quinta-feira, março 12, 2020

Em dia de pandemia declarada, algumas boas notícias sobre o cisne negro* que dá pelo nome de Covid-19


Muitos dos que me lêem não trabalham em empresas ou não vivem e não trabalham em cidades grandes como Lisboa. Para esses a vida pode estar mais facilitada. Trabalhando numa grande empresa em que muitos dos seus colaboradores se deslocam frequentemente não apenas dentro do País mas ao estrangeiro, em contexto que proporciona muitos contactos com gente de muitas outras empresas, nomeadamente estrangeiras, os sarilhos podem ser muitos. E já há trabalhadores em quarentena voluntária, há casos suspeitos, há higienizações suplementares necessárias, há que encontrar meios para acomodar todas as situações, há reuniões necessárias mas que já não se sabe bem se devem ser suspensas, há que preparar decisões e comunicá-las. E, no meio disto, há o business as usual. A vida tem que continuar, as empresas têm que funcionar. Se a malha social e económica começa a quebrar o descalabro será pior. 

Portanto, é um jogo de equilíbrio, de tentativa de manter o bom senso com uns a quererem entrar em pânico, outros a não perceberem bem o que está a passar-se, e, ao mesmo tempo, a continuar com a agenda do dia a dia.

E ao mesmo tempo preoupações pessoais com filhos, netos e... pais. 

Os meus últimos dias têm sido obra. Um colega meu costuma usar a palavra felga. Os meus dias têm sido uma verdadeira felga. Tempos difíceis. Balançamos entre o receio de tomarmos medidas desproporcionadas e prejudicarmos a actividade da empresa -- e não o devemos fazer pois temos responsabilidades sociais -- e, ao mesmo tempo, o medo de, se não agirmos acertadamente, não contermos a propagação e ainda virmos a enfrentar danos maiores.

Portanto, à noite, chego aqui e ponho-me a escrever para me distrair. Não tenho conseguido responder aos vossos mails e comentários (que leio atentamente mas para os quais não tenho tido cabeça fresca para poder responder). Hoje, por exemplo, pode parecer que não mas ainda estou a trabalhar. Com uma mão comandada por metade da cabeça leio planos de contingência e propostas e respondo a mails de trabalho e, com esta que aqui vos escreve comandada pela metade da cabeça que mais facilmente se tresmalha, vou aliviando a pressão e comunicando convosco, sem saber quem sois. Neste preciso instante estão 141 pessoas a ler-me, grande parte em Portugal mas também cinco no Brasil, quatro na Argentina, dois nos Estados Unidos, outro no Reino Unido, outro no Canadá. O que gostariam de aqui encontrar? Não sei e não sei como encontrar inspiração para escrever outra coisa que não estas preocupações que enchem os meus dias e que, mesmo sem eu querer, acabam por transbordar para estas páginas.

Enquanto não chegava a resposta a umas dúvidas que coloquei, pus-me a ver vídeos e partilho convosco um deles:



____________________________________________________________

Acho que já não consigo energia para alguma coisa melhor, quiçá um poema, quiçá um bailado, quiçá alguma coisa mais animada. A ver se amanhã isto está mais tranquilo aqui para o meu lado.

________________________________

quarta-feira, março 11, 2020

COVID-19: alarmismo, histeria ou, simplesmente, matemática?





Com dois pontos se traça uma recta, com três um plano. Com algumas palavras se faz a separação das águas. Com palavras e números se decantam os raciocínios. 


Com a lógica se anulam raciocínios enganadores, com a geometria analítica se antevêem ângulos de sombra, com a análise se estratificam conceitos e se vai até à última casa decimal e com a topologia, a beleza mais louca e mais abstracta, se anulam limites deixando em liberdade os espaços abertos onde tudo se harmoniza como se o caos não fosse a eterna tentação.


Foi, pois, com gosto que, no Provas de Contacto, segui a demonstração que um espírito matemático fez da sua teoria para acabar de vez com o vírus da coronahisteria. Acaba assim a prosa:
O coronavírus já está em Portugal, isso é uma inevitabilidade cósmica. Isso é preocupante? Não particularmente, a menos que se pertença ou se esteja em contacto próximo com um grupo de risco. Como descrevi acima, ele é menos perigoso para a população saudável do que uma gripe. Mas, tal como alguém com uma gripe toma precauções para não a transmitir, também aqui essas precauções devem ser tomadas, de forma mais drástica devido à altíssima taxa de contágio.
Se o coronavírus servir para implantar socialmente comportamentos como lavar mãos frequentemente ou não espirrar para o ar, tanto melhor. Não devemos ir visitar aquela tia idosa ao lar se estivermos afectados, como não o fazemos quando estamos com gripe. Podemos ter de cancelar algumas viagens de avião, como aconteceu comigo, mas vamos viver a vida normalmente. De resto, não há qualquer motivo para pânico ou sentimentos de apocalipse, apesar da desinformação constante e do alarmismo mediático a que assistimos diariamente – esse sim, o mais perigoso vírus de toda esta história.
Contudo Jorge Buescu, o autor do texto, respeitável matemático, esqueceu-se de algumas disciplinas da matemática, nomeadamente daquela que estuda as filas de espera. 

