processos produtivos num período em que transitoriamente os trabalhadores não terão as competências necessárias para abraçar os novos trabalhos que surgirão na economia – e note-se que até estou a pressupor que no longo prazo não haverá propriamente uma destruição de emprego por via da robotização, mas no curto / médio prazo acho-a inevitável. 

Vamos agora às questões de distribuição.

As contribuições para a segurança social somam apenas 9,3% do PIB (valor que não tem registado grandes alterações desde 2000), sendo uma das percentagens mais baixas da Europa.
https://data.oecd.org/tax/social-security-contributions.htm 
Ora, não vejo porque devemos admitir que esta opção política de colocar em segundo plano o esforço coletivo na construção do sistema de segurança social não se irá alterar. De facto, poderá alterar-se de muitas maneiras. Podemos, claro, privatizar o sistema, o que provavelmente tornará o sistema mais caro e, desta forma, para os mesmos níveis de protecção, necessitaremos de gastar mais. Mas podemos admitir também que a segurança social passa a ser um dos grandes desígnios de política pública e, das duas uma, admitimos um aumento da carga fiscal (com a contrapartida de um sistema melhor e mais robusto) ou, mantendo a mesma carga fiscal em % do PIB, abdicamos do papel do estado noutras áreas geridas pelo estado. Note-se, no entanto, que o estudo refere, no cenário mais negativo, a necessidade do orçamento de estado transferir para a segurança social o equivalente a 5,2% do PIB. Ora, independentemente deste valor ser obtido por via do aumento de impostos ou realocação da despesa do estado, isto colocaria o peso relativo do financiamento da segurança social ao nível do que se regista hoje em países como a Alemanha, Eslovénia ou República Checa. Nada de extraordinário portanto.

Por fim, olhemos para o problema concreto do financiamento indexado às compensações por trabalho recebidas pelos trabalhadores assalariados (salários mais contribuições para o sistema de proteção social). O indicador que mede o peso dessas compensações em função do valor acrescentado produzido pela economia tem vindo a cair ligeiramente (de 54,92% do valor acrescentado em 2000 para 50,12% em 2015 e uma ligeira recuperação para 51.87% em 2018. https://data.oecd.org/earnwage/employee-compensation-by-activity.htm#indicator-chart Ora, estes dados sugerem que um dos grandes problemas do sistema de segurança social pode ser exatamente a cada vez menor repartição do valor acrescentado produzido com trabalhadores; como o financiamento da segurança social é sensível à alocação de recursos que a economia coloca nos trabalhadores, se estes recebem uma proporção cada vez menor, naturalmente o sistema, num momento de transformação demográfica, ver-se-á sobre pressão (lembra-se daquela medida fantástica do Passos Coelho de diminuir drasticamente as contribuições asseguradas pelas empresas por cada trabalhador e aumentar as contribuições diretas do trabalhador? Vinha exatamente acelerar este fenómeno de realocação dos recursos produzidos pela economia, beneficiando a empresa e os seus proprietários). Claro que a direita argumenta que é necessário dar uma parte maior do bolo às empresas, para elas investirem e fomentarem o crescimento económico; dando crédito a esta ideia peregrina em Portugal… eu diria… sim, tudo bem, mas não vamos financiar as empresas à custa da segurança social! (e depois são os “ciganos” que vivem à custa da segurança social…)



Agora que descasquei no estudo, vamos ao que interessa mas que os senhores do estudo se esqueceram – bem como a maioria dos actores políticos no geral: existem mudanças importantes / opções políticas “indirectas” que poderiam ser adoptadas e ter efeitos muito positivos sem mudar por aí além o sistema atual (ou seja, como os senhores do estudo fizeram, assumindo o sistema atual como ele é e atuando noutras variáveis do sistema socioeconómico que alterem, de alguma forma, os pressupostos base adoptados nas previsões que fizeram). De entre essas alternativas destaco algumas que poderiam permitir aumentar significativamente a eficiência do sistema contributivo atual:

- Acabar com grande parte dos inúmeros regimes de exceção de contribuições para a segurança social, os quais abrangem desde a) isenções a empresas como forma de estímulo ao investimento e à contratação (note-se que não falo acabar com estímulos ao investimento, mas sim que os mesmos não sejam financiados pela segurança social!) até b) os regimes de trabalho não reconhecido – puxando a brasa à minha sardinha – como é exemplo os bolseiros de investigação (mais de 25 000 que não contribuem durante anos para a segurança social, na fase da sua vida em que mais “lucro” dariam ao sistema! Estamos a falar de valores que devem andar na ordem dos dez milhões de euros por ano, que o estado desvia da segurança social para outras despesas públicas… ou seja, mais uma vez, fazendo outras políticas públicas com o financiamento que deveria ser direcionado para a segurança social!)

