sábado, fevereiro 22, 2014

Os quês e os porquês da situação que se vive na Ucrânia - uma lição de História nas palavras de um Leitor (e um vídeo chocante com imagens chocantes)


A seguir a este post há dois outros que sabem bem: boa disposição, bom humor. 

Foram-me enviados tal como me foi enviado o interessante texto que agora aqui publico. 

Agradeço a generosidade dos Leitores tal como me desculpo pela falta de tempo que me leva a não ter tempo de aqui incluir tudo o que me enviam nem agradecer a todos quantos, tão simpaticamente, me escrevem. 

Quando me reformar, daqui por cem anos, tentarei ser certinha, responder a tempo e horas e não deixar comentários ou mails sem resposta. Digo cem anos porque sou optimista. Se depender desta troupe que nos desgoverna nem aos 200 teremos direito a descansar e a receber uns trocos para o caldinho (porque com 200 anos já não devemos ter um único dente, a coisa já lá só deve ir a caldos e pela palhinha).

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Enquanto escrevo, estou a ver ora o congresso do PSD em que só vejo papagaios e cães amestrados em torno de um saco de ar (poderia dizer que o saco era de outra coisa mas sou bem educadinha, não digo), ora vejo o 8º marido da Zsa Zsa num outro sítio qualquer a dizer trapalhices manipuladas, sounbites, palermices sem qualquer sentido, coisas que espremidas valem menos que zero. Talvez seja porque o 8º marido não contou, o 8º casamento da Gabor foi anulado. Vou pensar se daqui para a frente não me vou referir a ele como o irrevogável vice Zsa Zsa.

Adiante que agora a conversa é a sério. Que entre a música ucraniana.




Лариса Остапенко Мамині руки (О. Білаш - М. Ткач)
Larysa Ostapenko Mother's hands (Oleksandr Bilash - M.Tkach)

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Cara UJM,

Um "documento", ou documentário, historicamente interessante, que, talvez, explique alguma coisa do que se está a passar, actualmente, naquele país, embora sejam tempos diferentes e distantes.

À época, a então URSS "absorveu" uma boa porção de território ucraniano.

De seguida, Estaline "roubou" uma parte da então Polónia (com o silêncio e aceitação tácita de Churchill (e Roosevelt) e indiferença do resto do mundo.

E, no final da II Guerra Mundial, a Polónia veio a "ficar" com uma parte do território alemão (nazi), que ainda hoje conserva, tal como a Ucrânia e por sua vez a Rússia actual.

A população, por essa altura, ucraniana foi grandemente desapossada do seu território, desapareceu, morrendo, de uma forma ou outra, à fome, deportada, quer para a Sibéria, quer para o Cazaquistão e outras Repúblicas da Ásia Central Soviética.

E uma determinada quantidade de cidadãos russos acabaram por ir viver para a Ucrânia, por ordem de Estaline, sob a supervisão de Béria (o chefe da então polícia secreta do regime).

Quanto aos polacos que viviam na região oriental da Polónia, depois desse território ter sido "cedido", à força das armas, à Ucrânia, essa população polaca foi deportada igualmente para a Sibéria e a Ásia Central, acabando os ucranianos do Oeste por ocupar, à força, por decisão de Estaline, a tal porção de território polaco de Leste, perdido, cedido.

Parte daquele território polaco "cedido" tinha pertencido ao Império Austro-Húngaro.

Hoje, 3 Países, desde o período entre os anos 30 do século passado e o fim da 2ª Guerra vivem em fronteiras artificiais, mas hoje oficiais, que assim lhes foram impostas, quer por razões políticas, quer pela força das armas.

A Ucrânia de hoje é um país de algum modo vítima daquelas decisões, com uma população ucraniana e russa e onde Moscovo continua a ter influência. Por razões históricas e de estratégia geo-política.

Mas, o silêncio e aceitação de alguns países à época e de alguns dirigentes, como Churchill e Roosevelt, permitiu que Estaline "desenhasse" aquela Geografia, que hoje se mantém. 




A este propósito, sugiro a leitura do livro de Laurence Rees, "À Porta Fechada (segunda Guerra Mundia) - Estaline, os Nazis e o Ocidente", cuja tradução em português está à venda em Portugal, na Fnac e Bertrand, desde há uns 6 meses.


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O Extermínio dos Ucranianos pelos comunistas





O Extermínio dos Ucranianos pelos comunistas no inverno de 1932-1933.
Sete milhões foram mortos pela fome.
A humanidade nunca tinha visto um programa de extermínio tão eficiente como o realizado pelos comunistas.


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As imagens são pinturas do pintor ucraniano Alexander Roytburd

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Depois disto é preciso mesmo uma lufada de humor.
Para anedotas e segredos de família é favor descerem até ao post seguinte.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Xavier Barreto tem um gémeo de quem foi separado à nascença?


No post a seguir a este poderão ver uma anedota que mete o Adão, a Eva, a Popota Merkel, o Garanhão Hollande, o Camarão e o Láparo de Massamá. Talvez já conheçam. Eu não conhecia e achei graça. 

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Aqui agora a questão é outra. Suspense. Suspeição. Coisas que se dizem à boca pequena.

Miró produziu um Xavier Barreto avant la lettre ou a realidade é ainda mais penosa? 

Será aquela figurinha o gémeo separado à nascença que, finalmente, Xavier Barreto descobriu, tentando apressadamente livrar-se dele?

Tantas perguntas no ar. O mistério vai-se adensando.

Gémeos univitelinos separados à nascença que o destino juntou?
Um segredo de família que Xavier Barreto quer esconder....?

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Adão e Eva no Paraíso - ou os portugueses segundo Passos Coelho


Albrecht Dürer (1471-1528), Adam and Eve (1507)
Museo del Prado, Madrid

Depois de mais uma reunião da UE alguns Ministros, para "aliviar" a pressão, resolvem passar pelo Museu do Prado em Madrid e, alguns deles param meditativos perante uma excelente pintura de Adão e Eva no Paraíso.

Desabafa Angela Merkel:
- Olhem, que perfeição de corpos: ela esbelta e esguia, ele com este corpo atlético, os músculos perfilados... São necessariamente estereótipos alemães.

Imediatamente François Hollande reagiu:
- Não acredito. É evidente o erotismo que se desprende de ambas as figuras... ela tão feminina... ele tão masculino...Sabem que em breve chegará a tentação... Só poderiam ser franceses.

Movendo negativamente a cabeça, o David Cameron arrisca:
- Of course not! Notem... a serenidade dos seus rostos, a delicadeza da pose, a sobriedade do gesto. Só podem ser ingleses.

Depois de alguns segundos mais de contemplação, Passos Coelho exclama:
- Não concordo. Reparem bem: não têm roupa, não têm sapatos, não têm casa, só têm uma triste maçã para comer... não protestam e ainda pensam que estão no Paraíso. Não tenham a menor dúvida, são portugueses!


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(Piada que me foi enviada por um Leitor a quem muito agradeço)


A coragem dos tocadores de música enquanto tudo arde. Na Praça da independência, em Kiev, Ucrânia, piano ou gaita de foles tanto faz. Entre mortos e feridos, que se salve a pureza da esperança, a ilusão do sonho e a força dos que acreditam na democracia.


No post abaixo falo do frio das crianças em países a arder e, um pouco mais abaixo, falo de Eduardo Lourenço e do alerta que lançou contra os vampiros que desceram às cidades, sugando o sangue dos indefesos cidadãos.

Não deixem de ver, por favor. A seguir a este.

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Aqui, agora, a conversa é outra.

A rigidez muscular que se concentrava na nuca, estendeu-se-me aos ombros. Não são já as dores agudas e incapacitantes de até há dois dias mas, antes, há ainda alguma dificuldade nos movimentos e tudo muito dorido. Deveria tomar o tal Valium que, para além de ansiolítico, é um poderoso relaxante muscular (10 mg, prescreveu o médico há algum tempo ao meu marido e referiu-o o Leitor dbo que é médico), duas vezes por dia para ver se me punha boa. Mas qual quê? Tomo apenas 5mg à noite e entro logo num estado de dormência que mais parece que fui anestesiada.

