Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

quarta-feira, janeiro 23, 2019

O belo príncipe entrevista o velho rei e senhor




De vez em quando, faço de conta que sou optimista e o meu cérebro, bicho tonto e fácil de enganar, deixa-se levar e começa a pensar que é optimista a sério e todos os comandos que emite parecem coisa de uma optimista de verdade. E de tal maneira é que quem me veja acredita que sou mesmo optimista. E eu, que gosto de observar, deixo-me estar a rir por dentro, a ver como me olham com desdém por ser tão tonta.

O que me vale é que, até ver, esta encenação deixa de fora um pequeno reservatório de realismo que, haja o que houver, se mantém incólume e impede que toda eu me deixe contagiar. Ou seja, por muito optimismo que ostente, o dito reservatório vai vertendo uns pingos de lucidez e, portanto, a costumeira alienação está sempre temperada com um pouco de bom senso.

É o caso que passo a referir. 


Tenho para mim que, passageiros e insignificantes que somos, temos, além do mais, um defeito de fabrico que nos há-de ser fatal: somos burros. Muito burros. Alarvemente burros. Mas pior ainda: somos de um tipo perigoso. É que os vulgares jumentos de quatro patas são dóceis e espertos enquanto nós, os burros que andam em duas patas, somos destrutivos, umas inqualificáveis bestas quadradas. 

Sem ofensa, claro. E, claro também, uns mais que outros. V. que me lê encontra-se, tenho a certeza, entre os menos burros e, com um bocado de sorte, andará em quatro patas.


E isto para dizer que fomos postos em cima de uma bolinha muito linda, azulinha e verde, suspensa no espaço como um balãozinho de brincadeira, uma bolinha bem feitinha, com montanhas e mares, um céu sereno e também azul, bichinhos bonitos que se entretêm uns com os outros, lá na deles. E, em vez de nos limitarmos a ser felizes, não senhor, embirramos uns com os outros, conflituamos, denegrimos, brigamos, envelhecemos envoltos em amarguras, em azedumes e queixumes. E poluimos, estragamos, desperdiçamos. 

E permitimos que uns excluam outros, que marginalizem e gozem com outros apenas porque são diferentes, e permitimos que uns se achem quase deuses e se auto-coloquem em altares, recebendo fortunas, prémios escandalosos, e ficando de bem com a sua consciência apesar de ao seu lado haver quem ganhe vinte, trinta ou ainda mais vezes menos.


Somos intrinsecamente estúpidos. Passamos pela vida, que é tão curta, sem saber ouvir a beleza das palavras, a harmonia da música, a leveza das cores, a suavidade do toque, a infinita perfeição do silêncio e do amor. 

Quando vejo imagens de praias inundadas por plásticos, peixes infestados por microplásticos, lixeiras infectas e fumegantes, rios cheios de espuma e peixes mortos -- e outros desastres assim -- fico perturbada. Somos tão estúpidos.

Ou quando vejo políticos que mal sabem falar, oportunistas, ignorantes, interesseiros -- e que supostamente nos representam -- fico igualmente perturbada. E não que ache que acabar com os políticos seja a solução: não acho. Acho que a política é importante. Temos é que ser mais exigentes e mais conscientes. Não podemos ter anormais como Trump ou Bolsonaro à frente dos destinos de países. É muito mau. Gente que não defende o planeta não pode ser eleita. Não pode. Temos que nos interessar. Temos que falar nisto.

Tenho livros com as maravilhas que Sir David Attenborough desvendava. Sempre tudo tão extraordinário, tão sereno, tão belo. E sempre que dava na televisão eu via. E, volta e meia, vejo-o no YouTube. 



Foi, pois, com surpresa que hoje soube que Sir David Attenborough esteve com o Príncipe William, que o entrevistou, no World Economic Forum na Suiça.

Pode, pois, ser optimismo da minha parte, coisa de gente tonta, mas ver, num encontro destes, o futuro rei do Reino Unido e o velho soberano da wildlife e da defesa do planeta azul, a alertarem para as alterações climáticas e para a necessidade de defesa do planeta alegrou-me muito.

Faço de conta que acho que é um bom sinal, que alguma coisa começa a mudar quando duas pessoas como estas se prestam a isto, um, apesar de royal,  todo bom rapaz e consciente da responsabilidade que tem, outro todo empenhado e presciente apesar dos seus provectos 92 anos. E se não é bom sinal, então, façam a caridade de não me contrariar. Deixem que me mantenha optimista, iludida.




E até já!

terça-feira, janeiro 22, 2019

Não lhe vi um pingo de sangue. E, se não é branca, então que seja azul.




Tenho ideia que ouvi dizer que a lua está vermelha, tingida de sangue. Olho-a e vejo-a branca. O céu espraia-se em branco derramado sobre o rio. Estive à janela a ver a via láctea espelhada no tejo. O céu translúcido. Nem um pingo de sangue. Se calhar ouvi mal. Acontece-me estar a ouvir música na rádio enquanto atravesso a cidade e ir no meu comprimento de onda, pensando palavras, se calhar imaginando outras. 

Por vezes, quando chego ao meu destino, tento lembrar-me do que ouvi e do que pensei e, geralmente, nunca me lembro de nada. Acho que as palavras e a música que ouço se esvaem de mim e que as palavras que se vão juntando dentro de mim também se evadem, sem deixar rasto.