- Tornar os sistemas de proteção social na doença mais eficazes. É necessária uma “reforma estrutural” enérgica nas condições de segurança e higiene no trabalho: continuamos a ter estatísticas negras de acidentes de trabalho e a eficiência de utilização dos seguros de acidentes de trabalho está longe de ser efetiva (acabando quer por o serviço nacional de saúde ser onerado em muitos casos sem ser ressarcido pelas seguradoras, quer a própria segurança social que acaba por assegurar prestações e afins que deveriam ser asseguradas pelas seguradoras!). 

- Tornar o sistema de protecção no desemprego muitíssimo mais eficiente e focado naquilo que é essencial: requalificar a força de trabalho, diminuindo dessa forma as probabilidades de desemprego e aumentando o valor acrescentado que o trabalhador pode oferecer ao sistema produtivo. O sistema de proteção no desemprego atual está inundado de ineficiências – desde colocar os desempregados em formações curtas, de qualidade e utilidade questionáveis, desarticulando / segregando os desempregados socialmente, colocando os desempregados a cumprir exigências absurdas e descabidas (como a caça ao carimbo em empresas para comprovar a procura ativa de emprego) e terminando nos benefícios fiscais (mais uma vez redução ou isenções nas contribuições para a segurança social dos empregadores) na contratação de desempregados, sem que se garantam exigências como contrato sem termo, taxa de rotação reduzida, etc.


Desculpe(m) o longo comentário mas é um tema que me interessa e que me preocupa, pelo que não podia deixar de debater. E desculpe(m) a escrita enrolada (é texto bruto, sem revisão).

Permita-me só mais um comentário:

As conversas criticas / miserabilistas que refere não são propriamente uma inveja genuína sobre quem ganha razoavelmente. Essas conversas, parece-me decorrem de várias situações, das quais destaco: 1) as pessoas têm rendimentos miseráveis (o rendimento declarado por 72% dos agregados familiares não vai além de cerca de 1300€/mês mais coisa menos coisa!! cerca de 650€/mês/pessoa num agregado com dois elementos que obtém rendimento), pelo que acaba por ser difícil de compreender e aceitarem as decisões de consumo de outros que os rodeiam (até porque as condições miseráveis tornam as pessoas muito mais dependentes umas das outras e isso leva-as a criticar a pessoa que compra um livro e depois dá o golpe no autocarro e não paga o bilhete...); 2) as pessoas têm ambientes de trabalho muitas vezes inacreditáveis, convivendo com desigualdades gritantes no dia-a-dia, inclusive com a ostentação agressiva de pessoas que ganham pouco mais que elas mas o suficiente para investirem na ostentação e em mecanismos de uma patética demonstração de estatuto; e isto nem é tão pronunciado na grande empresa, onde o tal CEO , filho do patrão, ganha 153x (tipo pingo doce) mais que o empregado caixa (mas nunca se cruza com este e até mostra um certo low profile quando isso acontece) [se bem que me recordo do recente caso do senhor da altice que veio visitar o centro de investigação e desenvolvimento da empresa que comprou (PT), de helicóptero, com aparatos de rock star... e passado uns tempos desatou a despedir malta de forma agressiva... e estamos a falar de malta altamente qualificada nas tecnologias de informação... ], mas por vezes não se imagina a violência dessa ostentação agressiva a que as pessoas são sujeitas na "chafarica" da porta ao lado, onde trabalham, numa pequena / média empresa familiar, em que 50% dos funcionários são familiares em primeiro ou segundo grau, que não cumprem códigos do trabalho, de segurança e higiene, etc (e o nosso tecido económico é maioritariamente constituído por pequenas e médias empresas).

Sim, por cada exemplo mau, acredito que haja pelo menos um bom. Mas ainda assim... para quem vive com a corda na garganta todos os meses até o mais ínfimo luxo (um livro) pode ser uma "afronta". 



A classe média é importante sim. Mas infelizmente ela é muito reduzida e não tem propriamente aumentado. O que temos é muitas situações miseráveis e uma massa de malta remediada mas que tem pouco autonomia, depende muito da decisão do vizinho do lado (porque se ele se mostrar muito aberto a luxos, aumentam o pão...) e por isso pouco racional nas observações que faz sobre a vida dos outros.

