Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, fevereiro 23, 2020

Sábado de verão, em fevereiro, na praia.
Com reportagem fotográfica.





Na sexta ao fim do dia fomos passear no paredão ao longo da praia. Para terminar uma semana bem preenchida nada como a maresia para lavar a alma. Estava-se muito bem. Um prenúncio de névoa começava a pousar no areal mas essa frescura suave apenas trazia mais beleza e apaziguamento ao lugar. Passear junto à praia à noite é uma felicidade.

Este sábado, calorzinho primaveril, a conversa foi outra. Depois de termos ido aos meus pais, fomos a casa para eu mudar de roupa, noblesse oblige, e para preparar um lanchinho. Iogurtes, biscoitos de Safara, bananas.

Juntámo-nos na praia e não éramos só nós mas também outros amigos. Crianças pequenas eram sete. O meu filho perguntou com ar de censura: 'Mas para que é que vêm com comida? Tem algum jeito isso?'. Mas só as bananas é que não quiseram. Dos dez iogurtes sobrou um e do saco de biscoitos sobraram uns escassos restinhos, umas asas quebradas. 

Estava-se que era uma maravilha. Os rapazes -- de todas as idades -- jogaram futebol. 


Só os dois pequeninos, por sinal homónimos e da mesma idade, três anos, é que não jogaram. Brincaram com carrinhos, fizeram buracos e bolos e atiraram areia para onde não deviam. As duas meninas também não. Entretiveram-se de outra maneira, uma com a outra, também construções, conchinhas, penteados, coisas assim. As três mais crescidas conversaram. Eu, como habitualmente, observei, fiz a reportagem, tentei assimilar a beleza de tudo. O mar muito bonito, a luz perfeita, todos felizes uns com os outros.

Fizemos fotografias de grupo mas não ficámos todos ao mesmo tempo nem todos a olharem para a frente. Uma sucessão de fotografias com uns a fazerem gestos, outros a ajoelharem, futebolista style, um a beijar a camisola, pose quiçá à Ronaldo, outros a fugirem, outros a olharem para trás. Mas, verdade seja dita, fotografias preciosas, todos dourados sob a luz do pôr do sol, todos bem dispostos. Desta vez fiquei em algumas fotografias. A minha filha protestou, lembrou as fotografias do baptizado do mais novo que ficaram a cargo do pai e que as desfocou a todas. Sem óculos e sem tempo para focar a visão senão fogem de cena, dispara sem grandes preciosismos e a coisa tende a não ficar perfeita. Mas desta vez correu bem. 


Depois foi a separação do resto do grupo, o regresso, sempre aquela confusão que resulta da ruidosa geometria variável que ali se desencadeia: ela quer ir com a tia, outros querem ir com os primos, outros querem não sei o quê e por fim já ninguém percebe quem vai com quem nem se há banquinhos nos carros onde são precisos.

Tudo cá para casa, embora uns não directamente. Os meninos, sim, vieram logo todos.

Atirei-me aos tachos enquanto a miudagem se atirava aos banhos. Abstraio-me da confusão e penso que deve ser o que fazem os professores para não darem em malucos com o barulho. Desta vez, o mais crescido armou-se em paparazzi e andou a filmar os outros à socapa que, furiosos, gritavam, fugiam, fechavam-lhe a porta, corriam. 


Depois vieram aqui para a sala. Quando aqui vim espreitar, andavam feitos detectives. Mal me viram, disfarçaram. Percebi o que se passava. Andavam a ver se descobriam o tal livro de fotografia que um dia deixou o menino do meio completamente desorbitado. Saindo ao pai na pancada por «maminhas», nunca mais desistiu de o voltar a ver. E já falou nisso aos primos que ficaram igualmente curiosos. E a mana alinha na demanda. Mas, claro, tudo às escondidas. Zanguei-me. Não têm nada que andar a mexer e a desarrumar os livros e que desistam porque não vão encontrá-lo.  'Ai-ai-ai, ai-ai', zango-me eu, e eles já me imitam. Voltei à cozinha.

Quando aqui regressei, estava tudo ao rubro. Tinham descoberto um dos meus Pipis, não reparei se era o Diário ou o dos Sermões. Já nem me lembro se foi a minha filha que disse que não deveríamos deixar aqueles livros ali. Mas não apenas não estavam à vista como vai lá uma pessoa lembrar-se que hoje lhes ia dar para andarem a revirar os livros mais recentes. O mais velho, onze anos, rebolava-se a rir. O primo, sete anos,  tinha estado a ler e, dizia ele, 'ele leu em voz alta e eles não percebem a maior parte das palavras mas eu percebo tudo... e é tudo muito impróprio...'. E ria a bom rir. Depois perguntava: 'Mas para que é que tens aquele livro...?'. Expliquei que era um livro de humor, muito bem escrito mas não para crianças. E peguei no livro e fui escondê-lo. A ver é se agora não lhe perco o rasto.

E voltei para a cozinha. Quando cá voltei, estavam os quatro mais crescidos atrás de uma estante. Largaram precipitadamente o que tinham na mão. Fui ver. Era outro livro de fotografia e uma grande lupa. Perguntei: 'Mas de onde apareceu esta lupa?'. Juro que não fazia ideia. Ela contou que a tinha ido buscar a outra estante. Já nem de tal me lembrava. De novo, o mais crescido a rebolar-se a rir: 'Estávamos numa pesquisa perfeitamente paralela e, sem querer, descobrimos este livro'. E dobrava-se a rir. E eu disfarço mas a verdade é que acho imensa graça à forma como se expressa e ao sentido de humor que revela em tudo o que diz.

