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sexta-feira, setembro 22, 2017

Claro que tenho que amar de paixão este homem





Não posso dizer que é um amor exclusivo. Não é. Não sou dada a isso. A um é pelo sorriso, a outro pela voz, a outro pela graça, a outro pelo físico, a outro pelo temperamento e sensibilidade, a outro pela insolência, a outro pela inteligência, a outro pela jovialidade, a outro pela patine. Claro que um ou outro quase faz o pleno e esses são merecedores de lugar no pódio.
E há um que não está em competição e que não entra cá nessas coisas de pódios e nestas conversas e que, de resto, acabou de ser avisado que eu ia escrever isto (e teve a reacção do costume: 'maluquices'). 
Mas, enfim, isto para dizer que lá por eu isto e aquilo, isso não quer dizer que o meu coração esteja fechado para os apelos que me chegam a toda a hora.

Mas também que não se pense que sou volúvel. Não, isso não. Sou toda dada a fidelidadades. Cá à minha maneira, bem entendido. Talvez deva antes dizer amores duradouros. Se gosto mesmo, gosto forever. Desculpo o resto e foco-me naquilo de que gosto. Sou muito focada, quero eu dizer.
Essa é a verdadeira explicação para me manter casada há mil anos com a mesma pessoa. Ignoro aquilo que não me agrada e embeiço-me com aquilo de que gosto. E vivo feliz. 
E deste outro que aqui hoje me trouxe também gosto desde que o conheci. Acho que pela voz. Ou por parecer um pouco esquivo. Ou por parecer que tem uma alma cheia de subtilezas. Ou por tudo, porque quando a gente gosta arranja sempre mais motivos para gostar.

Mas já cá volto para aprofundar.


Agora um apontamento sobre outra temática. Casas. Sou muito sensível a casas. Invado os espaços que habito, diz o meu marido. Sei que sim. Como um bicho que atapeta a toca, assim eu. Fiz tapetes, escolho almofadas, pinto quadros, descubro peças, milhares de livros, molduras, santos, espelhos, cadeiras e cadeirinhas, candeeiros, mesas e mesinhas, relógios e ampulhetas. Por todo o lado se vê a minha marca. Sei disso. Se vou ou vejo uma casa escura, mal arranjada, tudo sorumbático e mal jeitoso, mal pouso os olhos já eu estou a pensar que dali tirava aquilo, naquele espaço punha aquilo. E penso de acordo com o que penso ser o orçamento adequado. Tanto imagino decorações de alto coturno como na base da barateza. Tanto faz. Uma divisão grande quase vazia, paredes vazias ou com uns quadrecos quase junto ao tecto, móveis escuros ao pé de sofás escuros, portas de madeira escura, tudo escuro -- isso para mim seria mortal. Se tenho que estar em tal tumba só penso que não vejo a hora de apanhar ar fresco. Mas o contrário também me atrofia. No outro dia estivemos em casa de um casal das nossas relações e viémos de lá quase doentes. Uma moradia térrea enorme com uma cave do tamanho do piso. Cada divisão, enorme, estava cheia como um ovo. Uma coisa aterradora. Móveis bons, mas muitos, demais, mesas, camilhas, cadeiras e cadeirões, sofás e chaises longues, aparadores, escrivaninhas, estantes, vitrinas, um excesso que quase tornava o ambiente irrespirável, Na cave a zona das pistas, a zona dos relógios, a zona dos vinhos, a zona dos móveis velhos, a zona das ferramentas, a zona já nem sei de quê. Víamos aquilo e já nem pronununciávamos palavra. Nunca tínhamos visto tanta coisa, tanta, tanta, tanta. Um exagero. Assim não gosto. Gosto é de harmonia, elegância, luz, cor, tranquilidade.


Mas, agora que já fiz o supra intróito ao tema decorativo, volto ao dos homens -- mas agora postos em contexto. Um homem na sua casa. 

Por exemplo. Vamos supor que achava graça a um homem, uma graça mesmo de verdade e que um dia o via em casa. Imagine-se que era uma casa pirosa, descuidada, com pormenores de puro desmazelo ou mau gosto. Acabava logo ali. Logo.


Mas, então, portanto, ia eu dizendo.

Já não sei quando e onde foi que o vi a primeira vez. Se calhar foi no Apolo 70. Ele era o tenente francês e Meryl Streep a sua amante. E o que eram no filme trespassava para a vida real -- salvo seja. E eu, vendo-o, apaixonei-me logo ali por ele.

