Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

Estás vendo coisas





Muitas vezes já aqui o disse: ao vivo, sou uma pessoa reservada, sobretudo em relação ao que me diz respeito. Em ambiente social, falo pouco de mim, prefiro prestar atenção aos outros, ouvi-los, saber deles. Apesar de ser bastante assertiva na defesa das minhas convicções, reservo a minha energia para falar do que me interessa e o que me interessa a maior parte das vezes não tem a ver comigo.

Contudo, quando aqui escrevo, é frequente contextualizar as ideias a partir da minha própria experiência. Assim, é frequente evocar memórias ou registar acontecimentos que presenciei ou vivi e só depois partir para o tema em si. Muitas vezes me interrogo sobre o que me leva a fazê-lo. A explicação que me parece mais fácil tem a ver com o facto de apenas aqui escrever tarde e más horas, quando o dia chegou ao fim, frequentemente estando já esgotada e sem grande cabeça para textos elaborados. Usar-me como objecto de escrita é, assim, subterfúgio fácil para quando as mãos têm vontade de escrever e a mente já pede descanso.

Contudo, hoje, ao ler 'O lado negro da mente', de Kerry Daynes -- que é psicóloga forense e consultora do governo britânico para casos de alto risco --, dei com uma justificação que me agrada mais. Transcrevo:
Contar as nossas histórias pessoais, nomear e reconhecer as nossas experiências, é a principal forma como as pessoas dão sentido ao mundo. Para a maioria de nós, isso significa falar com os amigos ou a família; para outros, é a terapia ou o aconselhamento. A premissa mantém-se: através do simples acto de falar, processamos e compreendemo-nos a nós e aos outros. Quando não contamos as nossas histórias, ou não as podemos contar, elas manifestam-se de outras formas. As emoções precisam de uma voz. Sem ela, acabam por se escapar. 

De seguida a autora fala de um outro facto que me parece ser a razão subjacente a muitos dos males deste mundo:
(...) a arte de falar é mais fácil para uns do que para outros. Para rapazes e homens, muitos deles ainda socializados numa multitude de formas destrutivas para dissimular a fraqueza e a dureza dos seus problemas, a ideia de partilhar um profundo sofrimento emocional com alguém continua a ser inconcebível, mesmo no século XXI. Quando somos castigados ou gozados por expressar, ou mesmo, ter sentimentos, iremos tender a esforçar-nos bastante para parecermos fortes e impassíveis. Excepto no que se refere à ira. O condicionamento masculino é mais predisposto a aceitar ira, uma emoção que tem mais que ver com 'fazer' do que com 'sentir'. 

_________________________________________________________________________

Tirando isso, e embora avessa a publicidades, só tenho a acrescentar que o creme corporal iogurtado de gengibre é uma maravilha: macio, muito hidratante, com um perfume fresco e picante. Ficou o meu corpo perfumado e ficou o quarto em que eu estava quando o fiz deslizar na minha pele.

Também estou agora a usar, para lavar as mãos, um gel com aroma de gingerbread e devo dizer que me traz alegria. Os miúdos ontem estavam intrigados, diziam que parecia que cheirava a canela. É um cheirinho bom, inusitado e agradável.

Também posso ainda referir que misturando na mesma chávena uma saqueta de chá branco e outra de gengibre se obtém uma infusão preciosa. Ainda hei-de experimentar juntar uma casquinha de laranja e, quando as rosas do jardim da minha mãe florirem, hei-de trazer de lá uma para experimentar juntar uma pétala. Mas, claro, quando puser a pétala de rosa, não ponho a casquinha da laranja para que não anule o perfume da rosa. Ou talvez até tudo junto fique bem. Hei-de experimentar também.

____________________________________________________________________________

As duas selfies bem como as fotografias dos prédios vistos de baixo e do apelo à poesia foram feitos este domingo em Lisboa. 


E, para não virar costas ao desafio, aqui vai, pela pena de Maria Teresa Horta, um Poema sobre a recusa:

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus
dedos
se ter formado o afago

Sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

Minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

_____________________________________________ 

terça-feira, janeiro 14, 2020

Astrologia e ciência. Uma vela que diz que cheira à vagina dela. Um robot vivo feito a partir de células de sapo. E os camelos que bebem água que faz falta às pessoas e que, por isso, já eram.

Hei-nos chegados ao admirável mundo novo.





Alguém fez um estudo usando as Big Data desta vida para estabelecerem correlações entre o que diziam os astros e os desenvolvimentos científicos. Gostei de ler. Há mil anos, nos tempos em que ninguém fazia ideia de que viria a haver dados a potes, já eu andava à volta de algoritmos e de correlações e a ler livros que analisavam as previsões baseadas em astrologias com estatísticas e probabilidades. 

E mais. Só para se ver o desaparafusamento aqui da je: andava eu enredada em modelos que me punham a cabeça em água, tantos os milhares de restrições e condições que se empecilhavam umas nas outras, fui uma vez à Buchholz para espairecer, como tantas vezes ia, e dei lá com uma coisa sobre construção de cartas astrais através de uma aplicação. E o livro trazia uma disquete. Coisas que hoje parecem do além. Aos jovens que nasceram nos tempos modernos talvez isto das disquetes soe e pré-história. Mas sou pré-histórica mesmo. Até cassetes eu tinha gravadas para ouvir música no carro. Tudo coisas assim, palpáveis. Portanto, em casa tinha um computadorzão, com um monitor maior que sei lá o quê, e enfiava lá a disquete. E punha-me a registar data e hora de nascimento, local, e mais não sei o quê. E aquilo dava o retrato da pessoa. E parece que batia sempre cedo. E já não me lembro como mas aquilo também dava para fazer previsões. Mas, às tantas, eu já nem lia os resultados, já dizia por mim. Aquilo dava-me pica. Não sei explicar porquê mas dava. E, portanto, andava por um lado a construir modelos que reproduziam a realidade com um rigor que eu aferia até à quinta casa, modelos que detectavam tendências e calculavam ocorrências futuras, a apresentar as minhas conclusões a gente incrédula, e, em casa, a fazer cartas astrais que, se necessário fosse, como se fosse uma brincadeira, apresentava depois às mesmas incrédulas pessoas. E tudo isto aconteceu mesmo. Parece que foi numa outra encarnação, num outro tempo. Mas era eu que ali estava, disso não tenho dúvida.

E isto era para dizer qualquer coisa que, entretanto, se me varreu.

Só sei é que hoje, entre um dia e outro, aqui chegada, à noite, fui espreitar as notícias e ou é que estou vesga ou está tudo maluco. Ah, já sei o que ia dizer. É que fui em demanda dos astros: é refúgio que conforta. A gente afogada no presente e vem um horóscopo gentil e leva a gente para o futuro. Mas isto é karma, sempre notícia de novos projectos, de trabalhos que se abrem deixando para trás obstáculos de longa data. Até tremo porque até pode ser. Estou entre reuniões e temas que fazem abalar os meus alicerces e eu nem quero pensar no que pode aí vir. Mas se o que os astros têm para me oferecer é projectos e trabalhos do caraças então batatas. Quero outra coisa, rêverie, poesia, coisinha boa. 

