quinta-feira, junho 30, 2022

4 programas de televisão. 4 vídeos. 5 pinturas. 1 canção.

 


American Master Chef Junior -- fico espantada, intrigada, comovida. Não percebo como é possível aquelas crianças saberem tantas técnicas, conhecerem tantos ingredientes, instantaneamente terem tantas boas ideias, terem tanta perícia, tanta força, tanta perseverança, tanta rapidez, tanta confiança, tanta generosidade. Pasmo, pasmo, pasmo. E, quando a Eva saiu, chorei. E quando vi o Grayson atrapalhado, atrapalhei-me também. E, quando ele ficou choroso, eu fiquei chorosa também. Outra coisa: depois das minhas barrigas gigantes não tinha visto coisa semelhante até ver a da Daphne. Não sei como não lhe cai a criança aos pés. Tento não perder.

Pantanal -- a vida na natureza. Os grandes espaços. As águas correndo com mansidão. As verdejantes margens do rio. O encantamento mágico. As histórias populares. A música. Os preconceitos postos a nu. A graça da forma como falam, a língua portuguesa adoçada com o tempero das terras perdidas nas lonjuras. As personagens tão cheias de evolução nas suas histórias. A valentia vulnerável dos homens-macho. A sabedoria das mulheres. A irresistível paixão entre Juma, filha de Maria Marruá, e Jove, filho de José Leôncio, o jovem desengonçado de quem a peãozada diz ser flosô, uma paixão que é tão real que fez com que os seus protagonistas, bissexuais assumidos, virassem um apaixonado par amoroso. 


10 anos mais jovem, Reino Unido -- as pessoas chegam derrotadas, a vida passou por cima delas e elas chegam com o rosto amassado, os dentes estragados, a pele gasta, o cabelo velho, o corpo cansado, a vontade esgotada, o sorriso escondido, os gestos envergonhados. E, então, pegam nelas, e refazem tudo o que podem, tatuam os rebordos dos lábios, alisam a pele, florescem as sobrancelhas, cortam, pintam, amaciam e penteiam os cabelos, descobrem a roupa que melhor se adequa, disfarçam e maquilham... e, no fim, as pessoas estão mais novas, mais bonitas, mais confiantes. E sorriem, felizes da vida. 

Original é a Cultura - pessoas que falam com tempo, outros que escutam calados e atentos, observações interessantes, temas vistos sob perspectivas diferentes, apontamentos que se escutam com curiosidade. Carlos Fiolhais, Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery sob moderação de Cristina Ovídio. Do melhor a nível de conversas em televisão. Devia passar em horário nobre.

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Dermot Mulroney, além de ser um actor conhecido, é um violoncelista talentoso. Sentou-se para ser pintado por pintores no Paul Schulenburg Studio em Cape Cod Massachusetts, e tocou para eles num intervalo.

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No deserto do Arizona, pode visitar-se uma das casas do famoso arquiteto Frank Lloyd Wright. Mas nos últimos meses, o local também abriga uma instalação do artista de vidro Dale Chihuly. O correspondente especial Mike Cerre analisa como o trabalho desses dois artistas se uniu na paisagem acidentada.

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Um retiro familiar tranquilo numa vila no Vietname


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Pinturas de Alberto Burri na companhia de Maro com We've been loving in silence (com o Salvador para despistar)

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Motivação. Alegria. Paz.

quarta-feira, junho 29, 2022

A estranheza em mim

 


Foi como se tivesse chegado a um lugar antes familiar e, estranhamente, agora já não o fosse. No lugar que costumava ser o meu estava agora instalada uma outra pessoa. No lugar em que antes estava o meu amigo e onde eu tanto ia dar dois dedos de conversa estava agora uma pessoa desconhecida. No espaço onde estavam 'os meus' estava agora um grupo de desconhecidos. Queria perguntar pelos que conhecia e não sabia a quem me dirigir. Não conhecia ninguém.

A sensação era de estranheza mas não de espanto. 

No outro dia ligou-me um dos antigos conhecidos e estivemos a passar em revista várias pessoas da altura em que de lá saí. E foi há tão pouco tempo que saí, há cerca de dois anos. Uns saíram para outras empresas, outros para outras funções fora dali, outros para a reforma. Muita gente nova tinha entrado. Dizia-me ele: 'Cruzo-me com desconhecidos e não sei se é gente de cá se é gente de fora. Há serviços em que não conheço quase ninguém'. Enquanto ele falava, eu pensava: 'Se ele que lá trabalha pensa isto, que diria eu se lá fosse...?'. 

