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quinta-feira, março 30, 2017

O receio no olhar dela


Talvez não seja o tempo de cobardes considerações teóricas sobre os equívocos da meritocracia em termos de selecção dos cargos de chefia (até porque em geral as pessoas escolhidas, i.e., os sobreviventes, serão, com toda a certeza, lamento, os piores de nós). Talvez seja, sim, o tempo de conceder a igualdade de acesso às mulheres no comando da sociedade. Quanto aos resultados, logo se vê.

(in O Elogio da Derrota)


Se me deslocar para uma outra das minhas dimensões, consigo perceber como vêem o meu mundo as pessoas que estão longe dele. Acredito que -- com aquele sentimento de superioridade intelectual que caracteriza as pessoas que se sentem ungidas de um repelente contra tudo o que vagamente se pareça com poder -- vejam aquela parte do mundo onde existem chefias e chefiados como um pedaço de anti-matéria da qual mais vale guardar distância.

Poderia argumentar que essa parte do mundo é apenas um sub-conjunto do mundo e quem nele habita é uma amostra da população no seu conjunto, mas falta-me a verve para encontrar argumento certeiro. Digo apenas que, do que tenho visto, ninguém é melhor ou pior por trabalhar numa empresa ou ser free lancer ou, trabalhando numa empresa, por ser chefia ou chefiado.

Trabalho em contexto empresarial há tanto tempo que consigo estabelecer correlações ou identificar quando elas não existem. Que há muito cretino que chega a cargos de chefia é um facto mas eles estão na mesma proporção dos cretinos que são chefiados (ou dos cretinos que não são chefes nem chefiados). 

Antes de trabalhar em empresas, dei aulas durante dois anos e picos. Não via a hora de sair de lá pois, sendo ainda menina e moça, a ingenuidade era total e a verdade é que não suportava perceber que havia tantos professores cretinos.

Já fiz aquelas coisas de pós graduações e quejandas, tendo contactado de perto com alguns crâneos do mundo académico, alguns dos quais tendo carreiras ministeriais ou outras. Confrangedor como até num meio supostamente superior fui encontrar tanto cretino.

Ou, se me reportar a uma profissão atípica, a dos escritores, dou com a mesma realidade: por cada um que é genuíno e em quem se reconhece o toque da genialidade, encontramos uma mão cheia de cretinos. Dir-se-á: os cretinos não contam. Mas quem é que diz isso? Na verdade, os cretinos são os que mais vendem. Se lhes dedicarmos um minuto da nossa atenção, ouvi-los-emos dizer que os críticos os fustigam mas que os leitores os amam de paixão e que é para os leitores que escrevem. E quem é que decide quem é o melhor juiz, se é o crítico que tantas vezes é um pedante ou um cretino encartado, se é o leitor que tem a carteira suficientemente recheada para comprar os livros que quiser?

De cretinos em cargos máximos na política nem é bom falar. Por um qualquer mecanismo de autofagia que dificilmente se compreende à luz das leis da razão, de vez em quando os humanos escolhem os seus piores para os governarem. Não precisamos de pensar no caso de Trump pois isso aconteceu-nos por cá até há pouco tempo. Mesmo na Europa também até há pouco tempo lá esteve alguém que bem conhecíamos e de quem todos bem nos envergonhávamos (e não é que agora quem lá está faça grande diferença). Mas, por cada cretino eleito, há muitos mais cretinos que os elegem.

Ou seja: cretinos há muitos e estão por todo o lado.

Podem os que vivem num habitat à margem do mundo mainstream achar que a sua redoma os protege da cretinice do mundo mas, de facto, apenas os isola, tornando-os, assim, mais solitários ou, pelo menos, desconhecedores do que se passa em sua volta. Podem diabolizar a realidade que desconhecem mas, enfim, estarão apenas a ficcionar.