É que se, para os jovens e saudáveis, o Covid é refresco, para os velhos ou vulneráveis é mesmo pimenta no cu. E, para esses, se muitos e ao mesmo tempo, não há recursos que cheguem (ventiladores, oxigénio, médicos, enfermeiros). A investigação operacional ajuda: ou ajuda a calcular quantos equipamentos são necessários face à procura ou, não os existindo, quanto tempo se fica à espera. Ora aqui bate o ponto. A esta altura do campeonato, não se encontram equipamentos em número suficiente para entrega imediata, nem há mais pessoal médico (médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, etc). E o facto de os doentes ficarem à espera, que é o que está a acontecer, dá no que se está a ver: uma taxa de mortalidade que, em Itália, já vai em mais de 6% quando, a nível mundial é da ordem dos 3 e picos por cento. Ou seja, muitos doentes ao mesmo tempo dão numa equação impossível. Ou seja, sem solução. Não há maneira de acorrer a todos. E isso, sim, é perigoso, é assustador.

Portanto, não é uma questão de alarme o que vejo por aí: é, sim, o querer desfasar o contágio. Que ele vai acontecer, vai. Mas que vá andando sem ser numa rampinha exponencial senão os que quinam começam a ser mais que muitos. A estatística e as probabilidades também ajudam a perceber isso. Que se vá protelando, pois, o contágio para irem chegando aos poucos aos hospitais. E pode ser que, entretanto, apareça tratamento ou que o calor atrase a propagação e que, mais tarde, venha a vacina. Portanto, vai-se ganhando tempo. É o que, para já, é preciso.

Quarentenas e testes de despiste com fartura bem como lots of campanhas a dizer para a malta não tossir para o braço ou para o ar e para lavar as mãos não são alarme: são dosear a quantidade de malta que, ao mesmo tempo, precisa de ser ventilada. 

Fazer recomendações de higiene, mudar protocolos de cortesia e tomar medidas para prevenir o contágio é indispensável. 

O gráfico abaixo ilustra bem isso:


 Ou sejaThe steps we take now, individually and as a community, will determine the trajectory of the #COVID19 epidemic. This in turn will determine how many lives are lost. It is not just a matter of protecting yourself; it is a matter of protecting the most vulnerable among us.


____________________________________________________________

A banda sonora de Il Postino está aqui porque nestas coisas levanta-se, por vexes, a questão do mensageiro em detrimento da mensagem e porque o que está a acontecer em Itália é de partir o coração e as ruas sempre tão animadas agora estão silenciosas. E porque a música é bonita, claro.

____________________________________________________________________________

E queiram agora descer um pouco mais para aprenderem a como não acordar uma leoa
Se há aprendizagens úteis esta é uma delas.

Como não acordar uma leoa





É pouco imaginativo, a propósito de qualquer treta, eu aqui trazer o meu caso pessoal. Acredito que, quem me lê, pense: esta tipa acha-se o centro do universo. Mas acreditem: não me acho. Simplesmente aborrece-me pespegar aqui um vídeo a seco e, à hora a que pego nisto, não me sobra poder de abstracção para falar de incertos, de outros em concreto ou de outras situações que possam correlacionar-se com o tema das imagens. Por facilidade, activo a memória e desfio-a. Pode ser aborrecido para quem lê mas a mim é capaz de fazer bem, capaz de manter os neurónios activos até mais tarde.

Pois bem. Introdução feita, passo ao que o vídeo me faz pensar.

Quem por aqui me acompanha, sabe que o meu biorritmo e o do meu marido não coincidem. Ele é diurno ao passo que eu sou nocturna. E felizmente que assim é. Eu gosto de ir para a cama tarde e cheia de sono. Chego à cama, deito-me e tenho impressão que adormeço instantaneamente. Mas se for para a cama e ele estiver acordado, desperto e levo horas para adormecer. Em contrapartida, se ele ficar na cama até mais tarde, mexe-se e acorda-me. Assim, ele adormece cedo e acorda cedo e eu adormeço tarde e acordo mais tarde e amigo não empata amigo.

Uma vez, Leitora intrigada, perguntou quando é que eu estava com ele, já que temos estes horários desfasados. E perguntou-o como se eu andasse a esconder um clima de frieza entre nós. Expliquei-lhe o óbvio: a convivência activa, digamos assim, ocorre quando estamos acordados, não quando um de nós está a dormir. 

Agora uma coisa é certa. Quando ele adormece aqui no sofá e depois vai quase a dormir para a cama, eu respeito-o. Identicamente, quando ele acorda cerca de hora e meia mais cedo que eu, também me respeita. Aliás, nem ouço o despertador nem o ouço a tomar banho ou a sair para uma caminhada madrugadora. 

O pior mesmo é ao fim de semana e não raramente a coisa começa mal justamente aí. Eu aviso-o, e volta e meia, antes de ir dormir, deixo papéis em cima do seu telemóvel: NÃO ME ACORDES! PUS DESPERTADOR! DEIXA-ME DORMIR!

Contudo, para aí um bom bocado antes das dez já ele começa a ir à casa de banho do quarto (e há mais três cá em casa) ou a mexer em gavetas ou a circular de modo a fazer-me acordar. Fico logo furiosa. Claro que arranja mil desculpas, que, se não me levantar naquela altura, já não será possível ir aos meus pais, ir ao supermercado, ou seja, tudo se atrasará, já não conseguiremos fazer as cem mil coisas que ele acha que devem ser feitas antes de almoço. E, por mais que eu me enfureça, a verdade é que não há fim de semana que não repita a proeza. No hotel, então, é um desespero. Acorda certamente ainda de noite, toma banho, e vai andar, e até aí tudo jóia. Mas antes das nove está de regresso ao quarto e, por mais que eu peça que me deixe dormir em paz, começa a abrir os cortinados deixando entrar a luz e forçando-me a acordar.