Se calhar não foi no Apolo 70, tenho agora ideia que deve ter sido no S. Jorge. A voz dele a invadir a sala e a vir alojar-se no meu coração.
(Tenho muitos recantos no meu coração, como já perceberam. À minha mãe é que ouvi dizer: 'no coração de uma mulher cabe sempre mais um'. Penso que o original deve ser 'de uma mãe' e referir-se a filhos. Mas a minha mãe, e bem, generalizou)

Depois, de vez em quando, via-o. Sempre aquela voz profunda, o corpo esguio e vibrante, aqueles olhos mal dormidos, aquela vontade de amar.

Revisitar o passado em Brideshead. A saudade, a melancolia, o afecto. A estética. Charles e Sebastien. Veneza.


Em Damage. Relações Proibidas. O amante da namorada do filho. Ela, Juliette Binoche. Um filme que retrata o desejo extremo, interdito até ao limite. E sempre aquele corpo que é um mero suporte para uma alma e para uma voz que se movem nas profundezas que existem logo abaixo da textura da pele.


Apenas três exemplos. Lembro-me de vários outros mas não quero maçar-vos com os meus gostos que, nestas coisas, gostos não se discutem.

Pois bem. Deste homem de que tanto gosto soube agora mais uma coisa. A cereja que faltava em cima do bolo.

Conto: parece que Jeremy Irons andava a sentir uma crise de criatividade. Viu um castelo abandonado no meio da água e teve vontade de o restaurar e dele fazer a sua casa. Foi uma obra de uma vida. 

How Jeremy Irons Rescued and Restored a 15th-Century Irish Castle.

In the midst of a creative crisis, the British actor impulsively purchased Kilcoe Castle, a long-abandoned fortress near the water. David Kamp learns how a magical retreat came to be.


[From left, the castle before Irons began restoration, 1997; renovations in progress, 2001; a roof over his head, 1999.]

Pois, pois, é para quem pode -- dirão os cépticos. Pois, pois, direi eu, que há quem, com dinheiro, se enfie num apartamento forrado a ouro enquanto o Jeremy fez um milagre. E eu, que não aprecio os feitos das santas milagreiras, toda me derreto com as graças dos pecadores dads a milagres como este que aqui vos mostro.


Podem ler um artigo interessante sobre o tema na Vanity Fair mas, para os mais apressados, deixo aqui um excerto. 
Irons, I learned after two days at his side, is a man serenely comfortable in his own skin. He speaks without inhibition and does whatever he feels like doing, whether it’s sailing his yawl, the Willing Lass, heedlessly through the stiff gales of Roaringwater Bay, driving the local roads in his pony trap (his preferred, Anglo-Irish term for a horse-drawn carriage), or interrupting his houseguests’ sleep with theatrical wake-up announcements delivered through the intercom system that he rigged up to reach all the rooms in the castle. At the time of my visit, he had two friends staying over, both women. “Good morning, ladies!,” he intoned through the intercom, his plummy Jeremy Irons voice echoing throughout the ancient building. “It’s a lovely day. The sky is dry; the wind is low. Please come down to the smell of burning toast.”
After we had finished eating, Irons asked his guests to gather around in the conversation pit, where Gavin played a couple of songs and told a few groaners. Irons jumped in to tell a few of his own. Collins stood up, pre-emptively apologized for his singing voice, and delivered a heartfelt a cappella version of “The Banks of My Own Lovely Lee,” Cork’s de facto county anthem. Even the slight, shy Whooley performed a set piece, a from-memory recitation of “The Priest’s Leap,” a 74-line Irish-nationalist poem held dear in Cork, about a defiant cleric who, on horseback, miraculously evades a pursuing battalion of nefarious English soldiers. Irons, in his flowing robe, took it all in mirthfully, having evidently banished forever the cold, passionless Anglo-Saxon part of himself.
Outside, it was a stormy night, with lashing rain and flattening winds. But you wouldn’t have known this inside Kilcoe, where the fire crackled, the hum of conversation drowned out the gusts, and the towers didn’t even sway. “There’s something about the castle that generates the most extraordinary energy,” Irons said to me. “Everybody stays up ‘til three, four in the morning—talking, listening to music, drinking. You just want to go on, go on. It takes a bit of getting used to, this place. Because it does somehow produce an energy. Have you felt it?”