Quando eram mais bebés, tinha que tirar tudo o que era peça que se pudesse partir do seu alcance. Estou a ver que tenho que ter cuidado agora com os livros. O apelo do interdito faz-se sentir em todas as idades e a união entre eles tem muita força, descobrirão sempre qualquer coisa que os deixará ufanos e ainda mais curiosos.


Devo esclarecer que, entretanto, o meu marido e o meu filho estavam a apanhar os vidros da porta da rua que o meu filho, ao tentar desencravar a porta, fez tanta força que o partiu, e os demais crescidos estavam ou a pôr a mesa ou ao telefone noutro sítio ou na casa de banho ou não sei bem onde. Portanto, eles andavam à aventura em liberdade. Esta sala é, para eles, uma arca do tesouro e eu, se me recordar de quando tinha a idade deles, imagino a tentação que deve ser saber que há aqui um mundo fascinante por descobrir. E eles são um verdadeiro bando dos cinco.

Depois foi o jantar, a mesa cheia, e uma vez mais aconteceu o que sempre temo. Penso que estou a fazer o dobro da comida necessária mas, afinal, pouco sobrou. As doses de tudo são crescentes. Crescem e felizmente alimentam-se na devida proporção e os adultos felizmente também não se queixam de fastio. O apetite de todos enche-me de alegria. Sentam-se à mesa e comem de gosto. Quase todos se levantaram para repetir a dose. Nessas alturas a minha alegria tende para a preocupação não vá algum querer voltar a repetir e já não haver. 

E isto apesar do meu filho ter trazido uma sopa óptima, gostosa e consistente, de couves, feijão e carne. Tinham lá tido amigos ao almoço e como agora vão uns dias para fora, trouxe a sopa que sobrou.

Depois da cozinha arrumada, brincadeira na sala, todos na maior animação. Às escondidas, lutas, cantorias, imitações.


Agora a casa está silenciosa. O meu marido já dorme há um bom bocado. Disse que estava partido, que mal se podia mexer. Pudera. Como não? Jogou à bola durante mais de uma hora e vi-o a cair várias vezes, a atirar-se para evitar que a bola entrasse na baliza imaginária. Como sempre, estava de guarda-redes. Deve ser de quando jogava andebol. Ficou-lhe isso, gosta sempre de jogar à baliza. Curiosamente, dois dos meninos, na escola de futebol onde andam, também jogam à baliza. E têm jeito. A genética tem muita força, dizem.

E eu agora, enquanto escrevo, vejo a televisão e apercebo-me como o coronavírus está não apenas a arrefecer a economia como a transformar algumas cidades em cenários daqueles filmes de terror que nunca vejo. Quem diria que uma coisa destas poderia acontecer...? O mundo ameaçado por uma porcaria de um vírus. Nem na mais desvairada ficção isto poderia ser imaginado.

Bem. Vou descansar que daqui a nada o domingo já é dia e, por muito que eu goste de habitar os mistérios e os silêncios da noite, não posso depois ficar a dormir até a manhã ir alta. Portanto, fui.


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As fotografias foram feitas este sábado na praia e às duas últimas dei-lhes um banho de cor. 

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Desejo-lhe, a si que está aí desse lado, um belo dia de domingo

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Postal nº 2 da beira do mar -- Até que a morte os separe





O amor entre um homem e uma mulher (ou entre dois homens ou entre duas mulheres) não é infinito, não é incondicional, não é intemporal, não resiste a todos os escolhos, não acolhe todos os perdões nem todas as tolerâncias. É o contrário. É efémero, frágil, limitado. Contém ódios, acusações, raivas, incompreensões. 

Mas se, apesar de tudo isso, ele consegue ir sobrevivendo ou, mesmo, ir-se tornando-se mais forte e sábio, então é muito bom. É o tipo de amor que nunca deve ser dado por adquirido. Nunca. É demasiado falível para isso. Mas, enquanto durar, é bom. Ter-se uma boa companhia, alguém que nos ajude a superar as dificuldades, alguém que nos perceba, que nos ampare, que nos faça rir, que nos desafie é bom. Termos alguém a quem dedicar o nosso carinho, a nossa atenção, o nosso apoio é bom, termos com quem partilhar os bons e os maus momentos também é bom. 

Por isso, ver casais a andar é coisa de que gosto. Gosto de os fotografar. É como se caminhassem sozinhos no meio do mundo. 

Se vejo casais já com alguma idade mas ainda conservando a ternura da mão dada ou do braço dado enterneço-me. 


E, se vejo casais jovens, intimamente desejo que a vida lhes sorria e que eles sorriam à vida e que tenham a sorte de se sentir amados e de saberem construir o caminho pelo qual caminharão. 


Um ano bom é um ano no qual nos sentimos amados. E, ao terminar o ano, é em afectos que mais penso: que o ano novo venha com afecto para mim e para todos os que amo. E para todos os que, aí desse lado, me acompanham. 

Postal nº 1 da beira do mar -- Pais e Filhos





Estamos a chegar ao fim do ano e eu não sou de fazer balanços: acho que não interessa, acho que o que lá vai, lá vai e, sobretudo, já não me lembro de grande parte do que se passou. 

