Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta piano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta piano. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, outubro 21, 2019

"A realidade é aquela coisa que não se vai embora quando se deixa de acreditar nela." *





Se vos contasse o que me apetecia poder sentir a liberdade de cortar amarras, de partir à descoberta, começar uma nova vida. 
Bem, não todas. Há amarras que não são amarras, são laços, laços indestrutíveis. Desses jamais me poderei separar. Mas há outros que sim. Facilmente seria capaz de desfazer os nós e sair sem voltar para trás.
Sinto, por vezes, que me poderia abeirar de uma estrada nova onde me sentiria como me gosto de me sentir: sem saber o que vou encontrar.


Lembro-me quando fui a uma entrevista há muitos anos, sem saber nada, nem qual a empresa, nem o que ia fazer. Fui. Quase como se fosse de olhos vendados. Lembro-me de quando comecei a trabalhar nesse sítio depois de passar por entrevistas, algumas bem desafiantes. Mandaram-me apresentar num sítio onde antes nunca tinha ido. Não fazia ideia. Fui à aventura. Quando fui ao departamento de recursos humanos fiz algumas perguntas que deixaram a pessoa que estava a acolher-me muito espantada: mas não se informou antes? Aceitou o emprego sem se informar? De facto, não. E estar a ocorrer-me ali fazer aquelas perguntas até a mim me surpreendeu.

Ao contrário de outras pessoas que se informam, que estudam tudo antes de para irem a algum lado, eu gosto assim. Blind date. É como quando vou visitar outra terra. Conheço quem estude os locais, os restaurantes, estabeleça percursos, e vá conhecer a terra como se fosse apenas confirmar na prática aquilo que já conhece na teoria. Eu não. Quero descobrir, quero surpreender-me.

E é o que me apetece: iniciar uma nova ocupação, conhecer outras gentes, outro mindset. Encalhei no mindset e tive que ir ver a tradução. Mentalidade. É isso: outra mentalidade, outro comprimento de onda, outro ambiente, outras palavras. 


Uma das vezes em que uma das empresas passou por uma fusão foi, para mim, um entusiasmo. Disseram-me, tal como disseram a outros colegas: agora vai ser responsável também por aquilo. E aquilo era algo que eu desconhecia em absoluto: o local onde trabalhavam, o que faziam, quem eram. Enquanto os meus outros colegas ficaram a processar, a avaliar como fariam a abordagem à pista, a estudar processos e os perfis das novas pessoas eu, para surpresa geral, no dia seguinte meti-me no carro e, sem aviso e às cegas, apareci lá. A surpresa de todos, incluindo a minha: foi uma coisa boa, uma daquelas emoções que nos enovela o estômago e nos põe um frémito no corpo todo. Falem-me de vocês, digam-me quem são, contem-me o que fazem. E assim foi: estivemos um dia à conversa. Saí de lá com ideias novas, parecia que tinha entrado num mundo novo. 

Mas agora nem era isso que me apetecia, isso já me parece pouco. Agora era mesmo um outro rumo, uma profissão diferente, hábitos culturais distintos, gente desformatada. 

Interrompi para jogar no euromilhões porque pensei que há o lado prático e isso, na realidade, poderia ser uma ajuda.

E ando com umas ideias. Muitas ideias. 


Por exemplo, acho que isto do clima é coisa muito séria e que medidas de fundo têm que ser tomadas e que há paradigmas que vão ter que ser radicalmente alterados a curto prazo e acho que a ciência e a tecnologia têm que se focar nas prioridades: travar a desertificação, garantir o abastecimento de água potável, conseguir reduzir o aquecimento. E acho que uma destas questões vai passar por encontrar tecnologia acessível. Já entreguei documentação sobre um caminho possível para que se estude o investimento mas quem o recebeu achou a ideia tão à frente que não lhe deu a devida atenção. E eu acho que não estão a ver bem. E acho que é coisa para o Governo, as empresas e as universidades trabalharem em conjunto. Estou a querer puxar pelo lado empresarial mas, às tantas, se calhar deveria puxar por outro. Ou insistir. 

Mas isso eu só gostava de lançar e de acompanhar até garantir que ia mesmo avante. Porque, no mais fundo de mim, o que eu gostava mesmo era de ter tempo para me dedicar a outra actividade, uma coisa muito diferente, um mundo muito novo. Outra gente, outros ambientes, outro mundo. 

E mais. 


Pode soar a loucura e se calhar é e, se calhar, sou meio louca. Ou completamente. Mas não faz mal.

Quando, no meu dia a dia, tenho que aturar gente medíocre que se acha a maior, gente que se agarra  aos seus pequenos poderes, gente que não consegue ver ao longe ou dar espaço a que outros despontem e se afirmem, só me apetece levantar-me e dizer que se vão catar, que já dei demais para tão infértil peditório, que tenho mais que fazer. Debato-me pois com o sentir que tenho que engolir sapos, porque faz parte, ou ser inconveniente, levantar-me, dizer que, se é para ficar, é com gente de confiança, gente capaz. 

E nem sei porque estou com esta conversa quando sei que a vida é assim mesmo. 


Tirando isso, só tenho a dizer que, talvez devido ao adiantado da hora,  tudo me parece possível, quer a capacidade para ir aguentando o lado pior da realidade quer a capacidade de manter em suspenso os sonhos, sonhando um dia poder abraçá-los.

E depois há a natureza, minha sempre presente mestra: ensina-me, maravilha-me, encanta-me, mostra-me o que é a vida, o perecimento, a queda, mas também a reinvenção, o renascimento. 

Por exemplo (e, na verdade, não sei bem o que pretendo exemplificar). Ia a passar e sentia o perfume. Perfume fresco e limpo. Parei. Vi o que me parecia um resto de flores secas, como que um cacho de pequenas flores. Aproximei-me. Cheirei. Era dali que vinha o perfume. Ao pegar para melhor aspirar o perfume, senti que não estavam secas, estavam frescas e macias. E depois reparei que havia mais. Muitas. Muito perfumadas. Nunca as tinha visto. E, no entanto, que lindas e gráceis e perfumadas florzinhas. Que maravilhosa surpresa. Que bom auspício.