Numa outra vez, estava a ter uma reunião remota com uma pessoa de lá e qualquer coisa no espaço me pareceu familiar. Perguntei-lhe: 'Então agora onde é o seu poiso?'. Ele rodou o computador para filmar em volta: 'Veja se reconhece... ' Reconheci. E ele confirmou: 'Estou no seu gabinete'. 

Ontem pensei que tinha que ligar para lá para esclarecer uma situação e fiquei a pensar: 'Com quem peço para falar? Todos os conhecia daquela área já lá não estão..'. Uma sensação estranha.

Talvez por isso, hoje, quando o despertador tocou, acordei de um sonho muito estranho. E tive dificuldade em desligar-me do sonho.

No sonho eu estava a despertar. Tinha acordado e não conhecia ninguém. Estava no meu anterior local de trabalho e a disposição dos espaços era nova e as pessoas eram outras. Olhando, aturdida, em volta, tinha ouvido: 'Esteve a dormir durante mais de um ano...'. E eu, incrédula, olhando em volta: 'A dormir? Como se pode dormir durante um ano? Não estaria em coma?'. Não acreditava. 'Alguém me alimentou?!'. E as pessoas, como se fosse natural: 'Levantávamo-la todos os dias, era alimentada, lavada'. E eu, assustada, temendo ter estado vulnerável, diminuída: 'E usava fraldas?'. Sorriram: 'Não. Tínhamos horas certas para a levar à casa de banho'. Eu não percebia nada do que estava a passar-se. 'Mas porque me mantiveram no escritório?' Depois, preocupada com medo de ter causado preocupação aos meus: 'E a minha família?'. E eles: 'Achámos que era aqui que fazia sentido estar. A sua família tem vindo visitá-la'. Eu tentava perceber: 'Mas eu estava de olhos abertos?'. Como se fosse uma coisa natural, explicavam-me: 'Sobretudo tem estado a dormir mas de vez em quando estava de olhos abertos'. Naquela que tinha sido antes a salinha das massagens e, em alturas covid, o gabinete de confinamento, estava agora uma espécie de quartinho. 'Estive aqui um ano?'. E eles: 'Mais de um ano?'. Toda a gente ali parecia conviver bem com uma pessoa que vivia ali naquela sala, no meio de um escritório, numa torre de vidro, há mais de um ano. Olhavam para mim com uma naturalidade que me parecia estranhíssima. 'Mas não deviam ter-me mandado para o hospital?'. E eles: 'Mas porquê? Estava bem'. E eu: 'Mas levavam-me às reuniões?'. E eles: 'Sim mas só às reuniões mais complicadas'. Eu não percebia nada. Aquilo não me agradava. Respondiam-me a tudo, pareciam não estar a esconder-me nada. Mas nada me parecia fazer sentido. Queria perceber. 'As pessoas da minha família conversavam comigo?'. E eles: 'Isso não sabemos mas se calhar falavam'.

Acordei e estava nisto. Sem perceber. Pensando que nada daquilo encaixava. Pensava: 'Mas estava a dormir ou estaria inconsciente?'. E só pensava que estava rodeada de desconhecidos. 

E, durante o dia, várias vezes pensei nisto. 

Ficou em mim a estranha sensação de lá ter ficado esquecida e de que, ao despertar, tinha constatado que tudo tinha mudado e que, estranhamente, os novos habitantes do espaço me tinham adoptado assim, como um animal de estimação que os donos tivessem abandonado, nem a dormir nem acordada, nem consciente nem inconsciente, nem útil nem inútil.

Se calhar é porque, daqui por algum tempo, depois do verão, vou ter que lá ir, já está combinado. E vai ser estranhíssimo. Vou sentir-me uma estranha. Se calhar por isso tive este sonho que deixou em mim este incómodo. 

Ontem, também, ao querer aceder ao blog, não consegui, tive que provar que não era um robot, qualquer coisa de estranho se tinha passado, mas não sei o quê. Ocorreu-me que um dia posso ficar sem acesso ao blog para o actualizar e que o Um Jeito Manso pode ficar a pairar no espaço como um blog esquecido, como aqueles blogs cujo autor morre e fica imutável, para sempre parado no tempo. Ou que o próprio blog despareça sem que eu saiba onde procurá-lo. Ou sem que saiba como avisar-vos. 

Ideias um pouco estranhas. Mas pode acontecer. E talvez por saber que pode acontecer e por ter medo que aconteça é que estou com esta estranheza em mim.


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Têxteis sagrados de Goa na companhia de Ute Lemper que interpreta Lili Marleen

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

terça-feira, junho 28, 2022

Não devo levar a vida tão a sério porque ninguém sai dela vivo

 


Pois é, sou do tempo em que mulher desquitada era puta, rir na sexta-feira da paixão era proibido, mas podia fumar no cinema. Mulher magra era feio, usavam meia de nylon de fio, cinta-liga, anágua, sutiã pontudo e saia e blusa de banlon.

