Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, janeiro 31, 2019

Jardins e suspiros





Tanto trânsito, tantos acidentes. A grande e bela cidade tem isto de mau: muitos carros em circulação. E, quando vem a chuva, vêm os acidentes. Hoje passei por vários. Felizmente, não vi feridos. Num deles, dois carros amachucados e uma mota literalmente desfeita. Impressionante o estado em que estava a mota. Mas não havia ambulâncias, apenas pessoas com coletes, trocando informações. Por isso, porque olho e não vejo sofrimento, não me compadeço. E repare-se que digo que olho não porque me detenha a olhar, empatando ainda mais o trânsito, mas porque, dada a redução de vias, quem conduz não tem outro remédio senão ir a passo. E o que acontece é que uma pessoa, às tantas, só quer é poder chegar ao destino a tempo e horas e já fica é furiosa por não o conseguir, enredada naquele horrível pára-arranca. Quer-se lá saber se é só chapa ou se algo mais, quer-se é passar ao largo e seguir viagem. E digo isto com total franqueza, sabendo que pode parecer insensibilidade, porque a verdade é que tanto tempo perdido todos os dias já nos torna impacientes, indiferentes. E, no entanto, quem se vê metido nesses assados também não tem culpa, não o faz de propósito.


Naquela altura em que parecia que tinha uma nuvem negra a pairar em cima de mim, maçadas e pressões por todo o lado, na mesma semana bateram-me duas vezes por trás, escaqueirando-me o carro. Numa das vezes foi de tal forma que o meu carro saltou e foi espetar-se no da frente, ficando o carro também espatifado à frente e até de lado, tal a violência do impacto. A seguradora chegou a equacionar perda total. Em qualquer das vezes eu estava parada. Em qualquer dos casos, quem me bateu, fê-lo por distração. No primeiro caso, o rapaz viu abrir o verde para a fila do lado e pensou que era também para ele, avançando à confiança. Três dias depois, foi um homem de uns cinquenta e tal anos que, passado um bom bocado, quando conseguiu sair do carro, apenas me disse: há dias em que uma pessoa não devia sair de casa. Pediu-me muita desculpa, perguntou-me várias vezes se eu estava bem. Estava enervado, preocupado. Tinha os óculos partidos, a cara e a camisa cheias de sangue, parecia ter o nariz partido. Presumo que, com o impacto, tenha disparado o airbag e lhe tenha feito todo aquele estrago. Não consegui perceber como foi possível aquilo. Estávamos parados e, de repente, o carro veio bater-me com aquela inexplicável violência. O do carro da frente também estava espantado com o que tinha acontecido mas o causador não se explicou, apenas pediu muita desculpa, aparentemente também sem perceber o que lhe tinha acontecido. O que sei é que durante uma meia hora ali estivemos a atrapalhar o trânsito e a atrasar a vida a muitas dezenas de pessoas. Por acaso, agora estou a lembrar-me que nem me lembrei de vestir o colete. Aliás, estava muito vento e os papéis voavam todos. Uma chatice. Quando liguei ao meu marido e lhe disse: 'Bateram-me outra vez' ele fez um tom de voz preocupado, como se fosse o cúmulo da pouca sorte, como se ficasse receoso do que poderia vir a seguir. Como não sou fatalista, não me preocupei demais, fiquei foi arreliada por tanta maçada na mesma semana.


Depois de almoço fui a um sítio sem estacionamento próprio mas com um parque público subterrâneo ao pé. Pois estava completo. Tive que ficar à espera que um carro saísse para que a cancela levantasse. A seguir, tive que dar várias voltas, em vários pisos, até encontrar o lugar vago.

Imagino que quem me lê, tendo a sorte de viver numa terra pequena onde se pode ir a pé para o trabalho, onde, querendo usar o carro, há sempre onde estacioná-lo, nem consiga perceber o que é viver assim, gastando, em média, cerca de três horas por dia dentro do carro.

Há vantagens, claro que há. Há a possibilidade de ter acesso a muitas coisas boas, interessantes. Ainda hoje. Gostei muito. Não é todos os dias que se tem uma sorte destas.

Mas a verdade é que chego a casa, chego aqui ao meu sofá, e só tenho vontade de me evadir. Não consigo falar de temas românticos, não consigo ter vontade de falar de política, não consigo pensar em assuntos com alguma substância. Só me apetece ver vídeos tranquilos, jardins, bailados, ouvir sonetos, sei lá.


Passa da meia-noite, vou ainda fazer um bocadinho de tapete que só eu sei o que vai ser este dia e, se não desligo, se não esvazio a cabeça para acordar brand-new, não vou ter as asas soltas, os pés decididos a descobrir e a fazer caminho, os braços fortes para afastarem todo o mato que se me atravesse, todos os escolhos, a cabeça arejada, os olhos limpos para verem ao longe e pacientes para verem ao perto. Por isso, não levem a mal que me ponha aqui, sossegadinha da vida, a ouvir umas musiquinhas boas, umas boas pianadas, a olhar o verde da natureza, a descansar a alma. Vou buscar um soneto à toa sem querer saber do que diz, só para escutar a beleza das palavras, vou escolher um bailado solto, um jardim no meio da natureza. Fiquem comigo, está bem?.








Be happy. 
Be lucky.

domingo, abril 30, 2017

Estar a levar uma massagem tão, mas tão boa... e adormecer.





Há alturas em que me ponho a marcar passo, quase vencida pelo politicamente correcto. Ainda não escrevi a primeira letra e já as ouço a remorderem que a vida não é só isto, coisas boas e sorrisos, ou que sou uma exibicionista ou que rebéubéu, pardais ao ninho. Embora, em geral, me esteja nas tintas para comentários verdes de raiva -- pois acho que, quem não gosta tem bom remédio, basta não ler o que escrevo -- a verdade é que, volta e meia, parece que me sinto reprimida avant la lettre.

Na verdade não sei se hoje estou assim pelo tema sobre o qual me apetece escrever ou se o ter lido uma notícia triste me deixou desconsolada. Vão desaparecendo as pessoas que, de uma maneira ou de outra, atravessaram a nossa vida. Este sábado foi um cronista que me acompanhou durante anos e me proporcionou belíssimos momentos de leitura, reflexão e gáudio. A minha mãe dizia-me que o meu tio, quando lá vai a casa, está o tempo todo a falar de pessoas conhecidas e de episódios passados e que, de vez em quando se esquece dos nomes e pergunta à minha mãe se se lembra. E que, por vezes, conclui que cada vez há menos vivos nesse grupo de quem fala. E a minha mãe disse-me: 'E é. Vão morrendo'. Fiquei sem saber o que responder porque isto é mesmo assim, a vida parece uma bateria que, apesar de várias recargas, um dia, inexoravelmente, chega ao fim e já não há recarga que lhe valha. Contudo, por muito que racionalmente se pense assim, a verdade é que deve dar muito medo quando se vê que os anos já estão a entrar naquela zona de risco em que, face à esperança média de vida, o que vier a mais já é ganho e em que se começa a sentir uma nostalgia antecipada por se saber que, muito provavelmente, já não se acompanhará a vida toda daqueles que amamos.

Mas, enfim, é o que é.

De resto, falar sobre isto, não é propriamente registo que me agrade.

Portanto, para trás das costas as angústias que, de quando em vez, tentam abeirar-se de mim -- e vou mas é contar aquilo que tinha em mente. Uma coisa boa.


Massagem.

A lista de opções é longa. Massagem só aos pés, outra só às costas, outra qualquer coisa linfática, outra muscular para desportistas (esta que ainda se divide em massagem de preparação ou para depois, para relaxar os músculos mais retesados depois da prova desportiva), outra de reiki, outra de aromaterapia, e várias outras. Perante tanta coisa que me parece boa e outras que desconheço e, por isso, me atraem, fico com dificuldade em escolher. Arrisquei: uma geral, se puder ser um misto de tudo isso, melhor, uma que me deixe descansada.

