Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, março 05, 2020

As mulheres que gostam de livros são perigosas...?
Ou, simplesmente, não são muito boas da cabeça...?





Estou numa fase de pré-lançamento para ainda não sei exatamente o quê mas, como muitas vezes acontece, movimentando-me numa twilight zone enquanto, à vista desarmada, nada se passa. Não desgosto da clandestinidade. Há quem suspeite de que alguma coisa está para se passar e me ronde e vigie e me prense. Mas sou boa nisso, sou mestre em poker face: concluirão que no pasa nada. E eu, sabendo o que talvez se vá passar, forço-me a não pensar em nada para chegar ao momento que talvez esteja para chegar como se tivesse sido apanhada de certeza. 

E, enquanto isso, muito trabalho e muita reunião e muito bau bau*. Ora acontece que, em momentos assim, a minha beleza implora por um break mental. Portanto, à hora de almoço, ala moça que se faz tarde e aí vai ela, toda flauteada, fazendo de conta que o tempo não está contado. Mentalmente o cilício de sempre, pregado à carne: não é para trazer nada, é só para ver.

Mas sei que é mais do que ver: é impregnar-me. Estar entre livros, ver o que há de novo, folhear, deslizar como uma gata por entre as letras é bálsamo, é fascínio, é vacina contra o que virá durante a tarde, é mel, é perfume, é bênção, é estar à janela a respirar ar puro e da janela ver o mundo.

Claro que quase tudo o que ali vejo me repele: desde os títulos dos livros, às respectivas capas, passando pelo nome daquela gente que vive de parir livros como quem faz estalar grãos de milho em sala de cinema. Passo ao largo tal como passo ao largo da fast food cujo cheiro enjoa. E penso que tanta tralha em forma de livro é bem capaz de ser mesmo mau para a cervical. É que eu posso passar ao largo mas há quem tenha que sacrificar o corpo vivendo entre aquilo. 

Passo, pois, ao largo dos best sellers e, como sempre, busco as franjas, desloco-me pelas margens. Mas não é para trazer, é só para ver, vou repetindo.

Até que vi um livro de Paolo Cognetti. Tentação. Gosto tanto dele. Mas tentei resistir, encontrar pretexto para não sucumbrir: fui ver se o tradutor era o Pedro Tamen. Não era. Pensei: não vai ser a mesma coisa. Pedro Tamen sabe que a toada, o balanço e a poesia na fala são indispensáveis para a gente se apaixonar.  Segui sem ele. Depois fui dar com um do Casimiro de Brito. Folheei. Gostei. Pensei: tem que ser, é só este. 

Mas não foi só esse. Tive que trazer também o Paolo Cognetti. 

Vim feliz. E a minha vontade era, a seguir, ir para o Jardim, deitar-me na relva ou sentar-me encostada a uma árvore, ouvir ao de leve a aragem a rumorejar por entre as ramagens das árvores  e passar a tarde entregue a eles dois. 

Mas o cilício não me martiriza apenas para me lembrar para não trazer livros, impele-me também a deixar de lado os desejados prazeres, indo enfiar-me num escritório mais do que prosaico.

Contudo, durante a tarde, de vez em quando, antecipava o prazer de, à noite, os ler, os ler mesmo que à minha maneira. No início das leituras sou aleatória, procuro a impressão. Sou impressionista. Depois, se me deixo tentar, sou devota.


À noite, ao chegar e ao estacionar o carro, peguei no computador, na capa de lã, na carteira e mais nem sei em quê e, estúpida, deixei o pacote de papel com os dois livros no carro. Quando dei por ela, já estava em casa, descalça, sem o traje de luces. Disse que ia ao carro buscá-los, mas tinha que ir vestir-me e calçar-me e o meu marido demoveu-me. E eu, preguiçosa, deixei-me demover. E agora, pobre de me, aqui estou, longe deles, em estado de carência. 

E quem não perceber este amor por livros não percebe nada de mim. Se calhar nem conhece bem o que é gostar de livros. Ou mostra um supremo desconhecimento das coisas da vida. Ou nem sonha o que é uma mulher que ama livros. Isso, sim, é o mistério dos mistérios. Pior: o perigo dos perigos.

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Mais ou menos a propósito, partilho um vídeo com muitos livros dentro
Transcrevo: Antiquarian booksellers are part scholar, part detective and part businessperson, and their personalities and knowledge are as broad as the material they handle. They also play an underappreciated yet essential role in preserving history. THE BOOKSELLERS takes viewers inside their small but fascinating world, populated by an assortment of obsessives, intellects, eccentrics and dreamers.

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quarta-feira, março 04, 2020

A Livraria do Mondego





Bem. Agora que já declinei a palavra ignorância em versão ted cruz, recuo no tempo, àquele magnífico e longinquo tempo em que gozei umas maravilhosas e longas férias no miolo do meu país. Chovia e os campos estavam verdes e os rios corriam airosos enquanto a água jorrava dos montes, saltitando nos regatos que ladeiam as estradas. O meu marido disse: 'Parece que estamos noutro sítio'. Por vezes sou lenta: 'Noutro como?'. E ele: 'No Minho'. Olhei melhor: sim, idílico, verdinho e lindo como o Minho. Mas também concluí que se calhar o que se pode concluir não é isso, é que não é só o Minho que é idílico, verdinho e lindo.

Muito por ali ardeu. Há encostas todas ardidas. Deve ter sido uma aflição, um susto de morte. Mas tudo renasce e, ao lado de troncos ardidos, há agora rebentos verdes de dar gosto.


E então, no adeus até à próxima, quando vínhamos no descair de regresso a casa, fomos à procura da Livraria. Como o IP3 está em obras, saímos pelo desvio. E quando chegámos lá não dava para 'entrar'. E quando estávamos a ver onde é que se podia parar o carro ou onde é que havia um desvio para lá ir ver, já estávamos noutro lugar. Pensei que o culpado -- sim, porque nestas coisas tem sempre que haver um culpado -- tinha sido o meu marido. 'Se calhar passaste o sítio para se virar para lá'. Ele: 'Viste alguma saída?'. De facto, não. Não desisti: 'Mas se calhar havia sítio para parar o carro'. E ele: 'Viste algum?'. Pois, de facto também não. Mas alguma coisa tinha que haver. Se aquele era um lugar a visitar, como não haver maneira de vê-lo? O meu marido, já deserto de se ver livre das minhas incursões, continuou. E já noutra aldeia. E eu: 'Desculpa lá. Não pode ser. Volta para trás. Quero visitar e alguma maneira há-de haver'. Embora contrariado, lá me fez a vontade. Disse: 'Só vejo uma possibilidade, onde diz pescas'. 'Então vamos lá ver''. Em boa hora. Lá ele levou o carro por uma estradinha inclinada. E aí vimos o carreiro, rente ao rio, rente à encosta. E tão bonito, tão bonito.


Monumento natural que marca a paisagem das margens do Mondego junto a Penacova, a Livraria do Mondego é um monumento que o tempo esculpiu ao longo de mais de 400 milhões de anos.
Depois de ter recebido o Alva, seu afluente da margem esquerda, o Mondego estrangula-se ao atravessar o contraforte de Entre Penedos e surgem as altas assentadas de quartzíticos dispostos quase verticalmente, como se de livros numa estante se tratasse, o que de resto deu origem à designação popular de Livraria do Mondego.
Constituída por quartzíticos do Ordovícico, a Livraria do Mondego foi, por Galopim de Carvalho, classificada como um Geomonumento ao Nível do Afloramento, constituindo-se, pelas caraterísticas geológicas que encerra e pela graciosidade escultórica que o tempo lhe incutiu, como um dos mais singulares monumentos naturais de Portugal. (...)


Quanto às pescas, fiquei a saber que há pesca sem morte. O meu marido disse: 'Fazem um buraco no peixe e depois arrependem-se e atiram-no ao rio. Deve ir em bom estado'. Mas agora que escrevo penso que, se calhar, não é pesca com anzol. Se calhar, é com camaroeiro ou coisa assim.