Ainda não tomei o comprimido de hoje, só o tomarei quando me deitar mas, mesmo assim, ainda sob o efeito do de ontem à noite, não tenho feito outra coisa senão dormir. E, durante o dia, tenho que ir bebendo café e chá verde, levantar-me de quarto em quarto de hora e ir chateando uns e outros para ver se não adormeço no gabinete. E no carro? Tenho que andar de janela aberta, música alto, telefonar (tenho bluetooth....!)  e, mesmo assim, é cá um esforço...

Isto dá-me cabo da produtividade aqui, credo. Daqui a nada são duas da manhã e ainda pouco escrevi. Tinha tantas coisas para dizer (o irrevogável oitavo marido da Zsa Zsa Gabor a quem o outro diz que, para o manterem entretido, deram um espelho e um palácio, o baldinho de água fria que o FMI despejou na cabeça dos esquentados pastorinhos milagreiros de S.Bento, e tantos outros assuntos). Mas como, se não páro de me deixar dormir? Já viram isto? Deve haver gente para quem 5mg de Valium não dá sono nenhum mas para mim é tipo Boa-noite Cinderela, fico neste lindo estado.

É que nem consigo sentar-me à mesa onde habitualmente me instalo para escrever isto aqui. Sento-me no sofá entre almofadas, com o computador no colo e vou acordando entre períodos de sono.

E, com o dito comprimido, o que eu sonho enquanto estou a dormir na cama? Uma coisa... Já por duas vezes sonho que estou numa atrapalhação sem me lembrar onde deixei o carro estacionado. A noite passada sonhei que tinha deixado o carro ao pé do Largo do Rato mas não o encontrava em lado nenhum. Na Rua de S. Bento? Nada. Na Rua do Sol ao Rato? Nada. Na Pedro Álvares Cabral? Na Rua do Salitre? Nem pó. Subia e descia as ruas e não via jeitos de carro. Uma aflição, a ter que ir não sei para onde e a não me lembrar onde tinha largado a porcaria do carro. Quando tocou o despertador ainda estava eu neste desassossego.

Vamos ver daqui a nada, quando chegar à cama, que sonho me vai sair na rifa, onde será que desta vez me vou esquecer de onde estacionei o carro.

Adiante. Deixa-me prestar atenção à televisão a ver se me mantenho acordada.

Agora está a dar o noticiário. Uma coisa medonha.




Vejo na televisão imagens impensáveis: luta corpo a corpo nas ruas da Ucrânia, gente a ser arrastada pelas ruas como animais sangrando, outros arrastados pelo chão como espantalhos, as mãos soltas, puxados pelos colarinhos, nem sei se vão vivos se mortos, fumo, fogo, balas, agora é um estudante português que diz que as caixas multibanco estão fechadas, não se pode levantar dinheiro. E, no meio disto, não se sabe quem são os bons e quem são os maus. Parece um filme caótico, uma balbúrdia à moda do oeste, uma monumental zaragata que correu mal, um nonsense que a gente vê e em que mal se acredita.

Maidan é um inesperado cenário de guerra. Aqui há tempos parecia uma terra civilizada. Não sei se o meu filho andou por lá com a então namorada, lembro-me de ver fotografias giríssimas de países da antiga URSS, já nem me lembro de quais. Tantos países que ele já visitou, bem mais que eu. Até na Patagónia já esteve.

(Isto é do estado em que estou. Começo a falar de uma coisa e que até é uma coisa séria e depois divago para outra. Desculpem lá.)

Voltando.

O mundo virado do avesso. E para a coisa ser ainda mais surreal, aparece-me agora na televisão o Bruninho, o Maçães das polacas, a fazer biquinho e sem saber o que diz, isto é areia a mais para a camioneta dele, o negócio dele é bocas e blogues, não ruas sangrentas, situações descontroladas.

Não.

Isto é mesmo um filme, não uma coisa a sério. É demais para ser verdade. As imagens que agora estou a ver só podem ser ficção.




Passam neste momento imagens que ouço dizer que foram colhidas por um drone. A praça é um acampamento cigano de grandes dimensões, e há fumo e fogo - e acima há um drone a sobrevoar tudo e a filmar. As guerras andam estranhas, exacerbadas, irreais.

E agora mostram em Portugal ucranianos de mão no peito, emocionados, a cantarem o hino ucraniano. Quase comove.

Não sei bem o que é isto. O mundo a endoidecer.

Fui ao youtube procurar para tentar perceber se diziam alguma coisa disto do drone e dei com coisas ainda mais surpreendentes. Um rapaz a tocar piano em Kiev, no meio da confusão.






E um outro homem a tocar gaita de foles no meio do tiroteio. À sua volta tudo a arder e ele a passar a tocar. Corajoso, sonhador, despegado, um jovem faz ouvir a sua música numa praça Maidan em chamas. É de loucos.





E depois vejo este vídeo onde jovens explicam que lutam pela liberdade, contra a ditadura, pela democracia. Pedem que os ajudemos.

Eu apoio a luta de jovens pela democracia, pela liberdade, por um mundo bom para se viver. E, por isso, aqui divulgo o seu vídeo.

Tomara que estes que aqui aparecem estejam vivos, de boa saúda e animados para prosseguirem na luta pelos seus sonhos. E tomara que não apoiem movimentos nazis, perigosos.




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  • Sobre as crianças na Síria e sobre a criativa campanha lançada na Noruega, desçam por favor até ao post seguinte.
  • Sobre os vampiros relativamente aos quais Eduardo Loureço lançou um aviso, é no post ainda mais abaixo.
  • Convido-vos também a irem fazer uma visitinha até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje temos Jorge de Sena  surpreendentemente dito por Jel e, ainda, Luis Filipe Castro Mendes a falar do poeta exilado.
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Resta-me, por agora, desejar-vos, meus Caros Leitores, um belo POETS day!

(Aprendi esta do Poets day a semana passada quando um colega meu inglês me perguntou, admirado, o que é que eu estava a fazer a trabalhar àquela hora  - para aí às 4 ou 5 da tarde - num Poets day)


Daria o seu casaco a Johannes? [O frio das crianças na Síria. Na Síria e em todos os países a ferro e fogo. Sacrificaremos o nosso conforto para, de alguma forma, os ajudarmos?]


No post abaixo, dou conta do aviso de Eduardo Lourenço nas Correntes d'Escritas: os vampiros saíram dos filmes para nos virem sugar o sangue. A coisa é séria.

Desçam por favor, para saberem das suas avisadas palavras.

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Mas agora, aqui, a conversa é outra. Aqui fala-se de crianças. De crianças com frio em ambientes de guerra. 

Aqui fala-se de solidariedade.

Veja por favor este filme que me foi enviado por um Leitor a quem muito agradeço.






O que faria se visse uma criança cheia de frio?


Alguém colocou uma câmara escondida e pediu a Johannes, um pequeno actor, para ficar numa paragem de autocarro em Oslo, Noruega. 

O filme foi feito para chamar a atenção para a situação das crianças na Síria e para angariar fundos para as SOS Children's Villages. As crianças na Síria estão cheias de frio - envie um SMS e um casaco.


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Desçam agora, por favor, se querem conhecer as sábias palavras de Eduardo Lourenço.

Eduardo Lourenço lança alerta no Correntes d'Escritas: 'Parece que fomos invadidos por vampiros'. Acrescento eu: cuidado com eles... eles andem aí.





Transcrevo:

Durante a primeira mesa da 15.ª edição do Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, Eduardo Lourenço disse: «Dá a impressão de que, de repente, fomos invadidos, não por uns castelhanos arcaicos nossos vizinhos e que são nossos irmãos e primos, mas por uma espécie de vampiros como aqueles que o cinema de Hollywood ilustra. Não é por acaso que o tema dos vampiros se tornou um tema da moda, os vampiros são emissários da morte, é como se estivéssemos a viver uma espécie de apocalipse indireto».