E lá fui à hora combinada. Já estava à minha espera. Talvez uns trinta e tal anos, quarente e poucos. Olhos verdes, sorriso doce. Toda de branco, descalça.

Despi-me, deitei-me de barriga para baixo, a cara no buraco que há na marquesa. Como habitualmente fui tapada com uma toalha que ia sendo puxada para deixar à vista a zona do corpo que estava a ser trabalhada.

Uma música conhecida que eu, estupidamente, não identifiquei.  Agora, ao escolher uma que se assemelhasse, foi em Lizst que pensei. Talvez. E, ao contrário do que é habitual, desta vez as cortinas para o exterior não estavam corridas. Contudo, dado o ângulo, nada se veria da rua, em especial dos barcos. Mas eu via o mar, os veleiros. Um sensação boa.

E, então, começou a espalhar-me óleo quente e perfumado. Fez, de facto, um pouco de tudo. Começou pelos pés e, logo ali, comecei a flutuar.

Depois foi subindo e vértebra a vértebra, músculo a músculo, foi descontraindo, amaciando. O ar perfumado, a música, a vista -- tudo perfeito. Mas tinha um plus: ela dançava enquanto fazia a massagem. Não tanto com os pés mas com os braços, com as mãos. Ao som da música, ela passava os braços e as mãos pelo meu corpo, ora energicamente, ora com suavidade. Dançava e o meu corpo era, ao mesmo tempo, o plateau e o seu instrumento musical.

Depois de barriga para cima. Uma toalha dobrada a fazer de almofada para a cabeça ficar mais alta. A mesma coisa. Mas aí, embora geralmente eu estivesse de olhos fechados, ia abrindo ao de leve para a ver. Ela nem me via a olhá-la, de tal forma estava concentrada na dança, na música, uma coisa extraordinária, os olhos praticamente fechados, as mãos quase como se tocando piano ou harpa.

Por fim, puxou de um banco com rodas, baixou a marquesa e colocou-se, sentada, atrás de mim. Nessa altura já eu estava toda coberta pela toalha. Puxou-a um pouco para baixo para deixar o colo à vista. E começou então uma massagem que abrangia os braços, os ombros, o pescoço, o colo, a nuca.

E, como será fácil imaginar, aconteceu aquilo que adivinham. Sou de sono fácil. Não durmo muitas horas mas o meu sono, quando caio na cama, é imediato e profundo. Idem, no carro, quando não sou eu que conduzo. Ou no sofá, se estou sem nada que fazer. Imagine-se ali, naquele ambiente, naquela situação de relax total.

Comecei, pois, a sentir que estava a passar para o lado de lá, já meio a dormir. Mas tentei evitar. Sobretudo, parecia-me um desperdício estar a levar uma massagem tão boa e deixar-me de dormir.

Mas ela avançou, massagem na cara, na testa, dos lados, nas maçãs do rosto, no queixo, depois na cabeça, devagar, devagar, com as duas mãos. E aí não teve jeito: caí mesmo num sono profundo. Apaguei.

Acordei momentos depois, não sei quanto tempo decorrido. Falando-me como quase em segredo e tocando-me na mão, pareceu-me ter recebido um subtil sinal de que devereia despertar. Devo ter aberto os olhos, estremunhada. Ela sorriu lá na língua dela que me pareceu ser de leste travestida de espanhol: 'Muito sono...?'

E eu, furiosa comigo mesma, que não era que o sono fosse muito... mas que a massagem era tão relaxante...

Ela sorriu, perguntou se eu tinha gostado.
Sessenta minutos de reiki, aromaterapia, massagem localizada e geral, dança ao som de piano... como não gostar? Pena mesmo é que durante os últimos minutos não tivesse dado por nada.

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E agora que já assistiram à minha sessão de massagem, caso estejam a sentir um certo apelo místico, queiram descer e assistir à refrega polemista que se avizinha. César das Neves desafia duas doutas vozes e afirma, contra todas as celeumas, que ele sabe, porque sabe, que Nossa Senhora apareceu mesmo, em pessoa, aos três pastorinhos

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domingo, março 05, 2017

Um dia bom





Ontem à noite, já bem tarde, estive a enviar fotografias à minha filha. No exacto momento em que tinha começado a vê-las e tinha parado numa fotografia dela com o sobrinho mais novo ao colo, recebi uma sms: Se houver alguma foto daquelas q me tiraste c o baby q tenha ficado fixe envia-me para eu ficar com o recuerdo. "As nossas telepatias", respondeu ela quando eu lhe disse que tinha justamente começado a vê-las.

E tinha fotografias fixes, sim. Com uma definição e uma luz pouco famosas já que foram tiradas de noite, cá em casa, sem flash, apenas com a luz ambiente, mas, ainda assim, bonitas. Fotografias em que transparece a ternura dela pelo baby. Também ela me tirou a mim com ele e enviou-mas logo por sms. E um dos miúdos também me tirou fotografias com o bebé ao colo. Como a fotógrafa de serviço sou eu, geralmente depois fico com pena de ter poucas fotografias com as crianças. Desta vez não me posso queixar.

Também estiveram a tirar fotografias uns aos outros. E o mais velho tirou umas bem curiosas a si próprio. Direi, mesmo, que têm qualquer coisa de artístico -- e estou a falar a sério.

Também, nessa altura, ao ver as fotografias reparei, perplexa, que a grelha da lareira tem duas figuras delicadas. Pode parecer mentira mas nunca tinha reparado. Quem tirou a fotografia (aquela ali em cima) foi um dos miúdos. Mostrei ao meu marido e também ficou admirado, também não tinha visto. Não dá para acreditar.


Cá estiveram todos e, como sempre, mal se viram logo os três rapazes se puseram a lutar. Não sei que coisa é esta. Não é a lutar zangados. Nada disso. Adoram-se. É apenas uma forma explosiva de manifestarem o seu afecto. Ela não é disso: pediu-me uma folha branca e foi para a sua mesinha fazer uma história com autocolantes. O bebé, nessa altura, ainda dormia.

A semana passada tínhamos estado no parque do Jamor e aí, na largueza, a jogar à bola ou a trepar por cordas, têm muito espaço para gastar energias. Dentro de casa, o espaço é demasiado confinado para o pico energético que desenvolve quando se juntam sem estarem completamente cansados. Depois das lutas, depois do tio ter ensinado judo aos mais velhos (o filho, apesar dos seus tenros quatro anos, já é praticante), depois de terem andado às lutas no tapete e sei lá que mais, lá se aquietaram. O mais novo cantou, o primo tocou guitarra e acabaram a cantar o hino nacional. Entretanto o bebé, que mal tinha deixado a coitada da mãe jantar em paz, mamou, andou entre o meu colo e o da tia, sempre sob o olhar atento e maternal da maninha.

Depois foram para casa, que já era hora das crianças irem para a cama.


Antes disso tínhamos estado em volta da mesa a refeiçoar (como dizia o outro). Coisa simples, já que antes tinha ido a casa dos meus pais e, de caminho, tínhamos ido a uma adega comprar vinho. Portanto, não havendo tempo para demoradas confecções, a ementa foi:

Canja 
(numa panela coloco uma cebola grande, um pedaço de frango e miúdos; deixo cozer; quando cozido, retiro a carne e, com a varinha mágica, desfaço a cebola; volto a colocar os miúdos e a carne, agora tudo cortado aos bocadinhos; junto dois ovos inteiros e desfaço-os ao de leve com um garfo; junto massinhas de letrinhas; coze durante uns quinze minutos)
e grelhada mista
(pernas de frango, costeletas de porco e costeletões de vitela, temperadas com azeite, sal, alho, louro; umas peças, para além disso, foram temperadas também com tomilho limão e outras com alecrim -- primeiro forno ao máximo, vazio, durante uns 10 minutos; depois, quando introduzo a carne na grelha, reduzo para 160º: vou virando de vez em quando até a carne estar tostada; a carne de vaca entra a meio da confecção das restantes carnes, pois, para ficar macia, não pode ficar muito passada)
acompanhada por arroz basmati 
(num tacho coloco um fio de azeite, 1 dente de alho e um pouquinho de bacon cortado aos bocadinhos; frita ligeiramente; junto o arroz e envolvo na fritura; junto o dobro da água; quando está quase sem água, desligo, ponho num pirex e levo ao forno), 
e feijão preto
(numa frigideira, com um fio de azeite, frito umas lasquinhas de bacon  e cebola picada; depois junto feijão preto enlatado com algum caldo e envolvo -- por acaso, quem preparou o feijão foi o meu marido) 
e salada de tomate.

