Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, janeiro 12, 2020

O homem lobo


Na sexta à noite, ao atender o telemóvel, apareceu-me o bebé a dizer que iam ao lugar que, entre nós, tem outro nome, o nome da quinta, mas a que aqui chamo heaven. Escusado será dizer que é para todos na família um lugar especial e os meninos, ainda mais, adoram lá estar. 

Por isso, este sábado era para ser passado com eles. Contudo, manhã cedo, já estava a chegar uma mensagem a dizer que justamente o bebé de noite tinha estado com febre e estava doente e, por isso, o programa ficava sem efeito. Estivemos lá, fizemos o que tínhamos a fazer, descansámos e, ao fim do dia, passámos pelos meus pais e agora estamos em casa do meu filho. Foram jantar fora com amigos e pediram se poderíamos jantar com os miúdos. Claro que sim. Mais lindos. 

Agora já dormem.

Há bocado, estávamos nós dois aqui no sofá, pareceu-me ouvir uns sons vindos do quarto deles. Ao levantar-me para ir ver, sem querer, apoiei-me num comando que estava debaixo da almofada. Não faço ideia em que botão carreguei mas a televisão ficou sem imagem e apareceu uma coisa a dizer nem sei o quê. Não conseguimos tirá-la dali.

Portanto, agora, na sala e sem televisão, em silêncio, o meu marido já dorme e eu para lá caminho. Mas creio que devem estar quase a chegar pelo que acho melhor não me encostar senão chegam eles e dão connosco ferrados, a dormirmos como se não houvesse amanhã.

Não tenho aqui comigo a máquina fotográfica pelo que não posso ver as fotografias, aproveitando o ensejo para falar de como estava lindo e bom por lá, in heaven.

Ou seja, na ausência de melhor e incapaz de falar da guerra quiçá intestina no PSD pois não tenho conhecimentos para perceber qual deles é o grosso e qual o fino e qual o outra coisa qualquer, resolvi entregar-e nos braços do meu bff, o algoritmo do YouTube. E pimbas: bingo. Sabendo como me fascinam os lobos, apresentou-me o vídeo abaixo. O homem-lobo.

Ainda gostava de saber qual o retrato robot que o dito algoritmo faz de mim. Acerta sempre no que me sugere mas é uma tal miscelânea de coisas.

E qual será o retrato que vocês aí desse lado fazem de mim?

Ainda hoje um Leitor escreveu que ousadia não me falta. A querida Luísa escreveu-me dizendo que continuo a agitar as águas. No outro dia, houve quem achasse que eu me tinha passado mas também quem desejasse que eu continuasse como sou. Provavelmente sou um mix de tudo o que acham de mim. Mas uma coisa é certa: como sou como sou, sem me forçar a parecer ser uma coisa diferente da que sou, dificilmente conseguiria passar a ser uma coisa distinta. Por isso, mesmo que uns me achem assim e outros o contrário, acho que a minha maneira de ser não se altera para tentar agradar a gregos e troianos. Estou habituada a não me disfarçar, não me coibir, não me exibir. Mas, a sério, não sou tema que me interesse. Quando falo de mim aqui é mesmo por falta de assunto ou porque eu sou eu e é a partir de mim que as ideias nascem, que as opiniões se formam. Isto, claro, recebendo inputs do exterior, mas depois é na minha cabeça que os inputs se misturam, que as ideias se processam e que as opiniões se formam.

Bem. Ando aqui às voltas notoriamente para me manter acordada. Às tantas mais valia que me pusesse a falar daqueles maçadores do PSD que ainda não perceberam que não estão com nada -- leite condensado fora de prazo, batatas greladas, laranjas bolorentas, cebolas recozidas e molengonas.  Nenhum deles pode conduzir o país para a modernidade. Não dá. São gente datada, limitada, uma seca.

Ou podia era pôr-me a falar da Joacine, essa promessa que levou muitos eleitores a acharem que, votando nela, o PS ficaria apeado, longe da maioria, dependente das boas graças alheias -- e a vida seria bem melhor à superfície da terra. Um flop. Mas vou dizer o quê da Joacine? Que tudo o que ela faz é de dar dó? Não vou fazer isso. A única deputada do Livre agora, pelos vistos, nem da direcção do partido será. Fica como já está, para ali num canto, ar de sono, enfastiada, ar de diva incompreendida. Portanto, nada a dizer. É um custo que temos que suportar... e coração ao largo. Há piores males.

