Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, setembro 07, 2017

Mulheres preparadas para o Outono


Continuo arredada do mundo mas, num ou noutro rápido vislumbre aquando da descida à vida na cidade, apercebo-me que as lojas estão já com a roupa de Outono. Camisolas, casacos, agasalhos. Eu que ainda, na prática, não tive férias de verdade e que, apesar dos calores que tenho penado sem poder mergulhar para me refrescar a sério, ainda alimento a esperança de me banhar no oceano, não consigo sintonizar as minhas aspirações com estas montras, cabides e expositores com cores e texturas que já esqueceram a época estival.

Modelo de Karl Lagerfeld para a última colecção Chanel

Gosto do Outono. Traz aconchego e, para mim, é no Outono que começa a saison que traz as verdadeiras novidades. Tal como, em menina, ansiava pelo primeiro dia de aulas para conhecer colegas novos, professores novos, matérias novas, agora a sensação é a mesma. Tenho vontade de mudar de página. Continuo igual ao que sempre fui: sobretudo interessada pelo que não conheço, pelo indefinido que aí vem. E, ao contrário de muitas pessoas que conheço e que, no momento de se atirarem para a piscina, vacilam e acabam por não ousar novas situações, eu é à maluca. Primeiro atiro-me e, só depois, avalio os riscos do lugar para onde me atirei e como hei-de de lá sair.

Já estou a receber convocatórias para reuniões que antecipam fracturas, já me telefonam a saber se já há novidades para se avançar para a fase do 'go' e eu, aqui a querer manter-me afastada de projectos e grandes deliberações, a sentir que o mês de Setembro parece querer afastar o tempo de férias e levar-me para dentro da realidade. Mas ainda não, ainda não...

Entretanto, deleito-me a ver a moda alta-costura para o Outono/2017.


The Best Fall 2017 Haute Couture Looks | Harper's BAZAAR x Paris


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Não era este o vídeo de que ontem falei e que tenho para mostrar. Mas estou levemente fora de órbita. Tenho mails em atraso, posts em atraso, aprovações e outras cenas em atraso e uma certa falta de energia para me atirar a tudo isso. Portanto, vou andando por aqui na flanação.

Mas me aguardem.

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sexta-feira, agosto 25, 2017

Bonecas e bonecas


Por vezes, vejo uma coisa e resvala-me a reacção para a incompreensão. Depois, dou-me conta do preconceito que me enforma e logo tento condescender, aceitar a diferença, perceber que há quase sempre uma causa profunda para aquilo que, à superfície, parece uma aberração.

E é neste ponto que agora estou: tentando não fazer juízos de valor e puxando pela minha mais profunda aptidão para aceitar que tudo (ou quase tudo) deve ter o seu lugar no mundo e ser respeitado, apesar de tudo.

Lulu Hashimoto, a ‘living doll’ model, poses on a crossroads in central Tokyo

(The Guardian)


Lulu Hashimoto é uma boneca humana. Na prática, uma pessoa mascarada. Melhor, a usar um disfarce. O outfit inclui máscara, cabeleira, vestuário e meias. Quem criou a personagem Lulu foi Hitomi Komaki, uma designer de 23 anos.


Lulu não é a única. Vai participar no concurso Miss iD, um concurso no qual participam avatares, bonecas, figuras da ficção digital -- cerca de 4.000, ao todo. 
The pageant, which includes "non-human" characters generated by artificial intelligence and three-dimensional computer graphics for the first time, will announce a winner in November.

Lulu's ability to blur the line between reality and fiction has mesmerized fans on social media, where the Lulu Twitter and Instagram accounts have drawn tens of thousands of followers. (...)

Começamos a entrar naquele extraordinário mundo novo em que as coisas ganham vida própria e em que começamos a assistir a episódios que parece não fazerem sentido, pelo menos à luz da tradional racionalidade humana.

Não vou chamar para aqui o que para aqui não é chamado mas uma coisa é certa: a facilidade com que algumas pessoas se deixam seduzir por uma realidade paralela em que a desumanização parece coisa atraente deveria dar que pensar.

Por cá ainda não estamos tanto nessa. O Japão e países quejandos são terreno fértil para bonecas com toque humano, que simulam emoções e que conversam como gente. E robots de toda a espécie. E jogos que conduzem humanos. Para nosso bem, a nossa bem amada santa terrinha parece ainda estar distante dessa realidade transformada.