Antes da hora de almoço, tínhamos passeado na praia. Não havia um único surfista, o que não era de admirar: maré cheia e mar alteroso. 

Não estava muito frio mas havia algum vento. Apesar de tudo, agradável andar à beira da água e um prazer andar a fotografar as águas revoltas e as pessoas por ali andam.


Tirando isso, as tarefas domésticas normais, ida ao supermercado e assim. Nada de mais. Mas um sábado bom. Bem bom.

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Abaixo um poema para Trump por um dos mais elogiados escritores da actualidade.

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sexta-feira, dezembro 30, 2016

Com uma maçã, ele surpreendeu Paris





Debaixo de anti-histamínicos e anti-piréticos mas, felizmente, sem dores de cabeça ou no corpo, apenas alguma tosse e dor de garganta, depois de um dia de trabalho e outras preocupações, aqui estou finalmente na minha sala. Envolvo-me em sono e calor, desligo do que me traz apreensiva e espreito as notícias. 

Não há uma única notícia que me motive. Ou melhor: haver até há. Não sei é escrever sobre ela. A ver se me informo melhor pois é tema que me acorda. Refiro-me a saber-se que há um rio de ferro que corre a uma velocidade crescente no interior do nosso planeta e que está a uma temperatura quase equivalente à do sol. Acho interessante e acho que é coisa não neutra. 

Mas não vou pôr-me, para aqui, a dissertar sobre assunto que requer conhecimento. Só se me pusesse a ficcionar mas, no estado em que estou, mal consigo reportar-me à realidade, quanto mais à ficção.

Em dias assim movo-me para outro comprimento de onda. Prefiro a companhia daqueles que são independentes do seu corpo, cujas ideias ou obras sobrevivem ao corpo. Por vezes, em vida, são pessoas atormentadas e custa-me pensar nisso ao apreciar o seu legado nem me ocorrendo o que pensava ou sentia o artista enquanto executava a obra.


É o caso de Cézanne. Gosto de Paul Cézanne. Já vi obras suas ao vivo e é sempre aquela emoção de a gente ver uma celebridade ao vivo.
(Estou a gozar.)
Mas há um pouco de verdade nisto. Já se conhece e reconhece e depois está-se ali e vê-se ao vivo. Há um certo sentimento de déjà-vu mas, ao mesmo tempo, a satisfação por ver a obra tal como o pintor a deixou.
Abro um parêntesis para dizer que, de vez em quando, a sensação é mil vezes mais do que isto. Por exemplo, quando vi Caravaggio ao vivo fiquei quase aterrada, quase não conseguia fitar tamanha energia, tamanho frenesim telúrico. Outras vezes também uma emoção grande. Rothko, nos antípodas, também me deixou quase sem palavras, como se tivesse vontade de ser sugada para dentro daquele vazio, um vazio que, no entando, estava tingido de cores vibrantes. Ou o pano de boca de cena de Chagall, uma imensidão onírica.
Mas volto a Cézanne.


Vi um escrito sobre ele e entretive-me a ler e a ver mais umas coisas.

Transcrevo um pouco:
Cézanne sempre trabalhou sozinho, sem alunos. A sua pintura era sua maneira de existir. Sua vida fora marcada e envolvida por sua melancolia e cólera que permeava a sua vida inócua, instável, indecisa. Pinta na tarde em que sua mãe morre. Não é admirado por parte da família. Ao envelhecer acreditava que a sua pintura era fruto apenas dos distúrbios visuais que perseguiam seu corpo. Duvidava do seu talento e da genialidade que o transbordava, pois as circunstâncias e as reviravoltas da vida, não permitiam o reconhecimento de suas produções. A fraqueza e a baritimia o perseguiram no percurso de sua vida. Quando se mudou para Paris, decidindo ser pintor, escreve “Não faço mais do que mudar de lugar e o tédio me persegue”. Não conversava, pois não sabia argumentar. Preferia a solidão. Encontrar os amigos em Paris, quando via casualmente algumas vezes, apenas os cumprimentavam à distância evitando conversas prolongadas. “A vida assusta”, dizia Cézanne. 
(...)

Um dia, apanhado por uma tempestade, continuou a pintar à chuva durante duas horas. Dias depois morreu com uma pneumonia. Em 1906. 

E, no entanto, ao vermos as suas pinturas, que diferença faz o ano em que morreu, ou se tinha sessenta e sete anos quando isso aconteceu ou setenta ou oitenta ou se já se foi há mais de cem anos ou apenas há dez ou se ainda está vivo?

Divago, talvez. Mas penso isto, mesmo. 
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"Avec une pomme, je veux étonner Paris!" 


Gustave Geffroy rapporte que Cézanne répétait souvent cette phrase. C'est dire la place qu'il attribuait à la pomme : à la fois insignifiante et essentielle.

Selon Meyer Schapiro (Style, artiste et société p 224, Ed Gallimard), ce calembour réunit toute sa carrière, depuis Paris-Pâris jusqu'au motif exemplaire qui fait de la pomme un équivalent de la figure humaine et de ses passions. Effrayé par les modèles féminins, il préférait ces objets détachés de leur fonction sociale, sur lesquels il pouvait projeter ses désirs. (...)

(Cézanne, Pommes sur une table, 1900)

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segunda-feira, maio 30, 2016

E, então, o mar




Talvez por quase ter nascido com os pés na água, muita praia, muita ida com o avô apanhar isco para a pesca, depois com o pai, depois ir com o pai à pesca, e sempre praia, praia, praia, e depois, adolescente, passear à beira rio, e, em casa, levantar-me e ir à varanda ver o rio, e depois já em casa minha, levantar-me e ver o rio, sempre, e, pelo meio, sempre praia. Ou talvez por ser de um signo da água. Ou isso não tem nada a ver e é mesmo de mim. Ou talvez algum bisavô marinheiro, sei lá. O meu avô materno, o que morreu quando eu era bem pequena mas de quem me lembro a pôr-me às cavalitas, enorme, alto, cabelo muito louro, olhos muito azuis, mais um nórdico do que um sarraceno, sei lá de onde veio, talvez tenha sangue viking. Mas sei lá. O que sei é que, se me embrenho pelo meio das árvores -- e gosto de sentir a terra, e gosto de cavar e de plantar e não uso luvas porque gosto de sentir a terra, e gosto de podar árvores e tudo sem luvas porque nada como o toque da terra, das pedras, da madeira viva -- logo depois é a vontade do mar que me invade. O mar. Vontade de estar junto ao mar. 


O azul a sul, a luz azul do sul, as gaivotas que quase parecem brancas, longas asas, as gaivotas omnipresentes, na praia, nos lagos, junto às casas, nas igrejas, dir-se-ia que esta é a terra das gaivotas. Não estranham as pessoas, não se inibem.


Vivem em liberdade, fazem o que querem, brancas e descansadas ao sol do sul. Mergulham, esvoaçam, brincam, nadam, dançam, repousam, contemplam.


A cidade tem pouca gente, é bom andar por aqui nesta altura. Dos veleiros saem homens tisnados que se sentam, ruidosos, bebendo cervejas, rindo. Por vezes, vêm mulheres com eles, igualmente tisnadas. Ao nosso lado, a jantar, uma mulher louríssima, muito bronzeada, toda vestida de branco e com unhas em verde brilhante como escamas de sereia.


