Sabeis, senhor, que tenho que esconder o que falar não posso, não sabeis? Tenho, senhor, tenho que esconder de todos. E de mim também, senhor.
Nem a luz mais impudica, nem os ventos mais desvairados, nem o silêncio mais insistente, nada me fará dizer o que junto de todos e de vós também sou forçada a calar.
Quero-vos distante de mim, senhor, quero esquecer-vos, quero nada saber de vós, quero não sentir o vosso perfume mesmo que a outros e não a vós ele pertença, mesmo que apenas o imagine, mesmo que apenas deseje tê-lo um dia sentido. É que é tão forte a saudade, senhor, tão forte, tão forte.
E não queirais que eu saiba o que digo ou que me mantenha coerente. Não, senhor, não queirais. Toda eu sou fogo que me arde por dentro, queixume que se não deixa ver e que abre sombrios caminhos em mim, palavras de paixão que disfarçam a paixão que confessar não posso, labirintos em que sozinha me perco, perigosos e atraentes abismos que me respondem quando em silêncio por vós chamo, senhor.
Ah senhor, que dor, senhor, que dor.
Ah, que misterioso apego é este que sinto e que tanto queria desconhecer?
E que sopro é este que até mim chega e que sei, senhor, sei, que é o surdo chamamento que por mim lançais nas longas noites em que os lobos saem à rua para uivar, loucos de solidão e amor?
Há posts para os quais é preciso ter-se uma certa predisposição. Ou nem será isso. Talvez coragem. Ou saber-se, a priori, como fazê-lo para que saiam na forma certa. Ter auto-controlo, talvez. Não sei explicar.
O que vou compor a seguir é um desses posts. Talvez de todos os que publiquei até hoje este seja o que mais me tem feito ponderar se devo ou não e, se sim, como dar-lhe corpo.
Obtive, naturalmente, autorização para fazê-lo. Mas, tendo já decidido que o farei, ainda não sei se será o mais simples e sóbrio possível ou se devo juntar alguns apontamentos para densificar o retrato.
Peço que percebam a sensibilidade da situação pois o post será lido por todos vós mas também pela autora da carta que vou transcrever. Tinha pensado escrever antes um post genérico sobre situações idênticas, talvez para contextualizar. Mas, em casos assim, não há situações idênticas. Talvez, a seguir, tente fazê-lo; mas não sei. Não sei ainda como será e, aliás, acho que estou a escrever isto para ganhar coragem para o que se segue.
Acrescento apenas que isto de ter um blog tem sido para mim uma experiência única, especial, gratificante. Até mim têm chegado pessoas extraordinárias que me têm mostrado muitos mais lados da vida do que eu conhecia. Não tenho como retribuir a generosidade de me acompanharem e a confiança ilimitada que em mim depositam apesar de não me conhecerem. A autora da carta que a seguir vou transcrever é uma dessas pessoas e só espero que o respeito e estima que por ela sinto não sejam traídos por inabilidades que eu não consiga ultrapassar ao compor o post que se seguirá a este.
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As fotografias foram feitas este domingo enquanto andei a passear pelo Chiado e pelo Príncipe Real (... e, claro, a namorar e deixar-me tentar por mais uns quantos livros)
O Spiritus Sanctus Vivificans é obra de Hildegard of Bingen
"As visões que tive não as vi em sonhos, durante o sono ou em ataques de loucura, nem nos meus olhos ou ouvidos carnais, nem em locais ocultos; estava acordada, desperta, e foi com os olhos do espírito e com os ouvidos internos que as percebi, claramente e segundo a vontade de Deus."
Uma tal visão, como a que é ilustrada pela figura das estrelas a cair e a extinguirem-se no oceano, é interpretada por ela como "A Queda dos Anjos":
"Vi uma enorme estrela de grande beleza e esplendor e com ela uma enorme quantidade de estrelas cadentes que a estrela seguiu em direcção a sul. Subitamente todas foram aniquiladas, transformadas em carvão... e lançadas no abismo, de forma que deixei de as ver."
Esta é a interpretação alegórica de Hildegard. A nossa interpretação literal é que ela passou pela experiência de uma chuva de fosfina em trânsito através do seu campo visual, sendo a sua passagem sucedida por um escotoma negativo. (...)