Mas, agora que vi o vídeo abaixo, já sei como reagir. A ver se na próxima não o vou deixar como o leãozão do vídeo, todo a arfar, todo mansinho e sem conseguir dizer ai depois de ter sido apanhado de surpresa com a reacção da leoa. Ai não vou, não...



----------------------------------------

Claro que o Forget About, segundo Sibylle Baier, não tem nada a ver com isto mas é suficientemente tranquilo para eu me apetecer que aqui esteja

terça-feira, março 10, 2020

Vem deixar-me uma rosa amarela





Deixa-me uma rosa amarela. Vem em sonhos ou pela penumbra, visita-me em palavras ou em segredo. Levanta-me dos mares, arranca-me das águas onde mergulho o meu corpo ardente. Desliza pela montanha como um leopardo azul, desce em silêncio o labirinto que se esconde nos confins da floresta e vem deixar-me uma rosa amarela. 
Ouviste que ali sitiaram um país? Aquele país das ruas cheias de gente, onde todos conversam e riem alto, está sitiado. Sabias? Até aquela cidade cor de ocre cujas ruas descem até ao cais está sitiada. Está calada e com medo de ser devorada por um vírus. Não consigo acreditar e não sei como poderão viver assim, recatados, os que transbordam de vida. Não quero pensar que poderemos vir a estar também assim. Não quero pensar no inesperado e inexplicável de tudo isto. Por isso não vou falar nisto. Não me fales também.
Fala-me antes em escarpas cobertas de pequenas flores brancas e lilases e prateadas, escarpas que escorrem até ao mar. Ou fala-me de muros brancos recortados contra o sol. Ou de muralhas antigas ou de estátuas abstractas ou, simplesmente, de rochas douradas pelo tempo. Ou, se preferires, fala-me de figueiras com sombras frescas em terras quentes, carregadas de figos carnudos e gulosos. Ou de buganvílias escandalosas emaranhadas em cor e perfume. Mas também podes falar-me de livros que se arrumam e desarrumam e das histórias que se escondem neles. Fala-me de palavras que nunca ouvi e que me trazem bocados de mundos que sabes que desconheço. Fala-me daquelas grandes aves que abrem as longas asas e traçam bailados insensatos nos céus. Fala-me de outras vidas. Das tuas. Fala-me de outros mundos. Dos teus. Fala-me de segredos. Dos teus. Não ouvirei nada. Farei de conta. Como se não soubesse nada. Fala-me do que não podes falar. Manter-me-ei no desconhecimento. 

Tenho uma mesa pequena só para mim. Está ali num recanto junto à janela. Acenderei uma vela. Serei iluminada pela sua luz trémula. E terei um copo alto e estreito. E nele porei a tua rosa amarela. 


Vou dormir e vou sonhar. Se vieres de noite, não te esqueças, arranca-me do mar e deixa-me ouvir a tua respiração quente e nervosa de leopardo azul. Traz contigo o cheiro da erva molhada e das brumas nocturnas da floresta. Traz palavras envoltas em silêncio. E deixa-me uma rosa amarela. 

--------------------------------------------------------------------------------------------------


Escuta. Agora vou copiar um poema para te deixar junto à janela. Usa-o como um fio de Ariadne. Percorre cada palavra como um passo no caminho para o teu labirinto.

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho
Que obstinado se bifurca noutro,
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juíz. Não esperes a investida
Do touro que é um homem, cuja estranha
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Vai mas depois volta. Volta todos os dias, pela madrugada, naquela hora em que as gaivotas voam por aqui, gritando como loucas. Desce da montanha, silencioso como um leopardo azul, e vem deixar-me uma rosa amarela.

--------------------------------------------------------------------------------------------------


---------------------------------------------------------------------------------------------------------

Fotografias de Lucien Clergue ao som de Get here na voz de Oleta Adams.

O Labirinto e Las Causas são obviamente de Jorge Luis Borges que também escreveu um pequeno conto a que deu o nome de 'Uma rosa amarela'

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------

O CovidMarcelo foi posto de quarentena à força, certo...?


Só mesmo para dizer uma coisa: felizmente o teste do Covid-19 a Marcelo deu negativo. É que, se tem dado positivo, eu sempre queria ver quantas pessoas, neste país, de norte a sul, teriam que ser postas de quarentena e quantas estariam infectadas. Haveria de ser bonito.

Note-se: e Marcelo andou nesta roda viva de distribuir abraços e beijinhos creio que até ontem, ou seja, muito depois de haver recomendações da OMS e DGS. Portanto, não apenas não seguiu as recomendações como, mediaticamente, fez questão de mostrar que as não seguia. Pior não podia ter feito. Havendo uma epidemia de um vírus com uma taxa de contágio que mete respeito, não havendo ainda vacina ou tratamento e com uma taxa de mortalidade um bocado assustadora em escalões etários mais elevados, Marcelo deveria era ter aproveitado para se fazer eco das recomendações em vez de andar a fazer o oposto. Este seu comportamento ficará como um ponto negro no seu percurso.

Teve, pois, dupla sorte ao não estar contagiado: não apenas por ele mas, sobretudo por não ter contagiado meio país.

