Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Fernando Tordo emigra aos 65 anos para o Brasil por não aceitar viver com uma reforma de mendigo - di-lo o filho, João Tordo, numa carta publicada no seu blogue. "Não entristeças, João. Temos dado o melhor de nós e isso não admite gentinha; só aceita dignidade e respeito por vidas que se dedicaram e dedicam não porque têm talento, mas sim porque têm aquele mistério revelado de poderem escrever uma carta como a tua.", responde -lhe o pai.


No post a seguir a este transcrevo um grande texto da Leitora JV para o qual peço a vossa atenção. Poderão não concordar com algumas partes mais controversas mas uma coisa terão que reconhecer: quem escreve assim não é nenhuma mosquinha morta, nenhuma alma aquietada e servil. Não senhora. Grande texto.

Descendo ainda um pouco mais, terão uma comparação entre as taxas de juro conseguidas por Portugal e pela Alemanha e poderão ajuizar sobre o carácter ou sobre a inteligência das criaturas que nos desgovernam. Junto um vídeo da Porta dos Fundos onde o Lacerda exorta os colegas à luta no mundo dos mercados. Convém ver para perceber quem anda a aconselhar o Rato da Pinóquia.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. E não é das melhores.

*

Fernando Tordo e o filho João Tordo


Via-o amiúde. Acho que ainda a semana passada o vi. Alto, vagamente encurvado, elegante na sua aparência simples, um blusão de camurça, aspecto afável, vendo as novidades na Fnac. A gente vê estas pessoas conhecidas e pensa que vivem bem, que terão rendimentos confortáveis, que, se já atingiram a idade da reforma, receberão um valor que lhes permita viver de acordo com a imagem que temos delas.

Muitas vezes me interrogava: pouco já deve actuar, de que vive? As televisões publicitam toda a espécie de lixo e ignoram pessoas como ele. Quem ainda os contratará? Discos já não devem vender. Pensava: se calhar compõe ou produz para outros. Talvez tenha uma boa reforma. 

Mas, no fundo, temia que estivesse apenas a tentar enganar-me. Para minha tranquilidade. Para mentalmente daí lavar as minhas mãos.

Pela carta do filho, o escritor João Tordo, vi agora que a vida, para estas pessoas que deram toda uma vida à música e ao espectáculo e que prezam a qualidade, é afinal muito dura.

TranscrevoA sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país.


Fernando Tordo seria, pois, no linguajar do Láparo e da sua ajudante Pinóquia, mais uma das pessoas que vivia acima das suas possibilidades. Ou, então, comiseração: seria afinal mais um dos afortunados que seria poupado aos cortes nas pensões.

Mas, de facto, pode uma pessoa que tem orgulho, dignidade, que tem uma imagem a defender, deixar-se ficar a viver, recebendo uma reforma de pobrezinho, um dinheiro que não dá para se manter?

Percebo-o.

Mas penso, aterrorizada, se isto fosse comigo. Se daqui por uns anos me vir assim, sem rendimentos que cheguem para a minha subsistência, a ver-me na contingência de viver de economias que rapidamente se esvairiam, e, como alternativa, ter que embarcar para um outro país, bem longe, deixar tudo para trás.

Diz o filho que Fernando Tordo se foi fazer à vida com uma mala e uma guitarra. E que ia animado. Um homem de coragem, pois.


Um país miserável que não respeita os seus artistas, que despreza os mais velhos, é o que é este país. Um país conduzido por uma comunicação social que tem como directores de conteúdos gente como a Cretina Ferreira e outros que tais, gente que escolhe tudo o que é pimbalhice, porcaria, e desconhecem ou desprezam quem dedica a vida à defesa do que considera ser a integridade da arte.

Espectáculos todos os fins de semana por esse país fora e é só indigência, ordinarice, bailarinas reboludas, cantigas com letras brejeiras, lixo. E os canais todos a promoverem isso. Um avacalhamento que envergonha qualquer um que tenha um pingo de decência. Artistas com um mínimo de qualidade: zero.

Diz João Tordo nessa carta:

Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país - do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos.

Fico triste por ele que vê o pai partir aos 65 anos, fico triste pelo pai que vai lutar num outro continente, longe da sua casa e dos seus.


Li agora, quando estava a dar por terminado este texto, a resposta de Fernando Tordo ao filho:


Carta ao meu filho João 

Magoaram-te. Não a mim, cinquenta anos de tudo e mais alguma coisa. Magoaram-te porque achas estranho que se diga de um tipo, que para mais conheces bem, o que algumas pessoas disseram e continuarão a dizer. Perante a tua carta que a Eugénia e teu irmão Francisco Maria me encaminharam, o que é fica? Tentação de devolver os insultos com o vernáculo que bem me conheces e és admirador? Não. O que fica, meu querido filho, é a tua carta.

Tenho tanto que fazer, aqui. Por todos vocês. (grande fotografia que a tua irmã Joana me mandou) ela e os meus netos, aqueles sorrisos.

Não entristeças, João. Temos dado o melhor de nós e isso não admite gentinha; só aceita dignidade e respeito por vidas que se dedicaram e dedicam não porque têm talento, mas sim porque têm aquele mistério revelado de poderem escrever uma carta como a tua. Beijo do teu pai Fernando."