Estas visões revestem-se de uma enorme intensidade arrebatadora, especialmente nas raras ocasiões em que, à cintilação original, se segue um segundo escotoma:
"A luz que vejo não é localizada, no entanto é mais brilhante do que o sol. Não consigo perceber qual é o seu peso, comprimento e largura e chamo-lhev'a nuvem da estrela viva'. E, tal como o sol, a lua e as estrelas se reflectem na água, assim os escritos, dizeres, virtudes e obras dos homens se reflectem nela como perante mim...
Por vezes contemplo, dentro dessa luz, uma outra luz à qual chamo 'a própria luz viva'... e quando a contemplo toda a triteza e dor se desvanecem da minha memória, volto a ser uma rapariguinha e deixo de ser uma velha"
As visões de Hildegard, revestidas desta sensação de êxtase, ardentes de significado filosófico profundo conducente a Deus, eram instrumentos que a dirigiam em direcção a uma vida de santidade e misticismo. São um exemplo único da forma como um acontecimento psicológico, banal, odioso e sem significado para a maioria das pessoas, se pode transformar numa consciência privilegiada, no substrato de uma suprema inspiração extática.
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Hildegard von Bigen (1098 - 110), freira e mística de poderes intelectuais e literários excepcionais, teve inúmeras 'visões' desde a mais tenra idade até ao fim da vida e que nos deixou relatos e desenhos maravilhosos nos dois manuscritos que chegaram até nós: Scivias e Liber Divinorum Operum ('O Livro das Obras Divinas').
Um estudo cuidadoso desses relatos e desenhos não deixa dúvida em relação à sua natureza: eram, sem dúvida, cefaleicos e ilustram muitas das variedades da aura visual (...)
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Vision - A vida de Hildegard von Bigen
The story of twelfth-century Benedictine abbess Hildegard von Bingen—a Christian mystic, author, counselor, naturalist, scientist, philosopher, physician, herbalist, poet, channeller, visionary, composer and polymath.
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O que acima transcrevi (até à introdução ao vídeo) é parte do capítulo 'As visões de Hildegard' do livro 'O homem que confundiu a mulher com um chapéu' da autoria do neurologista Oliver Sacks.
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Se quiserem fazer ginástica, podem dar um salto até à mente elástica e às non dangereuses liasons entre a ciência e o design e a arte -- é já a seguir,
Em dia frio, céu cinzento, chuva miúda, dores no corpo e frio na pele, por puro prazer de andar e olhar, forço-me a sair de casa e passear como se as pernas não estivessem presas e doridas, a cabeça latejante e a humidade fria não me atrasasse os movimentos.
A primeira paragem foi o Cais Sodré. Queria conhecer a Pensão Amor.
Pelo caminho, fui vendo as novas lojas que vão abrindo na zona. Coloridas, diferentes, invulgares.
E a minha selfie: apenas a minha mão captando a imagem -- mas é o que interessa para este fim.
Com as mãos fotografo, com as mãos escrevo.
O aproveitamento do Mercado da Ribeira para espaço de restauração, com as características que tem, impulsionou muito a nova vivência que se respira por estas bandas.
Pensava que a prostituição já não habitava estas ruas mas ainda lá vi uma ou outra, das que, em seu tempo, teriam sido jovens vistosas e hoje são mulheres já de alguma idade, cabelos muito louros, rostos muito pintados, vestuário exclamativo e uma boa disposição exuberante, trocando conversas divertidas e altissonantes com os conhecidos da rua. Nada de mais.
Na decoração das lojas há um ar retro, um look vintage, e há gentes de fora, há um ambiente que se adivinha boémio quando anoitecer. Mesmo de dia e com mau tempo, já há gente na rua, de copo na mão, conversando, circulando, gente em esplanadas.
Mas uma coisa me surpreendeu. Tantas vezes que venho para estas bandas e tantas vezes que já fui à Ribeira e dali até ao Chiado via Rua do Alecrim. E, no entanto, nunca tinha reparado: Nossas Senhoras em pequenos nichos.
Numa das ruas, na parede, quase ao nível do chão, este aqui abaixo. E a mistura entre motivos religiosos, bonecos populares, fotografias e objectos de plástico, flores bem coloridas, fica curioso. Nem sei se é suposto inspirar alguma religiosidade ou se é apenas um motivo decorativo kitsch mas gosto, acho inesperado e, até, simpático.