O aborrecido disto é que, com a facilidade e abrangência da difusão de novidades e aberrações, o que parece uma tontice no fim do mundo, num instante está a ser adoptada por gente perto de nós. E mesmo que não seja adoptada, é tacitamente aceite. A desumanização vai seguindo o seu caminho perante a desatenção dos humanos.

Aqui há dias uma notícia assustadora da qual (quase) ningém deu notícia.

Facebook shut down an artificial intelligence engine after developers discovered that the AI had created its own unique language that humans can’t understand. Researchers at the Facebook AI Research Lab (FAIR) found that the chatbots had deviated from the script and were communicating in a new language developed without human input. It is as concerning as it is amazing – simultaneously a glimpse of both the awesome and horrifying potential of AI. (...)


Coisa aterradora. Dizem que este motor de Inteligência Artificial foi travado. Mas terá sido? É que tudo isto se traduz em programação que facilmente é copiada por um qualquer artista que resolve dar-lhe continuidade sem que ninguém se dê conta. Termina assim o supra citado artigo: If the AI is communicating using a language that only the AI knows, we may not even be able to determine why or how it does what it does, and that might not work out well for mankind.

Um outro artigo merece atenção e, de novo, recomendo a leitura integral: Silicon Valley siphons our data like oil. But the deepest drilling has just begun. Personal data is to the tech world what oil is to the fossil fuel industry. That’s why companies like Amazon and Facebook plan to dig deeper than we ever imagined .

 An Amazon Go ‘smart’ store in Seattle.
The company’s acquisition of Whole Foods
signals a desire to fuse online surveillance with brick-and-mortar business.
[The Guardian]

What if a cold drink cost more on a hot day? Customers in the UK will soon find out. 
Recent reports suggest that three of the country’s largest supermarket chains are rolling out surge pricing in select stores. This means that prices will rise and fall over the course of the day in response to demand. Buying lunch at lunchtime will be like ordering an Uber at rush hour.
This may sound pretty drastic, but far more radical changes are on the horizon. About a week before that report, Amazon announced its $13.7bn purchase of Whole Foods. A company that has spent its whole life killing physical retailers now owns more than 460 stores in three countries. (...)
Não é a partir da boneca humana Lulu que podemos inferir que o mundo está a caminhar para a sua destruição. Não é. Mas aqui e ali vamos vendo como são acarinhadas manifestações destas, em que as pessoas se disfarçam de não-pessoas ou em que,alegremente, se põem em pé de igualdade pessoas e não-pessoas. E parece que não percebemos que já há funções desempenhadas por não-pessoas e que o caminho que se está a percorrer relega-nos a nós, pessoas, para um papel que pode vir a ser marginal (na melhor das hipóteses).

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A girl holds a picture of her brother,
who was allegedly killed in Yemen’s ongoing conflict, during a rally against Saudi-led airstrikes

[The Guardian]



E, enquanto isso, no mesmo mundo, exactamente no mesmo pequeno planeta, assiste-se a manifestações que vão no sentido exactamente oposto. Ou não. O mesmo desprezo pelos humanos. Não será por via da robotização mas da mais pura maldade. Ou não. Ou não. Há conceitos que não têm o mesmo significado quando as culturas prezam valores distintos.  Na fotografia acima uma menina que quase parece estar vestida como uma bonequinha  -- mas que, infelizmente, vive uma vida que não é brincadeira nenhuma -- também numa rua e, identicamente, em Sana’a tal como em Tóqio, ninguém parece prestar-lhe muita atenção, como se nada destoasse da normalidade. Mas, por aqui, no Iémen, não é lugar para a delicada Lulu Hashimoto se vir fazer fotografar .

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No meio deste mundo díspar e perigoso, mil vezes as rêveries que nos trazem alegres melodias, sorrisos, tules, cores de rosas, elegâncias. Alienação, talvez. Mas qualquer coisa à escala humana, não ameaçadora. O vestido parece um vestido de boneca, ela é bonita e poder-se-ia dizer que é bonita como uma boneca mas, convenhamos, é uma mulher que não esconde nem desmerece o seu género humano.

Consegue usar alta costura na sua vida real?


A música é Mademoiselle Melody por Pierre Terrasse, La Griffe. 
A modelo é Solange Smith e veste um vestido de Giambattista Valli.

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Contradições


The Contradiction of Silence -- coreografia de Alexander Ekman



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quinta-feira, junho 15, 2017

Mais do que uma questão de moda, uma questão de gosto





Alguns testes, daqueles que se encontram em sites com testes de personalidades ou nos sites femininos (lugares que, volta e meia, me acolhem, em especial quando a realidade me dói ou me cansa) dizem que a minha cor é o encarnado, a cor da paixão, do vibrante e intenso fogo.

