Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, janeiro 12, 2017

Cavalos pouco selvagens e um Homem-Aranha muito castiço


Depois de ter escrito o post abaixo fiquei um bocado sem palavras. As memórias, por vezes, levam-nos para territórios que pensávamos apagados e que, afinal, renascem tão facilmente. E que nos prendem. Presa fiquei, pois. 

Tento lembrar-me: para onde terão ido todos os cestos de baracinha que o meu avô fez? Terão sido deitados fora? Se calhar, foram. A minha família é assim mesmo, despegada, ninguém liga muito a nada. A minha prima, por exemplo, não quis nada. Os meus pais e os meus tios também não. Acho que a minha mãe ainda ficou com alguma louça de Sacavém. De resto, tenho ideia de que foram apenas as coisas de que me lembrei que foram salvas: a telefonia antiga, com pano à frente, o cadeirão, o móvel pequenino onde estava a televisão, os copos de vidro cor-de-rosa e os outros, com pinturas a dourado. A enxada. O pau com o ferro curvo na ponta para baixar os ramos altos das árvores de fruta. Estão in heaven. As cadeiras da casa de jantar que eu achava tão bonitas (e que agora estão aqui à volta da mesa redonda) também. Acho que, na altura, não me lembrei de mais nada. Portanto, devem ter dado tudo a quem quis. Não faço ideia. Se lá tivesse estado, teria, certamente, salvo mais coisas, certamente os cestinhos. Também não os vejo há anos em casa dos meus pais. Ter-se-ão estragado? Tenho que perguntar à minha mãe. Também tenho pena de não ter aprendido a fazê-los. Logo eu que gosto tanto de trabalhos artesanais, não me lembrei de aprender com o meu avô.

Mas, enfim, agora nada a fazer.

Dizia eu, no post abaixo, que a seguir ia mostrar cavalos. Agora parecem-me aqui deslocados. Ainda por cima estive a dar uma espreitadela nos onlines e, face às (perigosas) macacadas do Trump e às ameaças que vão aparecendo um pouco por todo o lado, até parece maluqueira minha continuar, por aqui, como se não se passasse nada no mundo para além das minhas insignificantes passeatas.

Mas não tenho paciência, agora, para me pôr a chover no molhado (para além de que esta da chuva, por estes dias, terá sempre dúbia conotação). Estou neste comprimento de onda e é para este registo que as minhas mãos me puxam.

Cavalos, portanto. Para além da polícia a pé, em carros, em motas e no helicóptero, há os polícias a cavalo. E hoje, em frente do Palácio Real, apanhámo-los de três forças diferentes: os da polícia normal, os municipais e os da guarda de honra. Não os fotografei a todos porque, por vezes, me distraio e me esqueço de registar tudo o que mexe.

O que é engraçado é que, conversadores e alegres como os espanhóis são, mesmo os da polícia, não apenas se ouvem os passos dos cavalos como a algazarra dos polícias que os montam. Não passam despercebidos. Aqui abaixo, uma era mulher e a conversa ia bem alegre.


Mas vamos com música. 
Os cavalos que aqui mostro são tudo menos selvagens mas esta interpretação é linda e eu coloco-a aqui apesar de, talvez, deslocada.

Solveig Slettahjell interpreta "Wild Horses"


Estava eu a observar as pessoas e a paisagem e os cedros altíssimos e as casas (grande parte delas em recuperação, sejam edificios públicos ou privados -- não há-de o desemprego em Espanho descido fortemente?), quando ouço o resfolegar de cavalos e eco de conversa que se adivinhava amistosa. Espreitei. Num plano mais abaixo, os guardas conversavam e um fazia festas no cavalo do outro. Achei uma ternura.

O afecto entre pessoas toca-me. Mas ver o afecto estendido aos animais parece que me enternece ainda mais.