Muitos alemães, ingleses, franceses. Sobretudo terceira idade. Mas não só. Mas nada que se compare com Julho ou Agosto. Agora a cidade está por conta das gaivotas.

Queria apanhá-las a voar sobre o branco casario mas tão alegres e velozes andavam, fazendo danças e rodopios pelos ares, que não consegui. Só as apanhei assim como aqui as vêem, deslizando feitas cisnes, banhando-se feitas patas, brincando feitas crianças ou empoleiradas feitas cegonhas.


E eu caminhei rente à água, li, preguicei, vi o pôr do sol dourando os rochedos, o azul das águas e do céu reflectindo-se no ar que eu respirava. Vivo num país tão diverso e tão lindo.


Depois, entreguei-me àquele injustificável hábito que mantenho desde menina: apanhar conchinhas. Não resisto. Acho-as tão lindas, tão perfeitas, peças lindas que o mar esculpe, brilhos e tons tão subtis, umas com superfícies nacaradas lisas como seda, outras com pequenas formações como se sobre elas se tivessem alojados outros pequenos seres.

Escuso de dizer aquilo que já se sabe: o meu marido pergunta para que ando eu a apanhar conchas, se é para ele as deitar fora algum tempo depois.

Zango-me, não quero que deite fora as minhas conchas. Mas depois não digo mais nada pois penso que, se ele não o fizesse, onde poria eu conchas apanhadas ao longo de anos?


Para preservar a memórias destas peças tão lindas, quando chego, ponho algumas em cima da blusa que vou vestir à noite e fotografo-as, tão bonitas. Um dia tenho que fazer um quadro com conchinhas e pedrinhas e restos de corda e espelhos e o som das ondas e dos gritos das gaivotas.

A ver se acho ou, se não achar, se compro a concha de um búzio, daquelas que, se lhe encostarmos o ouvido, escutamos o rugido do mar. Talvez, tendo a concha de um búzio comigo, suporte melhor a distância do mar quando, na cidade, estiver num lugar onde as janelas não se podem abrir e de onde não me chegam os sons da rua.

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No meio de tanto azul, vi há pouco, na televisão uns quantos betinhos e beatinhas, convenientemente pintados de amarelo, com crianças a fazerem umas coreografias e outros a actuarem, de cartazes em punho e muita mobilização dentro deles. 


Parece que uma espécie de instinto revolucionário se apoderou deles, andam eufóricos. Mas, pensando melhor, o que dá mesmo é a ideia de que uma força organizativa poderosa os anda a apoiar - ou melhor: a manobrar (a JSD, a JC e a Igreja em promíscuo conúbio?) - e, quequemente, querem, porque querem, que o zé povo suporte, com os seus impostos, as mordomias a que se acham com direito. Querem, porque querem, poder escolher o que, na cabecinha deles, é a 'melhor escola'-


Podem ter, lá na rua, uma escola pública mas não pessebem puque é ke hão ter que ir estudar com os pobrezinhos se podem ir para um colégio supé bom só pa eles. Parece que o senhor cardeal acha que eles têm supé razão e que a madame cristas também não pessebe puque é ke não fecham antes as escolas públicas. E, como as televisões gostam muito de fuzué, estiverem montes de tempo a mostrar aquela supé manifestação, podre de grande.


Ora eu, numa de indignação, poderia dizer-lhes: a pata que os pôs! mas, dado estar na terra das gaivotas, até fico sem jeito de dizer isso. Mas, como acho que eles não precisam de ajuda para se enterrarem ainda mais e, de resto, até já se pintaram de amarelo, acho que não preciso de dizer nada. O ridículo de qe andam a cobrir-se se encarregará de os pôr na ordem.

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Lang Lang interpreta um sonho de amor: Liebestraum de Liszt
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, afectos, alegrias e dinheiro para os gastos - para todos quantos me lêem.

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segunda-feira, outubro 05, 2015

No rescaldo das legislativas 2015 - PàF na corda bamba, PS na hora da verdade, BE na idade adulta, PCP na terceira idade. Será que, para Portugal, finalmente, chegou a hora da Política?







No post que poderão ler a seguir, pronunciei-me, a quente, sobre o resultado das eleições. Já disse quem acho que ganhou, quem obviamente perdeu, já manifestei o meu desencantamento.

Aqui, agora, vou dizer mais algumas coisas. Não estou com muita disposição para grandes raciocínios porque me arrelia sobremaneira perceber como os mais prejudicados e os mais enganados são a grande força de apoio da coligação vencedora, que os tem tão seriamente prejudicado.

Não quero que me tomem por exibicionista porque não sou (como poderia sê-lo se nem revelo a minha identidade?). Não sou rica e vivo do meu trabalho mas, pelas funções que ocupo, recebo um salário que, segundo o critério do governo dos PàFs, mereceu ser cortado à catanada. Mais de metade do ano trabalho para pagar impostos - e isto reportando-me apenas aos impostos que incidem sobre o fruto do meu trabalho. Por isso, pelo que me diz respeito, teria muita razão de queixa. 

Mas aquilo que recebo, ainda assim, chega para as minhas necessidades e ainda sobra, tanto mais que sou casada em comunhão de adquiridos com uma pessoa que está nas mesmas condições que eu. Do que ganhamos, ainda ajudamos quem, na nossa família, precisa. E, ainda assim, não me queixo. Como é fácil perceber pelo que aqui conto, posso ir a restaurantes, ao cinema, passar férias fora de casa, comprar livros, etc - coisas inacessíveis a tanta gente no meu País. 

E, no entanto, queixo-me do governo PSD e CDS. Mas não é, pois, por mim que me queixo.

Queixo-me pelos inúmeros desempregados (e na minha família também os há - mas ainda que não houvesse), pelos que têm empregos precários (e na minha família também os há - mas ainda que os não houvesse), pelos que tiveram que ir trabalhar para fora (e são inúmeros os amigos dos meus filhos que tiveram que emigrar), pelos idosos que se viram depauperados (e na minha família também os há - mas ainda que os não houvesse), pelos que se viram sem condições de pagar empréstimos que tinham contraído, queixo-me pelos que empobreceram, pelos que não podem viver a vida com que sonharam, pelos que viram as famílias separadas, pelos que perderam a esperança e vivem deprimidos em casa, vendo o dia em que nem o subsídio de desemprego vão receber - e queixo-me porque sei que tudo o que foi feito pelo Governo de Passos Coelho foi feito à toa, sem produzir resultados.

A dívida continuou a aumentar, a pública mas também a privada, o défice está muito mais alto do que seria suposto, não há investimento, não há criação de emprego sustentável, não há aposta na educação, na investigação. E não houve reforma de Estado. Zero. E as grandes empresas foram vendidas a grupos estrangeiros (ou a a estados estrangeiros), desacautelando os interesses estratégicos do País. Nunca o País esteve tão à mercê de especuladores de toda a espécie. Nunca os portugueses estiveram tão vulneráveis, tão à mercê do que outros queiram fazer com eles. Pode o crédito estar barato, podem as famílias ter recomeçado a consumir como se não houvesse amanhã, tudo isto simulando o sucesso que agora se apregoa - mas as grandes debilidades do País mantêm-se ou agravaram-se.

E, no entanto, o que tenho visto é que são os mais lesados que mais medo tiveram de mudar de governo. De facto, o síndroma de Estocolmo, tal e qual. Os prisioneiros afeiçoam-se aos que os aprisionam. Vivem subjugados, intimidados, teriam razões para odiar os seus algozes mas, não apenas desistem de fugir, como temem que, sem a 'protecção' deles, fiquem à mercê de outros ainda piores. Custa a perceber este mecanismo mental mas acontece frequentemente às vítimas de quem vive subjugado, agrilhoado, maltratado.

Os PàFs ganharam. É certo. Estão de parabéns. Conseguiram o que queriam.