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Entretanto, já estou em casa e a minha vontade é fazer a agulha -- ir ver as fotografias e/ou falar aqui de outra coisa -- mas também me parece disparatado apagar isto e começar de novo. Até porque também estou aqui com outra em mente e a ver se me aguento acordada para lá chegar. Portanto, que se abeire o homem que vive como um lobo.


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Tinha ideia de escolher fotografias de lobos para aqui colocar junto ao texto mas depois achei que deveria era ter uma imagem daquilo que sou: uma jovem inocente que apenas tem pensamentos profundos e piedosos e que, por inexplicáveis razões, tem fascinio por lobos (e por tigres azuis). Pelo menos é assim que gostava de alguma vez ter sido, ainda que apenas momentaneamente. Para conhecer the taste of it, sabem. Bem, jovem de idade já fui. De cabeça, acho que também ainda sou. Pelo menos, sinto-me mas, sabido é, água benta cada um toma a que tem. E a outra coisa também. De pensamentos piedosos e profundos é que nem tanto.

A beldade ingénua é Lily Cole em "Like a Painting" por Miles Aldridge para a Vogue Italia, já lá vão mais de dez anos. Ou seja, por esta altura também já deve ter perdido a inocência.

(Sinceramente, não estou certa de que faça sentido ter aqui estas belas fotografias mas ainda mais sinceramente, já estou mais a dormir que outra coisa.)

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E a todos desejo um belo dia de domingo.

sábado, maio 18, 2019

Danças com lobos






Se me visse frente a frente com um lobo talvez morresse de medo. Talvez nem resistisse. Talvez por delicadeza me deixasse morrer

Ou talvez não. Não sei. 

Talvez o olhasse nos olhos, talvez convencida que também ele assim me quisesse olhar. Talvez quisesse que ele me visse como igual pois era assim que eu queria senti-lo, igual, incompreensível, secreto, perigoso. 

Talvez nas noites em que gosto de entrar sozinha eu gostasse de saber que algures, numa outra geografia, também a entrar na noite, um lobo avança sozinho, olhando a imensa escuridão, sem medo, com apetite de susto, com vocação para desafiar abismos, com os olhos abertos procurando sinais inexistentes, apenas intuídos.


Somos assim. Lobos que não se oferecem facilmente, esquivos, silenciosos. Lobos que secretamente se procuram. Se uivam contra a noite é apenas porque a emoção não cabe no peito nem os olhos a conseguem reter; ou porque têm medo. Por vezes a solidão que se adensa no seio da noite fere o coração. Os gritos por vezes são inevitáveis, longos, queixumes que atravessam o espaço, que se despenham contra a distância.

Estou em silêncio. Escuto, espero.

E sei que o lobo que está aí, escondido, à espreita, se ri com palavras como estas, desprovidas de sentido, que encobrem o que não querem dizer, palavras que se perdem de mim, que se perdem na noite. Sabe que a sua respiração chega até mim, um bafo acre que sinto vindo de longe, um bafo que faz arquear o dorso, o peito, que faz fraquejar as pernas. Louco o lobo, louco, descarado, insolente. E eu aqui, desprotegida, esperando que uns passos se arrisquem silenciosamente, descaradamente, até mim. Eu aqui, traiçoeira, contendo o salto, contendo o rasgar que vai acontecer, os dentes ansiosos pela carne, a paixão que rebentará todos os diques. Neve, vales, grutas sem fim, escuridão atravessada pelo silêncio e pelos gritos das aves. As noites são frias, escondem terríveis mistérios, inconfessáveis temores, loucuras sem explicação, segredos, sussurros, efémeras confissões. Andas na neve, percorres as florestas, enfrentas tantos perigos, tantos, tantos.


E eu aqui por ti. Escuta-me. Imagina o calor das minhas mãos, adivinha como é doce a minha baba, macio o meu pelo, tentador o meu olhar.  Antecipa o vagar dos meus passos, antecipa o mais que virá depois. Sei que estás aí. E sei que vens na minha direcção sem querer saber dos mil perigos, louco, rouco, arfante, aflito, cheio de medo, petulante, corajoso. Vem.

Lobo, lobo, lobinho.

Vem dançar comigo. Salta, voa. Vem.

O lobo sabe
"The wolf knows when it is time to stop looking for what he may have lost and to focus instead on what is yet to come."  - Jodi Picoult

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E a todos desejo um bom sábado

sábado, maio 11, 2019

Dizem que o azul quase não existe





Ouço que não há animais azuis. Como se isso fosse possível. Se calhar também pensam que não há flores azuis. Ou, sei lá, a ignorância é tanta, que não há corações azuis. Pensam, talvez, que o azul é uma cor rara, uma quimera.