Outros dizem que é o amarelo, a cor da luz, a cor dos que, mesmo sem querer, atraem e iluminam o que os rodeia.

Não sei de nada disto: não faço ideia se há rigor nestas conclusões ou se isto tem a ver com psicologia ou com estatística -- ou se é treta pura e dura.

O que sei é que, indubitavelmente, estas são, de longe, as cores que predominam no que pinto ou nos bordados que faço (ou melhor: no que pintava ou bordava pois, como é sabido, tenho andado a ser infiel para com essas duas minhas fontes de prazer) ou com que, em geral, mais me identifico.

E o que também sei é que, este ano, posso com tranquilidade dar bom uso aos meus felizes outfits em encarnado já que é a cor mais fashionable deste verão. 
Claro que, dizendo isto desta maneira, terei que contar com a vossa perspicácia para darem o devido desconto pois, como é bom de ver, visto o que calha, consoante a disposição ou as circunstâncias por onde terei que passar durante o dia. Mas, se uns dias posso ir na base do angelical, branco e azul claro, por exemplo, outros dias irei inflamável da cabeça aos pés. 
Agora uma coisa posso eu aqui jurar a pés juntos: nunca na vida devo ter usado fato preto e camisa branca, daquelas camisas de corte masculino com colarinho, punhos. Nunca. Ou saia preta e camisa branca. Ou calças pretas e camisa branca. Que me lembre, o mais parecido foi calça fina em antracite com quase imperceptíveis riscas finíssimas, apenas um risco fino, em pérola, com blusa fina em seda também cor pérola clara e, bem entendido, um colar comprido de pérolas. Mas, de resto, parece que se não há um toque de cor já não sou eu. Ou seja, provavelmente, quando vesti o acima descrito, tive que usar um rouge abusador nos lábios.

Ora bem. Adiante. Vamos a coisas concretas.

Leio na Harpar's Bazaar que o verão vai ser red-hot e os exemplos que até aqui viram comprovam-no. Olho e caio logo de amores, imaginando-me assim, sem tirar nem pôr.

Penso que já vos contei que tenho dois pares de sapatos encarnados e que a primeira coisa que me lembro de querer quando comecei a ter voto na matéria foi um par de sapatos encarnados. E, de cada vez que ia com a minha mãe comprar sapatos, era uma peregrinação a ver se encontrava sapatos encarnados. Para mim o sonho começava quando me era anunciado que íamos comprar sapatos. Sapatinhos de veludo encarnados. Lindos, lindos. Geralmente, para minha frustação, não os encontrava (ou, então, a minha mãe combinava-se com o vendedor para ele dizer que não tinha). E lembro-me de um vestido num tecido macio em vermelho escuro com uma golinha de renda branca. E o meu vestido do baile dos finalistas também em encarnado, desta vez em encarnado-tijolo, sem costas até à linha da cintura e com um folho plissado a toda a volta do amplo decote, um escândalo que me fazia sentir uma perigosa princesa (daquelas tresmalhadas).

Mas, portanto, a moda deste ano sanciona este meu gosto.


(No entanto, calma aí, nada de exageros). 

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Claro que, a esta hora, já algumas leitoras mais recatadas devem estar a torcer o nariz. 
Acessórios em red-hot? Credo, que coisa mais incendiária... Diz-se santa mas, com gostos destes, a UJM não conseguiria ser admitida em nenhum convento! Está bem, está.
Pois bem. Torçam o nariz à vontade que a mim nada me demove dos meus gostos. Além disso, há pior.

Por exemplo, o fato de banho aqui abaixo. Pode ser original mas a mim nem que me pagassem milhões eu era capaz de ir para a praia nestas figuras.  

No entanto, há que ver sempre o lado bom das coisas: se algum dos meus leitores tiver pena de não ser parecido com o Tony Ramos e quiser passar por ser altamente felpudo, pode recorrer a este modelito.


E, para os meus Leitores homens, em geral, aqui fica, desde já um sério aviso. Se quiserem render-se aos ditames da moda, não vão na conversa daqueles estilistas que parece que gostam de vestir os homens como se fossem abichanados, camisinha estrelicada preta às bolinhas prateadas ou às estrelinhas às cores, calcinha justa à peixe-peixe (isto é, curtas, a deixar o tornozelo de fora), sem meias, sapatinho bicudinho marado.