O pior é que, na minha demanda, só me aparece pepino, abacaxi, macacada.

Por exemplo: a  Gwyneth Paltrow está a vender uma vela perfumada.

Até aí tudo bem. Se lhe deu para vender cenas é lá com ela. Mas a que é que ela diz que a vela cheira? Se o nome da vela é literal então cheira à senaita dela (agora que aprendi o neologismo, não vou largar). This Smells Like My Vagina - é o nome da vela. Esgotou. Como a malta não tem oportunidade para chegar o nariz à boca do corpo da Gwyneth, então vá de ir a correr comprar a vela. Na literatura que acompanha o produto lê-se que a dita cuja cheira a gerânio, bergamota, cedro e rosa damasco. E só não fico a pensar que deve ser assim que cheiram as perseguidas -- outro bom nome -- das nossas senhoras ou das divas de hollywood porque me palpita que é jogada de marketing. Ademais parece que esta loura anda armada em médica ou paramédica ou paradoida e dali só sai mezinha maluca. Já em tempo tinha vindo com banhos de vapor, coisa capaz de depenar qualquer passarinha, mas agora veio com ovos vaginais de jade. Segundo ela são para ser usados todo o santo dia, apertadinhos, coisa para muscular os interiores da coisa. De tal maneira a recomendação deu brado que foi multada e desmentida pelos médicos que aconselharam as mulheres com dois dedos de testa a não irem na conversa de gente maluca. Agora uma coisa é certa, a vagina da Paltrow inspira-a e é uma fonte de rentabilidade.

E li ainda outra do além: cientistas fizeram um robot vivo a partir de células estaminais de sapo. Li não. Aflorei. Aflorei e fugi a sete pés. Não quero saber. Pode até vir a ser uma grande coisa. Mas os riscos são tantos de que a coisa derrape para o lado cretino da existência que mais valia que estivessem quietos. Qualquer dia esta bicheza inteligente, carregada de inteligência artificial, tem mais poder do que nós, humanos marretas que para aqui andamos.

Agora que os oceanos estão a dar mostras de estar a aquecer mais rapidamente que o previsto e que o aquecimento já está a fazer o que se sabe, os humanos já nem sabem que fazer com animais que se reproduzem mais do que a falta que fazem e que bebem água que é tão preciosa e, vai daí, vão matá-los. Li: 10.000 camelos vão ser mortos. Estorvam. E eu penso: chegará o dia em que os robots, feitos de célula de sapo ou de barata e possuídos por algoritmos, vão matar humanos aos magotes. Os humanos também se reproduzem, também bebem água. Melhor dito: também nos reproduzimos, também bebemos água. Daninhos, raça magana. Bons para abater.

Virei-me para os blogs do lado e sai-me outra. Um comunicado do Livre que é de uma pessoa se atirar para debaixo da mesa. Conta o Linguagista que a desgraça bateu no fundo. Grau zero. Uma moção apresentada por cinco intrépidos militantes reza assim:
Hei-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas pelo LIVRE parecem não conseguir sobrepor-se ao ruído constante provocado pelos faits divers mais estapafúrdios; em que o coletivo parece soçobrar numa desmedida exposição mediática do indivíduo; em que o partido se arrisca a ver a sua própria sobrevivência posta em causa. Assim sendo, no caso de a deputada não se dispuser [sic] a renunciar às suas funções, o LIVRE não tem outra alternativa a não ser retirar-lhe a confiança política.
Um desgosto ler uma anormalidade destas. O Livre vai acabar não tarda. Coitado do Rui Tavares, acho que não merecia uma palhaçada destas.

Enfim. Só, só desgraças. Mas desgraças pífias, coisas parvas, abaixo de macacadas. E não me refiro ao fim do Livre que isso, apesar de tudo, é para o lado que durmo melhor, mas à ignorância crescente da malta. Na volta a coisa resolvia-se era com um implante de células de macaco na cabeça deles, daqueles cinco. E dos outros todos também. E por todos quero dizer a humanidade. Contudo, acho que menos de mim que não preciso: já cá tenho os genes todos, obrigada. Dependo de bonobo com muita honra. E, sobretudo, com muito prazer.


Preferia notícias simples e só me sai disto. Vou mas é deslargar-me de ler o que não devo e procurar artigos sobre decoração, culinária, jardinagem. Não há pachorra. Na volta está é na hora de me entregar à escrita de um novo folhetim. Desta vez um erótico. Hot, hot. A fumegar de bom.

---------------------------------------------------------------

Fiz as fotografias no domingo, enquanto passeava por Lisboa e observava as suas belas montras -- ao Príncipe Real, Chiado, Camões -- e as flores da florista da Garrett. Lá em cima, Kate Woolf interpreta Poet's Heart sobre fotografias de Henri Cartier-Bresson.

-----------------------------------------------------------------

Desejo-vos um belo dia.

segunda-feira, janeiro 13, 2020

O que não se vê
[Com reportagem fotográfica pelas ruas de Lisboa]





Estando pela cidade, decidimos ir veranear. Pelo Natal recebemos uma caixinha de vales Dois por Um da Time Out e isso, parecendo que não, é sempre um incentivo à descoberta. São restaurantes novos, bons, diferentes. E têm a graça suplementar de serem um bom motivo para turistarmos, ainda mais num dia de sol e, ao sol, de temperatura amena. À sombra, o frio sentia-se mas, escolhendo o lado soalheiro das ruas, dava gosto.

Durante a semana, almoçamos sempre 'fora' pelo que, ao fim de semana, para almoçarmos em restaurantes terá que ser lugar de boa estada, de boa comida, de boa companhia. 

Portanto, dia para passeio. O meu marido fez a pré selecção e, como cavalheiro que é, deixou para mim a decisão final. Optei por um naquele lugar a que sempre voltarei como se fosse a primeira vez. Por mil vezes que por lá passe, sempre olharei cada parcela da paisagem, cada rua, cada montra, cada pessoa que por lá anda como se tudo fosse absolutamente novo para mim.

Está cheio de turistas. Mas, desde que me conheço, sempre esteve. Turistas estrangeiros, turistas nacionais, gente de passagem. Agora mais, mas isso é parte da beleza. Gosto de lugares de muitas línguas, muitas raças, muitas culturas. Gosto. Gosto de ser uma estrangeira no meio de estrangeiros. 