E o render da guarda, os soldadinhos a marcharem, coordenados, e a tocarem tamborzinho, tudo tão delicadamente encenado, tudo tão de um outro mundo. Por um lado, andam armados por tdo o lado. Ontem até o segurança do museu da Biblioteca -- que viu a minha carteira, os telemóveis, a máquina fotográfica, tudo visto a raios X, e que fez o meu marido despejar os bolsos para deixar de apitar no controlo anti-metais (e afinal era a embalagem das minhas pastilhas da garganta, aquela prata, que apitava) -- andava armado e com uma fiada de balas no cinto. Um aparato bélico. E depois, à porta do Palácio Real, esta inocente fantasia, esta coreografia tão pacifista.

Enfim, contradições dos tempos modernos.


E agora o gordo Homem-Aranha da Plaza Mayor. Não tem a ver com cavalos ou com polícias mas é também um personagem característico da cidade. E, também, não é afinal o spider man também um salvador das cidades? 


Sempre que por aqui passo, e isto desde há anos, cá está ele. Penso que seja português pois, embora fale espanhol, volta e meia parece que reconheço o sotaque português que ele bem tenta disfarçar. Ninguém sabe quem é. Por ali anda fazendo poses malucas, metendo-se com quem passa, completamente descarado, e recebendo uma moedas. É a sua forma de vida. De resto, uma forma de vida muito mais honesta e muito menos onerosa para os outros do que muito emproado que por aí anda (e só porque ando num registo zen é que não dou já aqui uma dúzia de luso-exemplos, a começar pelo Sérgio Monteiro). 


Mas, enfim, o tema não passa pelos discípulos dessa nódoa que dá pelo nome de Carlos Costa do BdP. Portanto, adiante: convosco, Senhoras e Senhores, The Fat Spider Man.





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E, para quem aqui chegou de novo, o meu convite: queiram, por favor, descer para lojinhas especiais polvilhadas com memórias.

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Caixinhas de música, penas, canetas de aparo e tinteiros, arranjo de sapatos, cestos de baracinha.
E algumas memórias.



Je crois entendre encore
Caché sous les palmiers
Sa voix tendre et sonore
Comme un chant de ramiers.
Oh nuit enchanteresse
Divin ravissement
Oh souvenir charmant,
Folle ivresse, doux rêve!

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É mais do que sabido por quem, por aqui, me acompanha: não sou pessoa de ficar fechada em casa. Quanto mais estafada ando, mais me apetece dar ar à pluma. Se tenho que descansar o corpo, é caminhando que descanso. Se tenho que descansar a mente e não posso caminhar, é escrevendo noite adentro que descanso.

Assim acontece, agora, uma vez mais. Depois de um período de trabalho em excesso, com gripes cá em casa, em casa dos meus pais, uma ida a uma urgência hospitalar, recuperação clínica arrastada e cheia de complicações por parte deles, e por todo o lado crises e mais crises, eis que, logo que a bonança se faz anunciar, aí estou eu a querer libertar-me de tanto peso e sair por aí. Sem planos, tudo combinado na véspera, às tantas da noite. Aqui estou, portanto, restabelecendo forças. Claro que ando com dores de garganta (que não estão a passar e bastante me incomodam; comprimidos e pastilhas não estão a resultar espectacularmente). Mas mal menor. Porque bom, bom, é poder andar de nariz no ar, espiolhando gentes, edificios, novidades, fotografando candeeiros, carrocéis, lojas, descobrindo o que houver para ser descoberto.

Mas ainda não relaxei o suficiente. Há bocado até apanhei um certo susto. Uma chamada. O telefone estava longe de mim, perto do meu marido. Trouxe-me o telefone, anunciando tratar-se de um ex-colega meu, e vinha também com uma certa apreensão na voz: 'atende...'. Era um dos muitos que a vida vai dispersando ao sabor da gestão de portfolios por parte dos accionistas. Trabalhámos juntos durante anos, agora já não. Mas a amizade fica. Contudo, a esta hora da noite, estar a ligar-me parecia prenunciar triste notícia. Ultimamente, tenho recebido uns telefonemas ou sms a dar conta de notícias que me deixam pregada ao chão. Pensei logo que, a esta hora, só podia ser coisa assim.