E, no entanto, são azuis as palavras que me chegam de longe, envoltas em enigmas, em mistério, em saudade, palavras que descrevem uma geometria impossível, palavras sem sombra, sem mácula, azuis na sua mais íntima essência. Fecho os meus olhos e vejo uns outros olhos que, ao longe, as deixam cair, lágrimas límpidas, azuis,  que calam o que a boca está proibida de dizer. 


E, no entanto, são azuis os pássaros que voam das árvores à minha passagem, deixando um rasto de luz pelo céu, também ele azul. E cantam gritos de amor, de amor louco, azul, infinito, gritos que atravessam o espaço e vêm depositar-se, devagarinho, na concha macia da minha mão. Cantares azuis de pássaros azuis, transportando sonhos sem rumo, memórias esquivas que se escondem de ti e de mim e nos desafiam. Como se os abismos pudessem ser também azuis, tentadoramente azuis.


E são azuis as borboletas que rasgam o silêncio das árvores que sobem pelo infinito afora, azuis, muito azuis, azuis de veludo, borboletas que dançam magias pela noite adentro. Voam, caprichosas, enquanto cortejam o movimento das suas asas, efémeras, belas demais para poderem ter uma vida longa. E voam como um sopro azul, um sopro carregado de sublimes segredos que a noite me traz.

E, no entanto, são também azuis os recônditos esconderijos onde o meu coração bate, bate pelo teu, um coração tão azul como o meu, um coração de tigre azul, invisível, imaterial mas sempre presente junto a mim.


E, no entanto, é azul o lobo triste cujos longínquos uivos me chegam, um lobo que desliza pela noite em toda a sua magnífica solidão, um lobo que sinto e pressinto escondido por entre as paredes em que o meu corpo se enleia, chamando na noite pelo teu. Um lobo azul, fugidio, um lobo que espera por mim por entre os labirintos da noite, que me deixa palavras para sempre perdidas, uivos lancinantes, de um negrume quase azul.


E, no entanto, são também azuis as pétalas de rosa que encondro, de manhã, dispostas em volta do meu corpo regressado da noite. Azuis, macias, de um veludo azul e perfumado, pétalas que espalhas durante os sonhos em que o meu corpo anseia pelo calor prometido do teu abraço, apertado, longo, azul, tão, tão azul.


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Os animais não podem ser azuis -- dizem


(mas eu não acredito)

sexta-feira, novembro 24, 2017

Dos lobos





Tenho esta coisa com lobos. Acho que devem ser bichos inteligentes, cheios de energia e subtileza, escondendo mistérios e silêncios. Bichos cuja natureza há-de ser estranhamente próxima da minha.
Provavelmente estou a navegar. Sou menina sonhadora, da cidade, nunca sofri as durezas da ruralidade ou da fome, não conheci a verdade de umas mãos gretadas, não sei, de facto, o que é o medo paralisante. O que sei é do que leio, do que ouço, do que imagino. 
Desde pequena que ouço que os lobos são maus. E na serra vi as armadilhas. Deviam ser maus para terem que ser traiçoeiramente caçados em buracos. Comem ovelhas inocentes, atacam aldeias. 
Mas eu sempre me senti tentada a perdoar-lhes. A necessidade, o instinto. Não a vulgar maldade.

Acho que, se visse um lobo, ficava a olhar para ele e ele para mim. E acho que ele viria ter comigo. Devagar, devagar. Haveria de querer que eu lhe fizesse uma festa. E eu far-lhe-ia. Lobo, lobo, lobo mau... E ele ficaria imóvel, deixando que eu tentasse conhecê-lo. Lobo, lobo, lobinho. Eu a adivinhar os seus pensamentos, ele a adivinhar os meus, querendo descobrir afinidades, temendo não as descobrir. Pronto a atacar. Pronta a defender-me, pronta a destruí-lo. Pronto a destruir-me. Animais tentando reconhecer-se. Temendo a adversidade, pressentindo o perigo.

É como com os cães grandes. Dantes tinha tanto medo e depois perdi-o. Qualquer cão grande que se aproxime eu tenho vontade que eles se cheguem para eu lhes fazer uma festa.
O meu marido repreende, que não me afoite -- diz que não os conheço, que não sei como vão reagir. Mas é instintivo, eles aproximam-se, eu aproximo-me.
Por acaso, uma vez, fui com a minha filha e os miúdos visitar um quartel de bombeiros. Os miúdos adoram ver os carros, os tinonis, aqueles mecanismos, escadas, mangueiras, motores, luvas, capacetes. E, às tantas, vejo lá um caozão gigantão. Estava deitado a dormir e, quando nos viu a andar por lá, levantou-se e veio ter connosco. E eu, como sempre, estiquei o braço para lhe fazer uma festa. Ele, que já devia estar mal disposto com a nossa invasão em território à sua guarda, abre-me a sua bocarra, solta um rugido e mostra-me um ar feroz. Apanhei um susto, claro, não fosse ele ainda se atirar a nós, em especial aos miúdos. Recuei, sobressaltada, sem palavras.
A minha filha volta e meia fala disso para ilustrar a minha falta de medo ou de prudência.  