Um problema complicado!




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* O texto que acima transcrevi é da autoria de Paulo Batista e gostei tanto de lê-lo que tomei a liberdade de o puxar dos comentários do post dos 'misteriosos pobrezinhos'  aqui para cima.

Fui intercalando pintura contemporânea da Argentina apenas porque me apeteceu ter aqui cores vibrantes e juntei-lhe Itzhak Perlman a tocar o meu tango preferido  só porque sim.

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Posfácio de Paulo Batista, depois de reler o texto publicado:


Acabei de reler o texto.

Desde logo fico preocupado: a displicência "gramatical" com que escrevo nos comentários deixa-me envergonhado exposto assim. Desculpe (e desculpem) o menor cuidado.

Fazendo alguma autocrítica ao texto, não posso deixar de salientar que talvez tenha sublinhado demasiado um certo conflito trabalhador versus empresa, quando não é tanto esse o ponto fulcral. Por exemplo, quando falo na opção de aumentar a carga fiscal não é tanto nesse dualismo trabalhador vs empresa. De facto, não sublinho o problema essencial que não permite que tal medida possa sequer ser equacionada: as enormíssimas desigualdades de rendimentos dos indivíduos e, sobretudo, a enormíssima desigualdade na taxa de esforço nas contribuições. Ou seja, o foco não é tanto um problema na divisão do bolo entre os trabalhadores e a empresa em abstracto, mas o comportamento, cada vez menos solidário, dos indivíduos que lideram essas mesmas empresas - não só aqueles que delas extraem o grosso dos seus rendimentos, mas também daqueles que as lideram, extraindo um quinhão substancial do rendimento gerado (os tais que ganham 153x mais que os trabalhadores que menos recebem). 

São estes grupos de indivíduos que não só recebem uma proporção pornográfica do rendimento, como ainda por cima contribuem substancialmente menos que a generalidade do trabalhador assalariado de baixo e médio rendimento - ou seja, são estes que subtraem a responsabilidade social das empresas que lideram em benefício próprio.

Alarmante ainda é a completa cegueira política, não só sucessivamente incapaz de desenhar soluções para esse problema, de redistribuição dos esforços, como tendo vindo a promover exatamente medidas que amplificam estes problemas. 

O problema não é assim tanto de desigualdade entre trabalhadores assalariados ou até dos esforços contributivos genéricos / proporções dos contributos trabalhadores vs empresas (enquanto instituição coletiva). O problema está nestes buracos negros de privilégio - dos monopólios entregues pelo estado e por ele protegidos, das suas concessões e parcerias ("público - privadas"), das suas ações de discriminação "positiva" desses mesmos "rendistas" (o caso do imobiliário é gravíssimo embora se fale pouco por desse fenómeno...), da proteção dessa elite "gestionária"(nomeadamente, da elite financeira / bancária), (etc etc etc), porque a estes "buracos negros" estão associados esses indivíduos que subtraem a esmagadora maioria do rendimento gerado, fazendo-o desaparecer (tantas vezes legalmente!), sem qualquer contribuição.

Concluindo, coloquei demasiada ênfase naquilo que são opções políticas, quando na verdade faltam até as condições de base para essas opções políticas serem discutidas. 

Um problema ainda complexo... 

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Do orçamento, da carta de Bruxelas, das comentadeiras excitadas, do merceeiro, do que queria ser primeiro-ministro, do queixinhas de Bruxelas, da Avoila laranja, das estátuas tapadas e dos aviões, das Barbies da coxa grossa e mais uns apanhados
-- tudo ao som de um afinado coro em versão gospel (faz de conta, claro)


Bem, agora que já despachei o expediente -- e esclareci porque não publico alguns comentários e, a propos (a propósito e, já se sabe, porque gosto de me armar em inteligente...), falei do perigo dos buracos negros -- parto para outra. De novo com vossa licença, cá vou eu. E vou numa boa, numa boazinha mesmo. Podem crer.



Estive aqui a hesitar sobre se deveria falar do orçamento e da pseudo guerrilha entre o Governo e Bruxelas ou da comichãozinha frenicoquenta que muita comentadeira anda a sentir na ponta da língua e da quase petite mort dos direitolas que se têm andado a sentir tão mal amados e que agora estão em festa -- mas falar sobre coisa-pouca só mesmo quando me sinto poucachinha e, fazer o quê?, hoje estou muito abaixo disso.