Mas não, nada disso. Estavam num jantar, contaram-lhe das minhas novas andanças, coisa que o deixou muito admirado, e resolveu tirar a coisa a limpo, logo ali, na hora. Mas a verdade é que não sei se é de andar um bocado cansada, se é a porcaria da gripe que me deixou com a imunidade reduzida, a verdade é que, durante parte do telefonema, apesar de ele me falar de assuntos normais, eu estava ansiosa, à espera do momento em que ele se ia deixar de preliminares e dar-me, finalmente, a má notícia. Mentalmente, eu ia elencando quem é que poderia ter sido. Credo. Felizmente nada. Ali a jantarem, animados, e a resolverem envolver-me na conversa. Só isso.

Mas, portanto, ia eu dizendo que ando a descansar. Por dia temos dado para cima de vinte mil passos. Aliás, se não estou em erro, ontem fizémos cerca de trinta mil. Sei isto porque o meu filho instalou uma app no telefone do meu marido para monitorizar os percursos, se os caminhos são a subir ou a descer, fáceis ou complicados, quantos quilómetros, quantos passos, quantas calorias gastas. Chegamos ao fim do dia e pasmamos com o que andámos. Tão bom andar.

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Adiante. Como sabem, para além de natureza e de arte, gosto de consumir ambientes urbanos. Nomeadamente, como ontem já mostrei, gosto de andar a ver montras. Geralmente nem entro pois, em regra, o que me move não é o consumo mas o ver o que há à venda, objectos diferentes, alguns cuja finalidade nem descortino ou, então, a decoração das montras ou das lojas.

Nesta loja aqui em baixo, achei graça, sobretudo, à tradicional figura feminina completamente insólita no meio daqueles objectos modernos e coloridos. A ideia de porem uma boneca, naqueles preparos, em tamanho natural, ali naquele contexto...


Esta aqui abaixo é uma verdadeira arca de tesouro, a caverna de ali-baba, um cenário de mil sonhos. Há ali de tudo. Entrei, empurrando a porta. Nenhum outro cliente lá dentro, só o que deveriam ser os donos mas com ar de quem tinha sido apanhado a meio de alguma discussão, um clima estranho. Andei por ali a cirandar mas a sentir que estava a ser uma intrusa. Não vi preços nem tive coragem de perguntar. Dali, se as coisas não fossem caras, era capaz de me deixar seduzir por quase tudo: caixinhas de música com bailarinas, uma com uma senhora a ver-se ao espelho, outra com um carrocel, outras com bonequinhos de todo o tipo, bailarinas, passarinhos. Depois pisa-papéis lindos, de vidro, com flores ou insectos lá dentro, ou motivos às cores. E casinhas de bonecas. Ou teatrinhos. E caixinhas lindas. Com pedrinhas, com lantejoulas, com aberturas disfarçadas. Coisas mesmo bonitas. E muitas, muitas.


Esta aqui abaixo tem objectos para escrita: penas, canetas com aparo, canetas de tinta permanente, tinteiros, carimbos antigos. E papéis muito bonitos, de diferentes gramagens, diferentes cores. Uma coisa que parece de outros tempos.


E depois os bares de tapas e petiscos, cerveja gelada e boa, muitas vezes apresentados com humor.


E, em pleno centro da cidade, por onde passam hordas de turistas e boémios, um sapateiro do mais tradicional que há, daqueles que já rareiam em Lisboa. Tive que aumentar agora a luminosidade da fotografia para se ver alguma coisa porque a fotografia foi feita já ao cair da noite e a lojinha estava quase mergulhada em escuridão (e eu não quis fotografá-lo à descarada, muito menos usar flash). Mas fez-me lembrar o Ti Luís da minha infância junto de quem eu gostava de estar para ir perguntando tudo da sua arte. A minha avó não queria e a minha mãe, quando sabia, zangava-se com a minha avó, que jeito uma miúda de 3 ou 4 anos estar ali a moer a paciência ao pobre homem que deveria era gostar de estar a trabalhar sossegado, habituado a estar em silêncio. Mas eu gostava tanto que a minha avó acabava por ceder. E o Ti Luís dizia que ela me deixasse lá ficar, que eu não incomodava, até lhe fazia companhia. Recordo-o com ternura.