E, portanto, passeámos entre o Príncipe Real, São Pedro de Alcântara, Chiado, Camões, Garrett, Carmo, Alecrim. Devagar, conversando, eu fotografando. Fotografei pessoas, pessoas tirando selfies, pessoas sentindo-se mais interessantes que a paisagem, pessoas posando para os namorados, sentindo que a sua imagem é mais importante do que o estarem ali os dois juntos num lugar tão lindo, casais de idade, de braço dado, de mão dada, uma menina pequenina a deitar a língua de fora aos pais que a queriam bem comportada para a fotografia.

Fotografei raparigas elegantes, mulheres conversando, um homem sentado numa varanda, um casal em que o marido era elegante e com um belo cachecol e ela tinha umas botas que deviam estar a dar-lhe cabo dos pés pois mal se aguentava direita. Fotografei uma banda reggae com uns jovens que animavam toda a rua e fotografei as pessoas que os ouviam. Fotografei a alegria quase dançante que parecia fazer ondular um grupo de pessoas tomando café ao sol.

Fotografei pessoas. Talvez um dia, daqui por muitos anos, os meus descendentes inventariem os retratos que venho fazendo e que não mostro com receio de que alguém diga que não tenho legitimidade para fazê-lo. Mas, juro, acho que tenho, nestes cartões que vou coleccionando, um razoável mosaico humano dos tempos em que me está a ser dado viver.


Portanto, quando chega a hora de escolher as que posso partilhar, escolho paisagens desprovidas de pessoas ou em que as pessoas estejam de costas ou dificilmente reconhecíveis. Tenho pena pois o que gosto mesmo é de pessoas. Mas paciência. 

E gosto de outra coisa: gosto de fotografar o que está por detrás. Gosto da ideia de que muitas vezes nos concentramos no primeiro plano quando o que importa é o que está atrás. Não me refiro apenas à fotografia. Falo da vida. 

Quantas vezes a nossa vida é transparente, tudo às claras, à vista de quem quiser ver. E, no entanto, quanto do nosso mundo é oculto, está escondido dentro de nós ou mesmo à vista de toda a gente mas num segundo plano a que ninguém presta atenção.

Posso estar a fotografar uns pombos meditativos nos ramos nus de uma árvore quando, por trás, está a mais bela cidade do mundo.


Ou posso estar a fotografar os folhas secas e douradas de uma árvore quando, por trás, ondulam as três bandeiras que representam o território, o palco e o cenário no qual nos movemos.

Ou posso estar a fotografar o que subsiste de iluminações de Natal e, por trás, estar um rio cintilante e, do outro lado, outras cidades abençoadas pelas mesmas águas.

Ou, por detrás de um gradeamento, quase anónimo por entre cartazes velhos, o letreiro de um bar, lugar de encontros, de desejos, de clandestinos afectos, de secretas recordações.

Ou, estando a fotografar um dos belos candeeiros de Lisboa, o rio, a outra margem, reparar que em baixo, como um insignificante elemento colorido, ondula a bandeira do meu país.

Gosto de valorizar a duplicidade e de olhar para além do que está à vista. Gosto de pensar que na vida, nas cidades tal como nas pessoas há camadas que se cobrem, protegem, ocultam. Quando olhamos para uma pessoa ou para um lugar o que percepcionamos é uma ínfima parte do que há para saber. Mas ainda bem. Ainda bem que os outros não alcançam os mistérios que nos habitam, ainda bem que ninguém detecta em nós o que preservamos com carinho e cuidado. Vamos guardando segredos, palavras luminosas, convites expostos ao sol, lamentos, lágrimas, sorrisos, memórias. Preciosidades muito nossas. Tal como os rostos e os abraços que vou coleccionando em fotografia nos meus cartões de memória que ninguém conhece, vou também coleccionando pedrinhas, conchinhas, poemas, palavrinhas doces, olhares inesquecíveis, surpresas boas, gestos para sempre guardados em mim.


E, depois, parece que aquilo que queremos vai fugir, que nos vamos perder do que nos faria tão felizes. Inquietamo-nos, sofremos. Mas não. O que é nosso a nós virá. Pode ser mais tarde, pode ser quando já não o esperemos, pode surgir sob uma outra forma. Mas virá.

Por exemplo, estava a andar, encadeada pelo sol, olhando à esquerda e à direita, tudo me solicitando, tudo me encantando. Até que o vi ao fundo. belo, deslizando sobre a superfície cintilante. Tentei capturá-lo, guardar para mim aquele momento que me parecia perfeito. Mas a luz, os meus passos, a velocidade a que ia, não me permitiram. Questão de fração de segundo. Atrasei-me. Nesta fotografia aqui abaixo já o veleiro se escondia, na seguinte já não se via. Estava lá mas, como sempre quando a gente não vê, era como se não estivesse. E, no entanto, a beleza com que deslizava está na minha memória, o momento em que quase desapareceu da minha vista está aqui e eu, falando nisto, focada apenas na beleza do veleiro ao fundo de uma das mais belas ruas de Lisboa, não reparo que dentro dele vão pessoas, pessoas pequeninas, figurinhas insignificantes no contexto. Mas são pessoas com as suas vidas, as suas histórias, as suas famílias. E, no entanto, nem por um segundo pensei nelas. São o elemento secundário da fotografia. Mas talvez, apesar de ocultas, sejam, afinal, o elemento mais importante desta imagem.


Depois entrei na Livraria da Travessa e comprei os Cadernos de Nijinski

_________________________________________________________________________

Tive pena que a Joana Alegre não tivesse ganho o The Voice. Mas aqui o palco é dela.

____________________________________________________________________________

A todos desejo uma boa semana a começar já por segunda-feira.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

O meu último dia de Natal do ano da graça de 2019 -- também com reportagem fotográfica




Esta noite estou verdadeiramente na ressaca. Aliás, a ressaca começou ao início da noite, na viagem de regresso de casa dos meus pais. Mal o carro arrancou, qual bebé, adormeci profundamente. Mas não fui só eu: os três que vinham no banco de trás do carro caíram igualmente no sono. Cheguei a casa quase inerte e assim me tenho mantido. 

De manhã, só os dois, tínhamos ido passear para a beira do rio, lugar de todos os retemperos.


Fotografei e foi o deslumbramento de sempre. Olhar a bela cidade através da lente tem outra magia, parece que os movimentos das gaivotas são coreografias, que as cores das casas o cenário, parece que os pormenores se salientam para passarem para primeiro plano, tudo parece muito belo e sereno. Olho tudo como a primeira vez e essa atenção descansa-me a mente e o corpo. Entrego-me, de todo, à boa sensação de ali estar.

Olhei as águas, a paisagem, aspirei o ar fresco. Tão bom. Fico sempre a sentir-me renascida.

Já aqui o disse algumas vezes: se calhar, sem o saber, isto tem em mim o efeito que a meditação tem noutras pessoas.


O ria ia cheio de frutos e daquela folhagem que as fortes chuvadas arrancam das margens e que as correntes puxam a caminho do mar.