Olhei a lua durante parte do percurso: aqueles pontos brilhantes que se unem através de segmentos muito finos, uma geometria elegante -- tudo quase branco. Nem róseo, muito menos sanguíneo. Finíssimos desenhos em branco na face visível da lua. Sou muito ignorante mas sei que sou pelo que pensei que já deveria ter ido tentar saber o que há do lado de lá, no lado oculto, no lado B, mas não sou só ignorante, sou desinteressada do que me parece escuro e meio triste. Prefiro outros fragmentos e colagens. Poeiras lunares numa paisagem desolada, escura e fria, não é a minha praia. Xodós, lamentos, cantos, poemas destilados, bilhetinhos de amor -- isso sim, eu gosto, espero sempre por mais. Escritos por todos os apaixonados ou apenas por um, tanto me dá. 

Mas, enfim, não sei da lua senão que é branca, doce, e que ilumina com leite e mel os corações enamorados e que chama pelos amantes. Coisas assim, poéticas, sem utilidade outra que não a de fazer a gente sentir a alma mais humana, mais frágil, mais abraçada.

--------------------------------

Portanto, para concluir, posso é dizer que, se a lua não é branca, encarnada também não é. Fotografei-a de longe e de perto e confirmei: não lhe corre sangue nas veias nem a face visível está ruborizada. White ou quase white. Blanche. Mas dizer que está de um branco lunar não apenas é redundante como pode não ser correcto. Ponho-a, então, azul e trago aqui a outra blue moon. E chamo pela vossa companhia. Fiquemos aqui a contemplar as águas do rio, a ouvir os acordes cheios de noite.

E posso ainda acrescentar um outro pequeno despropósito: já converti em acto o presente da massagem que recebi pelo Natal. Entrei num lugar de luz verde, de vegetação tranquila e verde, de água a correr numa fonte, de música de aragem a dançar entre bambus, harpa, piano, sons muito límpidos.

No gabinete quase não havia luz, apenas uma luz muito levemente coada sobre o leito. E umas velas, perfumadas, num canto. E fui mandada despir-me toda. Toda? Toda, e fios, brincos, anéis. Recebi uma tanguinha de papel e deitei-me. E ao longo de uma hora, umas mãos cobertas de óleo foram percorrendo todo o meu corpo, ora com suavidade, ora com intensidade. Não sei se a música foi cambiando. Estive de olhos fechados e sem ouvir nada, sem dizer nada, entregue apenas à sensação boa de umas mãos percorrendo o meu corpo. Quando acabou, deixei-me ficar. Tinham-me avisado: não se levante logo. Por isso, fiquei. Noutro comprimento de onda, descontraidíssima. Saí de lá a flutuar.

E agora vou outra vez pôr-me à janela a contemplar a blue moon sobre o rio.

-----------------------------------------------------------------------

Aquí te amo. 
En los oscuros pinos se desenreda el viento. 
Fosforece la luna sobre las aguas errantes. 
Andan días iguales persiguiéndose.
(...)
Pero la noche llega y comienza a cantarme. 
La luna hace girar su rodaje de sueño. 


----------------------------

segunda-feira, janeiro 21, 2019

In heaven a natureza começa a florescer. E eu com ela.




Dividida entre fazer o tapete ou falar do meu mundo, opto por voltar a entrar no meu heaven. Estou a rever o que já antes tinha visto, o documentário que mostra a paixão de Judi Dench por árvores. Uma coisa fascinante. 

Cheguei no sábado já era noite. Tínhamos estado a passear à beira rio enquanto os miúdos estavam no Pavilhão do Conhecimento. Depois fomos lanchar com eles, demorámo-nos, conversámos, matei saudades e, de lá, seguimos para o campo.

Tinha estado a chover.  Estava frio, uma noite de inverno.


Enquanto o meu marido andou a levar pedaços de madeira para a salamandra, andei a fotografar as laranjas lavadas pela chuva, as flores do vaso que está à porta despontando, um rosa viçoso no escuro da noite, um escuro iluminado por um intenso luar branco.


Depois, já ele tinha acabado, chamou-me, estava frio, não eram horas de andar  ali na rua, às escuras. Não gosta de chegar de noite. E eu, lembrando-me, do bicho misterioso que por lá tinha andado, concordei que era melhor recolher-me.

Este domingo acordei tarde. Não há lugar no mundo onde durma tão bem. Parece que o meu corpo percebe que aqui, em dias assim, não tenho horários nem compromissos, estou por minha conta.

Quando estava a tomar o meu frutado pequeno almoço, chegou o meu marido. Madruga, ele. Anda pelos caminhos silenciosos da manhã, vê o levantar do dia, vê o orvalho, vê as cores lindas da natureza. Diz sempre que não sei o que perco.  Não sei mas acho que sou capaz de adivinhar. Desta vez, como era bem tarde, depois do seu passeio, já tinha andado de volta das árvores com aquelas ferramentas que o meu filho lhe ofereceu pelo Natal e que o traz viciado. É ele que diz: esta coisa é viciante. Vinha com um serrote telescópico. pode serrar troncos que estão nas alturas.

Logo de seguida fui eu que fui passear. Devia dizer caminhar pois devia ter caminhado, andado apressadamente, compenetrada no acto de caminhar. Mas sou uma diletante. Parece que não consigo concentrar-me nos deveres quando tenho tentações a chamar por mim. E tudo aqui me tenta.


Um ninho aconchegado entre dois ramos. Há coisa mais bonita do que um ninho? Quanto trabalho ali está. Tão perfeito. Gostava de um dia conseguir ter tempo para ficar sentada num canto, imóvel, a observar estes pequenos seres que aqui habitam e que tanto se atarefam nas suas obrigações. Fazer uma casinha para porem os seus ovinhos, para nascerem os seus filhotinhos.

Continuo nas minhas observações vagarosas, atentas, à procura de mais casotinhas, de mais grutas, de novidades.