Talvez se me esforçar conseguisse dizer alguma coisa mas não estou numa de me esforçar, pelo menos não agora. O meu dia foi cansativo e eu reservo a energia que sobra para dar à luz algumas das fotografias que fiz hoje junto ao mar.

Mas uma coisa posso eu dizer e não é balanço desde ano em especial, é de todos em geral, e não é meu, é, creio, da humanidade: poucos amores há tão genuínos, tão incondicionais, tão intemporais, tão infinitos como o amor de alguém pelos filhos (e filhas, óbvio). Comovo-me sempre que testemunho o amor de alguém pelos seus filhos. É um amor que não diminui nem se desprende com o tempo, é um amor que sobrevive a todos os escolhos, é um amor feito de dádiva, de perdão e tolerância, de bons auspícios, de cumplicidade, de preocupação, de protecção (mesmo que desnecessária, mesmo que nos digam que devemos deixar-nos disso).

As fotografias que aqui tenho são de pais e não de mães mas penso que o amor de pai é (quase...) tão grande quanto o amor de mãe. 
E que os pais que me lêem não se zanguem pelo meu quase. Trata-se de um juízo subjectivo. Mas é que tenho para mim que nos meses em que as mães passam com os filhos no ventre, desde a génese até ao parto, acrescidos dos meses em que os temos nos braços e os amamentamos, se criam laços tão fortes, tão viscerais, que dificilmente haverá vínculo paralelo. Mas, nisto, a gradação não é muito relevante pois coisas que são infinitas que interesse tem saber se uma é mais assim ou assado? É um amor total, imenso, eterno e é isso que conta. 
É amor -- e do mais puro e autêntico que há no mundo.


segunda-feira, dezembro 23, 2019

Em dia de muito mar, muita poesia







Procurámos o mar. 

Se o mar é um deus, é um deus com estados de alma, umas vezes apiedado, outras contemplativo e sereno, outras, como hoje, todo ele fúrias, exaltações. Um deus infinitamente forte, de uma força indomável, incontrolável, inclemente. Um deus superior a tudo. Indiferente a tudo.


A lente da máquina fotográfica sempre embaciada tanta a humidade, o paredão invadido, com areia e água e cheio de flocos de espuma espessa, o ar que insufla as águas ali materializado. 


Os acessos ao areal interditados mas, ainda assim, alguns inconscientes a passear, certamente sentindo-se rebeldes e especiais, se calhar sentindo-se superiores aos elementos. 


Mas logo a força das águas lhes provou o risco que corriam. Num dos casos o meu marido chegou-se às rochas e zangou-se, que é uma inconsciência, que é assim que morrem pessoas, que fazem correr riscos a quem os vai resgatar. 


Uma mulher ficou com as pernas molhadas e sem sapatos e um homem ficou molhado até à cintura. O meu marido, que os ouviu a falar, disse que pareciam estar noutra, como que eufóricos. 


Não sei, mas vê-los como os vi fez-me impressão. É que, por vezes, têm sorte e podem sentir a superação. Outras vezes, por mera futilidade, arriscam a vida e fazem arriscar a vida dos que querem salvá-los.

E, depois, as gaivotas. Poucas gaivotas. 


Não sei para onde vão as gaivotas em dias assim. Onde se acolhem? Voam para longínquos rochedos? Para torreões secretos, nos confins da terra? Não sei.

Fotografei as poucas que ali se chegaram. 

No areal, umas quantas. Na praia que, no verão, foi preenchida com areia há agora uma funda piscina. O mar levou parte da areia. Entre a piscina e o mar, uma língua de areia onde as gaivotas se agrupam.


Acho-as maravilhosas. Fotografo-as tentando captar os seus movimentos.

Lá em baixo uma mulher de cabelo encarnado fotografa-as também. E eu fotografo a mulher de cabelo encarnado. Naquele contexto, aquele cabelo parece uma insólita plumagem rubra. Introduz uma nota de cor numa paisagem quase incolor.


Ao fundo, quase oculto pela névoa (reparem na fotografia acima), um homem arrisca, soltando o cão. Pouco depois, pressentindo a força das ondas, o cão foge para terra enquanto o dono é envolvido pela água.

Sem quererem saber de quem as olha ou dos riscos que as pessoas correm, as gaivotas desfrutam a sua livre e feliz existência.


Aquelas asas grandes, aqueles bailados longos, aquela elevação pelos ares em total liberdade, aquela graça e tranquilidade enquanto caminham pela beira da água, tudo nelas me fascina. 


E o ar branco, a névoa, a luz diluida na neblina, tudo muito belo, muito apaziguador apesar do rugido, apesar da força bruta das águas ali ao lado. Ou talvez mais ainda por isso mesmo.


Por vezes, a luz branca transforma em luz e em prata as ondas que se agigantam ao largo. Custa olhar. Parece irreal.


Em casa, para além de trabalhar e de ter ido comprar mantimentos, li. Li de gosto, devagar, saboreando o sentido e a música das palavras, o verso e o reverso, a sua sombra e a sua luz.