E eu, cá para mim, tendo-o visto a sobrepor o seu apetite pelo mediatismo à segurança da população, acho que Marcelo não está em quarentena voluntária coisa nenhuma; foi, sim, preso à força. Vendo que aquela sua adição, que o leva a andar agarrado às pessoas em beijinhos e selfies, estava descontrolada, as autoridades de saúde e, quiçá, as ligadas à protecção civil devem ter percebido que a única maneira de proteger o povo português do coronavírus seria enclausurar o CovidMarcelo em casa. Fizeram bem. 

Marcelo na varanda, falando ao Correio da Manhã 

segunda-feira, março 09, 2020

O que somos, o que perdemos





Hoje estou naqueles dias em que, à partida, me sinto tocada pela hesitação que deveria ser sinónimo de mutismo. Pode ser que, daqui a nada, ao começar a escrever, a voz me volte e eu consiga manter-me aqui. Passa da meia noite e só agora aqui consigo chegar -- não só porque estava ocupada como sentia que não me apetecia. 

Hesito sobre o que dizer quando estou tomada por muitas dúvidas. Nem sei se fale em dúvidas se em perplexidades mas, seja o que for, faz-me chegar a este ponto a sentir-me como que tolhida.

Tudo o que diga me soará a futilidade. E sei que não há respostas para as minhas dúvidas.


A começar esta coisa deste covid. Que raio de mundo é este? Tantos anos a construir uma civilização que, afinal, continua assente em pés de barro.
Satélites em órbita que traçam a nossa geo-referenciação para nos guiar por todos os caminhos por todos os lugares que resolvamos percorrer, sondas que exploram os confins do universo e o solo e a atmosfera de planetas onde a maioria, senão a totalidade, de nós nunca iremos, laboratórios que traçam a sequenciação do nosso dna, descodificando o que somos até onde nós próprios nos desconhecemos, tecnologias que armazenam e processam teras, petas, exas, zettas de informação útil e inútil em longínquos e ubíquos repositórios, veículos que vencem o espaço e o tempo transportando milhares e milhares de pessoas de continente em continente... e, afinal, um qualquer bicho constipado causa o caos em todo este admirável mundo e não há vacinas, não há tratamento, não há como travar sucessivas ondas de um choque que não pára de aumentar. É de doidos.

Há uns meses, enquanto azafamadamente se discutiam futilidades, se alguém aventasse a possibilidade de pôr milhões de pessoas em quarentena durante semanas, fechar escolas durante semanas ou montar hospitais de campanha à porta dos hospitais de referência, pareceria loucura. E, no entanto, está a acontecer.

E, de repente, as pessoas, pelo menos as pessoas desses lugares sitiados, são forçadas a prescindir de tudo o que fazia parte do seu estilo de vida: não podem frequentar espaços públicos, não podem viajar. O consumo desce em fecha, a poluição diminui. Como se, de repente, um qualquer castigo divino ou, vá, uma misteriosa mão oculta forçasse as pessoas a perceber que conseguem viver sem excesso de consumo, junto dos seus, na sua terra, uma vida simples.


Esta coisa do covid deveria merecer uma reflexão profunda. Que vida queremos? Que vida faz sentido que levemos?
Convencidos que somos muito bons, uns cheios de si e alimentando-se da sabedoria e dos muito contactos que têm via redes sociais, outros cheios de propalados sucessos empresariais, outros cheios de academia e papers, outros cheios de cultura e referências, outros cheios daquela arrogância que se confunde com cinismo e pessimismo, não passamos é de animais muito estúpidos e dependentes. E tenho para mim que nem perante um tamanho abre-olhos os iremos abrir. Andamos encandeados com as ondas de poluição intelectual, estética. social e etc. que criámos à nossa volta e não sei se saberemos ver para além dela.

E, portanto, neste estado de espírito, só tenho a dizer que ontem de manhã fui ver os meus pais e à tarde estive a ver dois dos meninos a jogarem futebol e soube-me muito bem estar ao sol, num lugar desafogado e com uma bela vista, à conversa, e que hoje vi os outros meninos e deixei lá limões da minha mãe e orégãos made in heaven, e de tarde estivemos lá, in heaven, e passeei pelo campo e tive vontade de lá estar mais tempo, e estive a ler e a fotografar e depois, já aqui, estive a tratar da casa, a cozinhar, a ver as fotografias e a escolher estas que aqui vêem para partilhar convosco. 
[E agora chegou um mail de trabalho, alguém que coloca uma questão muito pertinente e concreta, e eu dei a minha opinião mas estou cheia de dúvidas pois se seguisse a minha intuição diria que nem pensar mas, perante a situação em concreto, acabei por dizer que, nesse caso, que remédio mas que redobrem cuidados. E tudo isto é surreal e prova que o caminho seguido a todos os níveis, deixando-nos sempre dependentes de terceiros que estão no outro lado do mundo, nos coloca, nestas circunstâncias, numa grande fragilidade.]

Tirando isso, com a consciência da minha efemeridade, ocorre-me que o mais certo é que nunca venha a desvendar mistérios que gostaria de desvendar, conhecer pessoas que gostaria de conhecer, ver as mãos que escrevem o que gosto de ler. O tempo é curto e cheio de acasos e a nossa vida é breve e cheia de incertezas, hesitações e limites.

De tarde estive a ler um livro e gostei tanto do que li que pensei que gostaria de saber o que pensa aquela pessoa quando não está a pensar no que vai escrever. Poderia perguntar-lhe. Mas depois pensei que se calhar o melhor mesmo é deixar que as pessoas que conhecemos através das palavras permaneçam nesse limbo de imaterialidade que as torna abstractas e inexistentes.