Não encontrei dois buracos na rocha, penso que já estão tapados pois a vegetação cresce vigorosamente. Até que descobri um. Intrigam-me. Um dia ainda arranjo uma câmara pequenina e enfio-a lá para dentro.


No outro dia os meninos levaram os troncos que resultaram do pinheiro grande que tombou e que eu tinha em volta da  árvore que dá flores amarelas e de que agora não recordo o nome para junto do murinho verde. O ano passado já se tinha enchido de folhos vaporosos. Este ano está outra vez assim, engalanado, vistoso. O meu pinheiro reinventa-se, vivo, metamorfoseado.

Se calhar estas asas macias e quase douradas estão a querer decompor a madeira. Não faz mal. A transformação é, em si, uma forma de viver.


Mais à frente, umas coisinhas nunca antes vista. Ando mil vezes por aqui e mil vezes estas coisinhas por aqui devem ter estado e nunca antes tinha visto. Cega ao que desconheço, cega em relação ao que não procuro.

Agora como ando à espreita, baixo-me, aproximo-me, quase um gata vagarosa. Penso que sejam cogumelos. O que ainda resta deles. Quando digo que numa semana estáo lá, na semana seguinte desapareceram, se calhar se olhar melhor verei sempre isto. Mas nunca antes tinha visto. E isto encanta-me muito, esta permanente sucessão de surpresas. Esta terra é uma caixinha de surpresas. Uma arca do tesouro, de mil jóias, mil mil mil, muitas mil maravilhosas jóias.


E depois, mais à frente, uma borboleta dourada pousada entre a caruma. Aproximei-me. Talvez não uma borboleta, talvez uma folha caída, uma sobrevivente do outono.

Mas não. Um belo cogumelo alado, pequeno, ali isolado, tão frágil, tão bonito, um pé fininho, tão desprotegido. Mas talvez aqui tudo se proteja entre si. Que sei eu do que aqui se passa?


Entretanto, outra novidade. À saída gruta grande, pegadas fundas. Deve fazer força nas patas para subir. E agora estão por todo o lado, até cá em cima, até no largo da capela. No musgo fofo, muito visíveis. Pegas grandes, fundas. A terra revolvida. Procura raízes, procura o quê? 

De que tamanho é, onde vive? De noite está na gruta? Vive sozinho? Como foi lá para dentro?

Hoje reparei como uma reentrância de uma rocha havia água, ainda bastante água. Se calhar é ali que bebe água. Não assustará os coelhinhos? Os gatinhos? Só andará por ali de noite? 

Tantas pegadas intrigam-me. 


Entretanto, o alecrim, o rosmaninho, o alfazema estão a despontar. As florzinhas cheirosas e perfeitas começam a aparecer. Adoro-as como outros adoram santos, anjos, deuses. Adoro-as porque são simples, pacíficas, belas. incrivelmente perfeitas na sua inexplicável espontaneidade. Adoro-as porque me sinto feliz quando estou perto, quando as olho, quando as cheiro, quando as toco.

Tenho vontade de as apanhar para as ter comigo durante a semana, quando não há natureza perto de mim, apenas a memória de quando por aqui ando. Mas não. Deixo-as ficar, intactas, intactas na sua inocência.


...........................................................

A todos quantos por aqui me acompanham desejo uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Be happy.

Agora já sei quem é essa tal Marie Kondo


Não sou nem pretendo ser uma sabichona e, pior do que isso, de vez em quando sinto que devo andar fora deste mundo desconhecendo o que toda a gente está farta de saber.

Mas pronto, agora já sei quem é Marie Kondo. Volta e meia, nas Madames Figaros e Vogues desta vida via referências ao método Kondo mas a desatenção e as pressas habituais sempre me impediram de investigar. Até que, surpreendentemente, Mr. X trouxe Marie Kondo à colação. Aí, obviamente, não pude manter-me no desinteresse. 

Num dos dias em que estava a aprender como a técnica dos origamis pode aplicar-se às cuecas ou às meias, a minha nora enviou-me uma sms a sugerir-me que visse uma série no Netflix, Tidying Up With Marie Kondo. Não tenho Netflix mas assinalei a coincidência: estava justamente a ver vídeos no Youtube. Disse-lhe que ainda estava a tentar perceber se aquilo não é mais uma das tretas que vira moda até porque a dita senhorita Kondo, pelos vistos, achava que só se devem conservar os livros que trazem alegria. Ora os livros são objectos sagrados. A minha nora respondeu-me que, por ela, livros e fotografias não deitava fora mas que não tinha sentimentos em relação à roupa. 

Eu não sou despojada, tenho sentimentos em relação a quase tudo. Não sou de deitar fora com facilidade pois posso usar roupa com muitos anos (assim me sirva).  E tenho objectozinhos que vêm desde o princípio dos tempos. Afeiçoo-me às coisas.

Mas a verdade é que estou desejando ter tempo para organizar o meu closet. Aquela coisa de arrumar tudo em tijolinhos parece-me boa ideia. Não sei se cada tijolinho me dará felicidade mas acredito que olhar para um gavetão super arrumadinho me alegrará bastante. Por exemplo, adoraria ter as minhas echarpes assim arrumadinhas, organizadinhas. Encontrá-las e estarem lisinhas, prontas a usar, é um desafio. 

Imagino que seja uma alegria idêntica a olhar para as minhas estantes assim como estão agora, arrumadas. Pode parecer estúpido dizer isto mas a verdade é que fico satisfeita quando faço arrumações e vejo o produto final.