Senti-me feliz a ler. Aquela sensação de paz vivida instante a instante, de satisfação serena e boa.


bebemos os poemas e a paixão
bebemos sôfregos o vento ardente
até perdermos o sentido das palavras

digo-vos é mentira
o corvo não regressou à arca de noé
continuou a voar entre duas águas
perdeu-se na travessia do caos e da ordem
fascinado pelas líquidas imagens
que se desprenderam do infinito dilúvio

quando a terra por fim secou
o corvo impregnava tudo de treva
para que a pomba não encontrasse o ramo de oliveira
e deus
ao olhar o que nunca fora obra sua
mal soube por onde fissurar tanta escuridão

vingou-se
aprisionando os homens em territórios
de abandono e desolação.


Ave, Maria!
Ave, carne florescida em Jesus.
Ave, silêncio radioso,
urdidura de paciência
onde Deus fez seu amor inteligível.


Senhor meu amo, escutai-me,
a donzela espera por vós, no balcão.
Cuidado que não acorde os fâmulos
a paixão que estremece o vosso peito.
Os galgos estão inquietos, a alimária pateia.
Rogo-vos que vos apresseis.


E, agora que parei de ler, penso outra vez no mar. Como serão as ondas que se formam ao longe, amplas, imensas, quando ninguém as vê? Serão igualmente assustadoras ou, esquecidas do medo dos homens, suavizarão as arestas e os rugidos e avançarão com mais vagar, ondulantes, desfrutando a absoluta solidão da noite? Haverá espuma branca e rendilhada a rematar as ondas ou a espuma será negra, densa e perfumada de maresia como a paixão que se cola ao corpo das mulheres nas noites de irreprimível paixão?

Não sei. Há muitas coisas que não sei. 

E essas tantas coisas ainda por saber enchem-me de uma tal alegria que só eu sei.

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Seria eu um outro bicho se a minha casa fosse outra?







Os dois manos agora têm uma brincadeira nova, mais maluca ainda do que as anteriores. Chama-se Espasmo. A todo o instante levantam o braço, batem no outro ou alçam da perna e dão uma sapatada e, acto contínuo, dizem: Espasmo. Como é óbvio não percebi que brincadeira era aquela. Afinal era mesmo óbvio: faz de conta que temos um espasmo. A minha filha confirmou: é isso mesmo que parece: uma estupidez. A verdade é que com isto estão sempre às brigas. Tudo amistoso mas sapatada pede sapatada de volta e, às tantas, os espasmos estão acesos. Mas tudo na base da risota.


Estava era muito frio, escuro, a querer piorar. Apesar de tudo, linda a beira do rio, as gaivotas a rasarem a pala do Maat, a rasarem as águas, a elevarem-se em contrluz, a deslizarem sobre o vento. E a luz a passar pelas nuvens. 

Mas mesmo muito frio. Tivemos, pois, que nos abrigar e foi bom irmos lanchar um lanchinho bom, conversando em família. 


Antes de almoço tínhamos estado, só os dois, junto ao mar. Tínhamos pensado caminhar na praia mas, uma vez lá chegados, desatou a chover e levantou-se uma ventania. Saímos do carro mas não por muito tempo. O mar estava francamente revolto e o frio e o vento tornavam a tarefa quase impossível. Tinha levado o meu chapéu de feltro e estava a saber-me tão bem ter a cabeça protegida mas, para não correr o risco de ficar sem ele, tive mesmo que abrir mão do conforto. E o que aconteceu é que, com alguma pena minha, nem chegámos a descer até ao areal.


Quando vinha no carro, debaixo daquele mau tempo, a ouvir uma bela música, lembrei-me que debaixo daqueles grandes pinheiros mansos que nascem do areal fizemos, em tempos, vários picnics. Éramos cinco casais e, na altura, uns sete ou oito miúdos. Depois vieram mais, um por adopção e outros por nascimentos imprevistos, quando as respectivas mães pensavam que já tinham fechado a loja. Uma andou a tratar-se do estômago até a criança já ir para aí nos seis meses de gestação. Depois ficou em pânico com medo que os medicamentos lhe tivessem feito mal, isto já para não falar de ser mãe tardia e nem ter vigiado o início da gravidez. Felizmente, veio sem problemas de maior.

Mas, na altura, aquele primeiro lote de crianças tinha idades muito afins. E era uma paródia pegada.


Depois acabámos por perder aquela ligação próxima. Os miúdos ganharam vida própria e um tinha testes, outro tinha uma festa de anos, outro tinha um jogo. Eram muitos e conseguir agenda livre em simultâneo era um totoloto. Entretanto, quando vieram os bebés, os outros já adolescentes e com amigos e programas autónomos, estavam as mães a ter que 'guardar' em casa os bebés com viroses, com dentes a nascer. E isto, quando passa um mês e não se consegue e outro e não se consegue, o hábito vai-se perdendo. E depois, pelo meio, aconteceu uma coisa fracturante. Um dos casais que era central, até pela animação que proporcionava (animação, frequentemente, no mau sentido) separou-se. Foi muito complicado. Não era fácil estar com um e deixar o outro de fora das combinações. Resolvemos 'ficar' com ele porque ele existiu antes dela, já que, anos antes, ela apareceu no grupo como a namorada dele. Só que ele nos desnorteava pois, de cada vez que nos aparecia, vinha com uma namorada nova. Uma coisa louca. Para nossa surpresa, constatávamos que a ele, low profile, fisicamente até nada de mais, lhe caíam namoradas no colo como se fosse um galã. E não avisava. Combinávamos ir jantar e, por exemplo, encontrar-nos em casa dele e, pelo caminho, já íamos a pensar se seria a mesma. E nunca era. E ele, sempre o mesmo tímido, irónico, falinhas baixas e elas derretidas, olhando-o como se estivessem frente a um Brad Pitt desta vida. Embora, pensando bem, ele faz é lembrar o Al Pacino. Quando era casado, a mulher mais alta que ele, giríssima, interessantíssima, roía-se de ciúmes embora dissesse que o tinha escolhido por ele ser feio (e dizia-o à frente dele) e, assim, não ter que ter medo que as mulheres se perdessem de amores por ele. Enfim, umas cenas que nos divertiam e ajudavam a tornar o grupo ainda mais coeso em torno daquele casal meio disfuncional, sempre na corda bamba. E o que se passou foi, portanto, que aquele divórcio ainda mais ajudou a separar o grupo. 