Talvez que se um vírus ou um meteorito ou um irremediável desatino climático, um dia, dizimarem parte da humanidade subsistam as palavras. Talvez também as pedras. Talvez também, algures, no espaço, numa qualquer nuvem virtual, subsistam as memórias de quem não soube guardar as flores, os pássaros, o amor.


___________________________________________________


__________________________________________________

Desejo-lhe, a si que está aí desse lado, uma boa semana

domingo, março 08, 2020

Eros em visita




Estendeu na terra atapetada de erva a toalha de pano que comprou aos vendedores ambulantes em Lagos e deitou-se ao sol. Quando ele chegou perto dela, deu uma gargalhada e exclamou: 'Mas o que é isto? Passaste-te?'. Ela soergueu-se sobre um cotovelo, colocou a mão em concha sobre os olhos e perguntou: 'Porquê?'. Enquanto falava, segurava as folhas de couve. Riu também. Depois explicou: 'O sol está forte. Não tinha protector solar. Fui ver o que poderia usar e lembrei-me disto'.

Deitou-se de novo e ajeitou as duas folhas. Ele riu. Cada folha cobria um seio mas a meio de cada folha havia um orifício através do qual saía o mamilo. 'Um curioso modelo. Qual a ideia?', ironizou ele. Ela, maliciosa, explicou: 'Para te facilitar a vida.' Ele ajoelhou-se e, tendo a vida facilitada, fez o que tinha a fazer.


Num outro dia, quando chegou a casa, ela estava na sala a ler. A sala quase às escuras. Um foco de luz incidia no livro. Admirou-se: 'Vieste mais cedo.' Ela esclareceu: 'Estava doida para ler este livro'. Estava coberta por uma mantinha muito fina, branca, que parecia renda. Ele reparou nos seus ombros despidos: 'Estás nua?'. Ela respondeu: 'Não. Apenas despi o vestido para não o amarrotar. Liguei o ar condicionado para não ter frio'. Ele sorriu. Ela disse: 'Mas completei com um adereço.'. Ele olhou-a e percebeu que o sorriso dela era daquela malícia que tão bem conhecia: 'Ah sim? Ora deixa cá ver...'.

Destapou-a.

'Ah... ' Ela percebeu que ele tinha gostado do que tinha visto mas, sabendo-o distraído, não ficou com a certeza que ele tinha visto tudo. 'Viste a minha flor?'. Ele não percebeu, admitiu que fosse uma metáfora: 'A tua flor? '. Em voz baixa, ela esclareceu: 'Um malmequer. Para ver se tens sorte.  Desflora-me. Devagarinho. Mal-me-que, bem-me-quer. Anda, vem ver qual o veredicto. Aproxima-te.'


No dia oito, quando estavam a almoçar, ela descalçou o sapato e com a ponta do pé acariciou-lhe a perna por debaixo das calças. Ele começou por se admirar mas depois sorriu. Ela voltou a calçar o sapato e pediu que ele lhe desse o cheese naan à boca. Ele disse: 'Deixa-te de coisas'. Ela insistiu: É Dia da Mulher. Sê simpático'. Ele sorriu: 'O que é que ganho com isso?. Ela olhou-o nos olhos. 'Nem queiras saber'. Ele quis saber: 'Diz lá'. Ela disse: 'Estou a pensar numa coisa. Mas é surpresa.'.

Pegou no pé do copo, balouçou o vinho enquanto aspirava o seu odor, depois bebeu um pouco, devagar, sentindo o sabor. Disse: 'Frutado, umas notas de romã, umas notas de madeira. Bom.'

Depois, voltou a olhá-lo nos olhos: 'Vá, agora o cheese naan, bebé'. Ele separou um pequeno triângulo e deu-lho à boca. Ela saboreou o queijo derretido, quente, e percebia-se que estava agradecida. Então ele perguntou: 'E agora...?'. Ela sorriu mas muito ao de leve: 'Agora ganhaste o direito à sobremesa, baby...'


______________________________________________________________

A primeira e a última fotografias são de Helmut Newton, a segunda é de Marino Parisotto e a última de Richard Avedon. Segundo Nina Simone Wild is the wind.

________________________________________________________________________

Alô, alô CoronaMarcelo!
Pare com as selfies e com os beijinhos e comece a seguir as recomendações da OMS e da DGS!



Afinal os números sempre evoluíram como ontem, face aos dados disponíveis, referi que pensava que pudessem evoluir. Pode acontecer que amanhã já tenhamos quarenta ou mais casos. Não é que o bicho em si meta muito medo a quem seja jovem, saudável, esteja com o sistema imunitário a bombar e sem gente de idade ou frágil por perto. A esses o COVID-19 não tem que assustar muito. Isto se pensarem apenas neles próprios.

Mostro dados estatísticos globais para melhor contextualizar a incidência:

Por escalões etários



Por sexo

Nota: pode acontecer que a estatística esteja influenciada, por a maior parte das mortes, até agora, ter ocorrido na China onde os homens fumam muito


Por estado de saúde anterior



Contudo, se se pensar que quase toda a gente tem por perto pessoas com mais idade ou com saúde mais vulnerável e que podem ser contagiados por si, aí a coisa já muda um bocadinho de figura.

E se se pensar que, se não houver cuidado, podem ser contagiadas, ao mesmo tempo, muitas pessoas e que dificilmente haverá meios (camas de hospital, equipamentos médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos de diagnóstico, etc) para toda a gente, aí a coisa pode ficar complicada.