E depois, mais inesperada ainda, uma loja de cestos. As saudades que despertou em mim. O meu avô --  filho aventureiro de um pai que deixou mulher e filhos pequenos para ir viver para o outro lado do mundo, fugindo a dívidas de jogo, as terras e parte das casas perdidas -- saíu muito cedo do Algarve para percorrer terras de Espanha e França. Mais tarde regressou ao País, arranjou uma namorada uns bons anos mais nova e formou família. Mas conservou um passatempo muito algarvio, que, em criança, devia ter visto às gentes da terra, provavelmente às mulheres. Arranjava folhas de palmeiras e, nas horas livres, depois do trabalho, das pescarias e da horta, fazia cestos. A minha mãe gostava imenso, pedia ao sogro para lhe fazer cestas, alcofas com asas, pedia que lhes reforçasse o fundo. E ele fazia. Lembro-me de os ver a combinar o tamanho e de ele se esmerar nos remates. E fazia cestas para pôr a fruta, cestinhos para pôr os ovos. Lembro-me tão bem disso. A arte dele, a rapidez com que o fazia, o cuidado com que escolhia as folhas para com elas fazer os entrançados. Cestas de baracinha, dizia ele. A minha avó não ligava nenhuma a esses trabalhos do marido. Mas ele não queria saber, fazia na mesma. Não fiquei com nenhum. Quando ele morreu, quis ficar com o cadeirão em que ele se sentava e com o móvel onde estava a televisão enquanto fazia os cestos, e com outras coisas assim. Mas não vi nenhum cestinho feito por ele. Quando agora vi esta montra cheia de cestos de baracinhas lembrei-me logo do meu avô tão, tão, querido, tão meu amigo, tão tolerante, tão boa onda.


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Estou a mostrar isto tudo e com estas conversas e não faço ideia de se isto interessa a alguém. Mas faz de conta que é um diário a céu aberto, que estou a escrever só para mim, para ficar registado para o improvável caso de um dia mais tarde me dar para ir à procura de qualquer coisa. 

E a música que escolhi se calhar fica aqui deslocada. Mas é muito bonita. Gosto mesmo. Talvez tenha a ver com estes meus assomos melancólicos, não sei, sei é que me apeteceu estar a ouvi-la enquanto escrevia

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Já cá volto para mostrar a cavalagem.
(Cavalagem como plural de cavalos - calma aí.)

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quarta-feira, janeiro 11, 2017

Um palácio transparente


Pode chegar-se lá indo por vários caminhos. Conhecemos a direcção e vamos andando, degustando cada passo.

Há agora muitas árvores nuas. Quase apenas os enormes pinheiros e cedros conservam as ramagens. De resto, há muitas árvores despidas, embranquecidas ou conservando a filigrana fina de uma folhagem que outoneceu e por aqui se foi deixando ficar.

Há pássaros de plumagem azul brilhante e longa cauda. Voam das árvores para vir brincar na relva. Cantam alto com a descontração das criaturas felizes.



Até que chegamos ao ponto em que o vemos, junto ao pequeno lago onde nadam patos e cisnes negros. Está envolto nas cores doces das folhagens rendilhadas.


Para lá chegar, vamos pela pequena gruta. Gosto. É fresca, ouve-se a água a cair em cascata, há uma magia infantil que me faz sentir expectante. Como estará agora o palácio?


Ouve-se a música de um violino. Não vejo ninguém, apenas ouço. Só quando estou lá em cima, já junto à entrada, é que o vejo. O homem está junto a uma árvore, tocando. 


E depois entramos. Há uma instalação sonora. Trata-se da gravação de um navio a navegar por um rio gelado. É esse o som que se ouve. O espaço é totalmente amplo, luminoso, lindo. 