Ao passar por ali, pensei que há tanto tempo que não íamos para aqueles lados, como se os lugares estivessem associados às pessoas que os frequentam.


Tive vontade de lá voltar para, com melhor tempo, ver melhor. Já deu para ver que o que antes eram umas aldeias esparsas são hoje condomínios e condomínios, vivendas e moradias e, pareceu-me, uma certa confusão. Mas talvez andando a pé fique com uma ideia mais benevolente. 

Ao passarmos de carro, vimos um casal que vinha da praia, a pé, à chuva. Vinham a conversar. Provavelmente tinham uma casa ali perto. Pensei na Isabel e no seu gosto em vir a ter uma casa ao pé da praia. Como a compreendo. Também eu, em tempos, o desejei. Desejava ter uma casa como a que que havia encavalitada nas rochas, salvo erro entre a Figueirinha e Galapos. Tinha uma escada que descia directamente para a areia. Talvez hoje não autorizassem a construção de uma casa assim. De resto, não faço ideia se tinha sido autorizada. Era uma boa casa e era uma casa de sonho, mesmo sobre o mar. Tinha um passadiço da estrada para a casa. Imagino como deve ser bom estar numa casa assim, ouvindo-se as vagas, a dança das ondas, o rugido das marés em dias de tempestade. Ou descer para a praia, a meio da noite, em dias de calor e lua cheia. E o cheiro da maresia, tão bom.

Quando andávamos à procura de uma casa no campo, isto há mil anos, chegámos a equacionar ser também perto da praia. Ouro sobre azul. Mas eram muito caras.


Depois de muito procurarmos e de vermos inúmeras, encantámo-nos por aquela ali, triste e escura, ainda com os móveis dos proprietários (também divorciados) que diziam que lá deixavam tudo, no meio de pedras e mato e rasteiro. Qualquer coisa ali nos atraíu irresistivelmente. Os miúdos puseram-se a correr pela casa, num entusiasmo, e a minha filha disse este é o meu quarto e o meu filho disse e este é o meu. E eu pensei tiro este móvel escuro e triste daqui e mudo o sítio dos móveis e tudo vai ficar diferente e o meu marido disse também de sua justiça. E eu pensei e vou plantar árvores porque aqui vai haver um bosque. Quando se riam, eu doseava a expectativa: um petit bois. O pior foi quando o meu cunhado lá chegou a olhando para aquilo de que nós já começávamos a gostar tanto e, naquele gesto tão típico dele, deslizou a mão pelo ar a meia altura, como que varrendo o espaço, e disse: 'deitam abaixo esta merda toda para conseguirem uma leitura diferente do espaço'. Bem conhecedora daquelas suas soluções que passavam sempre por deitar abaixo, fui taxativa: nem pensar, não vai nada abaixo, era o que faltava. Nem era só pelo acto em si, era também o dinheiro que aquilo que ele estava a idealizar ia custar. Mas aí o meu marido teve outra ideia, fez outros desenhos, unir aquilo com aquilo, rasgar uma grande janela, dali nascer um telheiro virado à serra. O irmão desaprovou: solução mediana quando poderia ser uma coisa fantástica. Paciência.


Ficou assim e acabou por reconhecer que foi uma boa solução.

E aos poucos foram nascendo os caminhos, os murinhos, as árvores foram crescendo, os pássaros foram chegando, as flores aparecendo, as borboletas, os cogumelos, a terra ficando atapetada de carumas, de musgos, de orvalhos. E eu tornei-me o bicho que tão bem conhecem.


Por isso, penso que, se calhar, as casas também nos fazem a nós. Talvez se, em vez daquela casa, nós tivéssemos descoberto uma outra que não nos permitisse mudá-la e, com ela, mudar a paisagem, talvez não fossemos o que hoje somos. 


Mas acordar de manhã e ir caminhar à beira do mar também deve ser uma coisa boa, talvez eu aprendesse a descobrir conchas, algas, pássaros e outros bichos que moldassem também a minha maneira de ser. Sabe-se lá.

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Já aqui partilhei este vídeo pelo menos mais duas vezes mas gosto tanto que me arrisco a partilhar uma vez mais.


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E só para vocês verem como é a minha fraca cabeça: quando comecei o post a minha ideia era olhar para os livros que aqui tenho quase ao colo e dizer qual ofereceria a cada um dos bloggers aqui do lado ou Leitores que conheço por comentarem ou me enviarem mails. Mas, se isto dá para perceber..., distrai-me e segui pelo caminho que viram. Se isto fosse na estrada, a esta hora estava a caminho do Porto.  (E estava muito bem que já estou é com saudades de lá ir dar uma volta.)