Também pensei: ah, vou falar da miúfa que essa gente tem toda de quem fala estrangeiro, anda de fato e tem ar de mandar. Ah, vou falar de como, às primeiras perguntas dos burrocratas, já estão todos a baixar as calcinhas e a pôr-se a jeito. Mas não, isso é quando me dá para o profano e eu estou estou a sentir-me especialmente santinha.

Poderia falar também duma coisa que arreliou tanta gente: o ressuscitamento daquele patriota (de plástico, para ser mais barato) que mudou a sede fiscal para a Holanda para optimizar os impostos. Mas não, isso seria se eu hoje estivesse com vontade de ser má e não, hoje, como lá acima declarei, estou muito boazinha (para ver se não irrito nenhuma leitora mais sensível).

Poderia também falar desse putativo primeiro-ministro que nunca mais ninguém empossa, o tal homónimo que dá mau nome ao original, o poeta, e que, quando quer sangue, vai desenterrar o merceeiro. Mas cascar no jornalista que gosta de se disfarçar de economista é nos dias em que estou com o diabo no corpo. Hoje não, hoje estou mais para Irmã Lúcia, peace and love, brothers.

Podia, também, falar de um catraio que, desde que encolheu, parece que ficou despassarado daquela cabeça, o cabelo que o diga que nunca mais conseguiu assentar. Há bocado estava ali num painel, todo ele fricotes e perlapié ossudinho, e eu só ouvia o meu marido a dizer que, se tivesse que debater alguma coisa com ele, teria que se conter muito para não lhe dar uma cabeçada. Liberdade verbal dele, claro, que não é homem para dar uma cabeçada num pobre coitado, tão frágil. Deixá-lo andar lá por Bruxelas, armado em menino-queixinhas.

E, obviamente, podia (e devia!) falar da nossa bela Avoila que, depois de ter estado a hibernar durante a era lapariana, saíu da letargia para regressar à luta. Estão em greve, querem as 35 horas semanais de volta - e já!, antes que escaqueirem tudo. O novo Governo está em funções há meia dúzia de dias mas, pelos vistos, segundo a bela Avoila, já deveria ter feito tudo o que tem para fazer nos quatro anos da legislatura. Podia, pois, falar sobre isso, mas isso seria se estivesse em onda orange, mais orange que a bela sindicalista que tão amiga foi do Láparo e do já saudoso Irrevogável. E não, hélas, hoje estou branca, branquinha, alva, inocentezinha, quase virginal mesmo.

E podia também falar das estátuas tapadas com medo do outro lá do Irão que veio às compras e só de uma assentada encomendou para cima de cem aviões. Toda a gente escandalizada, que servilismo! e mais não sei o quê. A ver se ele viesse cá para meter dinheiro no Sporting, se o Bruno de Carvalho não tapava o Jesus da cabeça aos pés, ai não. Mas não vou falar disso, não percebo nada de ayatollahs. Eu, é sabido, sou mais bolos.

Também podia falar das Barbies que agora já não são todas parecidas com a Margarida Rebelo Pinto, todas magrinhas, descoradinhas, chiquérrimas, boas escritoras e tal: não senhora. Agora já são como as mulheres vulgares: há-as em versão coxa grossa, pele marron, mal-jeitosa, porta-chaves, etc. Não sei onde é que isto vai parar, qualquer dia até aparecem em versão Ana Gomes, Doutora Teodora, Teresa Guilherme. Não sei, não. Mas não vou falar disso, hoje estou muito atiladinha, em versão boa menina, fofinha, fofinha.

O fim de uma era, é o que é.
(Agora como é que sei qual delas é que eu gostava de ser? Só tenho coisas que me ralem)

....

Por isso, não sabendo sobre o que falar vou, antes, mostrar um vídeo. Pode parecer que estou a brincar mas não, o assunto é sério. E a sério que é a sério. Só mesmo uma desmiolada encartada é que poderia gozar com assunto tão sério e eu, oh oh, sou uma inteligente do melhor que há. Por isso, imaginem que isto era convosco e digam-me lá se não fugiam também a sete pés. Ai não que não. Gostava de vos ver: até voavam.

.....

E, assim sendo, uma vez que aos costumes a única coisa que tenho a dizer é que nada, aconselho-vos a deslizarem por aí abaixo... mas com cuidadinho não vão ser sugados por algum buraco negro que isso é bicheza do pior que há. Isso e as comentadeiras em versão maria-amélia que gostam de vir aqui cansar a beleza da Santa UJM. 