Mas, dizia eu, os lobos.

Os lobos são, pelo menos assim os imagino, bichos silenciosos, orgulhosos, delicados. Imagino-os a cruzarem a noite, passos cautelosos, respirando com a delicadeza dos seres superiores. Imagino-os a verem através do escuro, todos eles intuição, adivinhando os vultos, antecipando os perigos, resguardando-se para o desfrute solitário do prazer de existir. Assim os imagino. Hábeis, sábios, clarividentes, elegantes.

Já li livros com lobos. Salvam a vida de quem se deixa amar por eles.

Têm, ou assim os imagino, um pelo forte, à superfície áspero, macio como seda junto à pele, e exalarão um cheiro animal, selvagem, secreto. Terão uma respiração dócil. Outras vezes, bravia, pura sobrevivência, puro prazer de existir.


Se eu estivesse a caminhar à noite numa serra azul, tingida de magia -- as árvores como sombras esguias, talvez uma ténue lua em crescente, o frio cortando-me a pele, e eu cheia de medos, tremendo ao som dos ruídos indefinidos, piares de pássaros longínquos, murmúrios de folhagem rodopiando ao vento -- talvez sentisse, de repente, um arrepio cru na pele, talvez o coração se me acelerasse sentindo uma alteração no fôlego de um ser caminhando na minha direcção, o vapor quase invisível da sua respiração, os seus passos pisando as folhas húmidas, os musgos, as gotas pingando das árvores, eu na direcção dele, ele na minha direcção. Eu cheia de medo. Ele cheio de medo. Desconfiada eu dele. Ele de mim.


Receando-nos, farejando-nos, o coração descompassado, a respiração trémula, a pele sensível, passo após passo, o bafo cada vez mais perto, o dele, o meu, o secreto calor do nosso corpo -- e o silêncio cada vez mais cúmplice.

Depois ele veria o meu olhar húmido, a neblina envolvendo o meu corpo, sentir-me-ia desarmada, pronta para atravessar todos os medos, pronta a atravessar os perigosos labirintos, a cair no mais tentador dos abismos. E eu senti-lo-ia nervoso, fremente, envolto em bruma e solidão, corajoso como um deus do fogo, altivo como um pássaro distante. Caminharíamos ao encontro um do outro.

E não mais nos separaríamos. Um afecto feito de inexplicações, transportando memórias de tempos muito antigos e emoções vindas de uma profundidade onde não existem palavras, apenas lágrimas silenciosas, sangue latejante, olhares enfeitiçados. Para sempre. Para sempre.

Lobo, lobo, lobinho... 


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Histórias com lobos






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E o lobo que não esqueço


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Um dia muito bom a todos quantos aqui estão comigo.

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domingo, novembro 01, 2015

O amor dos lobos ao raiar da alba





Olhas-me e o teu olhar começa por ser baço. Depois, aos poucos vai sendo cada vez mais intenso. Sinto-me arrepiar por dentro. Tenho medo. Sinto-me tolhida. Deixo de pensar, deixo de me mexer. Olhas-me e, apesar de veres que não ofereço resistência, continuas a olhar-me. O teu olhar entra por mim adentro, impiedoso, devorador. Rendida, baixo os olhos. Depois sorris mas o teu olhar que sorri é ainda um olhar predador. Não percebo esse olhar sorridente, a boca que se arqueia, não percebo. E continuo imóvel. Transida. Mal te olho, sinto que o ataque está iminente. Tento ganhar coragem. Por breves instantes levanto o olhar e fico presa ao teu, eu aflita, tu sem misericórdia: continuas a fixar-me, inclemente, inclemente, e não sei se é o sorriso da vitória, se é da tua natureza, se é mau instinto, se é apenas gula. Não sei; e nessa dúvida me deixo vencer.


Depois vais-te e eu sem sangue, esvaída, por terra, o coração num sobressalto, trémula, trémula, sem reacção.

Depois, nos dias seguintes, movo-me em silêncio, evito-te. Se avanço por entre os caminhos, finjo que te ignoro. Penso que tu pensas: Se me ignora é porque não me teme. Quero que penses também: se não me teme, é porque não me quer. Mas não sei se pensas.