Nada disso: aqui a vossa Sta UJM abomina isso. Homem que se quer homem (seja qual for a sua orientação sexual) deve vestir-se à homem e não à bichona maluca.

E nada de irem na conversa de que rendas é o que está a dar na moda masculina. Se algum costureiro vos disser isso, fazem o favor de o mandar ir dar banho ao cão. Se vos sei nestas figuras, de uma coisa podem estar certos: aqui não entram. Podem crer. E olhem que não brinco em serviço. Era o que me faltava estar aqui a escrever e aí, desse lado, um marmanjão vestido de calçonete e camisinha de rendinha rosa bebé ou azul-cueca. Era, era...! 


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Aquele tango está lá em cima apenas porque sim. E também porque gosto daquela música e daquela forma de dançar e porque a bailarina (do Grupo Corpo) está vestida de encarnado. Ou seja, parece-me que há fundamentadas razões para aquela escolha.

Contudo, quem não aprecie o género poderá optar por fazer acompanhar-se na leitura da minha pobre prosa desta música bem mais pia:


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Até já.

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segunda-feira, janeiro 23, 2017

Obama cares, trump scares.
Think before you tweet.
It is 2017, not 1817.
History has its eyes on you.
Bridges, not walls.


Dizem as notícias que mais de um milhão de pessoas, maioritariamente mulheres, veio para a rua, nos States, para protestar contra as vis intenções de Trump.


Manifestações com iguais propósitos ocorrerram em cerca de 60 países. Não serve de nada...? Serve. Serve para que se veja que há um grupo de pessoas que não está disposta a encenar o número dos carneiros de Panurgo, afogando-se inutilmente no charco fétido em que Trump está em vias de transformar o espaço por si governado.

Na sequência deste meu outro post, aqui ficam imagens da manifestação e uma canção dos Ok Go devidamente adaptada aos tempos presentes.
































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quinta-feira, agosto 04, 2016

Desta vez na Harper's Bazaar: JUST BACK FROM...LISBON AND LAGOS, PORTUGAL


Antes de ontem dei-vos conta do artigo na Vogue Paris a propósito de Portugal ser o lugar a visitar este ano.

Pois bem. Agora é a reputada Harper's Bazaar com grande destaque para o artigo escrito pela sua Merchandising Editor, Dana Mendelowitz, on her recent trip to Europe's not-so-hidden gem. 


Transcrevo o início:

Just Back From...Portugal.


Trip Duration: 9 days

Where I Stayed: We stayed in Lisbon for four nights at the Lisboa Carmo Hotel, then two nights in Evora at the M'Ar De Ar Aqueduto hotel. After that, we finished our trip with three nights in the Algarve at the Vilalara Thalassa Resort. The Lisboa Carmo Hotel is in the Chiado neighborhood, which is filled with great shopping and restaurants. Zara and its sister brands Bershka, Stradivarius, Oysho, and Massimo Dutti all have stores there and they all rival Zara in their reasonably priced, decent quality, and on-trend merchandise. A 400-year old former palace serves as the location for the lobby and restaurant of the The M'Ar De Ar Aqueduto hotel in Evora, but its large, high-ceiling rooms are all in a new, more modern building. The hotel has a gorgeous pool and the property is surrounded by a 500-year old aqueduct. Plus, everything in Evora is walking distance so it's easy to explore. The Algarve region in the south is known for it's rocky coastline which is filled with breathtaking cliffs, caves, and grottoes–its straight out of a postcard. The Vilalara Thalassa Resort has an unbelievable beach, it is truly paradise.

E o fim:

Favorite Store/Shopping Trip: We found a small boutique in Lisbon in the Chiado neighborhood called Lua de Champagne. They have great summery tops, dresses, and jewelry and nearly everything is made in Europe.

Why Portugal? Portugal is just slightly off the beaten path in Europe, but everyone we know who has been there raves about it. The sites, food, people, shopping and beaches are all on par with any other European destination (if not better!). I am already dreaming about my next trip back.

Pelo meio fala dos restaurantes por onde andou, das lojas onde fez boas compras, dos passeios que fez, etc. Boas dicas. Desconheço muito do que ela refere e confesso que fiquei curiosa.

Recomendo, também neste caso, a visita ao artigo na íntegra onde poderão ver estas e outras fotografias e várias dicas sobre Things to do por estas nossas belas paragens.