O meu marido gozou logo: será que o Marcelo, qual sereia, vai atirar-se ao rio para o limpar? É que, na reportagem da véspera, ele diz que viu o Marcelo a apanhar daquilo. E eu até o gravei a fazer essa pergunta. Mas agora, ao ver se dava para colocar aqui, reparo que, como sempre, não mantive a máquina estabilizada e almareia só de olhar.


Voltámos mesmo a tempo de preparar o almoço, misto de restos e misto de coisa nova. É que logo, logo, chegou parte da turma que iria connosco, juntando-se aos restantes, em casa dos meus pais. Almoçámos e zarpámos. 

Como sempre, apesar de mais do que avisada para evitar os habituais abusos, a minha mãe voltou a preparar um banquete. Mesa farta. Tudo feito por ela. Uma coisa surpreendente. Não apenas o lanche foi dos bons como as meninas grandes ainda vieram carregadas de petiscos. Não sei que energia e boa cabeça é aquela: apesar dos oitenta e muitos mantém-se impecável e acho-a mais jovem de cabeça do que quando eu era miúda e vivia lá em casa. Os presentes que comprou para toda a gente, quase todas as compras para a casa, a orientação e acompanhamento de todas as rotinas relacionadas com o meu pai e, sempre que as tropas se reúnem lá em casa, lanche para todos. Uma força, uma agilidade, uma criatividade fantásticas. Quem me dera que seja genético e que tenha passado para mim e para os meus filhos e netos.


Desta vez não houve futebolada no jardim. Nota-se que os rapazes estão cansados. Em vez da bola, das lutas, das corridas e da confusão barulhenta, puseram-se a ver televisão. A maior agitação deu-se quando eles quiseram ver futebol e ela lhes rapinou o comando e quis pôr nos canais de desenhos animados ou coisa do género.

Os mais crescidos também já davam mostras de algum cansaço e talvez a mais fresca fosse mesmo a minha mãe.

O meu pai, apesar de não ver e de mal ouvir, parece que pressentia que havia movimentação e estava um bocado agitado. Por isso, felizmente os miúdos não estavam naqueles dias de grande fuzuê senão é que ele ficava mesmo inquieto.

De tarde os rapazes, os grandes e os pequenos, tinham estado a apanhar laranjas e, portanto, também trouxémos umas sacadas.  Umas laranjas sumarentas e doces de dar gosto.

De presente da minha mãe recebi o Nº5, eau de parfum que sempre me oferece, uma écharpe macia e quentinha numas belas cores quentes que coloquei logo e que ainda não tirei. Desdobra-se e fica uma capa de lã aconchegante.

E recebi um livro surpreendente. É um livro da autoria do seu médico de sempre, um médico que ainda tem mais idade que ela mas que é outro jovem de cabeça. Tenho estado aqui a folheá-lo e é bastante interessante, conjugando medicina e história. E, graça das graças, tem uma dedicatória que me é dirigida. 

Conheço estas figurinhas nem sei há quanto tempo.
Pelo Natal saem à cena.
Agora estão no móvel pequeno onde estão as fotografias dos cinco bisnetos, quando recém-nascidos:
é o presépio da casa dos meus pais

Estivemos também com o meu tio. Tenho-o achado mais caído. A minha tia tem estado adoentada e o alterarem a sua rotina de saírem todos os dias, está a deprimi-la e, a ele, está a causar abalo pois não apenas os seus hábitos se têm alterado como ver a minha tia assim o deixa também bastante triste. E a mim custa-me muito vê-lo assim. Para mim ele será sempre aquele meu tio amigo e cúmplice que, tal como o meu outro tio, ia comigo dar passeios de mota à socapa dos meus pais. Mas o tempo passa. Hoje, daqueles três homens muito jovens, o meu pai e os meus dois tios, desportistas, todos cheios de vida, um está acamado, outro já morreu e outro está a envelhecer a olhos vistos. Enfim. Vi que ele ficou contente a conversar com os sobrinhos-netos e, em especial, com o meu filho que lhe falou da empresa onde ele trabalhou a vida inteira.

E, com esta visita e com este dia dei por encerrada a época natalícia. E, como é bom de ver, já se começou a falar do que será o almoço do primeiro dia do Ano Novo.

Tempus fugit. Vita brevis.

-----------------------------------------------------------------------------

E, nem sei bem se a propósito de alguma coisa, permitam que coloque aqui dois vídeos com bailados do Nederlands Dans Theater, um lugar muito especial. Talvez sejam dois presentes para quem me faz companhia aí desse lado. Já vêm fora de tempo mas pode ser que aquilo de Natal ser quando a gente quiser seja verdade.

Com músicas de Heinrich Ignaz Franz Biber, John Cage, Philip Glass, Johann Sebastian Bach e coreografia de Jiří Kylián: uma beleza do outro mundo



Sobre música de Igor Stravinsky e coreografia de Jiří Kylián: belíssimo


------------------------------------------------------------

Uma boa sexta-feira.

sábado, outubro 19, 2019

Não fui capaz de comer o amor-perfeito




À minha frente estava um inglês. Por detrás dele estava a melhor vista de Lisboa quando avistada de dentro de Lisboa. Lisboa e rio e o lado de lá. Um daqueles cenários tão maravilhosos que uma pessoa poderia ficar um dia inteiro a olhá-lo. Talvez a ouvir música, música muito a meu gosto. Ou alguém a tocar piano num canto, sem que eu visse onde. 

À entrada, reparei numas jarras grandes, de vidro, quadrangulares, com pedras brancas no fundo, e água e flores amarelas muito bonitas. Flores tão lindas. Pensei: não podem ser verdadeiras. Não há flores amarelas tão exóticas, tão grandes, tão exuberantes. Então, discretamente, enquanto os outros falavam da vista e diziam olha ali o castelo, olha ali a basílica, olha ali o passeio junto ao rio, eu passei a mão nas pétalas. E eram verdadeiras. Tive vontade de tirar uma flor, de ficar com ela, trazer para casa, pousar na mesa. Mas o momento não era para frescuras. Disfarcei, escondi a alegria de ter descoberto que a natureza é capaz de coisas tão raras e que a beleza é infinita e inesperada.

Como não podia deixar de ser, falámos do Brexit. Ele ainda não quer acreditar que isso vai acontecer. Contou uma coisa que se passou num lugar, uma experiência social, em que as pessoas votaram numa coisa contrária aos seus interesses e, na verdade, sem saberem em que é que estavam a votar e tudo porque alguém os manipulou, acicatando as pessoas contra uma coisa de que não gostavam e embrulhando a outra coisa nessa tal que foi usada como engodo. Eu disse que por vezes tudo parece uma anedota: as decisões estúpidas que as pessoas tomam, a gente estúpida que as pessoas elegem, o rumo estúpido que as coisas levam. E ele disse que até tem vergonha. E eu compreendi e não disse mais nada pois não quis envergonhar um inglês com um accent tão british, todo ele tão gentleman.

