terça-feira, novembro 04, 2014

Duas irmãs cegas vêem pela primeira vez e 56 galinhas antes aprisionadas pisam o campo também pela primeira vez. A alegria da liberdade e do respeito, a alegria das coisas simples.


Ora bem. No post a seguir a este mostrei a boa relação que Cavaco estabelece com os animais. Já o tínhamos visto derretido com as vacas, com as cagarras e, mais recentemente, com os cavalos. Faltava-lhe um peixe. Foi esta terça feira: condecorou um cherne.

Mais abaixo ainda falei de outra que se dá melhor com animais do que com gente: a ex-jornalista Eva Cabral que agora ganha a vida a assessorar o Passos Coelho e a destratar quem ganha a vida a trabalhar honestamente. Mostrei ainda o que é aquilo lá pelo Gabinete do láparo: gente que nunca mais acaba, uma coisa completamente gordurosa.

Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Outra, muito outra. Não podia acabar o meu dia com aquela bicharada mal escamada ou cagarreante agarrada aos dedos.





Por isso, abro a janela, deixo que entre o ar fresco e molhado da noite. E vou partilhar convosco dois momentos especiais.

Quem por aqui me acompanha sabe como defendo as pessoas em geral. Pode parecer um lugar comum ou uma afirmação gratuita mas eu acho que não, que é uma opção determinante. Acho que as pessoas devem ser o centro de qualquer actuação política. Pelas pessoas deveremos lutar contra tudo, e contra todos quantos queiram preterir os direitos e o bem estar das pessoas em detrimento de entidades abstractas como os mercados, o sistema financeiro, interesses escusos e inconfessáveis. Pelas pessoas acho que, se necessário, vale a pena percorrer o último quilómetro, escalar mil vezes o mesmo monte, vencer mil demónios.

E preservar o planeta para que as pessoas o conheçam, geração após geração, limpo e belo, e investigar para melhor usar os recursos, e apostar na investigação e no saber, ensinar, curar, entreter.

Pela felicidade das pessoas em geral deveremos deixar de parte pequenas ambições pessoais, ressentimentos, atitudes mesquinhas.

É isso que penso, é assim que ajo.

Mas colocando as pessoas em primeiro lugar, não descuro o amor pelo planeta no qual me foi dada a graça de viver. Respeito e amo a natureza como alguns veneram um deus.

Uma árvore, um rio, uma rocha, um animal, a chuva, a luz, a sombra, o vento, um céu que se ilumina, um solo que se cobre de musgos, uma flor que aparece e desaparece, o tempo que passa. Comovo-me perante a natureza. 


Por isso, respeito também os animais. Respeito a sua dignidade. Sei que são inteligentes. Convivi, dentro de casa, durante treze anos, com um animal inteligentíssimo, meigo, amigo.

Observo os animais na natureza e admiro a sua auto-suficiência, a sua liberdade, a forma inteligente como vivem.

Não consigo, portanto, aceitar que haja animais maltratados, tratados de forma indigna, não suporto que se ignore a sua dor.

Não consigo ver filmes que mostram as quintas em que os animais vivem de forma ultrajante, sujeitos a total desconforto e mortos com terrível sofrimento.

Mas, em contrapartida, foi com gosto e emoção que vi um vídeo que a Margarida, grande defensora dos direitos dos animais, me enviou. Galinhas retiradas de aviários infernais são colocadas pela primeira vez no campo, num chão com erva, sentem a frescura da natureza. A surpresa e hesitação das galinhas é comovente.

Igualmente comovente é o outro vídeo que descobri. Queria fazer um paralelo, encontrar imagens de alguma criança que visse pela primeira vez. E encontrei. É emocionante. Tomara que haja cada vez mais consciência cívica e mais condições para tratar todos quantos precisam.

A alegria das duas irmãs quando conseguem ver pela primeira vez é uma alegria também para quem as vê.


Sonia e Anita, duas irmãs que vivem na Índia, eram cegas desde o nascimento mas uma simples operação tornou possível que vissem a sua mãe pela primeira vez. A organização não lucrativa 20/20/20 providenciou operações gratuitas a estas irmãs - assim como a milhares de outras pessoas em países em desenvolvimento. Isto dá às pessoas de comunidades pobres a possibilidade de construírem um futuro melhor. Neste pequeno filme, a Blue Chalk Media mostra a tocante história das duas irmãs e revela a sua reacção quando lhes retiram as compressas dos olhos.





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E então agora, depois das crianças, os animais. Ao ver o filme abaixo, lembrei-me de quando eu era pequena e ficava com uma das minhas avós. Isso era antes de eu ir para a escola infantil ou, depois dos 4 anos, quando saía da escola e até a minha mãe me ir buscar.

Essa minha avó vivia numa casa com muito campo à volta, uma largueza, uma vista até ao mar. E tinha patos. Mas os patos andavam à solta. Passavam em grupos e iam à sua vida. Nem eles se condicionavam pela nossa presença nem nós achávamos fantástico que os grupos de patos passassem por nós, saracoteando-se. Era normal. Depois, por volta das 5 da tarde, antes da minha mãe vir e, no tempo frio, antes que escurecesse, a minha avó dizia que fossemos procurar os ovos. Ia eu e o Tó, meu grande, grande amigo, um ano mais velho que eu, rapazinho muito atilado e inteligente de cuja companhia eu não prescindia.

Espreitávamos debaixo dos arbustos, percorríamos os caminhos que os tínhamos visto a percorrer, já conhecíamos os esconderijos onde costumavam depositar os seus tesouros. A minha avó dava-me uma cestinha onde nós depositávamos os ovos com mil cuidados. Às vezes, logo ali, quando chegávamos com os ovos, preparava-nos uma gemada, ovo batido com açúcar. Por vezes, fazia só com a gema, ficava mais macia mas não rendia, ia-se num instante. Geralmente fazia com o ovo inteiro. 

Éramos muito felizes, eu, o Tó e os patos. Nunca nos passaria pela cabeça tratar os patos com desrespeito. Eles habitavam aquele espaço tal como nós. E davam-nos o melhor de si pelo que era de elementar justiça que nos sentíssemos agradecidos.