Infelizmente nem tão cedo terei tempo para me atirar à revolução que sinto que é necessária nas minhas gavetas.

E agora podem rir-se de mim à vontade. Lá virá o Leitor mauzão chamar-me dondoca, lá haverá quem assinale que o meu mal é não saber os gregos clássicos na língual original -- essas verdades irrefutáveis que, na volta, explicam que eu, perante o que aprendi do método da Marie Kondo, em vez de a banir do meu radar esteja aqui a confessar que estou com vontade de ir arrumar o meu roupeiro e adjacências. Mais: sou até capaz de reconhecer que há coisas que posso deitar fora.

Spring Cleaning Queen Says Being Tidy Is About 'Joy' 


_________________________

domingo, janeiro 20, 2019

Lisboa tem livros, objectos, fotografias e memórias, muitas memórias
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 1 de 8]






É o que digo: parece que só prestamos atenção ao que já conhecemos. Ou que não reparamos naquilo para que não estamos previamente despertos. 

Tinha para mim que a Sá da Costa ia fechar. Depois, tinha para mim que tinha fechado. Quantas vezes já ali passei depois disso? Nem sei. 

Só sei que, desta vez, a montra me chamou a atenção. Aproximei-me. Olha, afinal não fechou!, admirada. Mas não tinha fechado? Os dois espantados. Se calhar, não. Pensei: será que, afinal, se salvou? Entrei. Intrigada. Assim de repente até me pareceu maior, aberta até lá mais atrás. Se calhar, confusão minha. 


Admiradíssima, fui andando. O meu marido deu uma vista de olhos panorâmica e disse: São usados. Livros antigos. Ainda pensei: Restos? Fundos? Olhei em volta, a ver onde estavam os livros novos. Não. Comecei a ver melhor. Se calhar. Livros e outros objectos, todos antigos.

Perguntei: Mas, então, agora é um alfarrabista? A resposta óbvia: Mas não estás a ver que sim?

Curiosa, fui folheando. Primeiras edições. Livros com dedicatória. Primeira edição dedicada a. vários de Urbano. Seria a sua biblioteca? Mas muitos, diversos. Salas e salinhas lá dentro. Recantos. Vitrines com livros ainda mais antigos, peças especiais.


Eu estava sem conseguir perceber o que é que tinha acontecido. Googlei logo ali e obtive o esclarecimento: de facto, a Sá da Costa tinha estado insolvente mas felizmente houve um aproveitamento do espaço, uma nova vida. Agora, ali, apenas o local e o nome são Sá da Costa. Pertence agora à Livraria Castro e Silva e dedica-se, como se estava a ver, ao alfarrabismo. 

Um fascínio. Tanta coisa, tão bem exposto. Coisa para se estar ali durante horas. Como é possível ter passado tantas vezes ali e, convencida que tinha fechado, nem ter reparado que estava aberta com tais tesouros lá dentro?


É que não são apenas livros: há restos de livros, sebentas, cadernos, restinhos de azulejos, molduras, quadrinhos, objectos decorativos, coisas que não sei o que são ou para que servem. Um mundo.

Fiz muitas fotografias. Não as ponho aqui todas pois talvez fosse fastidioso. Mas, acreditem, é daqueles lugares onde se pode estar uma tarde. Ou um dia. Ou muitos dias ao longo de semanas. Ou de meses. Vai fazer parte do meu roteiro. 

O meu marido que é muito sensível a pós e cheiros, foi lá para fora. Mas foi mais porque não é de estar a observar detalhadamente ou mexer nestas coisas pois o espaço não tem aquele cheiro empoeirado e abafado que muitas vezes torna quase irrespirável o ar dos alfarrabistas escusos, escuros, encafuados. Não, este espaço é arejado, luminoso. Muito agradável.


Gostei de tudo. Mas onde me perdi mesmo foi nos caixotinhos que, à direita de quem sai, se perfilam ao lado uns dos outros com folhas soltas, postais, fotografias.

Uma coisa fascinante mas, ao mesmo tempo, um bocado triste. Objectos pessoais, recordações de família ali à venda.

Mas sobra-me algum pragmatismo: quando alguém herda uma casa cheia de objectos, gavetas cheias de cartas, papelinhos, retratos de amigos e familiares e não tem onde guardar toda esses restos de uma vida -- de facto, montes de tralha -- mais vale que o entregue para que se encontre quem os estime.

Também eu tenho um leque maravilhoso com mais de cem anos, com dedicatórias, uma caixinha de cartas, um espelho de toucador, uma cadeira, um candeeiro, tudo comprado num antiquário. E também eu passei pela situação, já aqui referida algumas vezes, de, ao fim de vários fins de semana a 'desmanchar' uma casa, acabar por assistir passivamente a ver despejar gavetas cheias para sacos grandes do lixo. Já não havia disponibilidade mental e emocional para continuar a ver coisa a coisa, para resover para quem ia isto, aquilo e aqueloutro, para ali estarmos confinados durante o fim de semana a ver coisas velhas. Trouxe muitas coisas, algumas nem sei para quê. Daqui por uns anos alguém andará a pegar em tudo isto que aqui tenho também sem saber bem o que fazer a cada coisa.


Tirei algumas fotografias das caixas. Vi as dedicatórias. Por exemplo, esta que aqui vos mostro. Há cerca de sessenta anos, alguém ofereceu a fotografia desta menina aos seus padrinhos. Se calhar, a menina, hoje uma mulher talvez já com netos, não saiba que a sua fotografia está a venda, muito menos aqui no meu blog, atravessando o vasto espaço que liga o mundo. Talvez alguém se enterneça como eu me enterneci, talvez alguém sem família venha a comprar a fotografia, talvez a emoldure e reconstrua uma memória que não é sua. Sabe-se lá.