Quanto ao género, não faço distinções quanto ao mérito. E é sensata a dúvida sobre o que é o mérito pois o mérito é sempre uma abstração tão relativa que nem vale muito a pena falar nela. 
Por exemplo, se a pessoa desempenha uma função na qual se exige pouca conversa e muita acção, a um fulano que disserte compulsivamente, invocando cinquenta mil argumentos e socorrendo-se amiúde de autores conceituados, poucas pessoas lhe reconhecerão mérito. Mas pode acontecer que tenha a sorte de ter uma chefia que a ele e aos seus dotes de oratória reconheça alguns méritos para outra coisa qualquer e o encaminhe para onde a sua conversa atrapalhe menos. Tudo relativo e irrelevante. 
Mas há, do que tenho longamente observado, diferenças comportamentais entre homens e mulheres e uma das que mais se destaca é o receio que os homens têm de ouvir um não. Todos se tolhem com receio de um não. As mulheres, em geral, são mais ousadas e um não está longe de as assustar. E isso faz toda a diferença.
Não me aventuro por caminhos retóricos pois, certamente, por eles iria de tropeço em tropeço. Gosto de prosear mas conheço as minhas limitações -- limitações até de paciência. Dirijo-me, pois, para a conclusão.
Anos de machismo numa sociedade que até não há muito era fechada (e que, na província, ainda o é) levaram a que os homens se tivessem habituado a reinar. Preservam-se apenas porque está nos genes preservarem-se. Na hora de escolher um par, mais facilmente escolhem um dos seus, alguém com quem podem fazer almoçaradas, falar de bola e de gajas, interromper reuniões para ir ver futebol (ao vivo ou na televisão) e, claro, com quem podem contar para não hostilizar, para não fazer ondas, para não fazer perguntas incómodas -- tu não me chateias e eu também não te chateio.

Furar este círculo que se fecha sobre si próprio só à força.

E concordo: não é por haver mais mérito nas mulheres, é porque não faz sentido que as mulheres não estejam presentes ali como em qualquer outro lugar. (E, se tudo correr bem, talvez se façam sentir algumas ondas o que, como se sabe, é bom, as ondas geram energia, para além de serem um plus estético.)

Estamos de acordo, pois, na conclusão. Contudo, andamos por caminhos diferentes para lá chegar. 
(E, para ilustrar o texto, porquê uma mulher com um olhar tão receoso? Perante um desafio, alguma vez as mulheres se encolhem, com medo do desconhecido...? É que nem pensar.)
Talvez mais isto.

(O cigarro aqui é apenas para fazer pendant com o da Sean, lá em cima)

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E, para o cérebro do passarinho cantautor queiram, por favor, descer um pouco mais.


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domingo, março 12, 2017

A favor das quotas para mulheres
[E, acreditem, até há pouco tempo eu acharia altamente impovável ouvir-me a dizer isto]




Comecei cedo a desempenhar cargos de direcção numa grande empresa. Num local absolutamente habitado por homens, eu era a única mulher a participar nas reuniões de direcção. Não sei porque é que isso aconteceu. Talvez tenha tido a sorte de, na altura, a pessoa que lá mais mandava ter acreditado que eu era capaz de fazer o lugar e depois, acredito que, porque tenha cumprido, foram-se habituando à ideia. Durante muitos anos, eu era uma entre muitos. Quando íamos para fora, para aquelas reuniões de reflexão estratégica ou para eventos desse tipo era eu, única mulher, e muitos homens. E, mesmo alargando o âmbito ao nível abaixo, a proporção era ridiculamente desfavorável ao sexo feminino.

Numa das empresas onde agora trabalho já somos duas. Mas, se alargarmos o âmbito, ao nível abaixo, já há mais mulheres. Na outra empresa, sou ainda a única mulher e, mesmo alargando o âmbito, a minoria feminina é ainda expressiva.

Pelos cargos que tenho tido e pelas empresas pelas quais tenho passado, o contacto com muitas outras empresas, nacionais e internacionais, é frequente. Por isso, quando falo, a minha opinião resulta não apenas da minha maneira de ser mas, também, de muita experiência e observação.