Se me cruzo contigo, olho-te de forma casual, como se mal te visse. Sempre me ensinaram que é assim que se deve fazer: não mostrar medo. Por vezes retribuis a indiferença. Finjo que não te vejo e tu também não me vês. Ou finges também. Cada um na sua vida, ignorando a vida do outro. Finjo e desejo que finjas também. 


Sei que caçar requer uma longa preparação. Nessas alturas não sei se sou a caçadora se a presa. Quando te sinto por perto não consigo pensar.

Recolho-me, então. No meu abrigo sinto-me segura. Passam as horas ou os dias e nada sei de ti. Andarás por outras paragens. Estarás no teu covil, às escuras. Não sei. Inquieto-me. Apetece-me aproximar-me, procurar-te, mas não o faço, sei bem os riscos. Sei. Sei tão bem.

Tantas vezes conto o tempo que passa e estou numa ansiedade, por onde andas? o que se passará no teu covil silencioso? Talvez não estejas sozinho, talvez afinal não me queiras. Olho o céu ora azul, ora plúmbeo, ouço a chuva a cair, o vento, a sombra das grandes árvores, as rochas que parecem corpos destroçados. O tempo passa e tu estás longe. Penso, estou segura. Mas não estou, sei bem que não, sei bem dos abismos, dos atraentes abismos, sei bem. Mas tento esquecê-los. Se não penso neles, não existem - penso.

Depois, quando finalmente me sinto descansada, sinto-te a chegar, de novo, devagar, devagar, de novo, devagar, devagar. Escondo a minha alegria, escondo o meu temor.

Encostas-te, parece que vens em paz. Olho-te o o teu olhar está tranquilo, há serenidade no teu corpo. Dir-se-ia que estás cansado, talvez venhas de uma caçada, talvez procures, junto de mim, algum repouso.


Mostro-me então também tranquila. Olho-te, estudo-te, não sei ao que vens, olho-te, finjo indiferença.

Mas eis que, do fundo do teu corpo, devagar, começa, então, a surgir aquela força que tão bem conheço. A tua respiração começa então, ao de leve, a tornar-se ofegante, suavemente ofegante. Mas eu estou calma, Mesmo quando me falas em ruínas, em morte, em mastros furando as nuvens, em noites de luar, em assombros e mãos vazias, mesmo assim eu sorrio, não mostro medo. Não mostrar medo, não mostrar medo.

Tenho vontade de me aproximar, tenho vontade de te tocar. És inofensivo, penso, és inofensivo e eu não tenho medo. Talvez te deixes tocar, talvez gostasses que eu te tocasse. Mas, prudentemente, não me aproximo. 

A noite cai. Olhamo-nos, olhamo-nos de novo, devagar. Uivas em surdina, um uivo macio. Nele adivinho palavras. Uivas e eu penso, lobo, lobo, lobinho... As palavras soltam-se, falas-me de luz quando a luz já se foi. Com palavras me alicias, com as tuas palavras me deixo aliciar. Falamos os dois e as palavras parecem ter boca. Uivas mas o teu uivo é doce, um sussurro quase, um doce sussurro que vem devagar depositar-se no meu pescoço indefeso, à tua mercê. 


Vejo-te a respirar, vejo o teu peito que se arqueia, tenho vontade de sentir o teu corpo, e o teu olhar procura o meu, a tua voz enleia-me, o teu cheiro animal chega até mim, o teu olhar torna-se transparente, a tua voz quase rouca, quase silêncio, as palavras esperadas inesperadas como a poesia ou o amor, e o teu olhar sobe por sobre o meu, e eu vencida, dócil, e tu avanças e eu não me escondo, não me defendo, não vale a pena. O teu olhar é o olhar de um vencedor. Não há tréguas possíveis. Não há tréguas entre nós. 


És o lobo e eu a presa.

[Mas noutros dias (sabes bem, sabes, não digas que não sabes), tu és tu a presa e a loba sou eu
- e, nesses dias, lobinho, lobinho meu, mal posso esperar por te sacrificar]
...
.......
...........

E por falar em lobos: 

Un lobo de Jorge Luis Borges (dito por H.Eduardo Roman)

Furtivo y gris en la penumbra última,
va dejando sus rastros en la margen
de este río sin nombre que ha saciado
la sed de su garganta y cuyas aguas
no repiten estrellas. Esta noche,
el lobo es una sombra que está sola
y que busca a la hembra y siente frío.
Es el último lobo de Inglaterra.
Odín y Thor lo saben. En su alta
casa de piedra un rey ha decidido
acabar con los lobos. Ya forjado
ha sido el fuerte hierro de tu muerte.
Lobo sajón, has engendrado en vano.
No basta ser cruel. Eres el último.
Mil años pasarán y un hombre viejo
te soñará en América. De nada
puede servirte ese futuro sueño.
Hoy te cercan los hombres que siguieron
por la selva los rastros que dejaste,
furtivo y gris en la penumbra última.
....

