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quarta-feira, novembro 20, 2024

Quando as influencers não existem na realidade e, ainda assim, têm carradas de seguidores e ganham milhares de euros todos os meses

 

Ah, que bom é este admirável mundo novo... Todo ele cheio de absurdos, de desnecessidades, de futilidades, de mil perigos, uns à vista, outros nem tanto...

Se esta nova profissão, ser influencer, já me deixa de pé atrás -- uma actividade sem regulação, sem código de ética, sem qualquer controlo -- (e cheia de dúvidas: cá em Portugal descontam para a Segurança Social? pagam IRS?), imagine-se como fico quando a dita é virtual, toda ela concebida através de Inteligência Artificial...

Imaginaram-na, deram-lhe nome, criaram uma personalidade que lhe assentasse bem... criaram-lhe uma conta de Instagram... e a partir de aí é começar a criar 'conteúdos' e facturar. A jovem de 25 anos, Aitana Lopez de seu nome, apresenta-se geralmente com o cabelo pintado de cor de rosa, viaja, documenta as viagens, dá conselhos... recebe patrocínios... e, afinal, não existe. É, toda ela, uma criação da Inteligência Artificial...

É o admirável e estúpido... e aterrador mundo novo em que já vivemos.

Por mim, fujo de tudo isso a sete pés. Mas é uma fuga aparente pois esta é uma realidade que nos cerca em permanência.

Mas o meu mundo, o meu pequeno mundo real, também tem o seu quê de irreal. 

Hoje de manhã, quando estava a caminhar aqui, por entre as árvores, senti-me observada. Arrepiei-me, senti aquele susto que resulta de não saber o que se passa... e, um pouco a medo, olhei para lá. Ao princípio nem percebi. No meio da folhagem, uns olhos. Fiquei parada a tentar perceber. Depois a 'coisa' mexeu-se, levantou-se. Um gato lindíssimo. Fundo branco, manchas em amarelo torrado e outras em preto. Ficou parado a olhar para mim. Nestas ocasiões, com a atrapalhação, não atino com o telemóvel. Quando consegui pôr na posição de câmara para disparar e fotografar, e me aproximei um pouco, ele virou-me costas e voltou a entrar pelos arbustos.

De tarde, um esquilo aqui mesmo em frente. Sobre o muro, depois a subir por um pinheiro, depois a saltar, no ar, em voo, para um cedro. Uma graça. O rabo peludo ao alto. Alguma vez, em toda a minha vida e até há um par de anos, eu poderia imaginar que aqui, no meu espaço, vivendo nas árvores que nós mesmos plantámos, teríamos esquilos? Nunca, nunca. Uma aparição mágica, fantástica. Uma bênção.

E agora o meu marido foi à rua com o cão. Diz que há um sítio na parte de trás, onde há um conjunto de grandes aloés vera, em que o cão anda em volta, fica a cheirar, a cheirar, como se por ali andasse bicho. Pois hoje foi mesmo aqui, no canteiro que está junto à porta de entrada, que ele ficou parado a cheirar. Eis senão quando salta de lá um grande sapo. Diz que era um sapo mesmo muito grande. 

De onde vem toda esta bicharada é um mistério. Admitindo que não são seres que nasçam de geração espontânea, de algum lado eles vêm. Mas de onde? Alguém me diz?

E, à tardinha, por entre o musgo, várias pequenas redes de orvalho que sobrou das neblinas matinais. Tão bonito. Parecia pequenos recortes de tule branco. Só falta mesmo aparecerem por aqui fadinhas, ninfas, duendes...

Ou seja, e voltando à cold cow, satisfaço-me e encanto-me com coisas assim, não sinto necessidade de ser influencida por influencers reais ou virtuais. Zero. O que tenham para me dizer não me interessa. O meu mundo não é o del@s.

Mas aqui está a Aitana Lopez e como é que isto funciona:

The AI models making huge money on Instagram - BBC World Service

Aitana Lopez is the most popular of the new wave of realistic-looking AI influencers and the agency that created her say they are making thousands a months from her. We visit the Barcelona-based creators of Aitana - the most popular and highest earning AI Instagram model to find out how they curate and create her life which is followed closely by 330,000 followers. 


domingo, dezembro 03, 2023

Receios a sério...? Ou... nada a recear? Tudo um marzinho de rosas?
Ou a malta tem mais com que se ralar (e quem vier atrás que feche a porta)?

 

Quando fiz o trabalho de fim de curso ou quando comecei a trabalhar, os modelos que desenvolvia eram complexos e envolviam milhares de variáveis, milhares de iterações. Que eu soubesse, na Grande Lisboa só havia dois lugares em que elas podiam 'correr': os Centros de Cálculo do LNEC ou da Gulbenkian em Oeiras. 

Mesmo na empresa, em que o centro informático era dos maiores e mais evoluídos do país, não os conseguia correr.

Por essa altura, na empresa, havia uma sala enorme com as operadoras de telex, outra sala gigante com a sala de dactilografia.

Quando uma vez participei num trabalho de reorganização e tínhamos que entregar um relatório, tivemos duas dactilógrafas a passar o trabalho à máquina. De cada vez que alterávamos qualquer coisa, era uma desgraça pois era normal que parte do trabalho tivesse que ser dactilografado de novo, quase por inteiro.

E para o apresentarmos, havia umas pessoas que faziam 'acetatos' que eram projectados num écran a partir de um retroprojector.

E lembro-me também de um dia ver uma coisa estarrecedora: na sala dita da Contabilidade, vários funcionários, por sinal todos os homens, operavam umas grandes máquinas em que salvo erro dando à manivela para a frente se trabalhava com adições e dando para trás se operava com subtrações. 

Centenas de pessoas envolvidas nestes trabalhos de cariz digamos que administrativo ou afim. Se calhar até mais. Não me lembro.

Tudo isto parece pré-histórico, e é, mas não foi assim há tanto tempo pois, que me lembre, já a monarquia tinha ido à vida.

Algum tempo depois, quando deixei de trabalhar, para a contabilidade, a tesouraria, o processamento de salários, toda a informática, planeamento e controlo e sei lá que mais de todo um grupo (várias empresas, algumas das quais fora de Portugal) não deviam ser mais de umas fracas dezenas de pessoas, sendo que a área com mais gente era a última, até por englobar também a inovação, a sustentabilidade e todas essas 'cenas'. 

Os Centros de Cálculo, que antes ocupavam grandes espaços, hoje, na maioria dos casos, desapareceram, foram para o espaço, estão na 'nuvem', algures. 

Ou seja, a informática e as comunicações fizeram uma razia no pessoal dito administrativo. Claro que foram reforçadas outras áreas e apareceram funções que antes não existiam como, por exemplo, as da Segurança Informática.