56 galinhas resgatadas de um aviário foram trazidas para uma quinta para aí viverem à solta, à vontade, vêem um campo a sério pela primeira vez.





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As fotografias foram feitas in heaven. Claro. A terra dos meus mil amores.

A música lá em cima é: Romance para piano e violino, Op.11 de Dvorak


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Relembro: continuando por aí abaixo encontrarão mais dois posts, qualquer deles relativo a gente que parece que está no seu melhor quando está a lidar com animais. Mas atenção com as extrapolações: há animais e animais (coisa que Orwell tão bem demonstrou).

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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa quarta-feira. 
Saúde, sorte e boa disposição são os meus votos.
(em vez de 'são os meus votos' ia dizer 'é o que vos desejo' mas lembrei-me a tempo: duas vezes desejo é exagero)

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Sobre as delicodoces palavras de Cavaco Silva quando enfeitou o cherne Barroso com um colar, tenho a dizer que não é de agora que Cavaco se derrete todo com animais. Ele foram as vacas que riem, ele foram as cagarras, ele são os cavalos. Faltava um cherne. Foi agora.


No post abaixo, mostrei que Eva Cabral - a tal assessora de Passos Coelho a quem se esqueceram de dar chá em pequenina e que confessa que lida melhor com gado do que com pessoas - é apenas uma de entre muitas outras pessoas suculentemente pagas que habitam o gordo gabinete do Primeiro-Ministro.


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, deixo as enxúndias do láparo e parto para outras vénias.


Passei ao de leve, na televisão, pelo acto partidário do Cavaco, talvez na qualidade de ex-chefe de Durão Barroso, não percebi bem, a pôr-lhe um colar ao peito e a dizer que o estava a agraciar pelos belos serviços prestados a Portugal e que a ele, cherne, se deve que a Europa seja agora uma potência mais forte que os EUA ou que a Rússia, que à Merkel até lhe tremiam os joelhos com medo dos abre-olhos do cherne, que a ele, cherne, se deve a coesão europeia, o espírito de confiança e o crescimento que grassa por essa Europa fora e que a ele, cherne, se deve a prontidão com que as aeronaves têm levantado voo para darem valentes coças nos bombardeiros russos. Um desfiar de inauditos louvores. 


O cherne, emocionado com tanto mimo, beicinho, uma lagrimita a querer despontar no canto do olho, cabelo oleoso e aquele ar de peixe mal escamado, disse que este doce palavreado de Cavaco era bem a prova dos nove que lhe faltava para ter a certeza que em 2004 tinha feito muito bem em pirar-se para bem longe da piolheira, que um país de tanga é coisa que nunca lhe assistiu.

É bom de raciocínio ele. Foi com raciocínios rápidos e brilhantes como este que ele conduziu a refulgente Europa.

(... ao longo de 10 anos que custaram a passar. Livra!)


E eu fiquei a pensar: olha que este Cavaco, tal como a Senhora Dona Eva, se dá muita bem com animais. Olha as palavrinhas cheias de bombonzinhos que ele usa quando fala da bicharada...!




E até repesco daqui um diálogo recente a propósito de cavalos:


"Conversa no Centro Equestre Internacional de Alfeizerão, no âmbito do Roteiro Presidencial sobre Economias Dinâmicas


Cavaco Silva: Este é bastante mais alto que os outros anteriores.
Criador de Cavalos: Exactamente, exactamente. Os outros têm um ano e pouco. E este já é um cavalo de sete anos, oito anos.
Maria Cavaco Silva: Os outros são bebés?
Criador de Cavalos: Os outros são bebés, exactamente. Mas temos mais pequeninos ainda.
Cavaco Silva: E onde é que tem as éguas?
Criador de Cavalos: Próximo de São Martinho do Porto, em Vale de Paraíso.
Cavaco Silva: Vai fazer viagens lá de vez em quando? [risos]
Criador de Cavalos: Não vai, não vai. A gente não os deixa.
Pessoa a acompanhar a visita: Elas é que vêm cá, não é? [risos]
Criador de Cavalos: Não. Nós fazemos assim: está aí o doutor que lhe faz a extracção do sémen. Já estamos a tentar exportar. Então fazemos palhetas e vendemos o sémen em palhetas.
Cavaco Silva: Coitado… [risos]

Pode ouvir esta conversa em audio aqui."



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Relembro: no post abaixo falo de Eva Cabral, a bem remunerada assessora de Passos Coelho, a tal que destratou um motorista nos Açores e que, com o episódio, revelou a fina flor que cerca o homem que governa este país. Fui atrás do assunto e mostro quem é e quanto ganha cada um dos génios que aconselha tão bem o nosso primeiro. 

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Mas afinal quem é Eva Cabral, a assessora de Passos Coelho que parece que lida melhor com gado do que com pessoas? Eu conto aquilo que sei. E mostro quem são os muitos outros que lhe fazem companhia no Gabinete do Primeiro-Ministro.



Tem-se falado muito do comportamento estranho de uma senhora do gabinete de Passos Coelho, uma assessora que dá pelo nome de Eva Cabral.



Irritadiça, prepotente, com falta de chá, falta de respeito, etc, as pessoas questionam-se: mas que gente é esta que trabalha com Passos Coelho? Mas será possível que de alto a baixo, tenham todos os mesmos tiques autoritários?

Ora bem, faço coro: quem é Eva Cabral, a indelicada assessora de Passos Coelho que anda nas bocas do mundo?


Pois não sei.

Apenas sei o que leio na net, incluindo na página do site do governo relativa às nomeações para o Gabinete de Passos Coelho. Vinda do Diário de Notícias (onde certamente terá prestado provas de lealdade a Passos Coelho já que a foi buscar para um lugar de estrita confiança) e lhe paga bem (3.565,90 € por mês), Eva Cabral é apenas uma das muitas pessoas que trabalha no gabinete de Passos Coelho. 