E se se pensar que, se muita gente fica doente e os que lhes estão próximos ficam de quarentena, ficará muita gente impossibilitada de levar a sua vida normal e, portanto, alguns bens podem escassear (até porque alguns estabelecimentos podem fechar) e haverá algumas empresas ou algumas actividades que podem não aguentar o impacto financeiro, aí a coisa pode mesmo azedar a sério.
[Já agora, notícias de hoje dão conta que Itália fecha a Lombardia e põe 16 milhões de pessoas de quarentena]. 
Ou seja, se cada um de nós deixar de pensar apenas em si próprio e se sentir um pouco responsável pelo que os seus actos influem na sociedade, talvez a atitude perante a real ameaça que este vírus representa mude um pouco. 


O que li sobre a atitude responsável em Macau contrasta com muita displicência que ainda encontro por aí e que tem o seu expoente máximo em Marcelo Rebelo de Sousa.

Em vez de aproveitar a sua exposição mediática para difundir as recomendações da Organização Mundial de Saúde e da DGS, não senhor. Com ar meio fanfarrão, continua a circular e a dar abraços e beijinhos, dizendo que há pessoas que lhe pedem beijinhos e que ele corresponde. Não percebo. Não o tinha por irresponsável mas a sua dependência de selfies e beijinhos começa a parecer doentia, incontrolável. Se calha ser infectado (e sinceramente desejo que não), quantas centenas de pessoas serão infectadas por causa das suas visitas, selfies e beijinhos? Quantos irão infectados para casa, infectando os que lhe são próximos? Quer o Presidente da República ser o responsável por isso?

A fotografia não deve ser de agora mas está aqui para reforçar que espero não voltar a ver nada disto,
pelo menos enquanto não nos virmos livres da epidemia
(e isto mesmo que alguma velhinha implore por um beijinho)

Ouvi-o hoje a dizer que vai reduzir um pouco a agenda mas, depois de todo o desacato que, nos últimos dias tem protagonizado, é pouco.

Por isso, daqui lhe digo: espero bem que pare para pensar e que, o mais rapidamente possível, apareça a dar o exemplo: a lavar as mãos, a mostrar como tossir para o braço e não para a mão, a evitar apertos de mão e a recusar beijinhos, a afastar-se de pessoas de idade, a mostrar que, sempre que possível, pratica o distanciamento social, a participar em eventos por videoconferência e, obviamente, a recomendar a toda a gente que siga, sem desvios, as orientações da OMS e da DGS. 

A bem do País, espero que Marcelo não queira tornar-se um veículo de propagação do vírus, não queira ficar para a História de Portugal como o CoronaMarcelo ou como o CovidMarcelo.

_______________________________________

Já agora e uma vez mais: como proteger-se contra o COVID-19




Como colocar uma máscara
(no caso de pessoas contagiadas ou suspeitas disso):


______________________________________________

Mais informação estatística no World Meter

sábado, março 07, 2020

É simples: não toque na sua cara


Nas empresas sopesa-se o risco de alarme ou pânico pois ninguém quer que as pessoas desamparem a loja e, cheias de medo, se auto-isolem e quem vier a seguir que feche a porta e, ao mesmo tempo, o risco de contágio.

Tenta-se que se sigam os novos protocolos de cumprimentos, evitando o contacto físico, tenta-se que se lavem ou desinfectem as mãos o mais frequentemente possível, tenta-se não estar perto de quem esteja com tosse ou com espirros.

Mas, claro, nada disto, por vezes, é possível.

Por exemplo, se a gente não conhece uma pessoa e ela, ao ser-nos apresentada, vem direito a nós de mão estendida, não há outro remédio senão apertá-la. Se for colega, dizemos que dê um toque cotovelo-cotovelo mas, se não a conhecemos, há um mínimo de pudor que não nos deixa ficar a pessoa de mão no ar. E se, por exemplo, se a pessoa, durante a reunião, tosse e, educadamente, tosse para a mão, nós, que acabámos de conhecê-la, não vamos perguntar-lhe se ainda não aprendeu que se tosse para o braço. E se, no fim, vem direitinho a nós, com a mão infectada estendida, o que fazemos: perguntamos-lhe se ainda não aprendeu que, nas actuais circunstâncias, se devem evitar os apertos de mão, muito menos com a mão infestada? Não, né? Acabámos de conhecê-lo, não vamos indispô-lo, destratando-o como se o senhor fosse um mal educado ou um mastronço. Fazemos de conta que não há COVID-19 e a seguir vamos à casa de banho e lavamos bem a mão.

Mas eu, que tenho sido uma acérrima defensora de boas práticas -- e não é só por mim: é também porque não quero ser veículo de propagação --, dou por mim a passar o dedo pelas pálpebras superiores para atenuar o smoky ou a descansar o queixo, apoiando-o sobre a mão ou, pior, com comichão no nariz e, quanto mais penso que não devo coçar, mais comichão sinto e, mal me distraio, já foste, ou seja, já cocei. E quem diz isso diz outros gestos em que só dou por eles depois de os ter feito. Não é fácil. 

Mas, enfim, o que se admite é que a coisa está contida e, portanto, ainda não haverá muita bicheza por aí à solta.