A sociedade evolui, adapta-se. E é assim que é natural.

Mas os riscos do que agora está a acontecer, sem regulação, vão muito para além disso. Podendo trazer grandes avanços podem também trazer a destruição da sociedade, pelo menos na forma em que hoje a conhecemos.

Convido-vos a verem os dois vídeos abaixo. Se há temas que podem ser não apenas disruptivos mas, ao mesmo tempo, destrutivos são estes.

What is Generative AI? It’s going to alter everything about how we use the internet | Hard Reset

Artificial intelligence is bigger than image prompts and idea generation. Much bigger. This veteran technologist says Generative AI will bring about “The New Internet.”

Is the internet as we know it about to change forever? Veteran technologist Jared Ficklin predicts that we’re in the midst of a sea change, the likes of which we haven’t seen in decades.

Generative AI represents a massive step forward in computer capabilities. Coupled with leaps in robotics and innovative new interfaces, a shift in the computing landscape is coming, called ‘The Real-Time Internet.’

The Real-Time Internet presents a future where software experiences can be personalized according to users’ prompts.


"Godfather of AI" Geoffrey Hinton: The 60 Minutes Interview

There’s no guaranteed path to safety as artificial intelligence advances, Geoffrey Hinton, AI pioneer, warns. He shares his thoughts on AI’s benefits and dangers with Scott Pelley.

Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Ânimo e esperança. Paz.

sábado, agosto 14, 2021

SNS 24

 

Dizia eu ontem que todo os dias aprendo alguma coisa. Hoje cumpriu-se a regra. Provavelmente vou fazer papel de totó ao falar nisto pois, às tantas, toda a gente sabe e usa e eu é que, distraída como sou, fiquei banzada qual campónia que vê o mar pela primeira vez.

Ainda assim, para o caso de haver entre os meus Leitores outros totós como eu, vou falar nisto pois considero que, para mim, foi uma descoberta virtuosa.

Algures no tempo, certamente tempos não muito remotos, alguém disse ao meu marido que se pode consultar o boletim de vacinas na internet. No outro dia, quando andava a ver como obter o certificado digital da vacina covid, pesquisou e foi parar a um portal que o surpreendeu. No capítulo das vacinas descobriu que dentro de algum tempo deve renovar algumas vacinas.

Macaquinha de imitação que sou, não poderia ficar só a ouvir e hoje pus mãos a caminho e aí vai ela à procura do mesmo.

Fiquei pasmada.

Não apenas tem as vacinas que devo renovar e todas as que levei desde pequena até às últimas (e lá está a da Janssen que tomei no início de Junho) como, logicamente, conformei que também tenho para levar, daqui por algum tempo, as mesmas que o meu marido. Jamais me ocorreria. Se calhar vou marcar na minha agenda senão, como ainda vem longe, acabo por me esquecer. Contudo, se calhar, na altura, receberei um aviso...

É que o que mais me surpreendeu é toda a informação que lá está sobre mim.

Estive a dar mais autorizações do que as que lá estão por defeito (por exemplo, dei acesso a médicos ou enfermeiros na clínica privada para que consultem o meu processo), a actualizar os meus dados e a identificar contactos de emergência. 

Mas também escolhi a opção de ser informada quando alguém aceder ao meu processo.

E andava para aqui a pensar que já estava a precisar de uma receita quando dou com uma opção que é, justamente, pedir receitas de medicamentos que estejam declarados no processo como medicamentos recorrentes. Tomo (quando me lembro) glucosamina, um suplemento que, supostamente, previne o desgastes das articulações. Ora bem, lá estava ela no meu processo. Cliquei em pedir receita. Ainda não recebi nada mas presumo que venha a receber ou por mail ou por sms.

Há uma outra opção que tem a ver com o percurso de saúde (e lá vi, por data, os estabelecimentos de saúde a que fui nos últimos tempos, os exames e receitas que me prescreveram), o resumo de saúde, o cálculo de risco de diabetes, etc. Ou seja, tudo muito útil, de consulta muito intuitiva.

Não sei porque não é isto mais divulgado pois não apenas nos pode ser da máxima utilidade como nos pode facilitar muito a vida.

Para entrar, pode digitar https://servicos.min-saude.pt/utente/

Terá que se autenticar. Eu autentiquei-me com o meu Número de Utente (que vem no Cartão de Cidadão). Depois recebemos um código via sms e colocamos esse código no portal. E entramos na nossa área.


E aí é só navegar.

Se tudo isto já era de vosso total conhecimento, relevem a revelação da minha total totozice nesta matéria ao estar a falar em descoberta quando já não há cão nem gato que não usa este portal todos os dias.

Mas, a quem não conheça, recomendo. A malta gosta de dizer mal de tudo e não gosta de elogiar o que há de bom e que tanto nos pode ajudar. Pela parte que me toca, aqui fica a diga: espreitem, experimentem. E divulguem...

terça-feira, dezembro 15, 2020

Devagar, despreocupadamente, caminhamos para o fim da luz, para o fim dos tempos?

 



Acho que o mundo está a entrar num caminho estreito. E não sei se, no fim desse caminho estreito, há uma saída.

Não é só isto da pandemia 

(embora também o seja, pois não podemos desvalorizar uma pandemia que faz colapsar a economia em todo o mundo e em que, ao fim de quase um ano, ainda permanece o mistério sobre como funciona este vírus, transmutando-se e escolhendo uns e não outros e matando uns e não outros), 

é também tudo o que aí vem com as alterações climáticas e, não menos grave, o que está por vir com a dependência total de tecnologias omnipresentes, ubíquas, baratas, ao alcance de todos... e não apenas desreguladas como impossíveis de regular.

Esta segunda-feira vários serviços da Google estiveram em baixo. O impacto que isto tem na vida de muita gente é incalculável. Claro que grande parte das pessoas nem pára para pensar que tem parte da sua vida alojada e processada em computadores longínquos, geridos por gente que ninguém sabe quem é... e que, ao não pagar um tostão por nada disso, dificilmente pode algum dia reclamar o que quer que seja. Mesmo que o queira fazer vai ter a maior dificuldade em saber a quem se dirigir e de que forma o poderia fazer.