Mostrar o joelho era audacioso, raro ver uma mulher dirigindo carro, top models eram as misses, proibido mulher no estribo do bonde, cabelo liso não, permanente sim, as desconfortáveis toalhinhas de menstruação, blush chamava-se rouge, (...), yoga era yóga e no futebol escanteio era corner.

Não sou saudosista, mas devo admitir que no 'meu tempo' tudo era bem mais chique. Acho interessante estar no mundinho podrera de hoje e por uma questão de fora-modismo elegante não me apego a ele, mas às vezes é como acordar de uma overdose e ver que ainda está vivo. Esses dias de mulheres-liquidificadores e homens-geladeiras me fazem crer que a raça humana não deu lá muito certo. Nessas me dei bem por ter nascido na era de ouro do pós-guerra. Quando dizem que a 'a idade está na cabeça', meu fígado e minha coluna dão uma risadinha sarcástica. Mulheres têm a idade que merecem, homens serão sempre crianças. É uma série de imagens que mudam ao se repetirem. É uma tal de política destruindo a liberdade, de medicina destruindo a saúde, de jornalismo destruindo a informação, de advogados e polícias destruindo a justiça, de universidades destruindo o conhecimento, de religiões destruindo a espiritualidade. Confie em Deus, mas tranque o carro.

Minha depressão não é sinal de fraqueza, eu é que fui forte por muito tempo, mas cuidado com a ira de alguém calmo. Abaixo a anarquia. Para conquistar o seu amor, peço perdão mesmo sabendo que não estou errada. Desculpe, eu não estava prestando atenção.

O pior inimigo da criatividade é o bom senso, mudar, mudar, mudar, nem que seja para pior. Dói mais sorrir na frente dos outros do que chorar sozinha, mas não devo levar a vida tão a sério porque ninguém sai dela vivo. 

Debochar de mim mesma é uma estratégia que sempre dá resultado positivo. Uma das coisas que mais me dão prazer é fazer o que não devo, tipo fumar na frente de quem faz campanha anticigarro. Não é tarde para ser o que eu deveria ter sido. Eis-me aqui, uma pós-famosa anónima observando os macro e micro-omniversos dentro e fora de mim. (...)

A sorte de ter sido quem sou, de estar onde estou, não é nada se comparada ao meu maior gol: sim, acho que fiz um monte de gente feliz.


Lança perfume


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Excerto de Uma autobiografia de Rita Lee ao qual voltei mais de um mês depois. Ao fim do dia de trabalho, puxei uma espreguiçadeira para o que sobrava de sol e fui ler. Sempre um prazer. Recomendo.

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E queiram continuar a descer que os cartazes que se seguem são do bom e do melhor

Sair do armário, sair à rua, brincar e sorrir orgulhosamente

 

Penso que não é propriamente caso para se ter orgulho. Nem ter nem deixar de ter. É o que é e ponto final. Não sinto orgulho por não ser gay. Não sinto nem deixo de sentir. Nasci assim. Fazer o quê? Se tentasse mudar acho que não conseguia. Cada um é como é.

Já o disse aqui muitas vezes: não concebo qualquer tipo de discriminação em função da orientação sexual. Quem a pratica revela ser bronco, retrógrado, preconceituoso, grunho, cavernícola.

O que também me faz muita impressão é ser gay e, por vergonha ou qualquer tipo de condicionamento a que se sinta sujeito, não o assumir, vivendo uma vida de ocultação, de disfarce, de negação. Conheço um caso assim no masculino e outro no feminino. Parecem pessoas felizes mas imagino as barreiras internas a que quotidianamente se submetem e as frustrações que vivem na sua íntima solidão. E se calhar conheço outras pessoas de que nem desconfio.

Que receiam essas pessoas? Serem alvo de chacota? De rejeição? Incapacidade em viver a pleno a sua sexualidade?

Não sei mas, se me puser no seu lugar, imagino que se eu, toda a vida, tivesse forjado uma sexualidade que não era a minha, talvez sentisse receio de assumi-lo perante o meu marido, os meus filhos, os meus netos, os meus amigos e conhecidos. Se calhar recearia o seu olhar, temeria confundir com troça qualquer inofensivo sorriso. É preciso alguma coragem, sim. Por isso é bom que se assuma com naturalidade a sua condição o mais cedo possível.

Por haver ainda tantos tabus penso que é importante que aqueles que já os romperam exibam publicamente a sua condição. E que usem o humor. Talvez a sua alegria e o tom de brincadeira com que se referem à sua condição de gay incentive os que se sentem receosos.