Leio o artigo e vejo as fotografias e penso que com este homem e a sua casa eu construiria um romance. E talvez do romance fizesse um filme. E nesse filme bastaria ele e a sua casa, e a sua voz, e o silêncio, o ladrar alegre do cão ou o rumor das águas.




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E uma sexta-feira feliz a todos quantos por aqui me acompanham.

E obrigada pela vossa presença aí desse lado.

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domingo, junho 11, 2017

In heaven, entre pequenos lobos, longe do Parque e com os primos da Princesa Margaret





Por incrível que possa parecer, este ano ainda não fui à Feira do Livro. 

Durante a semana é o que é e ao fim de semana zarpamos para o campo e a maltinha toda cá connosco. A casa cheia, uma alegria em permanência tanta a brincadeira, os jogos de futebol, as mangueiradas, todos a varrerem e a apanharem folhas secas, a mesa curta para tanta gente, nós sem sabermos bem o que comem, a estimarmos por cima, e, no fim do dia, espantados por ter sobrado tão pouco, que comem cada vez mais, senhores (e rimo-nos, satisfeitos por vê-los assim, lobinhos esfomeados e cheios de vida, a crescerem a olhos vistos). Por exemplo, o pão. O meu marido de manhã estava na dúvida sobre a quantidade de pão. Eu disse: para aí umas oito ou dez bolas. Eu não como, um miúdo sozinho não come uma bola daquelas, é um grande pão, e os crescidos pouco pão comem, acho eu. Oito ou dez é à vontade. Ele disse: Pode ser pouco. Mas é uma chatice porque se não lhes dá para comer pão, fica aí pão para um mês. Mas no mínimo doze. Afinal, por via das dúvidas, trouxe dezasseis. Achei um exagero, umas saconas enormes cheias de pão. Disse-me que dava já para domingo. Eu não como pão mas ele come. Agora que saíram todos, já jantarados, ao arrumarmos a cozinha, diz ele: Sobraram cinco bolas. Estás a ver, se tenho comprado só oito ou dez?


É verdade. Uma pessoa já tem dificuldade em avaliar. De manhã, chegámos carregados com sacos do supermercado. O frigorífico ficou cheio. Agora está quase limpo. Fico contente. Gosto de vê-los a comerem de gosto. Para o almoço trouxémos peixe, douradas grandes e, em especial para mim, carapaus (gosto muito de carapaus, em especial dos grandinhos), que o meu filho assou lá fora. Quando, antes, tinha perguntado o que queriam para o almoço, a resposta foi a habitual: 'Qualquer coisa. Nada de complicações. Peixe, batatas, salada.'. Fiz também legumes (feijão verde, brócolos, cenouras) e, em vez de apenas batatas simples, também batata doce. E salada de tomate e alface.

Mas, estava o meu filho a assar o peixe, entra o mais pequeno (mais pequeno, não incluindo o bebé, claro): Há tremoços? E eu: Não... Lá foi dizer ao pai que não. Passado um bocado, aparece de novo: O pai diz que já podes dar o chouriço para ele assar. E eu, desolada, Oh amor, não trouxe chouriço.... Lá foi. Passado um bocado, apareceu, foi ao frigorífico buscar uma mini para o pai e disse: E azeitonas, também não tens...?.  E eu, infeliz, que não. Só pãozinho com manteiga. Sempre isto, que eu não complique, que me limite ao básico e, no fim, querem sempre o que não há...

Mas o peixe estava bom, no ponto, e as batatas e os legumes e a salada e a fruta, bem boas. Ao lanche iogurtes, fruta, pão com queijo, sumo. E, para o jantar, caracóis, salada de polvo, tortilha à espanhola, salada de atum com feijão frade, queijo fresco e, lá está, também pãozinho. E fruta. 

Por enquanto, o bebé partilha o convívio apenas indirectamente, já que ainda não se senta à mesa, não joga futebol ou toca guitarra. Sempre na maior, gordinho e sorridente, de colo em colo, sempre feliz com a animação, dá aos pézinhos e aos bracinhos, ri e palra enquanto olha para irmãos e primos. Lá fora, anda de boné, lindo e fofinho. Ainda não pode apanhar sol. Fez quatro meses agorinha mesmo. Depois, dá-lhe o sono e dorme belas sestas de que acorda para mamar até deitar por fora. Os mais crescidos, volta e meia aproximam-se, dão uma vista de olhos, de vez em quando beijam-no e prosseguem a brincadeira.