E não estou a falar só de gmail, hangouts, blogger, youtube, etc, que, para muita gente não é apenas coisa lúdica mas sim profissional, social, familiar. Estou a falar também de uma miríade de equipamentos, dispositivos e toda a espécie de objectos que, sem nos apercebermos, estão ligados sabe-se lá onde. Um carro que recebe actualizações automáticas e que está permanentemente a ser localizado para poder ter o gps a funcionar ou para receber informações do trânsito, por exemplo. E nem falo dos telemóveis: ligados a tudo, apps a ferver ligadas a bancos, a fnacs e bertrands, a supermercados, a cartões de tudo e mais alguma coisa, a todo o lado. Falo de fábricas, falo da alimentação eléctrica das cidades, falo de painéis de sinalização de autoestradas, falo de tudo. Tudo automatizado, tudo ligado a tudo... e cada vez mais. A internet das coisas. Tudo automatizado, tudo com inteligência, tudo com algoritmos. Machine learning. Ah pois é. E tudo tem o seu inegável lado bom, óptimo. Mas está à mão de semear para quem o queira usar para o mal. E o pior é que não há como controlar. Por perversidade, por brincadeira, por pirraça, por dinheiro, por descaso... tudo está aí à disposição de quem queira fazer o que lhe apetecer como, por exemplo, deixar um país às escuras, fazer os carros irem uns de encontro aos outros, atirar com fábricas pelos ares. E não digo mais para não dar ideias.

Não falo apenas de ataques cibernéticos, dos hackers que entram onde não devem muitas vezes a soldo de Estados que praticam ingerência noutros Estados, não falo de espionagem industrial em larga escala, não falo em sabotagem cuidadosamente orquestrada. Não falo porque tudo isto é real, existe, é conhecido. Falo, sim, porque é o que mais preocupa, de quando as máquinas se programarem a elas próprias, de quando os humanos se tornarem redundantes face à fiabilidade dos algoritmos, falo de quando os sistemas ficarem descontrolados e os humanos, indefesos, isolados, sem saberem como sobreviver.

Claro que o Marcelo andar a meter-se onde não deve é uma chatice e um déjà-vu sem os quais passávamos bem, claro que o Marques Mendes ser a alcoviteira do regime é daquelas para as quais já não há paciência, claro que haver um populistazeco de meia tigela a subir nas sondagens e levado ao colo pelo PSD e pela comunicação social é uma daquelas chatices que corre o risco de vir a acabar mal, claro que o meu País ter um serviço onde se pratica a tortura e o desrespeito pela dignidade e pela vida humana é insuportável, inaceitável e, se isso acontece, alguma coisa de muito grave se passa e, mais do que apenas pedir a demissão do ministro, deve haver garantia de que coisas assim jamais poderão voltar a acontecer (exames psicológicos e rastreio de álcool e drogas aos agentes, vigilância dupla, não sei), claro que, nesta altura, os professores andarem a falar em greve pela reposição do tempo de serviço é deslocado e despropositado, claro que tudo isso e muito, muito mais é verdade. 

Mas a gravidade e a urgência do que está por vir é de uma outra magnitude, ultrapassa o circunstancial. 

O tsunami múltiplo de desaires que está à espreita é global (tal como esta pandemia é avassaladoramente global), incontrolável e com tudo para ser dramático, talvez de consequências irreversíveis. E para isso ninguém parece estar atento. E o pior é que, mesmo que, aos poucos, alguns comecem a estar atentos, não sei se se vai a tempo. E quando falo em 'alguns' não falo em mim ou nuns quantos cidadãos mais preocupados e mais informados que eu. Estarmos ou não estarmos atentos e apreensivos é igual ao litro, não dá em nada. 

Falo, sim, que deveria haver uma urgência política reconhecida como a grande prioridade do mundo, falo numa espécie de abalo colectivo de tipo 'pára tudo!' que leve os Estados a encarem de frente, muito a  sério, os riscos e darem ordem expressa para que todas as baterias lhes sejam apontadas. 

E mais do que isso: um travão às quatro rodas, repensar tudo, criar mecanismos de não dependência absoluta das tecnologias. 

Mas não sei se vamos a tempo. 

O tempo de reacção política é um tempo lento, feito de cautelosas diplomacias, de demoradas negociações, de concessões, de sucessivos nivelamentos por baixo. E o tempo da tecnologia é o oposto, é o tempo do imediato, o tempo de quem age por si, o tempo de quem tem todos os meios à disposição, a baixo custo, o tempo de quem age por gozo ou por malvadez ou por mercenarismo ou por ambição, sem freios. De um lado está a malta do sistema, os totós que se acham o máximo e que não vêem um palmo à frente do nariz querendo apenas zelar pelos interesses mais próximos. Do outro estão os serviços de inteligência, os bandidos, os jogadores, os aventureiros, os novos piratas, os que desconhecem as leis ou conceitos tão abstractos como o bem ou o mal. 

Não sei se vamos a tempo.

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E, assim sendo, com estas preocupações em mente e com um dia cheio de manobras para pôr uma máquina em movimento, pouca disponibilidade física e mental me sobrou para ficções ou ilusões.

Cirandei pelo jardim mas pouco, fotografei, tentei que a cor das flores animasse o dia tão cinzento, tão escuro (tal como agora o faço, incluindo-as para que o post não fique demasiado sombrio), observei pela janela, enquanto falava ao telefone, os pequenos pássaros, tão frágeis, aparentemente tão despreocupados. Ao fim do dia estive a ler Adélia Prado, uma lufada de ar fresco. A cada frase espanto-me, surpreendida pela graça, pela irreverência da escolha das palavras, pela leveza dos pensamentos que dançam tão inocentemente sobre assuntos tão íntimos. Gosto muito. Gostava de ser capaz de decorar para agora, aqui, sem consulta, vos contar sobre algumas passagens -- mas não sou capaz e, ao mesmo tempo, não o tento. Sempre achei que quem decora muito e sabe tudo dificilmente se deixa encantar pelo que, de novo, for descobrindo. Esforço-me por preservar a minha ignorância e desprendimento.

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Desejo-vos um dia feliz.
Saúde. Boa disposição.

quinta-feira, maio 28, 2020

A força e beleza dos laços invisíveis que nos unem





Nem em tudo somos estúpidos. Há coisas em que somos extraordinários.

As voltas que damos aos tombos e tropeços em cima da  história -- passos absurdos, passos atrás, passos para o lado e para baixo, passos sem nexo. E, no entanto, por vezes, quase sem querer, aproveitando uma ideia que tinha um outro propósito e fazendo-a voar noutra direcção e, indo ela voando por aí, vai que, sem se saber bem como, abre uma porta e nessa porta nasce uma outra forma de viver. Esta coisa da internet é assim.

Há gente a arrancar fronteiras da terra ou a inventá-las a ferro e fogo, gente a empurrar esfomeados a pontapé, outros a deixar afogar gente amontoada em casquinhas de noz, há gente mentirosa ou que já perdeu até a noção do conceito, há gente idiota que acredita que a terra é plana ou que acredita que há uns deuses pirosos cujos pastores gritam e fazem milagres ao vivo, deuses esses que criaram o ser humano sem passar por evolução coisa nenhuma, gente que mata e esfola, que vive de negócios de sangue. Há gente parva, há gente má, há gente bronca.

