No post abaixo já falei de uma criatura que, pelo menos a nível de conversa, consegue ser tão mau ou pior que o Passos Coelho e o Paulo Portas: um tal Bruno de Carvalho a quem ouvi umas declarações completamente descabidas.
Falei disso e falei dos outros que por aí andam a fazer e a dizer parvoíces que, como bem sabemos, felizmente não chegam ao céu. Mas, apesar de não chegarem ao céu, são suficientes para criarem instabilidade no funcionamento regular das instituições e criarem incerteza na nossa vida.
Mas isso será a seguir, lá mais para baixo. Aqui, agora, a conversa é outra.
Summertime por Melody Gardot
Numa semana repleta que nem um ovo, daquelas que não me deixa um minuto de sossego, chego aqui para ver se limpo a cabeça de maçadas para amanhã estar pronta para outra e só dou com notícias que não ajudam, é que não ajudam mesmo nada.
Por isso, que se lixe a actualidade.
Se me permitem, vou deslocar-me mentalmente até ao meu ninho no meio da passarada.
Gosto de andar descalça, tal como gosto de mexer nas coisas com a pele nua, e depois acontecem-me percalços.
Espetou-se-me um pico qualquer na sola do pé que me anda aqui a incomodar um bocado. O organismo acabará por absorvê-lo, o corpo sempre incorpora o que vem do exterior.
Adiante.
Entremos, pois, no meu pedaço de paraíso. Entremos descalços para melhor sentir o chão que pisamos.
No fim de semana que passou estive descansada, o tempo estava de verão, o sol entrava pela casa toda.
Cada pequeno recanto da casa me agrada, há sempre por ali um pouco de mim, há a natureza que entra pela casa e que se mistura com as minhas coisas.
O meu marido queixa-se, diz que ocupo todos os espaços. Tem razão mas não consigo evitar.
Tirei a fotografia aqui ao lado quando estava a varrer e o sol entrava e dourava os chapéus e, de dentro da casa, as árvores que se viam pela janela quase pareciam dentro de casa. Mas, nessa altura, ao ir afastar a cadeira para varrer por baixo, dei com a balança que ali podem ver. Fiquei espantada. O que é que estava a balança ali a fazer? A balança é antiquíssima, trouxe-a de casa de uma tia do meu marido quando ela morreu. Gosto de ficar com coisas assim e nem sei explicar porquê. Por baixo do prato da balança estava uma receita escrita com a bonita letra da tia. A balança estava na cozinha em cima do micro-ondas e por algum motivo a tirei e por algum motivo ali foi parar. Ou então não fui eu. Não tenho boa memória para este tipo de coisas. Varri o chão e deixei-a ali ficar. Parece que não destoa. Ao pé da cadeira tenho uma pequena mala de viagem também antiga, e um galo de chapa e uns tamancos de madeira que trouxe dos Picos da Europa. Ao pé da janela está também uma daquelas mesinhas altas que veio de casa de uma das minhas avós. Esta por acaso é a mais baixa do conjunto de três que trouxe. Parece que preciso da harmonia que vem da mistura de memórias, da natureza, das minhas coisas, de alguma desarrumação.

Misturo velas de vários feitios (gosto de uma que tem feitio de ovelha de pé), com galinhas de papier machê, santas artesanais de madeira, quadros que pinto, bancos que desenho e que mando fazer, azulejos que mando pintar e faço embutir na parede, cortinas que sobreponho, tapetes que faço, molduras com fotografias da família, livros que não acabo de ler, tintas, cestos com pinhas.
Depois o difícil é manter isto tudo limpo.
Uma casa assim, em que se entra e sai por todo o lado, está sempre a precisar de ser varrida. Há bichos de conta e teias de aranha que aparecem de uma semana para a outra. O que vale é que se há coisa que gosto de fazer é varrer. Varrer ou lavar o chão.
Um dia destes vou lavar os tapetes todos. Gosto de fazer grandes barrelas. Se passasse um rio aqui à beira de casa, haveria de levar a roupa numa cesta e pôr-me-ia a lavar roupa na beira do rio.
Mas não é só dentro de casa. À volta da casa, todo aquele chão precisa de ser varrido mas, nestes fins de semana curtos, o tempo não me chega.
A caruma cobre todo o chão. E há ervas por todo o lado e as árvores estão todas a precisar de um belo desbaste. As pequenas azinheiras parecem umas adolescentes despenteadas.