Mas, voltando à livraria. Não sei se imaginam a paz que é andar, sem vivalma nas redondezas -- por inacreditável que possa parecer éramos mesmo só nós -- só passarinhos a cantarem, os sons do rio, e aquelas rochas tão bonitas, os reflexos nas águas, tudo tão tranquilo e lindo. Fomos pelo carreiro, subimos até lá acima à estrada, uma vista deslumbrante. Algumas vertigens, confesso. Não há protecção, assusta. Mas tão bonito.

E parecem mesmo livros, empilhados, arrumados numa estante. As rochas têm vida, são também divindades. Não quero saber que achem que sou maluca. Cada um tem as suas crenças e a mim dá-me para as estas. Observam-nos em silêncio e eu acho que protegem aqueles que as respeitam.


E, por bibliotecas e livros, li um texto que me encheu de alegria. Afinal há uma explicação para a minha panca: conhecer os limites da minha ignorância.
O grande leitor é aquele que compra livros sabendo de antemão que não os vai ler, mas cujo interesse e a relevância reconhece. Isso é muito mais importante  do que propriamente ter o gosto de ler os livros todos. De resto, um dos tópicos de todos os escritores é contra os filisteus que entram lá em casa e perguntam: “Ena, tantos livros! Já leu isto tudo?!” Não há ninguém que não se enfureça com essa pergunta, porque, na verdade, a biblioteca não é para ler tudo, é para ela existir. O livro na verdade não existe, o que existe é a biblioteca. Um livro nunca está sozinho. E ter muitos livros em casa é muito melhor que não ter, porque mesmo que a pessoa não os leia, fica a saber a quantidade de coisas que não conhece. Em vez de lamentarmos todos os grandes clássicos que nunca vamos ler, devemos perceber é que, no fundo, nós lemos para ter conhecimento daquilo que não conhecemos, para conhecer os limites da nossa ignorância. Ora, isso também se consegue não lendo livro nenhum, mas é preciso conviver com eles. 
Abel Barros Baptista 

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Se puderem vão conhecer: lugares lindos. É o que vos digo.

terça-feira, março 03, 2020

Vidas duplas


Para que o único dia de férias parecesse uma big semana de férias foi encostado ao fim de semana e foi aproveitado até à medula.
Pelo meio aconteceu um contratempo mas bola para a frente, coração ao largo, e o mantra de que tudo se resolve e há coisas piores sempre presente. Não era um detail que ia manchar os tão desejados dias felizes.
Hoje o dia já foi de regresso. Se conseguir ainda mostro o sítio tão lindo que hoje conheci. Uma livraria como nunca vi igual.

Mas, para já, abro um intervalo para ir directa aos finalmentes. A cena é que, turismo degustado com o espanto de quem vê maravilhas naturais pela primeirissimamente vez, eis-nos de regresso a casa. Mas antes das máquinas de roupa, da panela de sopa, do estufado, das arrumações e demais obrigações domésticas e quotidianas, vamos mas é curtir as vacances até à última gota. Bora ao cinema. 

E lá fomos: uma sala com meia dúzia de pessoas, ausência de pipocas, um filme sem perseguições, sem monstros, sem tiros, sem brigas, sem sangue. Um filme civilizado, bem representado, actual, simpático, divertido. E com a Binoche, luminosa como toujours. Livros em papel ou e-books, o mundo da edição num mundo digital, e escreve-se mais e melhor apesar de ninguém tem paciência para ler?, algoritmos a condicionar o gosto dos leitores, escrita autobiográfica ou autoficcionada, verdades ou meia verdades, hipocrisia ou savoir faire, inteligência conjugal e social e etc. E isto em casas bem decoradas, ambientes simpáticos. E amores não tão clandestinos quanto isso. E falado em francês que, a seguir ao italiano, é a língua em que melhor se diz e faz o amour.

Ou seja, um filme bom de ver com umas fantásticas cenas e música finais, à laia de cerise sur le gateau. Pâtisserie e da fina. 

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Depois viemos para a casa e foi non stop até há pouco. Vou agora ver as fotografias para tentar organizar-me para vos mostrar pelo menos dois sítios que acho que merecem uma visita.

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

As estantes deles. E alguns dos livros que arranjaram guarida in heaven. E o que os livros que escolhemos dizem de nós.
E outras coisas.





Há sempres partes dos meus dias de que aqui não falo. Mesmo quando parece que falo de muito, em geral aquilo de que falo não é senão o que se passa in between. Geralmente também não falo do que me preocupa enquanto me preocupa. Quanto muito, falo quando já não estou preocupada. 

De vez em quando sou surpreendida com comentários que nem chego a publicar ou mails nos quais as pessoas querem mostrar-me que conseguiram traçar as linhas que juntam os pontos que me definem e só falta desenharem o que pensam ser o meu retrato robot. Pasmo. Mas, se calhar, pasmo porque sei que o que omito é mais do que o que revelo. Mas aos ousados que me escrevem a evidenciar a prova da sua inteligência não passa pela cabeça que jamais se pode traçar um perfil e, muito menos, enchê-lo com carne e espírito, quando, na realidade, pouco se sabe de uma pessoa.

Mesmo que eu aqui expusesse os meus dados biográficos, o meu curriculum vitae detalhado, a minha ficha clínica e as actas das reuniões em que participo não se poderia concluir muito. A vida de uma pessoa é sempre tão mais do que aquilo que parece ser.

Mais: mesmo de pessoas cuja vida se pode consultar na wikipedia, que têm presença regular na comunicação social e na vida pública e mesmo quando praticam um estilo quase confessional, dificilmente se pode concluir que as conhecemos. Por exemplo, quem nos garante que, em privado, não se desdobram em disfarces ou que cultivam segredos ou que alimentam vícios inconfessáveis ou que escondem amores intangíveis? Ninguém garante.

Portanto, ninguém conhece ninguém, excepto, quanto muito, quando se trata de pessoas bidimensionais, desinteressantes até à quinta derivada, pessoas que se comprazem numa vida de inutilidade absoluta. Conheço pessoas assim. Olha-se e dir-se-ia que são pessoas que vivem vidas absurdas de tão desprovidas e nulas que são e, no entanto, são felizes nas suas rotinas e gestos inúteis. Dou por mim a pensar que, justamente, talvez sejam essas as pessoas que me melhor interpretam o absurdo ofício que é viver. 

Estou com isto pois hoje, de tarde, estando no campo, dei por mim a olhar alguns dos livros que por lá param. Geralmente são livros que levo para ler e que acho que é melhor lá ficarem para os completar no fim de semana seguinte ou para quando tiver tempo. Ou livros que acho que é melhor que estejam à mão quando quiser ir ler à sombra. Ou livros que quero ler com mais tempo, talvez nas férias. E pensei: será que, por estes livros desirmanados, alguém poderia decifrar o meu ADN?

Fui buscar a máquina e fotografei alguns dos montinhos. Ao ver agora as fotografias descobri alguns, poucos, uns dois ou três se tanto, que não sei bem o que são. Provavelmente esses ficaram justamente por não saber isso mesmo: o que são e onde melhor se encaixarão. 

Já agora, a propósito, um apontamento confessional: andei a ver aquilo de que a casa está precisada. E é tanto. Falta-me tempo para deitar mão a isso mas não poderemos adiar por muito mais. A parte mais antiga precisa de pintura por fora e por dentro, as madeiras do chão e do tecto precisam de óleo protector. Se calhar no chão, cera. Gosto muito do cheiro da cera. Dá mais trabalho mas o cheirinho é um consolo.