Mas depois, inexplicavelmente, há gente inteligente, gente que gosta de equações e da singeleza das leis matemáticas, que gosta de poesia e epistolografia, que sabe de engenharia, que sabe transformar palavras em zeros e uns e desses zeros e uns consegue que renasçam poemas, histórias, músicas.

Há gente a quem devemos novas vidas e novas formas de viver a vida. Há gente a quem nunca agradeceremos o suficiente. 

Hoje, ao fim da tarde, ao sol dourado do belo sunset, eu e a minha filha constatávamos como os dias aqui, in heaven, correm depressa.

Vivemos intensamente cada dia mas, pensando bem, nunca é nada de mais, os meninos felizes da vida, nós apaziguados e na boa, trabalhando, cozinhando, o meu marido, no intervalo da sua actividade, limpando o mato, nós estendendo roupa ao sol -- sem sentirmos falta da vida que antes era a nossa. Nem temos vontade de a ela voltarmos. E, no entanto, apesar de não vermos vivalma que não nós, não nos sentimos isolados. Não estamos isolados.

Por exemplo, agora. Estou aqui escrevendo palavras que, de imediato, se soltam pelos ares, procurando novas leituras, novos espaços, palavras que vão aconchegar-se sob o olhar de quem me lê. E, ao mesmo tempo, até mim chegam-me outras palavras, aforismos, cartinhas, graças, curiosidades, abraços, risos. Um mundo inteiro à mão de cada um. Eterno milagre.

Um merdinhas de nada, um coisinha nenhuma, um enojadinho sem vida própria fechou o mundo em casa, limpou o ar, mudou hábitos, pôs os aviões em terra, fechou fábricas e repartições, atirou com muita gente para a inactividade e desemprego, matou e assustou muita gente. Uma pouca vergonha em que ainda custa a acreditar. Mas, apesar disso, a malta manteve-se unida, descobriu novas solidariedades, percebeu que assim, em isolamento, pode chegar mais longe do que com as pernas e com os aviões, percebeu que o afecto está dentro de nós e não no que nos é exterior. E percebeu que por muitos quilómetros e muitos meses que separem os que se amam, há sementes que germinam incessantemente dentro de nós mantendo a seiva de que a vida se alimenta.

Por vezes emociono-me. Como lá acima disse, há situações que me levam a crer que há estúpidos por todo o lado e que a humanidade não tem salvação. Mas há outras em que, não estando eu à espera, sou surpreendida por mais uma prova de que o impensável é possível e que, se isso é assim, então quantos mais novos mundos desconhecidos estão por aí, por descobrir...?

O vídeo lá de cima é disso exemplo. O palco passou ser a própria casa, o laço que une os músicos é a vontade de estarem unidos, a harmonia e força que testemunhamos é o bocado da sua vida que generosamente nos emtregam. São novos tempos e novas formas de os atravessarmos. E nesta descoberta há muita beleza. E a beleza é geralmente o ventre fecundo da felicidade por vir.

Eu, pelo menos, acredito nisso e essa crença é, para mim, um bom alimento.

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Pinturas de John Humphreys Johnston

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E um belo dia a todos!

quarta-feira, julho 03, 2019

Será que ainda sou deste mundo?





Comecei o dia muito cedo e sabia que a coisa não ia ser fácil. Mas foi ainda pior. Na sequência de uma outra faena que tinha sido também bem complexa, ia preparada para esgrimir argumentos num sentido. Acho que sou dura na queda e, se acredito numa coisa, defendo-a com convicção. Mas não ia preparada para mais um flic-flac da outra parte. Suponham, os meus Caros, que, por exemplo, eu fazia uma cuidada e equilibrada dieta mediterrânica e tinha pela frente um pançudo que comia quilos de bifes a escorrer sangue, carregados de molhos picantes e acompanhados de quilos de batatas fritas. Ia preparada para o esclarecer sobre os malefícios do seu regime. Contudo, ao sentar-se à minha frente, para minha surpresa, ele apresentava-se como vegan. Eu a ver que não mas ele, convictamente, a esgrimir argumentos opostos aos expectáveis, a dar-me, a mim, lições de boa alimentação. Desconcertada, sairia dali furiosa. E, dias depois, indo eu preparada para rebater as vantagens do regime vegan, apanho-o pela frente e agora já não é vegan mas adepto de um regime à base de ovos crus e vinho do Porto. Ou seja, uma conversa de surdos, divergente, uma conversa impossível, assente em coisa nenhuma. Assim foi. Um cansaço e uma deprimente perda de tempo.

E quando, depois disto, me preparava para um almoço descansado, ainda que breve, eis que desaba um problema, coisa na base do susto completo: a possibilidade do céu nos cair em cima da cabeça vista de perto. Declaração de situação de emergência, um grupo sem saber bem o que estava a acontecer -- mas que não era bom não era. E sem que quem talvez pudesse ajudar atendesse o telefone. Uns com o telemóvel no silêncio, outros com o telemóvel no bolso e, no restaurante, sem ouvirem.

Depois, finalmente, uma explicação, um grupo de crise montado, a resolução a caminho.

Um almoço a correr, entre telefonemas, mails e mensagens.

E logo de seguida outra reunião e mais situações e diferenças de pontos de vista e mais coisas e mais coisas e mais coisas e mais reuniões nos próximos passos.

E, ao sair, mais uma chusma de mails e recados e problemas e sei lá que mais. E uma constipação a caminho.

Ao chegar a casa, meio exaurida da cabeça e a sentir-me engripada, diz o meu marido: eu se fosse a ti não ficava por dormir como dormes, sem nada por cima, janela aberta: ligava a ventoinha e apontava bem às costas.

É que não apenas sou eu que durmo do lado da janela (aberta) como durmo sem patavina em cima. Ele, ao meu lado, tapa-se com lençol e manta (fininha mas manta). Volta e meia ainda tenta pôr-me uma perna por cima mas tem a perna tão a ferver que o enxoto logo, não suporto dormir com um tição em cima. No inverno, como também durmo com pouca roupa, sabe-me bem encostar-me a ele mas no verão é impossível. 

E, na volta, ele tem mesmo razão, é mesmo capaz de ser o frescor da madrugada, que chega com gritos de gaivotas, que me causou um resfriado. Anda incerto este tempo. Todos os dias, ao ver o tempo que faz no dia seguinte, vacilo entre preparar vestes estivais ou prudenciais.

Mas isto tudo para dizer que há dias complicados, com pouca coisa boa.

Valeu uma coisa: enquanto conduzia, uma reportagem sobre  ECT, tratamentos com electrochoques. Juraria que foi na Antena 2 mas agora, antes de escrever, fui confirmar e não encontro. Para mim, um tema surpreendente. Falavam pessoas bipolares, outras com depressão, um com esquizofrenia. E falavam psiquiatras. E eu ia a ouvir com muito interesse, com vontade de conhecer melhor esta realidade, com muita pena das pessoas que sofrem assim, muitas vezes sentindo-se estigmatizadas, muitas vezes sem compreenderem porque se sentem tão arrasadas.