O autor, que disse não acreditar que o tempo desta «espécie de submissão mansa» vá perdurar, ressalvou não querer contribuir para algo como uma «depressão de segundo grau, por conta dos outros».

(...)

«Os vampiros não são tão vampiros como isso, são pessoas reais. São as pessoas que controlam o sistema que a modernidade foi inventando pouco a pouco, com os seus novos meios de produção, que aumentaram efetivamente de maneira fantástica a possibilidade que os homens têm de aceder a um certo número de coisas que são importantes», disse Eduardo Lourenço, já em resposta a questões do público.

O autor declarou que a televisão é hoje «o objeto mais importante», tendo o «espaço público desaparecido», o que deu origem a um momento em que «tudo se passa na televisão, as intervenções dos comentadores na televisão são mais importantes do que a realidade».

Eduardo Lourenço lamentou que a política já não seja uma «política real».
(...)

Assim, o ensaísta, que constatou saber o que é estar «à beira do abismo» por estar próximo do seu próprio, apelou a que se tenha paciência, antes de entrar «enfim na terra da promissão».



*

A música é Dark Vampiric Music - The Last Vampire, de Peter Gundry.

As imagens provêm do blogue We Have Kaos in the Garden.


quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Fernando Tordo emigra aos 65 anos para o Brasil por não aceitar viver com uma reforma de mendigo - di-lo o filho, João Tordo, numa carta publicada no seu blogue. "Não entristeças, João. Temos dado o melhor de nós e isso não admite gentinha; só aceita dignidade e respeito por vidas que se dedicaram e dedicam não porque têm talento, mas sim porque têm aquele mistério revelado de poderem escrever uma carta como a tua.", responde -lhe o pai.


No post a seguir a este transcrevo um grande texto da Leitora JV para o qual peço a vossa atenção. Poderão não concordar com algumas partes mais controversas mas uma coisa terão que reconhecer: quem escreve assim não é nenhuma mosquinha morta, nenhuma alma aquietada e servil. Não senhora. Grande texto.

Descendo ainda um pouco mais, terão uma comparação entre as taxas de juro conseguidas por Portugal e pela Alemanha e poderão ajuizar sobre o carácter ou sobre a inteligência das criaturas que nos desgovernam. Junto um vídeo da Porta dos Fundos onde o Lacerda exorta os colegas à luta no mundo dos mercados. Convém ver para perceber quem anda a aconselhar o Rato da Pinóquia.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. E não é das melhores.

*

Fernando Tordo e o filho João Tordo


Via-o amiúde. Acho que ainda a semana passada o vi. Alto, vagamente encurvado, elegante na sua aparência simples, um blusão de camurça, aspecto afável, vendo as novidades na Fnac. A gente vê estas pessoas conhecidas e pensa que vivem bem, que terão rendimentos confortáveis, que, se já atingiram a idade da reforma, receberão um valor que lhes permita viver de acordo com a imagem que temos delas.

Muitas vezes me interrogava: pouco já deve actuar, de que vive? As televisões publicitam toda a espécie de lixo e ignoram pessoas como ele. Quem ainda os contratará? Discos já não devem vender. Pensava: se calhar compõe ou produz para outros. Talvez tenha uma boa reforma. 

Mas, no fundo, temia que estivesse apenas a tentar enganar-me. Para minha tranquilidade. Para mentalmente daí lavar as minhas mãos.

Pela carta do filho, o escritor João Tordo, vi agora que a vida, para estas pessoas que deram toda uma vida à música e ao espectáculo e que prezam a qualidade, é afinal muito dura.

TranscrevoA sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país.


Fernando Tordo seria, pois, no linguajar do Láparo e da sua ajudante Pinóquia, mais uma das pessoas que vivia acima das suas possibilidades. Ou, então, comiseração: seria afinal mais um dos afortunados que seria poupado aos cortes nas pensões.

Mas, de facto, pode uma pessoa que tem orgulho, dignidade, que tem uma imagem a defender, deixar-se ficar a viver, recebendo uma reforma de pobrezinho, um dinheiro que não dá para se manter?

Percebo-o.

Mas penso, aterrorizada, se isto fosse comigo. Se daqui por uns anos me vir assim, sem rendimentos que cheguem para a minha subsistência, a ver-me na contingência de viver de economias que rapidamente se esvairiam, e, como alternativa, ter que embarcar para um outro país, bem longe, deixar tudo para trás.

Diz o filho que Fernando Tordo se foi fazer à vida com uma mala e uma guitarra. E que ia animado. Um homem de coragem, pois.


Um país miserável que não respeita os seus artistas, que despreza os mais velhos, é o que é este país. Um país conduzido por uma comunicação social que tem como directores de conteúdos gente como a Cretina Ferreira e outros que tais, gente que escolhe tudo o que é pimbalhice, porcaria, e desconhecem ou desprezam quem dedica a vida à defesa do que considera ser a integridade da arte.

Espectáculos todos os fins de semana por esse país fora e é só indigência, ordinarice, bailarinas reboludas, cantigas com letras brejeiras, lixo. E os canais todos a promoverem isso. Um avacalhamento que envergonha qualquer um que tenha um pingo de decência. Artistas com um mínimo de qualidade: zero.

Diz João Tordo nessa carta:

Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos.

Fico triste por ele que vê o pai partir aos 65 anos, fico triste pelo pai que vai lutar num outro continente, longe da sua casa e dos seus.


Li agora, quando estava a dar por terminado este texto, a resposta de Fernando Tordo ao filho:


Carta ao meu filho João 

Magoaram-te. Não a mim, cinquenta anos de tudo e mais alguma coisa. Magoaram-te porque achas estranho que se diga de um tipo, que para mais conheces bem, o que algumas pessoas disseram e continuarão a dizer. Perante a tua carta que a Eugénia e teu irmão Francisco Maria me encaminharam, o que é fica? Tentação de devolver os insultos com o vernáculo que bem me conheces e és admirador? Não. O que fica, meu querido filho, é a tua carta.

Tenho tanto que fazer, aqui. Por todos vocês. (grande fotografia que a tua irmã Joana me mandou) ela e os meus netos, aqueles sorrisos.

Não entristeças, João. Temos dado o melhor de nós e isso não admite gentinha; só aceita dignidade e respeito por vidas que se dedicaram e dedicam não porque têm talento, mas sim porque têm aquele mistério revelado de poderem escrever uma carta como a tua. Beijo do teu pai Fernando."

*

Que entre agora, pois, um Cavalo à Solta





Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
(...)

*

Relembro: há mais dois posts a seguir a este. Desçam, por favor que acho que não darão o tempo por perdido.

Hoje gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me também no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde tenho Cora Coralina e o seu tocante gosto pela vida. É bom de ler e ouvir. Contagia.

*

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.

(Já estou melhor mas ainda não estou boa e, além disso, de tanto aqui estar ao computador, já estou pior, que chatice. Por isso, e uma vez que já não consigo reler nada, por favor relevem as gralhas - a menos que sejam graves, e, nesse caso, pedir-vos-ei o favor de me alertarem. Obrigada)

"UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" - Palavra de JV. Um grande texto. É polémico? É sim senhor. Mas textos assim são os melhores.


No post abaixo já mostrei o tipo de reuniões em que o Moreira Rato e outros aprendizes de feiticeiros devem participar quando se preparam para ser comidos pelos mercados. O Lacerda da Porta dos Fundos mostra como é. Uma fantástica rábula (que as meninas, especialmente as de ouvidos sensíveis, devem ouvir mas com algodões nos ouvidos).

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui dou a palavra, a eloquente palavra, à Leitora JV. Um texto que merece uma leitura em espaço desafogado pelo que repesco as suas palavras dos comentários e dou-lhes aqui espaço em página autónoma.


Mas primeiro música, por favor: 
Sangue Oculto, GNR





UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" (não me censure, por favor, a expressão não é minha :)). 