As fotografias foram feitas in heaven (e repararam que os cogumelos já começaram a aparecer? e não são lindos, uma perfeição?). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor justamente de Where do we go from here.

---------------------------------------------------------------------

* Com os meus agradecimentos e o devido crédito ao ninghem que escreveu o que coloquei no título e me deixou mais dois presentes num comentário num post mais abaixo.

-----------------------------------------------------------------

E os meus votos de um dia feliz a todos vós

sexta-feira, outubro 18, 2019

Boogie-woogie a salvar-me o dia






O dia que já terminou não se recomenda. Fui lá porque quis, porque sei que, no meio de muito aparato, há sempre alguma coisa que se aproveita. O pior é que o pouco que se aproveita está envolto em muita buzzword, em muito daquele jargão para o qual já não tenho muita paciência. Sinto-me bicho raro, ave em extinção no meio de muita gente muito feliz com pouca coisa. Há muita gente que gosta muito de se rever e que cultiva esse networking. Eu não. Sou bicho do mato que não encaixa no fusuê urbano, incomoda-me o burburinho, os grupinhos em que as pessoas falam muito, julgando que estão a falar a sério. não dizendo nada que me interesse. 

Na volta é o peso da idade. Com mais de mil anos, já vi e ouvi muita coisa, já distingo a milhas o que é sol de pouca dura, pechisbeque, deslumbramento à toa, palavras que só duram um ano. E depois basta-me olhar para a pinta de um cromo para perceber que dali não sai sumo que se aproveite, só entusiasmo fajuta por coisa de nada, tesão do mijo disfarçada de motivation. Hoje até pontapé na gramática um expert da cocada preta deu. Eu que estava alheada, com a consciência desligada, sem prestar atenção ao que ali se dizia, até acordei, espantada, com o pontapé. Apenas me acalmei porque pensei que se calhar foi engano, distração, nervos. E pensei que quem me garante que, volta e meia, a pensar já na frase seguinte, não atropelo a frase em que estou. Quando me dá para fazer vídeos, aqueles que estão no youtube, nem gosto de ouvir e não é só pela voz que mais parece presa à terra do que saída de dentro de mim, é também porque constato que salto palavra, que encurto raciocínio para passar à frente e falar do que vem a seguir. E quem me garante que, quem ouve, não diz também olha-me esta, que nem palavra direita diz, que nem remata a linha com que cose as palavras, que deixa buraco a meio do palavreado. Por isso, desculpei o pimpão que não soube usar o tempo verbal e disse uma asneira. E voltei a alhear-me.

Mas vim cansada. Cansam-me já algumas coisas que há uns anos me pareciam suportáveis. A questão é que as palavras foram mudando mas as coisas permaneceram as mesmas. E tanto tempo a ver o mesmo tipo de pessoas a dançar a mesma dança na mesma curta pista já cansa. 

E o pior é que, aqui chegada, muito mail profissional e muita treta me esperava. Uma pessoa com a cabeça feita em água e, em vez de poder descansá-la, tem que queimar os poucos neurónios que restam com matéria igualmente desinteressante e, por vezes, arreliadora. Uma gaita.

Quem acabou por me salvar o dia -- ou melhor, o nada que restava dele -- foi o meu amigo: o algoritmo do YouTube. Cá para mim pensou: poor girl, so needed of an innocent joy. E nem sei se o algoritmo agora se expressou da melhor maneira porque nem era bem isto que eu queria dizer. Era mais que ele me apareceu a dizer que achava que eu ia gostar disto. E isto eram uns vídeos em que Brendan Kavanagh, por acaso versado em Literatura mas que tem esta graça de tocar em gares ou aeroportos atraindo toda a espécie de gente livre, se divertia à brava. É que, vendo um piano ou alguém a tocá-lo, uns chegam-se e desatam a dançar, outros sentam-se ao lado dele e tocam, outros cantam. Gente que dá gosto ver. Não se armam em inteligentes, não usam palavras da moda, não se entusiasmam com a perspectiva de terem algum pequeno poder. Não. Do que se vê, é gente que fica feliz só por existir.

E foi assim que, apesar do sono e apesar de saber que daqui a nada tenho que estar a pé para mais uma dose -- e bolas para as doses servidas de madrugada, não há saco que aguente estes eficientes executivos que impõem um regime madrugador aos outros -- me deixei aqui ficar a ver e ouvir estas alegres pianadas. Escolhi alguns para que vejam se também gostam como eu. Tão bom.

Era bom era que nos lugares que frequento tivesse a sorte de haver também disto: gente a tocar piano, a dançar, a improvisar, a dar largas à vontade do corpo. Isso é que era. Mas não tenho essa sorte. Só o meu amigo algoritmo do YouTube é que me conhece bem e me aparece a desoras, a dar-me o braço para me pôr a dançar com os olhos e a sorrir com os dedos.












Enfeitei o post com pinturas de Toulouse-Lautrec por algum motivo que não consigo descortinar. E lá em cima um tango nude pela Compagnia Khorakhané Danza pelas mesmas desrazões.

------------------------------------------------------------------------------------------------

E a todos desejo um dia feliz, vivido em liberdade, com boa disposição. E saúde.

😍

segunda-feira, outubro 14, 2019

Duncan, o grande amor da vida de Keynes e de Nessa Bell



Por vezes tenho pena de não ter pena para aprofundar os assuntos que me interessam. Guardo para o blog apenas o fim dos dias, quando a minha vida externa me liberta. E, quando chego ao fim dos dias, já tenho o fim da noite à vista e, geralmente, já estou cansada, incapaz de estudos e profundidades. Acresce a estas limitações o paradoxo de me deixar interessar por inúmeros assuntos e de, quando o interesse aparece, ter uma grande curiosidade em desvendá-lo. E, então, é como com os livros: vou juntando coisas para fazer, para estudar, para descobrir.