Do que comi nem vou aqui falar pois foi bom de mais. Mas posso dizer que, para sobremesa, a tarte não era só boa, era também linda. Tinha em cima não apenas umas bagas pequeninas, lindas como enfeite de natal, como um amor-perfeito pequenino. E o amor-perfeito era amarelo fulgurante e roxo de veludo. E era tão lindo que não consegui comer. Cometo heresias a toda a hora mas comer uma flor tão linda é heresia para lá de violenta, do lado de lá da linha vermelha que não ouso transpor. Disseram, coma, é bom. Mas nem pensar. Disse que não com a cabeça e olhei para a cidade grande, vasta, estendendo-se ao longo do rio. No pratinho ficou um risquinho sólido de chocolate, e ficou porque estava pregado ao prato, e a florzinha que se salvou por ser tão linda.

Depois das despedidas fui para o parque subterrâneo. E aqui acaba a poesia e começa a comédia. Mas como tudo tem vários lados, para mim foi comédia mas para a outra pessoa envolvida foi um sufoco, um drama.

Mas já lá vou.

Agora antes.

Horas antes, quando entrei, depois de passar a cancela e percebendo que o piso estava cheio, dirigi-me para a descida para o piso inferior. A faixa livre tinha sinal de proibido e na outra faixa vinha uma lady a subir dentro do seu formoso bólide. Pensei: tinha que ser, enganei-me, enfiei-me no lugar onde só se sobe. Então comecei a fazer marcha atrás mas, como todos os parque novos nesta cidade, é tudo feito para carrinhos pequenos ou para ilusionistas capazes de encolher os carros. Então, pensei: estou frita. E como estava apenas a pensar não foi frita que pensei. Mas pensei: tenho que conseguir. E lá comecei a tentar fazer uma manobra impossível até porque já tinha outro carro atrás. Nisto ouvi alguém a bater no vidro. Era um senhor com ar aflito. Abri a janela. E ele: onde é que vai? não consegue fazer marcha atrás. E eu: mas como é que vou para o -2? Aqui é proibido. E ele: Mas a senhora vai bem, aquela que vem a subir é que vem na faixa errada, enfiou-se em sentido proibido. Então foi quase a correr ter com ela. E ela muito admirada, como se estivesse tudo maluco, lá fez uma manobra também arriscada, saltando para a faixa do lado e eu lá consegui descer pela faixa já desobstruída.

Pois bem. Agora, então, à tarde.

Quando vinha a conduzir no parque para sair, apareceu à minha frente, vindo do -3, um mercedes antigo. Só que, em vez de virar logo, avançou até a um ponto em que ficou sem espaço para curvar, entalado entre dois pilares. Fazia marcha atrás e roçava atrás, chegava à frente e batia à frente. Não tinha espaço e notoriamente estava enervado. Saí do carro para perceber se havia margem. Não. Só batendo ainda mais. Ao princípio tinha pensado: Que aflição. Podia ser eu. Deve ser uma mulher. Mas não, era um homem. Ao seu lado, um rapaz. O rapaz também saíu. O homem pediu para ele tentar. O rapaz não queria. Disse: o carro é teu, não quero dar ainda mais cabo dele. Atrás do meu carro, parou outro carro e saíu de lá uma mulher. Perguntou-me: Mas o que é que se passa? Eu disse: Encravou o carro. Agora está ali entalado. Ela deu uma gargalhada: É uma mulher, certo? E eu: Pois, também pensei. Mas não, é um homem. E ela riu ainda mais: Mas não sabe conduzir, não? Como é que ele fez aquela merda? E foi, resoluta, ver se dava algum palpite. Mas voltou para trás e disse: Não tem solução, o carro é grande demais, só se lhe perder o amor. Entretanto, o rapaz passou para o lado do condutor. O condutor estava num estado de nervos de dar dó. Ajudou o rapaz. Mandou-o recuar contra um pilar. O som da lata a bater. O rapaz ganhou uns centímetros para curvar. Depois mandou-o curvar na direcção do outro e ouviu-se o carro a raspar violentamente no pilar. Ao fim de um bocado, lá conseguiu. Trocaram de lugares e seguiram e eu segui atrás deles e a outra mulher atrás de mim. Com isto atrasei-me. Mas não me importei. Soube-me bem estar ali sem fazer nada, aqueles minutos num parque subterrâneo, apenas à espera. Ao princípio pensei que provavelmente só com um guindaste para o içar e que isso poderia durar horas. E não me importei.


Também posso recuar outra vez a umas horas antes, a quando estacionei e, como era cedo, resolvi ir andar a pé. De dia, num dia útil, não costumo andar por ali a pé. E fiquei muito admirada. Street style. Fashion da boa. Tanta gente tão moderna, tão bem vestida, tão inusual. Parecia que estava na proximidade da Vogue, da Vanity Fair, nos boulevards elegantes de Paris. Há tantos mundos dentro do nosso mundo e o que conhecemos é nada. Quando cheguei ao meu destino, cruzei-me com uma cena de filme e era tudo filme, o cenário, grandes espelhos, grandes candeeeiros, um luxo, até as pessoas eram de filme. Pensei que a pessoa que não pertencia ali era aquela mulher que eu via no espelho e que me levava a mim escondida dentro dela, uma que gosta de andar pelo meio do mato, a pisar caruma, a andar por entre os pinheiros perfumados a apanhar pinhas para a lareira, a fotografar as folhas douradas com que o outono embeleza os meus dias in heaven.


Ou seja: não consigo resumir o meu dia e, de boa acção, acho que a única digna de registo foi não ter canibalizado o inocente amor-perfeito.

-------------------------------------------------------------------------------

Obtive a fotografia de Lisboa em 20 locais de interesse numa visita a Lisboa

As duas últimas foram feitas in heaven.

Espero que tenham vindo pela mão de Monteverdi. Pur ti miro, Pur ti godo

------------------------------------------------------------------------------------

A todos desejo um sábado à maneira

terça-feira, outubro 15, 2019

O post que vou publicar a seguir




Há posts para os quais é preciso ter-se uma certa predisposição. Ou nem será isso. Talvez coragem. Ou saber-se, a priori, como fazê-lo para que saiam na forma certa. Ter auto-controlo, talvez. Não sei explicar.

O que vou compor a seguir é um desses posts. Talvez de todos os que publiquei até hoje este seja o que mais me tem feito ponderar se devo ou não e, se sim, como dar-lhe corpo.

Obtive, naturalmente, autorização para fazê-lo. Mas, tendo já decidido que o farei, ainda não sei se será o mais simples e sóbrio possível ou se devo juntar alguns apontamentos para densificar o retrato.

