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quarta-feira, março 04, 2020

A Livraria do Mondego





Bem. Agora que já declinei a palavra ignorância em versão ted cruz, recuo no tempo, àquele magnífico e longinquo tempo em que gozei umas maravilhosas e longas férias no miolo do meu país. Chovia e os campos estavam verdes e os rios corriam airosos enquanto a água jorrava dos montes, saltitando nos regatos que ladeiam as estradas. O meu marido disse: 'Parece que estamos noutro sítio'. Por vezes sou lenta: 'Noutro como?'. E ele: 'No Minho'. Olhei melhor: sim, idílico, verdinho e lindo como o Minho. Mas também concluí que se calhar o que se pode concluir não é isso, é que não é só o Minho que é idílico, verdinho e lindo.

Muito por ali ardeu. Há encostas todas ardidas. Deve ter sido uma aflição, um susto de morte. Mas tudo renasce e, ao lado de troncos ardidos, há agora rebentos verdes de dar gosto.


E então, no adeus até à próxima, quando vínhamos no descair de regresso a casa, fomos à procura da Livraria. Como o IP3 está em obras, saímos pelo desvio. E quando chegámos lá não dava para 'entrar'. E quando estávamos a ver onde é que se podia parar o carro ou onde é que havia um desvio para lá ir ver, já estávamos noutro lugar. Pensei que o culpado -- sim, porque nestas coisas tem sempre que haver um culpado -- tinha sido o meu marido. 'Se calhar passaste o sítio para se virar para lá'. Ele: 'Viste alguma saída?'. De facto, não. Não desisti: 'Mas se calhar havia sítio para parar o carro'. E ele: 'Viste algum?'. Pois, de facto também não. Mas alguma coisa tinha que haver. Se aquele era um lugar a visitar, como não haver maneira de vê-lo? O meu marido, já deserto de se ver livre das minhas incursões, continuou. E já noutra aldeia. E eu: 'Desculpa lá. Não pode ser. Volta para trás. Quero visitar e alguma maneira há-de haver'. Embora contrariado, lá me fez a vontade. Disse: 'Só vejo uma possibilidade, onde diz pescas'. 'Então vamos lá ver''. Em boa hora. Lá ele levou o carro por uma estradinha inclinada. E aí vimos o carreiro, rente ao rio, rente à encosta. E tão bonito, tão bonito.


Monumento natural que marca a paisagem das margens do Mondego junto a Penacova, a Livraria do Mondego é um monumento que o tempo esculpiu ao longo de mais de 400 milhões de anos.
Depois de ter recebido o Alva, seu afluente da margem esquerda, o Mondego estrangula-se ao atravessar o contraforte de Entre Penedos e surgem as altas assentadas de quartzíticos dispostos quase verticalmente, como se de livros numa estante se tratasse, o que de resto deu origem à designação popular de Livraria do Mondego.
Constituída por quartzíticos do Ordovícico, a Livraria do Mondego foi, por Galopim de Carvalho, classificada como um Geomonumento ao Nível do Afloramento, constituindo-se, pelas caraterísticas geológicas que encerra e pela graciosidade escultórica que o tempo lhe incutiu, como um dos mais singulares monumentos naturais de Portugal. (...)


Quanto às pescas, fiquei a saber que há pesca sem morte. O meu marido disse: 'Fazem um buraco no peixe e depois arrependem-se e atiram-no ao rio. Deve ir em bom estado'. Mas agora que escrevo penso que, se calhar, não é pesca com anzol. Se calhar, é com camaroeiro ou coisa assim.


Mas, voltando à livraria. Não sei se imaginam a paz que é andar, sem vivalma nas redondezas -- por inacreditável que possa parecer éramos mesmo só nós -- só passarinhos a cantarem, os sons do rio, e aquelas rochas tão bonitas, os reflexos nas águas, tudo tão tranquilo e lindo. Fomos pelo carreiro, subimos até lá acima à estrada, uma vista deslumbrante. Algumas vertigens, confesso. Não há protecção, assusta. Mas tão bonito.

E parecem mesmo livros, empilhados, arrumados numa estante. As rochas têm vida, são também divindades. Não quero saber que achem que sou maluca. Cada um tem as suas crenças e a mim dá-me para as estas. Observam-nos em silêncio e eu acho que protegem aqueles que as respeitam.