Vi uma selecção de cartazes engraçados usados em manifestações gay e apeteceu-me trazer aqui alguns. 

















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E post do UJM sem música não é post do UJM. Portanto que entre a Menina Lizzo, figura querida dos movimentos LGBTQ+

It's About Damn Time Lizzo Blessed Our BET Awards Stage Again! | BET Awards '22



E viva a vida!

segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

domingo, junho 26, 2022

Dia no campo de vassoura na mão, noite no arraial com dança no pé

 



É a história da minha vida. Peço: que nada nem ninguém me acordem. E ainda eram sete e picos e já eu estava a ser acordada com o animal a ladrar freneticamente. Estava sozinha na cama. Chamei pelo meu marido. Nada. Liguei-lhe, então. Atendeu. Perguntei-lhe por que raio de carga de água tinha saído e deixado a fera dentro de casa. Disse que pensava que ele tinha saído. Pedi que lhe viesse abrir a porta. Passado um bocado, ouvi-o a abrir a porta e a chamar por ele. Só que, com isto, espertei, já não dormi mais.

Cabe talvez aqui dizer que o urso felpudo adora estar in heaven. Aliás, quando queremos vir-nos embora, recusa-se. Deita-se no chão, não se mexe. Tem que quase ser arrastado à força. No entanto, para ele, estar lá é um desassossego. À luz do linguajar de hoje, deveria dizer: um desafio. Não tem parança. Qualquer mota ou carro que sinta na estrada, qualquer cão ao longe ou, pior que tudo, os cães da casa do outro lado da rua que antes entravam e cirandavam por todo o lado como se fosse tudo deles e agora se ficam pelo lado de fora, tudo o tira do sério. Sai a correr, ladra como se estivesse possuído. Com os cães vizinhos, o meu marido teve que pôr uma rede no gradeamento não fossem eles arriscar-se a entrar cá. Seriam estraçalhados. Agora reforçou pois os outros abeiram-se e este salta como um maluco, capaz de lhes arrancar um pedaço. 

Não queria eu um cão de guarda...? Pois. Caraças. Melhor que a encomenda.

E, ao mesmo tempo, um fofo, um doce, um querido, um peluchinho, uma coisa mais quentinha e mais linda. Dou-lhe abracinhos bons e ele nem se mexe, meiguinho que só ele.

Mas, portanto, dizia eu que este amiguinho da onça me acordou quando eu queria ficar a dormir e, assim sendo, com uma manhã larga pela frente, aproveitei para aquela never ending task de varrer à volta da casa, debaixo do telheiro e no caminho que vem do portão da rua. Com aquela vassoura pesada de arame e com aquela pá de alumínio de cabo alto.

Varre-se, varre-se e há sempre que varrer. Folhas de plátano, folhas de nespereira, folhinhas de azinheira, montes, montes delas, caruma -- enfim, tudo o que cai das árvores, dos arbustos, das flores. Claro que nunca me chega o tempo para ir varrer nos caminhos mais afastados da casa nem ao pé das mesas lá de baixo. E bem precisado está tudo. É trabalho para tempo inteiro, não para part-time.

Isto é uma coisa que talvez seja estranha para outras pessoas: vou lá, adoro lá estar e, em vez de aproveitar para descansar, só me dá para trabalhar. Por exemplo, não sei se já alguma vez me sentei nos cadeirões novos que estão ao pé da lareira. Estavam lá duas bergeires que não eram especialmente confortáveis. Arranjei dois cadeirões confortáveis, bons para lá se estar a ler ou, simplesmente, a estar, apenas estar. Pois tenho ideia que nunca lá me sentei. Tenho sempre que fazer. Abrir janelas, pôr a casa a arejar, fazer a comida, lavar roupa, limpar a casa, varrer dentro e fora, apanhar ervas, caminhar e fotografar. E o tempo vai passando. Ninguém me obriga. Sou eu que gosto. Há sempre que fazer. Por exemplo, já disse que, na próxima vez, vou começar a apanhar orégãos. Parece-me que já estão bem floridos. Antes que fiquem secos, quero apanhá-los para os deixar, depois, sobre um lençol estendido sobre a mesa grande para ficarem a secar durante a semana. Depois, quando sequinhos, é tempo de separar os tronquinhos das folhinhas, colocar em frasquinhos de vidro. 

Também andei a apanhar alfazema. Apanhei um belo ramo. Dobrei os pés e coloquei num copo de vidro que coloquei na cómoda do meu quarto ao pé dos anjinhos. Também apanhei um ramo grande e coloquei numa jarra de vidro na cozinha. Um perfume limpo e fresco que dá gosto.