Não consigo perceber o que lá fará toda esta gente já que ainda há os ministros, os secretários de estado, e os respectivos gabinetes e já que ainda há um ministro-adjunto também carregadinho de secretários e secretários adjuntos e toda essa máquina que rodeia toda esta trupe. Além disso, parece que ainda contratam outsourcings e consultorias e sabe-se lá que mais. Mas assim visíveis a olho nu são estes os que trabalham no gabinete do primeiro-ministro (e a ver como me saio a colar imagens extraídas directamente do site do governo)


Será a uma coisa destas que ele dantes chamava gorduras?

Ora vejam, os meus Caros, este lindo exagero.








Caraças! Isto não é gordura, isto são potes de  enxúndia!

(Exceptuo destes epítetos as pessoas que trabalham a sério e que não têm culpa nenhuma do chefe que têm)


A ver se, com tempo, faço o somatório pois estou curiosa sobre quanto é que isto nos custa por ano. Brincadeira para quase dois milhões por ano, com certeza. Esta gente bem enganou quem votou nela. Chiça.

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Uma perguntinha lateral se me ocorre: esta gente toda será tão bem educadinha como a Dona Eva? 

E quando ela diz que com gado as coisas lhe correm melhor, uma outra dúvida igualmente lateral se me ocorre: o coelho fará parte do gado com quem ela se entende bem? Ou o láparo também lhe faz saltar a tampa? 

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Já agora mais umas pequenas dúvidas: que pequenos génios são os que abaixo refiro para, com tão tenra idade, terem sido requisitados para o Gabinete do Primeiro Ministro e ganharem já tão bem?

  • Assessor Tiago Meneses Moutinho Macieirinha, 32 anos ----> 3.565,90 €
  • Adjunta Carla Sofia Botelho Lucas, 30 anos ----> 3.181,70 €
  • Adjunto Hugo de Melo Palma, 27 anos ----> 3.181,70 €
  • Adjunta Inês Isabel Carvoeiras de Matos, 30 anos ---->   3.181,70 €



Upa, upa, meus meninos. 

Em vez de chupa-chupas, foram presenteados com ordenadinhos mesmo bons, ó seus sortudinhos....! Nem têm vontadinha nenhuma de emigrar, não é? Ó meus ricos meninos.


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segunda-feira, novembro 03, 2014

Miguel Veiga a Clara Ferreira Alves no Expresso: "Este PSD entristece-me e revolta-me". Bela entrevista (com Charlotte Rampling, Benjamin Britten, Sylvia Plath, Paula Rego, Graça Morais, Júlio Pomar e Mário Eloy - aqui por perto).


No post a seguir a este enviei à Margarida palavras escritas para um poeta, jardins, bichos, flores à beira rio. Tudo para ver se consigo mostrar como gostei do chapéu de rosas que no outro dia me enviou.

Mais abaixo ainda tenho uma história sobre juízes num motel, uma cena no futebol que mete um tal de Macedo e, ainda, uma colagem da Lovely Lídia sobre os banqueiros portugueses.

Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.









O que é este PSD, o de Passos Coelho? Não é o teu.

Não! Não é o PSD, mas talvez possa voltar a ser o que foi, se mudarem os órgãos dirigentes. É difícil, porque os que lá estão agarram-se com unhas e dentes. Fizeram daquilo a sua vida. Ou melhor, a sua vidinha. É um mundo que me é completamente estranho e, pior do que isso, e não me quero enfeitar, que me repugna.


Entristece-te ver o partido refém de interesses que rejeitas e sem inteligência programática?

Entristece-me e revolta-me. Revolta-me. Andámos nós a dar o coiro ao manifesto para chegarmos a este estado de coisas.


Donde vem esta nova geração? Há quem diga que é um partido de retornados nos lugares dirigentes. Gente que quando chegou de África se sentiu rejeitada por Portugal, estrangeira. Há quem diga que são os apparatchiks que nunca passariam de ínfimos actores no velho PSD. Concordas?

É verdade tudo isso. É a gestão e aproveitamento dos interesses.



Se Sá Carneiro não tivesse morrido o partido teria tido outro rumo?

Tinha, Indiscutivelmente. O Barroso já é um produto híbrido. E no mau sentido da palavra. É o que os franceses chamam "un profiteur". Um aproveitador.


E a figura de Cavaco? Às vezes penso o que teria sido um encontro dele com Sá Carneiro. Uma coisa cómico. O cavaquismo tornou-se o PSD e o país tornou-se o cavaquismo.

Cómica ou trágica. Tens toda a razão. Por incrível que pareça, o PSD tornou-se o cavaquismo. E de que maneira. Cavaco é um elemento espúrio.




Fundaste o PPD. Não me digas que ser expulso de algo que se fundou não traz violência emocional. Amargura?

Claro que traz, mas esta gente que domina o PPD é tão baixa que não me afecta. É gente sem história, sem princípios. Tudo é possível. Se me expulsassem não me fazia mossa. Amargura não, desilusão sim.

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O que acima se escreveu são excertos da entrevista concedida por Miguel Veiga a Clara Ferreira Alves para a Revista do Expresso deste sábado. Miguel Veiga, nascido em 1936 no Porto, é advogado, portuense, fundador do PSD, de que foi vice-presidente, membro de comissões políticas e conselhos nacionais (e recentemente ameaçado de expulsão por ter apoiado Rui Moreira para a Câmara do Porto). Vive na Foz. Gosta de livros, pintura e escultura.


(E, como acima se mostrou, é pessoa de duras verdades. Mas também de grandes amizades. Sobre a sua amizade com Mário Soares diz: Uma indestrutível amizade. Sempre apoiei as candidaturas presidenciais do Mário soares. Sou um amigo e admirador indefectível. É o grande político do século XX. Um internacionalista.]


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O vídeo lá em cima mostra The Night Dances e transcrevo parte do texto que acompanha o vídeo: 

Explore the subtleties of Benjamin Britten's composition for cello through the lens of the American Poet, Sylvia Plath, considered one of the leading cultivators of confessional poetry. Actress Charlotte Rampling reads in French and English, and Sonia Wieder-Atherton performs cello suites of Britten, in a moving performance, the only UK & Ireland date before a 2015 tour.