..

segunda-feira, dezembro 09, 2013

Soares dos Santos, o tal do Pingo Doce e dos impostos na Holanda e coisa e tal, diz que os portugueses deixam de trabalhar cedo demais. Os desempregados então que o digam... A despropósito: o geneticista Eugene McCarthy diz que a espécie humana nasceu do cruzamento entre um chimpanzé fêmea e um porco. Não sei se será verdade mas lá que alguns 'artistas' ainda parecem sair a esses remotos ascendentes, lá isso parece.


Depois de abaixo ter mostrado momentos de beleza e alegria, e, a seguir, de mistério e ternura em plena natureza, passo agora para temas mais prosaicos.

The crazy things we do, minha gente




Transcrevo algumas partes de uma curiosa notícia:

Um geneticista norte-americano acredita que a espécie humana nasceu do cruzamento entre um chimpanzé fêmea e um porco.


Eugene McCarthy, especialista em animais híbridos, diz que a sua teoria não só explica as poucas diferenças entre humanos e chimpanzés, como algumas das semelhanças com os porcos.


O cientista explica que os humanos têm um conjunto de características que os diferenciam dos outros primatas, deixando uma pergunta com resposta: «E qual é o animal que tem todas essas características? O sus scrofa, o porco comum.»


As características físicas que McCarthy aponta como semelhanças com os porcos e que nos separam dos chimpanzés são a pele sem pelo, uma camada de gordura subcutânea, olhos claros, narizes salientes e pestanas grandes. A estrutura da pele e de alguns órgãos, muitas vezes usados na medicina em humanos, são outros dos elementos que McCarthy aponta como semelhanças com os suínos.

«Eu tenho de admitir que, inicialmente, senti aversão pela ideia de ser um híbrido. A imagem de um porco a acasalar com um macaco não é bonita», reconheceu.

«[No entanto], a minha opinião sobre este animal [o porco] melhorou muito durante a pesquisa. Onde antes via sujidade e gula, agora vejo inteligência, emoções, lealdade e adaptabilidade, com um toque de sensualidade. Qualidades sem as quais os humanos não seriam humanos», sustentou, ainda, McCarthy.


Por outro lado, as notícias dão-nos conta que Soares dos Santos voltou a dissertar sobre a situação do País. Que quer porque quer um acordo PS/PSD e que quer os portugueses a trabalharem até mais tarde e dá o seu próprio exemplo (não mencionando a notícia recente que dá conta que é o 2º mais rico do país com uma fortuna de 2.190,3 milhões de euros ) para ilustrar como, em vez de estar sossegado e caladinho em casa, ainda por aí anda a maçar toda a gente.


E eu, por qualquer razão que o meu subconsciente lá saberá, lembrei-me de juntar estas duas notícia - a da teoria de que de alguns porcos terão montado umas macacas desprevenidas e de, dessa aventura, terá resultado a espécie humana com as bocas do merceeiro-mor que parece ignorar que tomaram os portugueses ter trabalho e viver dignamente (os novos que não conseguem entrar no mercado de trabalho, os de meia idade que, quando caem no desemprego por lá ficam e, ao fim de algum tempo, nem subsídio recebem).


Curiosamente, quando fui à procura de imagens para ilustrar este meu texto inocente, encontrei uma do Kaos na qual vejo que o subconsciente dele também lhe pregou a mesma partida (associar a imagem do ideólogo Soares dos Santos a um porco).

Ele há coisas...

Para resumir: não faço ideia se o Eugene McCarthy é bom da cabeça ou se a teoria dos híbridos tem ou não pernas para andar. Mas um conselho dou eu às minhas Leitoras, mesmo às que não têm cara de macaquinhas (e, pensando bem, o conselho vai também para os Leitores): se virem algum porco a rondar ponham-se em guarda. Nunca se sabe.

Então, se for arraçado de Soares dos Santos ou outros que tais, é sabido que ou nos f... de uma maneira ou de outra: ou sai mais um híbrido ou arranjam maneira de trabalharmos até aos 98 anos. Foge...!


*

A música lá em cima é das Dancing Gorilas. As duas últimas imagens são do referido blogue We have Kaos in the Garden.

*

Relembro que, a seguir a este, poderão ver dois posts muito diferentes. O primeiro tem moda, dança, uma animação contagiante e vem pela mão de Jean Paul Gaultier. O segundo tem o charme discreto da marca Chanel e vem pela mão de Karl Lagerfeld.

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Muito gostaria ainda de vos convidar a virem comigo até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde por lá hoje tenho um poema muito fálico da autoria de A.M. Pires Cabral o que, é bom de ver, me tira um bocado do sério (mas só um bocadinho). A música que se lhe segue tem as palavras de Fernando Pessoa e a voz de Mariana Lucía, uma surpresa.