Isto é, quando em negociação, cada um não quer apenas fazer o melhor negócio possível para si à custa do outro, à inglesa. Não! Os ingleses sabem que se abusarem podem ficar sem negócio, que é pior do que fazer algumas cedências, por isso há um " self-restraint". O objetivo é sempre económico, uma questão de custo de oportunidade: enquanto o negócio vale a pena, fazem-se cedências.

Ora bem, o português é diferente: muitas vezes sacrifica o objetivo económico para ganhar o jogo das "piças". 

Umas vezes, faz uma proposta que nunca ninguém aceitaria e que se lhe fizessem a ele, tomando-o como parvo, se sentiria insultado (isto é quase sempre obra de advogados, que na ganância de defender o seu cliente a todo o custo, estragam negocio atrás de negócio, prejudicando-os sistematicamente). Outras vezes, têm uma boa proposta em mãos, mas em vez de aceitarem, porque não conseguem melhor, armam-se em picuinhas, apontam defeitos ao que o outro está a oferecer, querem sempre poder dizer que deram mais do que o que receberam. Às tantas o outro ofende-se, e lá se foi o negócio. 

Lembra-se da tal proposta que nunca ninguém aceitaria: pois bem, às vezes, o português está tão desesperado que aceita, e depois, mesmo antes da finalização do contrato, diz que há uns problemazinhos (os tais que levavam ninguém a aceitar a proposta). Ele nunca quis aquele negócio, mas disse que aceitava tudo, que estava tudo bem, para não afugentar o cliente, na esperança de que ao falar nos problemas depois, ainda se faria o negócio. Pois bem: nunca se faz.

Sempre a adiar o problema, sempre a adiar dar a má notícia, mesmo que se saiba que se vai ter de dá-la, andando entretanto a perder tempo com um negócio que está condenado ao insucesso. Ora aqui está o problema da produtividade!

A causa dessa indignidade e falta de civismo no comportamento perante o outro, a falta de boa fé na negociação, não é a raça, porque basta um português passar uns anos em Inglaterra, na Alemanha, na Suiça, ou nos EUA, para os negócios que celebra serem lineares, agir com correção do inicío ao fim e sem dissimulações. Não digo que no estrangeiro não haja dolo e fingimento, tentar lucrar à custa do outro. 

Na Common Law anglo-saxonica nem existe essa coisa da exigência da boa fé nas negociações. Mas todos sabem ao que vão e a melhor maneira de sair a ganhar e dar aos outros a ganhar. Aqui, finge-se que se está de boa fé, dá-se muitos elogios, mas não se abre o jogo: não se diz claramente as condições do negócio. 

Porquê esta mentalidade? É o clima? É a geografia? 

Sabia que vencemos aos espanhóis cerca de 40 batalhas pela independência, desde a formação da nacionalidade até meados do séc. XV, portanto excluindo as pós-1640? Um pequeno país que podia ser uma Catalunha ou um País Basco, reinado a partir de Castela, que existe porque houve um tipo que não queria mais ser vassalo do primo e faltou à palavra que o aio (quiçá pai) deu em seu nome para poder ser rei, jugando sujo, venceu tantas batalhas. Dá que pensar, havemos de estar aqui por algum motivo. E depois os descobrimentos, a expansão marítima, é uma história linda, épica, como não há outra. Como não há outra! 

E então vêm os Padres Antónios Vieiras, os Fernandos Pessoas, os Almeidas Garretts, etc. com a história do 5º império, do sebastianismo, etc., etc. Que raiva me dá essa treta toda! Essas manias de grandeza! 


Todos dizem que somos provincianos, mas vêm com essas teorias, esses mitos e exoterismos (o Pessoa - um tosco, um bêbedo, desculpem-me os admiradores, mas admitindo que nalguns poemas se possa admirar a beleza estética e até uma ou outra ideia interessante que contenham, é um bebedolas xenofóbico, que escreve uma prosa horrível, um doido, no fundo - o Pessoa diz que até o Eça de Queirós era um provinciano, precisamente um dos poucos que portugueses que não o era).


Conhece o movimento da Filosofia Portuguesa do século passado? Que coisa abjeta! Herdeiros da Escola do Porto do Agostinho da Silva e Santana Dionísio dizem que há uma filosofia especificamente portuguesa. 

Não se trata de todos os filósofos portugueses, não, é um modo de filosofar português. Um país que não tem, nunca teve, filósofos, tem um movimento único no mundo que diz que temos uma filosofia só nossa. 

Uma mediocridade tremenda, um provincianismo, que é o que eles próprios dizem que nos caracteriza.

Somos um país periférico e sempre tivemos esse complexo, sempre fomos atrás da Europa, da Moda francesa, das ideologias inglesas, etc., já o João da Ega dizia que importamos tudo e que depois nada nos serve, ficamos com as mangas demasiado curtas ou compridas.

Mas este não é um problema só nosso, também os russo sempre se consideraram periféricos. E outros países que, mesmo no centro da Europa, por serem pequenos e quase sempre ocupados por outros, centram muito as atenções na sua condição específica, por exemplo, a Bélgica. 

Mas mesmo um Dostoievsky muito centrado no específico problema russo (da igreja ortodoxa que destronaria a de Roma, etc.) tem muito de universalidade nos livros que escreve. As suas personagens, muito russas, são também muito humanas. Os problemas por que elas passam, sendo muito russos, são também muito humanos e portanto muito universais. Agora olhemos para o Eça. Acho mesmo que é um dos maiores escritores de todos os tempos, escreve mesmo muito bem, como muito poucos. 

Mas analisando esta questão da especifidade nacional, vemos que as personagens são menos universais, são mesmo só portuguesas. As suas obras são como grandes paradas, grandes cenários, as personagens são secundárias, o ambiente é o principal, aí está a universalidade do Eça, por isso não é tão problemático que os protagonistas sejam tão pouco universais. Não se trata de provincianismo, de maneira nehuma, mas o Eça que era, no fundo, um estrangeirado, olha para Portugal de fora para dentro. 

Sendo o país dos descobrimentos olhamos sempre para Portugal de fora para dentro, e vemos um país de gente inculta, desonesta, feia. É muito difícil um estrangeiro ter paciência para os Maias (sei que para muitos portugueses também, mas digo um estrangeiro culto que goste de boa literatura), mesmo admitindo que o Eça é um grande escritor. 

Porque quase nem há história, ninguém quer saber do amor dos dois irmãos, o que importa ali é ver como é o português e isso não interessa nada ao estrangeiro. Qualquer um lê Dostoievsky dez vezes seguidas. É a alma humana que está ali. E repare que o Eça é universal. Há nos Maias aquela personagem inglesa, o Craft, que é um tipo espetacular, mas passa a vida a dizer "curioso" sempre que acontece alguma coisa às outras personagens, as portuguesas, seja trágica ou divertida. O Eça topou muito bem o tipo inglês: que vê todos os outros como ratos de laboratório ou animais do circo, observando-os para ver como reagem, para se divertir, lá do alto na sua superioridade inglesa. Mas é um universalismo muito pouco humano, não sei se é esta a melhor expressão, mas é a que me ocorre.

Se nos deixássemos de 5ºs impérios e sebastianismos, se admitíssemos que temos uma história engraçada, que desempenhámos um papel de relevo na história da Humanidade com os descobrimentos, se pensássemos mais de dentro para fora, como até a nossa geografia propicia - caramba!, estamos virados para o mundo, de frente para o Oceano - podíamos preocupar-nos menos em ser Grandes como os Pessoas dizem que devemos ser, mas sim em portarmo-nos bem uns com os outros, tentar desenvolver este país que tem um sol maravilhoso, ser menos tristes e lamurientos. 

Porque não faz sentido passarmos a vida a dizer que somos provincianos e que temos uma Missão tipo 5º Império do Espírito e da Filosofia a desempenhar. 


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As imagens são pinturas de Júlio Pomar.

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Relembro que no post abaixo poderão entrar na Porta dos Fundos, uma verdadeira escola de sacanagem, perdição e má vida.