Numa outra loja, um arranjo que muito me agradou. Na fotografia talvez não se perceba, mas são garrafas de vidro transparente, empilhadas, com o gargalo virado para a frente. A meio há a abertura que serve de altar onde brilha, azul e piedosa, a Virgem.
Fotografei neste ângulo pois gostei de ver o reflexo de um dos prédios do largo e das árvores nuas no vidro da montra.
Depois, já dentro da Pensão Amor, ao fundo de um daqueles corredores com ar decadente, entre salas incompreensíveis ou quartos vazios, mais um nicho, mais uma Nossa Senhora
Com umas cortininhas de veludo à frente, quer a Nossa Senhora grande quer as que estão nas campânulas de vidro, devem ter vindo de lojas chinesas. Digo eu. Mas tem graça. Há qualquer coisa de ilógico nisto. Ou, então, de lógico. Talvez se pretenda a protecção ou o perdão da Nossa Senhora num lugar que se associa ao 'pecado'.
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Momentos houve em que os anjos entreabriram as portas do céu: mas acredite em mim, o silêncio é a mais estimável qualidade do divino e é afinal tudo o que a terra tem para nos dar. Terminou o concerto. Voltemos para casa.
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O poema é 'À saída do concerto' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa'
Amy Camie e Jessica Goodenough Heuser interpretam"O Viridissima Virga" de Hildegard von Bingen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo
Quando me despeço dos meus colegas ou se me cruzo com conhecidos na quinta-feira antes da Sexta-Feira Santa (acho que se chama da Paixão, mas não estou certa), toda a gente deseja 'Boa Páscoa' e eu, que não ligo à data, digo o mesmo. Mesmo aqui, nos comentários, se me desejam uma boa Páscoa, eu retribuo. No fundo, estou a desejar que tenham um bom dia e, se lhe atribuem significado religioso, desejo também que se sintam apaziguados consigo próprios e com os outros, sentindo que é um tempo de recomeço.
Eu, muito sinceramente, não ligo. O meu sentido de religiosidade é muito meu, uma espécie de agradecimento ou de sentimento de felicidade por me ser dado testemunhar milagres como a da existência de vida ou da perfeição da natureza. Penso que não vou além disso e também não dirijo o meu agradecimento a nenhuma entidade em concreto. E se no que se refere a crenças em divindades é isto, ainda mais limitada sou no que se refere a rituais. Contudo, em datas assim, Natal ou Páscoa, gosto de ter a família reunida e gosto de preparar um bom almoço. E gosto que haja no ar um ambiente de dia de festa. E isso, para mim, é bom.
Na sexta-feira, estava eu em casa da minha mãe, e ela rodeada por todos os netos e bisnetos, uma algazarra que deixou o meu pai à beira de um ataque de nervos, tocaram à campainha. Era uma vizinha.
Essa vizinha, em tempos, foi dona de um salão de cabeleireira (como se dizia). Depois deixou-se disso, provavelmente trespassou o estabelecimento, e passou a gozar dos rendimentos. Contudo, as saudades fizeram o seu caminho e, desde há algum tempo, em casa adaptou um quarto e a casa de banho e fez uma espécie de mini-salão caseiro para amigas. Por amizade e comodidade, a minha mãe vai lá e quase todas vizinhas também.
Então, dizia eu, ela foi lá a casa da minha mãe para dar um beijinho mas estava com pressa que já tinha uma amiga à espera, para arranjar o cabelo. E acrescentou que já passava das quatro da tarde, já não fazia mal. Perguntei se dizia isso por causa da digestão e ela atirou a loura cabeça para trás, deu uma gargalhada e esclareceu que não, que para quem acredita, disse ela, só a partir da tarde de sexta feira é que já se se aceita, é isto da quaresma, não sei bem, mas há quem ache que não deve. E ria-se de gosto, penso que por eu ter pensado que tinha a ver com a digestão. Fiquei admirada com aquilo mas a minha mãe também não foi capaz de adiantar muito mais. De não se poder comer carne já eu sabia, agora de não se cortar ou arranjar o cabelo foi novidade para mim.
Ou seja, há costumes que fazem sentido para quem é crente e incompreensíveis para os agnósticos, como eu. Mas respeito.
Por isso, apesar de para mim ser apenas um dia de almoçarada familiar, a todos quantos atribuem um significado especial ao dia de Páscoa, aqui deixo os meus votos de um dia feliz. E se alguns de vocês, meus Caros leitores, estão a desejar um recomeço, um novo rumo, pois que isso aconteça e que o que vier venha por bem -- e que, com a ressurreição e com a primavera, melhores dias estejam para chegar.
