Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 23, 2015

Porque é importante que os Anonymous estejam do lado dos que lutam contra os ISIS deste mundo


Li num blog um escrito em que, com ironia, se refere a inutilidade dos movimentos hashtag como o #je suis paris e quejandos, dos movimentos contra refugiados e quejandos e onde, com a displicência de um sorriso de última hora, num parêntesis en passant, se põe nesse mesmo saco a luta que os Anonymous vêm travando contra os terroristas arregimentados pelo auto-proclamado Estado Islâmico.
(e temos os do Anonymous do nosso lado, não pensem que não estamos preparados...)

Percebe-se que, por vezes, aqueles movimentos que capitalizam a emoção imediata que as tragédias provocam e em que as pessoas sentem necessidade de se sentir unidas e úteis despertem alguma vontade de rir -- tantas vezes já vimos esses movimentos em que parece que a racionalidade das pessoas fica toldada e em que as reacções parecem quase infantis. Estou agora a lembrar-me de um dos mais recentes: no ataque a Saint-Denis morreu Diesel, uma cadela da polícia francesa, e logo se criou o movimento #Je suis chien -- e até Putin veio oferecer uma cadela para tentar atenuar a dor pela cadela que tal comoção estava a causar nas redes sociais. Será a forma que as pessoas encontram para exorcizar os fantasmas que sentem que andam no meio delas, será a forma como tentam materializar a sua aflição. Não sei.

Quem queira passar por cima das explicações psicológicas ou antropológicas destes movimentos espontâneos, geralmente efémeros e fátuos, ou das manifestações convocadas nas redes sociais e que, num ápice congregam milhares de apoiantes para, pouco depois, se esfumarem, pode, como eu, distanciar-se mas não as parodiar ou pode, como faz o autor do dito blog, assumir uma atitude algo cínica e, radicalizando a sua posição, meter tudo no mesmo saco, sorrindo com palavrinhas sardónicas de tudo o que gira em volta de qualquer coisa. 

Contudo, essas atitudes podem ser, por vezes, precipitadas.


No caso do ISIS  ou do que quer que se lhes chame, a questão é que, uma das armas mais importantes para tentar a sua desagregação é mesmo a da perseguição online e o apoio dos hackers unidos é mesmo relevante. E, desde há muito, os Anonymous são levados muito a sério pelos serviços de informações de alguns países. Veja-se, a título de mero exemplo, este twit de dia 21 de Novembro:


[Mas, claro, a perseguição online não é a única arma. Uma das outras, fundamental, passa por lhes cortar os meios de financiamento e, curiosamente, só agora começam a ser atingidos os alvos relacionados com o petróleo. (Curiosamente só agora -- quando há tanto tempo isso podia ter sido feito).]


Mas, porque falo mais pela minha intuição do que por conhecimento real, passo a palavra a Loureiro dos Santos, 79 anos, ministro da Defesa com Mota Pinto e Lurdes Pintassilgo, em executivos de iniciativa presidencial de Ramalho Eanes, membro da Academia de Ciências, perito em segurança e estratégia, numa entrevista ao Público

A entrevista tem o título 'Loureiro dos Santos: “Ocupar a Síria com tropas é criar um outro Vietname”' e merece ser lida na íntegra. 


Aqui limito-me a transcrever apenas uns pequenos excertos.

Hodda et Halima,
duas irmãs vítimas do acto terrorista
de 13 de novembro em Paris
No fundo, a razão dos atentados é ideológica, não há razão prática, não visa conquistar território ou alterar a situação política no país, o que visa é amedrontar as populações e transmitir aos seus apaniguados a ideia de força e capacidade face aos europeus que têm uma maneira diferente de viver da deles.

(...) Para travar estes atentados é basicamente necessário reforçar e articular os serviços de informações europeus. É a chave. Se os serviços de informação não conseguirem detectar e monitorizar a tempo a organização de grupos que poderão ter uma deriva desta natureza,  mais cedo ou mais tarde esses grupos agem. Então é tarde. 

(...) 
Se os serviços de informação têm debilidades, a solução é pôr tropas no terreno?
As tropas no terreno só em última instância.

.....




....

Vi, há pouco, na televisão, Hillary Clinton, defendendo -- contra o palerma do Trump -- que os EUA continuem a apoiar os refugiados e, em contraponto, declarando apoio a que se persiga por todos os meios -- e frisou: incluindo os meios online -- as gentes ligadas àqueles movimentos terroristas. 