De regresso, consegui um desvio pela maravilhosa casa dos gelados. Contive-me. Um cone de apenas uma bola. Chocolate com laranja. Buoníssimo. 

Quando chegámos a casa já a maltinha do lado da minha filha cá estava. A turminha do lado do meu filho não, está parcialmente encovidada. Três em cinco. Cerca de quatro meses depois, estão outra vez. Felizmente, parece que mais brando do que da primeira vez. E na primeira vez apanhou-os aos cinco e, desta vez, até ver, dois talvez escapem.

E à noite fomos para os santos, arraial a preceito, bailarico e cheiro a bifanas e a caracóis. Música popular a puxar pelo pé. Bem me soube. Não atino é com as coreografias. Parece que toda a gente as sabe, mão na cabecinha, mão na cintura, mão na perninha, mão para cima, mão para baixo. Se tento, atraso-me pois estou a ouvir pela primeira vez e, ao meu lado, toda a gente parece que não faz outra coisa desde que nasceu. Limito-me a fazer como me apetece. 

Os meninos não são de danças, foram jogar futebol com outros rapazinhos. Escuso de dizer que o meu marido dispensou. Agora tem a desculpa do cão, que tem que ficar em casa a tomar conta do cão. Está bem, abelha.

A minha mãe, por seu lado, também teve programa. Foi com uma amiga, inserida num grupo, à revista, ao Politeama. Hesitou, que não sabia, que não sei quê, não sei que mais, que a amiga é que queria e patati-patatá. Disse-lhe que se deixasse de coisas, que fosse. Lá foi. 

Só consegui falar com ela à noite, Em vez de tirar o som, desligou o telemóvel. Só o ligou quando chegou a casa. Toda feliz da vida, parecia uma adolescente vinda de uma excursão. E assim é que deve ser.

E foi isto. Os dias passam a correr. Tinha a ideia de ler mas não me sobrou um minuto. Estava com vontade de reler um certo livro, em especial as últimas páginas. Cá por coisas. Talvez este domingo. 

As ameixas já estão doces: o pior é que caem ou que os pássaros as comem

E nada mais que isto já vai longo e nem uma linha alusiva ao São João propriamente dito. Que aliás, Dia de São João já foi antes, não foi este sábado, pelo que nem sei bem a que santo se reportava o arraial desta noite. E, para dizer a verdade, mesmo que fosse ainda ao São João também nem sei a que São João se refere. Será ao João Baptista? Mas também não faz diferença. Todos os Joões merecem que se festeje em sua honra.

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Já agora, numa de natureza e boa onda, deixem que partilhe um vídeo tranquilo e bonito

Caroline Zimmermann: Portrait of an Artist in her Tuscan Garden

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Fotografias feitas in heaven na companhia de Angelina Jordan a interpretar Suspicious minds

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Pé de dança. Sorrisos. Ar puro. Paz

sábado, junho 25, 2022

A nostalgia está a passar por aqui

 



O tempo avança a passos largos. No outro dia estava a ver os feriados do ano. Pensei que Abril era bom, uns feriadinhos para amenizar a dureza dos dias. Maio seria uma estopada, uma secura, mês longo e chato. Depois viria Junho, um apetite. Mais uns feriadinhos bons. Afinal passaram num instante e daqui a nada Junho terá chegado ao fim e estaremos a entrar na segunda metade do ano. Como foi que, de repente, meio ano praticamente já se foi? Não sei explicar, para mim é mistério.

Estava a ler aquilo dos carros a combustível. 

Bem sei da poluição e de tudo isso. Mas não há carregadores públicos que cheguem, são demorados no carregamento, os carros totalmente eléctricos têm pouca autonomia, os híbridos praticamente nenhuma. Deviam ter um tejadilho e capot em painel solar e uma turbina para aproveitar o vento natural mais o gerado pela movimentação. Isso sim. Viaturas auto-sustentadas. E, se calhar, um dia para lá caminharemos. Costumo dizer que adiro ao cem por cento eléctrico no dia em que dê para a gente tirar a bateria do carro como dantes havia quem tirasse o rádio do carro para não o roubarem. Coisa pequena que se puxasse por uma pega e se levasse, na boa, na ligeireza, para carregar em casa, quase como se carrega a bateria da máquina fotográfica ou o telemóvel. Se tivesse uma autonomia boa e desse para carregar em casa, na boa, rapidinho, e desse para termos no carro uma carregada, de reserva, aí, sim, eu estava nessa. 