Se eu não fosse como sou, toda cheia de coisas, a achar que quem eu sou não interessa para nada, que este espaço aqui tem que valer por si sem a muleta da exposição de quem o compõe, mostra-vos-ia umas fotografias que o meu marido fez comigo. Eu estava sentada numa das cadeiras que por ali há e que as pessoas transportam para onde lhes apetece e estava ali a sentir-me bem, em total comunhão com aquela luz fabulosa, com as árvores, com o som que é quase o som do silêncio. E ele fotografou-me. E, por acaso, desta vez até gosto de me ver. Vejo-me como me estava a sentir. Na boa.


Dado o adiantado da hora não vos mostro o museu da Biblioteca Nacional, um museu que ainda não conhecia, muito bonito, muito interessante. 

E só por já ser tão tarde é que também não vos mostro fotografias minhas fantasiada de D. Quixote. 

A sério. Lá num canto, num espaço dedicado às várias obras de cervantes, caixotes com fantasias para quem quisesse sentir no corpo o mundo ficcionado pelo dito Miguelito. Claro que quis -- e quis também que o meu marido me fotografasse. Mas naquela confusão das roupagens caíu a máquina ao chão. Quando ele estava a fotografar-me, eu de gola de cabeção, armadura, chapéu de ferro -- a máquina não disparava. E eu, 'vá, despacha-te' e outras pessoas a aparecerem e eu naquela maravilhosa figura e 'Vá, Poças, Dispara' e ele, 'Que é que queres? Esta gaita não dispara..'. Caraças. Só depois é que reparámos numa luz encarnada e na mensagem 'gravando'. Quando caíra, a máquina deu-lhe para se pôr a filmar. Lá parou aquilo e, finalmente, lá disparou. Linda. Só gostava que me vissem. Como sempre, perdida de riso. Olho as fotografias e tão disparata estou que, sem quere, desato a rir-me, de novo. Melhores ficaram as que me tirou a seguir, sem eu dar por isso, quando estava a despir as vestimentas e a compor-me para tentar voltar a parecer normal. Enfim. Cenas.

E pronto. Se amanhã der, logo vos mostro o museu da Biblioteca. A exposição do Palacio Velasquez não mostro, acho que não vale a pena, é maluqueira a mais. Até para mim é -- imaginem para vocês que, aposto, são mais certinhos que eu.


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E queiram ir descendo que há por aí muita coisa, incluindo uma mulher de cabelo pink e farto bigode louro.

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Nestes momentos sou de poucas palavras.
Por isso, não estranhem que continue no mesmo registo.


Estive agora a ver e ouvir as intervenções de Isabel e João Soares na despedida do pai bem como o comovente poema dito por Maria Barroso. Ouvi-os aqui, em silêncio. A fragilidade de Isabel tocou-me especialmente. Mesmo quando a morte é esperada e mesmo após um período em que o pai já não era completamente o pai que ela toda a vida conhecera, há sempre um desgosto difícil de suportar. Parte da vida de uma pessoa esvai-se nestes momentos. Temo o dia em que passarei por isso. Ao ver a tristeza de Isabel Soares não foi só em Mário Soares que pensei.

Quando os meus primos viram partir o meu tio e pouco tempo depois a minha tia, tive muita pena deles. De repente, ficaram sem pais. Parece que, nos casais que muito se amam. o organismo do que fica enfraquece, não suportando a vida sem o outro.

Mas, enfim, é o que é. Ninguém é eterno. No outro dia morreu a mãe de uma conhecida minha. Como sempre, fico sem saber o que dizer. Foi ela que, vendo-me naquele impasse, incapaz de pronunciar uma banalidade que fosse, me disse: 'chegou a hora dela'. Respondi: 'É isso'. E é. Há um momento em que acaba. Fica a memória. 

Não vou falar no assunto. Não estive por perto, não tenho visto televisões portuguesas, nada mais sei do que se tem passado.

Continuo, pois, mostrando o que tenho andado a ver por aqui. E não julguem, vocês aí, que isto é falta de respeito ou desprendimento meu. Não é. É a minha maneira de ser aliada às circunstâncias.