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Desejo-vos uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
E muito obrigada pela vossa companhia aí desse lado.

segunda-feira, outubro 28, 2019

Um dia bom que começou junto ao mar e acabou entre afectos, baladas e cambalhotas




Não sei se é jet leg pela mudança de hora mas a verdade é que estou um bocado off. Tenho estado para aqui a cirandar, com preguiça, sem iniciativa, como se me apetecesse apenas ler, ouvir música e, mais logo, quando os dedos quisessem, então, fosse isso a que horas fosse, logo pegava no computador. Só que a semana de trabalho já aí está à beira e eu, pensando no que me espera, quase me sinto cansada por antecipação e isso estraga-me um bocado o prazer em estar para aqui neste dolce abandono.


O pessoalzinho saíu faz tempo, primeiro os que madrugam nesta segunda-feira e, mais tarde, os que se levantam a horas normais. Estivemos todos juntos. Primeiro chegaram uns. Calminhos, bem comportadinhos, tranquilos. E estou a referir-me a todos, grandes e pequenos. Os pequenos sempre a perguntarem: 'quando é que os primos chegam?'. De minuto a minuto. Encontro familiar sem estarmos todos é incompleto e, para os mais pequenos, estou mesmo em crer que falho de graça. Mas, enfim, chegaram os que faltavam. E então sucedeu o que sempre acontece quando se encontram. Dá ideia que a maneira de manifestarem a alegria que sentem é deixarem soltar toda a energia que têm dentro deles: correm, brincam às maiores maluquices, cantam, dançam. E isto já para não falar no meu filho que, vá lá também eu saber porquê, desata a ensinar golpes de não sei quê aos rapazes (não sei o quê porque não sei qual delas é mas que é coisa de artes marciais, isso eu sei) e depois já são eles que fazem entre eles. E é preciso ter em atenção que são quatro rapazes pequenos mais um grandão.


E houve também guitarradas, baladas, cantorias alto e bom som, ginásticas, cambalhotas no sofá, sei lá que mais. O costume. O bebé, enturmado, canta, salta. Depois ficam com calor e, claro, às tantas põem-se à fresca e até o bebé apareceu em tronco nu.

Como houve presentes de Halloween, vi que a menina andou de roda da tia e que depois apareceu com um laçarote todo giro no cabelo, mas isso não tem a ver com o dia das bruxas, deve ter sido apenas por ser um laço bonito. Mas vi que apareceram uns óculos malucos e andavam a pregar sustos uns aos outros e também ouvi cair uma coisa no chão e ouvi falar em descobrirem para onde tinha caído o olho. Mas isso foi numa altura em que estava a tentar que se mantivessem sossegados à mesa, que comessem fruta e, depois, a arrumar a cozinha. Por isso, não sei onde é que o olho estava agarrado antes de cair.
E isto fez-me lembrar uma vez há uns anos, muitos, estávamos a ver um torneio de futebol de salão, coisa de amigos, e, às tantas o jogo parou e nós, nas bancadas, víamos que os jogadores andavam todos a olhar para o chão. Até que nos chegou a informação: tinha caído um olho de vidro a um jogador. Não soube a qual pois nunca tinha dado que alguém tivesse um olho de vidro. Ao fim de algum tempo o jogo recomeçou e chegou-nos a notícia de que tinham achado o olho. Na altura aquilo fez-me uma impressão dos diabos até porque nunca percebi como é que a coisa funciona mas, pelos vistos, é apenas como se fosse um berlinde enfiado num buraco, e tudo tranquilo, sem dramas.

Mas, enfim, toda a gente comeu bem, com apetite, e se há coisa de que gosto mesmo é de ter toda a família feliz, à volta da mesa. Olho para eles e estão ali todos os que me enchem o coração de alegria e afecto. Não estão os meus pais e isso dá-me pena mas já me vou habituando. Para estarmos todos juntos tem que ser em casa deles pois, como o meu pai não sai da cama, a minha mãe não quer sair para encontros familiares deixando-o em casa. Só em dias de festejos e tem que ser rápido. 

Mas isto foi ao fim da tarde e à noite.

De manhã fomos caminhar para a beira da praia. São caminhadas pouco produtivas em termos de ritmo e, certamente, de queima de calorias pois disperso-me desses bons propósitos e perco-me a ver o mar, a tentar captar os surfistas a cavalgarem as ondas, as gaivotas a dançarem pelos ares, as pessoas a olharem a rebentação. Ponho-me a fotografar e é um dos bons prazeres da minha vida: adoro fotografar.

Também fiz muitas fotografias cá em casa, aos meninos, àquela interacção feliz entre eles. Também fiz mais uma das fotografias ao menino a que em tempos aqui tratei por ex-bebé. É doido por roer um belo osso. Hoje foi um costeletão de vitela. Pela-se. Tem oito anos, está enorme, é um desportista de gema, sempre foi todo virado para a actividade física. Só não gosta de doces. Mas vê-lo a despachar uma pratada é um regalo. Come de gosto. A pediatra diz que podia ter mais um quilo. De facto, está alto e esguio. 
Aliás, todos comem bem, de gosto. Quando alguém se zanga com eles é para não comerem mais. Penso que isto advém de ninguém os forçar a comer quando não querem mais. 

Mas voltando à primeira parte do dia. Depois de virmos da praia e de ter posto a roupa a lavar, ter feito a sopa, ter posto o jantar a andar, etc, vim ler. Tão bom estar assim num domingo à tarde, tranquilamente, ter tempo para ler, saber que daí a pouco a casa se encherá de risos e conversas e brincadeiras.