A vida como ela é - ou a explicação dos Lacerdas desta vida aos Moreira Ratos e outros que tais que papam juros de 5 e tal por cento enquanto a Alemanha paga juros que nem chegam a 2%. É na Porta dos Fundos, um lugar muito cá de casa.


Sucesso, dizem os ignorantes. Milagre, dizem os exagerados. Maravilha, dizem os papagaios. Porta-aviões dizem os vice-irrevogáveis.

Tudo charlatanice!

O Governo português andar a contratar mais dívida a 5 e tal por cento quando sabe que isso é um desastre, que soma juros à dívida que nunca vai poder pagar, é daquelas aberrações que mostram o desprezo pela inteligência e pela vida dos portugueses. Que ainda o apregoe como um feito a louvar só revela a falta de vergonha desta gente.

É apenas mais um dos crimes que está a ser cometido sem que uma oposição decente o denuncie. E, no entanto, está à vista de todos.


Transcrevo do Expresso:

A Alemanha acaba de colocar 5 mil milhões de euros em Bunds (obrigações) no prazo a 10 anos pagando uma taxa média de 1,75%, ligeiramente abaixo de 1,77%, a taxa que pagou em 29 de janeiro em operação similar.

Em termos comparativos, o IGCP, a agência de gestão da dívida portuguesa, pagou em 11 de fevereiro uma taxa de 5,112% na operação sindicada de reabertura de uma linha de obrigações que vence daqui a 10 anos. Um diferencial de mais de três pontos percentuais, ilustrativo da designada fragmentação da zona euro.



A vida como ela é - Porta dos Fundos



quarta-feira, fevereiro 19, 2014

"Se quisermos modificar o País, temos de fazer exactamente o mesmo que se faz com os cavalos, temos de mandar vir homens do Norte, ingleses, escandinavos ou suecos, e de montar aqui e além postos de cobrição." No entanto, antes de porem em prática mais esta série de golden visa, deviam pôr os olhos no que a Érica diz do material do João.


No post abaixo já vos falei de como, entre dormir e acordar (efeito do comprimido que tomei), dei com o vice-irrevogável Portas a falar não de submarinos mas sim, imagine-se, de porta-aviões. E como, a seguir, dei com o Pires de Lima a confessar que exagerou quando falou em milagre económico. Aquilo ainda é coisa de quando vendia cervejas e tinha que ser criativo na publicidade.





Estava com esperança de me manter acordada e escrever mais qualquer coisa mas, qual quê?, uma sonolência...

Por isso, vou limitar-me a deixar-vos aqui matéria para reflexão. Quando estou assim como agora estou, dá-me para pensamentos profundos.



Vinha tudo à baila: Deus, o universo, os filósofos e a política. 

Agregavam-se às vezes àqueles homens alguns rapazes, que os ouviam fascinados. Eu era um deles, e ouvi-lhe, uma noite, estas palavras que nunca mais me esqueceram: 

– Escusam de procurar... a nossa ruína não vem dos políticos nem do regime. 

Mudaremos o regime e ficaremos na mesma. O mal é mais profundo – o mal é da raça. 

– A raça? Mas, com esta raça, descobrimos o Mundo!... 

Não me lembro o que ele respondeu, nem mesmo se atendeu à interrogação. Sei que continuou: 

– O mal é da raça. Se quisermos modificar o País, temos de fazer exactamente o mesmo que se faz com os cavalos, temos de mandar vir homens do Norte, ingleses, escandinavos ou suecos, e de montar aqui e além postos de cobrição. 




Leio isto e fico a pensar. Será isto que o Lombinha dos Saudosos Briefings e o Poiazinha Madura, os neo-olheiros do regime, têm em mente quando prometem golden visa para imigrantes talentosos. 


Será? Será que querem apurar a raça? Será que essa será o próximo passos coelho a saltar da cartola? Primeiro atraíram chineses, russos, angolanos, guineenses equatoriais. Depois dizem que depois de malta da pesada, dos que lavam dinheiro, canibais, gente de mete medo à UE e etc, agora querem gente com talento. 

Ou seja, não é do talento que os da primeira tranche mostram que andam agora atrás. Ora bem: é bem capaz de ser malta para os ditos postos de cobrição. Eu já não digo nada. Das cabecinhas pensadoras deste desgoverno tudo é possível.

Mas, uma vez mais, lamento que desprezem os que cá estão para depois irem dar vistos golden aos que vêm de fora. Então não temos por cá gente talentosa?


A Érica, a Vencedora,  que o diga, revelando o segredo do João, seu colega na Casa dos Segredos (ou no Desafio Final?), respondendo a uma Fátima Lopes salivando por uma resposta circunstanciada, mas diga lá, tem que ser capaz de dizer o que é que o João tem de especial, nham, nham.




(Com um João que tem um material que envergonha pretos... ingleses, escandinavos, suecos para quê? )

*

Bem agora vou-me deitar porque já me está outra vez a doer mais o pescoço e além do mais, no registo em que vou, ainda acabo a dar mais pretextos aos meus filhos quando tentam apelar a que o pai controle o que a mãe aqui escreve. 

*

O texto em itálico faz parte de 'Sangue' in 'Vale de Josafat – Memórias, Tomo III' de Raul Brandão, 1933.


*

Sobre o Paulinho das Feiras a ver se exporta porta-aviões numa feira de enchidos (estou a brincar, não sei se a feira era de enchidos) e sobre a santinha arrependida, a Pirosa Limiana, é favor descerem até ao post abaixo. 

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira! 
Haja saúde e boa disposição.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

Paulo Portas é o porta-aviões dos excessos de linguagem e dos sound bites deste Governo. Bem pode o amigo Pires de Lima confessar, compungido, que aquilo do 'milagre económico' foi um exagero. Não há cão com pulgas, papagaio ou mentecapto encartado que não tenha pegado na ideia e não ande por aí a cantar de galo: "É o milagre! É o milagre!", dizem eles e o cortejo de papagaios acéfalos avençados ou na esperança de o serem.


Começo por agradecer o vosso cuidado e as vossas palavras simpáticas. Sabem-me bem as palavras de carinho ou apoio. 

Não estou ainda grande coisa, longe disso. Nem sei bem que coisinha má é que me deu. Ontem estava febril, com a nuca toda apanhada, dores terríveis. Já tive muitos torcicolos ou dores nas costas mas nada que se compare com isto. É que nem é bem no pescoço, é na base da cabeça, umas dores, um incómodo, uma incapacidade de me mexer. Pus Voltaren em pomada, e nada, e ontem à noite comecei a tomar anti-inflamatório e um relaxante muscular. Aqui há tempos o meu marido também ficou todo apanhado e o médico receitou-lhe isto. Sei que a auto-medicação é coisa que não se deve fazer mas, estando uma pessoa mal se podendo mexer, como ainda ir a algum lado, trânsito, dificuldade em estacionar, tempos de espera? Impossível. Ao médico vai-se quando não se está muito apanhado.

A minha filha fica um bocado apreensiva, acha que isto da garganta e estas dores na nuca não devem ser coincidência, por vontade dela eu ia já para o hospital mas sei que o que me dói são os músculos, não é por dentro, ou seja, não são as meninges. A garganta também ainda não está famosa, estou meio afónica, até me cansa ter que falar. Hoje, de cada vez que alguém me vinha pôr problemas, só não era recambiada a grande velocidade por pura cortesia.

Mas lá me aguentei. Sou razoavelmente estóica (só para verem: tive os meus filhos tirados a ferros e tudo sem anestesia, tinha medo que a anestesia lhes fizesse mal e, para além disso, achava que eu não era mais do que qualquer bicho da natureza que também não recebem anestesia para parir) e, além do mais, detesto estar doente. Por isso, prefiro fazer das tripas coração e fingir que estou melhor. 

Uma vez chegada a casa não fui uma vez mais, como é natural, fazer a minha caminhada. Tomei o dito relaxante pois devia tê-lo tomado logo de manhã mas não me arrisquei, desataria a dormir como se não houvesse amanhã. Já hoje de manhã para conseguir acordar foi um castigo mas isso deve ter sido porque mal consegui dormir de noite, nada daquilo me fazia efeito. De madrugada, levantei-me e tomei 1gr de ben-u-ron e acho que foi isso que fez abrandar as dores.