As imagens que usei ao longo do texto são fotografias que fiz este domingo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e mostram respectivamente obras de Paula Rego, Graça Morais, Júlio Pomar e Mário Eloy. Aliás a Gulbenkian fervilha de exposições imperdíveis. A quem possa, recomendo vivamente uma deslocação até lá.





Depois há o maravilhoso jardim. A zona do grande relvado este domingo estava cheia de gente, uma alegria, Claro que há depois os mil recantos para alguma privacidade, leitura sossegada, namoro recatado. Mas na zona mais ampla, o chilreo dos pássaros misturava-se com o riso das crianças. Muito bom.

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Relembro: seguindo por aí abaixo, encontrarão, meus Caros,  mais dois posts que têm de tudo um pouco (Rilke, Pixinguinha, gatos e gaivotas, juízes num motel, o Macedo, etc).


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.


A Rosa do Pixinguinha, flores à beira do Tejo, gaivotas e gatos e o Jardim da Gulbenkian, juntamente com algumas palavras das 'Cartas a um Jovem Poeta' de Rainer Maria Rilke para a Margarida. Tudo a ver se consigo estar à altura do chapéu de rosas que ela me ofereceu.


O post abaixo é dedicado ao humor e eu deveria ter avisado que tem bolinha encarnada no canto mas fica agora aqui o alerta.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra.



A propósito de rosas, que entre a Rosa (do Pixinguinha) 
na interpretação de Caetano Veloso



No outro dia, a Margarida, sabendo do meu gosto por chapéus, enviou-me a fotografia que aqui vos mostro e a que deu o nome UJM. Adorei, claro, e tomara que o pudesse usar tal e qual. É caso para dizer: é a minha cara.






É difícil agradecer um presente assim, tão lindo e tão à nossa medida mas, enfim, quem dá o que tem a mais não é obrigado e, portanto, vou ver se consigo retribuir.


Flores para a Margarida aqui da beira do Tejo



Se se agarrar à Natureza, ao que nela há de simples, ao que nela há de pequeno, que mal se vê e tão de repente pode alçar-se ao que é grande e desmedido; se tiver esse amor do ínfimo e procurar sem pretensões ganhar a confiança do que parece pobre como se se pusesse a servi-lo: então tudo se lhe tornará mais fácil, mais unido e de algum modo mais reconciliador, talvez não no entendimento, que fica para trás e surpreendido, mas no imo da sua consciência, lucidez e saber.



Jardim da Gulbenkian ao fim do dia, este domingo



Não indague das respostas que não lhe podem ser dadas porque não as poderia viver. E trata-se de viver tudo. Para já, viva as questões. Talvez viva então a pouco e pouco, sem se dar conta, e um belo dia ainda distante chegue à resposta. Talvez traga consigo a possibilidade de criar e de dar forma como um modo de vida especialmente puro e venturoso; eduque-se para isso - mas aceite o que vier com toda a confiança e só se vier da sua vontade, de qualquer necessidade íntima, e então tome-o para si sem ódio nenhum.



Gaivota à beira Tejo, hesitante entre comer o peixe ou simplesmente apreciar a beleza do rio


Pode lembrar-se de que toda a beleza nos animais e nas plantas é uma forma silenciosa e permanente de amor e desejo e pode ver o animal como vê as plantas, unindo-se e multiplicando-se e crescendo pacientemente, docilmente, não do prazer físico, não do sofrimento físico, curvando-se às necessidades que são maiores do que o prazer e a dor e mais fortes do que a vontade e a resistência. Oh, pudesse o homem o homem receber este segredo, de que a terra está cheia até nas mínimas coisas, com mais humildade, e guardá-lo gravemente e sentir como ele pesa tanto em vez de o tomar com leviandade!



Gato vadio num domingo de Outono




Temos de aceitar a nossa existência tão vasta quanto ela for; e tudo, incluindo o inaudito, deve ser possível nela. Esta é no fundo a única coragem que se nos exige: ser corajoso perante o mais estranho, o mais extraordinário e o mais obscuro que nos possa acontecer. 




Gaivota que escolheu o lago da Gulbenkian como casa



E se tenho ainda mais alguma coisa a dizer-lhe é o seguinte: não creia que quem tenta consolá-lo vive sem esforço sob as palavras simples e tranquilas que a si lhe fazem bem. A vida dele tem muita fadiga e tristeza e fica muito aquém delas. Mas se as coisas fossem diferentes, nunca ele poderia achar essas palavras.

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Excertos não sequenciais de Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke, numa tradução de Vasco Graça Moura.


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Dois juízes vão ao motel e a coisa não corre bem. Um casal vai ao futebol e a mulher e outra adepta são fãs do Macedo. 'Os banqueiros' segundo a Lovely Lídia. [Humor ao domingo]


Enviada pela Leitora Lídia, a quem agradeço, cá está uma historinha que não é senão uma gracinha inocente. A imagem abaixo, que escolhi para ilustrar o texto, foi obtida na net e apenas sou capaz de identificar os nomes: à esquerda Omar Amanat e a que era, à época, sua mulher, Helena Houdová; à direira Vladislav Doronin e a namorada, Luo Zilin. Não faço ideia de quem sejam mas admito que nenhum deles seja juíz.


CLASSE É CLASSE
  



Dois juízes encontram-se no corredor do acesso a um motel e, constrangidos, reparam que cada um estava com a mulher do outro.

Após alguns instantes de silêncio mas mantendo-se a compostura própria de magistrados, em tom solene e respeitoso, um diz ao outro:

- Nobre colega, e não obstante este fortuito imprevisível, sugiro que desconsideremos o ocorrido, crendo eu que o correcto seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.

Ao que o outro respondeu:

- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o correcto, sim... no entanto, não seria justo, levando-se em consideração que... vocês estão saindo... e nós estamos entrando.