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Se o almoço ficar bom, depois logo vos digo como fiz. A esta hora ainda não sei como vou fazer.
Estou inclinada a fazer umas variantes para agradar a gregos e troianos.
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As fotografias foram feitas, este sábado, in heaven.
O coro Oxford Camerata interpreta Ave Generosa de Hildegard von Bingen
Ora muito bem. No post abaixo mostrei um vídeo fantástico e contei um dos meus famosos (e embaraçosos) deslizes e, mais abaixo ainda, mostrei um filme alusivo aos Descobrimentos mostrando Cabral, ele mesmo, a produzir indevido efeito sobre um índio maneiro.
E, assim sendo, quem queira pagode é descer, que, aqui, agora, a conversa é outra. Não é que seja dramática mas divertida também não será.
Atraem-me algumas matérias que desconheço e que, por algum motivo, me aparecem como mágicas ou simplesmente poéticas. Acontece isso, por exemplo, com a física da matéria. Por acaso, agora que falo nisto, penso que há já algum tempo que não leio ou ouço nada sobre o tema.
[Ao escrever isto, interrompi a escrita e estive a ver alguns vídeos sobre o assunto]
Não me esforço por perceber. Aliás, prefiro até nem perceber. Neste tipo de coisas acho que, se mergulhasse nos aspectos mais técnicos e guiasse o meu raciocínio segundo os já desbravados caminhos do saber, deixaria que escapassem à minha percepção os aspectos mais luminosos e encantadores do assunto.
Sou capaz de ler livros sobre estes assuntos, de forma salteada, como quem lê um poema aqui, outro ali. Acho fascinante que aquilo de que tudo é feito se situe para lá da fronteira do nosso total entendimento. Fotões, quarks, a forma como se deslocam, o rasto que deixam, tudo isso para mim é magia. Já o contei (e é o mal de uma pessoa escrever como se não houvesse amanhã, já lá vão cinco anos, às tantas corremos o risco de nos tornarmos repetitivos): podendo escolher uma cadeira opcional na faculdade, por puro diletantismo escolhi Introdução à Física da Matéria, de um curso que não era o meu. Inesperadamente, tive um dezanove que tive que ir defender e para cuja sessão fui numa total inconsciência, sem me preparar e sem fazer a mínima ideia do que me esperava. Ainda estou para saber como, mantive a nota e recebi muitos parabéns. E muita gente manifestou a sua incompreensão sobre o que me levava a não me dedicar a sério a uma área na qual me movia com tanta facilidade. A questão é que a física das partículas, para mim, era como a poesia: um fascínio. E, nem por isso – ou talvez por isso - não me licenciei em literatura, ramo de poesia (se é que o há).
Igual atracção tenho por tudo o que se prenda com o cérebro, com o seu funcionamento, ou sobre maneiras de ser, o que as motiva, o que leva uma pessoa a ser como é.
Tenho no meu pai a prova de como as ligações no cérebro podem apagar-se, renascer, flutuar, mudar de comprimento de onda, transformar-se. Desde que teve o último e profundo AVC já lhe vimos toda a espécie de comportamentos. No primeiro dia, lúcido, chorou quando me viu. Mal podia falar, tinha perdido meio campo visual e parte do corpo estava imobilizado e, muito naturalmente, isso desgostava-o bastante. No segundo, parecia estar numa euforia, cheio de planos para quando regressasse a casa (instalar acesso à internet, mudar os vidros das janelas, sei lá) e referia-se a uma enfermeira como sendo parecida com aquela miúda que vai à televisão e que tem umas grandes mamas. A minha mãe, espantada com aquele comportamento, recomendava que ele falasse baixo, que disparate, que alguém podia ouvir e que, para além do mais, mamas grandes têm elas todas, aumentam-nas. Ele ria-se. Depois lembrou-se: era a Ana Malhoa -- e a minha mãe ficou parva com o que ele tinha ido buscar.
E foi variando. Houve uma altura que queria ter relações sexuais, até se queixou ao meu marido de que a minha mãe não queria. A minha mãe encabulada, mandando-o calar, e ele a insistir. Sentiu-se a minha mãe na obrigação de nos explicar o óbvio: que ele não estava minimamente em condições e que aquilo era mais um dos epifenómenos a que se vinha assistindo.