Talvez um dia. Talvez a maior parte nunca.

Isto para dizer que há um grupo de pessoas, uma época e um modo de vida que sempre despertaram a minha atenção. Ao revisitar imagens desse tempo e desse modo de vida no filme Vita & Virginia voltei a sentir vontade de ir conhecer um pouco melhor alguns dos personagens menos mediáticos (se é que assim me posso pronunciar).

Vanessa Bell, a irmã de Virginia, a Nessa, tão amiga, tão próxima, foi pintora e casada com Clive Bell. Clive Bell era um dos membros do grupo de amigos que gostavam de literatura, de pintura, de arte em geral, de conversar, de polemizar. 

Contudo, no filme, quem se vê em cumplicidade, a partilhar o estúdio, como se fosse o companheiro de Nessa é Duncan. Ora Duncan é homossexual. Fui confirmar. De facto, Vanessa, casada com Clive, tinha um amor profundo com Duncan Grant, homossexual assumido. Conseguiu, contudo, seduzi-lo a ponto de terem uma filha. Duncan tinha também um afecto profundo por ela.

Sobre Vanessa Bell, transcrevo da wikipedia:
(...) Após as mortes da sua mãe em, 1895, e do seu pai, em 1904, Vanessa vendeu o 22 Hyde Park Gate e se mudou para Bloomsbury com Virginia e os seus irmãos Thoby (1880-1906) e Adrian (1883-1948), onde eles conheceram e começaram a se socializar com artistas, escritores e intelectuais que viriam a formar o Grupo de Bloomsbury.
Casou-se com Clive Bell em 1907 e tiveram dois filhos, Julian (que morreu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola aos 29 anos) e Quentin. O casal tinha um casamento aberto, ambos tendo diversos amantes durante a vida. Vanessa Bell manteve relações extraconjugais com o crítico de arte Roger Fry e com o pintor Duncan Grant, com quem teve uma filha, Angelica, em 1918, que Clive Bell criou como sua filha.
Vanessa, Clive, Duncan Grant e o amante de Duncan, David Garnett, mudaram-se para o campo de Sussex antes do estopim da Primeira Guerra Mundial, e estabeleceram-se na Charleston Farmhouse, perto de Firle, East Sussex, onde ela e Grant pintaram e trabalharam em encomendas para o Omega Workshops, atelier fundado por Roger Fry. A sua primeira exposição ocorreu no Omega Workshops em 1916. (...)
Sobre Duncan Grant, transcrevo:
(...) Vanessa queria muito ter um filho de Duncan e ficou grávida na primavera de 1918. Embora se suponha que as relações sexuais de Duncan com Vanessa terminaram meses antes de Angelica nascer (Natal, 1918), os dois continuaram a viver juntos por mais 40 anos.
Viver com Vanessa não era impedimento para as relações de Duncan com outros homens, antes ou depois de Angelica nascer. 

His lovers included his cousin, the writer Lytton Strachey, the future politician Arthur Hobhouse and the economist John Maynard Keynes, who at one time considered Grant the love of his life because of his good looks and the originality of his mind.
Angélica cresceu acreditando que Clive Bell era o seu pai, até porque tinha o seu apelido e o comportamento dele nunca lhe deu nenhuma indicação em contrário.  
Duncan e Vanessa tinham um relacionamento aberto, embora ela aparentemente, nunca tenha tido outras relações depois de passar a morar com ele e de ter o seu filho. Duncan, pelo contrário, teve diversas relações sexuais esporádicas e vários relacionamentos sérios com outros homens, sobretudo com David Garnett. No entanto, o seu amor e respeito por Vanessa manteve-se até à morte dela, em 1961. (...)
------------------------------------------------------------

Uma fonte inesgotável de motivos de interesse.
Agora já fui atrás do Keynes mas isso já não cabe aqui e, de resto, daria pano para muitas mangas.

-----------------------------------------------------------------------------

Já agora, Angelica Garnett, a filha de Vanessa e de Duncan


------------------------------

Vanessa Bell foi, nas pinturas acima, pintada por Duncan Grant. Mais abaixo pode ver-se Duncan com Keynes e, na última, com Ness. Lá em cima Hélène Grimaud toca Bach

......................................

sexta-feira, outubro 11, 2019

Um dia saturado






O meu dia foi cheio de complexidades. Por vezes impeço-me de pensar pois parece-me que já não consigo processar mais. Forço-me à pausa. De manhã, por mais do que uma vez disse: 'Não eu'. Não quero que pensem que quero alijar responsabilidade mas chega a um ponto que sinto que já chega. Que alguém faça mas que não eu. Sempre fui de ir acomodando mais e mais trabalho e sempre sem pedir nada em troca. Não gosto de transaccionar a responsabilidade que assumo. Mas o mundo muda, as complexidades aumentam, e sinto que não consigo encaixar mais e mais e mais.

Saí de lá cheia de telefonemas não atendidos, mensagens não respondidas. No carro, a caminho de almoço, telefonemas. Crise noutro lugar. Pedido de apoio. Cheguei lá e ouvi o relato do que se tinha passado e, enquanto falava, foram chegando mais mails e mais mensagens. 

Fui para outra reunião. Correu bem mas eu a perceber que vai sobrar para mim. No fim, a confirmação: sabe que isto vai exigir mais de si, mais disponibilidade? Sabe isso, certo? E eu, com franqueza: 'Ainda não pensei nisso. Logo penso. Acho sempre que consigo conciliar mas já não sei. Mas não consigo pensar já nisso. Logo se vê.'. Do outro lado, uma certa apreensão. E eu sem conseguir adiantar mais nada.

Há quem planeie, quem seja calculista. Eu não. Penso que, na hora, logo vejo.

Mas agora acho que a equação começa a ser impossível. Não sei. Não tenho descanso e isso, por vezes, pesa-me. 