Pensei numa rapariga que trabalha numa das empresas e que desliza pelos corredores, com ar alheado, muitas vezes como se estivesse à beira das lágrimas. Quando a vejo passar assim, como se não estivesse ali, tenho vontade de a puxar para o meu gabinete e pedir-lhe que me conte o que se passa. Mas não sou psicoterapeuta, receio não saber lidar com o que imagino ser uma situação muito pesada, um outro mundo, um mundo onde não deve ser nada fácil estar, onde não se entra como se de visita -- teria que saber ajudar e temo não saber. 

E agora, enquanto escrevo, está a dar a Prova Oral com o grande Alvim e está lá o Manuel João Vieira e eu simpatizo tanto com ele. No outro dia, eu ia a descer as escadas que mergulham num parque subterrâneo e, à minha frente, ia um homem grande, de físico pesado, chapéu de aba larga. Ao fim do segundo lance, ele entrou para o parque e, nessa viragem, eu, que continuei a descer porque tinha o carro num piso mais abaixo, vi-lhe o rosto: era o Manuel João. E eu, em silêncio, soltei uma exclamação: 'Ah! O Manuel João!' e tive mesmo vontade de ir atrás dele e dizer-lhe: 'Simpatizo imenso consigo'. Mas nunca fiz isso com ninguém, não ia estrear-me logo com ele. Seria embaraçoso para ele e para mim. A fazer alguma coisa, teria que fazer uma coisa lógica, à altura dele, não um elogio dito de forma meio irracional.

No programa está também a Fanny que fala de coisas que não são já bem do meu mundo, diz que faz stories para manter o número de seguidores, e eles, ali no programa, mostram uns pequenos vídeos onde ela faz toda a espécie de parvoíces. Dá ideia que quanto mais parvoíces fazem para postar no Insta mais gente os segue. E nem sei bem que espectáculo é aquele em que ela vai entrar com o José Castelo Branco, fala creio que em roast. Quando lhe perguntaram um momento especial de manifestação de apreço, se foi quando saíu de algum reality show, a Fanny contou que uma mulher pôs uma mama de fora e pediu para ela a autografar. Uma coisa assim talvez fosse à altura do Manuel João. Eu, de salto alto, muito comportada, e fazer-lhe uma destas. Contudo, acredito que ele, na verdade um cavalheiro, ajeitasse o chapéu para disfarçar alguma estupefecção, e, a seguir, talvez mostrasse alguma caridade, talvez me aconchegasse o decote, me pegasse pelo braço e, cautelosamente, me levasse até ao Júlio.


E agora que aqui estou a descansar, percorri as news e dei com outra coisa desconhecida, uma coisa que penso que, se calhar, também já não é do meu mundo. E já nem falo da parvalhona da Ivanka, boneca insuflada, filhinha de papai, levada a passear ao G20, um absurdo que nem o mais maluco se lembraria de inventar. Falo de outra coisa. Falo destas pessoas que aqui abaixo se vêem.

Lil Miquela, Noonoouri, Shudu... Le phénomène des influenceurs virtuels

Aliás, terei que aprofundar porque nem estou certa de ter percebido bem de que se trata. Influencers virtuais. Vi as fotografias e fiquei na dúvida se é gente, se é coisa. Posam, mostram-se com roupas, parece que vão para o exterior, umas stars. Mas leio que é virtual, tudo virtual. Se calhar o exterior também é virtual. Mas têm montes de seguidores e parece que, agora, isso é que importa. E há vídeos com elas. E as casas de moda recorrem a elas. Elas e eles. E eu olho e não percebo o que é aquilo que vejo, nem percebo que descaminho é este em que os humanos parecem que gostam de seres inexistentes que emulam os humanos. Tudo demasiado estranho.


Sinto-me como que incomodada, aquela sensação estranha de não saber bem onde estou. Na volta é aquilo da zona de conforto, ou seja, é capaz de ser caso para dizer que esta gente virtual me tira da minha zona de conforto.

Por isso, fujo.

Leio, então, sobre árvores e livros, sobre lágrimas e terra, sobre coisas de estimação, frágeis, sobre pernas cruzadas que lembram o verão e figos e Godot e o mar, sobre sabores e cores e outros momentos e pensamentos de gente de verdade -- e isso traz-me o meu mundo, um mundo afável, diverso, humano, um mundo com recantos onde é bom estar, que apetece descobrir ou imaginar.

E, de caminho, vou em busca da paz dos bosques, do som da água, do canto dos pássaros, da música tranquila, dos gelados feitos com frutas, flores, vagares e sons familiares e envoltos em harmonia.


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I always wanted,
       to return
to the body
       where I was born.


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As pinturas que intercalei no texto são de Yoo Youngkuk

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Desejo-vos um belo dia. Alegria e saúde. E amor.

sexta-feira, junho 07, 2019

Essa imensa teia que ninguém sabe quem tece



Por vezes abre-se-me um pouco de porta do que aí vem, nesga ligeira, e nunca como agora intuo terríveis tempos de incerteza envoltos em medos provindos de incertos. Uma nebulosa a envolver-nos, riscos vários, muitos, indefinidos, quase imateriais. 

Volto aqui a recordar os delírios quando criança com amigdalite. Anginas, ouvia dizer. A febre subia, subia e eu a ferver, transpirada, gritava apavorada. Os meus pais à minha volta e eu aterrorizada. Estava perante um compartimento, a divisão de uma casa, cheia até ao tecto de coisas indefinidas, pequeninas, e eu a ter que descobrir uma coisa ainda mais pequenina, ainda mais indefinida, a saber que era impossível, que não teria tempo para encontrar aquilo que era tão vital. Esse terror, essa situação impossível de resolver, toda essa angústia ficou guardada na minha memória: a impotência da luta contra uma infinidade de incertos.

Depois de uma reunião a analisar situações complexas e a antever um cenário impossível de controlar, ia no carro e, na rádio, transmitiam, em directo da Assembleia, o debate quinzenal. As pequenas questões. Os casos pontuais. Os deputados vivem numa bolha de fantasia, alheados das questões de fundo, apenas pegando nas notícias que dão que falar mas apenas durante um ou dois dias, coisa morta à partida pela irrrelevância, a petite histoire, o déjà-vu do cão que morde o dono ou, nos dias bons, o dono que morde o cão. Não passa disso. 

Não há um deputado que se erga naquele hemiciclo e pergunte: 
E se, de facto, já vivemos cercados? 