Quando a minha mãe esteve doente neste verão, choroso (apesar de não saber o que ela tinha nem ter bem a noção de há quanto tempo estava ela fora de casa), dizia ele que estava a rezar à Nossa Senhora. Fiquei perplexa e sem saber se era verdade ou mais uma baralhação. Sempre o ouvi, tal como ouvia ao meu avô, pai dele, referir-se aos padres como os padrecos ou a padralhada, sempre o ouvi referir-se às mulheres mais crentes como umas beatas. Não me lembro que alguma vez tenha ido à missa, quanto mais rezar.
Contou-me a minha mãe que ontem, estando ela a tentar evitar que ele durma durante o dia, senão não dorme de noite e não a deixa dormir, se queixava, com um certo toque de ironia, à senhora que lá vai tratar da higiene: não tenho conseguido dormir, aí o fiscal não me larga. Outras vezes refere-se à minha mãe, com arrelia, dizendo: ‘anda aí feita doutora, a dar ordens, só a querer que eu amoche’. Outras vezes, logo de seguida, é capaz de querer ir para um lar porque acha que dá muito trabalho e que tem pena de ser uma prisão para a minha mãe. E oscila entre todos os estados de espírito, sem razão aparente. Outras vezes percebemos que nem é ele: são os comprimidos. Há dias chamou a minha mãe e disse-lhe que já tinha morrido e queria saber onde é que iam pôr o caixão. Já não é a primeira vez que diz isto. A minha mãe já se ri, e diz-lhe como se se zangasse: ‘Ai! não sejas parvo, então achas que, se tivesses morrido, estavas a falar? Cala-te com essas conversas que não têm jeito nenhum’. A semana passada chamou-a, parecia assustado. Praticamente não vê nada mas, então, dizia que a minha mãe tomasse conta das crianças que ali estavam, todas de roda da cama, sem pararem sossegadas e sem ninguém a olhar por elas. Quando a coisa derrapa para estes domínios, a minha mãe pensa que é algum medicamento que está a provocar alucinações. Ou pensa que sabe qual é e reduz a dose (embora receie que alguma outra coisa descarrile), ou vai ao neurologista que lá muda ligeiramente aquele processo alquímico que serve de caldo no qual a mente se movimenta.
No entanto, li num livro de Oliver Sacks (a ver se um dia destes falo sobre ele que é deveras, mas mesmo deveras, interessante) que aquelas alucinações podem não ter a ver com a medicação mas com o facto de praticamente não ver. Há pouco fui ver se encontrava algum vídeo sobre isso e encontrei. Está ali em baixo.
São matérias tão misteriosas... É o nosso corpo e, no entanto, como ainda é um enigma, pelo menos para a maioria das pessoas.
Pela parte que me toca, não sei se há alguma relação entre a física das partículas, as neurociências, a poesia, a álgebra ou a geometria descritiva, os modelos de simulação e a inteligência artificial, a simetria e as cores puras das flores. Não sei mesmo. Não sei porque é que isto me atrai nem provoca em mim esta sensação de irresistível atracção que me leva a ler sem querer fixar, a contemplar sem querer perceber, a aproximar-me sem querer tocar. Não sei. E também não quero saber.
(...)
e já declina a beleza completamente despida
da jovem ateniense que abriu a porta e traz a luz ao quarto inteiro
de uma só vez,
mas deixa que se suspeite a treva infinda de onde chega,
E agora aqui estão dois vídeos nos quais Oliver Sacks fala de enigmas que me fascinam.
1.
Oliver Sacks explica o incrível efeito da música sobre a gagueira cinética do mal de Parkinson
Transcrevo o texto de apresentação do vídeo: Muitos têm conhecimento sobre o notável poder da música em fazer desaparecer os bloqueios de fala das pessoas que gaguejam (cantar é uma das formas mais infalíveis de eliminar momentaneamente a gaguez). Mas poucos sabem que um efeito similar também ocorre no mal de Parkinson, também chamado de gagueira cinética. Neste vídeo, o neurologista Oliver Sacks fala sobre como é surpreendente a forma com que pacientes parkinsonianos reagem ao estímulo fornecido pela música. Impedidos pela doença de falar e se mover com fluxo e suavidade, a música momentaneamente consegue trazer-lhes de volta à normalidade, restaurando-lhes a leveza e o ritmo dos movimentos. A história contada no vídeo é um dos casos clínicos relatados em seu novo livro, Musicophilia,
2.