Mal saí de lá mais uma mensagem, mais um desabafo e um pedido de ajuda. Fui à procura do animal que tinha molestado aquele pobre indefeso que me pediu ajuda. Ia nos cascos, capaz de o virar do avesso. Mas não o encontrei. Saí. No carro, ao telefone com o que me pediu ajuda. Agora, aqui em casa, desforrei-me: um mail que deve deixar aos urros o estupor, deixá-lo a sentir pimenta no rabo, orelhas de burro, cara de palhaço. Amanhã sempre quero ver como será quando me tiver pela frente. Não suporto --  mas não suporto mesmo -- os todo-poderosos que exercem a sua prepotência junto dos mais indefesos. Não suporto. Não admito. Levo às últimas consequências. Vou encostá-lo à parede e só tenho pena de não poder obrigá-lo a sujeitar-se a um toque rectal com um dedão de meter medo. Que fúria sinto quando vejo os mais indefesos até com medo de se queixarem não vá ainda serem alvo de retaliações. Há gente muito estúpida.

Enfim. 

Já chega de pensar nisso. Estou saturada, como acredito que dê para perceber.

Volta e meia, à hora de almoço, a correr, vou ver os livros esperando não ver nada que me agrade. Mas agrada sempre. No outro dia vi alguns que devem ser mesmo bons. Estão aqui. Não consigo tempo para eles. Um tem uma capa espantosa, graficamente falando. Chama-se 'Já então a raposa era o caçador'.  As raposas são seres cativantes. Deitar-lhe o laço. Mas quando?

No outro dia, a meio da manhã, vinda de outra guerra, vou a chegar e vejo alguém que conheço. Parei o carro de longe. Vi de longe. Observei. Pensei, vou levar o carro até lá, parar o carro, falar. Mas não consegui. Depois enchi-me de coragem e andei com o carro. Pensei, se me vir, páro o carro. Mas não viu e eu segui. Fiquei a pensar 'que disparate, porque não parei o carro, porque não falei?'. Segui, sem me perceber. 

Se calhar é isto de já não conseguir acomodar mais, de já não conseguir assimilar mais, de recear complicações a que não consiga acudir. 

Só quero silêncio, palavras límpidas, flores de mil cores, gestos simples, afectos de verdade, livros bons, conversas transparentes.


----------------------------------------

E por aqui me fico. 

Pinturas de Tawaraya Sōtatsu ao som de finais de grandiosas pianadas 

Desejo-lhe um dia muito bom

segunda-feira, setembro 30, 2019

Cristina Ferreira foi aos Globos de Ouro vestida de Anjo da Victoria Secret?
Ou de Nossa Senhora (ou de Irmã Lúcia, nem sei)?
Ou de bailarina de Can-Can?
Ou simplesmente na SIC já perderam a noção do ridículo?
Pergunto.


Porque a semana não me chegou e porque esta que entra também se afigura do caneco, para este fim de semana trouxe trabalho de casa -- trabalho chato e com alguma responsabilidade e, ainda por cima, parte escrita em inglês o que complica um pouco a faena já que, a uma hora destas, sem pachorra, quero fazê-lo com um olho no burro e outro no eleitor-alvo do CDS -- e isso, em cima de dias muito dedicados à família, deixaram-me sem grande disponibilidade para as minhas coisinhas ou para o fait divers. Ou seja, por exemplo, não tenho conseguido responder a comentários ou mails pessoais nem, a seguir, cirandar pelo mainstream.

Por isso, há bocado, enquanto trabalhava e o meu marido, mais a dormir do que acordado, via futebol e respectivos resumos e comentários, resolvi surripiar-lhe o comando e fazer zapping. E passei por uma coisa extraordinária. Eram os Globos de Ouro. Não sabia que era dia disso pelo que aquele aparato começou por me parecer uma Gala de algum programa qualquer que não estava a identificar. Mas logo percebi.

Apresentava o espectáculo a Cristina Ferreira vestida de uma forma inenarrável. Estava de asas pregadas a um vestidinho de tipo baby-doll, toda ela lingerie em desfile de Victoria Secret. O meu marido acordou com os gritos dela e quase se assustou com o que viu. Depois de se restabelecer, resmungou: 'Esta gaja não aprende'. Depois percebeu que estava diminuído (sem o comando na mão, ele não é ele) e pediu: 'Dá cá o comando'. Dei-lhe e ele voltou a fazer zapping. Passado um bocado, à sorrelfa, repeti a cena. Lá estava ela, outra vez mascarada, com plumas, folhos, tules, disparatada até à raiz dos cabelos. Ele voltou a acordar e quase não conseguiu protestar: 'Lá estás tu. Para que é que queres ver esta gaja?'. Levantou-se, então, e disse que ia dormir.

Voltei ao meu trabalho, esperando que fossem horas de dar o Desassossego da Maria João Seixas mas estava a dar atletismo pelo que, passado um bocado, coloquei outra vez nos Globos de Ouro. Apareceu ela, então, agora a receber também um prémio. E já estava mascarada de outra coisa, desta vez com as raízes dos cabelos espetadas para fora, e de tal modo era que chamei imediatamente o meu marido para vir ver. Quis saber o que era mas não lhe disse porque se lhe dissesse que era para ver a Cristina Ferreira era o vinhas. Disse-lhe só que era uma coisa do além. Ele chegou à sala, viu-a, e, perante o óbvio too much, agora em versão santinha a caminho do altar, fez um esgar quase de dó e disse: 'Eh pá...' e desandou. E já não viu o pior: é que, quando ela acabou um discurso (de tal forma auto-convencido que parecia estar a ajustar contas com alguém que lhe quisesse tirar o lugar) e virou costas, pareceu-me ver no manto os contornos ou da Nossa Senhora ou da Irmã Lúcia. E, nessa altura, fiquei naquele estado que se designa por estupor catatónico. Mas que raio de maluquice era aquela? É o que eu digo, parece que já vale tudo. 

