domingo, janeiro 21, 2018

A matemática de uma certa noite estrelada





Apenas um pequeno a-propósito:

No outro dia, ao ligar-me o meu filho, apareceu-me ao telefone o menino que tem cinco anos. Disparou: 'Tens um livro do Van Gogh?'. Levei uns segundos a processar. Depois respondi: 'Acho que sim. Mas para que é?' Respondeu-me: 'Para um projecto'. E disse-o com tal naturalidade que contive a vontade de rir. Disse-lhe que iria procurar, que não sabia era se estava na cidade, se na quinta. 

Entretanto, não descobria o livro. Vários outros, sim. Um sobre a semana turbulenta de Van Gogh e Gauguin, outro sobre Theo e Vincent. Depois referência em vários livros de arte. Mas o livro que tinha de cabeça não encontrei.

Relatei a conversa à minha mãe. Diz-me ela: Tu ofereceste-me um livro sobre Van Gogh, grande, da Taschen. Já lá fui, já cá o tenho. Portanto, da parte que me dizia respeito, a missão do Van Gogh está cumprida. 

E estou curiosa sobre o projecto. Quando souber alguma coisa conto.


Entretanto, adivinhando os meus pensamentos, eis que o algoritmo do youtube, certamente sabendo também da minha queda pela matemática, me propõe um vídeo com um tema algo imprevisto: A inesperada matemática por detrás da Noite Estrelada de van Gogh.

Estive a ver, interessada. 

O mundo é um espaço físico e temporal cheio de mistérios e fascínios. Tempos houve em que me entusiasmava ao tentar desvendar alguns e perceber as suas inter-relações. Hoje já não muito. Hoje interesso-me sobretudo por saber que há tantas, tantas, tantas coisas que nunca vou saber -- e que ainda bem que assim é senão a minha cabeça estourava e o mundo deixava de ter graça. 

Cada um de nós tem uma vida finita preenchida por pequenas coias. Podemos achar que somos únicos. Ou que temos pouca sorte. Ou muita sorte. Ou que há coisas que só nos acontecem a nós. Engano. Somos seres insignificantes, frageis, perecíveis, todos idênticos entre nós -- e estamos de passagem.


A maior parte de nós jamais descobre o que quer que seja, jamais deixa marca relevante para o que quer que seja. Apenas quando observados numa série longa se percebe que, de vez em quando, alguns deixam pequenos contributos para os que vêm a seguir. Uns por acaso, outros por muito se esforçarem, outros por mero engano. Acontece, simplesmente. Por exemplo, uns, tresloucademente, pegam num pincel e andam com ele em volta, captando a turbulência com que a sua mente vê o céu estrelado, outros inventam fórmulas matemáticas que se adaptam ao que outros pensam sobre a turbulência da luz. Depois há quem, um dia, consiga ver a relação entre esses eventos e tudo parece fazer sentido. Engano, também. O que é 'tudo'? 'Tudo' é coisa que não existe. 

Haverá, depois, os estudiosos que acham que 'tudo' é um breve passo para atingir o desconhecido. Ou os cépticos que acreditam que nada se sabe, que nada interessa. Ou os diletantes, que com tudo se deleitam, que desenham interrogações onde os outros dormem sobre certezas, apenas pelo prazer da arte e da estética do conhecimento elegante.

Mas, vendo bem, de facto, não se percebe para que é que coisas assim contribuem para o futuro e para o bem da humanidade. Por mim, é com serenidade que interiorizei que não devo tentar perceber tudo.  A explicação do mundo é, para mim, tema que me interessa cada vez menos. Tranquila com as minhas limitações, a mim basta-me semicerrar os olhos e apreciar a beleza de uma pintura, sentir a harmonia de uma bela melodia, apreciar a delicadeza suprema de uma expressão matemática escrita num momento de inspiração.


Mas, enfim.

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo que o YouTube me propôs: 
Physicist Werner Heisenberg said, “When I meet God, I am going to ask him two questions: why relativity? And why turbulence? I really believe he will have an answer for the first.” As difficult as turbulence is to understand mathematically, we can use art to depict the way it looks. Natalya St. Clair illustrates how Van Gogh captured this deep mystery of movement, fluid and light in his work. 
Lesson by Natalya St. Clair, animation by Avi Ofer.


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Entretanto, vou coser uma meia e temperar a carne para amanhã e pode ser que ainda volte falar de outras cenas.

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sábado, janeiro 20, 2018

Meu querido algoritmo, leva-me a dançar


Vi as sondagens, vi algumas notícias, sim, teria muita coisa a dizer, claro, mas o depauperado estado em que me encontro reduz-me o débito cognitivo e pouco mais consigo fazer do que passear os olhos pelos vídeos que o algoritmo do youtube me propõe.

Somos bons amigos, eu e o algortitmo. Fosse eu dada a networkings e arregimentava-me no LinkedIn a ver se a Google vinha fazer serenatas à minha varanda, atirar pedrinhas à janela, a ver se me convencia a ir aperfeiçoar o algoritmo do YouTube. E eu talvez que fosse. Juntar-lhe ainda mais uns pós de inteligência emocional -- que racional já ele tem que chegue. Por exemplo, quando o algoritmo percebesse que a malta é daquela que está por tudo (que os algoritmos percebem tudo), volta e meia surpreendia-a com coisas malucas para caraças. Malta que está por tudo, pela-se por ser surpreendida.

Se bem que isso já ele faz. Algoritmo bem feito.

Ainda hoje. Eu na modorra, preguiçando pelos vídeos e adormecendo de minuto a minuto, e nisto dou com um em que nada a ver. Pois foi logo esse que me despertou.  Claro que, no meu íntimo, gostava que ele (ele, o algoritmo) fosse mais ousado. Que me adivinhasse, que fosse buscar coisas de gente que eu desconheço mas que vendo-os logo eu descobrisse quem é, coisas que me deixassem de queixo caído, olhos esbugalhados -- tudo para me desafiar. Ou actividades completamente desconhecidas. Ou mais. Coisas do outro mundo. Tem que ser de outro mundo para me cativar. 