À hora a que escrevo, os PàFs estão com 99 mandatos, mais 5 do PSD (contra 85 do PS, 19 do BE, 17 do CDU e 1 do PAN). Ou seja, PSD e CDS conseguem 104 mandatos enquanto os partidos à sua esquerda conseguem 121. Não somei o PAN porque não faço ideia do seu posicionamento. Ou seja, há uma maioria na Assembleia da República contrária ao que defende a coligação que ganhou.


Ora é preciso ver que, com o resultado destas eleições, Passos Coelho e Portas, num novo governo, vão ver-se confrontados com o irrealismo das suas promessas vãs. Os números do défice, do desemprego, da dívida não deixarão de continuar a falar verdade. Podem eles continuar a mentir, pode a comunicação social continuar a levá-los ao colo, que a verdade vai doer na vida de quem votou nesta gente sem ética, sem competência, sem respeito pelos portugueses.

Face a isto, acho que é mais do que tempo do PS acordar.

Os tempos são outros, a população já não é maioritariamente a que conheceu os tempos de ditadura e que se mobilizava em torno de ideais nobres. A população agora é maioritariamente uma população que dá como adquirido o pouco que tem, que não se habituou a pensar, que consome abundantemente a televisão pimba, novelas intragáveis, futebol a toda a hora, viciada na futilidade dos facebooks, uma população que pouco sabe de política, que apenas consome as 'bocas' e as 'cenas' virais que são postas a circular nas redes sociais. O PS tem que saber falar a esta gente, tem que chegar até ela.

E depois há um grupo de pessoas que lê, que acompanha alguma imprensa mais séria (geralmente estrangeira), que tem alguma cultura e exigência - e que anseia por um arejamento na política, que não se revê na partidarite, que está disposta a apoiar quem se apresente com um discurso de ruptura, que acha que apenas com uma disrupção se conseguirá que entre oxigénio na vida pública. Esta gente mais facilmente se revê no Bloco de Esquerda do que num PS manietado por lógicas aparelhísticas, preso a fidelidades bafientas do passado onde as estruturas concelhias, distritais e por aí fora atolam em mediocridade os ideais políticos.

O PS tem, pois, que se renovar. Tem que atrair independentes, tem que ter mulheres, tem que ter jovens (que não necessariamente os que se enfiam nas jotas e se portam como as claques do futebol), tem que ter intelectuais, artistas, cientistas, e, sobretudo, gente que pense de forma diferente, com a cabeça no futuro.

O PS tem que olhar para o Bloco de Esquerda com respeito. Portugal acordou para a realidade deste partido que se renovou e se relançou pelas mãos de Catarina Martins e Mariana Mortágua, duas jovens mulheres que nada temeram, que falaram de forma límpida e corajosa, que sabem dizer com clareza o que querem e o que não querem. Pode dizer-se que têm toda a liberdade para falar porque é apenas isso que fazem: falar. Mas falar é importante em política: falar com consistência, com firmeza, sem medo, com acutilância e inteligência. E o BE já disse que está na disposição de passar da teoria à prática - e isso deve ser tomado em linha de conta.

Quanto ao PCP, tenho pena. É gente séria, boa gente. Mas é gente que vive presa a fantasmas, que se deixa agrilhoar mentalmente a preconceitos difíceis de compreender. A raiva que mostram em relação ao PS é incompreensível. As pessoas que não são do PCP não percebem essa atitude, parece que os comunistas padecem de uma questão psicológica mal resolvida. Parece que estão anquilosados. O mundo muda e o PCP continua com uma conversa que, frequentemente, não cola com a realidade. Os resultados destas eleições foram também um desastre para o PCP. Não sei se vão a tempo de inverter o declínio. Contudo, parece que Jerónimo de Sousa, talvez atordoado com os resultados, terá dado a entender que, se necessário, se colocará ao lado do PS.

Não sei o que nos reservam os próximos dias mas era bom que um PS revigorado (depois do abanão destes resultados e com o António Costa também revigorado, com desenvoltura, animado, com sentido de humor e com peito feito) conseguisse estabelecer pontes fortes com o resto da esquerda. Se os interesses do País e dos Portugueses estiverem à frente de tacticismos, de prudencialismos, de atavismos, talvez se consiga trazer alguma esperança a Portugal. Caso contrário, será para esquecer -um dia destes ainda acordamos e descobrimos que fomos anexados pelos chineses (por exemplo).



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As fotografias foram feitas este domingo in heaven.

A música é de Franz Liszt - Years of pilgrimage "Le mal du pays" por Lazar Berman (Haruki Murakami) - não percebo o que faz o Murakami aqui nesta legenda mas não tenho tempo para investigar, vai como estava no youtube)

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Relembro que no post a seguir falo, em cima do acontecimento, dos resultados que se começavam a conhecer destas eleições e de como me senti desanimada.

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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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segunda-feira, agosto 31, 2015

Todos os rostos e nenhum


Não é a primeira vez que aqui falo dela. Ninguém sabe quem ela é. E digo 'ela' porque assim se apresenta e admite-se que, ao menos isso, seja verdade mas, volta e meia, surgem hipóteses dadas como prováveis que a dão como sendo um outro muito conhecido escritor, homem. Não se sabe. 

O que se sabe é que é uma das escritoras mais conceituadas da actualidade. Dão-na como italiana, supostamente napolitana - já que ela o refere. Falo de Elena Ferrante que, naturalmente, também não se chama Elena Ferrante.


Desde que publicou o seu primeiro livro, em 1992, que a sua opção foi esta: o que havia de valer seriam as suas palavras e as histórias dos seus livros, não o seu rosto nem a sua própria história.

Claro que este anonimato tem concitado toda a espécie de curiosidade mas a autora não desarma: não, não e não. Não se mostra, não diz quem é. Responde por escrito a entrevistas, a algumas entrevistas, poucas - e é se querem.

Escuso de dizer que acho muito bem pois é essa justamente a minha atitude perante os livros: gosto do que leio sem querer saber da vida de quem o escreveu. Posso até dizer que não gosto muito de ver os escritores a exporem-se em feiras ou a darem entrevistas em que se desvendam como se esse strip-tease valorizasse a sua obra. 
Ou melhor: não é bem isso, não estou a ser rigorosa. Até gosto de ler entrevistas a escritores mas falando da sua actividade de escritores; ou até gosto de ler entrevistas, em geral, a pessoas interessantes -- mas não gosto de ver essa exposição ser posta ao serviço do marketing dos livros escritos pelos entrevistados até porque, nesse caso, geralmente, são entrevistas fúteis, irrelevantes. 
Não sei se me faço entender mas deixem, são coisas minhas que acho que os escritores devem recuar perante os seus livros. E devem fazê-lo até por humildade já que os livros, se forem bons, perdurarão e o corpo de quem os escreveu não. Mas o que eu penso aqui, agora, não vem ao caso.

Vem isto a propósito de uma entrevista que Elena Ferrante concedeu à Vanity Fair: Elena Ferrante Explains Why, for the Last Time, You Don’t Need to Know Her Name



[Permitam que traduza um excerto pois acho o tema interessante.
Anonimato, clandestinidade, segredos - e, no entanto, não nos esqueçamos:
les plus grands secrets se cachent dans la lumière.]



O motivo, nada a fazer..., é o lançamento do seu último livro, The story of the lost child.

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Romance


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De facto, onde é que trabalha, em que local?

Onde o possa fazer. O importante é ter algures um pequeno recanto. Ou seja, um pequeno espaço.

O que faz para descontrair?

Dedico-me a tarefas domésticas maçadoras.

É interessante que você -- escolhendo manter secretos alguns detalhes sobre a sua identidade -- em certo sentido, se tenha apagado a si própria. Poderia escrever tão honestamente se fosse uma figura pública? Ou isso não interessa para nada?