E, se circular pela imprensa internacional, as referências vão todas nesse sentido.

Por exemplo, leio:


Anonymous also said the Islamic State group is planning an assault at the WWE Survivor Series event scheduled to take place in the Philips Arena in Atlanta Sunday at 7.30 p.m. EST, as well as attacks at multiple events in Paris.


The collective published the list of potential targets alongside a statement: "The goal is to make sure the whole world, or at least the people going to these events, know that there have been threats and that there is possibility of an attack to happen. Another goal is to make sure Daesh knows that the world knows and cancels the attacks, which will disorientate them for a while."

The targets listed by Anonymous are as follow:

Cigales Electroniques with Vocodecks, RE-Play & Rawtor at Le Bizen (Paris) 
Concrete Invites Drumcode: Adam Beyer, Alan Fitzpatrick, Joel Mull at Concrete (Paris) 
Demonstration by Collectif du Droit des Femmes (Paris) 
Feast of Christ the King celebrations (Rome/Worldwide) 
Al-Jihad, One Day One Juz (Indonesia) 
Five Finger Death Punch (Milan) 
University Pastoral Day (Holy Spirit University of Kaslik, Lebanon)

Leio ainda:


The editors of Oxford Islamic Studies Online asked several experts the following question:

The world has watched as ISIS (ISIL, the “Islamic State”) has moved from being a small but extreme section of the Syrian opposition to a powerful organization in control of a large swath of Iraq and Syria. Even President Obama recently admitted that the US was surprised by the success of ISIS in that region. Why have they been so successful, and why now?

Political Scientist Robert A. Pape and undergraduate research associate Sarah Morell, both from the University of Chicago, share their thoughts.

ISIS has been successful for four primary reasons. 

First, the group has tapped into the marginalization of the Sunni population in Iraq to gain territory and local support. Second, ISIS fighters are battle-hardened strategists fighting against an unmotivated Iraqi army. Third, the group exploits natural resources to fund their operations. 

And fourth, ISIS has utilized a brilliant social media strategy to recruit fighters and increase their international recognition.

(...) ISIS has developed a sophisticated social media campaign to “recruit, radicalize, and raise funds,” according to J. M. Berger in The Atlantic. The piece details ISIS’s Arabic-language Twitter app called The Dawn of Glad Tidings, advertised as a way to keep up on the latest news about the group. On the day ISIS marched into Mosul, the app sent almost 40,000 tweets. The group has displayed a lighter side to the militants, such as videos showing young children breaking their Ramadan fast with ISIS fighters. These strategies “project strength and promote engagement online” while also romanticizing their fight, attracting new recruits from around the world and inspiring lone wolf attacks. 
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Pode não ser eficaz combater os sarracenos façanhudos com hahstags e cartazes ingénuos mas talvez se possa ajudar a neutralizar a sua organização minando o meio em que melhor se movem - pelo menos, era bom que assim fosse.

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A escolha das imagens é da minha responsabilidade.
As crianças são refugiadas sírias.
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Desejo-vos, Caros Leitores, uma semana muito boa a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, novembro 15, 2015

Os lobos entraram em Paris - a palavra ao Xilre, ao Pipoco mais Salgado, ao Jumento e ao João Ramos de Almeida no Ladrões de Bicicletas





Xilre


Os que são contra a chegada dos refugiados, encontrarão nos atentados motivos de validação das suas posições; as fronteiras no espaço europeu ir-se-ão fechar, definitivamente; os que fugiram de um dia a dia, nos seus países, idêntico aos horror que ontem se viveu em Paris, continuarão a morrer aos milhares na travessia do Mediterrâneo ou no trajeto por terra; se lá permanecerem, provavelmente morrerão também — porquê ficarem?; os bombardeamentos irão aumentar na Síria, no Líbano, no Iraque; os que sobreviverem a tudo, sobretudo os mais jovens, só conhecerão como horizonte a vingança, o ódio, o desespero, a violência — não terão qualquer perspetiva de educação, de futuro, de normalidade em países inteiramente arrasados. Sem modo de vida na sua terra, traumatizados por anos de guerra (alguém fará ideia do que será crescer em Aleppo?) que farão? Que adultos se tornarão? Onde, e quando, se irão fazer explodir?