Oliver Sacks: O que as alucinações revelam sobre as nossas mentes
O neurologista e escritor Oliver Sacks chama nossa atenção para a síndrome de Charles Bonnet -- na qual pessoas visualmente deficientes experimentam alucinações lúcidas. Ele descreve as experiências de seus pacientes com detalhes afectuosos e nos conduz à biologia desse fenómeno pouco divulgado.
.....
Lá em cima, o primeiro vídeo traz, de Hildegard von Bingen, Ave generosa (de Heavenly Revelations), numa interpretação a cargo de Oxford Camerata.
As fotografias da mulher que partilha um dos olhos com um animal e a última, a que os esconde com uma borboleta, são da autoria da húngara Flóra Borsi.
..... .....
E, agora, a quem ainda tiver paciência para me aturar, recomendo que desçam até aos dois posts seguintes, bem mais levezinhos.
Estavam 30º e um sol de verão. As glicínias estão a rebentar com aquela energia própria deste tempo de ressurreição. Os cachos lilases já estão quase formados e eu, quando os vejo, sinto sempre aquela alegria enorme de quando se reencontra alguém que julgávamos perdido. Esgueiram-se pela azinheira, envolvem-se com o loendro, enroscam-se nos portões. O seu perfume é discreto mas, ao entardecer, nestes dias de calor, o ar fica mais doce, com aquela suavidade que vem dos seres requintadamente delicados.
À porta da casa, os lírios do campo também já apareceram. Apetece-me tocar-lhes, sentir a sua pele macia, quase transparente, uma transparência azul, irisada. Gostava de os poder tornar eternos mas depois penso que, se fossem eternos, talvez perdessem este seu lado etéreo, efémero, e talvez a sua graciosidade venha também disso, de a todo o momento sabermos que podem desaparecer.
Vendo-os de perto, percebemos que são de uma beleza quase insuportável. Fotografo-os rendida, como se não conseguisse compreender como é possível que da terra nasça um ser vivo tão incrivelmente perfeito.
Por todo o lado as flores despontam, azuis, amarelas, cor de rosa. Não sei o nome de muitas delas.
A minha mãe sabe, estas plantas são-lhe familiares, diz muitas vezes que a vegetação aqui é parecida com a da Arrábida. A ver se amanhã lhe pergunto qual o nome desta. Pensava que fosse sálvia mas fiz uma pesquisa e não me parece.
Aparecem por todo o lado, pés isolados junto ao tronco dos pinheiros ou em tufos no meio do tojo ou do alecrim ou, ainda, junto às figueiras.
E eu capto-as, como se fossem elegantes bailarinas, perfeitas, em frente de um cenário que se anula para as deixar brilhar.
Os pinheiros estão também numa euforia, lançam despudorados espigões dourados ao céu. Alegro-me, sei que isso corresponde à altura que vão ganhar, é de dar gosto ver como se desenvolvem de forma tão festiva.
Nestes dias de calor, o perfume dos pinheiros torna-se quase intenso mas é um intenso não agressivo, é suave, e, mais à frente, junto aos eucaliptos, o ar fica ainda mais perfumado, um cheiro tão bom a campo, a pureza, a bondade.
Quando aqui estou, tudo em mim é leveza, é disponibilidade para o encantamento. Maravilho-me com os caminhos cobertos de caruma, maravilho-me com as abelhas numa azáfama sobre o alecrim que é, por estes dias, uma manta florida, maravilho-me com o tom ocre das rochas, maravilho-me com o tomilho rasteiro e delicado, com o rosmaninho, com o ouro feérico das flores do tojo, maravilho-me com a luz dourada e com o desenho das sombras.
Peguei numa toalha turca macia e numa almofada e fui ler para um dos bancos de pedra que está sob o enorme pinheiro. Levei um livro. E senti-me imensamente feliz.
O chão está coberto de caruma, o muro tem desenhados os arabescos de sombra dos ramos do pinheiro, o calor aqui é suave, abrigado. Gosto tanto de aqui estar deitada, sentir o sol na minha pele. Dormir aqui é tão bom. Dormi. De facto, apenas li sobre a Biblioteca de Alexandria e Zenódoto, depois adormeci.