Estava com algum receio de que esta sexta-feira pudessem aparecer uns dez ou doze casos novos levando o total de infectados para cerca de 20. Mas, felizmente, apenas apareceram novos 4 casos. Claro que ainda estamos no início pelo que ainda não há dados suficientes para traçar curvas de tendência. Pode acontecer que um dia destes acordemos com mais vinte, depois mais quarenta ou cinquenta. Mas, até ver, com os escassos dias que levamos disto, não dá para perspectivar nesse sentido. A dizer alguma coisa, o que posso dizer é que dá a ideia que, até ver, a coisa está relativamente controlada e que o contágio só está a acontecer por via quase tête-a-tête. Portanto, vamos esperar que toda a gente tenha os cuidados devidos e não seja inconsciente e irresponsável.


E para os que ainda não perceberam a situação e se armam em leões (e ainda hoje tive uma acesa troca de argumento com um assim), aqui fica uma entrevista com um epidemologista:


Mas, enfim, não é fácil. Basicamente é isto:


Mas é preciso tentar.

___________________________________________

Mais statements do ‘Dude With A Sign’ podem ser vistos aqui.

sexta-feira, março 06, 2020

Mulher/es





Nisto do COVID-19 dá para ver a diferença entre homens e mulheres. Os homens gostam de se mostrar superiores a tretas, paranóias não é com eles, medo não têm de nada. Se alguma mulher diz que tem que se acabar com os apertos de mão ou com os beijinhos, eles riem, fazem chalaça, trocadilho ou graçola, como se ter cuidado fosse coisa de mulher, fosse mariquice, caguinchice, e, para anular o cuidado, há quem, jocosamente, pergunte se beijo na boca também faz mal. As mulheres, pelo contrário, preocupam-se com todos, querem prevenir, alertam, explicam, sujeitam-se às chacotas palermas deles.

Claro que há mais diferenças, mil diferenças. Por exemplo, nisto dos refugiados até dói. O que aqueles estúpidos homens, todos homens, fazem é de vómito. A humilhação, a indignidade, a falta de respeito com que aqueles milhares de pessoas são tratadas é de partir a alma. Homens sem cabeça, sem alma, sem coração, homens que se esquecem que são efémeros, homens que destroem a vida de milhares de pessoas. Homens.

São também maioritariamente homens os que dão gás à especulação financeira, são homens que, recebendo multimilionários bónus, levam os bancos à falência, são homens os reguladores que nunca detectam qualquer irregularidade, são homens que alimentam a indústria de armamento, são homens que inalam petróleo e se marimbam para o planeta, são homens que abrem e fecham fronteiras como se fosse despique de extremas entre vizinhos, são homens que fazem tiro ao alvo, sendo os alvos os refugiados. Não vejo mulheres aos comandos nessas situações. Não digo que as não haja, digo apenas que não as vejo.


Haverá excepções. Há homens que não são parvalhões, há homens que não são estúpidos, há homens que não são marialvas de meia tigela. Há homens que merecem o mundo. Que merecem o céu. Que merecem todo o amor do mundo.

Há pouco, a falar com a minha filha sobre isto e queixando-se ela do mesmo, dos valentões de plástico, dizia ela: 'Mas, se ficam doentes, é vê-los na mariquice'. E é. Conheço um que gosta muito de se armar em macho man. Quem o veja parece ele que não tem medo de nada e que é superior, mas superior lá muito em cima, a qualquer um (ou uma) que se mostre humano mostrando por vezes algum medo. Pois bem, se tem uma indisposição de caca fica para morrer, parece que está em risco de vida, liga para todos os médicos que conhece, faz mil exames, durante dias não fala de outra coisa. 

Muitos dos erros deste mundo devem-se a disparates masculinos: têm medo de dar parte de fracos, fazem de tudo para não arriscarem uma nega, não arriscam um gesto mais temerário com medo de que corra mal e, sobretudo, têm medo de ser confrontados ou gozados, medo que a sua imagem saia beliscada. Uns cobardolas sob a fina capa de campeões.

As mulheres são mais ousadas, arriscam mais, marimbam-se mais para a censura alheia, genuinamente preocupam-se mais com os outros.


Digo sempre que não sou feminista mas acho que o digo sobretudo porque detesto rótulos e não consigo encaixar-me em agremiações, sejam de que tipo forem. Mas, rótulos ou agrupamentos à parte, a verdade é que acredito no valor e no poder das mulheres e acredito que muitos dos males do mundo se devem ao excesso de homens em lugares de poder.

É certo que as coisas começam a ganhar outro rumo: há mais mulheres em lugar de comando e mais mulheres a rebelarem-se contras as desigualdades.
[Mas, tenho que dizer, também não suporto ver as mulheres a armarem-se em vítimas puritanas, a acusarem de tudo e mais alguma coisa homens junto dos quais antes se derretiam, a tomarem por assédio qualquer graçola masculina ou a fazerem-se de coitadinhas por qualquer insignificante porcariazeca. Mas adiante].

E isto dito passo ao vídeo abaixo, um trailer de um documentário que é pena que não chegue cá pois deve ser muito bom.