E se, de facto, estamos a caminho de ficar indefesos, totalmente indefesos, pequenos insectos presos numa teia infinita?
E não quero ser mais específica. Não posso. Não devo.

Mas... e se...?

Quantas vezes aqui digo: há que estar atento aos riscos, há que chamar a atenção, alertar, regulamentar, quantas vezes?

Mas ninguém me ouve. Não sou ninguém. Sou invisível. Existo para ver e ouvir, não para ser vista ou ouvida. E este meu lugar é nada, palavrinhas à toa, coisas avulsas e sem nexo. Não tenho púlpito nem rosto ou nome e assim é que está bem. Mas gostava que, entre as linhas, no subtexto, alguém percebesse que há preocupações que são sérias. Não são preocupações só nossas, do pequeno rectângulo, são do mundo, do mundo que está a ser conduzido não se sabe para onde nem por quem -- mas não é por nós, por gente como nós. Ou, se calhar, até é: nós agentes involuntários da nosso encarceramento.

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E, não querendo dizer mais nada -- mas estando precisada --, deito mão a outro antídoto.

fecho os olhos e imagino. Crianças brincando no quintal, roupa estendida ao vento, a cigarra, o grilo alegrando os campos, o cão ladrando ao longe. Calor e sol, reflexos azuis dos mares a sul, areia quente, conchas em que se ouve o mar, veleiros que deslizam na ténue e cintilante linha do horizonte, homens de pele tisnada e beijos com sabor a sol, pestanas levemente brancas de sal, marisco com sabor a maresia, um braço em volta da nossa cintura, uma cama fresca com lençóis brancos. Ideias felizes a alegrar o pensamento.

E dança. Voo suave, brincadeira, sedução, irreverência. Memória do mediterrâneo a fechar um dia longo e sem definição.


As fotografias são de Guy Bourdin

E abaixo há outro antídoto. Para quem esteja tão precisado como eu.

[E que me desculpe quem comentou mas hoje estou outra vez naqueles dias em que certas contingências me impedem de responder]

domingo, março 17, 2019

Clara Antunes não existe
[Coisa que concluo depois de um feliz dia de trabalho de grupo no campo]




A menininha linda também gosta de podar árvores. Sozinha cortou uma rodada de ramos altos de cedro. Ajeitou-se com aquele serrote na ponta de um grande cabo que ofereceram ao avô pelo Natal. O bebé pegou num pau grande, uma estaca redonda e comprida, e andava também com ela ao alto debaixo das árvores a fazer de conta que fazia o mesmo que a mana e os grandes faziam. Também andou com o carrinho de mão onde punhamos as folhas secas e ia despejar, todo contente por ir despejar o 'lixo'. O mano do meio preferiu andar de bicicleta, anda em grande velocidade e, se cai, levanta-se, sacode-se e volta a montar-se e a pedalar. No carro, quando íamos petiscar, enquanto eu falava com a minha mãe, pediu para eu contar que também andou a pôr ramos na fogueira.


O pai deles deitou abaixo, à machadada, um pinheiro. Dito assim custa a crer e eu, se não tivesse visto, ficaria admirada. Mas assisti e confirmo: atirou abaixo um pinheiro alto à força de machadadas. E cortou um ramo gigante de eucalipto. Quando o ramo estava quase separado do tronco principal, começou a ouvir-se ranger, depois as folhas a agitarem-se e, de repente, aquele grande volume desabou lentamente, a despegar-se progressivamente, até que, num grande estrondo, caíu por terra. Desramou também vários pinheiros em altura, serrou os troncos grandes em troncos pequenos e ajudou na fogueira. Ao fim do dia estava, tal como os filhos, cansado e cheio de sono. A mãe dos meninos também desramou pinheiros e varreu o 'campo de futebol' que estava pejado de folhas secas. Ao fim do dia adormeceu no sofá mas, à noite, era a que estava mais acordada pelo que foi ela que foi a conduzir de volta para casa.


Eu também desramei árvores mas hoje não muitas pois, sobretudo, andei atrás do bebé (que já não é bem um bebé mas um rapazinho lindo e terrível, muito independente e cheio de personalidade e, não menos importante, com um sentido de humor fantástico: faz patifarias e, se vê a minha cara espantada, desata a rir à gargalhada). Também trouxe os meninos para casa para lancharem e para ficarem a brincar aqui à porta de casa enquanto os crescidos ficaram no trabalho pesado lá em baixo. E fiz também um ditado à menina já que vai ter teste na segunda-feira e os pais fazem questão que se prepare. 

O meu marido, por seu lado, arrastou toneladas de ramos para a fogueira (queima esta devidamente autorizada, refira-se, que isto agora está, e bem, tudo controlado) e disse-me que também desramou árvores. 

Conto-vos: é impressionante a quantidade brutal de ramos e de árvores que se têm cortado e queimado e de cuja falta não se sente -- já que tudo o que fica se desenvolve à força toda, num vigor assombroso.


Como sempre, quando já estavamos apenas os dois, cheguei aqui e adormeci. O meu marido anda na mesma e queixa-se: 'um gajo não descansa'. É que, se as semanas úteis pedem o descanso do fim de semana, a verdade é que há não sei quantos que não temos podido ter as merecidas tréguas.

De cada uma das coisas de que aqui falei tenho fotografias. Vou acompanhando o andar do tempo quer com as minhas palavras, quer com as minhas fotografias. Não é apenas a permanente transformação da natureza que vou registando, é também a transformação dos meninos. Estão grandes, desenvoltos, amorosos. 


Entretanto, ao abrir o YouTube, voltou a aparecer-me, como sugestão, o trailer do filme que tentarei não perder quando cá aparecer: Celle que vous croyez. Não sei bem como traduzir: Aquela em que acreditas? Aquela que achas que conheces? Aquela que tu julgas que eu sou? Talvez seja mais este último.

Já tinha visto pois tem-me aparecido amiúde. E já li e vi entrevistas, nomeadamente com a actriz principal, Juliette Binoche.

É a história de Claire, uma professora universitária com 50 anos, que, para se vingar de um amor perdido ou para se desforrar da sua condição de mulher a perder o viço ou apenas para tentar viver uma situação emocionante (não sei -- nem sei se ela sabe), cria um perfil falso, o de Clara (Clara Antunes porque, quando estava a criar o perfil, ao pensar no nome, pousou o olhar num livro de Lobo Antunes).


Para tal inventa que tem 24 anos e, para a coisa ser credível, arranja uma fotografia de uma rapariga bonita e usa-a. Aproxima-se, então, de um jovem, amigo do ex-amante. Aos poucos o jovem apaixona-se por ela. Ela é simpática, sempre presente, usa frases joviais, emojis e outros bonequinhos, e assim vai enleando o ente cada vez mais seduzido. E do facebook passa para o telefone. E, aos poucos, vai, também ela, ficando prisioneira do avatar que criou, passando de sedutora também a seduzida. Rejuvenesce, apaixona-se. E, no entanto, ela é apenas uma voz, palavras, uma presença remota. Só que o mistério e intangibilidade seduzem. O trailer mostra as sessões que Claire tinha com a psicóloga, onde explica o que se passa.