E, por bibliotecas e livros, li um texto que me encheu de alegria. Afinal há uma explicação para a minha panca: conhecer os limites da minha ignorância.
O grande leitor é aquele que compra livros sabendo de antemão que não os vai ler, mas cujo interesse e a relevância reconhece. Isso é muito mais importante  do que propriamente ter o gosto de ler os livros todos. De resto, um dos tópicos de todos os escritores é contra os filisteus que entram lá em casa e perguntam: “Ena, tantos livros! Já leu isto tudo?!” Não há ninguém que não se enfureça com essa pergunta, porque, na verdade, a biblioteca não é para ler tudo, é para ela existir. O livro na verdade não existe, o que existe é a biblioteca. Um livro nunca está sozinho. E ter muitos livros em casa é muito melhor que não ter, porque mesmo que a pessoa não os leia, fica a saber a quantidade de coisas que não conhece. Em vez de lamentarmos todos os grandes clássicos que nunca vamos ler, devemos perceber é que, no fundo, nós lemos para ter conhecimento daquilo que não conhecemos, para conhecer os limites da nossa ignorância. Ora, isso também se consegue não lendo livro nenhum, mas é preciso conviver com eles. 
Abel Barros Baptista 

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Se puderem vão conhecer: lugares lindos. É o que vos digo.

domingo, março 26, 2017

As saudades que o Abel Barros Baptista tem dos trocadilhos do José Sesinando


Os terroristas raciocinam por explosão de partes.

Devagar se vai ao monge.

Tenho a certeza absoluta de que talvez seja assim.

A Vénus de Milo não tem mãos a medir (e não dá o braço a torcer porque é uma mulher de mão cheia).

Um bom decorador tem de ter boa memória.

Falar com galicismos é cometer uma gaffe.

Na época do Iluminismo ainda não havia electricidade.

Se a leitura é um vício, então o Círculo de Leitores é um círculo vicioso.

Um partido ecológico é um garden party.

Que Liver pule ou não pule, isso é lá com ule.


Amor com amor se apaga.

O Arco de Santana não é Lopes.

Aquele hotel era tão pequeno que só tinha quartos minguantes.

O médico obstetra decidiu abandonar a mulher e deixou-lhe um bilhete dizendo: "Parto sem dor".

A galícola da minha vesícula é melhor do que a mícola.

O bordado da Madeira está sujeito à traça e ao caruncho.

O pior da insónia é que não deixa dormir...



Estes aforismos trocadilhéticos do José Sesinando (José Sesinando Palla e Carmo (Lisboa, 1923 - 1995) li-os no inclassificável E assim sucessivamente do mesmo Abel Barros Baptista do chapéu da vista e do gato do Quintana

Na wikipédia dei com mais uns puns:


Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular.

Vá de metro, Satanás!

Os conferencistas ateus não têm Papas na língua.

É vidente: mente, evidentemente. 

Você sabe onde é que o Alberto moravia?

Quem não tem um Rolls, rói-se.

Os tecnocratas estão classificados por ordem analfabética.


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A escolha das imagens é minha, não do ABB.

E o vídeo que abaixo vos mostro também é de minha selecção e está aqui apenas porque sim. Podia colocar o vídeo do Eixo do Mal que acabei de ver mas, apesar de igualmente recheado de absurdos, tem muito menos graça que este.



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(E não levem a mal que não responda aos comentários. Leio-os, gosto de os ler, claro que gosto, agradeço-os, gostava de dar troco. Mas tempo para lhes responder é que é pior (quando consigo chegar ao sofá ou estou a dormir ou a escrever os posts. As pilhas não têm dado para chegar acordada ao momento em que deviar pôr-me à conversa com os meus Leitores. Aceitem, por favor, as minhas desculpas. )

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O Abel Barros Baptista, o chapéu da visita e o gato do Mário Quintana


Vinha de carro e, tal como suspeitado, guardado estava o bocado para quem o havia de comer: o Abel Barros Baptista no meu colo. E, marafado como só ele, a fazer-me rir.

Mas a coisa vinha num riso discreto, as coisas que ele ia dizendo era facetas mas do género soft-facetas. Até que, de repente, me fez soltar franca gargalhada e eu, quando alguma coisa me vai ao goto, fico de me esganar a rir. Perguntam: 'Mas o que é?'. Incapaz de responder, só riso. Concluem: 'Só pode ser alguma maluquice'.

E era. Ainda agora me rio. Trancrevo o dizer do belo Abel:


Um dia, o poeta brasileiro Mário Quintana foi visitar uns amigos. 

Quando chegou, sentou-se inadvertidamente em cima do chapéu de outra visita, que gritou, já incapaz de salvar o acessório. 

O poeta, embaraçado, e aliás desastrado, justificou-se: "Desculpe, pensei que era um gato."