*

Que entre agora, pois, um Cavalo à Solta





Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
(...)

*

Relembro: há mais dois posts a seguir a este. Desçam, por favor que acho que não darão o tempo por perdido.

Hoje gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me também no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde tenho Cora Coralina e o seu tocante gosto pela vida. É bom de ler e ouvir. Contagia.

*

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira.

(Já estou melhor mas ainda não estou boa e, além disso, de tanto aqui estar ao computador, já estou pior, que chatice. Por isso, e uma vez que já não consigo reler nada, por favor relevem as gralhas - a menos que sejam graves, e, nesse caso, pedir-vos-ei o favor de me alertarem. Obrigada)

8 comentários:

Bob Marley disse...

isto está tudo equilibrado, uns partem para outros se multiplicarem - https://www.youtube.com/watch?v=wvjgaOIcwjY

Anónimo disse...

um jeito manso de dizer adeus. país miserável este onde vivemos. vi o Fernando muitas vezes por aí, leio o João. um país indigno dos seus filhos. repugna-me ter nascido aqui, já cheguei a isto. repugna-me!

Anónimo disse...

Belo Post! Concordo com o comentário do anónimo. País governado por uma escória imunda, um bando de filhos da puta, se me desculpa a linguagem!
P.Rufino

Bob Marley disse...

Ora aqui esta um man, para o qual o acordo ortográfico, até pode ser em papel renova, já agora macio - http://www.youtube.com/watch?v=XcnXMyGS0Xo&feature=youtu.be

jrd disse...

Tordo merecia muito mais do que este pais.
Fez mais por esta terra do que ela fez por ele.
Entretanto, as vozes do opróbrio dos que decidem ficam por cá.

Cavaco Cavaquices disse...

Olá, UJM!

Fico muito contente por achar que não sou uma mosquinha morta ;) Mais a sério, as suas palavras são sempre muito simpáticas, muito obrigada.

Realmente é uma pena o que se está a fazer ao povo português. Agora até os reformados têm de emigrar. Já não basta os jovens altamente qualificados que vão para a Alemanha... Por falar nisto, sabe o que ouvi dizer um emigrante português na Alemanha há uns dias? Dizia ele que na Alemanha aquilo também era grupo: sexta feira à tarde já ninguém faz nada, só se fala dos planos para o fim de semana, 2ª feira de manhã é preciso colocar a conversa em dia, os almoços cada vez começam mais cedo e prolongam-se cada vezt até mais tarde e durante o tempo de serviço passa-se a vida no facebook! Quem é que faz andar a poderosa economia alemã? Aí está: os imigrantes! Esses sim, trabalham a valer. Turcos, imigrantes de leste, asiáticos... portugueses!

Bom, podíamos estar pior. Aquilo na Ucrânia está uma desgraça. Aquela imagem das pessoas a partirem os vidros da porta de um edifício do Governo e de repente dispararem tiros lá de dentro fez-me uma impressão tremenda. Apesar de hoje em dia vermos de tudo na televisão, desde enforcamentos em direito (Saddam Hussein) a imagens de hospitais improvisados com milhares de pessoas estropiadas na Síria, apesar de tudo isso, aqueles tiros assim de repente, a matar, foi absolutamente chocante.

Queria acabar falando sobre uma boa notícia, mas agora perdi a vontade.

Desejo-lhe uma ótima 6ª feira,
JV

PS: Essa história do mito de D. Sebastião é verdadeiramente uma anedota. O Filipe II, mal se começou por aí a dizer que o D. Sebatião ainda podia estar vivo e ía voltar, tratou logo de pagar (e pagar bem) aos mouros para lhe darem o cadáver, tendo sido o cadáver do rapaz confirmado como sendo mesmo o dele por várias pessoas da corte. Onde é que as ossadas estão neste preciso momento? Nos Jerónimos.

Anónimo disse...

Caríssima JV,
Pois fez o Filipe II muito bem – se nos colocarmos no lugar dele,à época, naturalmente.
Apesar de tal não ter acabado de vez com o Sebastianismo e que ainda hoje subsiste, séculos depois, embora transfigurado de saudosismo do Salazarismo.
Isto faz-me recuar no tempo. Depois de Nero ter morrido, durante uns anos foram aparecendo, designadamente nas províncias Gregas e do Levante, uns tantos “Neros”, que, ou acabaram executados (por ordem de Roma), ou simplesmente desapareceram.
O saudosismo político tem destas coisas e destes destinos.
E por falar em ossadas, relendo “A Cidade e as Serras”, do Grande Eça, um livro excepcionalmente bem escrito (e uma grande obra literária), um dos melhores momentos do livro, de um requintado humor (o que eu me ri ao reler aquela parte) é precisamente o da trasladação das ossadas dos Jacintos e o opinar da situação por parte da figura do Silvério. Aquilo é do mais hilariante, mas escrito de uma forma sublime, como Eça sabia (“após a mixórdia...; ... ”a cada caveira juntámos uma certa porção de ossos, uma porção razoável...não havia outro meio...nem todos os ossos se acharam...). Sublime humor!
P.Rufino

Anónimo disse...

Falta escreverem uma carta à ONG