Peço que percebam a sensibilidade da situação pois o post será lido por todos vós mas também pela autora da carta que vou transcrever. Tinha pensado escrever antes um post genérico sobre situações idênticas, talvez para contextualizar. Mas, em casos assim, não há situações idênticas. Talvez, a seguir, tente fazê-lo; mas não sei. Não sei ainda como será e, aliás, acho que estou a escrever isto para ganhar coragem para o que se segue.

Acrescento apenas que isto de ter um blog tem sido para mim uma experiência única, especial, gratificante. Até mim têm chegado pessoas extraordinárias que me têm mostrado muitos mais lados da vida do que eu conhecia. Não tenho como retribuir a generosidade de me acompanharem e a confiança ilimitada que em mim depositam apesar de não me conhecerem. A autora da carta que a seguir vou transcrever é uma dessas pessoas e só espero que o respeito e estima que por ela sinto não sejam traídos por inabilidades que eu não consiga ultrapassar ao compor o post que se seguirá a este.


------------------------------------------

As fotografias foram feitas este domingo enquanto andei a passear pelo Chiado e pelo Príncipe Real (... e, claro, a namorar e deixar-me tentar por mais uns quantos livros)

O Spiritus Sanctus Vivificans é obra de Hildegard of Bingen 

------------------------------------------

segunda-feira, julho 08, 2019

Gracias a la vida:
os segredos dos que se esquecem de morrer, nas 'zonas azuis' do planeta




Acho bonito que chamem às zonas do mundo onde as pessoas vivem até mais tarde 'zonas azuis'. O azul é uma cor saudável, tranquila, a origem e o fim de tudo -- isto, claro, depois e antes do branco original e final, depois e antes do grande infinito. O azul, o vasto horizonte que se funde com o grande líquido azul que transporta e preserva a vida, dentro e fora de nós.

Não me lembro se já algma vez aqui falei disto: os locais da Terra onde há idosos a quem a idade não pesa, vivendo muitas vezes até para lá dos cem anos, mas vivendo com qualidade, felizes da vida.

A nova obra do Bordalo II - um big gato na Expo


É um fenómeno que tem atraído a atenção de jornalistas e de cientistas. E eu, que sempre convivi de perto com gente de avançada idade, interesso-me pelo assunto.

Ainda conheci uma bisavó. Eu era muito pequena e lembro-me de uma velhinha deitada num quarto da casa da minha avó. Dos outros bisas não faço ideia. Tenho uma fotografias de um casal de bisavós e julgo que eram os pais da minha avó paterna mas não garanto. Nada sei deles, não me lembro de alguma vez ter ouvido falar deles. Daquele que fugiu às dívidas de jogo e mulheres ninguém sabia nada. Durante muito tempo, se se falava nele, alguém dizia: 'Se calhar ainda está vivo' mas, que eu saiba, nunca ninguém mexeu uma palha para saber do seu paradeiro. Sabia-se que tinha ido lá para as américas do sul e pouco ou nada mais. E creio que o recíproco também foi verdadeiro. Digo creio porque é isso: mão juro que assim tenha sido.


Quanto aos meus avós, tirando um que morreu novo num acidente horrível, os outros viveram até bem tarde. E o tempo vai passando e agora já são os meus netos que vèem um velhinho na cama e o velhinho agora é o meu pai. E ainda me custa chamar velhinho ao meu pai porque o meu pai sempre foi um homem tão desportista, tão autónomo, tão 'bem conservado' e parece que ainda acho que aquele AVC foi, de facto, uma coisa acidental, que não devia mesmo ter acontecido, daquelas rasteiras que veio mudar o rumo normal das coisas, interromper o que tinha tudo para ser uma vida tranquila para ele e para a minha mãe. Tentamos todos que viva o melhor possível mas o grau de consciência dele já é uma coisa que, para nós, é cada vez mais enigmática.

Mas a minha mãe, essa, sim, poderia muito bem figurar numa destas reportagens das blue zones. Tem uma vitalidade, uma jovialidade e um aspecto que parece de mulher muito mais nova. O que ela faz, o que ele pensa, o que ela ri, transforma-a num exemplo para quem lida de perto com ela. Os netos e bisnetos adoram estar lá em casa. E não é só pelo banquete que ela sempre prepara, é mesmo pela boa onda, pela compreensão e leveza com que encara a vida (apesar da tristeza -- e prisão -- que é partilhar a vida com alguém que se vê a definhar progressivamente, sem esperança que um dia melhore).


Mas, voltando às zonas azuis, o que parece ser comum entre os muito idosos que vivem até tarde conservando a qualidade de vida é:
  • a convivência -- porque a solidão é um mal terrível, uma coisa que corrói a alma e esgota a seiva que alimenta a vida, 
  • a alimentação natural -- muitos legumes e frutos, de preferência de época, locais, e ervas aromáticas, nomeadamente o alecrim, e carne não muitas vezes por semana, para aí umas duas ou três vezes; não são vegans, são apenas minimalistas no consumo de carne. 
  • o exercício, actividade física -- porque a inactividade faz perder massa muscular, faz perter o tónus, faz amolecer a alma e a vontade de festejar a vida; vários idosos têm a sua horta que cuidam e da qual provêm alguns dos seus alimentos

Fiquei contente por saber. Agrada-me a forma simples de viver e sempre que ouço que isso faz bem ao corpo e à mente fico descansada. Saber aquilo do alecrim, então, para mim foi uma alegria. Gosto imenso de usá-lo e os meus filhos estão sempre a aborrecer-se comigo, dizem que uso e abuso, e o meu marido faz coro, arma-se em vítima como se fosse obrigado a ingerir comida envolta em arbustos do campo. Nada disso. Uso de forma moderada e quando me parece que vem a propósito.

Por exemplo, hoje para o jantar (e a contar que sobrasse para a semana) fiz um guisadinho e, ao temperar, hesitei mas resolvi não usar alecrim. Conto como fiz e parece que ficou bom e digo que 'parece' porque  apenas o meu marido o provou.
(Eu hoje, ao jantar, fiquei-me pela sopa de legumes que tinha feito pouco antes, queijo e fruta, acompanhados por dois ou três goles de Trinca-Bolotas, e que rematei, à laia de sobremesa, com um quadrado de chocolate negro comido ao mesmo tempo que dois cubos de gengibre cristalizado). 