Woman

Woman répond à l’envie de regarder le monde avec les yeux d’une femme. Ce film nous amène aux quatre coins du monde à la rencontre des premières concernées : toutes ces femmes aux parcours de vie différents, façonnées par leur culture, leur foi ou encore leur histoire familiale.C’est aussi le reflet du monde actuel. Un reflet parfois sombre face à toutes les injustices subies par les femmes. Mais avant tout, ce film est un message d’amour et d’espoir envoyé à toutes les femmes du monde. Une tentative de comprendre leur vie, de mesurer le chemin parcouru mais aussi tout ce qui reste à faire. Comment y parvenir ?
Ensemble, elles font émerger une autre vision du monde, indispensable pour construire l’avenir de notre #planète. Après « Human » en 2015, Anastasia Mikova et Yann Arthus-Bertrand proposent « Woman » en abordant plusieurs thèmes forts comme l’éducation, la pauvreté, la justice et le courage. Parce que faire entendre la voix des femmes est une priorité, la Fondation ENGIE a décidé de soutenir Woman et plusieurs associations mises en avant dans le film : http://bit.ly/Woman-FondationENGIE
___________________________________________________________________________

As esculturas são de Camille Claudel e enlaçam-se ao som da música de Clara Schumann

_____________________________________________________________________________

quinta-feira, março 05, 2020

As mulheres que gostam de livros são perigosas...?
Ou, simplesmente, não são muito boas da cabeça...?





Estou numa fase de pré-lançamento para ainda não sei exatamente o quê mas, como muitas vezes acontece, movimentando-me numa twilight zone enquanto, à vista desarmada, nada se passa. Não desgosto da clandestinidade. Há quem suspeite de que alguma coisa está para se passar e me ronde e vigie e me prense. Mas sou boa nisso, sou mestre em poker face: concluirão que no pasa nada. E eu, sabendo o que talvez se vá passar, forço-me a não pensar em nada para chegar ao momento que talvez esteja para chegar como se tivesse sido apanhada de certeza. 

E, enquanto isso, muito trabalho e muita reunião e muito bau bau*. Ora acontece que, em momentos assim, a minha beleza implora por um break mental. Portanto, à hora de almoço, ala moça que se faz tarde e aí vai ela, toda flauteada, fazendo de conta que o tempo não está contado. Mentalmente o cilício de sempre, pregado à carne: não é para trazer nada, é só para ver.

Mas sei que é mais do que ver: é impregnar-me. Estar entre livros, ver o que há de novo, folhear, deslizar como uma gata por entre as letras é bálsamo, é fascínio, é vacina contra o que virá durante a tarde, é mel, é perfume, é bênção, é estar à janela a respirar ar puro e da janela ver o mundo.

Claro que quase tudo o que ali vejo me repele: desde os títulos dos livros, às respectivas capas, passando pelo nome daquela gente que vive de parir livros como quem faz estalar grãos de milho em sala de cinema. Passo ao largo tal como passo ao largo da fast food cujo cheiro enjoa. E penso que tanta tralha em forma de livro é bem capaz de ser mesmo mau para a cervical. É que eu posso passar ao largo mas há quem tenha que sacrificar o corpo vivendo entre aquilo. 

Passo, pois, ao largo dos best sellers e, como sempre, busco as franjas, desloco-me pelas margens. Mas não é para trazer, é só para ver, vou repetindo.

Até que vi um livro de Paolo Cognetti. Tentação. Gosto tanto dele. Mas tentei resistir, encontrar pretexto para não sucumbrir: fui ver se o tradutor era o Pedro Tamen. Não era. Pensei: não vai ser a mesma coisa. Pedro Tamen sabe que a toada, o balanço e a poesia na fala são indispensáveis para a gente se apaixonar.  Segui sem ele. Depois fui dar com um do Casimiro de Brito. Folheei. Gostei. Pensei: tem que ser, é só este. 

Mas não foi só esse. Tive que trazer também o Paolo Cognetti. 

Vim feliz. E a minha vontade era, a seguir, ir para o Jardim, deitar-me na relva ou sentar-me encostada a uma árvore, ouvir ao de leve a aragem a rumorejar por entre as ramagens das árvores  e passar a tarde entregue a eles dois. 

Mas o cilício não me martiriza apenas para me lembrar para não trazer livros, impele-me também a deixar de lado os desejados prazeres, indo enfiar-me num escritório mais do que prosaico.

Contudo, durante a tarde, de vez em quando, antecipava o prazer de, à noite, os ler, os ler mesmo que à minha maneira. No início das leituras sou aleatória, procuro a impressão. Sou impressionista. Depois, se me deixo tentar, sou devota.


À noite, ao chegar e ao estacionar o carro, peguei no computador, na capa de lã, na carteira e mais nem sei em quê e, estúpida, deixei o pacote de papel com os dois livros no carro. Quando dei por ela, já estava em casa, descalça, sem o traje de luces. Disse que ia ao carro buscá-los, mas tinha que ir vestir-me e calçar-me e o meu marido demoveu-me. E eu, preguiçosa, deixei-me demover. E agora, pobre de me, aqui estou, longe deles, em estado de carência. 

E quem não perceber este amor por livros não percebe nada de mim. Se calhar nem conhece bem o que é gostar de livros. Ou mostra um supremo desconhecimento das coisas da vida. Ou nem sonha o que é uma mulher que ama livros. Isso, sim, é o mistério dos mistérios. Pior: o perigo dos perigos.

--------------------------------------------------------------------------------------

Mais ou menos a propósito, partilho um vídeo com muitos livros dentro
Transcrevo: Antiquarian booksellers are part scholar, part detective and part businessperson, and their personalities and knowledge are as broad as the material they handle. They also play an underappreciated yet essential role in preserving history. THE BOOKSELLERS takes viewers inside their small but fascinating world, populated by an assortment of obsessives, intellects, eccentrics and dreamers.

------------------------------------