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O meu marido está a desafiar-me para ir com ele a Alvalade na quarta feira, coisa que não me motiva especialmente. Então, juntando futebol com a cena dos juízes no motel, lembrei-me do Macedo.

Por favor, entrem comigo pela Porta dos Fundos para saberem quem é o Macedo.

[Como sempre, a apresentação do vídeo não tem muito a ver com o que se vai ver mas, enfim, predispõe.]

Transcrevo:

Macedo tem 27 anos e foi descoberto em Bom Jesus de Iracema aos 13, por olheiros locais. Teve passagem pelo Lagartense, Via Dutra F.C. e Império Toledo de Futebol, mas consagrou-se na temporada de 2008-09, quando esteve no Biguaçu A.C., o "azulão" da Ilha, jogando como volante, comendo travesti e batendo o carro na noite. Hoje, está em fim de carreira, é constantemente visto em casas noturnas, lançando cortes de cabelo ridiculos e frequentando o departamento médico do clube. Macedo não existe mas, em todo time, existe um Macedo.



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A Lovely Lídia é artista que usa a técnica do corte e colagem. De língua afiada e tesourada certeira, enviou-me a obra de arte que aqui vos mostro.


Os Banqueiros



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domingo, novembro 02, 2014

10 horas a andar e a ouvir piropos, que coisa horrível. "Olá", " Olá beleza", "Bom dia", "Como estás?" etc, a torto e a direito. Quem é que aguenta afrontas destas? - 'O caso de uma mulher em Nova Iorque' e as réplicas: 'O caso de um homem em Nova Iorque', 'O caso de um homem em Berlim' e 'O caso de uma Drag Queen em LA'.


Foi notícia e tem estado a dar que falar um vídeo no qual uma mulher foi filmada enquanto andava na rua em Nova Iorque vestida de forma discreta e, mesmo, inexpressiva, e, escândalo dos escândalos!, apesar disso ouviu nada mais nada menos do que cem piropos. 100!


Assédio, coisa inaceitável, uma perseguição insuportável - disseram as televisões, as bloggers, as feministas. E eu, confesso, fiquei estupefacta: durante um dia uma mulher foi 100 vezes assediada sexualmente? Fogo! Como seria tal possível? Há assim tantos assediadores à solta?!

Como não é tema que me interesse muito já que acho que há muito exagero e tive mais com que me ocupar, não liguei e acabei por me esquecer.

Agora, depois de mais um daqueles dias gostosamente recheados - de oberas (como diz o pimentinha mais novo), idas a casa dos bisas e, agora à noite, leitura do Expresso - e, depois de ver o Eixo do Mal, liguei o computador, espreitei os mails (mas desculpem-me, ainda não vai ser hoje que vou responder, já é tão tarde) e, depois, ao ir à procura de uma música, apareceram-me as sugestões do YouTube e, logo à cabeça, o dito vídeo.

Obedientemente fui ver. E, surpresa!, a maior parte do tempo são cumprimentos, palavras simpáticas, uma ou outra graça, alguns convites de brincadeirinha e apenas um ou outro caso que pode ser considerado mais maçador. 

Fiquei admirada. Porquê tanto alarido perante coisas tão inofensivas? Não percebo. Será que é suposto um mundo de zombies em que ninguém olhe ou sorria ou diga uma graça, mortos vivos deslocando-se em silêncio pelas ruas?

Ora. 

No outro dia, li no DN a Fernanda Câncio, com quem costumo concordar, a lembrar-se, na crónica Boas todos os dias, que, quando era miúda, um sujeito lhe disse que a lambia toda. Claro que isso é desagradável. Uma pessoa ser toda lambida por um linguarudo que sabe-se lá se é não é um porco peçonhento, deve ser chato, capaz de uma pessoa acabar toda babada, uma coisa mesmo muito pouco higiénica. 


Mas uma baboseira daquelas é uma coisa e outra, muito diferente, é ouvir um bom dia, ou um uau, um olá ou um assobio apreciador.

Ontem li a Estrela Serrano a dizer, no seu post intitulado Piropos e Piropos,  que também achava que a Fernanda Câncio estava a exagerar, que há piropos engraçados que até sabem bem.


Já falei nisto aqui muitas vezes mas, se me permitem, volto ao tema.

Acho que é nojento que uma mulher ouça ordinarices ou se sinta ameaçada. Sei do que falo.

Quando era miúda, catorze ou quinze anos, havia um homem que me seguia num carro. Geralmente era à tarde, por onde eu andasse, lá ia ele atrás de mim. Chegava a pôr-se parado à porta da minha casa e depois ia atrás de mim. Era um homem jovem, bonito, ar interessante. Mas aquela insistência incomodava-me e assustava-me um bocado. Quando disse à minha mãe, ela ficou cheia de medo.

Uma vez, fui com ela ao Banco de Portugal, onde ela recebia o ordenado, e vi-o lá. Trabalhava lá. Quando saí e disse à minha mãe, ela queria lá voltar e ir dar-lhe uma desanda mas eu disse que podia eu estar enganada. Acho que não quis que ela se fosse enervar. Não sei se chegou a falar se não, mas acho que ele não voltou a perseguir-me.

Mas, tirando isso, nunca senti ameaças. Piadas ordinárias, isso muitas - mas ignorei. Fazer o quê? Virar-me e fazer um escândalo junto de pessoas de moral duvidosa? Ir à esquadra e voltar ao local a ver se o ordinário ainda lá estava? Pouco provável, não é?

Também aconteceu algumas vezes, quando andava em autocarros apertados, e o 15 era um horror, haver labregos que aproveitavam os apertos para se encostarem de forma incomodativa. Lembro-me de mais do que uma vez me ter virado para os parvalhões e lhes ter dito 'Importa-se de se chegar para lá? Está a incomodar-me.' E lembro-me de, mais do que uma vez ter havido reacções estúpidas em que os anormais se faziam de ofendidos e ainda tentavam ofender-me a mim. Limitava-me a responder-lhes 'Não tenho mais nada a dizer, apenas que não volte a encostar-se'.