E isto para dizer que, com isto e com a mudança de hora ou com a perspectiva de se aproximar uma semana daquelas que me cansa ainda antes de começar, estou para aqui um bocado sem energia, sem saber bem sobre o que escrever.


Sei é que, de manhã, ao estar a admirar a beleza extraordinária do mar, pensei que, à noite, poderia mostrar fotografias que estava a fazer, estas que aqui vêem, e falar daquele livro, um dos primeiros que tive, menina pequenina, um que era sobre o mar. Via-o sem me cansar, aquele livro cheio de preciosidades: a estrela do mar, o peixe-balão, os corais. Sabia tudo sobre eles, adorava aquelas cores, aquele mundo que me parecia mágico. Mais tarde, foi outro que me encantou, creio que o Planeta Azul. Adorava. A maravilha caleidoscópica, infinita, milagrosa da natureza.


E agora estive a ver o vídeo abaixo e também gostei muito de ver. Não vem agora a propósito do texto mas o texto também não tem propósito. Aliás, nem vou reler pois acho que ficaria com vontade de apagar tudo para começar de novo, com as ideias mais organizadas.

Portanto.

Aliás, a minha ideia quando abri o youtube era arranjar um poema bonito sobre o mar. Mas distraí-me e fui parar a este que aqui partilho convosco.

Agora que aqui o estou a colocar é que dei por isso, que não era esta a ideia, mas, a esta hora, já não sei se faz sentido ir em demanda de poemas com sabor a sal.



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Afinal não resisti. Estava com León de Greiff em mente porque tinha também em mente falar das pessoas que não vivem junto do mar e que, provavelmente, gostariam de poder vê-lo mais vezes. Balada del mar no visto na voz de Tomás Galindo.


E, por ora, é só isto.

Desejo-vos uma bela semana a começar já nesta segunda-feira.

domingo, setembro 15, 2019

Caminha no Caminho de Santiago.
E, com vossa licença, umas freirinhas e uma igreja muito linda e uma futebolada na praia e mais umas vistas.





Repito-me -- e peço desculpa por isso -- mas esta pequena vila tem sido um poçozinho de revelações. 

Agora mais uma: víamos chegar ao hotel pessoas que chegavam de mochila e que pareciam sair na manhã seguinte. Ou, então, grupos que chegavam e a seguir chegava uma carrinha com malas. Registavam-se e, entretanto, alguém ia deixar-lhes as malas na entrada. Estávamos intrigados com aquilo.

E nas ruas ou rente ao rio. Na direcção da foz, com mochilas, ar de caminhantes. Caminhantes por todo o lado. Víamos também grupos de ciclistas, mas ciclistas atípicos. 

Reparámos que muitos traziam nas mochilas uma concha e alguns também umas fitas. Começamos a perceber que se tratava de peregrinos. 


Pensámos logo: o Caminho de Santiago, el Camiño. Mas a passar por Caminha? Quem faz uma peregrinação não tentará todos os short cuts possíveis? Podendo traçar uma diagonal no percurso, porque haveria alguém de fazer o caminho mais longo, por Caminha? 

Mas, então, eis que, na Vila, na praça central, vendo-os aos magotes, reparei que alguns olhavam o chão. Olhei também. Umas pequenas placas. Confirmava-se, pois, que Caminha está na rota de Santiago.

Entretanto, numa pequena lojinha de artesanato, ao conversar com a sua simpática dona (e a ver se ainda faço um post com os recuerditos que trouxe), perguntei-lhe se agora é altura de peregrinação. Riu-se, não, é todo o ano, embora menos no inverno e mais no verão. Perguntei: muito movimento aqui, não? Ela disse: nas comidas e dormidas sim mas, nas lojas, não. Trazem pouca coisa, não podem andar carregados. Falou-me então em cadernetas, disse-me que punha carimbos. Falou-me na concha, nas fitas, que isso é o que lhe compram mais. E mostrou-me: lá estavam, iguais às que eu tinha visto. Perguntei se em Caminha há muito onde ficar já que via tantos peregrinos. Disse-me que talvez a maior parte fique no Albergue e creio que me falou em seis euros por noite (mas será que percebi bem? Seis euros...!?). Mas acrescentou que cada vez mais também no hotel, lá em baixo, na foz do rio. Pois, lá está. E acrescentou: mas cada vez há mais pois parece que estão a preferir mais o caminho do mar. Pensei: então é isso, preferem vir pela costa, o caminho português da costa, deve ser mais bonito apesar de mais longo.


E, entretanto, os ciclistas. Os e as. Muitas mulheres. Fotografei um grupo que aparentemente tinha ficado no hotel. De resto, na entrada do hotel, tínhamos estranhado uma zona de estacionamento para bicicletas. Era, então, isso. Falavam animadamente. Ingleses. Mais mulheres que homens. E, diria eu, maioritariamente acima dos cinquenta. Aliás, alguns e algumas, diria eu que bem acima dos sessenta. Estava pasmada. Como é que gente desta idade se mete a fazer percursos assim, de bicicleta? O meu marido, que não se espanta com nada, respondeu simplesmente: Com treino. Com certeza que não estão agora a andar de bicicleta pela primeira vez. Pois não sei. Nem sei que vos diga. Nem sei de onde partem para, sendo ingleses, estarem ali, a caminho de Compostela. O meu marido disse: Provavelmente vêm da terra deles de avião até ao Porto e aí é que, se calhar, começam o percurso. 