Também estive a abrir os roupeiros dos quartos que eram dos meus filhos e constatei que estão cheios de roupas que eram deles. Penso que jamais as voltarão a usar mas, com alguma esperança, iludo-me que, talvez um dia aos miúdos, os seus filhos, lhes dê jeito usar alguma daquela roupa, ou porque se sujaram  ou porque se molharam. Mas tenho que rever o que ali está pois o mais provável é que tenha os armários cheios de coisas inúteis.

Entretanto, a minha filha pediu que tentasse encontrar os seus livros de pautas de quando estudou piano. Por isso, fui ver a grande estante que está na despensa e que, quando comprámos a casa, estava em lugar de destaque na sala da lareira, e descobri não apenas imensos livros e brinquedos de ambos, de vários escalões etários, bem como cadernos e livros da escola -- e também pensei que não sei se faz sentido ter aquilo tudo ali, entocado e inútil. E, como sempre acontece quando procuramos alguma coisa, tudo menos pautas. Fui, então, à casinha lá fora onde estão as máquinas de cortar mato, a serra eléctrica, tintas, uma mesa de ping-pong, uma mesa de plástico desmontada e uma grande arca antiga, de sândalo, trabalhada, e para a qual nunca descobri um lugar digno e visível. Pensei que talvez as pautas ali estivessem. Mas não. Estava um grande saco com cobertores e um outro com lençóis bordados e com rendas. E isso encheu-me de pena. Eram de tias do meu marido, talvez até dos avós. Na altura, tive pena de deitar fora coisas que eram tão estimadas e que estavam numa casa tão bonita, tão bem cuidada. O meu marido queria deitar fora, dizia que nunca iríamos utilizar. Não fui capaz. Mas agora, ao ver que tinha posto ali as coisas e que nunca mais delas me tinha lembrado, pensei também que tenho que repensar algumas decisões. Guardo coisas que penso que têm memórias associadas a elas, coisas que, daqui por algum tempo, alguém possa gostar de conhecer. Mas quem? Quando? 

Mesmo os livros. Receio o que um dia lhes venha a acontecer. As pessoas têm as suas casas e elas não são elásticas, podem não conseguir acomodar o que lhes possa ser destinado. Vi quando foi dos meus avós, de qualquer deles. Nenhum dos meus primos quis ficar com alguma coisa. Disseram que não tinham onde pôr. Pude ficar com tudo o que quis mas, verdade seja dita, pude porque tenho uma casa no campo, com espaço.

Ao ir agora escolher uma música para ouvir enquanto escrevo, o YouTube tinha para me mostrar estantes em casa de pessoas conhecidas. Claro que vi todos os vídeos, e com que interesse os vi. Uma estante é um mundo e o amor que se tem a cada um dos livros que ali está transporta um pouco de nós para aquele lugar que, para quem ama livros, é do domínio do sagrado.
Mas fico a pensar, tal como penso em relação a mim: o que acontecerá quando a pessoa for desta para melhor e alguém se vir a braços com tudo isto, tendo que dar destino a todos estes volumes? 
Há coisas que fazemos que só fariam sentido se vivêssemos eternamente. Assim é tudo meio louco. E o melhor é nem pensar nisso.

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E estas são algumas das estantes de alguns deles








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As fotografias foram feitas esta terça-feira in heaven e achei que uma Bachianas Brasileira de Villa-Lobos vinha mesmo aqui a calhar
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Desejo-vos uma bela quarta-feira


domingo, fevereiro 23, 2020

Sábado de verão, em fevereiro, na praia.
Com reportagem fotográfica.





Na sexta ao fim do dia fomos passear no paredão ao longo da praia. Para terminar uma semana bem preenchida nada como a maresia para lavar a alma. Estava-se muito bem. Um prenúncio de névoa começava a pousar no areal mas essa frescura suave apenas trazia mais beleza e apaziguamento ao lugar. Passear junto à praia à noite é uma felicidade.

Este sábado, calorzinho primaveril, a conversa foi outra. Depois de termos ido aos meus pais, fomos a casa para eu mudar de roupa, noblesse oblige, e para preparar um lanchinho. Iogurtes, biscoitos de Safara, bananas.

Juntámo-nos na praia e não éramos só nós mas também outros amigos. Crianças pequenas eram sete. O meu filho perguntou com ar de censura: 'Mas para que é que vêm com comida? Tem algum jeito isso?'. Mas só as bananas é que não quiseram. Dos dez iogurtes sobrou um e do saco de biscoitos sobraram uns escassos restinhos, umas asas quebradas. 

Estava-se que era uma maravilha. Os rapazes -- de todas as idades -- jogaram futebol. 


Só os dois pequeninos, por sinal homónimos e da mesma idade, três anos, é que não jogaram. Brincaram com carrinhos, fizeram buracos e bolos e atiraram areia para onde não deviam. As duas meninas também não. Entretiveram-se de outra maneira, uma com a outra, também construções, conchinhas, penteados, coisas assim. As três mais crescidas conversaram. Eu, como habitualmente, observei, fiz a reportagem, tentei assimilar a beleza de tudo. O mar muito bonito, a luz perfeita, todos felizes uns com os outros.

Fizemos fotografias de grupo mas não ficámos todos ao mesmo tempo nem todos a olharem para a frente. Uma sucessão de fotografias com uns a fazerem gestos, outros a ajoelharem, futebolista style, um a beijar a camisola, pose quiçá à Ronaldo, outros a fugirem, outros a olharem para trás. Mas, verdade seja dita, fotografias preciosas, todos dourados sob a luz do pôr do sol, todos bem dispostos. Desta vez fiquei em algumas fotografias. A minha filha protestou, lembrou as fotografias do baptizado do mais novo que ficaram a cargo do pai e que as desfocou a todas. Sem óculos e sem tempo para focar a visão senão fogem de cena, dispara sem grandes preciosismos e a coisa tende a não ficar perfeita. Mas desta vez correu bem. 


Depois foi a separação do resto do grupo, o regresso, sempre aquela confusão que resulta da ruidosa geometria variável que ali se desencadeia: ela quer ir com a tia, outros querem ir com os primos, outros querem não sei o quê e por fim já ninguém percebe quem vai com quem nem se há banquinhos nos carros onde são precisos.

Tudo cá para casa, embora uns não directamente. Os meninos, sim, vieram logo todos.

Atirei-me aos tachos enquanto a miudagem se atirava aos banhos. Abstraio-me da confusão e penso que deve ser o que fazem os professores para não darem em malucos com o barulho. Desta vez, o mais crescido armou-se em paparazzi e andou a filmar os outros à socapa que, furiosos, gritavam, fugiam, fechavam-lhe a porta, corriam. 


Depois vieram aqui para a sala. Quando aqui vim espreitar, andavam feitos detectives. Mal me viram, disfarçaram. Percebi o que se passava. Andavam a ver se descobriam o tal livro de fotografia que um dia deixou o menino do meio completamente desorbitado. Saindo ao pai na pancada por «maminhas», nunca mais desistiu de o voltar a ver. E já falou nisso aos primos que ficaram igualmente curiosos. E a mana alinha na demanda. Mas, claro, tudo às escondidas. Zanguei-me. Não têm nada que andar a mexer e a desarrumar os livros e que desistam porque não vão encontrá-lo.  'Ai-ai-ai, ai-ai', zango-me eu, e eles já me imitam. Voltei à cozinha.

Quando aqui regressei, estava tudo ao rubro. Tinham descoberto um dos meus Pipis, não reparei se era o Diário ou o dos Sermões. Já nem me lembro se foi a minha filha que disse que não deveríamos deixar aqueles livros ali. Mas não apenas não estavam à vista como vai lá uma pessoa lembrar-se que hoje lhes ia dar para andarem a revirar os livros mais recentes. O mais velho, onze anos, rebolava-se a rir. O primo, sete anos,  tinha estado a ler e, dizia ele, 'ele leu em voz alta e eles não percebem a maior parte das palavras mas eu percebo tudo... e é tudo muito impróprio...'. E ria a bom rir. Depois perguntava: 'Mas para que é que tens aquele livro...?'. Expliquei que era um livro de humor, muito bem escrito mas não para crianças. E peguei no livro e fui escondê-lo. A ver é se agora não lhe perco o rasto.