É esta a magia dos alfarrabistas, dos antiquários. Um mundo que se desdobra desde o passado até ao presente, transportando memórias, vestígios de outras vidas, vislumbres de outros tempos. 

-----------------------------------

E aqui termina a reportagem fotográfica pela Lisboa bela e eterna. Por aí abaixo há mais sete posts que contêm apontamentos colhidos no domingo passado. O último foi o que fiz dedicado a montras. dele poderão ir saltando para os anteriores.

E porque Chiado e livros nos fazem evocar o nosso Eça, despeço-me com ele.


Até já

sábado, janeiro 19, 2019

Modas muito sofisticadas, muito à frente,
em noite de memórias e risos


Estive a ler: rir faz bem. Sei disso muito bem. Rir liberta. Rir atrai o riso, o riso oxigena o sangue, o riso traz energia. O riso é contagiante. 

Rio bastante. Mesmo se estou aborrecida, mal me distraio já estou a rir. Muitas vezes vou no carro, lembro-me de coisas que me divertiram e desato a rir-me. Vou no carro, sozinha, e na maior galhofa. 

Ainda hoje ao jantar: o meu marido serviu a sopa e, como não aprecia, pôs na minha tigela todas as couves de bruxelas. Parecia um lago coalhado com cabeças de hipopótamos à superfície. Desatei a rir de tal maneira que ele, que não é gargalhadeiro, também desatou a rir.

Quando o meu filho era pequeno fazia coisas que nos desconcertavam e que, quando a posteriori, nos faziam rir até às lágrimas. Ainda hoje. A minha filha contou aos filhos e eles gostam de ouvir. Se a ouço a contar, desato a rir, a chorar a rir, como sempre. 

Por exemplo. Nem sei se já contei. Ele era pequeno e andava no karaté. Uma vez, de noite, levantei-me para ir à casa de banho. Nessa altura o meu quarto não era suite, a casa de banho era no corredor. Dormia apenas com uma tshirt branca. Fui às escuras. Ia pé ante pé para não acordar os miúdos. Nisto ouço um grande grito gutural e um pequeno vulto quase a voar. Dei um grito de todo o tamanho, sem perceber que ser estranho me estava a atacar. Alguém acendeu a luz. Eu tremia. Tinha sido o meu filho. Ouviu um ruído, saíu do quarto e viu uma tshirt branca a flutuar, pensou que era um fantasma e, acto contínuo, tentou aplicar-lhe um golpe de karaté, um pontapé em pleno voo enquanto da garganta lhe saía um grito marcial.

O que esta cena me tem feito rir ao longo dos anos.

Outra vez, no campo. Nessa altura ainda não havia vedação. Eu ia sozinha, passeando devagar. Então, do outro lado dos arbustos, comecei a ouvir uns estalos. Eu andando e o som dos estalos a acompanhar-me em paralelo, sem eu ver o que era. Comecei a assustar-me. 

Acelerei o passo e os estalos do outro lado a acompanhar-me. Já com medo, resolvi subir de volta para casa. Às tantas, comecei a correr e a ouvir os estalos atrás de mim. Mas a subir e cheia de medo, parecia que estava presa. Nisto vejo a minha filha. Quis avisá-la de que estava a ser seguida mas a voz quase não me saía. A custo, enquanto tentava escapar, disse: 'Um cavalo'. Achava que estava a ser seguida por um cavalo. A minha filha olhava incrédula. 'Onde?' e eu aflita: 'Atrás de mim' e mal me saía a voz. E ela espantada disse que era o irmão. E eu, a medo, olhei para trás. Era ele. Parou também muito espantado. E eles: 'Mas onde é que está o cavalo?'. E eu, ainda a recompor-me: 'Ouvi. Vinha atrás de mim... ouvi os estalos'. E eles: 'Um cavalo...? Mas onde é que um cavalo dá estalos...?' A minha filha pôs-se a imitar-me, a correr em câmara lenta, os cabelos ao vento mas também em câmara lenta, uma vozinha de nada: 'um cavalo...'. Por fim eu já chorava a rir. Não sei o que me passou pela cabeça. Nem pensei se era alguém a dar estalos para conduzir o cavalo, se era só o cavalo. O meu filho espantado com aquilo tudo. Mas ainda hoje penso que ele quis assustar-me. Mas era ainda um puto, não assustava ninguém em seu pleno juízo. 

E eu, de cada vez que me lembro dessa minha parvoíce tão ridícula e da minha filha a imitar-me, desato a rir. 

Ou outra vez, teria ele uns quatro anos. Tempos antes, meses, tínhamos ido a Madrid pelo Carnaval e tínhamos-lhe trazido um fato completo de gladiador em plástico cor de bronze, parecia metálico. Num certo dia portou-se mal como tantas vezes acontecia. Eu zangava-me, ameçava-o, dizia que, se continuasse, me zangava a sério, que, se não parasse, apanhava. E, então, nesse dia, fugiu e, para meu espanto, instantes depois apareceu-me no hall a desafiar-me, todo equipado, um pequeno gladiador: 'Vá. Agora podes vir! Bate!'. Um fedelhito, todo mascarado, a desafiar-me. Desatei a rir, a rir. E ainda hoje rio, enternecida, divertida.