Com uma divulgação deste calibre não admira, pois, que Portugal esteja tão na moda. Claro que tem razão a Leitora Rita quando diz que é também o receio de atentados que afasta as pessoas de Paris ou de outros destinos nos quais supostamete o risco é maior. Seja como for, é bom que estejam a vir para cá: por um lado anima a economia e, por outra, o contacto directo com gente de outras paragens é sempre bom. Eu, pelo menos, gosto bastante.

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E continuem a descer caso vos apeteça ver mais um imperdível pedaço de humor: Colbert goza que nem um perdido com as taralhouquices do boca de pato anormal, Trump de seu nome.


quinta-feira, junho 30, 2016

Uma mulher com máscara de gata




Um dia disse-te que um dia falaria. Pediste: não. Não te respondi. Sabes, deverias saber desde sempre, que um dia eu falaria. Não poderias esperar que, para sempre, vivesse sob esta máscara que um dia me ofereceste, sem saberes que ela se iria colar a mim.

Pensaste que eu me limitaria a esperar por ti, pelos teus humores, que me limitaria a compensar as tuas atitudes inconsequentes e infantis com devaneios, talvez até com uma ou outra recaída nos braços efémeros de outros inúteis como tu. Pensaste. Sempre pensaste segundo os teus imaturos e idiotas padrões, não foi?

Não percebeste que eu não sou a gatinha doce que gostas de acariciar e depois maltratar? Não percebeste, pois não?

Julgavas que eu estaria aqui sempre à tua espera? Julgavas? Julgavas que, enquanto dormias, eu ficava num canto à tua espera, talvez olhando os horizontes infinitos, talvez as longínquas serranias? Ou lendo, ou sorrindo ao céu e às nuvens que passam?

Fingias não perceber as minhas saídas, ou, se mostravas conhecê-las, mostravas desprezo, como se tudo o que eu pudesse fazer fosse desprezível. Mostravas desprezo, oh pobre idiota, como se não percebesses o desprezo crescente que eu ia sentindo por ti. Pobre, pobre idiota.

Querias que eu falasse para te entreter, para que tivesses pretexto para me fazeres ouvir-te. E eu fazia o que tu me pedias, eu queria o teu bem. Mas nem isso percebeste, pois não? Oh pobre, pobre idiota.

Eu colocava a máscara com que gostavas de me ver fantasiada, eu deixava que me olhasses e te iludisses, eu deixava que tu pensasses que eu te queria bem. Porque eu te queria bem. Apesar de tudo, eu queria-te bem, talvez até te amasse. Mas nunca percebeste isso, pois não? Sempre tão cheio de ti, sempre só tu, tu, tu. Tu e a mulher com a máscara. Eu, a mulher da máscara.

De vez em quando, senti que suspeitavas mas sempre tiveste medo de perguntar. Cobarde. Pobre, pobre cobarde.

Quem te julgas, tu, pobre homem que não sabes amar uma mulher? Tu que não sabes ser amado por uma mulher? Quem te julgues tu, pobre, pobre idiota?

Eu disse-te: um dia digo-te tudo.

Não. Pediste. Não. 

Mas eu digo-te. Há um mundo lá fora, sabes? E é lá fora que eu vivo, eu a mulher com a máscara que um dia ofereceste e com a qual tanto gostas de me ver fantasiada.

Olhavas para mim, dizias-me poemas, sonhavas comigo, desejavas-me -- não digas que não, oh não digas, que o teu desejo era tão visível -- e querias ter-me nos braços, imaginar-me disponível para te ouvir, para te amar. E julgavas que eu não tinha vontade, que a minha vontade era estar disponível para ti. Coitado, coitado.

Mal te sentia a dormir, eu evadia-me do teu casebre, entrava no mundo, esgueirava-me pela porta secreta, subia a escada que me levava ao paraíso e juntava-me a outras como eu, a mulheres que gostam de homens que gostam de mulheres clandestinas, a homens que gostam de prazeres secretos, desconhecidos como eu. Homens e mulheres sem nome, como eu.

Não, pobre idiota, não rias. Poderia dizer-te que ali se discutem e tomam as grandes decisões que mudam os destinos do país, poderia falar-te de como são belas as vozes que dizem poemas roucos como gritos de amor, poderia, até contar-te como são acesas as lutas em torno de ideais, de sonhos, de como por ali passa a grande e a petite histoire. Mas poderia estar a mentir-te porque a ti não me apetece sequer dizer-te a verdade. Que sabes tu da vida, pobre, pobre idiota? Que sabes tu de como a adrenalina que a mente ordena faz vibrar os corpos? Que sabes tu dos instantes de abandono e felicidade? Que sabes tu de alguma coisa?