Sobre mim, lá bem alto, as ramagens do pinheiro. É como um tecto feito de céu e véus feitos de ramos de pinheiro. E pássaros. E como cantam...
Gosto de ali estar a ouvir os sons do campo: os pássaros, as abelhas, um cão que ladra ao longe, um sino que toca algures na serra ao fundo. Eu podia viver assim grande parte da minha vida, no campo, a ouvir os sons da natureza, a contemplar a beleza intocada.
Mas porque este domingo há outros afazeres, e vamos estar com os meus pais e a minha mãe vai poder estar outra vez divertida com as crianças, viemo-nos embora ao entardecer.
Na casa ao fundo da rua, os cavalos dourados passeavam devagar, felizes também.
São dóceis os cavalos, belos e dignos. Por vezes, à noite, ouço-os correndo na estrada e esse som arrepia-me, há qualquer coisa de misterioso no som de cavalos correndo na noite.
....
Agora, ao escrever, lembrei-me da magnífica entrevista que Sebastião Salgado concedeu a Jorge Calado e que apareceu na revista E (do Expresso) da semana passada a propósito da exposição Génesis que vai abrir a 10 de Abril na Cordoaria Nacional em Lisboa - e que, como ali se diz, é uma 'declaração de amor à natureza'.
Transcrevo um pouco:
Somos uma espécie que não merece viver. Destruímos muitas outras espécies, estamos a estragar o planeta. A nossa espécie será aniquilada pelos próprios actos que provocou. Mas descobri que as outras espécies são tão importantes como a minha, que as formigas são tão ou mais importantes no planeta que o ser humano; as baleias e os gaviões também. Estou dentro de uma escala de espécies, pertenço ao grupo dos animais. Que a minha espécie desapareça, não provoca nenhuma mudança má no planeta; pelo contrário, o planeta será reconstruído de uma outra forma, provavelmente melhor. Os dinossauros – outra espécie dominante e agressiva – durante 150 milhões de anos e desapareceram. (…) o planeta é muito sábio e é capaz de se refazer. Eu não acredito em Deus, sou ateu. Mas acredito numa ordem geral das coisas. Acredito que a inteligência que se desenvolveu nestes biliões de anos de evolução é uma inteligência maior e que a evolução é uma coisa fabulosa. (…) Ao concentrarmo-nos nos centros urbanos, ao vivermos nas cidades, já nos retirámos do planeta. Não conhecemos mais os pássaros ou as árvores, não sabemos distinguir uma ave macho de uma ave fêmea, ignoramos o ciclo da vida.
Gaivota sobre o Tejo, Lisboa logo ali
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Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas
[excerto de 'Estilo' de Herberto Helder e que faz parte do belo artigo de Ana Cristina Leonardo também da revista do Expresso da semana passada]
....
As fotografias foram feitas este sábado - de tarde as do campo in heaven; de manhãzinha, a última no Ginjal.
A música é Veni Creator Spiritus - Hildegard von Bingen
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Permitam que vos diga que, descendo, encontrarão coelhões da páscoa, avozinhas maltratadas, religiões e humor à mistura.
....
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.
E que seja o início de um período de ressurreição, de esperança, de vida nova.
Está uma noite de verão. Da rua sobe até mim o calor, o cheiro a flores. E vejo o rio espelhado e escuro lá em baixo, as luzinhas brilhando em volta. Haverá pessoas passeando pelas margens mas da minha janela não as vejo. Lá em baixo, na entrada do prédio, está um casal de namorados que se abraça e beija. A vida corre morna, macia.
Chego a esta altura da minha vida, depois de tanto museu, livro ou música e, cada vez mais, o que mais me surpreende ou comove é a convivência entre o efeito do tempo nas coisas e a marca que, quem passa, vai deixando nas coisas e em nós.
Recuo no tempo em busca do silêncio, da harmonia graciosa, dos sons que parecem descer dos céus, das paredes gastas, de restos de objectos que, em tempos, alguém amorosamente escolheu, e detenho-me perante a beleza do acaso, do encontro inesperado, da magia da simbiose perfeita, do pequeno desenho deixado como uma oferenda, da elegância de um pequeno ser azul sobre uma superfície de ferro que o tempo esculpiu, de gestos que se cristalizaram, de palavras que ficaram.