Voltei a fazer zapping, tentando ver se o Desassossego já tinha começado mas, enquanto não, fui ver se conseguia descobrir que desconcertante desenho era aquele no vestido dela. Mas já ela se tinha trocado de novo. Estava outra vez em espampanante toilette, desta vez misto de Victoria Secret e de bailarina de Moulin Rouge, um excesso de plumas cor de rosa. Nela, talvez pelo exagero, talvez pelo tom de voz, talvez pelo conjunto, tudo fica com toque a novo rico em versão mais do que kitsch. Vinha agarrada ao Balsemão que, não sei se atarantado com tanto pink, tanto guincho e tanta luz, parece que vinha almareado -- e isto para não dizer que vinha disfarçado de múmia andante.

Fiz zapping, claro, e felizmente já a Maria João Seixas tinha começado. Desta vez convidou, de novo, o José Pedro Serra (digo de novo porque já o tinha convidado para o Afinidades). Um bálsamo. Até parei de trabalhar para melhor os ouvir.

-------------------------------------------------------------

Para terminar num registo de tranquilidade, Joana Gama, a quem estou a ouvir neste momento, igualmente na RTP 2. Outro bálsamo.


.........................................................

E a si que está aí desse lado desejo uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira: 
saúde, alegria, sorte e o mais que queira de bom para si e para os seus.

domingo, setembro 22, 2019

Que fazer quando a nossa casa está em chamas?





Seria fácil se a solução estivesse apenas na florestação. Mas, infelizmente, não é bem assim. Florestar é importante, muito importante, mas, tal como se refere no vídeo que partilhei no outro dia (o segundo do post), não haveria superfície terrestre suficiente para todas as árvores necessárias para produzir o efeito indispensável. Além disso, não é qualquer árvore, em qualquer sítio. É preciso muito, muito mais que isso. 

A questão é complexa: a globalização pôs as coisas a percorrerem longas distâncias. Queremos muita oferta, muito barata. Para isso, os produtores fazem o que podem. Onde são produzidas as peças de roupa que compramos na Zara ou em qualquer outra grande marca? No Paquistão, no Chile, onde calhar. E as matérias primas para fazer essas peças? Sabe-se lá de onde vêm. Da Índia, de Marrocos, you name it. Tudo percorre grande distâncias. Compra-se a matéria prima onde for mais barata, transporta-se de lá, leva-se até onde a mão-de-obra for mais barata, depois transporta-se de lá até onde existir consumo. E quem diz roupas, diz ténis, diz carteiras, diz brinquedos, diz electrodomésticos...  diz quase tudo. 


E as empresas e demais organizações, para terem escala e 'eficiência', têm que ter os serviços centralizados e as pessoas que antes estavam noutras repartições mudam de local de trabalho, se calhar ficando a quarenta ou cinquenta quilómetros da sua residência e para a qual terão que se deslocar pendular e diariamente, usando transportes, tantas vezes viatura individual.
E não me ponho de fora. Não, sou um dos pequenos seres que, em toda a linha, se integra nesta cadeia. 
E, por isto, aquilo ou o outro, a poluição aumenta, aumenta, aumenta.

E isto já para não falar no crédito fácil e nos hábitos de consumo que fizeram com que as cidades fossem devoradas pelos carros. Um carro para a mãe, outro para o pai, outro para cada filho.

Ou o crédito também fácil para viajar que criou a procura necessária para as viagens de avião low cost com os aeroportos saturados e os ares cheios de ruído e porcaria.


E os hábitos da picanha brasileira, da carne argentina, e os restaurantes de all you can eat cheios de carnes e enchidos e trinta por uma linha vindos sabe-se lá de onde mas, certamente, de longe... e tudo a oito ou nove euros. E, portanto, tudo tem que ser barato pelo que os criadores de gado têm que baixar o preço da carne, ter muitas cabeças de gado e, para isso, têm que ter espaço e vá de acabar com florestas. E isso e o escambau, porque estou a dar meros exemplos mas isto é generalizado.

E é tudo descartável porque não é prático andar a aproveitar coisas, ter que lavá-las. Nem se vendem coisas a granel. Mais simples e barato tudo de plástico. E como não? Como compraríamos o gel de banho, o detergente, o shampoo, a água, tudo, tudo, tudo? E tanta coisa que não se recicla, que vai para o lixo, ficando por aí, poluindo mares, terras.

E nem falo da indústria que, por cá, vai sendo menos poluente mas que, em tantas partes do mundo, é criminosamente poluente. Tintas, resinas, metais pesados, produtos altamente poluentes a irem para os leitos de rios ou para a atmosfera. Em tanto lado.


E tudo nas nossas vidas é assim. Não é de hoje nem de ontem. Tem sido uma longa e estúpida trajectória. 

E nem falo da maior derrota dos nossos tempos, esse flagelo, essa dor que nos crava o coração de mágoa e impotência, essa tragédia que são os desgraçados bandos humanos às portas do mundo dito civilizado, gente que foge à guerra (alimentada pela sinistra indústria de armamento e fomentada pelos mais funestos e gananciosos exemplares da espécie humana, gente que se alimenta de petróleo e de todo o tipo de sórdidas ambições), gente que foge à seca, à fome, a um destino miserável -- deixando para trás terras esventradas ou ressequidas ou mortas.

Por isso, agora que o planeta está como está, a nossa casa em chamas, não é uma medida -- uma medida única, avulsa, voluntarista --  que resolve o que quer que seja. Têm que ser muitas. E bem estudadas, articuladas, planeadas. É toda uma civilização que tem que fazer a agulha num outro sentido.


De novo partilho um vídeo que me parece bem feito, apelativo, credível.

David Attenborough, Greta Thunberg and Jane Goodall 

want to talk to you about climate change


Todos somos poucos para, através de uma consciencialização colectiva, tentarmos ajudar a mudar este triste estado de coisas.
Que cada um de nós seja porta voz desta consciência, desta vontade de salvar o planeta, de nos salvarmos a nós próprios.


--------------------------------------------

No outro dia falei do espaço e ainda não é hoje que explico porque o digo (digo apenas que se é sabido que dos céus nos vem a luz e o vento -- aproveitados, entre outras coisas, através das fotovoltaicas e das eólicas -- não nos esqueçamos que é também de lá que nos vem a chuva que pode ser estimulada).