in História do Futuro





e

Eu penso em você, minha filha. Aqui lágrimas fracas, dores mínimas, chuvas outonais apenas esboçando a majestade de um choro de viúva, águas mentirosas fecundando campos de melancolia,

tudo isso de repente iluminou minha memória quando cruzei a ponte sobre o Sena. A velha Paris já terminou. As cidades mudam mas meu coração está perdido, e é apenas em delírio que vejo

campos de batalha, museus abandonados, barricadas, avenida ocupada por bandeiras, muros com a palavra, palavras de ordem desgarradas; 

(...) e penso em Paris que enfim me rende, na bandeira branca desfraldada, navegantes esquecidos numa balsa, cativos, vencidos, afogados... e em outros mais ainda!


in Carta de Paris (citando Ana Cristina César, Poética)





Pipoco mais Salgado


Isto não aconteceu em França, aconteceu-nos a nós e à nossa maneira de viver. Isto é connosco, os que podemos escolher se nos apetece ou não crer num Deus e, escolhendo crer, podermos optar pelo Deus que mais nos convém, isto é connosco, que escolhemos gastar o nosso dinheiro em livros, em todos os livros, a conhecer outros mundos ou a dançar tango, olhando nos olhos as mulheres com quem dançamos. Isto é connosco, os que não temos medo do que ainda não conhecemos nem dos que não pensam como nós ou não fazem como nós, os que aceitamos as diferenças porque serão sempre as diferenças que nos inspiram a avançar, mais sábios e mais capazes, os que não têm medo de véus nem de barbas compridas nem de livros estranhos nem de quem nos vem tirar os trabalhos que nunca quisemos ter, os que não precisámos de Paris para saber de que fogem os refugiados.



O Jumento


(...) O Estado Islâmico foi o grupo terrorista que mais foi apreciado pelo Ocidente, ajudou Israel a livrar-se do seu grande inimigo e, muito provavelmente, a anexar definitivamente os Montes Golan, daí que sejam muitos os que apontem o dedo à Mossad. Ajudou a Turquia a matar curdos e xiitas. (...)Os inimigos do Irão, da Rússia ou da Síria, do Hezbollah  ou dos palestinianos  são amigos do Ocidente, de Israel, da Turquia e da Arábia Saudita. Desde que as coisas não passem para a comunicação social podem matar indiscriminadamente, podem matar livremente os alauitas e curdos na Síria, podem fazer desaparecer os Houttis do Iémen, podem eliminar xiitas na Síria, Iraque, Líbano, Israel.

Recordo-me de ver os mesmos chechenos que hoje são os mais extremistas entre os extremistas do Estado Islâmicos serem recebidos na Europa Ocidental como democratas e libertadores vítimas da tirania russa, os fascistas ucranianos que querem fazer desaparecer culturalmente quase metade da população ucraniana e que tiveram um passado de apoio ao nazismo serem agora aclamados como grandes democratas

Só que os terroristas são mesmo terroristas e não hesitam fazer como a aranha Viúva Negra, não resiste à tentação de se alimentar do seu próprio parceiro. Os franceses não foram apenas vítimas dos terroristas, foram-no também de governos feitos de gente suja, para quem tudo vale. Isto é a versão em política internacional do mesmo a que estamos a assistir na economia e em todos os domínios da sociedade. Estas são as consequências da transformação da velhacaria em ideologia do Ocidente. (...)






Ladrões de bicicletas
 - João Ramos de Almeida

(...) Em cada época, cada guerra é devidamente preparada para enlevar a população. Agora é Hollande, um político socialista, que acaba de afirmar que a guerra foi declarada a França. Espera-se mais uns milhões de contratos de armamento, uma expectável maior ousadia militar (sobre a triste figura feita pela França, leia-se o último número de Le Monde Diplomatique). Mais mortes a prazo.

E tudo isto acontece precisamente no mesmo momento em que terminavam as conversações em Viena, nomeadamente com a administração norte-americana e o governo russo, fixando um cessar-fogo na Síria, com um acordo de 3 páginas, prevendo um governo de transição de 3 meses e eleições em 6 meses.  

As guerras podem ser paradas por quem as combate. E nós somos soldados sem o saber. Morremos como soldados, como peões adormecidos na nossa vida pequena.(...)


in Triste Europa


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Serge Reggiani interpreta Les Loups Sont Entrés Dans Paris

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[As notícias que me chegavam à medida que eu ia escrevendo sobre os atentados de sexta feira, 13 de Novembro de 2015 em Paris, podem ser vistas no post seguinte]


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