É como nos blogues: só quem escreve coisas do outro mundo me cativa. E há quem. Por esses me deixo cativar. Por eles, eu me deixo trazer cativa.

Mas pronto, isto já sou eu a querer demais: algoritmos inteligentes, sensíveis, mediúnicos, maliciosos, divertidos, poéticos, sensuais, insolentes. Por detrás do vidro do computador milhares de mentes confluindo em palavras deliciosas, surpreendentes, em bailados nunca vistos, em artes inesperadas, em amores e gestos irrecusáveis, em gestos de bondade, em olhares atentos e felizes.

Bem. Isto tudo para dizer que estava eu aqui, pasmaçando, pensando no meu plano de festas para sábado, muita actividade para tão curto espaço de tempo, quando um vídeo me trouxe à memória. Digo-vos o quê.

Os meus pais eram jovens e tinham muitos amigos. De vez em quando havia bailes. Os meus pais não seriam bailarinos devotos mas dançavam com competência. Nesses dias a minha mãe arranjava-se de forma ainda mais apurada. Era, já de si, bonita e vistosa ou não fora o seu cabelo de um louro platinado natural, os olhos muito azuis, relativamente alta, elegante e alegre. O meu pai, outro registo, sempre com grande sobriedade, mas moderno, disponível para participar nas coisas que agradavam à minha mãe e onde estavam todos os casais seus amigos. O padrinho de casamento do meu pai tinha três filhos jovens e bem dispostos. Havia também o director da fábrica que tinha outros três filhos. Andariam todos por volta dos vinte anos, mais ano, menos ano. E havia outros que, com eles, formavam um grupo que animava sempre os bailes. E organizavam concursos. Do que melhor me lembro era do twist. O que eles faziam... Pareciam frenéticos, contorcendo-se de alegria.

Eu adorava aquilo. Andava com os meus amigos pequenos -- três, quatro, cinco anos -- a dançar no meio dos grandes ou simplesmente a observá-los. Não sei se os meus pais me levavam sempre com eles. O que sei é que aquelas noites eram para mim um delírio. As raparigas grandes e as mulheres, emgeral, iam com saias rodadas, os rapazes andavam elegantes, riam, dançavam, inventavam coreografias. Lembro-me de um que se chamava Orlando e que era o máximo. E a Guidinha, que saltava, rodopiava, dava reviravoltas no ar. Abriam-se alas para os ver dançar. No fim, a sala vinha abaixo, tanto o entusiasmo e a força dos aplausos. Os meus pais não eram nada esse género, era sempre um registo de sobriedade mas apreciavam a exuberância dos outros.

Havia outros bailes, ao ar livre, pelos santos populares, e aí também íamos e havia caracóis e laranjinas. Mas estes de que hoje me lembrei eram num grande salão. Pela Passagem do Ano também havia baile e ceia mas, que me lembre, não havia concursos. Não me lembro de dançar muito, nessa altura. Era pequena e andar a dançar ou a correr entre os adultos era um desafio.

O vídeo abaixo, que hoje o algoritmo tinha para me mostrar, não reproduz nada desses ambientes de festa tais como me lembro. Mas é uma alegria. E é break dance. Dá-me ideia de que deveria haver legislação que obrigasse toda a gente, pelo menos uma vez na vida, a participar em momentos assim. Não se fica o mesmo quando alguma vez se dançou perdidamente, o corpo à solta, a música a correr nas veias. E isso o algoritmo já sabe. O meu, pelo menos, sabe.

1930's Break Dancing (Mills Brothers - Caravan)


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E queiram descer até ao post que se segue: tem drama que chega e sobra.

E se detectarem bandos de gralhas empoleiradas nos meus textos, por favor, relevem: é que já estou a dormir, já não dou por elas -- por isso nem as enxoto.

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Vamos acrescentar um bocado de drama a esta pasmaceira...?


Bem. Se soubessem o que foi o meu dia nem iam acreditar. Eu própria não acredito. Foi de manhã, foi à hora de almoço, o parque de estacionamento cheio, várias voltas ao bilhar grande para conseguir descobrir um buraco para a droga do carro, foi os restaurantes a deitar por fora, sem mesas, foi um arranca-rabo dos antigos à tarde, foi um tareão no meu pobre ombro ao fim do dia, foi um trânsito estuporado à noite, foi não haver lugar para estacionar o carro à noite, foi um restaurante a rebentar pelas costuras, uma barulheira insuportável. Caneco. Levanta-se uma pobre proletária ao raiar de alba para andar metida em confusões, trabalheiras, barafundas e apenas chegar a casa às onze, já sem paciência para aturar brincos, saltos altos, soutien e tudo o resto. Bolas.

Haverá quem diga: mas ó maria parvalhona, que ideia ir para um restaurante a uma sexta-feira à noite...? Pois. Mas a uma sexta-feira à noite, vai uma pobre membra da classe operária ainda pôr-se a fazer jantar às nove e tal da noite? Ou está o pobre marido para se pôr feito cozinheiro, coisa para a qual nunca teve jeito ou motivação, numa sexta-feira à noite...? Zero em ambos os casos.

E quem é que havia de imaginar tamanha barafunda, tamanhas enchentes, Lisboa a transbordar por todos os lados?

O que me valeu, acreditem, foi que agora, onze e tal da noite, tenho notícia de Leitor que andava meio desaparecido (e eu sei porquê, e como o compreendo) que me trouxe coisas que me deixaram completamente bem disposta e bem informada.

Partilho já uma das coisas convosco. Quase uma coisa na base do que foi o meu dia sem ter que carregar num botão.

Uma surpresa dramática numa praça sossegada


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sexta-feira, janeiro 19, 2018

Aprovada lei que multará as mulheres-lindas-de-parar-o-trânsito





Não me importunem. Não sou “A Bela da Tarde”. E se eu fosse a Catherine Deneuve? E se eu fosse a Anitta? E se eu fosse o Pabllo Vittar? E se eu duplicasse as consoantes do meu nome? E se eu fosse a Rita Cadilac? E se eu estacionasse o meu carro sobre a sua língua comprida e infame numa faixa de pedestres? 