Mas hoje falo também do mar. E se Portugal tem mar... Note-se: não é a solução. Mas pode ser uma das soluções. veja-se como um exemplo das muitas possíveis soluções que, volto a dizer, cientificamente estudadas, articuladas, planeadas, etc, podem vir a contribuir para mudar a trajectória de destruição que estamos a percorrer.

This incredible underwater farm could be the future of food



------------------------------------------------

Fotografias feitas este sábado in heaven nas quais se pode ver uma abençoada amostra de chuva. 

Lá em cima, nuns belos jardins australianos, é o concerto N°24 na interpretação de Piotr Anderszews

terça-feira, junho 18, 2019

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância






Ao longo do dia, andei de umas para outras sem que nada, durante todas aquelas vastas horas, me tivesse agradado especialmente. Muita reunião, muito roadmap, muito business plan e business case, muita mitigação, muita coisa nessa base e sumo que é bom e eu gosto, pouco e, o que há, fraquinho, fraquinho. Pior: no intervalo, nada. Um compacto de cenas desinspiradas.

Vão rareando as pessoas que me fazem rir ou com quem se consiga ter uma conversa variada sobre temas pouco sérios. Quanto mais pessoas conheço mais me convenço que as pessoas muito sisudas e que só sabem falar de trabalho, por muito que aparentem ser eficientes e ultra zelosas, são, na realidade, umas perfeitas nulidades, fazendo muito bem coisas que geralmente não servem para nada. Acresce que são chatas, muito chatas.

Tenho saudades dos longínquos tempos de grande irreverência, de muito mau comportamento. Tenho saudades de quando me diziam que o meu colega e grande amigo tinha saído do gabinete a apertar a portinhola, isto depois da secretária ter de lá saído segundos antes toda afogueada e sorridente. Tenho saudades dos relatos mirabolantes de um colega que contava histórias inverosímeis e que, quando eu o confrontava: 'Não acredito em nada disso, deve ser tudo mentira' me respondia com ar divertido e gaiato: 'Tudo não, que exagero. Tem um fundo de verdade'. Tenho saudades de quando a minha secretária me contava que tinha pressionado outro meu colega e amigo, dizendo-lhe: 'Se está à espera de ser velho para deixar a sua mulher e vir viver comigo, tire daí o sentido, ou é agora, enquanto somos novos, ou esqueça'.  Tenho saudades daqueles dias divertidos em que a arquitecta que ia comigo ver as obras, saia étnica até aos pés, me dizia: 'Viste como os gajos não tiravam os olhos das minhas pernas? É que a saia é transparente e eu ponho-me em contraluz para os gajos ficarem vesgos'. Tenho saudades daquele presidente, amicíssimo, um mestre, que contava que a vizinha da moradia contígua, no Estoril, era italiana, fogosa e andava nua no jardim... e que ele inventava desculpas para não ficar na casa da cidade, onde vivia com uma namorada vinte e cinco anos mais nova, para ir pernoitar ao Estoril e, mal lá chegado, saltar a cerca e pernoitar com a italiana, sexagenária como ele. Tenho saudades daquele outro colega que, quando chegava à ponta do corredor, dava um salto batendo os pés de lado como se a seguir fosse dançar como o Fred Astaire.
Um paradigma do homem sadio, criado para confiar totalmente nos seus próprios impulsos, graças a uma intensa e jubilosa vitalidade imune ao medo, à má consciência, à malícia e aos expedientes e muletas morais da lei e da ordem que os acompanham.
Eram todos assim, eu a única mulher no meio de um bando de doidos. Mas uns doidos inteligentes, competentes, arrojados, irreverentes, bem sucedidos no seu trabalho, na sua vida. Divertíamo-nos à brava. Só um é que se levava a sério e, portanto, ninguém tinha paciência para ele. Uma vez metemo-nos todos numa bravata que, como todas as bravatas, comportava riscos. Esse tal apertadinho teve medo, acobardou-se, saltou fora. Todos os outros mantiveram-se unidos até ao final, apesar das ameaças, apesar de sabermos que haveríamos de pagar pela nossa insolência (e coragem e coerência). E pagámos, de peito feito, alegres da vida.

O ambiente profissional que conheço, aqui e ali, hoje não tem disso. É tudo muito calculado, muito bem comportado,  muito politicamente correcto, ninguém ousa uma piada mais brejeira, ninguém ousa pisar o risco. Hoje ninguém tem tempo para maluqueiras, anda toda a gente muito ocupada a cumprir objectivos, a atingir os kpi's e a mostrar-se muito eficiente junto do chefe.

Até certa altura, não estava ainda tudo automatizado, não havia mails desde que despertamos até que nos deitamos, não havia telemóveis a levarem o trabalho até nós: e, no entanto, não havia qualquer necessidade de trabalhar até às quinhentas, e, durante o dia, nem sei como, havia tempo para falar de livros, para falar de cinema, para anedotas, para fofocas divertidas, para risotas boas.

Quando penso nisto parece ficção. Ou coisa que aconteceu num outro mundo, numa outra época.

E não sei como é que isto se perdeu. 

Aliás, sei. Houve uma época tenebrosa, dos yuppies, gente muito pseudo-eficiente, gente muito ao sabor de modas, gente que não sabia nada de nada a não ser papaguear jargões em consultês, gente que muito menos sabia da vida, e que apareceu a querer normalizar a diversidade.
Lembro-me de um que apareceu nem sei de onde. Tinha trinta e picos e portava-se como se fosse um grande magnata. Fumava charuto e um dos meus amigos, à socapa, gozava com ele, dizia que parecia aquele bebé, o Baby Herman, semblante autoritário, charuto na boca e... de fraldas. Vi-o depois naquilo dos empresários qualquer coisa de Portugal, que iam refundar Portugal, acho que se chamava Compromisso Portugal. O João Miguel Tavares é que, nessa altura, mesmo andando ainda de fraldas, devia ter aproveitado as causas. Aqueles lá tinham causas. Muito parvalhão acreditou nos el dorados que prometiam amanhãs que cantavam, muito parvalhão lhes deu palco, muitas entrevistas. Muito se assistiu à sua pesporrência fútil e bacoca. O Baby Herman por lá andou a fazer não se sabe bem o quê. Certamente alguém o fez Comendador. Deve ter falido a empresa mas isso não interessa, a memória da malta é curta. 