No entanto, a maioria, larga maioria, foram gracinhas, piadas, piadolas, palavras não ofensivas. Quando, adolescente, andava com a minha mãe na rua, era frequente ouvir dizer 'Tal mãe, tal filha' ou 'Oferece-me a mão da sua filha?' ou 'Que sogra tão bonita que eu podia ter'. Seguíamos como se não tivéssemos ouvido mas mal víamos que o piropeador já não nos estava a ver, desatávamos a rir.

Uma vez, estava eu grávida em fim de gravidez, passei na Rua Castilho e estavam uns homens sentados no chão, penso que estavam no descanso de umas obras. Um assobiou, outro disse 'Mesmo assim, é boa como o milho' e o outro disse 'Pôs-se a brincar com o Zezinho e deu no que deu'. Fiz um esforço para não me rir. E ainda hoje me dá vontade de rir, eles os três sentados no chão a olharem para mim e eu com um barrigão monumental, cheia de vontade de rir e a fazer de conta que não os tinha ouvido.

Um colega meu diz-me frequentemente piadas. Já o conheço há imenso tempo, somos amigos, as famílias amigas. 
Uma vez a minha filha foi lá ter comigo, levando o mais crescido que na altura era bebé de colo. Quando chegou ao meu gabinete vinha com algumas pessoas que a foram 'escoltar' e que, no fundo, queriam estar com ela, comigo, com o bebé. 
Uma delas disse-me 'Já ali estive com o avô da criança'. Fiquei admirada: 'Com o avô...?!' 
Pensei, francamente intrigada 'Mas o que é que o meu marido anda por aí a fazer...?' 
Responde-me ela a rir, maliciosa, "Com o Dr.T. Quando a sua filha ia a passar lá em baixo, ele cruzou-se connosco, cumprimentou-a, fez umas festas ao bebé e depois disse: 'Não é a minha cara...?  Não sai mesmo ao avô...?'"
Quando nessa tarde o vi, disse-lhe 'Mas olha lá, estás parvo ou quê? Então foste dizer que és o avô da criança?'. Desatou-se a rir, 'Mas não disse de quem é que sou o pai...'. Aí fui eu a desatar-me a rir, pensando que havia de ter graça ele ser o pai do meu genro... ou seja, a sogra da minha filha ter tido um filho fora do casamento e logo com ele. 

Claro que poderia não ter achado graça, ter ficado piursa, ter achado que aquilo era assédio, ofensa, sei lá. Mas não, simplesmente achei piada. E ainda acho.

E lembro-me de mim em adolescente com a minha mãe tal como me lembro de mim com minha filha adolescente. Toda giraça, vistosa, bem vejo os olhares que lhe deitam ou as piadas que lhe dirigem. Inofensivo tudo, simpatias, simples agrados que o único efeito que produzem é levantar a auto-estima das mulheres.

E a minha mãe ainda se lembra de um piropo a que achou especial graça há muitos anos atrás, ela louríssima e um homem a olhar para ela e a dizer para o outro,  'Está ruça mas ainda está boa'. 

Qual o mal disso? Nenhum, não é?

Por isso, atalhando razões: acho que tanta polémica em torno deste tema é estéril. Se é piropo é inócuo. Se é ofensa ou ameaça é crime. São coisas distintas e por isso devem ter tratamentos distintos. E ponto.



Ora bem.

Cá está o vídeo 10 Hours of Walking in NYC as a Woman


(E digam-me lá se isto é o dramalhão que para aí pintam?)





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Claro está que as réplicas não se fizeram esperar. Um piadão.


10 Hours of Walking in NYC as a Man - parody






10 Hours of Walking in Berlin as a Man - parody





10 Hours of Walking in LA as a Drag Queen - parody






E palpita-me que a coisa não deve ficar por aqui.

E eu até sugeria que cá em Portugal se fizesse uma coisa destas. Por exemplo:

10 horas de um homem mascarado de Passos Coelho a passear em Lisboa.

10 horas de um homem mascarado de Paulo Portas a passear no Porto

10 horas de um homem mascarado de Cavaco Silva a passear pela Marinha Grande

e por aí fora.

Aposto que, aqui sim, teríamos piropos de se lhes tirar o chapéu.

.....


E, por agora, fico-me por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

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sábado, novembro 01, 2014

A mulher do juiz, o caderno forrado de Alexandre Dumas, Camões e as repetições, o redondo vocábulo, Mário de Carvalho e as mulheres de Ziraldo.


No post a seguir a este trago-vos um ar de campo. In heaven eu sou outra, sou meio bicho do mato, meio árvore, meio canto de pássaro, meio gato safado, meio rocha que vem do início dos tempos. Soa estranho, eu sei, mas é o que é.

Mais abaixo ainda, mostrei um láparo abestalhado, de barriga obesa de tanto que tem engolido.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.



Era um redondo vocábulo, se fazem favor





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Uma mulher queixa-se a um juiz: "A minha vizinha roubou-me a cabra, o mel e o homem. Faz-me justiça" E o juiz diz-lhe: "Tens razão". Mal ela sai, rompe a vizinha pela casa do juiz aos gritos: "Foste enganado por aquela mulher. O homem, a cabra e o mel sempre foram meus. Ela é que mos roubou.". "Tens razão", confirma o juiz. A mulher do juiz, que tinha ouvido tudo, interpelou-o, agastada: "Como é que foste dar razão a duas criaturas que afirmam exactamente o contrário?" Responde o juiz:"Tens razão".

Ao fim de dois mil e tal anos de debates sobre a literatura e áreas afins, com opulência de saber e conhecimento, parece-me ser este o estado da arte e provavelmente não passará daqui.

Fervilham por aí uns livros ditos de auto-ajuda que pretendem ensinar os jovens autores a escrever. Instalou-se uma movimentada indústria conselheiral, popular e cansativa. De uma forma geral, estes livros são inofensivos. Mas não poucos abusam da benevolência e boa-fé dos principiantes. Assertivos, peremptórios, simplificadores, seguem os princípios da linguagem publicitária. É próprio de quem pretende ganhar dinheiro à custa dos outros.