Não sou mais um desses “porcos” que as algumas feministas esbravejam por aí. Não voto nos candidatos da extrema-direita. Estou extremamente feliz por não ter nascido canhoto. Canhotos sofrem; mulheres, idem. Não sou truculento. Não digo palavras chulas a uma mulher, a não ser que ela implore por elas. Concordo em ganhar menos dinheiro do que a minha companheira. Aliás, sonho em ser dono de casa. Não exijo transar sem camisinha. Não gosto de pegar geral, de pagar prostitutas; não é que eu seja um caloteiro; acontece que eu não curto frequentar bordéis e viajar para congressos com acompanhantes viçosas de nível universitário. Sou otário, mas, não me furto em me meter numa briga de marido e mulher. Não consinto com o abuso sexual, com o estupro de mulher alguma, em nenhuma circunstância, quem dirá, as feias, minhas parceiras de feiura e desencanto. Deixo um lastro de sarcasmo por todo canto, onde quer que eu escreva, notem isso, farejem isso, cavem no quintal dos seus olhos o real sentido dessas palavras, pelo amor de Deus, caprichem na interpretação de texto, isso aqui não é bula de remédio.

Analfabetismo tem cura; burrice, não. Sinto que a humanidade está dando marcha à ré. O mundo não apenas continua cruel, como está ficando chato à beça. Depois do advento das redes sociais, então, anda enfadonho, insuportável. Na internet, as pessoas parecem mais infernais que o habitual. Os vírus da ignorância são os micróbios da vez, incuráveis, controláveis por potentes antivírus baixados pelo computador.

A humanidade é viciada em polêmicas. 

Isso me irrita de forma abissal. A controvérsia da vez diz respeito ao assédio sexual contra as mulheres. E dá-lhe blá-blá-blá. Existe, por exemplo, uma onda crescente de denúncias contra celebridades nos Estados Unidos, em especial, figuras carimbadas do cinema norte-americano. Em contraponto, recentemente, o jornal “Le Monde” publicou um manifesto assinado por cem francesas influentes, dentre elas, a veterana atriz Catherine Deneuve. Como continua linda a Belle de Jour. A reação das feministas foi furiosa e imediata. Se eu fosse mulher, se eu fosse francesa, se eu fosse convidado, assinava também, mas, com ressalvas. Não acredito em beijo roubado. Não concordo que um homem possa tocar o corpo de uma mulher sem (con)sentimento. 

Relutei algumas vezes em escrever este texto. O tema é vespeiro. Porém, eu me senti encorajado ao lembrar de uma entrevista da atriz-cantora Bibi Ferreira num programa de TV. Quando lhe questionaram o que mais a incomodava na velhice, Bibi respondeu que era o fato de passar despercebida pelos homens, de não se sentir desejada. Estou convicto que era disso que o manifesto das francesas falava: romance, conquista e autoconfiança. Nenhum ser humano sensato haverá de defender a violência contra meninos, meninas e mulheres. Logo, se eu fosse um servente de obra, não gritava palavrões, mas, assoviava, sim, para uma moça bonita caminhando pela calçada. Não me importunem. Eu não sou a Catherine Deneuve. Eu sou apenas um homem ordinário que, assim como as mulheres, não gosta de apanhar nem com uma flor.




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O texto original (ao qual abusadoramente tirei alguns bocados) é da autoria de Eberth Vêncio e cacei-o na Revista Bula.

As fotografias são, tal como no post abaixo, da autoria dos safados Mario Testino e Bruce Weber, dois fotógrafos que, ao que consta, importunaram alguns dos jovens que fotografaram.

Leonard Cohen, um sedutor que seduzia até de olhos fechados, interpreta I'm your man

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E queiram descer até ao Amor em abundância, pseudo-aforismos auto-confessionais à moda da vossa Sta UJM

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Amor em abundância





Em meu entender, uma mulher gostar de gostar e gostar de ser gostada não é pecado: é virtude.

E uma mulher gostar de ser maliciosa e saber sê-lo quando quer, da forma que quer e com quem quer também não tem mal nenhum, tem é muito bem.

E uma mulher não ter pejo em falar de sedução ou rendição, em falar do seu corpo ou de corpo alheio e em falar do que gosta de fazer com eles, não é crime nenhum: é benção.

E uma mulher gostar de ser feliz e estar-se nas tintas para o que não interessa e gostar de rir e de coisas boas e fugir como o diabo da cruz do que é angustiante e maçador não é pobreza de espírito, é instinto de sobrevivência.

E uma mulher gostar de vir para aqui dizer coisas destas e escolher para companhia fotografias destas e uma música e um vídeo destes não é coincidência: é gostar de estar em boa companhia.

E uma mulher piscar o olho aos leitores de forma tão indecente não é inocente, não, é mesmo... (não digo)



Olá...!

Cu-cu...!


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Kate Moss, uma mulher livre que a tem sabido levar numa boa, aqui é fotografada por dois fotógrafos debaixo de fogo: lá em cima por Mario Testino e, abaixo, por Bruce Weber. Ambos estão a ser acusados por modelos masculinos de assédio. Felizmente, nenhuma mulher se queixou deles... e se ambos sabem captar bem o espírito feminino e a graça de vier.

Quem canta é a sexy Solána Imani Rowe (Nov, 1990), conhecida por SZA (de "Sovereign Zig-Zag Allah" ou"Savior Zig-Zag Allah") que aqui interpreta Love Galore. Recomendo que não vejam o vídeo até ao fim (e, desta vez, fazem o favor de me levar a sério porque o fim estraga tudo)

E, por fim, Eartha Kitt fala de amor e compromisso

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[... Ou preferiam que eu tivesse estado para aqui a dissertar sobre o futuro do Hugo Alexandre caso Rui Rio lhe dê o merecido chega-para-lá como líder parlamentar...? Era mesmo só o que me faltava.]

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quinta-feira, janeiro 18, 2018

A beleza dos negros

[E, a despropósito, um cheirinho de David Helfgott, o pianista louco]




Como não repetir-me se todos os dias aqui escrevo e se a vida que tenho para contar é só uma, a minha?

Perdoem-me, pois, se estão recordados daquilo que hoje aqui vou reviver.