Venham, pois, comigo pelo Parque do Retiro, um parque onde sempre gosto de passear em qualquer época do ano. Não é só pelos caminhos ladeados por árvores gigantes, não é só pelos passarinhos, não é só pelas músicas que se ouvem, não é só pelos recantos: é também pelas pessoas que por aqui andam. Famílias, namorados, amigos, gente solitária. Eu que gosto tanto de observar pessoas tenho aqui terreno fértil para a minha objectiva. Como sempre, tento que não se vejam os rostos. Contudo nem sempre é fácil pois se uns estão de costas estão outros a vir na minha direcção. Not easy.

(O caso abaixo, da mulher dos bigodes, é uma excepção. E não sabia eu que ela tinha aquele bigode...)


Mas vamos com música espanhola e, por supuesto, com dança a preceito.







E reparem, abaixo, quem vem lá. Duas motas com polícias. Everywhere lá aparecem eles. É uma coisa...


E depois aquilo com que não se está à espera: bailarinos em pleno parque fazendo movimentos acrobáticos. Sem frio, sorrindo. Curiosamente, muita gente nem repara. Há sempre, por ali, tanto motivo de atenção que, quem por lá anda quotidianamente, já acha tudo normal.




E, termino como comecei esta série: com a imagem da harmonia. Gosto tanto de ver. 
Conversando e sorrindo como se o futuro fosse um lugar de leite, alegria e mel.


E já cá volto pois tenho mais para mostrar.

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Ele há com cada uma...
Eu a achar graça à rapariga da cabeleira pink, ali à porta das Fadigas do Querer
e, afinal, ao ver agora a fotografia, vejo-lhe uma bruta bigodaça loura...
Grande estilo!


Por aqui ando, passeando, caminhando, veraneando em pleno inverno, quase um frio de rachar agora à noite, e nós abrigados, comendo um cozido quentinho, observando pela janela os demais passeantes. Muitos fazem selfies junto aos azulejos das paredes das tabernas em frente, uma chamando-se O Jardim Proibido e outra Fadigas do Querer, uns entram, outros saem, outros esperam por amigos antes de entrarem -- até que chega uma moça de mini-saia, cabeleira pink, e por ali fica. Fotografo-a, pensando que ali está a cor que eu havia de experimentar.

Cheguei agora e, como sempre faço, passei as fotografias para o computador e, para meu espanto, ao contemplar a cabeleira vibrante... vejo um bigode farfalhudo. Eu, de longe, parecia-me que ela tinha umas bochechas um pouco estranhas ou a boca, não estava a perceber bem. Mas, juro, nunca me passou pela cabeça que fosse um bigode.


Amplio para vocês verem se estão a ver o mesmo que eu.


Não é o máximo... ? Será que eu também ficava bem assim: para além da cabeleira rosa-choque um farfalhudo bigode louro? A sério: acho mesmo o máximo.

......

Ver as montras


Continua frio mas nada de insuportável. Bom para andar a jardinar pelas ruas. Também pelo parque. Talvez mais logo mostre fotografias. Também por museus e bibliotecas. Também em lugares cheios de gente em que todos falam tão alto que mais parece um concerto ao vivo, no meio dos músicos.

Mas agora as ruas. As montras bonitas como sempre. Fotografo-as tentando apanhar o reflexo dos prédios da rua, acho que fica dois em um: a moda e a envolvente. 

Claro que o facto de estarmos num dia de frio inverno não desmoraliza as marcas que já só querem é vender artigos de primavera. Por isso, para que as pessoas tenham vontade de experimentar roupa de verão carregam no aquecimento. Entra-se nestas lojas e até ferve. Eu que sou uma encalorada tenho que me despir imediatamente senão sinto-me como se estivesse com os so called afrontamentos. Credo.