(...)

Ainda a propósito das receitas criativas, lembro a resposta que teria dado Alexandre Dumas, filho (A Dama das Camélias), quando lhe perguntaram o melhor método para escrever uma peça de teatro: "Não tem dificuldade", respondeu o dramaturgo. "Compre um caderno, forre-o muito bem e na primeira linha escreva 1º Acto. Quando chegar ao fim do caderno, a peça está pronta."

...




(...) convém lembrar que o uso de expressões latinas, como outras de línguas alheias - inevitáveis -, não pretende ser exibição de sabença. Aliás, manda um velho preceito de origem aristocrática que, em se sabendo latim, é de bom tom não o exibir.

...  ...  ...


Hoje fizemos a nossa caminhada à hora de almoço e não tendo programa extra (nem cinema, nem jantar fora, nem passeio solto pelas ruas da bela Lisboa nocturna, nem sequer baby sitting), resolvemos desfrutar aquele tempo extra para estarmos, antes de jantar, sossegadamente na sala. Prazer tão raro e precioso. No meu sofá macio, entre almofadas, estive a ler. 




Comecei pelas Cartas a Um Jovem Poeta de Rainer Marie Rilke na tradução de Vasco Graça Moura e segui para Mário de Carvalho, Quem disser o contrário é porque tem razão - Letras sem Tretas, Guia Prático de Escrita de Ficção. Já o tinha começado a ler e a ele voltei e a ele voltarei, é um gosto de que ninguém se deverá privar. Já não tive tempo de me atirar ao O Grande Rebanho de Jean Giono mas não perde pela demora.


Mas a razão deste meu post é a seguinte. Leitor ou Leitora corrigiu-me a propósito da minha despedida de há um ou dois dias, escrevendo-me:

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira. Saúde e alegria é o que vos desejo a todos. Repetição da palavra - desejo. Exagero.

Já lá, nos comentários, respondi e agradeci o cuidado mas eis senão quando, há pouco, ao estar deliciada com a suculenta prosa de Mário de Carvalho (de quem acima transcrevi acima, em itálico, outros excertos), dou com o que passo a transcrever:


Nem sempre se consegue evitar uma repetição. Não raro corre-se o risco de sair pior a emenda que o soneto. Lembro-me de um caso em que para não repetir "muito" a autora escreveu "extraordinariamente", com excesso de artificialismo e emenda à vista. Neste mesmo trabalho, em certa página há uma alegre confraternização de tempos do verbo "ser" que o autor decidiu não incomodar.

Valha-nos que o grande Camões, num dos seus mais belos sonetos, diz:


Um mover d'olhos brando e piadoso
Sem ver de quê; um sorriso brando e honesto.


E, mais abaixo, no primeiro terceto, usa "brandura". Mas isto são luxos de quem se pode dar a eles, por ter com quê.



Ora bem. Se eu fosse branda de miolo e piadosa comigo mesma, comparar-me-ia a Camões e sentir-me-ia acompanhada na repetição. Mas não. Há luxos a que me não dou. E, por isso, se puder evitar repetições sem cair em artificialismos, evito.

Contudo há uma coisa que não posso garantir: que não repita as repetições. Como já repetidamente aqui o tenho dito, ponho-me a escrever, esqueço as horas, escrevo, às tantas, já estou meio a dormir e, no fim, já não tenho ânimo para ler o que escrevi. Já o disse muitas vezes, repito-me, eu sei.

Por isso, encarecidamente, vos peço indulgência. Relevem, por favor, gralhas, vírgulas desorientadas, palavras mal acompanhadas, repetições e outras desatenções. E fico-vos agradecida se me chamarem a atenção, não se acanhem, gosto demasiado da língua portuguesa para a maltratar e, por isso, será sempre agradecida que receberei as vossas chamadas de atenção.

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A propósito de escrita e de inspiração, ocorreu-me escolher, para animar o texto, algumas imagens da colecção As Musas de Ziraldo, "pintor, escritor, chargista e cartoonista de 82 anos".

Porque achei graça, transcrevo parte da apresentação:

Dono de um vigor absoluto e de uma criatividade sem limites, Ziraldo vem desenvolvendo, nesses últimos anos, mais uma expressão do seu múltiplo talento: a pintura em tela grande. Depois da série Os Zeróis é a vez das Mulheres do Ziraldo. Mulheres, tema recorrente em sua obra, alcança, nos quinze quadros dessa exposição, seu momento de máximo requinte. Da visão privilegiada do mar de Ipanema, em dia de sol, às ensimesmadas Demoiselles de Sauneleblon, Ziraldo percorre uma geografia amorosa e pessoal do corpo feminino no auge de sua beleza e esplendor. Da natureza tropical, o artista capta a luz, os tons, as formas sinuosas, opulentas, provocantes dos corpos em festa, apoteose dos sentidos em ritmo e ritual pagão. 


A canção O Redondo Vocábulo de José Afonso é aqui interpretada pelos Couple Coffee.


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Relembro: Já a seguir há uma caminhada in heaven e, mais abaixo, estrago o climinha, mostrando um láparo lambão do pior que há.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 

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In heaven com cogumelos que despontam por todos os lados, nos meus recantos onde os poetas habitam, onde a natureza é rainha absoluta, onde faço tudo para ser aceite pelos outros seres que habitam este espaço tão amado


No post abaixo já vos mostrei o tal coelhinho que comeu a criança, o avô e o circo, que acha que os jornalistas e comentadores são uma raça de preguiçosos e que só não os come porque deve achar que têm muita espinhas.

Mas aqui, agora, o registo é outro. Aqui, agora, falo de quando eu sou mais eu: in heaven.

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Para a Olinda 
que no sábado passado me pediu um pouco do perfume deste meu bocado de terra in heaven



Eu podia passar o fim de semana inteiro a varrer e a limpar que não ia conseguir transformar a terra que me cerca num jardim francês, daqueles que têm buxos, veredas certinhas, arbustos aparados, nem uma folha a toldar a visão de quem passa. Aqui há vida em estado selvagem e eu tento não perturbar o seu livre curso.