Vem tudo isto a propósito (a propósito, salvo seja) do filme que fui ver este sábado, um filme fantástico, a todos os títulos fantástico: a história, as paisagens, os cavalos, os cavalos terríficos no lago de gelo, os lobos, as imagens avassaladoras dos lobos, o olhar dos lobos antes do ataque, o amor pelo lobo, 'lobinho, lobinho'. Tudo. Sei que foram anos de filmagens. Imagino as dificuldades. Imagino a saudade que ficou quando o filme ficou pronto.

A Hora do Lobo


Ano de 1967. A China é governada por Mao Tsé-tung (1893-1976), que implementou a Revolução Cultural e mudou radicalmente a vida do seu povo. Chen Zhen é um jovem estudante de Pequim que é enviado para uma zona rural da Mongólia para educar uma tribo de pastores nómadas. Ali vai descobrir uma ligação antiga entre os pastores, o seu gado e os lobos selvagens que vagueiam pelas estepes. Para os mongóis, o lobo é uma criatura quase mítica que é parte integrante da sua comunidade e os liga à natureza. Fascinado pela profunda ligação entre as alcateias e os seres humanos que ali habitam, o rapaz decide salvar uma cria e domesticá-la. Porém, quando o Governo cria uma nova lei que obriga a população a usar de todos os meios para eliminar os lobos da região, o equilíbrio entre a tribo e a terra onde vivem é ameaçado.
Com assinatura do realizador francês Jean-Jacques Annaud ("O Nome da Rosa", "Sete Anos no Tibete", "O Urso", "Dois Irmãos"), um drama de aventura que se baseia no "best-seller" semiautobiográfico com o mesmo nome escrito, em 2004, por Jiang Rong (pseudónimo de Lü Jiamin). Para o filme, Annaud, que já antes trabalhara com animais, adquiriu uma dúzia de crias de lobo amestradas durante vários anos por um treinador canadiano.


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A música lá em cima é Crying Wolf  (o canto do lobo) interpretado por Enya

O título deste post foi retirado do poema As causas também de Jorge Luis Borges.

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Não é que agora venha a propósito mas permitam que vos diga que, no post abaixo, a coisa piora pois não falo de animais com a nobreza dos lobos.

Falo do destaque que o Expresso e as televisões dão a todo o bicho careta que apareça de dedo no ar a dizer que não quer que António Costa, com o apoio da esquerda (finalmente unida), tente inverter o rumo de desgoverno do País. 

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sexta-feira, agosto 29, 2014

Por quem os lobos uivam. Uma história muito estranha. [Ou, talvez, mais um conto erótico numa quente noite de verão]


No post a seguir falo em Judite de Sousa que está de regresso à televisão e que reapareceu pela mão de um jovem de 29 anos, um menino de sua mãe: Cristiano Ronaldo.

Mais abaixo ainda falo também na entrevista que António Costa concedeu a Fátima Campos Ferreira, uma entrevista que ficou bem aquém da personalidade e carisma do candidato à liderança do PS.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é completamente diferente.


Cuidado. Cuidado que eles andam aí.



Cry Wolf

(o som não muito alto, por favor)





Há pouco já o referi. Estive em paz durante o dia, entregue ao prazer de nada fazer, a pele à disposição da doçura do sol que me chega coado através da ramagem fresca da grande figueira. Li, preguicei, estive de olhos fechados a ouvir os pássaros, a aragem nas ramagens, os sons amáveis desta natureza que aqui me acolhe.

Ao fim do dia, a luz fica dourada e há um calor macio que prenuncia o outono. Gosto do tempo assim, apazigua-me, há suavidade no ar e é esse ar suave que eu respiro e que se espalha sobre a minha pele. Posso estar nua para melhor sentir esta doçura pois aqui ninguém passa, a rua fica longe, 

Depois fui a casa buscar um sumo e deixei o livro em cima da espreguiçadeira. Quando cheguei, escurecia, o sol tinha entrado na montanha que me cerca. Não vi o livro. Estranhei. Depois ouvi um som, assustei-me, instintivamente peguei no vestido e encostei-o ao corpo. Reparei então que o livro estava no chão. Intrigada, olhei em volta. Atrás de um tronco, o gato espreitava-me. Ah, o safado do gato. Já nem me lembrava dele, ultimamente não tem aparecido.