Como comecei cedo a trabalhar e já trabalho para cima de há mil anos, tenho encontrado de tudo: homens e mulheres capazes e incapazes. 

Não apenas tenho conhecido uma grande maioria de homens que acha que, na hora de escolher alguém para algum lugar de relevância, se deve ir buscar outro homem, como tenho conhecido mulheres que acham que, para ingressar nesse pequeno grupo de mulheres que tem algum poder, deverão insinuar-se junto dos homens que mandam. Tenho-as visto com saias mais curtas do que faria sentido, mais decotadas, mais maliciosas, tenho-as ouvido dizer que têm que fazer pela vida.

Qualquer dos comportamentos é estúpido.

E durante anos a fio eu achei que as mulheres devem ser como são, sem se masculinizarem e sem se tornarem bonecas, sem abdicarem da sua vida própria, sem sentirem que têm que provar mais do que os homens para conseguirem o mesmo que os homens. E, claro, durante anos a fio, fui convictamente contra as quotas para mulheres.

Julgava a situação sobretudo a partir da minha própria posição. Nunca senti necessidade de me arranjar menos ou mais do que a minha natureza e vontade ditam, nunca me senti condicionada a sacrificar a minha vida familiar, nunca senti que deveria esforçar-me por me interessar pelos mesmos assuntos que interessam aos meus colegas homens -- e, portanto, achava que se comigo era assim e funcionava bem, não faria sentido obrigar a que alguns lugares fossem ocupados por mulheres, apenas por serem mulheres e não pela sua qualificação para o cargo.

E, se estou a falar nisto escrevendo no passado, é porque a minha convicção se tem vindo a esbater.

Somos levados a pensar que a estupidez tem limites ou que gente mentecapta pode vir a reconverter-se. Mas isso não acontece. E somos tentados a subestimar a poder de sobrevivência dos medíocres. Ora, como se tem visto, a humanidade tem vindo a evoluir, em muitos casos, às arrecuas e de patas para o ar.

Ou seja, estando instalado, um pouco por todo o lado, um status quo em que prevalece um machismo endémico, instalado, enraizado, já se viu que não é de forma natural que a coisa se desfaz.

Portanto, neste momento, estou em crer que isso das quotas é mesmo a melhor solução. Admitamos que, numa comissão de cinco pessoas, apenas uma é mulher e que, no mínimo, deveria haver duas. Não acredito, e não acredito mesmo, que na organização não se encontrasse uma outra mulher que não fosse tão capaz ou até melhor do que o pior dos outros quatro homens.

Seja num governo, num parlamento, numa comissão executiva, numa equipa de direcção, seja onde for, acho que não há como negar que se a causa é justa e se a bem nada se consegue, o melhor mesmo é ir a mal. À força. Seguindo a lei das quotas. Pode não ser politicamente correcto dizer isto mas digo na mesma: se não for pela força da lei, não vai lá de outra forma. E isto não atenta contra a dignidade das mulheres -- pelo contrário, abre-lhes uma porta que, como a evidência dos factos demonstra, de outra forma continuará praticamente fechada.

Soa mal ser a favor das quotas? Acredito que sim. Durante muitos anos também fui indubitavelmente contra. Mas agora, com igual convicação, defendo o contrário: se não houver a obrigação de ter um mínimo de mulheres em determinados lugares, daqui por muitos anos ainda se andará nesta conversa mole e as mulheres continuarão maioritariamente em lugares em que pouca ou nenhuma influência têm na condução da organização à qual pertencem.


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As fotografias são de Erwin Blumenfeld

Lá em cima Karen Matheson com Paul Brady interpretam Ae Fond Kiss -- e, se escolher uma canção de amor para aqui pode parecer um erro de casting, saibam que não. De facto, não há cá nenhumas declarações de guerra aos homens. Acho que a coisa só lá vai com peace and love entre homens e mulheres (nas devidas gradações, claro está).

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E agora aceitem o meu convie e queiram descer, por favor, até ao texto abaixo em que dou a palavra a um Leitor que me disse o que é que devia fazer-me sentir calafrios.

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