Se souberes o que dizem as árvores, talvez aprendas a dar sombra para que encostado ao teu corpo adormeça o animal cansado, e nos teus braços pousem aves cujo canto replicarás com frutos, tu já metamorfoseado no vital conhecimento da resina, da cortiça, das folhas caídas como células onde poderemos encontrar, assim tenhamos ciência para tal, a raiz que nos expulsou do paraíso. (...)
(...) Talvez se souberes o que dizem as árvores saibas também dizer vento, afagando a brisa com o pólen da flor que surde majestosa na ponte de cada um dos dedos inúmeros que uma árvore oculta. Tronco onde um dia cinzelámos o verso da única medalha que alguma vez nos foi atribuída, não por mérito nem por singela participação, mas por esforço em nos mantermos de pé e verticais como a árvore ensina.
O que tentam dizer as árvores
No seu silêncio lento e nos seus vagos rumores,
o sentido que têm no lugar onde estão,
a reverência, a ressonância, a transparência,
e os acentos claros e sombrios de uma frase aérea.
E as sombras e as folhas são a inocência de uma ideia
que entre a água e o espaço se tornou uma leve
integridade.
Sob o mágico sopro da luz são barcos transparentes.
Não sei se é o ar se é o sangue que brota dos seus
ramos.
Ouço a espuma finíssima das suas gargantas verdes.
Afinal na outra noite pouco deu para ler o Butcher's Crossing. Este fim de semana peguei nele e peguei também num outro, pensando ir petiscando deste segundo e, como pièce de résistance, ir degustando o primeiro. Mas as coisas (não profissionais), comigo, não costumam ser bem como as penso - quando me deito a ler, ou adormeço ou nem lá chego, metem-se outros programas. Também, verdade seja dita, não me forço a coisa nenhuma (a nível não profissional, uma vez mais). E, portanto, acabei por me ficar, e fiquei de gosto, pelos petiscos.
O livro a que me refiro é Think Like an Artist (... and lead a more creative, productive life) de Will Gompertz.
Gostando eu de ler livros sobre arte, estava curiosa sobre este; e, de facto, foi uma agradável surpresa.
Para que se tenha uma ideia sobre o que versa, traduzo o título dos seus capítulos:
A flagelação de Cristo de Piero della Francesca, 1458-60
1. Os artistas são empreendedores [com referências a Andy Warhol, Vincent van Gogh, Theaster Gates]
2. Os artistas não falham [com referências a Bridget Riley, Roy Lichtenstein, David Ogilvy]
3. Os artistas são verdadeiramente curiosos [com referências a Marina Abramovic, Gilbert & Gilbert, Caravaggio]
4. Os artistas roubam [com referências a Picasso]
5. Os artistas são cépticos [com referências a J.J. Abrams, Piero della Francesca]
Ski Jacket, Peter Doig, 1994
6. Os artistas pensam no todo e no detalhe[com referências a Luc Tuymans, Johannes Vermeer]
7. Os artistas têm um ponto de vista [com referências a Peter Doig, Rembrandt, Kerry James Marshall]
8. Os artistas são corajosos [com referências a Michelangelo, Ai Weiwei]
9. Os artistas param para pensar [com referências a David Hockney, Marcel Duchamp]
10. Todas as escolas deveriam ser escolas de arte [com referências a Bob and Robert Smith]
11. Pensamento final
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Tão interessantes são os diversos temas abordados que, a cada capítulo, me deu vontade de aqui falar sobre ele. Contudo, não dá, tenho que escolher um. E escolho o capítulo que refere que os artistas, por norma, não criam a partir do nada e aproveitam, de alguma forma, as experiências e as conquistas dos que os precederam.
Não vou ser exaustiva pois este não é um espaço que se compadeça com tratados. Vou antes transcrever algumas citações ou mostrar alguns dos pontos sobre os quais se fala nesse capítulo 4 já que é um tema que me interessa bastante.
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"Não há nada de novo debaixo do sol" - Eclesiastes 1:9
"Os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam" - Picasso.
A frase de Picasso foi roubada a Voltaire que, dois séculos antes, disse: "A originalidade não é senão uma judiciosa imitação"
"Se eu vi mais longe foi porque me ergui sobre os ombros de gigantes" - Isaac Newton
"Criatividade é saber como esconder as suas fontes" - Albert Einstein
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Como exemplo de obras inspiradas por outras, limito-me a dois ou três dos exemplos referidos no livro, justamente relativos ao Picasso dos primeiros tempos e que fizeram parte de uma exposição que deve ter sido espantosa: Becoming Picasso, e sobre a qual mostro abaixo um vídeo:
Pablo Picasso, Bailarina anã (1901)
que terá sido inspirada pela seguinte escultura de Degas (à qual Picasso deu um certo toque de flamengo):
Refere-se ainda que Steve Jobs, o co-fundador da Apple, citava Picasso naquilo de 'os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam' antes de dizer que "Nós (na Apple) nunca tivemos qualquer vergonha em roubar grandes ideias". O New York Times refere que a Apple estimula os seus designers a depurarem as linhas e as formas, mostrando-lhes a série de 11 litografias de Picasso (1945) na qual ele parte de uma representação naturalista de um touro, evoluindo até uma representação quase abstracta.
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No domínio da literatura, fala-se na disrupção social que começa frequentemente por ser interdita para, mais tarde, se tornar admissível. O exemplo referido é o romance de D. H. Lawrence, O amante de Lady Chatterley, cuja versão integral se manteve banida no Reino Unido até 1960 devido à linguagem explícita na descrição de cenas sexuais.
Para ilustrar, em vez da transcrição de um trecho do livro, opto pela adaptação para cinema e, embora goste imenso da versão francesa, de Pascale Ferran, mostro o vídeo de anúncio da nova versão da BBC.
Lady Chatterley's Lover: Trailer
Will Gompertz diz que, aproveitando a onda de permissividade que, entretanto se formou após a autorização da versão completa de Lady Chatterley's Lover, a Philip Larkin já lhe foi possível usar linguagem sexualmente explícita, como é o caso do seguinte poema de 1971 (cujo título, de resto, foi extraído do poema Requiem de Robert Louis Stevenson)
This Be the Verse de Philip Larkin (lido pelo próprio) - poema do qual extraí o actualíssimo título deste post
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O tema é aliciante mas forço-me a atalhar porque o post já vai extenso, muito para além da conta. Contudo, como acima referi, deixo-vos ainda com um pequeno vídeo da exposição que decorreu em 2013 na The Courtauld Gallery
Já agora, à laia de apresentação de Will Gompertz, mostro também um vídeo feito a propósito do lançamento do seu livro anterior:
What are you looking at?
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Maravilhoso o mundo da arte.
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O essencial é ser comovido, amar, ter esperança, estremecer, viver - disse Auguste Rodin (e talvez tenha razão)
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Muito gostaria ainda de receber a vossa visita no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje vou pela mão de Gastão Cruz ao som de sinos que cruzam esta noite de chuva intensa.
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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
A todos desejo sorte, saúde, amor e dinheiro para os gastos.