A verdade é que o meu marido -- que em Lisboa correu seca e meca para encontrar um casaco azul escuro do seu número, clássico, de bom tecido e bom feitio (para aí o quinquagésimo casaco azul escuro igual a todos os outros) -- veio cá encontrar um. Uma pintarola. Até eu, que o questiono sobre a lógica de querer casacos sempre iguais, desta vez achei o tecido, o cair e o corte tão bonitos que até o incentivei (ele estava na dúvida, parecia-lhe ligeiramente diferente dos anteriores).

E eu não digo o que comprei porque não vim para cá para andar às compras e porque comprei o que comprei obrigada, quase torturada, por ele, que sim, que sim, que tinha que ser. Cedi. Contrariadíssima. 
Mas não conto. Queriam saber? Quiçá até ver...? Azarinho. Não têm sorte nenhuma.
Mostro, isso sim, as montras.





















Até já.


terça-feira, janeiro 10, 2017

Se isto não for perversidade vocês, por favor, desculpem-me, ok?
[Mas é que eu também tenho o direito a enganar-me]





Já estou um pouco cansada, não posso alongar-me em conversetas -- para além de que esta terça-feira tenho muito que fazer. Só espero é, daqui a nada, quando sair, não encontrar, de novo, o aparato de há pouco com carros parados pela polícia, as pessoas a terem que sair dos carros para se identificarem e serem revistadas, etc.
Pergunto: mas o que vem a ser isto? Dizem-me, com ar normal, Com tudo o que tem acontecido, agora há muita vigilância. Bonito. 
Mas eu sou daquelas que dou um passo e automaticamente deixo para trás das costas o que enfrentei no momento anterior e, portanto, ao fim de dois dias já nem reparo nos omnipresentes polícias armados até aos dentes, nas carrinhas da polícia, na polícia a cavalo. Faz de conta que faz parte do folclore do lugar.

De noite, um frio cortante. De dia, um fresquinho bom. Dentro dos lugares, um calor abrasador. Dói-me a garganta e deve ser por isto. A gripe curou-se sabe-se lá como e agora, com as defesas certamente ainda a meio gás, vou do calor tropical ao frio antártico a toda a hora. Enfim, com estas pastilhas que eucalipto e mel que tenho andado a chupar, pode ser que amanhã já nem me lembre que tenho garganta.

Adiante. Depois de no post abaixo ter andado outdoor, na soi-disant street art, recolho a céu coberto. Ou seja, volto indoors para retomar o tema da arte mas agora para repescar gente que me parece ter o seu quê de perversidade. Tinha estado a escolher Nossas Senhoras em fundo dourado, relicários, arte sacra de fina têmpera mas, às tantas, deixei cair os pios propósitos de que estava possuída para me deixar levar, num inesperado twist, para os descaminhos que os meus maus instintos tanto requerem.

Em alguns casos, nem se vê malícia, escarninho, provocação ou malvadez. Parece, até, haver doçura e ingenuidade. Mas a minha mente perversa fareja malandrice a milhas e, portanto, se estes aqui abaixo ainda não tinham feito, iam fazê-la.

Vejamos.

Este mancebo. Parece um santinho, cabelinho aos caracolinhos, olhinhos suaves. Mas, meus Caros, o corpinho bem musculado é o de quem já caminha para os maus bocados desta vida e sempre com ar de quem um dia destes ainda perde a sua recatada virgindade.


Aqui, oh senhores, é o bebé... Tem cara de sabido, de safadinho. Não sei que escolha foi esta... onde é que se viu um Menino com uma cara destas...? A sua mãezinha com ar de pura donzela e o pestinha com ar de quem se prepara para fazer uma safadeza.


E aqui é o ar de danado do Adão... Um calmeirão mal intencionado, todo ele lascívia... A Evinha ali tão branca e fofa e ele, dengosão, com ar de quem se prepara para fazer perigar a castidade da moçoila (que, repare-se, na época, já tinha aderido à depilação brasileira...)