Mas, então, a receita do meu guisadinho. Tinha comprado vitela, em bocadinhos para fazer a kind of jardineira. Num tacho coloquei azeite, uma cebolona gigante cortada aos bocados, um tomate também bigalhão igualmente aos bocados, salsa, duas folhas de louro, uma meia dúzia de dentes de alho. Pus a frigir ligeiramente para que os sabores se misturassem. A seguir, juntei os bocados de carne, um pouco de sal, pouco, e, quando hesitei a propósito do alecrim, acabei por optar por um pouco de orégãos. Estava o calor no máximo e, quando levantou fervura, baixei. Gosto de cozinhar a baixas temperaturas. pelo que os meus cozinhados nunca ficam 'repuxados'. Coloquei uma pinguinha de água, apenas para poder estar a cozinhar durante mais de uma hora sem risco de acidentes. Quando voltei à cena já a carne estava macia. Nessa altura preparei cenouras, batatas doces, mais cebola, mais tomate, mais salsa, coentros e uma novidade dos meus cozinhados: quiabos. Juntei tudo e envolvi com uma colher, levantando a temperatura até que voltasse a ferver. Depois baixei, temperatura 3 numa escala de 1 a 9. Ficou ali a cozinhar por mais uns quinze minutos. Quando desliguei, continuou sobre a placa para que apurasse um pouco mais. Estava um cheirinho mesmo bom. 

Não sei onde iam estes seres irreais
que avistei hoje quando estava a caminhar à beira rio, desta vez do lado de cá

E, por ora, é isto. Deixo-vos com um vídeo de apresentação de uma série que vai passar em França e onde Angèle Ferreux-Maeght, chef de cuisine e naturopata e Vincent Valinducq, médico e investigador, investigam o que se passa nas zonas azuis junto de gente que anda por volta dos cem no Jaão, Sardenha, Grécia e Costa Rica.

Mais informação pode ser vista em À la découverte des "zones bleues", ces villages reculés où les centenaires vivent heureux, no site de Madame le Figaro.




Já agora, a quem possa interessar, mais alguma informação sobre os Segredos de uma vida longa, agora falado ou legendado em português.


-------------------------------------------------------------------------------------

Todas as fotografias foram feitas este domingo.

---------------------------------------------------------------------------------------

E a todos vós desejo uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

Paz, saúde e amor.

domingo, julho 07, 2019

Do Ginjal pela manhã à praia à noite, passando por mais um encontro familiar e a terminar no Panorâmico de Monsanto com a Madame M



Depois de eu ter estado constipada, foi o meu marido que a apanhou. De manhã ainda foi comigo para matarmos saudades da beira do rio, nesse lugar mágico que é o Ginjal, eu a fotografrar as mil coisas diferentes desde a última vez, a parar, encantada, a cada passo.  Mostro algumas das muitas com que tentei matar saudades. Lugar de mil fascínios, este. E, logo ali, Lisboa a bela, a magnífica.


Mas, a seguir ao almoço, o meu marido, mais 'atacado', decidiu ficar em casa. Está com tosse, sente-se bastante apanhado, sente-se cansado. Por isso, fui só e o resto do pessoal para casa dos meus pais.

Festejámos, os meninos brincaram, riram, pregaram partidas e foi aquele chinfrim do costume. Quando dei por mim, tinha as calças todas salpicadas de tinta azul. A menininha também mas, como a tshirt tem florzinhas e pintinhas, disfarça. As minhas calças é que estão uma desgraça. Tenho que ver se há maneira de salvá-las. Ela diz que o irmão é que estava com uma caneta azul. Não sei como foi que aconteceu. Mas, isso é peanuts face à alegria incomparável de estarmos juntos, felizes. O bebé perguntou pelo avô, foi à procura dele. Está habituado a ver-nos sempre juntos.


De lá, uma parte foi para um jantar de amigos e outra parte veio comigo cá para casa e, de cá, resolvemos ir jantar à praia. E, no fim, fomos passear à beira mar e os meninos quiseram ir brincar para a areia, junto ao mar banhado pelo luar. Estavam felizes, aquilo para eles eram uma aventura. Ver os barquinhos dos pescadores no areal solitário, correrem ali numa longa extensão deserta, a luz da noite e a tranquilidade do mar envolto em negrime -- tudo novidade para eles. O meu marido lamuriou-se em voz baixa, só para mim: 'Como estou constipado desta maneira, não arranjaram melhor programa do que quererem vir para a praia às tantas da noite'. Disse-lhe para puxar a gola do blusão mais para cima.

Chegámos a casa lá para as onze e meia. Agora é quase uma. E, claro, estou com sono. É o qe dá ter os dias como tenho e só pegar no computador a estas horas.


A minha mãe também deve ter ficado ko. Os meninos estão cada vez maiores, mais barulhentos, brincam muito. Fizeram concurso de salto em comprimento no quintal, apanharam limões e depois guerra de limões, treparam muros e foram para o telhado da casinha das ferramentas. O bebé imita os outros e por lá anda a fazer das dele. Mas quando lhe dizem que não pode subir as escadas sozinho e que tem que esperar que os outros venham, ele percebe, senta-se no degrau de baixo e fica pacientemente à espera. E ela, a mais linda, faz a roda na relva, faz esquemas em folhas para distribuir por todos com o jogo das letras, pede que eu lhe faça trancinhas e até tenta ensinar o pai a fazer ballet. E lancham, e cantam, e bate palmas. E a minha mãe ri, contente por ver aquela família tão bem disposta. O menino que mais se preocupa com a finitude da vida pensa e, dirigindo-se à bisavó, começa a formular a pergunta: 'Então... e quando o avô...' e hesita, não sabe como dizer. Mas depois continua, arranjando maneira de tornear a ideia que lhe ocupa o pensamento 'quando o avô estiver a dormir... com quem é que tu conversas?' E a minha mãe percebe mas desdramatiza: 'Então, eu tenho sempre coisas para fazer, estou sempre entretida' E ele, 'Então, se calhar tens que falar mais ao telefone, não é?' E a minha mãe diz que não é preciso estar sempre a conversar, que vê televisão, que vai às compras. Ele escuta, apreensivo. 

Mas logo alguém fala de outra coisa, logo a brincadeira o puxa noutro sentido.


No fim, a minha mãe, toda chateada, diz que tinha uma quiche e que se esqueceu de o dizer. O meu filho diz que não faz mal, que leva metade, que até lhe dá jeito. E a minha filha diz o mesmo. E cada uma embrulha a sua metade em papel de alumínio. E a minha mãe fica logo toda contente. E bolo também. Cada um leva seu pedaçp. E levantámos a mesa mas é escusado pensar que fica pouco por fazer, por onde aqueles cinco passam é como se um pequeno vendaval por ali tivesse passado.

E isto tudo para dizer que não vi televisão, não sei de notícias, nada. No outro dia li um texto do Nabokov sobre o Tolstoi e gostei muito, até assinalei as páginas para aqui transcrever algumas passagens. A inteligência é fundamental num escritor. A escrita, para me prender, não tem que ter apenas elegância e fluência, tem também que revelar inteligência. De preferência tem que surpreender-me pelo seu fulgor. Lampejos de inteligência. Gostava de ser capaz de ir ali buscar o livro para vos mostrar mas é-me impossível. 