Mas, enfim, é assim. Os tempos mudam e nem sempre mudam para melhor. E somos todos nós, colectivamente, que deixamos que isso aconteça. Vamos deixando, vamos contemporizando. E, quando damos por ela, o mundo mudou, alagado em mediania... e, quando queremos mudar-nos daqui para um lugar melhor, percebemos que perdemos o pé.

Mas, na volta, sempre assim foi desde o princípio dos tempos: toda a gente sempre a achar que tudo isto não passa de um devir a caminho da nulidade.
Nenhum de nós alcançará a terra prometida: morreremos todos no deserto. O intelecto, como alguém já disse, é uma espécie de doença: incurável.

 ---------------------------------------------------------------------

Pinturas de Kim Heungsou na companhia de Yiruma com Maybe. Em itálico, excertos de O wagneriano perfeito de Bernard Shaw (incluindo o título)

----------------------------------------------------------------------------------------------

Já agora, a propósito de Bernard Shaw, o discurso em louvor de Einstein 
-- e que bom quando as pessoas gostam de rir, de se rir


________________________________________________________________________

E, que nem de propósito, abaixo uma evocação de um mundo transacto, um mundo que já nada tem a ver com este nosso mundo -- um mundo de reis, rainhas, príncipes e princesas, duques e duquesas, caleches e penachos a enfeitar as belezas. Bem podem as ruas protestar e os noticiários falar de brexits, de autodeterminações, de crises políticas, ambientais, sociais que, numa outra dimensão, num tempo que parece pretérito, os soldadinhos vestidinhos com os seus fatinhos bonitinhos continuam a bater o pezinho e a subir as escadas quase aos saltinhos e as realezas continuam a desfilar cheias de capas e capelines. Uma real gracinha.


----------------------------------------------------------------------

E, no meio disto, tudo de bom para vocês: peace and love.

sábado, junho 08, 2019

Sobre um marquês com patorras de barro. E uma Imperatriz Emérita


Às vezes acontecem comigo coisas tão inesperadas e inexplicáveis que tento processar o que aconteceu e dificilmente o consigo. Ontem até aqui falei de um marqês da casca grossa com impância proporcional ao volume: gigante, gordo e transbordante de arrogância. Mas eu, por mais que olhe, não vejo a importãncia de que ele se acha revestido: olho e apenas vejo um alvo a neutralizar. Mas uma coisa é o que vejo e outra a forma como ele se vê. Anda pisando os mais fracos, atira piada racistas de que apenas ele se ri, ignora as necessidades dos mais desfavorecidos ao mesmo tempo que, para si, se arroga privilégios e tratamento diferenciado. Furioso comigo do alto dos seus dois metros e dos seus trezentos e oitenta quilos, às tantas perguntou-me se eu o achava igual aos outros. Respondi que sim mas foi por educação e caridade -- que ver, ver, vejo-o é como um parvalhão que não interessa ao menino jesus,

E o lero-lero azedou até que a besta informe avisou que o assunto não era para mim, que ia colocar a questão ao seu superior, alguém que, para ele, está sentado à direita de deus nosso senhor. E eu, como sempre, a observar-me, incompreensivelmente tranquila.

Pois bem. Hoje, sem que eu o soubesse, numa reunião com o dito big chief dele e o verdadeiramente big big chief que lá foi para uma reunião, pediram-me para ficar para o que se iria seguir. E o que se seguiu foi que uns quantos desfilaram ali pela sala, à vez, para exporem o que andam a fazer. Até que apareceu o animal. Espantado por me ver ali no lugar do grande júri, até atirava um olho para cada lado. E eu, de novo mais do que tranquila, tentando disfarçar o quanto me divertia a situação, de vez em quando inquiria-o, deixando a nu como são de barro as suas patorras.  

Mas, ao mesmo tempo, só me interrogava: a que propósito estou aqui metida, nesta bizarra situação?

Quando saí, estava uma pessoa à espera para saber o que se tinha ali passado e eu não soube explicar. Mas depois, saí dali, meti-me no carro e vim na conversa com a minha mãe e nem mais me lembrei de tal coisa. E depois, a caminho de cá, entre umas dormitadelas e combinações para este sábado, nem mais me lembrei de tal coisa. Primária, primária. 

E só a meio do jantar me lembrei e contei. O meu marido também admirado e também divertido.

Passa uma da manhã, não tarda tenho que me levantar para ir ao super e depois vir fazer o almoço que tem que estar pronto bem cedo. No carro, a minha filha dizia: 'lá vai ser mais uma noite em que vais escrever que adormeces de cinco em cinco minutos'. E é, e nem são cinco minutos, são menos. para escrever meia dúzia de linhas levo o tempo de cem. E as gralhas devem estar a comparecer em bando. E vou já para a cama e lamento não ter nada a dizer. Melhor: ter, ter, até tinha, só que estou que não me aguento.

--------------------------------

E agora, para me despedir e depois de ter implantado pinturas de Edward Hopper a despropósito no meio das palavras, só me ocorre aqui ter Michiko que serviu o japão como Imperatriz Consorte, mulher do Imperador Akihito, até 30 de Abril. Michiko tem 84 anos e é muito elegante, qualidade rara, especialmente quando é coisa que vem de dentro.


.........................................

Um sábado feliz para todos

terça-feira, junho 04, 2019

Agustina


Fotografia in Folha de S. Paulo



Não posso dizer que hoje tenha tido um desgosto quando soube da notícia. Não tive.