Sem culpa: pelo contrário, com desarmante franqueza, Claire explica que, se não se disfarçasse de jovem alegre e descontraída, Alex, o jovem, não se apaixonaria por ela.

Este mundo virtual em que se podem criar personagens, inventar-lhes uma identidade, criar laços com outros seres que igualmente são nada mais do que presenças intangíveis do lado de lá do espelho é algo que me interessa bastante.


Tenho conhecido personagens assim, por aqui.

Uma coisa é uma pessoar ser anónima. Por razões pessoais ou profissionais uma pessoa pode não revelar a sua identidade. É o meu caso. Mas, em tudo o resto, haver verdade e, até -- se no mundo virtual faz sentido falar nisso -- haver transparência. UJM sou eu.

Mas outra coisa é inventar personas, dar-lhes um nome e criar para elas uma imagem, uma história, uma maneira de ser. Note-se que, ao falar, não critico isso pois admito que seja um caso psicológico, uma impersonalização, uma transposição de uma personalidade ficcional para um avatar. Não sei explicar bem mas admito que possa até não ser coisa voluntária ou racional. Suponho que o próprio acaba -- tal como Claire ficou prisioneira de Clara -- também refém das mentiras que vai criando para dar vida ao seu personagem, e isso dá-me alguma pena.


Há depois outras pessoas, pessoas com frustrações, que vivem vidas de solidão, e que preenchem o vazio aproximando-se virtualmente de outras pessoas, imaginando amizades maiores do que são na realidade, ficcionando afectos, insinuando-se, seduzindo. E, se percebem que, do outro lado não há disposição para alimentar essa fixação, forjam novas personagens que usam para se vingarem, para acusarem, para difamar, intimidar. E, de novo, falo nisto sem crítica. Acontece e há que aceitar que a vida é cheia de situações que preferíamos que não existissem. Mas o mundo não é perfeito. Há pessoas com problemas, que precisam de ajuda. Mais do que rejeitá-las, tenho pena, desejo que procurem apoio, que se tratem. Viver uma vida na sombra de personagens, ou mostrando uma carência afectiva muito grande ou mostrando rancor pela felicidade alheia, é uma forma estranha e, creio, pouco saudável de viver a vida.

Mas, enfim, não tenho conhecimentos suficientes para saber qual a melhor forma de lidar com estas situações. Diria que não se deve alimentar a dependência dessas pessoas, que o melhor é deixar que percebam que devem procurar tratamento ou alguma outra forma de apoio. Mas não sei mesmo.




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Lamento não conseguir responder aos comentários ao post de ontem. Passa bem das duas da manhã, estou perdida de sono. Se conseguir ligar o computador durante o dia, tentarei responder. Vai ser muito preenchido mas pode ser que tenha uma aberta. Aceitem as minhas desculpas.

As pinturas que usei neste post são de Hee Sook Kim.

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A todos desejo um feliz dia de domingo

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sexta-feira, fevereiro 01, 2019

A tal da rede que era Sofia que era Cláudia e que morreu e por quem Nuno se apaixonou -- e que afinal ressuscitou porque era outra.
E a Clara do Mal. E o Bercow do Bxt.
E duas adivinhas para rematar.




O dia, como ontem avisei, foi mais repleto que um ovo. Mas não foi ovinho de codorniz ou ovito da franganita. Não senhor. Foi um big ovo. Ovo de avestruz. Talvez até de dinossauro. De dinossaura new age. E mais que ser big, foi intenso. O chamado ovo intenso.


No fim, alguém me veio perguntar como tinham corrido as coisas. Não quis dar conversa. Encolhi os ombros e disse que achava que sim. Disse-me ele: Está nas suas mãos.

Não lhe disse mas pensei que nunca tanto na minha vida como hoje tinha sentido que, de facto, está nas minhas mãos. Totalmente nas minhas mãos. Uma sensação um bocado estranha. Não posso contar com mais ninguém do que comigo nas decisões, nas orientações. No fim haverá decisão colegial mas sobre o caminho que eu, de minha lavra, tiver traçado. Mas sei lá eu qual o melhor caminho? Posso até saber qual o melhor caminho em geral, mas sei lá qual o melhor caminho para mim? Não sei pensar quando faço parte da equação. Só sei ir em frente, desbravando, fazendo o caminho, sem saber se tenho pernas e braços para a empreitada. 

Seja como for, a verdade é que acho que o carro foi posto em marcha e agora para a frente é que é caminho. 


Mas como parece que na minha vida nada é em pequena dose, ao mesmo tempo aparece-me mais um caminho, um segundo, num outro contexto, num outro lugar, e pedem-me que o desbrave. E dizem-me: damos-lhe os melhores para a ajudarem na caminhada. E eu sinto-me pequena face à dimensão do que me pedem por um lado e do que, por outro, eu quero fazer.

E talvez porque seja muita intensidade e muito ovo, uma verdadeira omeleta de cenas, a verdade é que hoje, pouco depois de aqui estar, adormeci.

Esta sexta-feira é outro dia especial mas por outras razões e vai começar cedo e, palpita-me, vai ser outro dia dos bem preenchidos. Aqui no meio das sonecas, vou tentando organizar a logística do dia mas porque, enquanto acordo e adormeço, tenho a Clara Ferreira Alves, catastrofista e superior, a falar alto demais -- o que perturba o meu fim do dia -- não estou a conseguir concluir se devo ir ao supermercado à abertura e depois vir a casa depositar os víveres ou se devo tentar vir mais cedo à tarde. E agora que escrevo isto reparo que o Eixo do Mal fez um step in e ocupou o espaço da Quadratura do Círculo que se desbaldou para a TVI e que vai ter o ubíquo Marcelo a abrilhantar a vernissage. Na próxima, para equilibrar, tê-lo-emos ao colo dos paineleiros do Mal.  Baralhar e dar de novo.

O vídeo que mostraram no fim do Eixo a ilustrar a cavalice dos juízes que julgam os casos de violação suspeitando da conduta das vítimas é que vi com atenção e foi bom. De resto, tenho para mim que não perdi grande coisa. Para ser bom, tinham que dar banho à Clara a ver se ela larga aquela peneirice aguda que a torna intragável. E isto ela, porque os outros não me assistem.