E, para ilustrar este insignificante texto, escolhi estas fotografias que mostram algumas maluqueiras a que há quem chame moda. Há muito mais no Panda Entediado



-----------------------------------------------------------------------------

E queiram seguir até ao John Bercow, o espantoso Mr. Speaker

[E ainda não é hoje que mostro o extraordinário alfarrabista]

Order! Order!
Diz o Guardian que os europeus descobriram agora o extraordiário John Bercow e que estão fascinados.
Com licença: já o descobri há muito tempo e, desde então, estou fascinada por ele.
Por isso, façam o favor de tirar a senha e porem-se atrás de mim.


Sempre achei interessante a figura do Speaker of the House of Commons mas, muito mais interessante, desde que é John Bercow que lhe dá corpo. Gosto imenso dele. Tem graça, energia, sentido de humor.

Transcrevo do artigo do The Guardian
As Europeans on the continent have watched the UK’s Brexit car crash, one figure offered some light relief to those new to the peculiarities of British politics.
The often thunderous pronouncements of John Bercow, the verbose Speaker of the House of Commons, have become the subject of numerous profiles in newspapers, and a fair few highlights videos, shared heavily on social media.
The Dutch newspaper De Volkskrant headlined its profile of the Speaker: “No one on the British island can call ‘order, order’ more beautifully than John Bercow.”
The article went on to suggest “the only order in British politics comes from John Bercow’s mouth in these turbulent days”.
“Louder, boisterous and, yes, more animal than ever, he shouts ‘order, order’, with which the 55-year-old House of Commons Speaker tries to calm down the members of the famous parliament.” (...)
E o Expresso foi atrás: 

John Bercow. Quem é, por estes dias, a única fonte de “Ordem!” no parlamento britânico


O 'speaker' mais engraçado, mais mal-educado, menos tradicional, mais imparcial. Toda a gente tem uma opinião sobre John Bercow, presidente do Câmara dos Comuns britânica, que recentemente tem feito as maravilhas da imprensa internacional com os seus berros de "Ordem!" e a sua voz rouca e possante no meio das intermináveis negociações para o Brexit

sexta-feira, janeiro 18, 2019

Lisboa tem montras com leitões, calçadas, ratinhos, galos, santos e santinhas.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 2 de 8]




Está muito frio. Quando fomos fazer a nossa caminhada e estava que não se podia. Não sei se era do ar que se respirava, se era de mim que o respirava.

Motivos para fazer aqui uma festarola não faltariam: 
  • não só as macacadas dos defuntos da era lapariana, todos a darem à costa -- a pinókia dos  swaps, a  tal da justiça que dá mau nome às louras, o aguiar do escritório de advogados, o Hugalex que nunca mais atina, sei lá, tudo a sair à cena -- palavrentos, biliosos, conversas trapalhonas, falta de ética, todos prontos a destruir com o ácido da sua bílis não só Rui Rio mas toda a sua entourage, afinal todos correlegionários. 
  • mas também poderia falar do abraço apaixonado e emocionado entre as duas múmias paralíticas que sempre se odiaram, o Rio e o Menezes
  • ou poderia dizer qualquer coisa da dupla sinistra que a SIC convidou para falar de Vara, uma dupla que pareceria uma anedota se eles não fossem um perigo, a Procuradora Boca Guedes e o ressabiado Mano Costa. Não fui autorizada a ver já que, aqui em casa, se preza muito a higiene mental mas, num rápido zapping, o que vi e ouvi foi de susto. Gente destas é tóxica, estraga tudo, envenena o solo que pisa e o ar que respira. Mas não me alongo, remeto para as palavras do Valupi.
  • e até poderia falar do anormal do Trump com as suas burrices e alarvidades e com a última tirada a dar entender que a mulher poderia fazer as saladas para servir aos convidados (já que continua o shut down). Mas a Melania não se deve importar, gosta de fazer papel de parva, de escrava parvalhona.
  • ou poderia falar da pangalhada do Brexit e da demonstração da irresponsabilidade dos populistas que levaram o Reino Unido a este beco sem saída. Todos à deriva, conduzidos por uma totó.
Mas, infelizmente, não estou in the mood. Continuo com pouca vontade. Estou melhor, bem melhor, thank you, mas, ainda assim, aquelas cócegas nos dedos de que o Francisco, no outro dia, falou, essas ainda não deram as caras.

Por isso, volto-me para o meu passeio de domingo pelas ruas desta Lisboa de que gosto todos os dias e, sempre, cada vez mais.

Comecei, lá em cima, com a fotografia um bacorinho que podia passar por atleta mas que a fumar daquela maneira não o é e que, ó Caro Rei dos Leittões, pela cor dos pezinhos, lamento mas não é da sua família, um ilustre Pata Negra.

Noutra montra um garboso galo, um bem comportado acólito e não sei se um Santo Antoninho. E azulejos. 


E depois um quadro lindo, uma Nossa Senhora, um menino e mais uma amiga da mãe do menino e, à frente, uma orquídea perfeita e umas pecinhas.

E o reflexo dos prédios da frente. Gosto de fotografar montras em Lisboa pois contêm sempre a beleza das ruas reflectida nelas.


E continuo Rua Alecrim acima, agora do outro lado da rua, passando por uma loja de que gosto há bué. Comprei lá uma caixinha para jóias para a minha mãe que, desde há mil anos, está em cima da cómoda do quarto que era de ambos e que agora, desde que o meu pai está numa cama articulada com um colchão eléctrico anti-escaras, é só dele. Também é de Louças de Sant'Anna uma cigarreira com cinzeiro acoplado que não exerce outra função que não apenas a de ser apenas uma bela peça. Herdei também o pé de um candeeiro, uma mesinha pequena com tampo de mini-azulejos e creio que mais qualquer coisa mas de que agora não me lembro.