Por pena, poderia contar-te. Mas não o compreenderias. Tu, pretenso rebelde, insurgir-te-ias, dir-me-ias perdida, louca, acusar-me-ias de orgias - e que mal têm as orgias? -, mostrarias, uma vez mais, desprezo. Pois mostra, estás à vontade, quero lá eu saber do que pensas.

Olha, sabes?, se quiseres, um dia levo-te lá.

Ofereço-te eu uma máscara. Irás, pobre idiota, ver o mundo que desconheces. Irás ver como eu sou quando vejo la vie en rose. Irás ver-me em momentos de prazer como nunca me viste. Verás como me amam os homens e as mulheres que me amam como tu, pobre, pobre idiota, nunca foste capaz de me amar. Poderás dizer que não, que aquele é um lugar de falsos prazeres solitários, falsos porque partilhados, de voyeurs, poderás dizer que é um antro de taras e loucuras, poderás dizer o que quiseres que a mim tanto me dá. Sabes lá tu, pobre idiota, o que penso ou sinto?

Pobre coitado. Para que estou eu a dizer-te isto? Para quê se não percebes nada, nem de mulheres nem de afectos nem de prazeres nem de nada? Pobre, pobre idiota.

Olha, se quiseres ir lá ver-me, inscreve-te no clube. Se te aceitarem - o que duvido, pobre idiota -talvez até me divirta a tentar descobrir-te no meio dos outros mascarados, talvez, até, deliberadamente seduza outros fingindo que é a ti que estou a tentar seduzir. E, mesmo que tenha a certeza que és tu, podes ter a certeza que farei de conta que não te conheço, talvez assim consiga suportar o tédio que exalas.

Ou não. Talvez simplesmente me deixe tocar para que me vejas como nunca me viste, uma mulher gata, uma mulher cujos gemidos atravessam a noite.

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E agora, se quiseres que eu te recomende para que te deixem entrar no clube, pobre, pobre homem, faz por me agradares.

Não sabes como? Claro que não sabes. Nunca o saberás. Olha, nada esperes mas fica a saber que te concedo uma última oportunidade, não para algum dia me teres mas para eu continuar a olhar com comiseração para ti: diz-me um poema, ao meu ouvido, mas diz devagar, devagar, vá, lenta, lentamente. Deixa que eu sinta a tua respiração, deixa que eu sinta o latejar do teu sangue, o latir do teu coração, deixa que a tua voz entre docemente em mim, deixa.

Diz. Um qualquer. Pode ser este:
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;


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Texto inspirado no artigo:

INSIDE A HAMPTONS SEX PARTY FOR THE ELITE da Harper's Bazaar, 

Jenna Sauers, Jun 28, 2016


[For the first time, London-based ​Killing Kittens brought its upper-class orgy to an exclusive East Hampton estate. Armed with La Perla ​lingerie and an open mind, one writer decided to investigate.]


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segunda-feira, setembro 07, 2015

Coco dixit


Não há livros de auto-ajuda, ensinamentos à pressão, copianços do que outras fazem, instruções de intelecto-bloggers, artigos de revistas cheias de psique à mistura com publicidade ou o que se queira que faça por uma mulher aquilo que não está na natureza dela ser.

Se é do tipo embirrante, carrancuda, ensimesmada, ou, pelo contrário, flausina, pespenica, parvinha todos os dias, ou de qualquer outro género daqueles em que se topa à légua que, de certeza, não irá muito longe na forma como se relaciona (em especial, com o sexo oposto), então, por muito ensinamento, conselho ou dica que receba, nada de muito substancial haverá a fazer. Mas, enfim, sempre poderá tentar.

Eu, verdade se diga, não tenho de que me queixar no relacionamento com os outros mas longe de mim considerar-me habilitada a enunciar algum tipo de mandamentos. Contudo, há uma mulher que a sabia toda e que, pela forma assertiva como se pronunciava, deixou para a história algumas dicas preciosas. Refiro-me a Coco Chanel.

A Harper's Bazaar escolheu 14 citações mas eu, para isto não ficar muito extenso, salomonicamente passei-as a metade e os meus Caros que queiram ficar com a escola toda farão o favor de beber directamente da fonte.