Apanhamos a maior mas de resto eu vigio a passagem do tempo, as sombras, as folhas que vão perdendo o correr da seiva, que vão amarelecendo, tombando, a caruma que se acomoda, as marcas da chuva, do vento, voltando à terra.

Depois de aqui me ver representada, eu e o meu corpo perecível, e de achar que há beleza em todas as formas da natureza, afasto algumas folhas, limpo um pouco, e prossigo.





No fim de semana passado havia um calor húmido que vinha da terra, a terra em período fértil exalando odores que atraem quem a queira fecundar. Sobre a camada fina de terra que cobre a rocha que une este espaço amado ao interior do planeta nasceu já um musgo macio.

Ou então é apenas o folhedo outonal que amolece, que se entretece entre si.


E, por todo o lado, despontam cogumelos, gordos, lustrosos, camaleonicamente confundindo-se com a terra, com as folhas, com as pedras.

São de carne macia, tentadores.


Não sei se são gostosos ou venenosos, não arrisco.

Nem lhes toco, apesar de me apetecer tê-los nas mãos, sentir-lhes a pele, o folheado do interior.

Vou andando pelo campo e por todo o lado, junto ao tronco dos pinheiros, debaixo de pedras, na beira dos caminhos, há cogumelos.


Há também os brancos, capelines rendilhadas, suaves seres que despontam onde menos se espera.

Vou em silêncio, baixo-me maravilhada.

De vez em quando assusto-me. Ouço um restolhar, um animal invisível que corre, por vezes parecem saltos, correrias também assustadas. Vejo os arbustos que se agitam, temo que seja alguém que por ali ande mas depois tranquilizo-me, penso que deve ser um coelho.

Mais adiante, passa à minha frente, descarado, olhando-me de soslaio enquanto caminha ronceiro, um gato. Depois, quando o fito, foge. Não sei se tem dono e se vem aqui espreitar ou se é vadio e fez desta minha terra a sua casa.

Há também as lagartixas que se banham ao sol, que passeiam pelos recantos, que levantam a cabecita querendo adivinhar o que se passa e que fogem quando me percebem. 

Da copa das árvores vem o canto dos pássaros. Por vezes cantam intensamente, uma desgarrada, uma folia. Outras vezes assustam-se à minha passagem, batem as asas numa aflição e voam para longe. Mas logo devem voltar. Cada vez mais se ouvem mil cantos pelo ar.

Ao fim da tarde reparei numa louva-a-deus* numa das portas. Elegante, ela.

Observei-a com atenção. Mexia as patinhas, limpava-se, ajeitava-se. Não me estranhou. Virou os grandes olhos para mim e ficou ali a observar-me. Depois continuou a sua higiene. Fico muito contente quando vejo que sou aceite por estes seres que vivem livres e certamente felizes e que da minha casa fazem a sua casa. Tomara eu ser livre e despreocupada como eles. Não sou ainda mas sou quase.


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* Tinha dito que era uma libelinha, embora estivesse na dúvida. Leitor atento e com quem sempre muito aprendo esclareceu-me - e eu, confesso, até me senti a maior das cabeças de alho chocho. Tanto que eu gostava de observar as louva-a-deus na minha infância e agora parecia ter-me esquecido delas, esse insecto espantoso que tem, ainda por cima, um nome tão inspirado. 

Já corrigi no texto e aqui fica expresso o meu agradecimento.

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E porque este é mesmo um mundo maravilhoso, partilho convosco um vídeo lindo que um Leitor a quem muito agradeço me enviou
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What a wonderful world - with David Attenborough






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Relembro: se descerem um pouco mais, quebrar-se-á a magia. Um láparo gordo está lá para estragar a festa.

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Era uma vez um coelho que comeu o pai natal, o comboio, o palhaço, a criancinha, o circo, a segurança social, os subsídios de natal e de férias, a classe média, os reformados e tudo e tudo e tudo. Assim disse a Margarida Hilário. E disse muito bem.


Não quero pôr-me em bicos de pés, palavra que não. Já me chega andar todo o santo dia em cima de salto alto. Chego a esta hora e só quero é estar descalça ou, no máximo, com umas meias a aquecer-me os pés, e nem chinelos, nem nada - qual bicos de pés, qual carapuça. Por isso, com o que vou dizer não julguem que estou a pensar que o Coelho me englobou na desanda que deu a jornalistas e comentadores. Não sou jornalista, e comentadores, julgo eu, são aqueles que são remunerados pelo facto de comentarem. Ora eu, aqui, tudo o que faço é pro bono. 

Ou seja, é graciosamente e num registo de puro amadorismo que tentarei colmatar as lacunas dos tais patéticos preguiçosos que tanto engulho causam ao láparo. Ele quereria ver mais actividade, mais contraditório, mais espada ao peito e eles não, mansinhos, carneirinhos, maria vai com as outras. Olha o Gomes Ferreira, o Henrique Raposo e o Monteiro, a Avillez, o Camilo Lourenço, o Ricardo Costa, o Duque... todos a abanarem o rabo e a dizerem ámen ao que ele diz quando o que ele quer é polémica, espadeirada.

E eu, aqui, (embora seja certo que não passo de uma simples blogueirinha mansinha), também, volta e meia dá-me para me derreter com as artes, para os humores, para os lirismos e esqueço-me do que é importante. Ele quer que se peça desculpa? Ok, eu peço. E mais: vou tentar redimir-me. A ver se no meio do que me ocorrer, passo a arranjar maneira de todos os dias lhe dar uma canelada, uma traulitada, um piparote, uma rabecada. Quer luta? Vai tê-la.

Por isso, foi mesmo a calhar que uma Leitora, a quem agradeço, me enviou a imagem do coelho lambão, inchado de pesporrência, de ignorância e de tudo o que destruiu. 

Ora toma lá, ó Coelho. 
É a tua fotografia de costas que, apesar de tudo, ainda é o teu lado melhor.




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