*

E, por hoje, por aqui me fico. Desejo-vos uma bela semana a começar já por esta segunda feira!

quinta-feira, maio 03, 2012

Das cenas do 1º de Maio no Pingo Doce ao Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, com brevíssima dissertação sobre as fragilidades humanas. Das estatísticas desgraçadas relativas ao desemprego em Portugal que já vai em 15,3% ao artigo de Min Zhu do FMI, passando pela teoria de Sinatra sobre o casamento e o amor. Começa com uma verdade inquestionável: uns vão bem e outros mal e não sou eu que o diz, é Fausto.


Música, por favor

Fausto - Uns vão bem e outros mal 



Hoje, quando bebia o meu café matinal, ao meu lado um cliente dizia ao gerente do pequeno estabelecimento que, na véspera, quando tinha estado no Pingo Doce, não tinha havido distúrbios de maior, que as pessoas é que não sabiam comportar-se

À saída de um Pingo Doce


Contava, com ar de quem tinha ido à guerra e saído vitorioso, que tinha compensado. Que tinha comprado 10 garrafas de litro de azeite, que agora tinha azeite para 2 anos e olhava sorridente à volta, orgulhoso pelo feito. O gerente dizia que também tinha comprado muito azeite mas que tinha optado por garrafões de plástico, vários, que também lhe iam dar para 2 anos, pelo menos, que o prazo de validade é grande. Quando eu saí ainda eles comparavam o volume de compras que tinham feito.


À saída de um Pingo Doce


Claro que, vivendo com dificuldades, as pessoas não pensam duas vezes e disparam, por vezes sem racionalidade, quando lhes acenam com metade das compras à borla. Claro que, para isso, teriam que efectuar compras no valor de 100 euros, coisa que, já de si, não é pouco mas nem devem ter avaliado o impacto no seu orçamento doméstico de compras da ordem dos cento e tal ou duzentos euros num único dia (numa reportagem de televisão vi um senhor orgulhoso dos 400 euros que tinha gasto, em vez dos 800 que seriam).

Questões de vária ordem poderiam ser analisadas sobre este facto mas quero apenas referir que este é, na sua maioria, o povo votante deste país, o povo que decide o sentido de voto. Pessoas que procuram uma instantânea melhoria nas suas condições de vida, sem se deterem a analisar o porquê, o como, o até quando, etc., pessoas que agem por impulso, sem fazerem cálculos ou sem se deterem em considerações de carácter filosófico.

Foi assim - porque gostaram da cara de quem lhes prometia uma política de verdade, que lhes dizia que não era admissível que se aumentasse mais os impostos ou que se sonhasse sequer em mexer nos subsídios de natal - que deram a vitória nas eleições a uma pessoa como Pedro Passos Coelho, colocando-o a ele e  ao Relvas, ao Gaspar e a outros neófitos, ex-jotas e aprendizes à frente da governação deste país.

É fácil, muito fácil, manipular pessoas que, de alguma forma, se encontram fragilizadas (ou porque se sentem inseguras, ou carentes, ou revoltadas, ou doentes, ou desempregadas ou o que for).

*

Parábola dos Cegos - Pieter Brueghel, 1568

Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso dos sacos de plástico cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e angústia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado.
(...)
A claridade do dia iluminava até ao fundo o amplo espaço do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, não havia mais do que lixo, vidros partidos, embalagens vazias.
(...)
O cão das lágrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o pêlo eriçado. Disse a mulher do médico, Há aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse o marido. Não é isso, é outro cheiro, o da putrefacção, Algum cadáver que estará por aí, Não vejo nenhum, Então será impressão tua. O cão tornou a gemer. 
(...)
Atravessaram o supermercado até à porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazém da cave. O cão das lágrimas seguiu-os, mas de vez em quando parava, gania a chamá-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do médico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso.


[Excertos de uma das cenas pungentes de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, cena em que os cegos tinham invadido o supermercado e depois se tinham precipitado, escada abaixo, caindo uns sobre os outros... e mais não digo porque o que vos aconselho a ler é o livro todo, um dos livros que mais me impressionou desde que me tenho por gente. Digo-vos apenas que é um documento impressionante sobre as baixezas mais torpes e vis de que as pessoas são capazes em situações limite - e que, ao ler, sentimos que nós próprios - bem falantes, bem pensantes - também o faríamos se nos víssemos naquelas circunstâncias]

*

Imagem do filme Ensaio sobre a cegueira (Julianne Moore como a mulher do médico, um dos muitos cegos)


Hoje soube-se que o emprego continua a subir. Já vai em 15,3% (e em mais de 36,1% nos jovens) e estes são os números oficiais que são inferiores aos números reais.