Não que seja fria de coração porque, por vezes, ajoelho de desgosto. Como, por exemplo, o que senti, grande, quando vinha no carro e ouvi que o Bernardo Sassetti tinha caído de uma ravina, tinha morrido. Nem queria acreditar. Gostava tanto de o ouvir e gostava tanto das suas composições que a morte surgiu como um alçapão tenebroso que ia impedi-lo de continuar a compor e a tocar para nós.

Mas de Agustina, hoje, não. Nela eu gostava do que ela escrevia e, mesmo assim, não de tudo. Gostava também de a ouvir falar mas isso era quando ela falava e há alguns anos que não falava. Diz a filha que já antes do AVC ela parecia querer ausentar-se. Isso pareceu-me natural. Depois de uma vida a esgotar-se em palavras pareceu-me legítimo e compreensível que buscasse o silêncio das palavras não ditas. E de escrever também se desligou. Tinha-se despedido com a Ronda da Noite. Anos de palavras a correrem nas veias também cansa. 

Excerto de foto da Impala
Depois do AVC, deixar as palavras a sossegarem numa caverna profunda e inacessível sempre me pareceu nela uma coisa normal. Os AVCs são buracos negros que sugam a matéria e, nela, a matéria era a carne das palavras.

Levantar-se, ter a sua higiene tratada, escolher a toilette do dia, ir passear no jardim, ir para a sala, ficar em silêncio, parecia-me um programa mais do que suficiente para uma soberana em repouso.

E das suas palavras escritas e ditas antes disso eu não preciso de me despedir. Tenho-as perto de mim, sempre terei. Umas estão ali na estante, outras estão num livro que tenho aqui. E há vídeos.

De palavras novas já eu não esperava, pois, há uns bons anos e, no entanto, milagrosamente, elas continuaram a aparecer-me. E sendo, afinal, a caverna -- onde, durante anos, as palavras se acomodaram como letárgicos bichos do mato -- como um rio sem princípio nem fim estou em crer que as palavras continuarão a aparecer, a espreitar o sol, ficando por aí.

E é dessas que eu tenho gostado mais.

Sempre fui mais dada a petiscos que a grandes pratadas. Apanhados de ensaios, de crónicas, de textos, de cartas. Ou biografias que não são nem um bocadinho convencionais sobre pessoas de quem ela gostou muito e onde se perde em memórias, em observações à toa, onde mistura biografia e autobiografia, onde brinca, onde faz voos rasantes sobre a personalidade dos amigos. De tudo isso eu posso petiscar sem ordem definida, banquete informal, dim sum em que posso passar de uns para outros sem quebra ou adaptação, sempre em puro deleite e desconcerto. 

Houve a Sibila, claro. Inaugural. Dolorosa, visceral, telúrica, mística. Mas depois os outros romances não me prendiam. Tenho-os, alguns: debiquei-os. Há alturas da vida para tudo. Se a escrita requer vagar, vida ou tolerância e a lemos entre preocupações por filhos pequenos e depois adolescentes ou entre horários à justa, com certeza que as nossas trajectórias não convergem. Hei-de voltar a estes livros que contam histórias para perceber qual a minha sedimentada opinião.

Agora aquela insolência, aquela ironia truculenta, aquelas observações tão próprias de uma mulher da terra, aquela sabedoria desprovida de laços, venturosa, aquela carnalidade madura que se metamorfoseia em palavras, aquele riso escarninho, aquela farpa oblíqua, aquele despudor tão característico daqueles a quem tudo se permite, aquele desbocamento elegante, pérfido, atraente, tão próprio de quem sabe da inteligência extrair a beleza --- isso eu encontro nos textos avulsos, nos pequenos livros, nas opiniões, nas recordações, nas entrevistas. 

E tudo isso é eterno e cada vez o há-de ser mais pois mais pessoas a irão descobrir e amar e venerar o seu indomável espírito que sempre se manterá moderno e presente entre nós.

Já muitas vezes aqui falei dela e mais vezes haverei de falar pois há em Agustina aquela sedutora fractura, aquele desalinhado e descontraído comportamento e aquele gosto em enterrar as mãos nas vísceras ainda quentes daqueles a quem disseca -- que me são irresistíveis.

--------------------------------


Não sou de saber de cor citações ou de guardar de memória referências que agora me poderiam ajudar a escolher um texto a preceito que fundamentasse na perfeição os meus humílimos encómios. Por isso, fui à estante e puxei o Caderno de Significados, um livro fininho que, lá dentro, teria certamente textos pequeninos, fáceis de copiar. 

E é assim que, sendo que decorre agora mais uma edição da Feira do Livro e relembrando o tempo em que eu começava a visita pelo stand da Guimarães, cá em baixo, á esquerda de quem subia, para ver os livros de Agustina, soberana das letras portuguesas, soberana do seu reino da fantasia, transcrevo:

Feira do Livro

É possível imaginar uma tarde mais doce debaixo dos céus de Lisboa, mas eu não quero imaginar. O Parque Eduardo VII onde se inaugura a Feira do Livro está todo fechado em copas de árvores onde goteja uma promessa de chuva. Há muita gente conhecida e desconhecida. Os bonecos da Contra-Informação recebem os seus amigos e outros. Paira um bom presságio que está às vezes onde menos se espera. Saramago, mais sorridente do que é costume, Lobo Antunes aparece e desaarece. Eu, com os meus pés tenros como espargos, sento-me na cadeira que há no Pavilhão e dizem-me, de vez em quando, que a guerra foi declarada entre editores e livreiros. Napoleão tinha razão, a guerra é o estado natural do homem. Venho verificar isso no Parque Eduardo VII. que é um lugar como outro qualquer para avaliar o mundo e os seus problemas. Um vento carinhoso protege-nos de tudo como se fosse a benção dos escritores que nos olham dos seus placards mais ou menos esvaídos em tinta simpática. Começa a estação da Feira, que em geral coincide com a estação das chuvas. Como se diz em português corrente, 'estes são os gravos da ladeza em que estes lugares da terra de Lisboa daquém mar Ociano hapartam da linha equinocial da ladeza conta o polo' que é o meu Volkswagen.

---------------    --------------