Chamei-o, Bchbchbch... Ele arqueou o corpo. Perguntei-lhe, Olha lá, foste tu que vieste aqui deitar o livro ao chão, não? Ele inclinou a cabeça. Não disfarces, gato atrevido, sei que foste. Estou para saber é há quanto tempo estavas aí a espreitar-me, ó gato descarado.

Peguei num figo seco e atirei-lhe. Fugiu. Espreitei. Claro, estava em cima do muro, o muro que separa a paz da minha casa da misteriosa casa onde acontecem as coisas mais inesperadas.

Disse-lhe, Olha, hoje não vou, não me quero meter em aventuras arriscadas. Ele miou longamente. Depois saltou para o lado de lá.

Tinha anoitecido. Enfiei o vestido, enfiei umas sapatilhas e subi à árvore junto ao muro. O gato espreitava-me como se me esperasse. Olha lá, está para lá aquela gente bizarra dos outros dias? Não me quero meter em cenas estranhas, ouviste?

Não me respondeu mas olhou-me com ar desafiador. Hesitei mas depois respirei fundo e saltei. Esta minha maneira de ser, por um lado tão bem comportada e cautelosa e, por outro, tão temerária, com tanto apetite por situações de risco.

Pé ante pé lá fui. As luzes apagadas, tudo escuro. Senti uma ponta de desapontamento mas, logo depois, senti um certo alívio. Nada de mistérios e sustos, desta vez. Sentei-me naquela cadeira onde no outro dia tinha visto a mulher secreta a ser penteada por outra. Deixei-me ficar ali, olhando o muro atrás do qual está a minha casa. Pensei se quem costuma vir a esta casa sabe que do lado de lá vive uma mulher arisca que gosta de se deitar nua ao sol. Olhei em volta, o céu estrelado, a noite quente, os sons dos pássaros da noite, o rastejar de animais entre o mato. Sentia algum receio, aquele receio que me deixa alerta, quase paralisada. O gato veio deitar-se no chão perto de mim e isso sossegou-me, senti que me protegia.

Depois devo ter adormecido. 

Quando acordei ouvi sons estranhos. Saltei da cadeira. O gato tinha desaparecido. Olhei em volta, assustada. De dentro da casa vinha agora luz, uivos abafados. Um arrepio percorreu a minha pele. Ai...

Pensei que devia voltar para casa. Quando comecei a ver se tinha luz suficiente para encontrar o caminho, o coração num sobressalto, vi o gato à porta de casa. Parecia chamar-me.

Estive uns segundos a hesitar mas depois, sem pensar, segui-o. Pareciam uivos o que vinha lá de dentro. Comecei a ficar aterrada mas, quanto mais medo tinha, mais vontade tinha de saber o que se passava.

O gato ia avançando à minha frente, arqueado, alterado, percebi que ia assanhado. Pensei que algo se passava e que tomara que o gato não se virasse a mim.

Então, à medida que, pé ante pé, me aproximava do sítio de onde vinha a luz, os uivos iam sendo mais nítidos. O gato parou e eu ouvi o seu arfar assustador, parecia pronto a saltar. Fiz-lhe um sinal, para que ficasse ali.

Avancei sozinha. Nunca tinha estado naquela ala da casa.


Pela frincha da porta espreitei. 




Numa cama, uma rapariga, cabelos espalhados pela almofada, descansava abraçada ao que me pareceu ser um lobo. Estavam tranquilos. ela parecia olhar um ponto indistinto e o lobo aninhava-se docemente nos seus braços.

Que visão mais estranha.

Mas os uivos continuavam.

Espreitei por outra porta. Depois desviei o olhar. Não percebi mas também não quis perceber.




Era uma mulher quase igual à outra, mas coberta por um casaco de peles, casaco que parecia ter aberto, deixando exposto o belo corpo nu. O grande cão gania, parecia faminto. A mulher olhava-o e não se percebia se era medo, se era neutra aceitação ou se era, mesmo, provocação.

Assustada, o coração numa inquietação, que coisas tão estranhas se passavam sempre nesta casa, dei meia volta, pensei que tinha que sair dali o mais rapidamente possível. Um ambiente de perversão parecia materializar-se nestes estranhos casais. Não queria testemunhar aquilo.

Mas então ouvi um som. Parei. Tu!, ouvi mas era apenas um sussurro. Não fui capaz de me mexer. Tu, sim!, um sussurro de novo

Espreitei.