Não, se uma pessoa escreve e publica dificilmente se apaga a si própria. De facto, eu tenho a minha vida privada e pública completamente representadas nos meus livros. A minha escolha foi, de certa forma, diferente. Eu simplesmente decidi de uma vez por todas, há 20 anos, libertar-me da ansiedade da notoriedade e da necessidade de fazer parte do círculo das pessoas bem sucedidas, aquelas que acreditam que ganharam sabe-se lá o quê. Isso foi um passo importante para mim. Hoje sinto, graças a esta decisão, que ganhei um espaço próprio, um espaço gratuito (ou livre), onde me sinto activa e presente. Ceder face a esta decisão seria muito doloroso.

No entanto, ainda me sinto curiosa sobre o que leva um autor - especialmente uma autora tão bem sucedida e tão aclamada pela crítica - a escolher manter-se anónima?

Eu não escolhi o anonimato. Os meus livros são assinados. O que se passa é que me retirei dos rituais onde os escritores são mais ou menos obrigados a representar de forma a apoiar o seu livro emprestando-lhe a sua dispensável imagem. E tem funcionado bem até aqui. Os meus livros demonstram cada vez mais a sua independência pelo que não vejo razão para mudar a minha posição. Seria deploravelmente incongruente. 

O escritor nunca quer que o leitor sinta a sua presença, nunca quer chamar a atenção para si próprio, e, no entanto, um leitor atento saberá detectar aqui e ali algumas das impressões digitais do criador. Que direcções poderia indicar aos leitores desesperados de forma a que pudessem encontrá-la a si no seu trabalho (para além de os mandar dar uma volta?)

Tanto quanto sei, os meus leitores não desesperam de todo. recebo cartas de apoio a favor desta minha pequena batalha pela centralidade do meu trabalho. Evidentemente, para os que amam literatura, os livros bastam.
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Nem mais.

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  • As fotografias que usei para acompanhar o texto mostram mulheres que se expuseram perante Steve McCurry, da série Retratos.

Portraits reveal a desire for human connection;
a desire so strong that people who know they will never see me again
open themselves to the camera,  all in the hope that at the other end
someone will be watching, 
someone who will laugh or suffer with them.

A primeira foi feita em Itália, a segunda na África do Sul, a terceira na Etiópia, a quarta no Brasil e a última na Indonésia. 
  • O Romance de Liszt é interpretado por Lang Lang.
  • O artigo completo com a entrevista de Elena Ferrante pode ser lido aqui.
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E permitam que vos convide a descer até aos dois posts abaixo: aos Mirós deixados à beira-mar e aos veleiros deslizando sobre um rio de luz. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela, belíssima semana, a começar já por esta segunda-feira.

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terça-feira, julho 07, 2015

Nuno Melo diz que é "um absurdo" falar-se em perdão de dívida. E como ele muitos. O moralismo tolda-lhes as capacidades cognitivas. Penso que para gente assim só mesmo o tratamento de que o psiquiatra Daniel Amen, especialista em desordens mentais, fala no vídeo abaixo. [E, depois disto, se me permitem vou mas é escolher a minha toilette para mais um dia de labuta. E vou ouvir a Consolation.]


No post abaixo já referi a coisa sensata que o BCE e demais súbditos dos grandes chefes estão a fazer cortando a torneira da liquidez aos gregos já que eles não pagam a dívida com o dinheiro que não têm. 

Talvez devessem os gregos retirar os dentes de ouro, quiçá peças metálicas que tenham no corpo, próteses e assim, e mandassem derreter isso tudo, talvez sempre desse para pagar um bocadinho. E talvez devessem as mulheres cortar rente o cabelo e o vendessem. Talvez todos pudessem também vender um rim. Até um olho. Para que querem os gregos dois olhos com tanta gente a precisar de olhos novos? Talvez se todos os gregos se juntassem e dessem verdadeiramente um pouco de si, talvez o Nuno Melo ou o seu vice-irrevogável chefe brincalhão ficassem mais tranquilos, 
Esta posição resume muito do pensamento dos partidos de direita, PSD e CDS, que estão no Governo e que se negam a admitir qualquer perdão da dívida grega (e ainda qualquer perdão da dívida portuguesa por arrasto). 
e, quem diz eles, diz todos os outros igualmente espertos que por aí andam a exigir que os gregos paguem o que devem.

E eu, que não tenho o raciocínio formatado como os melos desta vida, pergunto: Paguem? Mas paguem como? Paguem tudo o que os abutres querem? Tudo, tudo?
Só para nos situarmos, a situação esta segunda feira foi assim:

Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos sobem para 3%. Trajetória de subida também nas obrigações espanholas e italianas. Juros da dívida grega acima de 17%. 


Volto à carga: Há alguém que consiga fazer face a agressões destas, com uma economia débil, enterrado em dívida? Juros acima de 17%? A dívida alimenta-se, cresce descontroladamente. Pagá-la? Mas pagá-la como?


Em contrapartida, do lado de lá, ouvem-se vozes sensatas. Só que temo bem que gente tão burra como os que não conseguem ver um boi à frente do nariz, nem saibam ler a língua inglesa. Se soubessem, talvez aprendessem umas coisas. Assim é uma pena. Não sabem, não sabem que não sabem, não sentem que precisem de aprender. Um verdadeiro desastre.

Seja como for, para um just in case, do editorial do The New York Times aqui transcrevo:


For Europe’s Sake, Keep Greece in the Eurozone


The resounding victory for the “no” vote in Greece’s referendum has left European leaders like Chancellor Angela Merkel of Germany with a stark and clear choice. Only they have the power to decide what happens next — whether to shove Greece out of the eurozone or offer some path forward for the Greek economy, starting by writing down its huge and unpayable debts. 
Greece has suffered and will continue to suffer: its unemployment rate is over 25 percent; its gross domestic product has fallen by a quarter since 2008. What the past several years have shown is that suffering and austerity did nothing to help Greece or its creditors. And no more moralizing and punishment at this point will change that reality.
(...) Those against debt relief have argued that saving Greece would merely reward a government that has failed to reform its inefficient economy. But that is a self-serving misreading of what happened in the crisis. It was European leaders and the International Monetary Fund that made the biggest error in 2012 when they only partially restructured Greece’s debts, a lot of which were owed to banks in Germany and the rest of Europe.
They compounded the problem by demanding that the country cut spending and raise taxes. That depressed a weak economy and drove up unemployment, making growth and increased revenues impossible. In their most recent proposal, Greece’s creditors sought even more cuts to already modest government pensions, which would lead to further economic contraction.
Yes, Greek officials past and present are responsible for many of their country’s problems. But European leaders have made the crisis worse by their mismanagement. Now it’s incumbent on them to end the threat to the eurozone by saving a small, paralyzed country.

Cristalino.

Fico a pensar se, para além de uns cursozitos de inglês e de bom senso, não seria de dar também cursos de aritmética aos melos, aos camelos avençados, aos papagaios ferreiras e a outros cursados em direito, letras, jotas, comunicação e jornalismos a metro que, de repente, se armam em doutores-economistas-cirurgiões-dentistas, revelando que não conseguem fazer as operações aritméticas mais simples. De caminho, dava-se-lhes também algumas aulas simples de cultura geral -- mas, bem entendido, uma coisa resumida (a ver se, sendo pouco, lhes entrava). 

Mas talvez o problema seja mais complicado do que se pensa, talvez tenham mesmo um problema naquelas cabeças. Não sei se alguém já lhes espreitou para dentro. Na volta o problema está mesmo aí: buracos que até fervem,

Fui à procura de solução para isso (que eu cá sou a favor da inclusão).

E achei. Daniel Amen explica como muita gente que revela problemas sérios de comportamento afinal tem é pancada na cabeça. E - boa notícia! - isso trata-se. 




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[Falei no tema da recuperação cerebral na maior ligeireza mas agora falo a sério: estes assuntos fascinam-me. Infelizmente para o meu pai estes tratamentos já não lhe fariam nada. A lesão (provocada por um grande AVC na sequência de outros menores) foi severa e a idade também não ajuda. Mas para quem tenha menos idade e lesões menos extensas e profundas é uma esperança. O cérebro pode recompor-se e, no caso em que a doença ou os acidentes levam as pessoas para os caminhos da marginalidade, é pena que em vez de se investir tanto dinheiro a aprisionar tanta gente não se invista na sua verdadeira recuperação.]