O grupo que fotografei saíu do hotel e, quando eu estava à espera que fossem pela ciclovia até ao cais do ferryboat, não, seguiram pelo passadiço, a caminho da praia. Voltei a ficar admirada. O meu marido disse: Se calhar aproveitam para conhecer os lugares por onde passam, se calhar vão ver o mar. Mas não. Nós, que íamos a pé para a praia, encontrámo-los na pequena paliçada do cais do barco-taxi e, aos poucos, na maior animação, começaram a ir.


Passado um bocado, andávamos nós a caminhar junto ao mar, reparei em pontinhos coloridos já do lado de lá, em Espanha. Eram eles. Já lá estavam todos. Esperaram que estivessem todos e depois ala, lá foram pedalando, um atrás do outro. Bonito de ver.


Perguntei ao meu marido: como será fazer uma coisa destas? Não de bicicleta, que não teríamos estaleca para tal, mas, sei lá, a pé. Nem respondeu. Perguntei: mas as pessoas virão por motivos religiosos ou pela graça de fazerem o percurso? Respondeu apenas: Sei lá. E não me deu conversa. Não é coisa que lhe interesse. E eu, se quiser ser realista, terei que reconhecer que uma caminhada destas deve ser obra.

Mas fiquei a pensar. Sendo uma coisa soft, ficando em hotéis, parte do percurso em autocarro, não seria uma caminhada boa de se fazer? Ir por aí, andando, conhecendo cada local, fotografando, até chegar lá, ao fim do Caminho. O meu marido acha que não, que, deslumbrando-me eu com cada pequena coisa e querendo fotografar tudo, nunca mais chegávamos ao nosso destino. Pois, se calhar tem razão.

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E já que falo em peregrinações (que, se calhar, maioritariamente têm motivações religiosas), faço a agulha para outro tema que também mete religião. 

Na esplanada no Largo principal de Caminha, uma freira já com alguma idade anda de mesa em mesa, chocalhando uma caixinha e perguntando se queremos uma medalhinha de uma santinha, não percebi qual. Quando se pergunta quanto é, diz que é o que se quiser dar. E a verdade é que muita gente lhe dá uma moedinha.


Quando, depois de termos petiscado, entrei na Igreja do Largo, lá estava ela na última fila, absorta, contando o dinheiro que tinha conseguido. Mas, ao ver aproximar-me, de imediato levantou a caixinha e fez a mesma pergunta: uma medalhinha da minha santinha? Achei graça.

Mas eu estava ali apenas para ver, para estar. Gosto de entrar em igrejas vazias. São frescas, são lugares de tranquilidade. E espaços bonitos, carinhosamente cuidados. 


Entretanto, quando, pouco depois, andávamos a passear, lá iam mais duas, conversando. E pode ser visão selectiva ou distracção mas a verdade é que não tenho ideia de ver em Lisboa um par de freiras a andar na rua há que séculos. Se calhar é porque não passo ao pé de algum convento onde elas vivam, porque é capaz de haver algum e acredito que ainda se vistam assim, em Lisboa como no resto do país. Mas a verdade é que achei graça. Tendo eu acabado de ver nas esplanadas gente com um ar tão ou mais cosmopolita do que em Lisboa e, inclusivamente, tendo acabado de fotografar uma mulher tal e qual a Lady Gaga, com um chapéu giríssimo que lhe ficava a matar, pareceu-me estar a ter uma visão do passado ao ver, naquela ruela, as duas 'irmãzinhas da caridade'.


E, por ora, é isto. Temo que, com tanto post -- e tão longos e com tanta fotografia--, já estejam fartos da minha reportagem em Caminha. Entretanto já lá não estou, já regressei à minha selva in heaven.

Mas ainda tenho aqui tanta coisa bonita que gostaria de partilhar convosco. Não sei o que faça. Também fomos a Vila Nova de Cerveira e também gostava de mostrar algumas imagens. Mas sei que uma pessoa pode tornar-se uma maçadora de primeira a querer impingir aos outros aquilo que viu. Portanto, calo-me já deixando-vos apenas com mais quatro fotografias. 

Fiz esta fotografia dentro de água, mesmo, mesmo na foz do rio, no sítio em que ele entra no mar.
(E, apesar do risco, a máquina fotográfica aguentou-se...)
Do lado direito Portugal, Caminha, e, do esquerdo, Espanha

Talvez nesta perspectiva se perceba melhor onde é a foz do rio Minho.
(Tal como a primeira fotografia, esta foi feita num dos miradouros da Vila.)
A ponta de areia que se vê mais ou menos à esquerda é o areal que, do lado de cá, é praia de rio e que, depois do bico, é praia de mar, indo em contínuo até Moledo.
Do lado de cá das águas é, pois, Portugal e, do lado de lá, Espanha
Não é uma paisagem tão linda?

Futebolada na praia (Espanha em frente).
A sorte destes miúdos...

Pôr do Sol do lado do rio (continua a ser Espanha o que se vê do lado de lá das águas)

E agora é que é. Vou ver se fotografo ainda os little recuerditos para vos mostrar. Tralha, inutilidades, diz o meu marido. Pois, não digo que não.

E um bom dia de domingo.