Vamos lá, então, mas, já agora vamos com música do filme Coco Chanel



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14 COCO CHANEL QUOTES EVERY WOMAN SHOULD LIVE BY



Se quer ser insubstituível, seja sempre diferente


(Concordo porque não vale a pena lutar para agradar por ser bonita porque haverá alguém sempre mais bonita, nem por andar sempre muito bem vestida, porque haverá alguém sempre melhor aperaltada, nem por ser a mais divertida ou a mais galdéria, pois facilmente será ultrapassada: o segredo está mesmo em ter uma identidade única, especial)
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Uma mulher que não use perfume, não tem futuro
(Esta é questionável mas, porque não consigo sair de casa sem me perfumar, acho graça. O facto é que para mim o perfume é um vestuário invisível ou uma segunda pele. Eu não sou bem eu sem uma nuvem discreta de perfume à minha volta. Se isso tem a ver com futuro ou é generalizável não sei mas se a Coco o disse...)
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Não gaste tempo a bater numa parede, na esperança de a transformar numa porta
(Concordo. Quando vejo que uma causa está perdida, para mim perdida está. Esqueço, Sigo em frente, parto para outra. E se, por razões de - como dizer? - (talvez) noblesse oblige, não o posso fazer, então tenho que me esforçar para não demonstrar que não acredito nem um bocadinho no que continuo a fazer. A verdade é que desinvisto emocionalmente, desligo-me. Uma parede é uma parede. Se queremos que ela abra como uma porta, mais vale, de facto, procurarmos uma porta. Erros todos os cometem, mas continuar uma vida inteira a bater com a cabeça numa parede, é cobardia ou burrice.)
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Consegue-se ser fantástica aos trinta, charmosa aos quarenta e irresistível para o resto da vida
(Concordo, concordo, concordo. Posso estar a falar em defesa de causa mas, pensando em muitas mulheres que conheço, tenho que dizer que as mulheres que tenho visto mais interessantes são aquelas de quem a gente até se esquece da idade pois há nelas qualquer coisa de cativante que vem de dentro e que é intemporal, indestrutivelmente atraente)
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Desde que saiba que os homens são como crianças, então sabe tudo!
(Os meus Leitores-homens que me perdoem mas há mesmo qualquer coisa de verdade nisto. Há uma necessidade nos homens de se sentirem apreciados que os torna facilmente objecto de adulação. Elogiar, mostrar admiração, preocupação, etc, - e os homens facilmente ficam pelo beicinho. Não bastará isso para se ficar de pedra e cal no coração de um homem mas dificilmente sem isto lá se conseguirá enfiar sequer um pé)
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Usar adornos, que ciência!
Beleza, que arma!
Modéstia, que elegância!



(Pareceu-me, numa primeira vista, polémico mas, depois, concordei. Os adornos acrescentam graça, a beleza (mesmo que não a convencional) é sempre um mistério que seduz, mas nada mais desagradável do que uma mulher (ou um homem) convencido. Pelo contrário, se alguém sabe que há gente mais engraçada, mais bela, mais tudo, e, portanto, relativiza a sua própria importância e evidencia alguma modéstia, então, torna-se disponível para aceitar críticas e para admirar os outros. E isso, sim, torna uma mulher elegante elegante, distinta)
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Uma mulher que corta o cabelo está prestes a mudar de vida
(Hesitei em traduzir como o fiz, literalmente, ou em escrever que uma mulher, ao cortar o cabelo, mostra que quer mudar de vida. Talvez os homens não o percebam já que isto é difícil de explicar racionalmente. A mim sucede-me sempre isto. Se me farto de qualquer coisa e quero fazer um twist, chego a casa, ponho-me ao espelho de tesoura na mão e lá vai disto. No fim, com o cabelo mais curto, mais escadeado, com um corte diferente, sou outra - e, portanto, pronta para mudar qualquer coisa na minha vida. Vá lá a gente explicar estas nuances femininas. Da mesma forma, se vejo uma mulher que precisa de dar uma reviravolta na vida, a primeira coisa que me apetece recomendar-lhe é que corte o cabelo.)
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O curso completo pode ser visto aqui.

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domingo, junho 07, 2015

Porto na Harper´s BAZAAR: THE 10 MOST UNDERRATED EUROPEAN CITIES TO BOOK YOUR NEXT VACATION TO


Bruges, Budapeste, Edimburgo, Helsínquia, Mostar, Tallinn, Salzburgo, Sevilha, Verona... e Porto (cuja fotografia é a que aparece na homepage do site).