Ao lado de uma das minhas avós morava a Vizinha Modista. Havia a moradia de habitação, um pátio e depois um grande atelier envidraçado e de cujas janelas pendiam vasos com fetos. Lá dentro, naquele amplo espaço, trabalhavam outras modistas e ajudantes. A minha mãe, em adolescente, nas férias, chegou a andar lá, a aprender costura.

Por vezes a minha avó deixava-me ir para lá e, para me manterem entretida, punham-me a apanhar alfinetes, a enfiar linha nas agulhas, a apanhar linhas ou retalhos do chão; e andava de roda de uma e outra a ver o que faziam, fazendo perguntas, encantada com aquele mundo tão exclusivamente feminino. Aquilo de que eu lá mais gostava era da grande mesa de corte onde havia sempre pedras de giz para fazer as marcações e uma tesoura grande e preta em que uma das partes corria o tecido encostada à mesa, fazendo aquele belo e denso arrastar metálico. 

Segundo eu ouvia a minha avó a conversar com a minha mãe, a Vizinha era careira. Perfeita mas careira. Tinha clientes importantes, de entre as quais várias aristocratas que vinham de longe nos seus grandes carros guiados por chauffeurs. Vinham aos grupos. Uma delas era da idade da minha mãe e conversavam muito. Para as outras pessoas ela era a Senhora Condessa mas a minha mãe tratava-a pelo nome. Tinha muitos filhos. Saíam do carro, buliçosos, muito bonitos e muito alegres. Uma era da minha idade e tinha um nome que a mim me parecia atípico pois não conhecia ninguém com aqueles nomes e, muito menos, conjugados. Desde logo, para mim, aquele nome me encantou e, para sempre, ficou guardado dentro de mim. Foi o nome que dei à minha filha.

This is a portrait of Chaila. She is 23 years old. She moved from Equatorial Guinea to Europe all by herself five years ago. Her youth was very tough. Moving away to the west was a brave decision but she now is excited about her future. She studies and works as a mannequin in Belgium. She loves to cook, dance and sing and dreams of becoming famous

A Vizinha Modista, talvez pelo contacto com as suas clientes, tinha um porte também aristocrata e uma voz com um timbre melodioso mas imponente. Era baixa, forte, peito proeminente e tinha um cabelo preto, ondulado e sempre muito brilhante. O marido, que era muito alto e magro, era uma simpatia mas, ao pé dela, uma sombra. Ela, apesar da sua baixa estatura, irradiava superioridade, confiança, assertividade.

Tinha dois netos, um bom bocado mais velhos que eu, que cedo se emanciparam. Num tempo em que ainda ninguém sonhava com o Erasmus, ambos foram estudar para outros países. Nunca sabíamos bem por onde andavam. A neta era baixinha mas tinha um ar muito moderno, jeans justos, cabelo curtinho. Quando vinha de férias e ia visitar a avó eu ficava toda contente pois parecia que ela chegava de outro planeta. O neto vinha cada vez mais espaçadamente a casa da avó, gostava de andar a conhecer o mundo.

Mas eis que um verão a neta trouxe uma novidade: um namorado. Lembro-me dele: um choque para todos. Gigante. Fazia dois dela. E negro, negro, negro. Não se falava de outra coisa. O namorado da neta da Vizinha Modista.

Quando o vi fiquei estupefacta, maravilhada. Nunca antes tinha visto um negro. Um gigante negro e sorridente, com uns belos dentes brancos. Punha o braço sobre os ombros da namorada e ela desaparecia.

Yesni was born in Ethiopia and later adopted by Dutch parents. She is 26 years old. Her name means ‘one in thousands’. Yesni is an activist, performer and creator. She loves fashion and music.

Lembro-me da minha mãe comentar, irónica: Para a Vizinha foi um choque. Não confessa mas nem vale a pena. Basta repara naquele 'apesar': "é bom rapaz apesar de ser preto..."

Durante muitos anos, quando se falava de preconceito racial a minha mãe lembrava a vizinha: 'é bom rapaz apesar de ser preto'. 

Por onde eu circulava não havia negros: nas escolas onde andei, nem um. Nas vizinhanças, também nenhum.

Só já na faculdade. Angolanos. Lembro-me de dois. Esculturais. Negros, negros. Tinham uma little paixão por mim. Quando eu estava na cantina, eles vinham ter comigo. Um oferecia-me iogurtes, coisa que eu achava divertida mas que, por dentro, me enternecia. Para ele, um iogurte era qualquer coisa. O outro ficou muito zangado quando cortei o cabelo pois gostava muito do meu cabelo. Eram muito delicados, muito sensuais e bonitos. Os meus dois namorados não achavam graça nenhuma: quando chegavam ao pé de mim, estava sempre eu guardada por aqueles dois belos rapazes.

This is a portrait of Ninho. He is 29 years old. He moved to Europe from Angola 10 years ago. His family is still in Angola. He works in the entertainment business in the Netherlands and loves music and sports.

Voltei a encantar-me com um negro anos mais tarde. Era moçambicano, um jovenzinho que teria uns catorze ou quinze anos. Magro, alto, também muito negro. Inteligentíssimo, o melhor aluno que tive. Ainda hoje me lembro do nome completo dele, três nomes que se conjugam de forma muito musical. Eu tinha vinte e um anos (foi no segundo ano que leccionei) e ele pouco menos que eu. Mas, na altura, a mim parecia-me fazer diferença e impunha-me sem muita dificuldade. Se for ao google e escrever esse nome, aparecem-me vários e não faço ideia se algum é ele. Inteligente como era, imagino que terá uma profissão muito boa. E era muito bonito, uma gazela elegante e ágil.

Sempre achei que os negros (e as negras) são muito belos. A pele, as feições, a alegria. Tudo nos negros me parece extraordinário, esbelto, feliz. Sempre que posso, à socapa, fotografo negros de perfil. A primeira fotografia que aqui mostro foi feita por mim no domingo. Puxei pelas cores para obter mais contraste e para que o perfil do belo jovem sobressaísse ainda mais. Têm um perfil que geralmente é muito bonito. Há uma estética fascinante nos negros.

Não sei porque existe preconceito ou sentimento de superioridade em relação aos negros. Juro que não sei. Não faz qualquer sentido.