E voltei para a cozinha. Quando cá voltei, estavam os quatro mais crescidos atrás de uma estante. Largaram precipitadamente o que tinham na mão. Fui ver. Era outro livro de fotografia e uma grande lupa. Perguntei: 'Mas de onde apareceu esta lupa?'. Juro que não fazia ideia. Ela contou que a tinha ido buscar a outra estante. Já nem de tal me lembrava. De novo, o mais crescido a rebolar-se a rir: 'Estávamos numa pesquisa perfeitamente paralela e, sem querer, descobrimos este livro'. E dobrava-se a rir. E eu disfarço mas a verdade é que acho imensa graça à forma como se expressa e ao sentido de humor que revela em tudo o que diz.

Quando eram mais bebés, tinha que tirar tudo o que era peça que se pudesse partir do seu alcance. Estou a ver que tenho que ter cuidado agora com os livros. O apelo do interdito faz-se sentir em todas as idades e a união entre eles tem muita força, descobrirão sempre qualquer coisa que os deixará ufanos e ainda mais curiosos.


Devo esclarecer que, entretanto, o meu marido e o meu filho estavam a apanhar os vidros da porta da rua que o meu filho, ao tentar desencravar a porta, fez tanta força que o partiu, e os demais crescidos estavam ou a pôr a mesa ou ao telefone noutro sítio ou na casa de banho ou não sei bem onde. Portanto, eles andavam à aventura em liberdade. Esta sala é, para eles, uma arca do tesouro e eu, se me recordar de quando tinha a idade deles, imagino a tentação que deve ser saber que há aqui um mundo fascinante por descobrir. E eles são um verdadeiro bando dos cinco.

Depois foi o jantar, a mesa cheia, e uma vez mais aconteceu o que sempre temo. Penso que estou a fazer o dobro da comida necessária mas, afinal, pouco sobrou. As doses de tudo são crescentes. Crescem e felizmente alimentam-se na devida proporção e os adultos felizmente também não se queixam de fastio. O apetite de todos enche-me de alegria. Sentam-se à mesa e comem de gosto. Quase todos se levantaram para repetir a dose. Nessas alturas a minha alegria tende para a preocupação não vá algum querer voltar a repetir e já não haver. 

E isto apesar do meu filho ter trazido uma sopa óptima, gostosa e consistente, de couves, feijão e carne. Tinham lá tido amigos ao almoço e como agora vão uns dias para fora, trouxe a sopa que sobrou.

Depois da cozinha arrumada, brincadeira na sala, todos na maior animação. Às escondidas, lutas, cantorias, imitações.


Agora a casa está silenciosa. O meu marido já dorme há um bom bocado. Disse que estava partido, que mal se podia mexer. Pudera. Como não? Jogou à bola durante mais de uma hora e vi-o a cair várias vezes, a atirar-se para evitar que a bola entrasse na baliza imaginária. Como sempre, estava de guarda-redes. Deve ser de quando jogava andebol. Ficou-lhe isso, gosta sempre de jogar à baliza. Curiosamente, dois dos meninos, na escola de futebol onde andam, também jogam à baliza. E têm jeito. A genética tem muita força, dizem.

E eu agora, enquanto escrevo, vejo a televisão e apercebo-me como o coronavírus está não apenas a arrefecer a economia como a transformar algumas cidades em cenários daqueles filmes de terror que nunca vejo. Quem diria que uma coisa destas poderia acontecer...? O mundo ameaçado por uma porcaria de um vírus. Nem na mais desvairada ficção isto poderia ser imaginado.

Bem. Vou descansar que daqui a nada o domingo já é dia e, por muito que eu goste de habitar os mistérios e os silêncios da noite, não posso depois ficar a dormir até a manhã ir alta. Portanto, fui.


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As fotografias foram feitas este sábado na praia e às duas últimas dei-lhes um banho de cor. 

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Desejo-lhe, a si que está aí desse lado, um belo dia de domingo

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Seios, sustos, uma mulher nua e de saltos altos, santinhos e anjos do além





Não há muito, num daqueles exames de rotina, a médica detectou um pequeno nódulo que não aparecia referido no relatório do exame anterior embora em tempos tenha havido referência a um, que talvez fosse o mesmo e que, inclusivamente, já foi biopsiado e que tanto medo me causou. Esse tinha um nome de que agora não me lembro (seria fibroadenoma?) e, felizmente, era benigno. Não sabendo se era o mesmo e intrigada por não aparecer no exame anterior, pelo sim, pelo não, a médica pediu para repetir o exame quatro meses depois. Foi hoje. Se por um lado tenho para mim que estou bem pois sinto-me bem, por outro sei que há coisas silenciosas que fazem o seu percurso ao longo de anos sem que quem as tem se aperceba do que quer que seja. E, se tendo a ser despreocupada, a verdade é que, na meia hora que precede o exame, um nervoso miudinho se apodera de mim de uma forma um bocado intensa. Para começar, ao ir para lá, ia tão distraída a ouvir música mas ao mesmo tempo já a ficar tão enervada que só dei por que tinha passado o cruzamento onde deveria ter virado quando já ia para aí um ou dois quilómetros à frente. Azar. Impossível virar. Tive que continuar por mais uns dois quilómetros até conseguir inverter o sentido. 

Quando cheguei, mal acabei de me inscrever fui logo à casa de banho. Tinha ido antes de almoço, menos de uma hora antes, mas sentia a bexiga a ponto de rebentar. 

Passado um bocado, chamaram o meu número.

A funcionária mandou-me entrar para um cubículo e disse que me despisse da cintura para cima, vestisse a bata e me deixasse ficar sentada com a porta aberta. Assim fiz. Pensei que aquela de ficar sentada de porta aberta fazia sentido para ter ar para respirar e para ouvir quando me chamassem. Vesti a bata com a abertura para a frente e não a abotoei, apenas a tracei, prendendo-a com os braços cruzados debaixo do peito. Disse-me ainda que, quando me chamasse, eu levasse a carteira comigo.

Entretanto, senti que estava outra vez aflita para ir à casa de banho. Pensei que não podia ir pois a casa de banho fica na zona aberta ao público e, naquele estado, meio despida, não era muito conveniente circular. Pensei que era psicológico, que a bexiga não podia ter-se enchido em meia dúzia de minutos. Mas cada vez estava mais aflita. Pensei que se não me chamassem rapidamente teria mesmo que ir.

Pelo meio, cada vez mais cheia de medo, pensava que tomara que estivesse tudo bem. E, às escondidas de mim, pedi protecção. Mas senti-me uma pedinchona incoerente e sem vergonha na cara. E, lembrando-me de uma coisa que tinha lido na véspera num livro, numa livraria, deu-me vontade de rir.
É que, na segunda-feira, fiz uma daquelas minhas incursões por uma livraria mas, como sempre, tomada por firme decisão de não comprar qualquer livro. Ia-os catrapiscando e pensando: vou ser lógica, vou ceder à ortodoxia dos bem-comportados, não vou ser uma pessoa assim, bla-bla-bla. Às tantas, folheei um e li uma coisa que era qualquer coisa como isto: um homem dizia que, quando estava em apuros e aflições, tirava uma imagem que tinha na carteira e pedia-lhe protecção. E exemplificava, mostrando ao outro a imagem. O outro exclamava: 'Mas é a Greta Garbo!'. O homem confirmava e dizia que era importante ter qualquer coisa em que acreditar. E eu achei a ideia deliciosa. E fiquei cheia de vontade de trazer o livro nem que fosse para reler a cena e para ver se havia mais coisas assim. Mas resisti. Há dias em que consigo portar-me bem. E agora não tenho como validar se foi isto mesmo que li ou se o que contei foi uma construção da minha cabeça a partir de um relance em diagonal num livro aberto ao acaso.
Mas, então, estava a lembrar-me disto e quase a  rir, já mais aliviada da bexiga e do medo. Às tantas, a funcionária chamou 'Bárbara'. Fiquei admirada, pensei que ela tivesse trocado a ficha. Então, para meu espanto, vejo que do cubículo ao lado -- no qual eu não sabia que estava uma pessoa pois quando para lá me dirigi estava fechado -- sai um mulherão. Teria à volta de trinta, era morena, alta, formas generosas. Ao contrário de mim que ia fazer apenas uma ecografia mamária, ela devia ir fazer também a pélvica pois estava nua. Contudo, curiosamente, manteve os saltos altos, muito altos, e a bata aberta atrás, presa por um cintinho, mas deixando-lhe à mostra as costas e, ao andar, as pernas. Uma imagem muito sexy. E ia com a carteira ao ombro o que tornava o conjunto ainda mais insólito. Avançou resoluta, aparentemente sem sombra de medo.