Mas estava nisto e a pensar que, com a pressão para abandonar o diesel e a gasolina, qualquer dia, quem queira vender um carro 'à moda antiga' vai receber uma tuta e meia por ele ou, provavelmente, vai acabar por ter que pagar por ele, para o transformarem em sucata. Li que António Costa, para dar tempo a este período de transição, quer aboli-los só lá para 2040. Pensei: 'Vendo bem as coisas uns 18 anos é um período razoável para quem não tem dinheiro para grandes investimentos...'. E, então, de repente, caiu-me a ficha. Fiz as contas. E, não vou esconder, foi com um certo desconforto que me ocorreu que sei lá se estou viva daqui por 18 anos. Ou, se estiver viva, se ainda conduzirei. Pensei que incompreensivelmente, o tempo tem passado tão depressa que, não tarda, começarei a sentir o fim a aproximar-se, começarei a ver de perto as limitações que certamente terei.

Li que a Isabelle Adjani sente a nostalgia de pensar no tempo que lhe resta. Fez-me alguma impressão. Era tão jovem e bonita, ela. Agora pensa nos anos de vida que lhe restam. O tempo tem estado a passar também por ela.

Ontem passei ao lado de uma urbanização onde morava um colega de longa data. Daquelas pessoas que nunca se metia em sarilhos, sempre boa onda, sempre na boa com toda a gente. Podiam chover raios e coriscos que nunca choviam para o lado dele, para ele sempre bom tempo. Toda a gente o respeitava e gostava dele. Ansiava pela reforma mas trabalhou dedicadamente até ao último dia. Sempre jovial. Dizia-se que o bom feitio o fazia manter-se jovem. Quando se reformou, manteve a ligação e a amizade com os colegas. Semanalmente ia almoçar com o pessoal. Tinha finalmente tempo para fazer caminhadas, para ir ao ginásio. Estava mais magro, estava optimista como sempre  o conheci. Tinha planos, tinha mais tempo para a família. Até que um dia, pouco tempo depois, nem sei se um ano, uma colega me ligou a perguntar se eu já sabia. E eu não sabia nem queria acreditar. Ainda hoje me custa a acreditar que tenha partido assim tão abruptamente. Quando passo ali, penso que era ali que ele vivia, um sítio com muitos espaços verdes, coisa que muito lhe agradava e por onde dava belas caminhadas.

No outro dia, foi outra. 

Um colega muito maluco, histriónico, bon vivant, viajado, namoradeiro, uma força da natureza. Vive numa casa grande, antiga, um solar. Dantes ali era a periferia da cidade. Agora está dentro da cidade. Tem uma outra casa nas Beiras, uma grande casa de pedra no meio de um grande olival. Reconstruiu-a, modernizou-a. Apesar de ser como é, é também um homem de família. Filhos, noras, netos. Sempre em combinações com a mulher, ou eram obras em casa, ou coisas com os filhos ou com os netos, ou eram idas à casa de pedra, ou coisas com os cunhados, ou projectos na câmara. No meio da maior maluqueira -- anedotas, lembranças brejeiras das suas vivências -- atendia a mulher e, mudando rapidamente de registo, entrava naquelas inúmeras combinações.

Deixou de trabalhar antes da idade da reforma, já tinha o que queria, agora queria era gozar a vida. Pois. No outro dia, ligaram-me. Já sabia que lhe tinha morrido a mulher? Fiquei siderada. Lembrei-me logo de a ver com ele à hora de almoço. Ele muito bem comportado ao pé dela. E agora isto. Dizem que ela estava muito bem e, do nada, de repente, tinha-se apagado. Ele nem tinha dado por isso. Não o imagino sozinho. Aquele permanente vaivém. Como será a vida dele doravante sem a sua companheira?

Ninguém sabe. Mas, à medida que o tempo passa, mais nos aproximamos do fim.

Lembro-me do dia em que, tendo eu uns trinta e poucos, o que era o presidente da empresa foi ao meu gabinete despedir-se. Numa daquelas reviravoltas, o conselho de administração tinha sido mudado. Não se importava, ele. Tinha recebido uma avultada indemnização, tinha com fartura para viver até à reforma, estava contente. Naquela altura os tempos eram conturbados. Os ventos políticos sopravam num sentido diferente ao dele (e ao meu), a gestão do Grupo estava a ser varrida e uma onda de yuppies convencidos e broncos começava a chegar a todo o lado. Ele partia com alívio, não suportaria aquilo. Eu não via como poderia suportar. Abraçámo-nos e eu disse: 'Como o invejo, quem me dera estar no seu lugar'. Ele disse-me: 'Oh menina, não diga isso, não me inveje, não vê que tem uma vida inteira pela frente e eu não...?'

Não me esqueço disso. 

O tempo passa e tanta gente vai também ficando para trás. 