As três últimas fotografias são da autoria de Dagmar van Weeghel e mostram, de forma límpida, como são belos os negros.

This is a portrait of Penda Mbaye, 18 years old. Penda came to Europe eight years ago together with her sister. She and her sister reunited with their mother in Belgium after being apart for 5 years. Penda came from Guinea Conakry. She now studies in Belgium and loves fashion and cooking. She wants to travel the world.
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E permitam uma nota que injustamete é de rodapé. A RTP tem exibido documentários e filmes muito bons. Verdadeiro serviço público. Acabei de ver um documentário que me fascinou. Levei imenso tempo a escrever este post porque, ao contrário do que é costume, em que estou com um olho no burro e outro no cigano (e nada contra burros ou ciganos), desta vez dei por mim, esquecida da escrita e a ver atentamente o fantástico pianista David Helfgott. Se puderem, não deixem de ver: Olá, Sou o David!

Não vem nada aqui a calhar mas não consigo deixar de pôr: Gillian Murray fala do marido, David Helfgott.


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No post que se segue, poderão observar o meu estupor catatónico ao saber que há uma artista, Olek de seu nome artístico, que tem uma obra muito arraçada com a da Joana Vasconcelos. Dir-se-ia que uma delas anda a beber demasiado da outra. Ver para crer.

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Esperem!
Parem tudo!
Afinal há outra?
É a Agata que se 'inspira' na nossa Joana... ou é vice-versa....?
Alguém me esclareça, se faz favor.


Há uns anos, um conhecido meu falou-me que tinha estado em casa de um empresário endinheirado que tinha contratado uma artista plástica para lhe fazer uma peça artística com gravatas. Segundo me contou, era uma coisa com as muitas gravatas dele e com uma ventoinha por trás. As gravatas ondulavam com o ventinho. A autora de tão inspirada peça de arte chamava-se Joana Vasconcelos. Foi a primeira vez que ouvi falar dela.

Tempos depois começou a ser conhecida. O sapato alto com os tachos, o candelabro com tampões, o coração com talheres de plástico. Alguma graça. Depois viciou-se no género e tudo passou a ser espalhafatoso. A seguir o crochet. Muitas mulheres a fazerem crochet com lãs, os bocados unidos, coisas cobertas de crochet.

Para mim a obra dela tornou-se algo repetitiva e parecia-me que, às tantas, já só estava a trabalhar para a espectacularidade -- mas, enfim, era o que era. E se escrevo no passado é porque deixei de prestar atenção, não sei o que tem ela andado a fazer.


Pois bem. Agora, para meu espanto, sei de uma outra artista que desde há muitos anos faz coisas assim. Fui conferir e ainda mais pasmada fiquei. Se não estivesse a ver que era a tal Agata Oleksiak (aka Olek) a autora, juraria que era coisa da Joana Vasconcelos.

Caneco. Sou leiga e mais do que leiga nestas coisas mas, na minha mais pura leiguice, diria que uma plagia a outra. Ou então é daquelas coincidências do caraças. Até o processo é o mesmo: junta mulheres de uma comunidade e põe-nas a crochetar e depois, todas felizes, orgulham-se da sua obra. 
Touro coberto de crochet de Agata Oleksiak (aka Olek)
Crochet is not generally viewed as a fine art, nor is it commonly used as a vehicle for social change. But New York-based artist Agata Oleksiak (aka Olek) is challenging those assumptions by elevating the craft and using it as a force for community building. With the streets as her canvas, Olek uses the help of local volunteers to crochet her large-scale crochet masterpieces. For her latest project, “Love Across the USA,” she will travel to every state in the United States to produce crocheted murals that celebrate prominent women in US history. With each unique installation, she’s developed an art form that truly belongs to everyone.
Por estas imagens que aqui escolhi talvez não reconheçam grandes parecenças mas vejam, por favor, o vídeo.

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Touro coberto de crochet de Joana Vasconcelos

Trabalhos de Joana Vasconcelos
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quarta-feira, janeiro 17, 2018

Brinquedos sexuais para todos
(e não só para avozinhas: esta brincadeirinha pode ser feita em reuniões de amigos de todas as idades, credos, géneros e condições sociais)


Pronto. Reconheço. Hoje estou que não me recomendo. Nem sei porque será. O dia foi normal. Não fui atacada pelos rottweilers do costume, não inalei hélio, não vi nenhuma intervenção do futuro ex-saudoso Hugalex, não fui perturbada por nenhuma toilette neo-realista da Judite Sousa -- nada. Um dia normalíssimo.

O único momento que foi diferente, não propriamente poltergeist mas quase, foi quando, assistindo ao telejornal da rtp2, vi a Cristina Azevedo que, na qualidade de comentadora, nos apareceu encarnando a persona de Rui Rio. Falava na primeira pessoa como se fosse Rui Rio, respondia como se fosse ele, conhecia-lhe os pensamentos mais profundos, fazia inflexões de voz como se estivesse a exprimir a estratégia dele. Era o corpo da Cristina Azevedo mas possuída pelo espírito do Rui Rio. Um clone de Rui Rio com cabelo armado e corpo de mulher algo empertigada. Uma coisa algo estranha.

Mas não sei se foi isso que me deixou assim.

Também vi o Miguel Esteves Cardoso com o Bruno Nogueira e a Rita Blanco e foi aquela conversa solta, divertida, de sempre. Apenas um bocado estranha quando a Rita Blanco se exaltou contra incertos a propósito da educação que hoje já não é como era. Não sei se estava a comparar com o tempo dela mas, do que me lembro, não sei se nessa altura era assim tão melhor do que é hoje. Talvez estivesse a referir-se à educação no tempo da Maria Cachucha que aí, sim, parece que aí é que era mesmo boa. Era boa a educação, era boa a convivência e parece que era boa a própria Maria Cachucha. Para quem apreciava o género, claro.

Mas também não sei se foi isso que me deixou assim.

Assim: com vontade de me armar em prof. 

Ou seja, aqui me têm sem pecado e sem inocência: uma coisa na base Fräulein UJM ensina.