A vida é diversa, entram e saem pessoas na nossa vida, e ficam memórias, afectos intemporais, e entram outras, com leveza, e logo se cravam na nossa mente ou invadem o nosso coração, e aquilo de que gostávamos abre espaço para quem chega.
Nos últimos dias partiram um grande poeta, um grande realizador, um grande economista. Os jornais e televisões não conseguem ter sossego: retrospectivas, evocações, tributos. As redes sociais enchem-se com os rostos de quem parte. Ainda nos estávamos a refazer da partida de Herberto Helder e já Manoel de Oliveira partia também e agora eis que Silva Lopes também se foi.
Mas eu, que não gosto de me deter nas partidas e que detesto despedir-me, permito-me pensar não só na marca que deixam mas também naqueles que, entretanto, chegam. E chegam novos músicos, novos poetas, novos bailarinos, novos pensadores, e logo nos encantam e, de entre os novos, alguns se haverão de destacar, de deixar as suas marcas e encher também os nossos corações. E depois descobrimos também outros que pensávamos presos ao passado, longínquos como se os tivéssemos conhecido noutras encarnações e é como se tivessem nascido de novo. E com memórias, com descobertas e com os que vivem à nossa beira, vamos avançando na vida. Assim somos nós, como uma parede que se vai erodindo, ganhando novas texturas, e na qual se inscrevem os ecos do passado e onde, quem passa, os poetas, os pintores, os músicos, vão deixando os seus sonhos azuis e onde também se inscrevem os afectos todos, os abraços, os olhares, as palavras.
Até que um dia partiremos também. Efémera é a vida.
Não tenho medo de doenças e, para falar verdade, não penso na minha morte. Um dia deixarei de existir mas, enquanto cá estou, penso é em viver.
Quando um dia, como já aqui o contei, o carro que conduzia perdeu os travões e, sendo um carro todo dado às electrónicas, não tinha um travão de mão de que eu pudesse socorrer-me, avancei com o carro desgovernado por uma estrada que descia ingrememente em direcção a uma rotunda em volta da qual circulavam camiões. Naquela fracção de segundos, pensei que o melhor a fazer, para não me ir desfazer contra os camiões, seria galgar o passeio e entrar pela rotunda acima. E assim fiz. Mas, quando olhei, vi o carro desgovernado em direcção a uma enorme peça metálica, de chapa, no centro da rotunda. Naquele instante, pensei que a chapa iria entrar pelo vidro e decapitar-me. Pensei: se calhar estou a viver os últimos momentos da minha vida. E, por estranho que possa parecer, não tive medo.
Entretanto, com o impacto, houve um estrondo, o carro ficou cheio de fumo, quase virado no ar, e eu fiquei sem ver nada. Percebi que o carro se tinha imobilizado. Sem perceber bem o que tinha acontecido, sem saber se estava ferida, experimentei abrir a porta do carro, abriu, com alguma dificuldade saí do carro, e pensei: olha, não morri.
Entretanto, começaram a aparecer pessoas que saíram dos outros carros a dizerem-me para fugir porque o carro podia explodir porque estava cheio de fumo. Não me afastei, acho que percebi que eram os airbags que tinham rebentado e tinham deitado toda aquela fumarada. Tive muita sorte, podia mesmo ter ido desta para melhor. Mas teria ido sem medo.
Efémera e bela é a vida. Breves e misteriosos os instantes. Eterno o tempo que nos traz vidas de antes e as mistura com as de hoje e de amanhã. Festivos os afectos. Doces as memórias. Ternos os sonhos.
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Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a
sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça : essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a carne. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce : eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
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A música lá em cima é Ave generosa - Hildegard von Bingen - de Heavenly Revelations (Naxos); Maestro: Jeremy Summerly; Coro: Oxford Camerata
O poema é a carta da paixão de Herberto Helder in Photomaton & Vox
O bailado está a cargo de Hubbard Street Dance Chicago: One Thousand Pieces; coreografia de Alejandro Cerrudo; música de Philip Glass
As fotografias foram feitas no Ginjal
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira com muito amor à vida.
Semana de música que vem do fundo da memória, música medieval, música que nos traz uma tranquilidade antiga, intemporal, do limite dos tempos.
Venha comigo até ao meu blogue do Ginjal. Imagine que vem sossegar-se com a luz coada de uma igreja, ouvindo cântigos impregnados de religiosidade. A seguir ao poema do José Luís Peixoto estará dentro dos claustros. Venha comigo, está bem?