Lá em cima, já no Chiado, a Vista Alegre. Não fotografei bem pois no chão há montinhos de pedras da calçada e não as apanhei. Só fotografei as peças cujo desenho é inspirado no belo trabalhado das ruas.  E, uma vez mais, o reflexo das ruas. Tudo tão bonito.

E, atravessando a rua, a bela loja Hermès. Tudo ali é bonito e de boa qualidade, desde as sedas -- cada écharpe mais linda -- até à decoração das montras.

Agora todas as montras têm ratinhos fofinhos e alegres. O decorador de montras deve ter uma explicação para a opção mas, pelo menos para mim, não é evidente. Não interessa. Ratinhos, gatinhos, gatões, leitões -- tanto faz.

Já no outro dia, quando falei da Lisboa musical, mostrei outra montra, uma com ratinhos músicos. 


Devo dizer que não sou grande cliente da marca, é tudo caro demais para o meu gosto. Mesmo as gravatas de homem, sempre com um bom toque e com desenhos bonitos, me parecem excessivamente caras. Penso sempre que gravatas Hermès só para homens que fazem questão de ostentar marcas. Tinha um colega muito vaidoso que tinha uma grande coleção delas. Quando gozei com ele, disse que não era vaidoso e que não tinha comprado uma única, que os amigos é que, pelos anos, lhe ofereciam sempre gravatas Hermès. Claro que gozei com ele por causa desses amigos, deviam ser escolhidos a dedo para terem poder de compra para lhe oferecerem gravatas Hermès. Whatever.

Para mim, de Hermès, apenas os seus bons perfumes. 

No outro dia, por exemplo, vacilei quanto a um que é excelente, o Eau de Rhubarbe Écarlate: pensei que não precisava e depois, quando lá voltei, com a auto-desculpa que era uma extensão dos presentes de Papai Noël, já se tinha ido. Fiquei com pena. Devemos seguir os nossos instintos. Quando os contrariamos fazemos mal.


-----------------------------------

Espero que tenham gostado deste meu passeio a ver montras. 
A ver se agora vos mostro o tal alfarrabista. Têm que ver.
O pior é a minha falta de energia.

----------------------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, janeiro 17, 2019

Lisboa é vernácula, poética e divertida.
Lisboa, minha linda.
[Postal nº 3 de 8]





A vida continua. Bola para a frente. Tudo acaba por se recompor mesmo quando algumas peças se quebram. Disseram-me no outro dia: não há insubstituíveis mas há pessoas que não são substituíveis. Não me apeteceu analisar a correcção lógica da afirmação. Percebo a ideia. Talvez até concorde. E se a vida é cheia de contradições, equívocos, incoerências e omissões porque haveriam as frases de ser perfeitas?

Está um tempo frio, cinzento, molhado. Não faz mal. Também é bom. No domingo estava sol, um céu azul, um rio azul. As fotografias foram feitas com essa luz. 


Depois de uma interrupção, dois dias em que a vontade se evadiu de mim, retomo as fotografias que fiz enquanto turistei pela zona da Ribeira, pelos Cais Sodré, Terreiro do Paço, Rua do Alecrim, Camões, Chiado, uma das zonas de Lisboa de que mais gosto.

Gosto e fotografo incansavelmente, como se aqueles lugares que já palmilhei milhares de vezes fossem virginalmente novos para mim. 

Fotografei graffitis, alguns magistrais como os do Bordalo II e outros menos exuberantes mas também muito bons, mas o que agora, neste post, vos mostro não é bem isso. Aqui quero mesmo mostrar o efeito do tempo nas paredes, o que é efémero, um desenho ou uma folha colada a que, no momento seguinte, algum outro se pode sobrepôr, ocultando o que antes ali estava.


Frases, desenhos, provocações, desabafos, sonhos. In heaven, se me apetecer, eu pego num pincel e escrevo e pinto o que me ocorrer. Mas é coisa só para mim e, quanto muito, para os meus. E digo 'quanto muito' porque já estão tão habituados que já não ligam patavina. Bem podia pintar coisa mais apurada que o tecto da Capela Sistina que ninguém ali dava por ela. Mais pintura, menos pintura, mais poema, menos poema. E eu gosto que seja assim. Ainda me dá mais liberdade.

Mas numa cidade nunca escrevi nada. Quando vejo e fotografo as paredes fico sempre com alguma vontade de eu, um dia, me encher de coragem e escrever ou pintar alguma coisa.

Ou escrever uma coisa em casa e ir à rua, chegar a uma parede e colar o papel. Acho isso muito bonito, um gesto de partilha.


Sei que há quem fique chocado com o que aqui mostro; ou ache feio. Eu não. Eu gosto. Eu gosto de descaramento, de reinação, de provocação. Eu gosto da estética da decadência, eu gosto da beleza da erosão, eu gosto de defeito, eu gosto de mau comportamento, eu gosto do que é desigual, do que faz rir.

Eu gosto de palavras. Eu gosto da cor e da ausência de cor, eu gosto da luz e da sombra, eu gosto de flores no telhado, eu gosto do sopro suave das palavras que inspiram sorrisos, eu gosto do grito das gaivotas.

Eu gosto de passear em Lisboa e ver tudo o que ela tem de novidade. E tem tanto. Tanta coisa acabada de nascer, tanta coisa embelezada pelo efeito do tempo.


E tem tanto por descobrir, tanto, que eu tenho cada vez menos incentivo para me abalar a passeio daqui para fora. E tanto que eu, dantes, tinha necessidade de ir para fora mudar de ares. Agora não. É certo que tenho sempre receio de ir para longe com medo de que seja, justamente nessa altura, que os meus pais precisem de mim. Ou que, por algum motivo, mesmo que insignificante, desse jeito aos meus filhos que estivessemos por perto. Mas, para além disso, há esta atracção grande pela belezura do meu país. E este amor a Lisboa.