Há bocado foi uma aulinha prática de como não comer uma banana. Agora é uma aulinha prática de como se usam alguns brinquedinhos sexuais (e, atenção, nada de associações de ideias mal intencionadas que este é um blog de família).

Atendendo a que os meus leitores mais jovens já sabem tudo o que há para saber e que os velhinhos acabados (e as velhinhas também, claro!) já sabem até demais, este meu post destina-se aos Leitores de meia idade e de ambos os sexos. Para isso, apresento-vos um vídeo em que os intervenientes são de meia idade (mas uma meia-idade um bocado para o avançado e no feminino). Avozinhas.
Mas, se faz favor, concedam-me: avozinhas com idade quase para serem minhas avós. 
E nada de se assanharem comigo: sou míope, já o disse. Mais: poupo-me a desgostos. Ou seja, só me vejo ao espelho de vez em quando e é sempre de longe.
Adiante. O vídeo não está legendado mas é o que há. Quem não compreender, pode sempre arranjar um brinquedo daqueles e tentar perceber para que serve. Do que vi, alguns devem funcionar a pilhas (ou serão de dar corda?) e podem servir apenas para serem apreciados do ponto de vista lúdico e isto porque, como verão no vídeo, fazem gracinhas.

Quando eu era pequena, tinha um caozinho pequenino de peluche em que se dava corda e ele desatava a andar freneticamente e a dar à cabecinha, muito engraçado. Se calhar alguns destes toys são também assim -- e é bom que sejam porque brinquedos a pilhas são uma maçada.

Mas, enfim. Neste caso, o intuito da aula é o seguinte programa: ver os instrumentos, fotografá-los e ir a uma loja da especialidade adquiri-los. Na próxima reunião de família ou de amigos, reproduzir o que aqui abaixo se vê. Uma espécie de jogo de tabuleiro mas em 3D. Vão-se tirando objectos de um saco, põem-se em cima da mesa e os convidados devem adivinhar para que servem. Quem quiser pode exemplificar para que os que são de compreensão lenta consigam perceber. Há sempre quem precise de ver o boneco para chegar lá.

Até podia ser o ponto alto de um debate televisivo. No fim, qual factor-surpresa, a Ana Lourenço, com aquele seu ar levemente alienado, desatava testar os conhecimentos dos seus comentadores. Imagine-se, por exemplo, Manuela Ferreira Leite e Hugalex Soares de um lado, Mariana Mortágua e Francisco Assis do outro. Por exemplo, repito. Funcionaria bem com quaisquer outros. Penso que haveria um pico de audiência como jamais antes (e já sabem, jamais lido à francesa de Alcochete: jamé)

Ora vejamos, então, como se joga este jogo. 
Aqui foram as avozinhas que se reuniram para o jogar, enquanto aproveitavam para fazer confidências.


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E queiram, agora, descer para a aula prática que Madame Bobone ainda não leccionou:

[No pun intended]

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Como não comer uma banana


Quem for malicioso, mal intencionado ou convencido que é engraçadinho deverá fechar imediatamente o Um Jeito Manso. Este post destina-se apenas a pessoas puras de espírito.

Este post hoje não tem a ver com dress code nem com livros de estilo nem sequer vou ensinar a pegar num copo ao beber o vinho. Este post hoje é apenas para ensinar a comer uma banana. Mas é um ensinanço pela negação.

É assim como quando a gente pede uma informação na estrada e encontra alguém que parece apostado em despistar-nos: Ali à frente há um desvio à esquerda. Mas não vira aí. Depois há uma rua à direita mas não vira aí. Depois há uma subida mas não vai por aí. A seguir há uma curva à esquerda. Mas não vai por aí...

Assim eu agora:
Veja o vídeo e veja como aquele lambe a banana. Mas isso não se faz. Veja como a outra enfia a banana pela goela abaixo. Mas isso não se faz. Veja como o outro dá dentadinhas malandras enquanto faz olhinhos. Mas isso não se faz.
Ou seja, tudo o que ali se vê não deverá ser reproduzido enquanto come uma banana. Portanto, meu Caro Leitor (ou Leitora!), na próxima vez que pegar numa banana, lembre-se dos ensinamentos aqui da sua Sta UJM.

Maneiras, se faz favor. É tudo o que recomendo: maneiras.

(NB: Como abaixo verão, refiro-me a bananas a sério)


100 pessoas comem uma banana de forma sedutora

(Prática a evitar)


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PS: A ver se amanhã vou instruir-me sobre o que anda para aí a passar-se e que desconheço em absoluto: parece que uma tal Teresa Paula Marques anda a fazer-se passar por supernanny, a psicóloga barbuda. Bem, parece que não barbuda mas cabeluda. Cabeluda e parece que a fazer mal às criancinhas. Ou aos pais das criancinhas. Uoreva

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terça-feira, janeiro 16, 2018

Reuniões na base do Fear Pong
-- é a minha proposta para as tornar mais comestíveis


Reuniões e mais reuniões. De vez em quando stresso levemente mas, logo que caio em mim, tenho é vontade de rir. Muitas vezes, alguma vontade de gozar.
Uma vez estava na caixa do supermercado e a empregada referiu-se a alguém dizendo que tinha feito uma coisa 'à cara podre'. Percebi que significava 'no maior descaramento'. Gostei da semiótica da coisa.
Então, volta e meia, penso: E se eu agora, à cara podre, desatasse a fazer só perguntas inconvenientes, deixando a malta toda de cara à banda? Não seria lindo?

Não faço, claro, sou muito bem comportada. Isto é, sou mais ou menos. De vez em quando percebo que, quando estou calada, os outros estão à espera do que vai sair dali. Um colega meu dizia que eu gostava de atirar bombas para cima da mesa. Quando ele disse isso, fiz-me de inocente, que não percebia porque dizia ele aquilo. Fazer género de vez em quando faz parte da minha maneira de ser. Mas just for the fun of it. Mas agora já não estou numa de bombas, estou mais peace and love. Querem fazer de conta? Ok, façam. Estou mais noutro comprimento de onda. Por exemplo, ultimamente arranjei outra: quando acho que é pura perda de tempo porque daquelas pessoas não há muito mais a esperar digo que não estou disponível para participar naquela reunião que está a ser agendada. E bem podem os outros desesperar porque acham que é indispensável fazer aquela reunião. Não estou disponível para participar numa reunião dessas. E não saio dali. Uma autêntica mula. Aborreço? Azarinho.