Enquanto isso, vou respirando o ar puro desta terra em que o céu me envolve, onde a luz torna douradas as árvores ao fim da tarde, em que os pássaros têm cores e cantos maravilhosos. E a ver se este sábado consigo voltar a pegar num livro.

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Jesuíta Barbosa (o Jove do Pantanal) recita "Borboletas" de Manoel de Barros 


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Pinturas de Kuroda Seiki na companhia de Maria Bethânia que interpreta Amor de Índio 

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Poesia, Sabedoria. Paz.

sexta-feira, junho 24, 2022

O que Baryshnikov tem a dizer da guerra de Putin (e não só)

 

Daquelas coisas. Estava no aeroporto, em Londres, com dois estarolas que me deixavam sempre com a sensação de estar perdida no meio daquela e de outras Babilónias, quando olho para o lado e vejo o Nureyev. Fiquei naquele estado em que a gente fica quando tem vontade de deixar cair o queixo mas, ao mesmo tempo, não quer fazer um papelinho. Disse-lhes a eles: 'Já viram? O Nureyev...'. Olharam e prosseguiram a conversa, sem ligarem patavina. Estavam para negócios e coisas assim, não para danças, muito menos para bailarinos. Ou ex-bailarinos que, naquela altura, já ele estava a caminhar para o seu final. Morreu cedo, ele. Tinha um ar solitário, ele, ali no meio daquela multidão. Fiquei a olhá-lo como quem não quer a coisa, queria ver como andava, queria saber se deslizava. 

Ou seja, com Nureyev, ao vivo, foi só isto.

Já com o Baryshnikov foi diferente. Gostava muito dele, era o bad boy da dança. E confirmei a boa razão da minha gostação ao vê-lo dançando, ao vivo. No CCB. Uma maravilha. Aqueles saltos, saltos altos, velozes, aquela leveza. Um voador irreverente, provocador. Provocava a gravidade, provocava a lei dos homens.

No outro dia, ao ver como vários bailarinos russos se demarcaram da barbárie putinista, saindo do Bolshoi e botando cá para fora tudo o que pensavam, pensei cá para os meus botões: que será feito do Baryshnikov? O que dirá ele desta pouca vergonha?

Pois bem: aqui está. Não que eu tivesse dúvidas pois não creio que haja gente decente que seja capaz de não condenar abertamente Putin. Mas, enfim, tenho tido algumas surpresas. Pessoas que julgava serem decentes estão, afinal, presas num qualquer labirinto moral ou intelectual e, em vez de condenarem o invasor e agressor, condenam o invadido e agredido por não se render. 

Mas aqui não havia muito que enganar. Como não podia deixar de ser, Baryshnikov condena, lamenta. Diz que, de certa forma, já o previa. Diz que não tem medo de Putin, diz que não tem muito a perder. 

E fala também do seu último trabalho. Um gosto. Ouvir falar pessoas inteligentes, experientes, com vida e com graça é uma bênção. 

Mikhail Baryshnikov on "The Orchard" and Putin's war

Jun 19, 2022  At the Baryshnikov Arts Center in New York City, dancer and actor Mikhail Baryshnikov stars in an adaptation of Chekhov's "The Cherry Orchard," a story whose themes of loss and freedom echo with Russia's invasion of Ukraine. He talks with correspondent Anthony Mason about the production, and how the dancer, who has remained largely non-political since his 1974 defection from the Soviet Union, says he can no longer stay silent over what he calls Putin's war.

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E, já agora, já que aqui estamos, que Mikhail nos ilumine o espírito com o seu corpo maleável, musical e atrevido

Mikhail Baryshnikov in White Nights - "Capricious Horses"


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quinta-feira, junho 23, 2022

Transportes públicos tendencialmente gratuitos, parklets convidativos e inovadores nas ruas

 

Confirmar que as mulheres não gemem quando estão a ter um orgasmo tem piada. A pornografia e as fantasias pirosas põem as mulheres a gemer como umas infelizes quando a realidade dos factos é outra. Uma vez mais foi através do ecléctico PdC que fui confirmar que pode haver estremeções, gritos, pulsação acelerada, rubor, etc, mas, que se saiba, não há gemidos (The female orgasm: lots of throbbing and quivering – but no moaning)

Mas se achei graça à informação e se o tema tem mais do que se lhe diga, a verdade é que não é sobre o orgasmo feminino que hoje me apetece escrever. 

Hoje estou outra vez numa de planeta. Cresci em tempos que, no que se refere a recursos, pareciam ser de abundância e deslumbramento. A ninguém parecia ocorrer que um dia os combustíveis fósseis ou a água poderiam ser bens escassos. Por outro lado, havia o plástico para todos os fins: usar sacos, garrafas, pratos, toalhas, talheres e tudo o mais em plástico parecia ser um hábito inócuo e para todo o sempre.