Claro que os muros também precisam de ser pintados mas, se nos metemos nós a fazer isso, acabamos os fins de semana mais cansados do que para lá fomos. Se contratamos alguém, custar-nos-á os olhos da cara. Mas eu gosto de ver os muros com a patine com que o tempo os vai cobrindo.
A natureza e o tempo são extraordinários: moldam o mundo.
E eu já não sei se fui eu que imaginei e fiz tudo isto ou se isto já existia há muito tempo, antes de eu sequer o ter imaginado, se apenas esperava oportunidade para se materializar. Não sei mesmo.
Gosto de me deitar naquele branco comprido que puderam ver lá mais acima. Levo o colchão de uma espreguiçadeira, almofadas, livros, o Expresso.
O banco está encostado a um muro alto no qual se projectam as sombras que o grande pinheiro desenha. Ao longo da tarde, as sombras vão mudando e eu vou contemplando a sua evolução como se estivesse a ver um filme. Como estou ali imóvel, os pássaros aceitam a minha presença e por isso voam e pousam nos ramos por cima de mim e eu fico a vê-los e a ouvi-los. Não me mexo para não os perturbar. A paz absoluta é preciosa, não se deve perturbar por motivos fúteis. Os pássaros cantam, brincam. Talvez estejam a divertir-se ou a comunicar uns com os outros. Não sei se reparam em mim e percebem que sou uma deles ou se nem me vêem.
Mais para o fim do dia começou a levantar-se uma aragem que foi ganhando força. A aragem vem perfumada. O pinheiro, os cedros, o alecrim, o rosmaninho, toda essa flora solta os seus perfumes com este sol que prenuncia o verão. Por fim já estava mesmo uma ventania. Como o banco é abrigado, apenas ouço o vento a vejo a copa das árvores numa dança agitada, mas ali em baixo não sinto o frio que o vento de fim de tarde já traz.
Estou a ler 'Os factos', autobiografia de um romancista, de Philip Roth. Estou a gostar de ler.
É claro que os factos nunca vêm ter connosco assim, sem mais nem menos, antes são incorporados por uma imaginação que é formada pela nossa experiência anterior. As recordações do passado não são recordações de factos mas recordações da nossa imaginação dos factos.
(leio na introdução do livro)
É bem verdade isto.
De vez em quando os meus filhos (especialmente ela que é toda romântica) recordam coisas da sua infância ou adolescência e eu fico muito admirada porque não tenho ideia de que tivesse sido nada daquilo. No entanto, não consigo dizer de certeza absoluta que a minha versão é que seja a correcta pois cada um de nós vê as coisas pelo seu prisma, faltando-nos sempre outras perspectivas e mesmo alguns factos que, para nós, podem ter sido acessórios, para os outros podem ter sido fundamentais.
Gosto de ler autobiografias. São recordações que tentam ser fiéis à realidade mas que, certamente, estão moldadas pela emoção com que foram vividas, suavizadas pelo tempo.
Se calhar, quando a vivência foi má, o tempo produz o efeito contrário, adensa-as. Não sei.
Li há bocado uma notícia terrível passada há décadas, mas terrível mesmo, e ainda pensei escrever sobre isso mas não consegui.
Pergunto-me: quem passou por aquilo e sobreviveu, como recordará agora esses tempo? Será que as pessoas que vivem amarguradas passaram por experiências más quando eram pequenas?
Serei tão descontraída por ter crescido no meio da natureza, a brincar na rua, à solta?
Ou procurarei com tanta necessidade e urgência a natureza, como se fosse um alimento e eu faminta, porque preciso disso para manter o equilíbrio face a uma vida feita entre reuniões, situações desgastantes, enervantes mesmo, e trânsito e mais trânsito, e elevadores cheios de gente desconhecida?
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Bem. Já estou para aqui a divagar e a noite já vai longa e daqui a nada tenho que estar a pé para mais uma maratona de sol a sol. Por isso, fico-me por aqui e não vos maço mais.
Recordo: abaixo falo de criaturas horrorosas e de situações periclitantes. Por isso, pensem bem se querem aventurar-se por temas bem longe da paz que se vive quando a conversa decorre
in heaven.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta feira.
Saúde e alegria. E boa sorte a quem dela precisar.
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