Um dia ainda hei-de habituar-me a arranjar maneira de escrever menos para poder vir até ao blog a horas mais decentes. Se eu fosse capaz de não me deter aqui por mais de cinco ou dez minutos, pequenos haikus, aforismos, uma música, uma frase, coisa simples assim, talvez a coisa fosse mais racional e os meus horários mais decentes. Por exemplo hoje, entre as três e as três e um quarto tive quinze minutos livres. Mas nem me ocorreu aqui vir pois já sei que desato a escrever e escrever, uma coisa torrencial, e levo quase uma hora senão mesmo mais. Ainda não aprendi a ser concisa. E devo dar com cada seca a quem aqui vem na esperança de descobrir coisa que se aproveite...


E, portanto, nada tendo eu a reportar, deixo-me ficar pelo documentário da Madonna sobre o seu último trabalho. Não alinho nessa de dizer mal dela, de achar que ela se sente superior a nós ou de desdenhar de tudo o que ela diz. Acho sinal de inferioridade essa coisa de embirrar com tudo o que seja novo, estrangeiro, endinheirado. Pelo contrário, gosto de quem gosta da minha terra. E ao ver o Panorâmico de Monsanto, lugar tão extraordinário, não poderia ficar indiferente. Fico até a achar que deveríamos ficar-lhe reconhecidos por Madonna reconhecer a beleza daquele lugar decadente e tão estranhamente abandonado.

The world of Madame X


Madonna em Lisboa



E a todos desejo um belo dia de domingo

quarta-feira, junho 05, 2019

Não vou falar do Panteão dos Corações porque os escritores não precisam de túmulos de pedra, precisam é que leiam os seus livros.
Falo, sim, de uma bela livraria: a Livraria da Travessa.
E, de passagem, falo num certo Manual de Etiqueta





Agora que o nosso Marcelo lançou a sound bite do dia, permitindo que a consciência colectiva fosse a enterrar devidamente paramentada com um pensamento enternecedor e indulgente, passo à frente porque conversa de Panteões mesmo que venha enfeitada com corações não me apetece a propósito da Agustina.

Agustina é mais do que isso, é espírito vivo e terra e fogo, não é corpo morto em pedra fria. Agustina é mãe de palavras infinitas, não memória enclausurada em monumento. Acho eu. Marcelo não fez por mal, acredito, falou porque tem que falar sempre. Mesmo quando a hora seria de silêncio, até para respeitar o silêncio de Agustina, Marcelo quis fazer bola de efeito. Mas não é por mal, é apenas defeito que ainda não aprendeu a curar.


Sigo, pois, em frente. Enquanto houver estrada para andar eu vou continuar. De tantos e tantos livros de Agustina, só tenho uns muito poucos e desses ainda mais poucos li. E, no entanto, bato-me por ela onde quer que eu esteja. Bato-me, certa de que estou a bater-me por um nome maior das letras portuguesas -- mesmo que torçam o nariz achando que não, mesmo que achem coisa datada, escrita rebuscada com tiques de antanho, mesmo que achem que não passa de obra parada numa tela de Oliveira.

E, para meu pessoal conforto, terei palavras novas de Agustina para ler pela vida afora. 

Só desejo é que todas as televisões façam muitos programas sobre a sua obra. Digo sobre a obra e não apenas sobre a autora. Que se ouçam as palavras que escreveu, que quem ouça tenha vontade de ler mais, de ler muito. Isso é que desejo. Das pessoas que conheço poucas leram Agustina. Muito poucas. E isso é que me dá pena. Não sabemos amar quem honra de verdade a nossa língua nem quem tem a genialidade da escrita íntegra. 


No outro dia queixei-me aqui, e foi há pouco tempo, destas livrarias cheias de lixo em que a gente tem que garimpar muito primeiro que apareça livro que valha a pena. E o pior é que nem a gente sabe como procurar, só lixo à vista, na estante, na bancada, na prateleira, no topo. Desejei uma livraria que me ajudasse a aprender quais os livros bons, uma livraria despoluída e atraente por onde eu pudesse ser guiada até onde as palavras límpidas me aguardassem.

Pensei que estava a sonhar. O mundo perfeito não existe. Se calhar nunca existiu. Pode parecer que me iludo mas não, tenho os pés na terra.

Mas afinal essa livraria existe. Estive lá. Um lugar de serenidade e paz.


Não fui à Feira do Livro. Estava muito calor e, nos últimos anos, a barafunda, o barulho e a confusão incomodaram-me demais. Livraria boa pede recolhimento, não liturgia mas recolhimento, quase silêncio, se música, então, musiquinha boa, e pede frescor e pede uma quase média luz, algumas zonas de sombra, alguns recantos para alguma escrita que requeira algum recato.

A Livraria da Travessa tem isso. Situa-se num dos lugares especiais de Lisboa, o Príncipe Real, e é de uma sobriedade, de uma elegância, de uma largueza, de um bom gosto que dá vontade lá ir todos os dias.


E trouxe de lá alguns livros. Livros que sabia que existiam e nunca tinha visto à venda. Andava eu por um lado, o meu marido por outro, ambos à descoberta. Deles darei conta um dia destes. Livros que me enchem de alegria só por existirem e estarem aqui à minha beira, à minha espera. O meu marido já leu parte de um e gostou, diz que está bem escrito e que é um bom retrato de época.

Eu ainda não li nenhum mas agora peguei no Manual de Etiqueta do mesmo autor e estive a folhear para ver se poderia ser de utilidade para alguns dos que pacientemente me acompanham aí desse lado. E confirmo: da máxima utilidade.


Por facilidade transcrevo apenas dois conselhos e escolho-os apenas pela dimensão pois há casos em que, atestando que o tamanho importa, a minha escolha recai nos mais pequenos.

O hipismo

Para se fazer hipismo é necessário ter prática e ter também um cavalo ou uma égua. Quando um casal faz hipismo o cavalheiro vai do lado direito a dama do lado esquerdo. O cavalo vai sempre por baixo. (É uma velha tradição que fica bem respeitar).



O beijo-paixão

Este género de ósculo fica muito bem às senhoras tipo mulher fatal, de cabelos pretos e olhos verdes. A etiqueta exige para tal cerimónia o baton cor de sangue, fundas olheiras e pálpebras semicerradas de míope. Sendo este dever social considerado de grande cerimónia, jamais o cavalheiro o praticará com o chapéu na cabeça.


[O autor é o Vilhena e forçosamente a ele terei que aqui voltar um dia destes]



-------------------------------

É de um brasileiro esta bela livraria de Lisboa. 
Pelos vistos gosta da língua portuguesa e gosta de literatura e de livros -- e é isso que é preciso. 
Espero que tenha muito sucesso pois quero ir e ir e ir e voltar a ir a esta Livraria da Travessa.