Quando faço os dois exames e também tenho que me pôr nua, vou praticamente descalça para o gabinete da médica, só com umas sapatinhas descartáveis. Pois ela ia gloriosa, em cima dos seus saltos altos. 

Fiquei a pensar que, antes de se levantar, ela devia estar sentada, tal como eu, de porta aberta, tal como eu. Quem estivesse de frente, teria visto aquela beldade toda nua e de saltos altos, apenas vagamente coberta por uma bata fina e descartável, provavelmente a olhar para o telemóvel, e eu, de calças e igualmente de saltos altos, também com a bata, mas certamente com ar amedrontado, a tentar não pensar que não aguentava sem ir à casa de banho e que tomara que o exame não desse nada de mal.

Passado um bocado, saíu do gabinete da médica, bárbara e gloriosa, enfiou-se no cubículo, ouvi fechar a porta, e antes que me chamassem, saíu, saia justa, pelo joelho, um casaco justo a três quartos, a carteira ao ombro; deitou a bata no recipiente e lá foi, óculos escuros na mão.

Passado um bocado, ouvi o meu nome. Lá fui. Assustada e a sentir-me quase muda. A funcionária disse-me para despir a bata e deitar-me de barriga para cima. Escusava de dizer, sei como é. Braços para cima. Desprotegida. A médica encheu-me o peito de gel e começou a tortura, passando o dispositivo, que parece um rato, por toda a superfície dos seios. Faz força, incomoda. Com os braços para cima, não ficamos apenas expostas, ficamos à mercê. Provavelmente por estar em tensão, tudo aquilo me dói. E depois há o medo. Ver a médica a parar, a fixar a imagem no ecrã, a medir o tamanho do que encontra. Mas ela concluíu que estava tudo bem. Ainda lá estava o nódulo mas igual ao que estava há poucos meses e igual ao que estava anos antes. Explicou que pode acontecer não ser detectado em alguns exames por estar escondido atrás de alguma gordurinha. Foi ela que disse: nas maminhas há gordurinhas que, por vezes, não deixam ver bem. Quando ela me disse isso, descontraí. Deixou de me doer e deixei de estar aflita para ir à casa de banho. Respirei fundo, consegui falar.


Quando saí, ia na maior felicidade. Sentia-me agradecida e ocorreu-me que talvez devesse ter na carteira uma fotografia de alguém a quem agradecer numa situação destas. Não uma santa mas um santinho. Pensei que talvez o Jeremy Irons, e que bom, bom mesmo, seria ter um cd com a voz dele e, então, punha-o a tocar e era como se tivesse o santo em pessoa ali a dizer-me poesia. Depois detive-me, senti-me incorrecta por ter pensamentos tão hereges quando deveria era sentir-me recatadamente agradecida.

De tarde trabalhei sentindo a alma leve como uma pluma.

&

Como post scriptum posso ainda contar que, como no sábado e no domingo estive doente e dormi que me fartei, na noite de domingo, sentindo-me já fresca, estava sem pitada de sono. Então, levantei-me e mudei-me para a sala. Estendi-me no sofá, tapei-me com uma manta quentinha e pus-me a ler Gabriel Garcia Márquez: o livro de contos onde se inclui a história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada. E o que me deliciei. A sala às escuras excepto o que se via sob aquele pequeno foco de luz. E o que se via era uma delirante delícia.
Tinha chovido tanto que o quintal estava alagado e havia caranguejos por todo o lado. E com o rio transbordante e com a intempérie não só tinham aparecido caranguejos aos montes como tinha aparecido um anjo de cabelo ralo, desdentado e velho. E o casal tinha posto o anjo velho numa gaiola e veio gente de todo o lado para ver o anjo; e o casal ficou rico. E, pelo meio, iam os dois para o quarto e era de todas as maneiras, aos coelhinhos, às formiguinhas e a outros bichinhos. Às vezes enganavam-se e faziam de outras maneiras e não naquela em que iam a pensar. Depois um dia, muito tempo depois, as penas, que tinham caído, voltaram a nascer nas grandes asas e o anjo, a custo, levantou voo e lá foi. Ou, então, a história da jovem Erêndira que era uma escrava às mãos da avó, uma velha gorda, a quem a neta tinha que dar banho, vestir, fazer a lida da casa. Um dia, morta de cansaço, a menina pousou o castiçal e adormeceu. As velas pegaram fogo aos cortinados e casa ardeu mas a avó foi boazinha, disse que não fazia mal, que a neta pagaria o prejuízo. E passou a vender os serviços sexuais da jovem de catorze anos. Dezenas de vezes por dia. A menina exausta. Até que um dia apareceu Ulisses e a menina e ele fizeram amor, de gosto, ao longo de toda a noite. Não contei que o pai da menina se chamava Amadis e o avô também e que já tinham morrido, estavam enterrados no quintal. E que, depois da casa ter ardido, a avó andava com a caixa dos ossos dos Amadises por todo o lado onde fossem. 
Pelo meio a prosa ia andando com pormenores que me traziam a felicidade, tanta a inteligência, o humor e a elegância das palavras. E eu estava a ver que não me dava o sono, tão gostosa estava a leitura. Até senti que, a qualquer momento, poderia sentir um lobo a espreitar-me, na distância, na insolência. Mas não, acabei por cair no sono.


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As fotografias são de Clara Belleville

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Uma quarta-feira feliz. 
A todos desejo alegria. E saúde.

domingo, fevereiro 09, 2020

Livros novos. Amores antigos.





Tenho livros novos. De excepção em excepção, fui abrindo caminho para o irremediável caminho da perdição. Depois da grande arrumação de não há muito e da firme determinação em não voltar a comprar livros enquanto não abrisse espaço na minha vida para leituras demoradas, era suposto que a casa se mantivesse arrumada, sem livros a nascer de debaixo das pedras. Mas têm nascido. Duas das cadeiras que rodeiam a mesa redonda que está ali junto à janela já têm pilhas que ultrapassam a altura da mesa. Sobre o banco grande que está ao lado do sofá individual ali ao fundo desta sala já há umas quantas pilhas que se amparam mutuamente. Sobre o pequeno móvel com livros dentro que está encostado à estante alta da poesia, ficou, aquando da arrumação, uma pequena pilha. Eram os desirmanados, que não cabiam em nenhum género e que pensei que queria ter à mão. Pois, sobre eles, outros e outros se foram juntando. E de tal forma está que, a todo o momento, temo que a torre se desmorone.