A mana tinha trazido caderno e livros para fazer os trabalhos de casa e preparar-se para os testes. Temperamental que nem a avozinha quando tinha a idade dela, a coisa facilmente derrapa para a zanga. Escrevi uma história em três linhas onde se dizia que 'a Princesa Margaret tinha ido ao circo com a mãe e com os primos. O cão Quicas também tinha querido ir mas não o deixaram. Por isso, ele foi às escondidas'.  Ela leu. Depois as perguntas de interpretação. Numa delas, escrevi: Com quem é que a princesa Margaret foi ao circo? Ela escreveu: A princesa Margaret foi ao circo com a sua mãe e com o seu cão. Eu disse: A resposta está incompleta. Ela cruzou os braços à frente do peito e disse: Não está nada. Eu disse: Lê outra vez a história. Ela recusou-se. Disse-lhe: Então deixa. Vou fazer outra pergunta. Ela aceitou de bom grado. Escrevi: Os primos da princesa Margaret são invisíveis? Ela leu a pergunta e, no fim, furiosa, pousou o caderno e arrumou o lápis, dizendo: Não faz sentido! E levantou-se, agastada.

O meu filho disse: Não é assim que se consegue alguma coisa dela. Foste provocá-la dessa maneira...


Tem 6 anos, anda no 1º ano, é excelente aluna - mas uma força da natureza que não se dobra com facilidade. Tirando isso, é uma doce, meiga, coquette, uma capacidade de apreensão e uma memória estonteantes.

Mas, portanto, para dizer que, com tudo isto, não tenho tempo e, verdade seja dita, também ainda não senti verdadeira motivação para ir à Feira do Livro. Tanta tralha vendida como se fosse livro, tanta barafunda, anúncios aos microfones como uma feira de diversões. aquele número que me parece sempre meio triste de alguns autores ali ao abandono. Não sei. Devia ser capaz de lá ir um dia de semana mais à noitinha mas não sei. O excesso cansa-me um bocado, parece que fico sem muita paciência para andar a garimpar no meio daquele pechisbeque. Dantes, long, long ago, passava primeiro por lá para as primeiras oportunidades e para recolher catálogos. Depois, em casa, fazia uma selecção. Depois voltava com uma lista, pavilhão a pavilhão,  e regressava carregada de sacos. Agora já não me dá para fazer nada disso. Mas, enfim, a ver se, antes de acabar, lá dou uma saltada. Parece que, se não for, estarei a trair este meu amr aos livros.

Enfim. Entretanto, o sono está a chegar e ainda quero ir ali espreitar o Versailles na 1, antes que acabe. Portanto, para já é isto e pode ser que, daqui a nada, ainda cá volte. Não é que tenha alguma coisa de escaldante para dizer mas, enfim, parece que estou com vontade de escrever mais.

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Um feliz dia de domingo

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sábado, março 12, 2016

Malucos, dementes, dependentes e a minha amiga psiquiatra. E a diva Kotleta.





Já falei algumas vezes daquela minha amiga psiquiatra que, sempre que me gabo que ela acha que eu sou a pessoa mais equilibrada que conhece, faz o meu marido encolher os ombros e dizer 'Olha quem'. É que ele acha que ela é maluca.

Há algum tempo que não estou com ela mas tenho algumas saudades. É tão maluca, diz e faz coisas tão malucas, que eu lhe acho mesmo graça. Sendo uma mulher muito bonita, toda ela bonita, rosto, corpo, e com um timbre de voz mesmo bonito, tem coisas mesmo parvas. Uma vez, no verão, foi buscar-me ao emprego. Fomos de carro, um carro desportivo, baixo, e eu ao lado dela. Ela com uma saia justa, curta, uma blusa bonita, saltos altos. Nessa altura, tinha o cabelo quase curto, cabelo claro, os lábios pintados de encarnado: aquele género de mulher que dá nas vistas. Ela ao volante, eu ao lado dela. Então olho para as pernas dela e nem quero acreditar. Tinha depilado as pernas até mais ou menos à altura da saia. Ora a saia, sendo justa, e o banco rebaixado, ao sentar-se, a saia subia e ficava um bocado de perna à vista e, horrível, com pelos. Fiquei escandalizada: 'Bolas! Mas então o que é isso?' E ela, admirada, 'O que foi...?' Respondi, zangada: 'Mas tu não atinas? Que disparate. Porque não te depilas como deve ser, ó caraças?' E ela, muito admirada: 'Mas vê-se?'. E eu 'Estás maluca? Mas não tens olhos? Caraças, que coisa mais sem jeito. Ou depilas as pernas todas ou não usas saia curta!' E ela 'Achas? É que não gosto nada de me depilar, depilo só o necessário. Mas pronto, logo depilo'. E eu, espantada 'Olha lá, e vais trabalhar assim? Já toda a gente deve ter visto essa parvoíce'. Parvoíces assim; e esta deve ser das menores. Lembro-me que, nessa altura, o meu marido desvalorizou. Limitou-se a comentar: 'Mesmo que vejam. Tudo malucos como ela'.