Mas não sei se vá continuando a esticar a corda. Devia voltar a ter maior capacidade de encaixe. Não sei porquê mas acho que devia. Por vezes consigo disfarçar, fazer de conta que acredito que é na base da paciência e resiliência que a coisa lá vai. Outras vezes penso que vai é o tanas. Mas é um facto incontornável: vai-me faltando a paciência para aturar algumas coisas.

Para me ajudar a superar, no acto, volta e meia ponho-me a imaginar impropriedades que alegrariam o momento.


Por exemplo, hoje, toda a gente a medir forças, uns de um lado da mesa ao ataque, os outros, do outro lado, ao contra-ataque, naquele estúpido jogo em que perdem todos (a começar, por perder tempo), e eu a pensar que a coisa poderia ser ainda mais animada se a cada avanço correspondesse uma tentativa de encestanço com uma penalização à altura. Uma coisa na base do Fear Pong. E tive que me controlar para não rir porque, a concretizar-se, a coisa rapidamente se tornaria hilariante.
Atenção: eu seria a árbitra. O que é que estavam a pensar...? Ora. Passou-vos pela cabeça que a neguinha podia ser moi...? Ora, ora. Não aprenderam ainda que sou copinho de leite...?
Para quem não conheça o jogo, aqui vai um cheirinho:

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E (não) queiram descer até ao post abaixo pois ali o tema é o capeta, o belzebu, o demo, o dialho -- e, imagine-se, vem o bicho pela mão da madrinha Nela Ferra Leitinho

(Está a dar-me para o carinho, estou toda diminutivos, por pouco não me ponho a mandar daqui uns miminhos à Nelinha)

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A Manuela Ferreira Leite já vendeu a alma ao diabo?
Não é por nada mas é que, ao dizer aquilo, estava com uma cara mesmo diabólica.
Cruzes canhoto! Vade retro!


Andava tão bem comportada, tão moderada, a Manelinha. E, afinal, mal se viu livre do Passos Coelho e da ameaça de lá ter o Menino-Guerreiro, parece que se lhe soltou a franga e partiu para a desgraça.

Ela, tal como o não-saudoso láparo e o so called 'politólogo humilde', parece que ainda não perceberam que, para os portugueses em geral, a esquerda já não é aquele papão travestido de capeta que comia criancinhas ao pequeno-almoço. 

Por isso, de cada vez que fazem cara de possuídos e falam no diabo para o associarem aos malefícios das medidas da esquerda só não lhes cai um dentinho por acaso -- mas uma outra queda lhes acontece de certeza: a da credibilidade. Caem no ridículo.

Por isso, Cara Manuela, aceite um conselho: deixe-se estar sossegadinha durante algum tempo para não se sair com mais afirmações que mostrem o seu verdadeiro íntimo. Só vale a pena falar se for para incentivar a limpeza da bicheza com que o láparo infestou o seu partido (os Hugos Soares desta vida, por exemplo) que aquilo só dá má reputação à classe política. De resto, acredite, não volte a sair-se com conversas raivosas contra a esquerda que lhe fica mal. Desfigura-a ou lá o que é.

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A imagem provém, como se vê, da infinita arca do tesouro do We Have Kaos in the Garden

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segunda-feira, janeiro 15, 2018

Uma infância para esquecer
[Ainda a propósito das recordações de Emma Reyes]





Estou muito impressionada com o livro de Emma Reyes. São memórias de uma tal incompreensão e violência que custam a crer. No entanto, a forma neutra e mesmo, por vezes, irónica que ela usa para descrever aqueles seus anos tão estranhos (que quase parecem impossíveis) tornam a leitura quase viciante.

Interrompi agora a leitura para aqui vir desanuviar antes de me ir deitar. Emma e a irmã estão agora no convento onte viveram em regime de clausura e (parece-me, pelo que li até agora, também de escravatura) durante quinze anos.

E fico a pensar. Emma acabou por levar uma vida normal, feliz, criativa, bem sucedida. De facto, quando se vê uma pessoa 'normal' nunca se sabe que memórias guarda ou que tormentos passados guada dentro de si.

Tenho assistido a situações tão estranhas que não sei como as recordam quem delas teve igual ou melhor conhecimento que eu.


Por exemplo, estou a lembrar-me. Quando me casei vivia numa torre, lá bem no alto. Era um 15º andar com uma vista arrebatadora. Com sol ou tempestade, de manhã ou à noite, a vista era gloriosa. Lá em baixo, as pessoas, de tão pequenindas, perdiam qualquer significância. A paisagem sobrepunha-se a qualquer coisa mais. De um dos lados da nossa porta, vivia um casal simpático com duas filhas pequenas, gémeas. As meninas usavam tranças tal como a mãe e vestiam vestidinhos soltos, de tecido florido, tal como a mãe. O pai era simpático, um biólogo que eu via muitas vezes na televisão. A mulher tocava piano e tinham um piano branco na sala. Quando a mulher e as meninas não estavam em casa, o biólogo levava outras jovens mulheres lá para casa, uma de cada vez. Tinham ar de ser alunas pois ele era também professor universitário.

Uma vez a jovem mulher esqueceu-se ou perdeu a chave e pediu ao meu marido se podia saltar da nossa varanda para a varanda dela, já que tinha a porta que dava para a varanda aberta. O meu marido, cavalheiro, e sobretudo pensando nas duas meninas, saltou ele. Ainda hoje sinto vertigens e medo quando penso nisso.

Do outro lado, morava um outro jovem casal. Era um casal atípico. Não trabalhavam e tinham comportamentos muito estranhos. Uma ou duas por semana apareciam lá em casa duas crianças. Viémos a saber que eram filhos dela. As crianças tinham ar de serem bem tratadas. A casa deles estava praticamente vazia. Tinham um pano escuro pendurado do tecto, à laia de cortina, um colchão no chão, uma mesa e duas cadeiras. Sei disto porque passei horas espreitando lá.