Aqui ao meu lado no sofá está o Explicações de Português explicadas outra vez do Miguel Esteves Cardoso que comprei no outro dia porque não resisti a pagar apenas metade do seu preço e mais o O sentido do fim do Julian Barnes que comprei porque gostei da capa e porque gosto da forma como Barnes escreve. E tenho os Contos espirituais da Índia de Ramiro Calle que comprei porque gostei da capa e porque me lembrei de Kahlil Gibran que, por acaso, não era indiano. E tenho o que hoje, nos minutos que tive livres entre o almoço e o termos recebido uma mensagem a dizer que estavam a chegar em quinze minutos pelo que fossemos descendo, me sentei a ler: 'O lado negro da mente' de Kerry Daynes. E este comprei porque perceber a mente sempre foi fronteira que tive vontade de desbravar. Não fui para psiquiatria porque não consegui superar o medo de ver mortos durante o curso de medicina nem fui para psicologia porque recei que o curso, na altura, não fosse muito credível. Mas o interesse manteve-se intacto e a curiosidade em ler casos e as suas possíveis explicações é total. Mas hoje já não penso como pensava na altura em que não tinha a percepção da quantidade de casos em que a mente tem particularidades que tornam a pessoa única. Hoje tenho para mim que em todas as escolas deveria haver aulas sobre 'perceber os outros'. Não os julgar, não os afastar. Perceber as variantes e as nuances que levam pessoas inteligentes a terem comportamentos dificilmente explicáveis à luz da dita normalidade. Deveria ser obrigatória essa aprendizagem.


Mas, dizia eu, pensando que vou apenas ver o que há de novo, avanço pelas livrarias já receando o que sei que acabará por acontecer. Vagueio por entre estantes, espreito, tomo o peso aos livros, leio excertos. Como se eles me procurassem, vejo-me a espreitar os tradutores para descobrir pretextos  para não os trazer ou a mancha da página tentando que seja densa, deselegante, já aceitando que pretextos fúteis me afastem dos caminhos da perdição.

Mas é escusado. Ler é prazer maior, coisa que me leva aos caminhos da redenção, não há por que medesviar. Trago aqueles que se prendem a mim. Rendo-me. E lamento não ter tempo para o tempo que eles requerem. Mas depois arrependo-me de lamentar: um amor grande como é o amor pelos livros não tem que ser explicado, não tem que ser programado, não tem que ser contido, não tem que ser protelado. Amar livros é uma forma de viver. Não é uma escolha.

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E, por falar em Kahlil Gibran, outra inexplicação: porque gosto de ouvir estas palavras? Por elas em si? Pela voz de quem as lê? Não sei dizer. Sei que, de vez em quando, sem saber porquê, procuro a musicalidade e a paz que se desprende do que ouço. No fim de as ouvir, se me perguntarem o que ouvi não saberei responder. As palavras esfumam-se no preciso instante em que são ditas e encontro beleza nisso. 


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As fotografias são de Nick Knight
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E a si que aí está desse lado desejo um belo dia de domingo

sexta-feira, janeiro 17, 2020

O preço das perguntas estúpidas, as pernas peludas das poderosas e como elas teriam sido se não se tivessem remoçado.
Com a cena do 'meu pipi' e com as salamandras que já cá cantam





Assim de repente ocorre-me dizer que hoje, ao atravessar a cidade, o tempo a escurecer, as árvores numa agitação, a chuva a começar a cair com toda a força, as pessoas a resguardarem-se junto aos prédios, me ocorreu um outro dia há muitos, muitos anos, um dia assim, nós dois pouco mais que adolescentes a procurarmos casa num sítio onde ambos nunca tínhamos estado, onde não conhecíamos nada nem ninguém, encharcados, com frio -- e eu a pensar que seria tão bom que já tivéssemos uma casa nossa, onde pudéssemos refugiar-nos de um tempo assim.

Nesse dia tão distante procurámos a paragem do autocarro e ficámos, à chuva, à espera. Hoje ia sozinha no carro, com a temperatura condicionada, com música boa, e via, como se visse um filme, aquele outro dia e, quase em justaposição, o mau tempo de hoje, as pessoas a procurarem abrigo, pensando que seria bom que o carro viesse equipado com máquina fotográfica para eu poder fotografar o que minha memória estava a registar para que, daqui por alguns anos, talvez num outro dia assim, eu pudesse rever como tudo muda menos o devir do tempo.

No banco, ao meu lado, um livro que, nos semáforos, ia espreitando com surpresa. O tempo e os acasos de que é feito o nosso devir trazem-me flores, livros, sorrisos, palavras, surpresas e eu, agradecida, transporto tudo isso no meu colo, nos meus braços. O tempo e a vida que se desenrola neste breve intervalo traz-me aprendizagens e imprevistos e a nada eu viro a cara.

Hoje, na livraria, procurei o livro. Pelo que era pensei que não teria sorte. Mas tive-a. Quase exclamei um ah! quando o vi. Um livro cheio de salamandras robotizadas, uma visão talvez tenebrosa e avant la lettre do que poderá estar para vir.

A seguir, tentei por mim, descobrir o paradeiro dos pipis, outra recomendação. Não consegui. Pensei que convinha fazer a pergunta a uma livreira e não a um livreiro e, de preferência, sem audiência por perto. Podia ser minimalista na pergunta, 'tem o meu pipi?', mas pensei que me arriscaria a ouvir: 'tenho mas é meu'. Então perguntei, de mansinho, 'Sabe uns livros de que há quer os diários quer os sermões: o meu pipi?'. A rapariga disse: 'Ah, acho que não, isso já faz uns anos'. Disse-lhe que achava que havia edição nova. Foi ao computador e disse que de um havia um e de outro nada. E foi à procura do que havia. Vi que tinha ido para o 'desporto'. Por lá andou de cócoras à procura do meu pipi mas não teve sorte. Apareceu desolada. Eu disse: 'Mas também não sei se estaria no desporto'. É que, não sei porquê, acho que o meu pipi desportista é que ele não é. Ela disse: 'Não, onde procurei, em baixo, é humor'. Aí eu perguntei: 'Mas acha que o teriam posto no humor? Não seria em 'diários'?'. A rapariga pensou e disse: Não, diários não temos, só se for em coisas de senhoras'. Fiquei sem resposta mas a achar que ela era mais rápida de raciocínio do que eu. Ela foi ver e também não. Resolvi depois fazer a monda por mim. Para começar, fui ver às coisas de senhoras, só para perceber a lógica dela: ginecologia, obstetrícia, partos, etc. Devia estar a pensar na anatomia propriamente dita. Acima estava o lifestyle ou o well-being ou lá o que era. Pensei que também podia ser. Mas não. Mas, quem sabe, em filosofia...? Poderia, pensando bem, estar em todo o lado por onde eu passasse, o meu pipi. Entretanto, durante esta minha demanda, ao pé de mim passou um senhor interessante com uma clave de sol tatuada no pescoço e eu pensei que qualquer conversa com ele deve começar sempre por aí: 'É músico?'. Pensei que, se fosse eu, só por isso já não perguntava, perguntava era: 'é mergulhador?' só para ver o espanto dele. Quando passou mesmo perto de mim, senti-lhe o cheiro. Era bom. Pena era não se descobrir o meu pipi. Mas estou confiante, há-de aparecer. É daqueles casos em que se aplica o ditado popular: guardado está para quem o há-de comer.

À noite cheguei a casa mais tarde, o programa meteu jantar e tudo, mas desta vez foi por um bom motivo. Depois o meu marido quis saber novidades e estivemos a conversar. Neste momento, estou reclinada no meu sofá a ver o Louçã corado e estranhamente sorridente, cá para mim interiormente intimidado, ao lado da Cláudia Raia, a qual, como sempre foi e sempre o será, é aquele mulherão replandescente de carnalidade e auto-confiança

E, enquanto isso, está a acontecer-me aquilo que tantas vezes me acontece: ter vontade de fazer uma coisa e perceber que não tenho tempo. Estar aqui a jogar conversa fora quando me apeteceria era deixar-me ir na onda dos meus pensamentos é o tipo de coisa que me frustra. Tinha aqui hoje muita coisinha boa para dizer, ah tinha, tinha. O que me vale é que também não tenho tempo para frustrações -- até porque agora apareceu a dupla mais maluca da actualidade, a Beatriz Gosta e o Gel. Não há nada mais divertido do que ver a interação entre dois ganda malucos.

