Muitos dos que me lêem não trabalham em empresas ou não vivem e não trabalham em cidades grandes como Lisboa. Para esses a vida pode estar mais facilitada. Trabalhando numa grande empresa em que muitos dos seus colaboradores se deslocam frequentemente não apenas dentro do País mas ao estrangeiro, em contexto que proporciona muitos contactos com gente de muitas outras empresas, nomeadamente estrangeiras, os sarilhos podem ser muitos. E já há trabalhadores em quarentena voluntária, há casos suspeitos, há higienizações suplementares necessárias, há que encontrar meios para acomodar todas as situações, há reuniões necessárias mas que já não se sabe bem se devem ser suspensas, há que preparar decisões e comunicá-las. E, no meio disto, há o business as usual. A vida tem que continuar, as empresas têm que funcionar. Se a malha social e económica começa a quebrar o descalabro será pior.
Portanto, é um jogo de equilíbrio, de tentativa de manter o bom senso com uns a quererem entrar em pânico, outros a não perceberem bem o que está a passar-se, e, ao mesmo tempo, a continuar com a agenda do dia a dia.
E ao mesmo tempo preoupações pessoais com filhos, netos e... pais.
Os meus últimos dias têm sido obra. Um colega meu costuma usar a palavra felga. Os meus dias têm sido uma verdadeira felga. Tempos difíceis. Balançamos entre o receio de tomarmos medidas desproporcionadas e prejudicarmos a actividade da empresa -- e não o devemos fazer pois temos responsabilidades sociais -- e, ao mesmo tempo, o medo de, se não agirmos acertadamente, não contermos a propagação e ainda virmos a enfrentar danos maiores.
Portanto, à noite, chego aqui e ponho-me a escrever para me distrair. Não tenho conseguido responder aos vossos mails e comentários (que leio atentamente mas para os quais não tenho tido cabeça fresca para poder responder). Hoje, por exemplo, pode parecer que não mas ainda estou a trabalhar. Com uma mão comandada por metade da cabeça leio planos de contingência e propostas e respondo a mails de trabalho e, com esta que aqui vos escreve comandada pela metade da cabeça que mais facilmente se tresmalha, vou aliviando a pressão e comunicando convosco, sem saber quem sois. Neste preciso instante estão 141 pessoas a ler-me, grande parte em Portugal mas também cinco no Brasil, quatro na Argentina, dois nos Estados Unidos, outro no Reino Unido, outro no Canadá. O que gostariam de aqui encontrar? Não sei e não sei como encontrar inspiração para escrever outra coisa que não estas preocupações que enchem os meus dias e que, mesmo sem eu querer, acabam por transbordar para estas páginas.
Enquanto não chegava a resposta a umas dúvidas que coloquei, pus-me a ver vídeos e partilho convosco um deles:
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Acho que já não consigo energia para alguma coisa melhor, quiçá um poema, quiçá um bailado, quiçá alguma coisa mais animada. A ver se amanhã isto está mais tranquilo aqui para o meu lado.
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