Então agora estou aqui no sofá, toda a apoiada em almofadas e com o computador ao colo. O que vale é que havia comida feita no frigorífico. O meu marido anda a aquecê-la e eu estou a ver televisão e a escrever isto. Comecei às 20h e as vezes que já adormeci já lhes perdi a conta. Depois acordo, escrevo duas linhas, depois volto a cair a dormir.

No meio deste registo vi o Paulo Portas numa feira, a dizer a toda a gente 'Bons negócios', todo ele sorrisinhos, olhos revirados, pestanejares profundos, a provar presunto, bolinhos e sei lá que mais e, actor de primeira água, lá se ia mostrando deliciado, soltando longos huuummms, parecia ele que estava a comer manjares dos deuses, todo ele rejubilante por andar numa coisa parecida com uma feira. 


Às tantas aquilo era mesmo uma feira, mas, na parte em que devem ter dito qual o local da cena, estava eu a dormir. 


Depois ouvi-o todo ufano a falar do milagre, que os responsáveis eram as empresas mas também o governo, e todo ele requebrava o discurso, poses e frases feitas. 


O sound bite do dia foi que as exportações são o porta-aviões da recuperação.


Depois sorriu todo contente - provavelmente contente por ter conseguido dizer aquilo sem que um arreliador lapsus linguae lhe atrapalhasse a festa. Imagine-se se, em vez de porta-aviões, lhe sai submarino...


Depois caí outra vez no sono. Quando vim a mim estava o súbdito do vice-irrevogável, o cervejeiro Pires de Lima,  a confessar que aquela tirada do milagre económico tinha sido um exagero linguístico, que claro que não havia milagre nenhum. 


Hélàs, bem pode ele agora mostrar-se arrependido que os outros já lhe pegaram na palavra e não fazem outra coisa senão arranjar provas para justificar o milagre. 


Um que viu a virgem a deitar lágrimas de vinho tinto, produto que está com uma saída que só visto, outro a dizer que uns anõezinhos juram que viram uma santa exportadeira em cima de uma azinheira, outros que nunca viram exportar tanto sémen da cão - tudo coisas que só provam o empreendedorismo do povo português quando devidamente encarreirado por governantes neo-espertos.



A propósito de cão: quando acordei de novo sono profundo, apareceu-me o Marco António a lamentar-se por os do PS não andarem de rastos a implorar o perdão aos agentes do milagre, os neo-pastorinhos de S. Bento. 


... Pausa para ir jantar...


Agora já jantei e já estou outra vez recostada entre almofadas mas agora o meu marido já aqui está também e, portanto, a televisão já está sintonizada no futebol, o Baía e o Dany a comentarem um jogo qualquer e, portanto, já não tenho motivo de conversa. Diz-me que já muda mas que este jogo foi importante. Faço ideia... Uma seca, é o que é.


*

A primeira imagem é do blogue We have Kaos in the Garden e a segunda é do blogue Jumento.
A última deve ser de alguma firma que comercializa tratamentos para dar cabo das pulgas dos cães.

*

A ver se ainda cá consigo voltar - isto se não cair de vez num sono profundo.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Hoje não dá. Sorry. Log out


Meus Caros. Ninguém é de ferro e eu muito menos. No sábado à noite estava mal da garganta e com um pouco de torcicolo, talvez por andar a brincar ao frio, a subir e descer, com crianças ao colo. Não liguei apesar da crescente rouquidão e da intensificação das dores no pescoço.

No domingo à noite já estava mesmo aflita. Aliás hoje, quando dei uma vista de olhos ao que tinha escrito de véspera, dei com gralhas absurdas, parece que a cabeça estava mesmo trocada.

De noite, quase não consegui dormir, sem posição, aflita com dores. Fui trabalhar na esperança de que passasse mas, ao longo do dia, se a garganta estava melhor, o torcicolo já era quase uma guilhotina. Mal me podia mexer. Ao contrário do que é costume em mim, saí a meio da tarde. Já me vi aflita para conduzir. Com a cabeça encostada ao banco, vim na base da ginástica com os olhos. Tolhida, tolhida.

Agora estou aqui aflita, parece que isto já está a estender-se para os ombros, já (auto) medicada e espero que amanhã esteja operacional. Mas, para minha pena, não consigo escrever mais do que esta explicação meio pindérica. O meu marido trouxe-me o computador e, quase sem ver onde ponho as mãos, estou a alinhavar estas linhas.

Mas vou já desligar. Não dá mesmo.



Log out - Porta dos Fundos.


Até amanhã.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.


O amor no Facebook. Quais as melhores cidades para se arranjar alguém disponível? Como são os contactos nos dias que precedem a concretização da relação? Qual a reacção quando se rompe uma relação? - Usando a vasta matéria disponível nas suas incomensuráveis (e desprotegidas?) bases de dados, os cientistas do Facebook fizeram um estudo em que as probabilidades e estatísticas incidiram sobre os Relacionamentos Amorosos que por lá decorrem. O 'admirável mundo novo' que se antevê no filme Her cada vez mais próximo.


No post abaixo, dei a palavra a pessoas inteligentes, lúcidas e que mostram que sabem manter-se de pé. Publicaram textos admiráveis na última semana e faço questão de ter aqui as suas palavras como um registo dos tempos que correm. 

Estou muito segura das minhas convicções mais profundas (ie, querer o bem comum, não querer que uns explorem outros, querer que todos possam ter as mesmas oportunidades, querer o progresso e o desenvolvimento feitos em nome da melhoria das condições de vida das pessoas, etc - coisas básicas mas das quais nunca me esqueço nem mesmo quando não fazem outra coisa senão atirar-me poeira para os olhos), e sei pensar por mim, sei fazer contas, estudei lógica e faço questão de a exercitar quotidianamente, etc, etc, etc, pelo que considero que sei analisar razoavelmente bem as situações que se me deparam.

Mas ninguém é o melhor juiz em causa própria pelo que, pelo sim, pelo não, gosto de saber o que pensam pessoas que considero terem boa cabeça e não serem desses avençados ou marias-vão-com-as-outras de que os media estão cheios. Gosto de confrontar as minhas opiniões com a de outros que respeito.

O que poderão ler abaixo é uma espécie de best of do que li nos jornais da semana que passou. Palavras fortes ou irónicas, palavras contundentes ou, apenas, desencantadas. 

Estando mais do que avisada para que aqui na blogosfera os textos não se querem grandes, tentei atenuar o efeito de 'lençol', ilustrando o post com imagens da autoria de Pawel Kuczynski que me parece que vêm a calhar com o que ali se diz e escolhi um acompanhamento musical que me parece também adequado, o Lamento da Ninfa, interpretado pelos L'Almodí Cor de Cambra.

Mas isso é no post a seguir a este. Aqui, agora, a conversa é muito diferente. Aqui a conversa é sobre amor. 

*

Eu, como é sabido, prefiro os relacionamentos ao vivo e a cores, cartas de amor, mão na mão, mão na..., etc e tal, pelo que faço entrar Diana Krall para nos cantar a sua versão de Love Letters.






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Li a notícia 'O olhar do Facebook sobre as relações amorosas' no Público, escrita em toda a sua inocência, fiz pesquisas e em vários outros jornais respeitabilíssimos a nível internacional dei com a idêntica descrição do comportamento dos que se mostram interessados ou apaixonados, depois com a descrição de como decorrem os contactos enquanto dura a relação e, finalmente, quando há um desfecho negativo, como é o day after e os seguintes. Como se isto fosse uma coisa normal.


Não é.

Transcrevo pequenos excertos de um artigo que, por estar em língua portuguesa, retiro do Público; mas, do que vi por todo o lado, o tom é o mesmo - nada mais que uma pequena frase de reserva que quase passa despercebida (coloquei-a mais escura para que reparem nela).