Não percebi se era um rapaz, se era uma rapariga. O corpo envolto em peles, um quase lobo, olhos claros, lábios desenhados. Olhava-me e não se percebia se era um olhar inocente, se era a pura encarnação do pecado. Quando viu que eu estava a olhar, começou a afastar devagar as peles. Era um jovem quase imberbe, imponente na sua virilidade. Fugi impressionada, cheia de medo.

Mas então, à minha frente, apareceu-me um outro. Quase nu, as calças descaídas, meio coberto por peles. Olhava-me com olhar fixo. Depois uivou.




Um arrepio de medo e não só percorreu todo o meu corpo. Começou lentamente a empurrar as calças para baixo. Depois segurou gentilmente a minha mão. Não sei se estava aterrorizada, se estava mortificada de desejo. Uivou baixinho junto ao meu ouvido. Toda eu estremeci. Despiu-me e eu deixei que me despisse. Não quis saber quem era, se era um lobo de verdade, se era alguém que me mentia, que fingia ser um lobo sedutor numa quente noite de verão. Não quis saber.




Olhei em volta com medo que o gato aparecesse e nos atacasse, mas não o vi. Do outro lado do corredor, vinha agora um uivo que era mais um estertor, o som de la petite mort.

O meu lobo, agora nu, apenas coberto de peles, abraçou-me e eu senti o seu corpo jovem e viril e ele beijou-me e a sua boca sabia a bagas silvestres e eu deixei que ele me beijasse e abraçasse e afagasse. Depois deitou-me e deitou-se ao meu lado e afagou o meu cabelo e beijou-me mais e as suas mãos de jovem fauno percorreram o meu corpo. De vez em quando ele uivava baixinho junto ao meu ouvido, depois pediu que eu uivasse também e eu uivei mas o uivo saíu-me rouco e ele beijou-me com mais força e eu senti-me bem, senti-me bem até ao fim, muito bem. 

A seguir, quando me levantei e disse que tinha que me ir embora, ele separou-se da sua pele e cobriu-me com ela. Depois vestiu-me as suas calças, Depois foi buscar um pano preto e passou-o em volta do meu pescoço.




E disse-me, Fico aqui à tua espera. Vai e volta, traz-me a minha pele que agora é a tua pele, traz-me o teu corpo, o teu olhar, vem que quero ensinar-te a uivar. E beijou-me uma vez mais.

Não sei quem ele é, não quero saber se me mente, se me faz promessas que não vai cumprir, não sei se vou voltar a vê-lo. Não sei se os seus uivos sussurrados no meu ouvido são verdadeiros ou se são puro descaramento. Não quero saber. E, se me está a mentir, pois que minta, que minta para eu me sentir ainda mais livre.


Quando saí, o gato estava à porta. Dormia. Tentei acordá-lo. Ignorou-me. Assustei-me, temi que não estivesse vivo, bati-lhe ao de leve com o pé. Arfou, ameaçador, e voltou a enroscar-se sem me olhar.

Atravessei o caminho que levava até ao muro, a luz das estrelas quase me deixava ver ou talvez estivesse já a raiar o dia. A boca sabia-me e ainda me sabe a amoras.

E aqui estou para vos contar como esta noite dancei com lobos e como me estou a preparar para aprender a uivar.

Uhuuuu, uhuuuuu.......

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Para os mais sisudos, que não apreciam estas minhas derivas nocturnas e tresloucadas, aqui vos deixo um filme maravilhoso. Mete lobos mas não mete maluquice. 


Como os lobos mudam os rios






[When wolves were reintroduced to Yellowstone National Park in the United States after being absent nearly 70 years, the most remarkable "trophic cascade" occurred. What is a trophic cascade and how exactly do wolves change rivers? George Monbiot explains in this movie remix.]


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A música lá em cima é Melody Gardot interpretando Cry Wolf


A rapariga com lobos é Lara Stone fotografada por Mario Sorrenti.

O primeiro rapaz-lobo é David Fair fotografado por Milan Vukmirovic. O segundo, o eleito, não sei quem é mas sei que foi fotografado por Mario Testino.

As duas últimas fotografias mostram Kate Moss fotografada por Patrick Demarchelier

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Relembro: se continuarem por aí abaixo encontrarão referência a duas entrevistas: em primeiro lugar o regresso de Judite de Sousa depois do seu período de luto, entrevistando Cristiano Ronaldo; depois a morna entrevista de Fátima Campos Ferreira a António Costa.


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E, assim sendo, por agora por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
E cuidado com os lobos. 
(....Uhuhuuuuuu.... uhuhuuuuu....)


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