Why not make one of these overlooked destinations your next city break? -- pergunta-se lá

O texto que apresenta a cidade diz:

It's hard not to fall in love with Portugal's romantic second city, Porto. Located on the coast of the Rio Douro, the portside town is a melting pot of colors and architectural styles; from the pastel townhouses to the medieval bell towers, the extravagant baroque churches to the classical beaux-arts state buildings. Wine aficionados come here for the growing number of wine caves and cellars open for tastings, while music-lovers travel for the Primavera Sound festival every June.



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Uma vez mais aqui: Porto Sentido - Rui Veloso


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quarta-feira, abril 01, 2015

Pôr a casa pronta para a primavera, decorar com leveza e alegria. E mesas de café que não chateiam muito.







Como muito bem sabem as pessoas que por aqui passam de visita, faço parte da minoria privilegiada deste país. Não o digo com vaidade mas quase como uma justificação para falar no que vou falar quando sei que há tantas pessoas com dificuldade em manter a sua única casa. Mas tenho tido sorte e por isso me sinto agradecida, não sentindo que tenha que me envergonhar ou esconder a minha situação. 




Ou seja, tenho duas casas, uma na cidade e outra no campo. Claro que também não é nada de estonteante já que há quem tenha também casa de praia, um flat no Rio, um ninho em Paris, um iate não sei onde e talvez até um hotel inteiro noutro sítio qualquer. Enfim, tudo uma questão de escala. Adiante.

Vem isto a propósito de eu gostar de decoração e de ter por onde praticar. 




Não gosto de mobílias escuras, uniformes, pesadas, não gosto de ambientes convencionais. Se algum móvel é mais tradicional, logo o conjugo com outras coisas mais leves. Gosto de cores alegres, de peças variadas, de sítios onde nos possamos sentar no chão ou de ter banquinhos para que uma pessoa pegue neles e se sente onde quer. E gosto de almofadas e de as mudar de sítio. Quando se mudam as almofadas de sítio, é a cor delas que muda de sítio e a decoração já parece renovada.




A mesma coisa com as cobertas, os panos que se põem em cima dos sofás (quando se põem, claro) ou as colchas da cama. É fácil a casa parecer ter um ar rejuvenescido, fazendo pouco. Uma peça colorida, uma nova disposição das coisas, um bibelot inesperado, alegre, um espelho com uma pequena jarra com flores à frente, tudo ajuda. Enquanto escrevo, tenho suspensas no tecto, mesmo sobre mim, uma bailarina, uma fadinha e uma outra menina extravagante e só isso, acho eu, já dá um toque pessoal e divertido à sala. 




Vem isto a propósito do artigo da Harpar’s Bazaar dedicado ao rejuvenescimento primaveril das casas através de poucas mudanças e do qual fazem parte as fotografias que usei para ilustrar este post.



Em qualquer das duas casas tenho duas salas: a que é usada usualmente, onde está a televisão, os livros, o sítio para escrever, e outra que é usada quando se trata de convívio entre um grupo mais alargado de pessoas e que está perto da zona das refeições. 

Em qualquer dos espaços a lógica é sempre a mesma: sofás ou cadeirões em volta, mesas de apoio ao lado dos sofás, e nenhuma mesa a meio. 




Acho que uma mesa ao meio estorva, temos que andar em volta, acanha o espaço. Apenas na casa in heaven, na sala da lareira, pela própria configuração da sala e porque quero que tudo fique mais aconchegado em volta do calor, tenho uma mesa baixa de madeira e tampo de vidro que comprei uma vez num antiquário. Em cima tinha umas peças bonitas que, depois de uma ter sido partida por um dos pimentinhas, já desandaram quase todas para a madeira de cima da lareira (acho que aquela madeira que serve de prateleira deve ter um nome mas agora não me lembro). Quando tinha um sofá em frente da lareira, a mesa, sem nada em cima, passou a servir essencialmente para quando lá estávamos,  o meu marido pôr os pés em cima.




Depois reformulámos a decoração e agora há uma banqueta larga forrada a tapeçaria em frente, e um par de bergères de cada lado.

Mas, de facto, nas casas onde vou, a maioria talvez tenha sempre uma mesa baixa em frente ao sofá principal da sala. 




Vem isto a propósito de outro artigo da Harper’s Bazaar sobre mesas de café e que, por achar algumas soluções interessantes, aqui coloco algumas fotografias pois podem dar boas ideias a quem esteja com vontade de dar um novo ar à sua casa.


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Quem canta é Maria Bethânia & Omara Portuondo  interpretando Só vendo que beleza (Marambaia)

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E, já que de coisas da cas, aqui se fala, sigam, por favor, até à última invenção em termos de copo de vinho

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