E tanta coisa que me encanta: as árvores, as esculturas, os passeios e as pessoas passeando, a gente que toca e canta para quem passa, as esplanadas, as mariolices, as tiradas poéticas, as gargalhadas.


Ainda tenho mais para mostrar: montras e um alfarrabista especial.  Não sei se ainda será hoje ou se deixe para amanhã.

----------------------------------------------

Caso vos apeteça ver uma casa que acho muito bem decorada, queiram descer até ao post seguinte. Mas, caso queiram ver as imagens de Lisboa feitas no mesmo dia que esta, queiram saltar para a Lisboa romântica que daí podem saltar para outras Lisboas.

Uma casa decorada com muito bom gosto



Tenho conhecido casas muito bem decoradas. Tenho também experimentado a sensação desagradável de estar em casas em que tudo é depressivo ou de péssimo mau gosto.

Conheço pessoas que não gostam nem sabem decorar as suas próprias casas e contratam decoradores. Dois deles (que nada têm a ver um com o outro -- e digo isto pois poderia tratar-se de um casal), por exemplo, quando mudaram de casa, contrataram a decoração integral da casa, desde móveis, iluminação e, até, bibelots e quadros. Ouço isto com um arrepio interior. Eu, que sou toda de casa, escolho tudo, cada peça, cada pormenor. Seria do além ter alguém aqui a decidir por mim o que pôr em cima do mõvel ou aparecer-me aqui um sofá, uma mesa e cadeiras ou um candeeiro que não escolhi -- coisa mais grave do que ter aqui em casa uma mulher a fazer de conta que era mulher do meu marido.


Uma pessoa tem a ideia que os homens homossexuais têm, em regra, muito bom gosto. Conheço um (não assumido) que, pela descrição que me faz da sua casa e das peças que lá tem, deve ser um tremendo wannabe, coisas caríssimas, armadas em coisas altamente estilosas mas que, para meu gosto, devem ser de susto. Mas talvez seja a excepção. Ou, na volta, é por ser não assumido.

Mas acredito que tenham uma sensabilidade mais apurada do que os hetero. E acredito sobretudo desde um episódio de que aqui já falei. Havia uma loja de móveis muito grande que tinha mõveis muito bonitos. Não é aquela loja cujo dono fornecia embaixadas e que também era antiquário. Não, esta era o oposto. Ali não havia móveis de estilo inglês nem coisa que se lhe parecesse. Eram móveis de grande porta, móveis todos eles design, madeiras geralmente claras, madeiras exóticas. Aparadores compridos e largos, bibliotecas imensas, mesas de sala de jantar enormes, sofás de quatro ou cinco lugares, tecidos luxuosos. Comprei lá o quarto dos meus filhos, o aparador da copa e mais um ou outro móvel solto. E comprei pois tinham uma linha de produtos de boa qualidade mas 'normais'. Eu via as montras, outras vezes entrava, e ficava pasmada com aquelas mobílias tão extraordinárias (e caras!) e com a rotação que indiciava que arranjavam compradores para aquilo. Uma vez perguntei: Mas quem é que compra estes móveis? Tem que ser gente com grandes casas pois isto não cabe em casas com divisões normais. E gente com muito dinheiro.


A senhora da móvel explicou-me: Temos uma clientela predominantemente gay. Têm muito bom gosto e um grande poder de compra.  Como não têm o quarto dos filhos, deitam paredes abaixo e ficam com grandes divisões que aguentam muito bem este tipo de mobílias. São os nossos melhores clientes. E disse que muitas vezes compram andares com uma grande vista. 

A loja acabou por fechar. Penso que o Ikea acabou com muitas destas lojas. Era como a Conceição Vaz Costa. Comprei a minha cristaleira lá. É um dos móveis da minha casa de que mais gosto. Muito sóbrio, muito elegante. Ainda a loja era na Artilharia Um. Depois abriu aquela loja enorme ali ao pé do IADE, perto de onde oje é o enorme escritório Vieira de Almeida. Era uma loja espectacular. E um dia fechou. 

No Colombo também havia uma boa loja. Desapareceu. Agora, no Colombo, há apenas a Area 8 que não tem nada de clássico mas que tem coisas de muito bom gosto, design e estilo a valer (e preços a condizer)


[As fotografias que aqui usei para 'enfeitar' o texto são de uma casa de campo muito bonita em França e, ao vê-la, lembrei-me da casa de um casal francês que uma vez visitámos numa zona de campo perto de Versailles.  O meu marido conhecia o francês e, uma vez que fomos a Pars, ele fez questão de nos receber para um almoço delicioso e muito atípico. A casa era uma luminosa moradia de dois pisos aberta para um terreno relvado com uma grande árvore de tipo chorão]

_____________________________

Mas vem isto a propósito de um vídeo de que o algoritmo do YouTube achou que eu ia gostar. E gostei. Um casal mostra a sua casa. Que casa fantástica. Vejam, por favor, pois vale a pena.




PS: Não me apetece falar do Brexit, essa galinha pelada e sem cabeça que por uma daquelas coincidências do destino foi parar às mãos da desengonçada May que parece outra galinha que tal. Também não me apetece falar do PSD, esse saco de gatos que mais parecem ratos, onde não há quem tenha estilo ou ponta de graça. E ainda estou a perceber se completo a minha reportagem de Lisboa ou se me deixe disso.

.............................................................................

Talvez até já.