Pois ia eu no carro à hora de almoço quando ouço, perplexa, o Secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento a mostrar-se muito admirado com estes números inesperados (inesperados dizia ele, claro)...!

E concluía a "inteligente" criatura que o que era preciso para resolver isto era liberalizar o mercado de trabalho, flexibilizar ainda mais.

Fiquei de boca aberta. É que, meus Amigos, o problema maior não é só estarmos a ser governados por quem não sabe o que faz: o problema maior é que nem sabem tirar conclusões face às consequências do que fizeram...! Então se o problema é o desemprego estar a aumentar a um ritmo que nem eles percebem, o remédio que lhes ocorre é, justamente... facilitar ainda mais  os despedimentos...?!

Ou isto não é nabice da mais pura que há mas, sim, coisa deliberada? Maldade pura?! Defesa de interesses inconfessáveis?! Já nem sei que diga, perante coisas destas.

Quanto ao Álvaro ou a alguém do Ministério das Falências e do Desemprego, nada: estão noutra. Economia e Emprego é coisa que não lhes assiste.

Portugal é o 3º país ex-aequo com o maior desemprego num conjunto de 29 países ditos desenvolvidos, li num artigo do FMI. 



O autor, o chinês Min Zhu, questiona-se: ‘desenvolvidos na miséria?’ pois é nestes países que o desemprego mais se acentua e, de entre eles, para nossa vergonha e sofrimento, Portugal, só é antecedido (na desgraça) pela Espanha e pela Grécia (e igual à Irlanda). 

Logo no início do artigo, Min Zhu parafraseia uma frase de Frank Sinatra - em que este diz, referindo-se ao casamento e ao amor, que não existem um sem o outro - dizendo que é a mesma coisa em relação ao crescimento económico e ao emprego. Não há emprego sem crescimento, nem crescimento sem emprego.  

E mais uma vez recomenda moderação na aplicação de ajustamentos e, também, garantia de liquidez no sistema financeiro. Injecções de liquidez, políticas de desenvolvimento, abrandamento nas políticas de austeridade – só assim se evitará o suicídio.

Mas, claro, nem Passos Coelho nem nenhum do seu grupo lêem este género de artigos. E, mesmo que lessem, duvido que percebessem. 

No dia 1 de maio, com ar ligeiro de quem pronuncia uma banalidade irrelevante, Passos Coelho disse que os portugueses se deveriam preparar para mais uns anos de desemprego alto. Ainda não percebeu o buraco em que está a enfiar Portugal nem a miséria para que está a atirar os portugueses.

*

Não me apetece falar mais disto que fico indisposta.

Por isso, com vossa licença, para terminar, um bocado mais de Ensaio sobre a Cegueira para que saibam, meus Caros Leitores, que há cegueiras de que se recupera e que há histórias que acabam bem (e, se há lágrimas no final deste excerto, não se admirem, elas são de compreensível emoção de descompressão).

Eu acredito nisso.


Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do médico começou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reacções têm as pessoas, claro que estava contente, meu Deus, se é tão fácil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistência mental, era como uma criancinha que tivesse acabado de nascer e este choro fosse o primeiro e ainda insconsciente vagido. O cão das lágrimas veio para ela, este sempre sabe quando o necessitam, por isso a mulher do médico se agarrou a ele, não é que não continuasse a amar o marido, não é que não quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe pareceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.


A tradução destas legendas é pavorosa mas, enfim, foi o que arranjei...
O filme é uma adaptação da obra de José Saramago, e foi realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles

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Bom. Caso ainda tenham paciência, não quererão os meus Amigos ir dar uma espreitadela lá ao meu Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de que gosto muito de Maria Sousa. Acompanha com Puccini, La Bohème... mas oh que encenação!... Só mesmo visto. A sério.

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E, claro está, desejo-vos uma bela quinta feira, de olhos bem abertos... 
(para verem as coisas boas desta vida!)

quarta-feira, maio 02, 2012

Um 1º de Maio de trabalho, tentando domar os meus queridos livros e a assistir ao desatino nacional causado pela campanha dos 50% do Pingo Doce. Vida tão estranha, diria o Rodrigo Leão.


Música, por favor


Vida tão estranha - Rodrigo Leão



Este 1º de Maio foi dia de trabalho pesado: limpezas e arrumações.