(...) em cerca de dois terços dos relacionamentos entre pessoas de sexo diferente o elemento do sexo masculino é mais velho. Em média, tem dois anos e cinco meses mais do que a mulher. Em Portugal, a diferença está abaixo dos dois anos.

Numa outra análise — que vem mais uma vez ilustrar o poder do Facebook para escrutinar a actividade dos utilizadores —, os investigadores resolveram olhar para as interacções de pessoas que tinham acabado uma relação recentemente. A ideia era perceber se a rede social funcionava naqueles momentos como uma plataforma de apoio por parte de amigos e familiares. Foram recolhidos dados sobre as mensagens enviadas e recebidas, as publicações feitas e os comentários em publicações, tanto dos utilizadores em análise, como dos respectivos amigos.

Os números acabaram por mostrar um aumento médio de 225% nas interacções ao longo do dia correspondente ao fim da relação, seguido por um decréscimo nos dias seguintes, para valores que acabam por ser superiores aos existentes no período anterior ao rompimento.

A rede social também parece funcionar como um instrumento de aproximação entre os elementos do futuro casal, que perde importância à medida que o início do relacionamento se aproxima. Analisando as interacções no Facebook feitas entre duas pessoas nos 100 dias antes daquele em que declararam estar numa relação, é visível um aumento de interacções ao longo de 88 dias. Nos 12 dias anteriores, as interacções sofrem uma queda abrupta, que continua nos dias após o início do relacionamento. Presumivelmente, a interacção online é substituída por outras formas de contacto.

(...)


No estudo é interessante ver os diversos capítulos como, por exemplo, o que se refere à Formação do Amor onde se escrutinam as palavras escritas antes do dia em que a relação é assumida e o que se passa a seguir.

Ler este estudo é tomar contacto com um mar de curiosidades. Contudo, para mim é a prova consumada da perversidade de toda esta máquina fora de controlo onde as pessoas se expõem e inocentemente confiam na privacidade do que lá fica guardado. As pessoas pensam que, por falarem em privado, isso não é visto por mais ninguém.

Engano.

O que é escrito no Facebook, em zonas públicas ou privadas, fica armazenado nos computadores do Facebook, acessível a quem os gere.

Mais do que aquilo estar acessível, aquilo está de facto ao serviço do modelo de negócio da empresa Facebook, uma das maiores do mundo. A empresa Facebook vive de vender publicidade, cruzando o que os vendedores querem vender (pagando por isso) e as pessoas cujos perfis apontam para que sejam receptivas a certos produtos ou serviços.

Por exemplo, se eu tivesse perfil no facebook e falasse de sapatos e tivesse amigas que falassem de sapatos, é certo e sabido que me haveria de aparecer publicidade relativa a sapatos, moda, etc - a mim e a elas.

Ou seja, há programas informáticos que 'varrem' tudo o que é escrito (seja em público ou em privado), catalogando por temas tudo o que por lá se passa. Uma vez tudo devidamente indexado, a máquina comercial começa a funcionar.

Mas a vassoura informática, como agora se vê, não procura apenas temas que possam transformar-se em negócio: procura tudo o que vem à cabeça dos cientistas que por lá trabalham.

Cientistas à solta, num mundo desregulado, e a operarem num mundo global, sem fronteiras, acima dos estados e das leis, são um risco.

Agora deram-se ao luxo de ir ver quando é que as pessoas começam a dar mostras de se estarem a aproximar de outras e, a partir daí, seguem-nas, medindo o número de vezes que dizem amor, desejo, beijo, sexo, etc, cruzando as trocas de palavras entre o par amoroso com as que se dizem aos amigos, contextualizando os factos. Isto e muito mais. Vêem as idades e as religiões dos casais, estabelecem padrões comportamentais.

Claro que tudo isto (até ver e do que se sabe) é feito sem cuidar de saber se estão a ver a informação de A ou de B. Mas, ainda assim, isto revela como tudo está disponível e acessível para que todos os malucos que o queiram usem e abusem do que por lá encontram.

Estas empresas contratam em larga escala os melhores alunos de cursos como a Matemática, a Física, a Engenharia Informática. Cientistas destas áreas pelam-se por estudos deste tipo, desafiantes, complexos, em que possam aplicar tudo o que aprenderam. Eu que estudei matérias destas e modelos e processos de simulação, etc, leio isto e ocorrem-me logo estudos interessantes que se poderiam fazer com base na quantidade quase infinita de informação disponível. Deixassem-me à solta (e fosse eu outra), saberia bem como me tornar um perigo.

O filme Her, em que um homem se apaixona por um sistema operativo, assenta a história no facto de alguém ter concebido sistemas operativos aptos a analisarem a informação relativa a cada utilizador e, a partir daí, assumirem os contornos que venham mesmo a calhar para se tornarem insubstituíveis na vida do user. Ou seja, por exemplo, se o homem se divorciou, sai-lhe um computador que fala com uma voz feminina sensual, atenta e carinhosa, se o homem escreveu num determinado dia um mail mais emotivo, lá estará a voz de mulher a fazer conversa sobre isso, compreensiva, querendo saber pormenores. De facto, um filme como este dá bem o sinal do que será tecnicamente possível se tudo for permitido.

É engraçado uma pessoa apaixonar-se por um programa de computador, é curioso, é perturbante, tem o seu toque de exotismo, de interdito, é tudo isso, mas até que nível de devassa estamos dispostos a permitir por parte de terceiros e para que tipo de solidão caminhará a espécie humana se se for afastando dos seus amigos e amantes de verdade e, aos poucos, se for deixando envolver por programas concebidos para manipular as pessoas, tornando-as dependentes e, de facto, cada vez mais solitárias?






Her é dirigido por Spike Jonze e é interpretado por Joaquin Phoenix que faz o solitário Theodore  .
O sistema operativo dá pelo nome de Samantha e a voz é de Scarlett Johansson


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As imagens sobre o Facebook são, uma vez mais, de Pawel Kuczynski.

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Relembro que se, depois deste, seguirem até ao post abaixo, poderão ler textos admiráveis de vozes inteligentes e lúcidas publicadas na semana que passou (e, também, ver as imagens muito apropriadas do polaco que também ilustra este post.

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Faço ainda questão de vos convidar o irem até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje é dia grande: há um novo vídeo do Cine Povero. Desta vez é a poesia de Herberto Helder na voz de Fernando Alves e tudo, uma vez mais, maravilhosamente entretecido pelo Cine.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta semana.
Saúde, alegria, sorte - é o que vos desejo.

domingo, fevereiro 16, 2014

Retrato dos tempos que correm: a palavra a Rui Zink, Pedro Tadeu, Viriato Soromenho Marques e Pedro Santos Guerreiro. 'O aprendiz de Maquiavel em dez lições'. 'A Europa prometeu-nos o paraíso. Lembra-se?'. 'Regras de etiqueta'. 'Vende-se, bom preço'. A música é 'Lamento della Ninfa' interpretado pelos L'Almodí Cor de Cambra e as ilustrações são de Pawel Kuczynski.


A palavra a quem a usa com inteligência, serenidade e lucidez - e felizmente, apesar de tudo, ainda há vozes assim na nossa imprensa.

As imagens ternas e tristes na sua crueza são de Pawel Kuczynski, um polaco nascido em 1976, formado em Artes, que já recebeu inúmeros prémios e cuja obra se debruça essencialmente sobre pobreza, a fome, a guerra, o trabalho infantil, a corrupção política, a poluição, a exploração e a desigualdade social.


Mas, antes, por favor, música: L'Almodí Cor de Cambra interpretam Lamento della Ninfa de Claudio Monteverdi.

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O aprendiz de Maquiavel em dez lições - RUI ZINK 


Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras.


1. Inculca culpa na tua vítima. Convence-a de que é responsável pelo que lhe está a acontecer. Se o fizeres, a tua tarefa estará facilitada. Lembra-te: se aqui vítima há, és tu, cujas intenções são “incompreendidas” pelos “ingratos e invejosos”.