Este cavalheiro aqui abaixo não é que seja perverso. Nem sei que diga dele. Com esta cara, deve ser ascendente da Cristas. Mas aqui a atenção não recaíu na cara mas, sim, nas leggings. Uau, que elegância. E que bem fornecido o cavalheiro parece ser... Eu sei que mulher casada não devia ter olhos para estas pudibundícies. mas, credo, perante tal exagero até a pastorinha Lúcia deitaria um coup d'oeil -- quanto mais eu que não sou dada a aparições em cima de azinheiras.


E aqui é a menina que tem cara de viciosa, de sacaninha. Ele é que esconde o jogo mas ela é que a sabe toda. Esta menina é daquelas que cuidado com elas.


Esta aqui ao espelho tem cara de danada para a brincadeira, ar de doidona. Vestida deve parecer uma tia beata, uma daquelas que não parte um prato. Mas, quando se desenvencilha da roupagem e põe as mamocas ao léu, há toda uma fera que se solta de dentro dela. Deve devorar um incauto em três tempos. E a seguir recompõe-se, pega no terço e continua a novena.


Esta madame aqui em baixo é outra que tal. Com a fotografia do maridão carrancudo à cabeceira para impor respeito mas olhem bem para ela, toda ela oferecida às tentações: o corpo, o fruto, o mamilo, a púbis, a boca carnuda, as rosas da tentação. Um espécie de candaulisme avant la lettre, na volta.


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E, por agora, por aqui me fico.
E vão descendo que isto hoje é uma farturinha: há para todos os gostos (digo eu).


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Notícias de outros lados, de outras artes




Pode ser que volte para dentro de portas, para mostrar arte classificada. Mas agora quero mostrar outro tipo de arte. Talvez nem arte, segundo os puristas. Mas eu sou tudo menos purista. Apenas pura. Ou talvez impura. E profana. Iconoclasta.

Ao jantar, num canto, dois homens falam português. Falam de arte, de escultura, de museus. O mais velho contava a história do Moisés de Michelangelo.
Moisés é uma das principais obras do artista renascentista Michelangelo. Conta-se que após terminar de esculpir a estátua de Moisés, Michelangelo passou por um momento de alucinação diante da beleza da escultura. Bateu com um martelo na estátua e começou a gritar: Por que não falas? (em italiano: Per ché non par li?).
Claro que aqui está a falar-se da grande arte, da que ninguém ousa sequer questionar.


Ao contar a história, o homem do restaurante, entusiamado, gesticulava como se querendo, ele mesmo, dar vida a uma peça imaginária ali à sua frente.

Na nossa mesa, nós íamos conversando e, a espaços, eu ia ouvindo falar de Maria João Seixas, dos coloridos e vidrados de Rosa Ramalho, da forma como a descendência prossegue a sua obra. Depois ouvi falar em Renascimento e, pouco depois, 'uma verdadeira figura do renascimento'. Tentei perceber de quem falavam mas não consegui ouvir.

O jantar soube melhor com uma onversa assim, vinda do canto, em português, falando de arte. 

Não sei, se eles vissem este post, o que diriam. Que gente maluca deveria ser proibida de escrever em blogues? Não sei. O que sei é que me dá prazer andar pela rua a captar o insólito, o belo, o intemporal porque aparentemente deslocado.

Mostro-vos e digo-vos que um manequim à varanda de uma casa pode não ser arte mas é artístico o acto de ali pôr. aquela mulher (ou apenas subversivo? Ou apenas divertido?). Ou as outras figuras.

O atleta a prepara-se para fazer o pino na beira do telhado de um prédio, nomeadamente. 


Ou as árvores rendilhadas em contra-luz, por exemplo.


As pernas de mulher, meia de rede, salto alto, a saírem da janela do teatro?


Ou a beleza quase angélica do jovem empoleirado num corrimão? Não é ele mesmo, assim elevado sobre os outros, olhando a distância, uma fantástica peça de arte?

[Aos mais empedernidos, que olham e não conseguem ver ali arte, faço uma sugestão: imaginen-no nu, pintado ou esculpido por Michelangelo. Seria ou não arte? E até não parece mesmo que o jovem de encarnado está a rezar perante tal divindade...?] 



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E, por favor, continuem a descer que, por aí abaixo, há mais.

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