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Adiante.

Não vos canso mais. 
Vou mas é pensar na toilette que vou usar para mais um dia de cão. 
Mal por mal, ao menos que me sinta arranjadinha.

Não, assim não, não faz bem o meu género. 


Talvez mais assim.
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E pronto, está na hora de me recolher. Em paz.


Horowitz interpreta Liszt - Consolation No.3

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Relembro que abaixo há mais: a Grécia e os bancos, Moisés e os Mandamentos, a bardajona com pena que o Tsipras não seja a Marilú e assim,

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E desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela e feliz terça-feira.

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quarta-feira, julho 02, 2014

A mensagem de Judite Sousa no facebook: agradecimento pelo apoio recebido e uma tocante confissão de uma profunda dor, de um desamparo imenso. E o que eu lhe diria, se pudesse dizer-lhe alguma coisa: palavras pequenas perante a dor infinita de perder o seu filho único, o seu André.





Tinha decidido não falar mais nisto. Não é meu costume deixar-me abater assim nem a notícia me diz directamente respeito. Percorro os blogues que acompanho, percorro grande parte dos jornais e quase ninguém fala nisto - e eu percebo. Não faz sentido uma pessoa ficar tão comovida perante a morte de alguém que não conhece. Não faz sentido uma pessoa deixar-se afundar perante um drama isolado. Há tanta dor no mundo, porquê incidir a angústia num único caso?

A verdade é que não sei explicar. Talvez porque acompanho Judite Sousa há tantos anos e há tantos anos falo dela - tantas vezes com ironia por causa das suas toilettes que me parecem excessivas ou pelas suas mudanças de visual, parecendo não acertar com o estilo que mais a favorece - que quase a vejo como alguém que me é familiar. Mas não é só isso. É que a acho humilde, de uma humildade que me agrada porque a vejo sempre receptiva a aprender ou aberta a colher novas ideias para o seu trabalho. Acho que deve ser boa pessoa. E acho-a frágil. E dizia-se sempre tão dedicada ao filho, parecia apoiar-se tanto no filho. A morte de um filho é daqueles horrores que nenhuma mãe consegue imaginar, nem quer em tal pensar. E eu não estou a ver como é que a frágil Judite, vulnerável e ainda mal recuperada de todos os problemas pelos quais passou recentemente, vai arranjar forças para superar tamanha dor.

Há uns anos eu tinha uma colega de quem era grande amiga. De facto, éramos a melhor amiga uma da outra. Ela tinha um marido por quem era apaixonada e de quem falava amiúde. Ela era sensível, ele era calmo, bem disposto. Ela tendia a preocupar-se facilmente, ele era à prova de stress. Ela pertencia a uma família de gente ligada às artes, ele era do mundo dos negócios. Complementavam-se, admiravam-se mutuamente, eram invulgarmente felizes. Iam frequentemente ao cinema, à praia, passear, e andavam sempre juntos. Todos os dias ele deixava-a de manhã na empresa e, à tarde, ia buscá-la e ficava no carro, lá em baixo, à espera dela. Ela via-o da janela e ficava sempre enlevada com o seu amor lá em baixo, infalivelmente à sua espera. Todos nós admirávamos a sua paciência, a sua compreensão e carinho.

Por vezes, se ela estava mais atrasada, ele subia. Já lá tinha trabalhado, conhecia toda a gente, aproveitava para cumprimentar velhos amigos. Era um simpático. Lembro-me que, por altura do Nove semanas e meia ele dizer que me achava parecida com a Kim Basinger. Eu ria, dizia à minha amiga que o marido era um sedutor, que mentia para fazer charme, e ela ria.

Um sexta feira, por volta das 5 da tarde, ela foi ao meu gabinete, apreensiva, que ia sair mais cedo, que estava preocupada, que o marido não tinha ido trabalhar, dizia que não se sentia bem, sem saber bem dizer o que tinha, e ela achava que ele estava com um princípio de depressão porque estava em rota de colisão com o administrador e receava até que ponto podia ir essa aversão, e que, havia pouco, ele lhe tinha ligado a dizer que ia ao médico, que não estava melhor. E que ele não era de doenças, de ir ao médico, que estava preocupada, que ia ter com ele. Fui despedir-me dela ao elevador, tranquilizando-a, que se calhar ele precisava de um ansiolítico, que não havia de ser nada, que ele não desse tanta importância ao dito administrador. Ela foi, inquieta. A porta do elevador a fechar-se, ela preocupada e eu a dizer-lhe adeus, até segunda, vá fazer-lhe um mimo, sim, se ele está preocupado com o emprego, vá dizer-lhe que há mais na vida para além do trabalho.

No sábado, estava eu a passar o dia em casa dos meus pais e tínhamos ido passear para o campo, ligou-me um outro colega meu, também ex-colega do marido dela, a dizer-me que me ia dar uma notícia terrível, que eu me preparasse, que são coisas que acontecem: o marido da minha grande amiga tinha morrido na sexta à tarde, pouco depois dela chegar a casa tinha caído nos braços do filho, então adolescente, e que, na ambulância, ia de mão dada com a nossa colega, ela achava que ele tinha morrido ali, a olhar para ela, mas que no hospital ainda tentaram reanimá-lo. Fiquei em choque. Como era tal possível? Ainda na quinta feira o tinha visto e estava bem. Como era tal possível? Mas, sobretudo, não imaginava como seria possível a minha amiga sobreviver sem o grande amor da sua vida. É certo que tinha um filho mas um amor como o dela pelo marido não era comum e, do ponto de vista emocional, ela dependia completamente dele.

Nessa tarde fui à igreja mas fui a medo. Estava muito abalada e não imaginava o estado da minha amiga, receava muito por ela e sabia-me num estado que não se recomendava. Quando lá cheguei não os encontrei. O meu colega tinha-me dito que a igreja era a S. João de Deus, que é na Praça de Londres e, afinal, estava na S. João de Brito que é em Alvalade. Como estava com o meu marido e os miúdos queriam ir para casa, isso foi o pretexto para não fazer mais diligências para esclarecer o equívoco. Arrependida por ser tão pouco corajosa mas sem ser capaz de ser forte, fui para casa.

Mas, claro, no outro dia, a medo, muito a medo, lá fui. Quando a minha amiga chegou à igreja já eu estava cá fora. Parecia que tinha envelhecido cem anos e mal andava. Ia amparada pelos sobrinhos mais velhos e pelo filho. Ela não me viu e eu não fui capaz de ir ter com ela. Fiquei cá fora, impotente, cobarde.

Quando saíram da igreja, ela de novo amparada, o rosto quase desfigurado de tanto chorar, fiquei arrasada com o estado dela, estava irreconhecível, quase sem conseguir andar. Mas então ela viu-me. Veio na minha direcção e abraçou-se a mim, e chorava, chorava, e eu não consegui mais conter-me, desatei também num choro que não parava. Ela tratava-me, e trata-me ainda, pelo meu diminutivo e perguntava-me, como vou eu conseguir viver sem ele? e eu só era capaz de dizer vai, vai. Estivemos assim não sei quanto tempo, e ela dizia-me 'não vou conseguir viver sem ele' e chorava e eu, também a chorar, dizia 'vai, claro que vai'. Tenho ideia que, durante todo o tempo em que esteve abraçada a mim, eu a ampará-la, o que dissemos não passou disto.

Depois lá pegaram nela e lá a levaram. No cemitério, junto à cova, perdeu as forças e foi um sobrinho que a pegou ao colo. Foi assim, ao colo do sobrinho, leve como uma folha sem vida, que saíu de lá. Quando veio a ela, procurou-me com os olhos e fez-me um adeus ao de leve, cheio de tristeza.