Posso, por vezes, ficar chocada mas, de facto, as pessoas que agem e pensam de forma diferente da minha intrigam-me, de certa forma fascinam-me.

Mas há casos que não têm graça nenhuma.

No outro dia, um amigo meu, pessoa das mais íntegras que conheço, estava, uma vez mais, a falar comigo do grande problema que tem com o filho. É um problema sério e eu, porque tenho sempre algum receio que alguém se reconheça a partir do que aqui escrevo, não vou falar nisso em concreto, é tema sensível e doloroso. Mas o meu amigo dizia-me que, desde que se tinham apercebido desse problema do filho, a vida dele mudou, a dele e a da mulher. Diz-me que se sentem muito tristes e preocupados, perguntando-se onde é que falharam e, especialmente, como puderam ser tão cegos que não deram conta daquele problema. O filho conseguiu camuflar um problema grave durante anos e uma coisa tão séria e tão óbvia passou-lhes completamente ao lado. Poderá dizer-se que os pais agora ligam mais ao trabalho do que a quem está perto deles, que a vida dos filhos é relegada para plano secundário. Mas não é o caso. Tenho encontrado, ao longo da minha vida, pessoas excepcionais, de uma integridade e de uma franqueza inabaláveis. Este meu amigo é assim. Ele é daqueles em quem confio incondicionalmente. E ele retribui essa confiança. Ao falar comigo, abre o seu coração sobre qualquer assunto, sem qualquer reserva. Por vezes, teve problemas pessoais e profissionais por ser tão inteiro, e eu, contra ventos e marés, sempre estive ao seu lado. 

E, quando ele precisava de arranjar um trabalho para o filho porque o rapaz andava em maré de 'pouca sorte' e a precisar de um qualquer arrimo, ainda não se desconfiando de nada, movi mundos e fundos para lhe arranjar um estágio que, acima de tudo, era um estímulo, um amparo, uma preparação. O estágio falhou e foi porque eu me interessava pelo rapaz e os meus colegas que o acompanhavam perceberam esse meu cuidado, que me alertaram para que havia qualquer coisa de errado e eu, preocupada, avisei o pai. Foi um choque, o mundo a desaparecer-lhe sob os pés. Diz-me este meu amigo que a vida dele e a forma como passou a olhar o mundo mudou radicalmente desde que esta situação se tornou indisfarçável. No outro dia estive mais de meia hora ao telefone com ele e senti tanta, mas tanta, tanta, pena. Um homem que chefiava centenas de pessoas, tantas vezes em situações difíceis, em períodos complexos, e ele sempre firme como um rochedo - e agora, ao telefone, frágil, inseguro, triste. 

Às vezes na brincadeira, quando alguém nos conta um dissabor, podemos dizer 'antes isso que partir uma perna'. E a verdade é que é mesmo assim: tanto drama que, por vezes, se faz em torno de uma ninharia à toa, quando, de repente, do nada, pode aparecer um facto nas nossas vidas que nos abale os alicerces, nos retire a alegria de viver.

Ando com vontade de lhe ligar para saber que é feito do rapaz, se terá ido a alguma consulta lá com a minha amiga psiquiatra, que eu recomendei. Mas, cobarde, cobarde, tenho receio que não esteja a resultar, que as coisas estejam piores e custa-me tanto pensar na reviravolta terrível que a vida do meu amigo levou. Tomara que esteja melhor e que a maluca da minha amiga psiquiatra, se ele lá foi, esteja a dar conta do recado.