E todas as famílias terem um carro, dois carros, um carro para cada membro da família também parecia uma coisa normal. Quem não tinha dinheiro para os comprar, recorria a empréstimo. O dinheiro parecia também infinito e os bancos emprestavam-no como se não houvesse amanhã ou não houvesse risco de não o reaverem.

Foram anos disto, de uma vida vivida despreocupadamente quanto à finitude dos recursos. 

Até que vieram crises de toda a espécie. É como se, de repente, estivesse patente aos olhos de todos o quanto tudo é efémero.

Já não há petróleo infinito, já não há dinheiro infinito, já não há água infinita, já não há ar respirável para todo o sempre. Nem o clima está mais o mesmo. Enquanto o fogo devora florestas nuns cantos do mundo, sem água, a terra seca e aflita, noutros as terras afogam-se numa água imensa, levando tudo à sua passagem. E, noutros cantos, rebenta a terra em convulsões e noutros alguns homens viram diabos sem freio e matam e destroem como se quisessem precipitar o fim dos tempos.

Sabemos, pois, que temos que mudar. Assim não haverá sobrevivência possível. 

Contudo,  como dizia o outro lá para os lados do gattopardo, ainda estamos naquela de mudarmos muita coisa para que tudo continue na mesma. 

Mudar a sério, mesmo a sério, mudarmos de hábitos, pensarmos no dever de mantermos o planeta vivo e de assegurarmos a continuidade da nossa espécie, isso requer uma consciencialização bem mais profunda e políticas públicas vigorosas. Nada de perder tempo com a espuma das coisas. A urgência deve impelir-nos para a substância.

Nada pode ser visto isoladamente. Não basta plantar árvores e pouco mais. Nem basta baixar os impostos nos carros eléctricos. Nem basta encarecer os sacos de plástico. Tem que haver muitas medidas, bem articuladas, bem comunicadas e bem assimiladas, tem que se perceber que mudar os paradigmas dura anos.

Por exemplo, é essencial que, em geral, as pessoas, na sua vivência diária não tenham que fazer quilómetros para cá e para lá. Concentrar tudo o que é trabalho nas grandes cidades em locais em que não há residências ou são muito caras, obrigando as pessoas a viver longe, deve ser mitigado quer por políticas de teletrabalho ou descentralizando serviços sempre que possível. Ter creches públicas gratuitas ou muito em conta perto dos núcleos residenciais parece-me também da máxima importância. Ter transportes públicos tendencialmente gratuitos ou, pelo menos, gratuitos nos locais onde vivem populações desfavorecidas bem como nos principais eixos de viação, parece-me importante. Ter passes válidos por um mês ou bilhetes de utilização alargada a preços simbólicos durante alguns meses do ano, permitindo a quem o queira conhecer o país ou, pelo menos, as terras mais próximas, parece-me também importante.



Qualquer destas medidas irá permitir reduzir os gastos mensais permanentes, reduzir a utilização de carros particulares e/ou de utilização individual, reduzir a poluição, desenvolver a pequena economia local, melhorar a qualidade de vida em geral.

O caso de Boston merece ser conhecido, estudado, replicado. 'Free public transport works': a Q&A with Boston mayor Michelle Wu'.

Michelle Wu prometeu:


E está a cumprir:

E depois há aqueles salutares hábitos de conviver, de conhecer vizinhos, de curtir a vida ao ar livre.

A ideia dos parklets é daquelas que me cativa e que gostaria de ver amplamente espalhada por cá.  

Reduzindo o número de carros nas ruas (tendo mais transportes públicos, mais garagens e parques públicos) poder-se-á reduzir os lugares de estacionamento. E, onde estavam carros, podem passar a estar pequenos espaços de convívio, de descanso, de desfrute. São espaços públicos, não comerciais. 

Escolhi, para ilustrar, alguns exemplos com que polvilhei o texto. Seria interessante que as autarquias, talvez com a sponsorização de empresas ou de mecenas em geral, lançassem concursos de ideias criativas, esteticamente interessantes, funcionalmente apelativas para parklets um pouco por todo o lado. Ou que as escolas pudessem contribuir com projectos irreverentes. Ou que as comunidades se organizassem para os fazer de forma colectiva.

[Isso e hortas ou jardins comunitários, pequenas bibliotecas públicas geridas em regime de voluntariado, etc -- tudo o que sirva para restituir aos locais o hábito da vizinhança, do convívio, do contacto com a natureza ou com a cultura, do respeito pelos outros e pelos locais públicos.].

Um exemplo:

Denver Parklet Design Competition


Desejo-vos um dia bom
Saúde. Harmonia. Paz.