Apenas uns quinze dias depois conseguiu voltar ao trabalho mas não parecia a mesma, envelheceu, encurvou-se, deixou de se maquilhar, o cabelo perdeu força. Eu tentava animá-la, íamos almoçar juntas, eu contava-lhe maluquices, fofoquices, tentava entusiasmá-la com roupas, que ela devia vestir uma roupa mais alegre, que devia pôr uma sombrazinha nos olhos, um baton, e queria que ela me contasse tudo sobre o filho, sobre o curso que tinha começado a tirar, e - sobre a equitação, sobre o amor crescente do miúdo por cavalos, e ela ia respondendo - mas sempre sem alegria. A vida começou a parecer-lhe uma casa desabitada.

Valeu-lhe sobretudo a irmã, ligada a museus, amiga de pintores e escultores, gente geralmente animada, e valeu-lhe também a catrefada de sobrinhos que ora tinham emprego, ora o perdiam, ora saltavam de um para outro e que mudavam de namoradas e namorados e que, depois, começaram a casar-se e descasar-se e, depois, a ter filhos e agora já devem ser quase uns vinte sobrinhos-netos senão mais e depois o filho dela, rapaz precocemente adulto, triste, que também arranjou namorada e, toda essa gente em sua volta impedia-a de se sentir tão desoladamente sozinha.

Mas nunca mais foi a mesma. Perdeu a alegria de viver. Numa qualquer reestruturação das muitas que sempre estão a acontecer, resolveu ir-se embora com indemnização. Tentei demovê-la, achava que ela em casa, sozinha, sem a rotina do trabalho, deveria sentir ainda mais a solidão mas ela disse que já não suportava a rotina de ir e vir todos os dias. Provavelmente não suportava não ver o marido no carro lá em baixo, aquela janela vazia devia recordar-lhe a toda a hora a ausência tremenda que sentia.

Foi-se embora e, mais tarde, reformou-se antecipadamente. Não há aniversário meu ou natal de que ela se esqueça. Toma conta dos sobrinhos-netos, ajuda a irmã a gerir aquela grande casa que é uma plataforma de apoio familiar e que também está sozinha já que se separou do marido, alguém bem conhecido dos meios culturais nacionais, um galã por quem também era apaixonada e que a trocou por uma jovem assistente, bela e ambiciosa.


A minha amiga conseguiu sobreviver mas ficou para sempre um ser incompleto. Muitas vezes recriminava-se por não ter percebido a gravidade da situação e o ter deixado em casa sozinho naquela fatídica sexta feira e esse sentimento ainda agudizava mais a sua dor. Mas sobreviveu. Sobrevive-se sempre especialmente se se quiser mesmo voltar a sentir o gosto por viver.

Claro que nem todas as pessoas são iguais nem as circunstâncias as mesmas. Conheço muitas pessoas, a maioria, que, depois de um período de luto, prossegue a sua vida, vai em frente, reencontra o equilíbrio emocional, volta a parecer ser capaz de encarar a vida com normalidade.

Li há pouco no DN o que Judite de Sousa escreveu no facebook e que depressa foi partilhado publicamente por vários amigos e que aqui transcrevo:


Não tenho palavras para expressar a minha gratidão. A todos. Do fundo do meu coração.

Perdi o meu filho. O meu único filho. A luz que dava sentido à minha vida. O meu santo que tantas alegrias me deu. Bom filho, bom estudante, inteligente. Com uma carreira de sucesso. Não sei como vou ultrapassar esta dor. O que sei é que uma parte de mim morreu com o meu André. Interrogo-me sobre o sentido da minha vida. As minhas escolhas, a minha vida focada no trabalho, na escrita, tendo sempre presente que o meu filho era quem mais se orgulhava do que eu fiz e construí ao longo da minha vida. Fiz tudo para que nada faltasse ao meu André, mas não consegui salvar-lhe a vida. Um fracasso e uma tragédia. Estranha vida a minha! Realizada profissionalmente, dramática pessoalmente. O último ano foi penoso. Apenas existia o meu André que me dizia muitas vezes: " Mãe, não vais ficar sozinha". E eu acreditava. Acreditava. Eram palavras ditas pelo meu filho, um jovem ponderado e sensato.


Parte-se-me o coração ao ler estas palavras tão tristes. 

Penso que percebo muito bem a infelicidade dela. Um dia, há 29 anos, o filho saíu de dentro dela e só agora, que ele partiu, é que ela sente o seu corpo verdadeiramente vazio. O que ela sente, agora, deve ser um vazio sem remissão. Como poderia não o sentir?

Tal como tentei fazer com a minha amiga, gostava também de tentar animá-la a ela, contar-lhe palermices, desafiá-la para irmos aqui ou acolá, confortá-la de alguma forma, dizer-lhe que o André está ali, na curva da estrada, que apenas não o está a ver mas que ele está lá, e que as suas memórias acompanhá-la-ão como se ele estivesse entre nós, perto dela, dizendo-lhe que não tenha medo, que nunca a vai deixar sozinha. Enquanto ela se recordar dele, ele estará dentro do seu corpo.

Palavras assim que talvez a pudessem ajudar - se é que há alguma coisa que possa ajudar uma mãe que perde um filho.  Mas, pelo menos, palavras que a mantenham distraída, iludida, e que a ajudem a atravessar o tempo que falta até que encontre maneira de viver, em paz, com o André dentro do seu coração.

E, então, quando estiver mais forte, que volte à televisão. Estamos à sua espera. E eu, nessa altura, meter-me-ei outra vez com ela, com as suas saias que deixam a bela perna bem à vista, com os seus saltos altos que fazem o meu marido dizer uns piropos, com os seus à partes 'mas ó dr. medina...' que me fazem rir - mas saberei que ela, como tantas outras mulheres que passaram pela mesma tragédia, conseguiu sobreviver. Porque se sobrevive sempre.

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Não quero falar mais nisto. Temo que tomem estas minhas palavras como mórbidas ou como um voyeurismo descabido. Não são. Quem aqui me costuma acompanhar sabe que sou avessa a isso.

Estas minhas palavras são apenas a confissão de como isto me abalou. Uma mãe sente uma coisa destas como a confirmação de que uma desgraça assim é possível - e isso aterroriza-nos. Não queremos pensar que isto possa alguma vez acontecer e, quando vemos uma mãe a passar por isto, a gente interroga-se: que forças descobrirá ela para conseguir sobreviver?

Mas é verdade: por quantas mães eu teria que chorar se chorasse por todas as mães que perdem filhos? 

As mães grávidas que embarcam, ao monte, numa qualquer embarcação onde se morre de fome, sede, falta de oxigénio, em busca de um futuro mais do que incerto. As mães que perdem os filhos em cenários de guerra. As mães que vêem os filhos ou as filhas raptadas. As mães que vêem os filhos sem cabelo, entubados, nos hospitais onde se espera um milagre todos os dias. As mães que não têm dinheiro para dar de comer aos filhos e que temem perdê-los para uma qualquer instituição. 

É um facto: por quantas mães eu teria que chorar se chorasse por todas as mães que choram pelos filhos?

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  • Horowitz interpreta Schubert-Liszt Ständchen (Serenade)
  • As mulheres abstractas são de André Wee
  • As fotografias de casas abandonadas são do fotógrafo alemão  Sven Fennema
  • A árvore cujas raízes se iluminaram é uma fotografia manipulada de Barry Underwood.
  • A última fotografia é uma fotografia galardoada pela World Press Photo, tirada no Yemen, e é da autoria do fotógrafo espanhol Samuel Aranda para o The New York Times.

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Amanhã, tenho a certeza, já falarei de outras coisas mais animadas. Há tantos assuntos.
(E talvez amanhã não me pareçam ridículos.)

Aliás, se ainda conseguir hoje, já o farei.

Mas, pelo sim, pelo não, já aqui deixo as minhas despedidas.
Tenham, meus Caros Leitores, uma boa quarta feira.

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