Bem. Já chega. Já é tarde e ando mal dormida.

Passo, então, ao expediente. E o que tenho a reportar é o seguinte:


Há, pelo menos, um restaurante que factura as perguntas estúpidas. Aliás, consta do cardápio pelo que nenhum cliente poderá invocar desconhecimento. Faz pergunta estúpida, paga. Perfeito. 


Assim é que é e melhor ainda seria se a moda pegasse e a cada um que fizesse pergunta parva ou emitisse opinião estuporada tivesse que pagar. Agora não sei é se o preço que o restaurante leva não está deflacionado, direi mesmo que mais parece ser caso de dumping. Portanto, acho que a moda deve pegar mas, em vez de um preço simbólico, deve mas é ser um preço a doer.



Por mais de uma vez já aqui trouxe o tema à colação. Há mulheres que acham que defendem melhor a causa ou que são mais elas se não se depilarem. Claro que isto de uma pessoa ser mais ela tem que se lhe diga e só isso daria para uma exaltação filosófica. Lamentavelmente não é o momento. 

O que posso dizer é que, pelos vistos, gostam de se ver assim pois mostram-se e sorriem como se se sentissem poderosas. Até criaram um movimento, e vá de alimentar a coisa com a exibição desenfreada das respectivas pilosidades. Januhairy




Se calhar é bonito e, um dia destes, já não são apenas as mulheres das cavernas a apresentar-se peludaças, são também as januhairies desta vida. Eu não. Não sou de modas. Eu gosto de não ter pêlo. Eu gosto de ser só pele lisa, limpa e macia. Acho que perna de mulher deve ser suave, sem pêlo grande, quanto muito coberta de uma penugem doce como a dos pêssegos. Debaixo dos braços também. Fica feio. Só se for penugenzinha perfumada. Mulher deve saber fazer-se bonita. Mulher bonita e feminina e com pele macia e sem pêlos não é menos forte por isso. A fortaleza de uma mulher não vem daí, vem de dentro, vem da cabeça e, não sei, mas pode até vir do coração. Tenho a sorte de geneticamente ter a vida relativamente facilitada mas, se fosse de raça peluda e tivesse que ter trabalho semanal ou diário, teria. Não concebo é despir-me e ter pêlos grandes debaixo dos braço ou nas pernas como um verdadeiro macho-alfa. 



Um cirurgião plástico, que não sei se é sádico se é humorista, anda a mostrar como deveriam ser as mulheres conhecidas se tivessem deixado a natureza pregar das suas. Chama-se Julian da Silva e, na volta, tem costela tuga. Usa um software, o Future Face, que não sei se é o mesmo que há tempos por aí andou mas que pega na imagem duma pessoa aos vinte ou aos trinta e aplica-lhe o peso dos anos para antever como é que a coisa despencaria. 
[Pronto. Fui pesquisar e é coisa que há por aí free e, se quisesse, até fazia agora o download da app. Mas vade retro. Tenho tempo de me ver velha, era o que me faltava ver-me já com cento e trinta anos]. 
Bem.

Mas o que o fulano faz de maldade é que depois contrasta o que deveria ser e o que agora é, depois dos liftings, dos botoxes, dos esticamentos, dos repuxanços, dos revampings, dos arranjos de pálpebras, das reduções e endireitamentos dos narizes, do enchimento das maçãs do rosto e do queixo, sei lá.

E eu, vendo as imagens, fico com mixed feelings até porque, mesmo sem querer, penso em mim. Quando me vejo ao espelho constato como há rugas que se vão instalando e dou por mim a pensar se faria sentido deixar de tê-las. Se calhar faria. Mas, passado algum tempo, outras haveriam de nascer e ia outra vez refazer-me? Acho que não. Para quê querer parecer ter sempre trinta anos? Não me parece que faça grande sentido. O que acho que faz sentido é uma pessoa ir festejando os anos, feliz da vida por tê-los, feliz da vida por vivê-los. E estar sempre disponível para começar cada dia como se fosse o primeiro, sempre disponível para sentir o encantamento das coisas novas, sempre com vontade de ir à descoberta. Mas, lá está, isso sou eu.

E agora já chega. Passa das duas da manhã e daqui a pouco tenho que estar, outra vez, a pé.

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Lá em cima as imagens mostram trabalhos de Noronha da Costa ao som de Some kind of love pela Kate Wolf.

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Uma happy friday

sexta-feira, janeiro 03, 2020

Relato dos meus dois primeiros dias do já glorioso 2020
com reportagem fotográfica do 1º dia, cá em casa







Hoje, ao regressar ao trabalho, depois de longos dois dias de férias, toda a gente me perguntou se tinha passado bem o ano. Como desde há muito aprendi que não vale a pena a gente agarrar-se a insignificâncias, guardei para mim o que, a todos, me apetecia perguntar: 'Refere-se a se passei bem o ano 2019? Ou seja, se o ano passado foi bom? Ou quer simplesmente saber se a passagem de ano, o exacto momento em que saímos de 2019 e entrámos em 2020, foi bom?'. Portanto, não verbalizei a dúvida e limitei-me a dizer que foi bom, foi sim senhor. O último, mal eu disse que sim, passou para si próprio e disse-me: 'Eu também. E também fui para a terra, juntei lá a malta toda.'. E eu voltei a guardar para mim a dúvida: 'Também foi para a terra? Também porquê?' É que não fui para terra nenhuma, fiquei em casa. Mas, pronto, não estou para incomodar as pessoas. Se eu fosse por aí passava a vida a desmontar vícios de raciocínio. A vontade que às vezes tenho de dar uma aula prática sobre silogismos... Mas, na volta, eu é que ainda passava por maluca por isso está quieto ó preto.
Ai, credo, que expressão mais estúpida de que me fui lembrar. Soa a racista. Que coisa. Acho que já nem se diz. Deve ter caído, e justamente, no desuso onde se juntam as bocas politicamente incorrectas. Nem sei porque é que agora me lembrei de escrever uma coisa destas. Devia era apagar. Mas não me ocorre uma expressão equivalente. Está bem abelha não tem o mesmo significado. Bem. Se me ocorrer, subsitituo; e apago esta conversa toda.

Adiante. 

Passei o dia de Ano Novo cá em casa. Temos isto: abrir o ano todos juntos cá em casa. Gosto mesmo. Cozinhar para a malta toda, andar em stress a ver as horas a passar, eles todos quase a chegarem e eu ainda com tanto que fazer, o meu marido furioso por eu me pôr sempre a fazer tanta coisa, que só complico em vez de facilitar, eu a querer que ele vá preparando as tapas ou coisas assim em vez de estar a chatear e ele, porque teme o caos no meio do qual me movimento bem, a querer lavar a louça que vou sujando a grande velocidade. E eu, à última hora, sem saber se as coisas vão ficar boas porque, como sempre, invento as receitas. E a ver o tempo a passar e ainda a querer ir tomar banho, vestir-me, pôr um discreto smoky look nas pálpebras superiores, dar um jeito no cabelo, quiçá dar-lhe com o secador para não abrir a porta com o cabelo a escorrer. E a olhar para o relógio e a achar que já não vai dar.