2. Usa palavras mágicas: pátria, empreendedorismo, sacrifício, futuro, reformas, construir, acreditar, inovação. Baralha-as numa Bimby e faz bimbices. Se conseguires dizer sem te rires algo como “Pensar e preparar o futuro do nosso país é proporcionar às gerações que nos irão suceder as ferramentas adequadas para construir um Portugal diferente, num quadro de qualidade, responsabilidade e inovação”, tens um lugar assegurado.

3. Diz que compreendes a insatisfação dos prejudicados e concordas que, sim, têm razão, mas agora não pode ser nada. Justifica-te com a burocracia, a qual és o primeiro a combater. Pede para adiarem o seu protesto, que tu próprio reconheces como justo, “houve de facto erros, a corrigir no futuro”, mas que em breve tudo se resolverá, se as pessoas tiverem “calma e paciência” e souberem “aguardar discretamente”.

4. Desvia as atenções. A forma mais prática de aliviar uma afta é martelar um dedo. Estudo de caso: há anos, um governo estava em crise com uma sucessão de demissões. Um ministro de génio (para estas coisas) marcou uma conferência de imprensa a anunciar a construção da terceira ponte lisboeta sobre o Tejo. Todos os jornalistas caíram no engodo – por malícia, naiveté ou pura cumplicidade. Aplica estes e os outros preceitos e terás a vida facilitada.

5. Usa factos. Não importa quais. E números. Muitos números. Mostra gráficos. Sê firme, mesmo que não saibas o que estás a dizer. Não te preocupes, com sorte o teu interlocutor não terá informação ou coragem para te confrontar, e o risco de seres apanhado é inferior a 1,6% (número que acabo de inventar, aliás). Quando te apresentarem factos contrários, responde que “são casos isolados”. Simplifica ao absurdo mas, se necessário, foge na direcção contrária, e diz que “a questão é demasiado complexa” para ser tratada “daquela maneira” na praça pública.

(...)

7. Sabes que a crise tem unicamente por função baixar “o custo do trabalho”. Corrijo: também servirá para vender alguns anéis públicos, e os dedos que a eles vierem colados. Só que baixar o custo do trabalho é a prioridade. Infelizmente, não o podemos dizer desta maneira. Então mostra compaixão, geme, condói-te, solidariza-te, “compreende”. Etc. Faz como te digo e vais ver que tudo corre bem.

8. Defende e respeita a tradição. Porque a tradição é “a alma dum povo”. Lembra que, em contrapartida, para progredir é preciso “proceder a reformas necessárias”. E são sempre necessárias, essas reformas, ainda que “dolorosas”. Tu compreendes que são dolorosas, só que necessárias. Em simultâneo, tenta respeitar “as bonitas tradições do nosso povo e de nossos pais”. E nenhuma é tão bonita como o futebol.


Cumpre estas leis e poderás, pela calada, desobedecer a todas as outras. Ámen.

(...)


*


A Europa prometeu-nos o paraíso. Lembra-se? - PEDRO TADEU


Primeiro é a Suíça. Seguir-se-ão, é previsível, a Grã-Bretanha e a França (entretanto liderada por Marine Le Pen) e, depois, uma catadupa de Estados pequenos mas ainda abastados da União Europeia até, finalmente, chegar a vez da Alemanha. Se eu tiver razão - e espero que não - dentro de meia dúzia de anos acabou-se a liberdade de circulação de trabalhadores entre os países assinantes do tratado de Schengen e da União Europeia.

Em contrapartida, cada um destes países, que procura livrar-se de imigrantes vendedores de mão-de-obra, tenta ser mais competitivo do que os seus aliados na capacidade de atracção de capital estrangeiro.

Temos soluções, estilo "visa gold", a dar nacionalidade europeia a qualquer riquito que se apresente com meio milhão de euros e esteja disposto a ser enganado na compra de imobiliário sobrevalorizado, como está a acontecer em Portugal.

Temos uma constante diminuição do nível de impostos sobre as empresas - enquanto os impostos sobre o trabalho sobem - a transformar cada vez mais Estados desta Europa da globalização numa montra de paraísos fiscais com falso selo de respeitabilidade. Olhem para a Holanda, para o Luxemburgo e para o que quer fazer a Irlanda.


Temos até o socialista António José Seguro a prenunciar uma governação estilo François Hollande (típica da esquerda baralhada), ao defender tribunais especiais para estrangeiros investidores que queiram comprar os favores da nossa justiça.
(..)
Se nada mudar, a Europa do futuro é já desenhável pelas tendências das reformas fiscais: as baixas do IRC, os benefícios fiscais e a diminuição das taxas de Segurança Social para as empresas, que se discutem e se aplaudem de Lisboa a Sófia, enquanto o ataque aos pensionistas e ao IRS dos empregados não é, de maneira alguma, exclusivo português.

A Europa do futuro abrirá, assim, os braços a passadores de droga que tentam lavar dinheiro sujo; até os subsidiará. A Europa do futuro terá pedras na mão para receber um operário que procura trabalho noutro país da União. A Europa do futuro aceitará ser a sede luxuosa de empresas que escravizam, em fábricas distantes, crianças de 8 anos. A Europa do futuro recusará um visto a um jovem cientista candidato a um contrato de três anos num laboratório de ponta.


A Europa do passado prometeu-nos o paraíso na terra. Lembra-se?


no DN

*


Regras de etiqueta - VIRIATO SOROMENHO MARQUES


A expulsão pelo PSD de António Capucho, um cidadão respeitado e com serviço público prestado visível, não me parece uma simples questão de (in)disciplina partidária. Confronta-nos, sobretudo, com a dura realidade do envelhecimento da nossa democracia representativa. 


Em quatro décadas passámos do mais puro idealismo de partidos entendidos como organizações ao serviço do desejo de participação cívica dos eleitores, para a partidocracia pura e dura actual. Mesmo nas zonas da esquerda mais longínqua, onde o acesso ao Orçamento de Estado é bastante indirecto e rarefeito, quem quiser abrir a janela pode constipar-se. 

Por exemplo, o tratamento que tem sido dado a Rui Tavares, e ao seu novo partido, evoca a atmosfera descontraída do filme Há Lodo no Cais... 

Em poucas décadas, os partidos transformaram-se de instrumentos da cidadania em agências de empregos bem pagos para pessoal com baixas classificações, mas pronto para qualquer função. Voltar a meter muito da "cultura" praticada pelos partidos na ordem constitucional, que não os desenhou para serem fins-em-si-mesmos, não será tarefa fácil. 

Mais do que nunca reina o princípio de que quem ganha as eleições administra os despojos (spoils system). E numa altura em que o troféu é um país inteiro, mutilado no seu património, aturdido no seu ânimo, e que até a alma parece ter para venda, a unidade de comando do chefe máximo torna-se indiscutível. 

Querem uma síntese para o caso António Capucho, e para a recusa do seu pedido de defesa antes da aplicação da sentença de expulsão? À mesa não se fala...



No DN


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Vende-se, bom preço - PEDRO SANTOS GUERREIRO



Vendem-se direitos humanos e língua portuguesa, base de licitação de 133,5 milhões de euros depositados no Banif. Quem dá? Pás!, vendido à Guiné Equatorial.


Vende-se inocência para pequenos e grandes devedores fiscais. Bom negócio, oferta de juros e coimas. Quem quer? Arrematado: encaixe de 1,3 mil milhões de euros, desconto de 500 milhões. Siga para bingo.
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Vendem-se impostos baixos para empresas, inclui benefícios fiscais para grandes empresas. Só para VIP. Custo: 70 milhões de euros no primeiro ano, 220 milhões nos seguintes.
(...)

Vende-se austeridade. Custo: uma geração. Pagamento em recibos verdes.


Vende-se ilusão de ultrapassagem da crise. Custo: 130% de dívida pública.


Vendem-se anéis como se não fossem dedos, corpo como se não fosse a alma, palavras como se não fosse a palavra.

Compra-se submarinos, estradas vazias, bancos validos e dívida pública cara. Sem devolução. Paz? Pás.



No Expresso de 15/2/2014



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