Antes de começar a escrever isto, e nos intervalos de cair morta de sono, tinha estado a ver mais uma exorbitante e extraordinária intervenção de Bercow, o meu Speaker preferido. Fala bem, ele. No meio do histrionismo e da graça, ele fala bem, frases inteligentes e boas de ouvir. Aqueles ingleses estão marados, perdidos da cabeça, autênticos bifes a andarem à volta do rabo. Aquele parlamento é um carnaval gerido por um Bercow que dá um baile de dar gosto.

Quando aqui me sentei, pus a box para trás para ver aquela maluqueira da Rede no final do noticiário das oito na SIC, aquela cena doida de uma varrida que se desmultiplicou em perfis falsos, enredando meio mundo em histórias inventadas. No fim, viu-se o vulto da criatura a falar com a Conceição Lino: quarenta e tal anos, divorciada, com filhos, professora do ensino básico. Era, então, a tal que se fazia de Sofia (e de irmã e mãe de Sofia e de amiga e de sei lá quem mais) -- Sofia essa que, afinal, era Cláudia que não sabia de nada do que se passava. A dita criatura gastava centenas de euros em telefonemas para simular que era várias, telefones distintos, fingindo vozes diferentes. Coisa assustadora. Gente doida dá com os outros em doidos. Nem sei o que pensar de uma coisa destas. O que move gente assim? O prazer de enganar os outros? São doentes a precisar de internamento?

Pelos vistos o juíz resolveu a coisa condenando-a a indemnizar os queixosos numas centenas de euros.


E agora vou dar três pontos no arraiolos antes de cair de vez para ver se consigo ir para a cama a pé.

E, na despedida, duas adivinhas que a minha menininha mais linda me contou no outro dia:
1. O que é que um pato diz a outro pato?
2. Como é que se faz uma omeleta de chocolate?
E, antes de ir, mais um cheirinho de Bercow, o actor principal da comédia que dá pelo nome de Brexit



[Respostas: 1 - Estamos empatados   2 - Com ovos da Páscoa]

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E, ufffff, thanks god it's friday.

Be happy.

segunda-feira, abril 10, 2017

Afinal havia outra...
[E uma outra confusão]
(E ainda a bagunça armada pelos estudantes em Torremolinos)





Pouco tempo depois, outro mail. Pedindo desculpas, confessando o embaraço.

Ontem, para criar algum suspense, não referi aquilo que, claro está, desde logo me tinha ocorrido: o que a redonda adivinhou. Aquele mail não era para mim.

Pouco tempo antes eu tinha comentado num sítio que enviava mail de aviso para o seu autor, ficando lá, portanto, o meu endereço. Distraído, ao enviar o seu mail de amor à mulher que amava em silêncio, ele nem reparou na rasteira que o gmail lhe estava a pregar.

Claro que o teor do mail não era exactamente o que escrevi pois, logo que vi que se tratava de engano, apaguei. Mas a memória que guardo é de um grande e secreto amor descrito de uma forma muito sentida e muito digna.

Contudo, fiquei a ver os riscos que, sem querer, se podem correr. Achei graça mas imagino o embaraço que o autor sentiu, expondo os seus sentimentos perante uma desconhecida.
Sou pessoa de confiança e, portanto, jamais faria alguma coisa que lhe causasse algum desconforto. Tranquilizei-o, apaguei o mail e saí de cena. Mas imagino o mal que uma coisa destas poderia desencadear se o mail tivesse ido parar às mãos de uma daquelas pessoas mesquinhas que apenas se comprazem com o mal alheio.
Enfim. São histórias que vão passando na nossa vida. Episódios.


Outra 'cena' curiosa passada com os mails (e sobre a qual, com vossa licença, também não vou revelar qual a segunda pessoa envolvida): por vezes, recebia dos mais variados remetentes (e escrevo no passado porque talvez há mais de um ano que isso não acontece) mails que eram destinados a conhecida figura pública. Na altura, ele era conhecido do mundo cultural (e televisivo). Agora, justamente há ano e picos, também exerce funções políticas. As pessoas escreviam-me como se eu fosse ele. Convites diversos, incluindo para participar como orador em palestras ou outros ainda mais interessantes. Claro que informava os remetentes que eu não era essa pessoa e encaminhava os mails para a pessoa em causa, cujo mail consegui encontrar. Quer ele, quer eu nunca percebemos a origem de tal confusão. Mais: que pesquisas é que alguém, querendo escrever-lhe, iam desembocar no meu endereço de mail? Um mistério que ambos nunca decifrámos mas a que ambos achámos sempre alguma graça. Acho que a minha escrita é suficientemente feminina (digamos assim) para que alguém possa pensar que, por detrás da persona que aqui escreve, esteja um homem. Além do mais, são sabidas as minhas orientações políticas e situam-se em quadrante bem mais à esquerda do que as da referida pessoa. Mais: como leitora, acho que a confusão é simpática para mim mas penso que só gente distraída seria capaz de achar que a minha escrita lhe poderia ser atribuída. Pois, garanto-vos que até gente da cultura brasileira se me dirigiu tomando-me por ele. E isto é absolutamente verdade.


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PS:

E eu, enquanto escrevo, estou a ver o Jornal da Noite e, como não podia deixar de ser, o tema continua a ser o mesmo: os desmandos que os estudantes portugueses fizeram em Espanha. E eu pasmo, pasmo mesmo!, com o regime em que estas excursões se fazem: bar aberto? bebidas à discrição? 


Quem organiza isto é que deveria ser responsabilizado. E os pais aceitam que os filhos vão nestas circunstâncias? Que vão para se embebedarem até caírem para o lado? Para armarem desacatos? Que pais são estes? E as escolas acham bem? Ou lavam as mãos?


E um jovem acaba de dizer que é normal partir coisas e uma miúda esteve a dizer que viu as paredes riscadas, os elevadores danificados e a iluminação do jardim estragado mas nada de mais, nada daquilo que está a ser noticiado. E isto para nos dizer que as notícias são exageradas, como se fosse normal dar cabo do hotel em que se está...

Acho tudo isto extraordinário. Tudo gente doida ou quê?

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(E agora tenho aqui o Passos Coelho que, com o que está a dizer, como se nada tivesse a ver com a derrocada do BES e com o figurino escolhido para o Novo Banco, me parece ainda mais alucinado ou delinquente do que os estudantes que escaqueiraram os hotéis e nos aparecem agora, com ar cândido, a dizer que é normal. Fogo. O que vale é que o meu marido chegou agora aqui e mudou de canal).


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Como é bom de ver, as fotografias que escolhi não têm nada a ver com o que escrevi.

Lara e Mara Bawar são duas gémeas albinas de 11 anos. Têm uma irmã de 13, Sheila. Tão belas são que começam a ser disputadas para fotografia publicitária. Aqui são fotografadas por Vinicius Terranova.


Lá em cima, de Vivaldi, o Concerto Dresden 

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Até já.