Mas a pica dá-me para acelerar e, quando chegam, estou sempre pronta e a comida (quase) toda pronta. Desta vez houve este irritante quase. Tinha decidido fazer uma espécie de pão de alho. Mas com o forno cheio desde manhã com salmão sobre cama de lascas de pêra, com arroz de carnes e com bola folhada de paté home made (noutro dia logo digo como fiz), só consegui lugar para o dito pão já eles estavam mesmo quase a chegar. É que, ademais, só teria graça se estivesse quentinho. Mas a gaita é que não consigo fazer as coisas de forma normal. Lembrei-me de comprar duas bases de pizza. Só que aquilo é fininho, fininho, um rolinho de massa que não é fácil de desdobrar. O rolinho vem estendido, enrolado sobre uma folha de papel vegetal. Só que para pôr na grelha do forno sobre o dito papel vegetal, deve pôr-se azeite entre o papel e a massa. Ora, ao despegar a massa para pôr o azeite in between, abriam-se buracos no raio da massa. Uns nervos, eu cheia de pressa e aquilo a abrir-se e a perder o jeito de círculo. Enfim, só visto. E, então, numa, por cima, pus azeite, alho picado (não muito), orégãos em folhinha seca e uns filamentos de alecrim. E noutra pus mozzarella e alecrim. Só que, de tão esticado aquilo ficou, uma ocupou toda a grelha do forno e a outra teve que ficar sobre um tabuleiro. E pôr aquilo no forno para não se desmanchar de vez...? Não dá para acreditar na ginástica. Percebi porque é que usam aquelas grandes espátulas, com cabo grande para pôr as pizzas no forno. Mas, pronto, a verdade é que ficaram boas. Cortou-se cada uma aos quadradinhos e, em menos de um foguete, já não havia quase nada. Mas só as tirei do forno já estava a maltinha toda em volta da mesa e eu gosto de, com eles amesendados, já estar tudo despachado e, desta vez, ainda não estavam estes finalmentes. 


Não sei se já contei que tivemos que comprar uma mesa adicional. Foi o mais parecido que encontramos com a outra mesa, a grande. Só que é ligeiramente mais baixa. Encosta-se à outra e fica um desnível. Mas não faz mal. Fica para os mais pequenos.

Ou seja, o primeiro dia do ano foi muito feliz, foi como gosto dos dias felizes, um dia alegre, cheio de bons auspícios (seja lá o que isso quiser dizer).

À tarde, enquanto brincavam, conversavam, jogavam bingo, faziam puzzles, andavam às lutas, confraternizavam, riam e etc. eu andava a fotografá-los. Já não ligam, não sentem que eu os estorve. E eu vou registando estes momentos bons. 


Quando, já noite, se retiraram, nós ficámos a repôr o décor e, nessa faxina, como sempre, fui descobrindo despojos que me fazem rir, coisas que guardo com carinho.

Já de tarde tinha fotografado a loja que a menina mais linda montou, escrevendo que vendia molduras, acessórios e origramis e que só aceitava dinheiro de papel! mas, no fim, ainda achei um manifesto que foi colado num vidro onde um dos meninos protestava por não ter podido usar mais tempo a PS4 ou um cartaz feito numa folha a dizer: Ca lá boca, cantas mal!



Mas isto foi no dia 1, o dia inaugural.

No dia 2, dia de regresso ao trabalho, fomos almoçar a um centro comercial porque a camisa para o fim de semana que era, porque era, M, afinal não era o M coisa nenhuma mas, obviamente, um L. Depois fomos almoçar e, mal ele se raspou, queixando-se que já estava atrasado, eu olhei para o relógio e achei que o ano tinha que começar com todos os condimentos.

Então, jurando que ia numa platónica, só olhar, entrei na livraria. Mas, está bem abelha (aqui é que se aplica esta da abelha), platonismo não é coisa para mim. Nasci para pecar. Comecei por catrapiscar. Ia pensando: catrapiscar não tem problema, ainda cai na categoria do platonismo. Por fim, já andava a passar-lhes a mão pelo pêlo, depois a olhar com tentação, por fim já a espreitar-lhes as entranhas. E, finalmente, já a o acto estava a caminho de se consumar, já a chamar um figo a um, vi um outro que, provavelmente, por estar com um certo sentimento de culpa, me fez pensar que, para atenuar o pecado, devia arranjar também um para o meu marido. Refiro-me a um livro, bem entendido. E assim foi que, ao segundo dia do célebre 2020, saí da livraria com dois books na mão: um supostamente para mim, com o sugestivo nome de Um cavalo entra num bar, romance de David Grossmann, e outro, o tal quiçá para o meu marido, Mafia Life de Federico Varese. Quando lhe disse que tinha trazido o livro para ele, ficou muito admirado: 'Porquê?!'. Compreendo o pasmo: ainda não sabe que vai gostar.


Quanto ao resto, passei ao largo. Saldos all over, gente ajoujada com sacos e mais sacos, e, nas montras, soldes, rebajas, descontos, baixas percentagens, tudo com descontos de arrasar. E eu, queixo erguido, superior a essas tentações vãs e mesquinhas. Roupa barata? Quero lá eu saber. Como um mantra, ia, em pensamento, repetindo: Não preciso, não preciso, não preciso. Com as arrumações que fiz nos últimos dias do ano velho, ganhei várias peças de roupa que andavam esquecidas e que, sem enchumaços e lavadinhas, estão como novas.

Só que, já a caminho da escada rolante, deu-me o cheiro. Pensei logo: caneco, lá vou ter que pecar outra vez. Uma perfumaria. Olhei: descontos até 60%. Avancei que nem raposa a galinha. Sondei, farejei, rondei. Só que o mantra não me largava: não preciso, não preciso. E consegui: saí sem nenhum perfume. Vitoriosa, campeã do anti-consumismo. Mas, à saída, um da Gucci de que ainda não tinha ouvido falar: Bloom Ambrosia Di Fiori. Não sou apenas sensíveis a belos olhares, a sorrisos maliciosos ou a bons perfumes: sou também sensível a bons nomes. Levantei a tampa do tester. Cheirei. Pareceu-me bem. Pulverizei um pulso. Cheirei. Depois o outro. Cheirei. Depois, na despedida, uma generosa pulverização na echarpe azul com flores rosa e brancas em volta do pescoço. E assim me retirei: sem consumar o pecado mas com o cheiro dele em mim.

Resultado: toda a tarde andei com mixed feelings sobre o dito. Quando cheguei ao pé do meu marido, mostrou-se intrigado e, direi mesmo, muito pouco entusiasmado: 'Mas que raio de perfume é esse?'. Expliquei-lhe que me tinha perfumado à hora de almoço, com um perfume de teste. Abanou a cabeça, desconsolado. Não lhe parece bem que a mulher faça coisas destas. Mas obviamente não quero saber desses seus estados de alma. Agora uma coisa é certa: aquela ambrósia não me convenceu. Já do cavalo que entra no bar acho que vou gostar.


Posso ainda acrescentar que, enquanto ia na escada rolante, espreitei o blog e dei com o comentário de uma pessoa -- de quem não digo o nome para ele não voltar a sentir pudor -- a dizer que estava para disparar um link do post até ler a último parágrafo. Assim de repente, fiquei a pensar: ó caraças, devo ter escrito porcaria da grossa. O que terá sido? Ideia parva? Erro ortográfico cabeludo? Pontapé gramatical de dar dó? Pensei: caraças, tenho que tirar já isso a limpo. Para além da carteira ao ombro, tinha o bilhete e dinheiro para pagar o parque numa mão e estava com os dois livros no braço e o telemóvel na outra mão pelo que tive que parar não fosse haver desastre e ir tudo parar o chão, nomeadamente o telemóvel pela centésima vez.

Consultei o post e... oh la la: era simplesmente uma graça, uma modéstia envolta em sorrisos. Sorri também. Tive vontade de escrever logo ali que se deixasse disso mas depois receei que pensasse que estava a fazer-me ao link. Ou, pior, que com a falta de mãos com que estava, a resposta me saísse mal costurada e, portanto, fiquei quieta e segui para o parque. E a verdade é que ainda não sei o que responda.


A chatice, no meio disto tudo, é que hoje tinha uma coisa para dizer sobre os riscos do mundo e, para me levarem mais a sério, até ia invocar o que malta de Davos dixit. E agora é tão tarde que já nem sei o que faça, mais que certo terá que ficar para a amanhã ou para outro dia, um dia que não me ponha para aqui na palheta convosco sem dar pelo tempo a passar.

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E um belo terceiro dia do fantástico ano da graça de 2020