Alguém me disse que era o pai dela que pagava a renda do apartamento e que os sustentava. Eram drogados. Anos mais tarde, soube que o pai tinha uma pequena loja e vivia com um grande desgosto pela vida que a filha levava. 

De vez em quando não sei se esses meus vizinhos se zangavam porque gritavam muito um com o outro, choravam, atiravam coisas. Havia noites em que ela chorava a noite toda. Outras vezes ouviamo-los a correr. Horas a correrem às voltas dentro de casa. Mas o pior era quando lá estavam as crianças e eles saíam deixando as crianças sozinhas. As crianças choravam de dar dó. E eu punha-me debruçada da minha varanda para a casa deles a falar com os miúdos, a tranquilizá-los, tentando distraí-los e sossegá-los. 


Quando penso nisto fico perplexa com a mentalidade ou com a consciência social daquela altura: nunca nos ocorreu chamar a polícia. Eu tinha vinte, vinte e um anos naquela altura mas a minha tenra idade não justifica isso. Creio que era mesmo a falta de conhecimento de que há situações que devem ser denunciadas como crimes.  Eu tinha imensa pena e preocupação por ver a vida infeliz que os meus vizinhos levavam, magros, mal encarados, incapazes de tomar conta deles, quanto mais das crianças, e tinha uma pena infinita das crianças que tanto sofriam com aquele abandono. Mas nunca nos ocorreu chamar a polícia, talvez porque achássemos que isso seria ainda mais assustador e traumatizante para as crianças. Situações tão dolorosas. 

Uma vez, de madrugada, tocaram à nossa campainha. Era ele. Embriagado, drogado. Não sabia da chave, queria saltar da nossa varanda para a dele. Tentámos impedi-lo e o meu marido queria fazer a mesma proeza. Mas eu agarrei-o, não o deixei. Como os miúdos não estavam lá, tentámos demover o meu agitado vizinho, que esperasse que fosse dia, que depois logo chamava os bombeiros. Mas ele estava frenético, trémulo. Não nos ouviu e num ápice, passou pelo nosso quarto, foi para a varanda e empoleirou-se, saltando para a dele. Pensei que ia cair e morrer desfeito no passeio, quinze andares abaixo, mas milagrosamente conseguiu passar. Eu tremia como varas verdes.

Depois, para nossa tranquilidade, saíram de lá. Respirámos de alívio mas eu pensava muito naquelas pobres crianças.


Os anos passaram.

A mulher recuperou-se, creio eu, porque de vez em quando a vejo. Continua a ter um ar triste mas perdeu aquele ar escanzelado e gasto, tem um ar normal. Vi uma vez que tinha as unhas muito roídas e que que fumava muito, e tem um ar que parece ansioso. Nunca deu mostras de me reconhecer. Ninguém deve imaginar o que era a vida dela naqueles tempos. Ao homem via-o, por vezes, drogado, acabado. Não sei se ainda vive, há muitos anos que deixei de vê-lo. Aos miúdos perdi o rasto.

Não sei se mais alguém para além de nós soube do que ali se passava. Eles dois, sempre tão drogados, não sei se percebiam o que faziam ou se guardaram disso alguma memória. Talvez apenas os miúdos, que já não são miúdos mas adultos uns três ou quatro anos mais velhos que os meus filhos, guardem a mágoa do que sofriam naqueles dias e naquelas longas noites em que ficavam entregues aos cuidados da mãe.


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As fotografias são de Steve McCurry

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e
mais abaixo ainda, tenho um passeio muito variado.

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A hora mais negra -- absolutamente a não perder



Sobre a atribulada sessão de cinema, sobre algumas questões relativamente às quais aqui poderia dissertar -- a fragilidade da vida, a omnipresença dos mais variados acasos, a vulnerabilidade das relações humanas (e nada a ver com o filme mas sobre o que se passou no cinema, isto é, na sala de cinema) -- vou passar adiante. Talvez outro dia, quando alguns dos sucedidos estiverem mais distantes. 

E, se nem sempre falo dos filmes que vejo (como, por exemplo, não falei do último da Binoche, aquele do O meu belo sol interior, para o qual fui cheia de boas expectativas e de onde vim francamente desiludida), deste tenho que recomendar. A minha filha foi vê-lo no outro dia e, mal saíu, enviou-me uma mensagem dizendo que tínhamos que ir ver. Sendo amante e muito conhecedor de história, o meu marido não mostrou a mínima resistência. Filme muito bom, com todos os ingredientes. Empolgante, comovente, didáctico.

E depois não é só a história, o ambiente, o guião, os desempenhos: é também a caracterização do actor que faz de Churchill, uma caracterização total. E creio que até poderei dizer que não apenas a nível de aspecto físico: também a atitude, a expressão, a voz, o andar. Tudo nele parece ser Churchill. E é tudo tão mais extraordinário quanto o actor não tem nada a ver com essa imagem.

Muito boa também a interpretação de Lily James. Nem pitada de Cinderela ou de menina boneca. Estava, eu, até na dúvida de ser mesmo ela. Um desempenho sóbrio que a eleva como actriz.

Com Kristin Scott Thomas como mulher de Churchill não me admirei: sempre uma grande actriz.

Em suma: se puderem não deixem de ir ver. 

Verão como era um político como penso que já não há. Não quero ser daquelas que acham que no passado era tudo bom e que nada como vivermos presos a ídolos do passado. Não sou assim. Mas, cansada que ando das amélias e dos zinhos que pululam nos palcos actuais (salvo muito honrosas excepções!), naturalmente é com admiração que vejo a coragem e a cultura de políticos como Churchill. 


Lembrei-me de Mário Soares. Leões que rugiam com verdadeiro prazer mesmo quando o chão parecia faltar-lhes.



Já agora, caso queiram confirmar quão impressionante é a caractareização de Gary Oldman no papel de Churchill, queiram, por favor, ver o vídeo abaixo.


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E, para um passeio à beira Tejo com danças, cantos e jardins, queiram descer até ao post seguinte.

(Eu, para já, vou continuar com O livro de Emma Reyes que me traz muito presa).

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Passeios, pessoas, rios, veleiros, gaivotas, cantos, jardins