Agora que estou a falar nisto, estou a lembrar-me de uma amiga que me contou que a mãe, a quem foi diagnosticado Alzeihmer, tem coisas cada vez mais do além. Uma vez que ela foi ver a mãe, levava uma caderneta de cromos para os filhos e calhou abrir o envelope ao pé da mãe. A mãe delirou com aquilo e quis ficar com o saquinho com os cromos. E agora, sempre que a filha lá vai, toda contente, quase corre para ela a perguntar: 'Trouxeste a minha surpresa?'. E, portanto, de cada vez que lá vai, tem antes que ir à tabacaria a ver se têm cromos. Em tempos, a mãe não tinha aprovado a escolha do namorado, foi uma guerra, quase cortou relações com ela, por pouco nem iam ao casamento da filha. E agora ali está, diminuída, à espera que a filha chegue com a surpresa. A minha amiga conta isto com tristeza. Custa-lhe tratar a mãe como se fosse uma criança mas não vê maneira de agir de outra maneira.

Não difere muito do que se passa com o meu pai. Homem orgulhoso, enérgico, saudável, habituado a ter uma vida boa, absolutamente independente, ao ter o AVC que o deixou completamente dependente, tem vindo progressivamente a perder a lucidez. Bem, não é bem assim. Tem dias em que está sempre completamente lúcido. Ainda no fim de semana passado, com netos e bisnetos, completamente bem, a falar, a conhecer todos, os nomes dos miúdos, sem qualquer problema. Mas ou porque a medicação, volta e meia, o deixa atarantado ou porque a quase completa falta de visão ajuda à festa, ou porque o processador, às vezes, tem um bug (que, depois de dormir, desaparece), a verdade é que, a par da incapacidade motriz, tem, de vez em quando, momentos de grande perturbação. Hoje, à hora de almoço, quando liguei, a minha mãe disse-me que ele estava desaustinado e que queria falar comigo. Então, lá lhe passou o telefone. É sempre um desatino, porque diz que não me ouve bem, fala enquanto eu falo, uma confusão. Mas hoje não, hoje ouvia quando eu falava e falava quando eu dizia 'Diga lá, pai'. Então, com a voz um bocado entaremelada, disse-me que a minha mãe é uma teimosa, que não o deixa ir para o jardim e que ele queria ir para o cadeirão da sala mas que o tinham deixado ficar ali e que ele já só queria ir para a sua 'caminha' que nem se importava de ficar na 'caminha' até ao fim da vida, mas que eu tinha que lá ir, para ver o que se passava -- e continuou neste registo, sem eu perceber algumas passagens. Pedi para passar o telefone à minha mãe. Perguntei: 'Mas, afinal, o que se passa?'. Diz a minha mãe, 'Mas não percebeste o que ele disse? Acha que está caído no chão. E quer que eu o levante ou que chame alguém para o levarmos para a cama e, por mais que eu lhe diga que na cama está ele, não acredita, fica todo zangado, diz que eu sou teimosa e que tu é que tens que vir cá para resolver isto'. E eu, ouvindo aquela barafunda toda, fiquei cheia de pena. Já nem me parece o meu pai, já pouco tem do que era o meu pai antes disto.

Há bocado, quando liguei de novo, já estava normal. Tinha dormido a sesta e acordado normal, nem se devia lembrar das confusões de antes. A minha mãe já se habituou: 'É assim, nada a fazer'. Pois é. Mas custa.


A qualquer momento, a qualquer de nós, pode acontecer uma coisa destas, ou a nós ou aos nossos. E temos que saber aceitar e, enquanto isso não acontece, devemos viver, gostar de viver, aproveitar a vida, viver bem, sentindo-nos agradecidos por estarmos bem.

Dito assim parece conversa oca. Mas sinto tanto isto, tanto. Cada vez mais.

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Bem. Não quero que isto soe tristonho até porque não estou triste. De qualquer forma, pelo sim, pelo não, que entrem os meus amigos do circo voador.

A tradução é miserável o que ajuda a que a coisa fique ainda mais absurda.

Dr Larch, o Psiquiatra - pela mão dos fabulosos Monty Phyton


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As fotografias da gata Kotleta são da autoria de Kristina Makeeva 

Nelson Freire interpreta Arabesque Opus 18 (C) de R Schumann

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Mas, já agora, deixem que manifeste a minha perplexidade. Ontem contei-vos que uma coisa que escrevi em Outubro de 2014 sobre a Cristina Ferreira, amiga de Marco António Costa e de outros ilustres barões do PSD, tinha tido, nas 24 horas anteriores, para cima de mil e tal visitas, não foi? Pois, imagine-se que juntando com as visitas de hoje, já vai em mais de 3.000. Curioso.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito bom.