Não sem antes, claro, darmos uma caminhada pelos lugares tão queridos, pelos espaços mais largos e azuis onde as aves voam junto aos deuses .

Bando de pássaros voa em volta do Cristo Rei

Num recanto, na rua, vi este pequeno ramo de flores murchas. Senti alguma pena, nem sei se pelas flores, se por alguém que não as quis ou por alguém que não teve a quem as dar. Um ramo de flores abandonado é sempre uma coisa triste de se ver.


Flores do campo, um bouquet improvisado que não chegou a casa do destinatário(a)


Mais à frente, numa parede, um graffiti engraçadíssimo. 'Atirem-me areia para os olhos' mas o rosto não tinha olhos. Alguém desenhou, então, uns.

Atirem-me areia para os olhos, diz esta figura no dia em que o Pingo Doce fez um 1º de Maio à sua maneira


Era costume o Pingo Doce estar fechado no Dia do Trabalhador mas hoje, de regresso do passeio, verificámos que estava aberto. Como dava jeito uma salada, dirigimo-nos lá. Uma multidão à porta e as portas fechadas. Como desconhecíamos a promoção, perguntei a uma senhora que aguardava o que se estava a passar. Respondeu-me que estava cheio, tinham fechado a porta. Espreitei. Um policia vigiava a porta do lado de dentro. Viemos intrigados com aquilo.

Mais tarde veio, então, a explicação: por todo o lado havia um delírio. Multidões esvaziavam as prateleiras, pagando apenas metade. As televisões mostravam o impensável. Gente gastando dinheirões com a sofreguidão de pagar metade, gente em apertos durante horas, gente aborrecida e zangada, gente envolvida em confrontos, gente que teve de sair dali de ambulância.

Hoje à tarde junto a um Pingo Doce e, durante o espaço de tempo que observei, foi sempre assim


Perguntei-me logo se não estaríamos perante um caso de dumping (prática proibida que consiste em vender abaixo dos custos). Mas agora à noite ouvi que provavelmente quem vai pagar esta generosidade são os fornecedores. Não sei. Sei é que isto é que ver estas imagens e logo no Dia do Trabalhador me causa algum incómodo. Há aqui qualquer coisa que me faz lembrar algumas passagens de Ensaio sobre a Cegueira. É fácil pôr as pessoas a agir de forma estranha. Basta accionar mecanismos que têm que ver com a subsistência ou com a ganância ou com coisas assim, bem intrínsecas à natureza humana.

Adiante.

Depois foi tempo de faxina.

E, depois da faxina, tempo de pôr alguma ordem nos livros que saltaram das estantes ou que ainda não foram lá parar.

Livros tresmalhados, em cima de uma mesa de apoio, na sala em que agora me encontro
(ao fundo, parte de uma tela pintada por mim)


Mas, afinal, ainda não foram colocados no sítio devido, foram apenas melhor organizados para mais fácil localização. 


Livros em cima da mesa em que estou a escrever antes de serem postos na ordem


Parece que, quando são arrumados nas estantes, lhes perco o rasto pelo que, enquanto não os lemos ou não nos conformamos com a ideia de que tão cedo não os vamos ler, ficam em pilhas, em montinhos, fazendo-me companhia. Gosto de os ter à mão, desordenados, mal comportados, irrequietos. Pode parece o caos mas não é. 

Agora que estou a escrever já estão amontoados com alguma lógica, já os consigo localizar sem ter que dar a volta a todos.

Peguei na Ler de Janeiro e reli a entrevista de Carlos Vaz Marques (CVM) a Manuel António Pina (MAP), uma pessoa que vem até ao UJM com uma certa frequência.

Transcrevo um pequeno excerto no qual se fala do mundo dos escritores.

Pergunta CMV: O que é que esse mundo tem de errado?

Responde MAP: É um mundo de intrigas. Vive muito dessa coisa da posteridade. Valoriza coisas ridículas: se aquele tipo teve mais linhas de crítica do que eu. É muito triste, o mundo dos escritores. É igual ao dos músicos, aos dos professores, ao dos jornalistas.


O mundo dos escritores pode ser assim mas eu não quero saber, o que eu quero saber é dos livros que eles escrevem, meus companheiros silenciosos.

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Se estiverem para isso, gostaria de vos ver lá no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de Ricardo Gil Soeiro e a música é de Puccini pela voz de Renata Tebaldi, uma maravilha.

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E tenham, meus Caros, uma bela quarta feira, cheia de esperança.