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Até já com mais recuerdos do ABB

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quarta-feira, março 22, 2017

O apertadinho do Dijsselbloem,
as máquinas de lavar do mastim Schäuble e o dinheiro russo,
o novo gabinete da filhinha do papai, Ivankinha Trumpinha, na Casa Branca,
o Diogo Morgado e a Joana de Verona
(e que raio se passou entre eles? e quem, afinal, vem a ser ela?)
e, no meio disto, não consegui acabar o dia com o Abel Barros Baptista nos braços.
E assim sucessivamente
.





Não vou falar daquele apertadinho que não sabe bem o que é isso de vinho e de mulheres. Como marrãozinho que quer fazer gracinha, falou do que não conhece. Pela carinha de quem comeu e não gostou ou de quem anda sempre com qualquer coisinha a tolher-lhe os movimentos, sempre lhe achei ar de quem não estava ali a trazer saúde às finanças da Europa. A pinókia e o seu láparo amestrado todos se derretiam mas eu, que sou boba, reconheci logo que aquele ali não é dos meus, àquele falta vida, falta cama desarrumada, falta escola de rua, falta tanta coisa. O homenzinho que levou uma corrida em osso nas eleições não aprendeu a lição e continua armado em coisa ruim, mostrando que, por dentro, é igual ao que é por fora: os neurónios todos enrodilhados.

Por isso, apenas lamentando que, na união europeia, os corredores do poder continuem abertos a bicheza de tão má raça, não vou dizer nada sobre o dito Dijsselbloem até porque por cá é o que não falta é gente que alinha pela mesma oratória, desde o cassândrico Oh Dr. Medina até à prima Teodora, passando pelo J.M. Fernandes, que até dá dó tanta indigência, e à desinfeliz Helena Matos que não dá uma para a caixa, e acabando no rebelde-populista escritor Meças de Carvalho (e o que me custa escrever isto; a sério que custa -- mas por todo o lado vejo afirmações dele que me deixam quase catatónica). Portanto, para que não venha algum holandês apontar-me o dedo à cara para que veja eu bem a tralha machista, azeda e fora de prazo que temos dentro de casa, deixo-me mas é ficar aqui muito caladinha.



Também podia falar do dinheiro russo que tem andado a ser lavado nos bancos alemães (e holandeses não...?) ou podia falar especificamente no Deutsche Bank, o brinquedo do mastim Schäuble, por onde parece que tem passado muito dinheirinho vivo que vai de pousio depois de ter sido colectado por gente que não se recomenda. Mas não falo nisso não vá o meu micro-ondas começar a ser usado pela Kelly Ann para me espiar para descobrir quem é que me passa a informação, ou para tirar a limpo se sei de fonte segura que, por ali (ali Deutsche Bank - atenção!), passou algum dinheiro que, na volta, ainda financiou a campanha de Trump.


Portanto, cala-te boca.


Ou podia falar de Ivanka Trump, a filhinha com quem o pai gostava de poder namorar, que agora já tem gabinete na Casa Branca. Mas não falo. Não acho nada de mais. Já que a Melania diz que está bem, está, e continua a viver a vidinha dela longe do anormal do marido, ele vai buscar um sucedâneo. Diz que a filha vai ser os seus ouvidos e olhos. E ela presta-se a isso, portanto está tudo bem. Não está mais aqui quem falou. 


(Todo o cuidado é pouco com gente paranóica. Do piorio.)


Finalmente, podia falar do romance entre o Diogo Morgado e a Joana de Verona mas não me arrisco. Primeiro, não sei quem ela é, segundo, não dá para perceber se, entre eles, apenas pintou ou se já rolou e, terceiro, aposto que Marcelo já os deve ter chamado a Belém para lhes dizer umas quantas verdades. Portanto, nem disso eu me atrevo a falar.


Um vazio, isto. Nada de que se consiga falar.

Só se for isto: fui comprar um livro para a minha mãe e, de caminho, noblesse oblige, trouxe um para mim, um que andava a namorar-me faz algum tempo. Cedi. Agora à noite, depois dos momentos poéticos e derivados, estava outra vez para me armar em intelectual mas, como agora sempre acontece, o meu intelecto diz que está bem abelha, prega-me uma rasteira e aí estou eu, de ko, a dormir o sono dos justos. Só agora é que voltei a acordar. Por isso, o Abel Barros Batista vai ter que esperar por mim. Mas eu acho que ele espera.

E assim sucessivamente.

E, confiante nisso e noutras coisas, vou pregar para outra freguesia.

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Imagens da Casa Dior.

Natalia M.King diz que I Need To See You. Ela lá sabe.

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E queiram descer, caso apreciem poesia e filosofia. Da boa.

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